22 de set. de 2010

emerson, ensaios

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o nome de "jean melville" - que, com pietro nassetti e "alex marins", compõe a mais impressionante tríade de tradutores de que se tem notícia em língua portuguesa, com pretensas traduções publicadas pela editora martin claret - consta também num volume chamado ensaios, de ralph waldo emerson.

é mais uma daquelas edições cuja página de créditos parece um prêt-à-porter, como comentei no caso d'as viagens de marco polo ou d'o jogador de dostoiévski.


o volume traz uma montagem interessante: tem os doze textos que compõem os originais essays - first series, mas, sem qualquer razão ou nota explicativa, acrescenta (e como primeiro ensaio!) character - que, originalmente, é o terceiro texto dos essays - second series.

diga-se de passagem que, com esse acréscimo um tanto gratuito, o cuidadoso ordenamento original da obra acaba alterado. deve parecer um detalhe insignificante para a editora.

a tradução de caráter, nesta edição claretiana atribuída a "jean melville", não guarda mistérios sobre sua origem: é cópia fielmente fiel, lealmente leal, integralmente integral da antiga tradução de sarmento de beires e josé duarte, publicada em ensaístas americanos, volume XXXIII da clássicos jackson, 1950. o ensaio está disponível no site ebooksbrasil, com todas as devidas referências.

os demais ensaios da coletânea claretiana vêm de outra fonte, e arrebicados de alguns pobres cosméticos e canhestra copidescagem. esta outra fonte, lamento dizer, é o volume ensaios publicado pela editora imago em 1994, esgotadíssimo. a tradução foi feita a quatro mãos, por carlos graieb e josé marcos mariani de macedo.

posso apontar várias diferenças. por exemplo, e talvez não por acaso,* um começo de parágrafo no começo de um dos ensaios, autoconfiança:

graieb/macedo:
Li outro dia alguns versos, escritos por um eminente pintor, que eram originais e nada convencionais. A alma sempre ouve uma admonição em tais poemas, seja o assunto qual for.
"jean melville":
Um dia desses li algumas poesias, muito originais e nem um pouco convencionais. Independentemente do assunto, em poemas como esses a alma sempre ouve um conselho.
mas no mesmo ensaio, também no começo, encontro:

graieb/macedo:
Lança o guri às rochas,/ Amamenta-o com o leite da loba;/ Hibernando com o falcão e a raposa,/ Que suas mãos e pés tenham poder e velocidade.
todos hão de convir que "lança o guri às rochas" para cast the bantling on the rocks é uma solução bastante pessoal. o que não obsta encontrarmos:

"jean melville":
Lança o guri às rochas,/ Amamenta-o com o leite da loba;/ Hibernando com o falcão e a raposa,/ Que suas mãos e pés tenham poder e velocidade.
um pequeno detalhe cômico:

macedo/graieb:
A objeção a conformar-se a usos que se tornaram mortos para vós é a de que eles dissipam vossa força.
"jean melville":
O aviltamento a resignar-se a usos que já morreram para vós é o de que eles dissipam vossa força.
tirando o fato de que emerson está falando em "conformar-se" (to conform), que não significa "resignar-se" e sim proceder em conformidade com alguma coisa, a impressão que se tem é que a "objeção" se transformou em "aviltamento" porque a cópia escaneada estaria meio confusa, o "tradutor" leu "abjeção" e praticou sua habitual tradução por sinonímia.*

também acho engraçado que a edição da imago traga o original de um poema de emerson com dois erros tipográficos no mesmo verso: surchanged and sultry with a powder (p. 182, em vez de surcharged and sultry with a power), e que as mesmíssimas gralhas ressurjam na edição da claret à p. 175.

abaixo segue uma ilustração realmente instrutiva desses procedimentos. mostra a improvável coincidência poética, o rude copidesque da prosa, a fiel preservação de frases no meio e final do parágrafo.


* sobre "jean melville", um ex-colaborador da editora martin claret comenta: "eram inventados nomes 'estrangeirados' que podiam dar a aparência de tradutores confiáveis e autorizados. Por exemplo: 'Jean Melville'. 'Jean' é o nome do filho do Sr. Claret; Melville, todos sabem, o sobrenome do autor de Moby Dick, esta uma obra editada pela editora, que portanto estava na ordem do dia". sobre o escaneamento das traduções legítimas para a posterior adulteração, relata que "havia um 'departamento' que o fazia, como em linha de produção". sobre a tradução por sinonímia, "a questão não era exatamente a de trocar termos 'rebuscados' por 'fáceis' ... mas sim por 'sinônimos'. Solicitava-se alterar sobretudo inícios e finais de parágrafos, para que 'não desse na vista'" (saulo krieger, pseudotraduções).

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



21 de set. de 2010

meandros internos

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relata um ex-colaborador da editora martin claret:
... quase nenhuma tradução da Martin Claret era efetivamente realizada ... Traduções, as verdadeiras, de outros, eram escaneadas — havia um "departamento" que o fazia, como em linha de produção — para então receberem uma ligeira maquiagem.
Para mascarar o processo, a editora ou se mostrava muito reticente em dizer nomes de autores, optando por "equipe de tradutores da Martin Claret" ... ou usava, com o consentimento deste, o nome do Sr. Pietro Nasseti, ou ainda simplesmente eram inventados nomes "estrangeirados" que podiam dar a aparência de tradutores confiáveis e autorizados. 
... a questão não era exatamente a de trocar termos "rebuscados" por "fáceis", “antigos” por “atualizados” — embora isso fatalmente viesse a acontecer — mas sim por "sinônimos" ... ou então, outro expediente de sua predileção, cortar parágrafos, e abri-los, sem qualquer critério não fosse o de "escamotear", onde não existiam em outra tradução. Solicitava-se alterar sobretudo inícios e finais de parágrafos, para que "não desse na vista". ...  (Saulo Krieger, em Pseudotraduções) atualização: disponível  em https://groups.google.com/g/tradnorte/c/2ryOdyBRAr0?pli=1
imagem: meandros
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coleção folha: opinião pessoal

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com a relação oficial (quase completa) dos tradutores das obras que compõem a coleção folha "livros que mudaram o mundo", fica mais fácil ter uma visão geral. retomando o que eu havia dito num dos posts anteriores, a seleção não me encantou especialmente, sem contar o escabroso episódio d'a origem das espécies.

explico-me: o fato de serem, em sua maioria, obras de facílimo acesso talvez não constitua objeção, pois afinal vinte, cinquenta ou cem obras "que mudaram o mundo" geralmente são mesmo de fácil acesso, e sempre é legal ter novas edições, principalmente quando são de boa qualidade.

o que acho mais relevante é que obras tão conhecidas costumam ser traduzidas e retraduzidas com uma certa frequência, muitas vezes com tratamento mais cuidadoso, traduções feitas por especialistas da área, diretamente do original e assim por diante. pois traduções mais modernas não se resumem a uma linguagem mais contemporânea: em muitos casos, sobretudo dos clássicos, elas costumam trazer um ganho, uma contribuição adicional para a compreensão da obra.

por isso fiquei um pouco decepcionada ao ver traduções dos anos 1930-1950 reeditadas pela enésima vez: é o caso de nestor silveira chaves, luís de andrade, lívio xavier, albertino pinheiro, todos publicados naquelas décadas pela editora atena e depois, à exceção deste último, reeditados pela ediouro por mais algumas décadas a fio. a produção de paulo m. oliveira, embora eu não tivesse notícia dessa sua tradução de pascal* antes de sair pela edipro em 1996, também é de 60-80 anos atrás. então acho que faltou renovação, faltou arejar um pouco.

* vim a saber que saiu em 1936, pela athena.


quanto às traduções de jorge silva (cândido de voltaire) e de murilo coelho (o capital, edição condensada), confesso minha ignorância. pesquisei os respectivos nomes na internet, mas não encontrei referências a nenhum dos dois, seja nestas ou em outras obras de tradução. aguardarei o lançamento.

muito bem-vindos e de não tão fácil acesso: newton e tocqueville. bíblia e alcorão não podem faltar em nenhuma estante. quem não tem as confissões, não perca a oportunidade, e o livro vermelho também tem um certo interesse bibliográfico.
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19 de set. de 2010

(n.t.), revista literária em tradução

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estreia (n.t.), revista literária em tradução, belíssimo empreendimento de gleiton lentz (editor), roger sulis (coeditor), aline daka (curadora) e fedra hinosa (consultora).

o primeiro número traz:
EDITORIAL
POESIA SELETA

Стихотвореня/Poemas, de Marina Tsvetáeva [Trad. Veronica Filíppovna]
Ελεγεία και Σάτιρες/Elegias e Sátiras, de Kóstas Karyotákis [Trad. Théo de Borba Mossburger]
Jeszcze jedno wspomnienie/Mais uma lembrança, de Halina Poświatowska [Trad. Magdalena Nowinska]
Los doce gozos/Os doze gozos, de Leopoldo Lugones [Trad. Camilo Prado]

'Eπιγραμματα/Epigramas, de Rufinos [Trad. Miguel Sulis]
Corp transparent/Corpo transparente, de Max Blecher [Trad. Fernando Klabin]
Yatar Bursa Kalesinde/Preso na Fortaleza de Bursa, de Nâzım Hikmet [Trad. Leonardo da Fonseca]

DRAMA
The Ghost of Abel/O Fantasma de Abel, de William Blake [Trad. Juliana Steil]
PROSA POÉTICA
Gaspard de la nuit, de Aloysius Bertrand [Trad. Sandra M. Stroparo]

El mensajero/O mensageiro, de José Antonio Ramos Sucre [Trad. Floriano Martins]
 CONTOS & EXCERTOS
Naranjas y cuchillas en Bagdad/Laranjas e giletes em Bagdá, de Muhsin Al-Ramli [Trad. Fedra R. Hinojosa]
Gesta Romanorum (Os Feitos dos Romanos) [Trad. Scott Ritter Hadley]
Muk'ult'an in nool/Dois segredos do avô, de Jorge Miguel Cocom Pech [Trad. Gleiton Lentz]

MEMÓRIA DA TRADUÇÃO
Quinze poetes catalans/Quinze poetas catalães [Trad. João Cabral de Melo Neto]
 ILUSTRAÇÃO
Caminos del espejo/Caminhos do espelho, de Alejandra Pizarnik [ilustração de Aline Daka e tradução de Gleiton Lentz]
SUPLEMENTO DE ARTE [por Aline Daka] 
Lílian Santos Gomes: A presença da espiritualidade em meio aos destroços de transição
Dorothea Tanning: Convite aos mundos metafóricos do corpo e do espírito
disponível em licença creative commons, para leitura online e download em pdf:  http://www.notadotradutor.com/revista.html.


espantosamente bonito
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imagem: banho de água fria, google images
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18 de set. de 2010

coleção folha, tradutores

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Coleção Folha "Livros que mudaram o mundo" e respectivos tradutores:
  • Darwin, A Origem das Espécies, trad. Eduardo Nunes Fonseca (Hemus)
  • Maquiavel, O Príncipe e Escritos Políticos, trad. Lívio Xavier (Edipro)
  • Freud, A Interpretação dos Sonhos, trad. Walderedo Ismael de Oliveira (Imago)
  • Adam Smith, Riqueza das Nações (ed. condensada), trad. Norberto de Paula Lima (Hemus)
  • Platão, Apologia de Sócrates, O Banquete e Fedro, trad. Edson Bini e Albertino Pinheiro (Edipro)
  • Descartes, Discurso sobre o Método e Princípios de Filosofia, trad. Norberto de Paula Lima e Torrieri Guimarães (Hemus)
  • Thomas More, A Utopia, trad. Luís de Andrade (Edipro)
  • Kant, A Metafísica dos Costumes, trad. Edson Bini (Edipro)
  • Newton, Principia - Princípios Matemáticos de Filosofia Natural (livro III), trad. André Koch Torres Assis (Edusp)
  • Mao Tsé-Tung, O Livro Vermelho, não consta
  • Aristóteles, A Política, trad. Nestor Silveira (Edipro)
  • Santo Agostinho, Confissões, trad. Oliveira Santos e Ambrósio de Pina (Vozes)
  • Marx, O Capital (ed. condensada), trad. Murilo Coelho (Edipro)
  • Rousseau, Do Contrato Social, trad. Edson Bini (Edipro)
  • Pascal, Pensamentos, trad. Paulo M. Oliveira (Edipro)
  • Tocqueville, A Democracia na América, trad. Neil Ribeiro da Silva (Villa Rica)
  • Voltaire, Cândido ou O Otimista, trad. Jorge Silva (Edipro)
  • Bíblia Sagrada, trad. Frei Ludovico Garmus (Vozes)
  • Alcorão Sagrado, trad. Samir el Hayek
  • Vários autores, Discursos que mudaram o Mundo, não consta
fonte: biblioteca nacional; atualizado em 20/9 pelo site da coleção: http://livrosmundo.folha.com.br/colecao.html, com respectivas editoras.

parabéns à folha por atender rapidamente às solicitações de leitores e apresentar os devidos créditos no site da coleção.

quanto a mao tsé-tung, a china disponibilizava o facsímile da tradução para o português pelas Edições em Línguas Estrangeiras de Pequim, sem nome de tradutor. vou aguardar para ver o volume e checar se é essa edição chinesa. no geral, tirando três ou quatro títulos, a seleção não me encantou especialmente.
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coleção folha: variedades

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murilo bussab, diretor da folha e responsável pela coleção "livros que mudaram o mundo", explicou que foi contratada uma empresa luso-espanhola especializada em coleções, chamada levoir, para esse projeto. o site http://www.levoir.pt/ está em construção, mas na net encontra-se a notícia de que a levoir (ou ad astra et ultra marketing e conceitos multimédia s/a), de oeiras, portugal, havia desenvolvido o projeto dessa coleção para o jornal o público de lisboa, que a lançou em fevereiro, em comemoração a seus 20 anos de existência. o projeto para a coleção folha segue o mesmo perfil e conceito, com algumas diferenças de títulos (p.ex., a versão portuguesa traz hamlet, mas não a metafísica dos costumes). ver também aqui.

hoje comprei o volume inaugural, a origem das espécies, de darwin, acompanhado pelo segundo volume: maquiavel, o príncipe e outros escritos.


sobre o volume de darwin, o que eu tinha a dizer já disse: veja aqui. é uma pena. admira-me e lamento que a ad astra ou levoir tenha escolhido para o público uma tradução de portugal (pois suponho que a tenha licenciado junto à lello, que continua a publicá-la até hoje) e outra no brasil para a folha, licenciando-a da hemus, sem se dar conta da fraude. imagino que esse lançamento da folha seja de alta tiragem, o que é meio assustador, em se tratando de uma edição tão ruim e ilegítima.

a título de curiosidade, fui verificar num volume aqui em casa os créditos da "biblioteca folha", ótima coleção lançada em 2003: foi idealizada pela espanhola m.e.d.i.a.s.a.t. e pela brasileira mifano comunicações. por ora, as duas estão dando de mil a zero na levoir/ ad astra.

ao volume de maquiavel dedicarei outro post.
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17 de set. de 2010

coleção folha: oropa e brasil

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nunca me canso de repetir que, além das denúncias de saulo von randow jr., foram as matérias da folha de são paulo em 2007 que me levaram a pesquisar esse terrível problema dos plágios e contrafações de traduções no brasil. além disso, o caderno ilustrada tem dado ampla cobertura ao problema nesses últimos anos. assim, é tanto maior e mais triste a ironia de que a coleção folha "os livros que mudaram o mundo" inclua uma franca e ridícula cópia atamancada de uma antiquésima, quase secular tradução portuguesa que, em si mesma, já era muito ruim. falo d'a origem das espécies, de darwin, que inaugura a referida coleção.

as coleções da folha, até onde me lembro e pelo que tenho em casa, sempre foram muito boas, bonitas, bem selecionadas, bem editadas, com belas capas e, sobretudo, boas traduções. desta vez, como gentilmente explicou murilo bussab, diretor de circulação e marketing da folha e responsável pelo lançamento da coleção:
No caso de "Livros Que Mudaram O Mundo" compramos o conceito da coleção e os direitos da empresa luso-espanhola Levoir ... A Levoir, por sua vez, é quem previamente negociou com cada editora a compra dos diversos direitos envolvidos numa produção como esta.
bom, talvez nas oropa seja diferente, mas no brasil, muito infelizmente, não dá para sair por aí confiando na primeira edição que aparece pela frente.

eu sugeriria humildemente que, para a próxima coleção, a folha escolhesse uma empresa com um pouco mais de familiaridade com a história editorial brasileira e a qualidade de catálogo das várias editoras, ou que a própria levoir, antes de fechar qualquer contrato de licenciamento, avaliasse com mais cuidado e atenção os produtos que está negociando.

acompanhe o caso:
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coleção da folha, comunicado

Cara Denise,
sou diretor de circulação e marketing da Folha e o responsável pelo lançamento desta coleção. Vi seus comentários no blog "não gosto de plágio" e gostaria de apresentar nosso lado da história.

As coleções da Folha têm por princípio disponibilizar obras de conteúdo relevante, com boa qualidade de produção, a preços muito menores do que os usualmente praticados no mercado. Foi assim com "Grandes Escritores Brasileiros", "Mestres da Pintura", "Raízes da MPB", "Clássicos do Jazz" e muitas outras....

Para nos ajudar neste processo, a cada projeto novo costumamos contratar empresas especializadas em organização de coleções, uma vez que nossa especialidade é a produção e distribuição de jornais/notícias. No caso de "Livros Que Mudaram O Mundo" compramos o conceito da coleção e os direitos da empresa luso-espanhola Levoir (que trabalha para diversos jornais da Península Ibérica e da França). A Levoir, por sua vez, é quem previamente negociou com cada editora a compra dos diversos direitos envolvidos numa produção como esta.

Pelo histórico da Levoir, e pelo que temos em acordo, acreditamos estar comprando traduções legais e de primeira linha. Por isso mesmo, muito me preocupou quando vi seu "post" no blog. A tradução que estamos usando para "Origem das Espécies" é realmente a da Hemus. Eu não tinha ideia das citadas falhas desta edição, mas, baseado em seus comentários, garanto que a Folha irá rever apuradamente a situação dos próximos volumes (embora alguns deles já estejam produzidos).

Seguindo outra sugestão colhida no "não gosto de plágio", a partir da semana que vem colocaremos no site da coleção www.folha.com.br/livrosmundo informações técnicas sobre cada obra (editora, tradutor, datas,...). Assim, esperamos tornar mais claro para os leitores que produto está sendo oferecido.

Atenciosamente,

Murilo Bussab

enquanto isso...

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polícia fecha xerox e prende xeroqueiro:
Polí­cia Civil fecha xerox na Praia Vermelha
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16 de set. de 2010

que tédio

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A Folha de S.Paulo hoje divulgou novamente o lançamento de sua coleção “Livros que mudaram o mundo”. A obra que inaugura a coleção é A origem das espécies, de Darwin. Várias pessoas têm estranhado a total ausência de qualquer informação sobre a tradução dessas obras. Nessa matéria de hoje, a Folha apresenta a frase final com que Darwin conclui sua introdução:
Estou plenamente convencido de que as espécies não são imutáveis; convenci-me de que as espécies pertinentes ao que denominamos de o mesmo gênero derivam diretamente de qualquer outra espécie ordinariamente distinta, do mesmo modo que as variedades reconhecidas de uma espécie, seja qual for, derivam diretamente desta, convicto estou, enfim, de que a seleção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies, embora outros agentes tenham-na igualmente partilhado.
Como a Hemus e a Ediouro trazem idêntico trecho em suas edições, com créditos de tradução em nome de Eduardo Fonseca:
Estou plenamente convencido que as espécies não são imutáveis; convenci-me de que as espécies pertinentes ao que denominamos de o mesmo gênero derivam diretamente de qualquer outra espécie ordinariamente distinta, do mesmo modo que as variedades reconhecidas de uma espécie, seja qual for, derivam diretamente desta, convicto estou, enfim, de que a seleção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies, embora outros agentes tenham-na partilhado igualmente.
imagino que a Folha tenha adquirido licença de uso para publicá-la em sua coleção.

Bom, já dediquei inúmeros posts ao problema d'A origem das espécies no Brasil. Resumindo a história, essa pretensa tradução publicada pela Hemus e pela Ediouro não passa de uma franca e risível apropriação da provectíssima tradução de Joaquim Dá Mesquita Paul (1913, Lello & Irmãos, reeditada até hoje), aliás bastante capenga, feita a partir do francês, com pérolas como "canários selvagens" e "canários domésticos" em vez de "patos selvagens" e "patos domésticos", "espécie distinta" em vez de "espécie extinta" e inúmeras outras preciosidades.

Aliás, desde 2008 alertei a Ediouro várias vezes sobre essa fraude que ela vinha publicando desde 1985, e o Ministério Público do Rio de Janeiro determinou apuração dos fatos. O sr. Paulo Roberto Pires, editor da Ediouro, indagado pelo jornal Correio Braziliense sobre a irregularidade, apenas reiterou que a editora havia licenciado a tradução junto à Hemus.

Se a edição da Folha for essa, que péssima escolha! E os distintos canários continuarão a nos tolher o acesso a uma boa tradução de Darwin!

veja o darwin da ediouro com a posição da editora e consulte os posts arquivados sob a rubrica darwin, onde trato detalhadamente do assunto.


tradução portuguesa:
Estou plenamente convencido que as espécies não são imutáveis; estou convencido que as espécies que pertencem ao que chamamos o mesmo género derivam directamente de qualquer outra espécie ordinariamente distinta, do mesmo modo que as variedades reconhecidas de uma espécie, seja qual for, derivam directamente desta espécie; estou convencido, enfim, que a selecção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies, posto que outros agentes tenham nela partilhado igualmente.

tradução francesa:
Je suis pleinement convaincu que les espèces ne sont pas immuables ; je suis convaincu que les espèces qui appartiennent à ce que nous appelons le même genre descendent directement de quelque autre espèce ordinairement éteinte, de même que les variétés reconnues d'une espèce quelle qu'elle soit descendent directement de cette espèce ; je suis convaincu, enfin, que la sélection naturelle a joué le rôle principal dans la modification des espèces, bien que d'autres agents y aient aussi participé.

original:
I am fully convinced that species are not immutable; but that those belonging to what are called the same genera are lineal descendants of some other and generally extinct species, in the same manner as the acknowledged varieties of any one species are the descendants of that species. Furthermore, I am convinced that natural selection has been the most important, but not the exclusive, means of modification.

imagens: istockphoto; gifmania



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.




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assim fica difícil

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domingo a folha de s.paulo lança a coleção "livros que mudaram o mundo", em vinte volumes, para ser vendida em bancas de jornal.


  1. Darwin, A Origem das Espécies
  2. Maquiavel, O Príncipe e Escritos Políticos
  3. Freud, A Interpretação dos Sonhos
  4. Adam Smith, Riqueza das Nações (ed. condensada)
  5. Platão, Apologia de Sócrates, O Banquete e Fedro
  6. Descartes, Discurso sobre o Método e Princípios de Filosofia
  7. Thomas More, A Utopia
  8. Kant, A Metafísica dos Costumes
  9. Newton, Principia - Princípios Matemáticos de Filosofia Natural (livro III)
  10. Mao Tsé-Tung, O Livro Vermelho
  11. Aristóteles, A Política
  12. Santo Agostinho, Confissões
  13. Marx, O Capital (ed. condensada)
  14. Rousseau, Do Contrato Social
  15. Pascal, Pensamentos
  16. Tocqueville, A Democracia na América
  17. Voltaire, Cândido ou O Otimista
  18. Bíblia Sagrada
  19. Alcorão Sagrado
  20. Vários autores, Discursos que mudaram o Mundo
parece ser demais esperar que nos digam quem são os respectivos tradutores. mas sem essa informação fica difícil recomendar o que quer que seja.

agradeço o toque de carlos alberto bárbaro.
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perplexidades II

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[continuação; veja perplexidades I]

prosseguindo a pesquisa sobre noites brancas e outras histórias, de dostoiévski, com tradução atribuída ao nome de isa silveira leal na edição martin claret, encontrei na internet um arquivo em pdf com a novela o subsolo na tradução de ruth guimarães, na coletânea os mais brilhantes contos de dostoiewski, pela ediouro (1966; reed. 1970).

o primeiro capítulo da tardia tradução em nome de isa silveira leal pela martin claret segue abaixo:


 
quanto à tradução de ruth guimarães, pode ser vista na íntegra em vários sites, por exemplo no recanto das letras ou no scribd. reproduzo abaixo o texto do primeiro capítulo.
O Subsolo

I

EU SOU um homem doente... Sou um homem malvado. Sou um homem desagradável. Creio que tenho uma doença do fígado. Aliás, não compreendo absolutamente nada da minha moléstia e não sei mesmo exatamente onde está o mal.

Não me cuido, nunca me cuidei, se bem que estime os médicos e a medicina. Demais, sou extremamente supersticioso, o bastante, em todo o caso, para respeitar a medicina (sou bastante instruído: poderia então não ser supersticioso, mas sou). Não! Se não me trato, é pura maldade de minha parte. Não sabereis certamente compreender. Pois bem! eu compreendo. Não poderei evidentemente explicar vos em que errei, agindo tão malvadamente: sei muito bem que não são os médicos que eu incomodo, recusando-me a tratar-me. Não engano senão a mim mesmo; reconheço o melhor que ninguém. Entretanto, é mesmo por malvadez que não me trato. Sofro do fígado! Tanto melhor! E tanto melhor ainda se o mal piora.

Há muito tempo já que eu vivo assim: uns vinte anos, pouco mais ou menos. Fui funcionário, pedi demissão. Fui um funcionário muito ruim. Era grosseiro e tinha prazer em sê-lo. Podia bem me compensar desta maneira, pois que eu não aceitava gorjetas (esta brincadeira não tem graça; mas não a suprimirei. Escrevi-a crendo que teria espírito; não a apagarei, entretanto, expressamente; porque vejo que queria me dar ares de importância). Quando os solicitantes em busca de informações se aproximavam da mesa diante da qual eu estava sentado, eu rangia os dentes; sentia uma volúpia indizível, quando conseguia causar lhes algum aborrecimento. Conseguia o quase sempre. Eram geralmente pessoas tímidas, acanhadas. Solicitantes, pois quê! Mas havia às vezes presumidos entre eles, petulantes, e eu detestava particularmente certo oficial. Ele não entendia de submissão e arrastava o grande sabre, de um modo detestável. Durante um ano e meio movi lhe guerra, por causa desse sabre, e finalmente saí vencedor: ele parou de teimar. Isto, aliás, se passava no tempo da minha mocidade.

Ora, sabeis, senhores, o que excitava sobretudo minha raiva, o que a tornava particularmente vil e estúpida? É que eu me inteirava vergonhosamente, mesmo quando a minha bílis se esparramava mais violentamente, que eu não era mau homem, no fundo, não era nem mesmo um homem azedo, e que tomava gosto, muito simplesmente, em assustar os pardais. Tenho espuma na boca; mas, trazei me uma boneca, oferecei me uma chávena de chá bem doce, e é provável que eu me acalme; sentir me ei mesmo muito comovido. É verdade que, mais tarde, morderei os punhos de raiva, e de vergonha perderei o sono durante alguns meses. Sim, eu sou assim.
Menti antes, quando disse que tinha sido um mau funcionário. Foi por despeito que menti. Tentava muito simplesmente distrair-me com os solicitantes e esse oficial, e nunca pude conseguir tornar-me realmente mau. Com efeito, verificava sempre em mim a presença de um grande número de elementos diversos que se opunham violentamente. Sentia-os fervilharem em mim, por assim dizer. Sabia que estavam presentes sempre e aspiravam a manifestar se do lado de fora, mas eu não os deixava; não, não lhes permitia evadirem-se. Atormentavam me até à vergonha, até às convulsões. Oh! como eu estava fatigado! como estava saturado!

Mas não vos parece, senhores, que eu me arrependo e que vos peço perdão de não sei que crime? Estou certo, senhores, que ides imaginar isso... Mas aliás, digo-vos que, quer vós o imagineis ou não, isso me é indiferente... Jamais consegui nada, nem mesmo me tomar malvado; não consegui ser belo, nem mau, nem canalha, nem herói, nem mesmo um inseto. E agora, termino a existência no meu cantinho, onde tento piedosamente me consolar, aliás sem sucesso, dizendo me que um homem inteligente não consegue nunca se tornar alguma coisa, e que só o imbecil triunfa. Sim, meus senhores. o homem do século XIX tem o dever de ser essencialmente destituído de caráter; está moralmente obrigado a isso. O homem que possui caráter, o homem de ação, é um ser essencialmente medíocre. Tal é a convicção de meus quarenta anos de existência.

Tenho quarenta anos atualmente. Ora, quarenta anos, é toda a vida, é a profunda velhice. É inconveniente, é imoral, é vil viver além dos quarenta. Quem vive depois dos quarenta anos? Respondei sinceramente, honestamente! Vou dizer-vos, sim, eu: os imbecis, os patifes, esses vivem mais de quarenta anos. Eu o proclamarei à face de todos os velhos, de todos os respeitáveis velhos, de todos os velhos de cabelos cor de prata e perfumados! Eu o proclamarei à face do universo inteiro. Tenho o direito de falar - porque eu, eu viverei até os sessenta anos! até os setenta anos! até os oitenta anos! Mas esperai! Deixai-me tomar fôlego!

Imaginais, certamente, senhores, que me proponho vos fazer rir? Enganai-vos a esse respeito, como sobre o resto. Não sou de modo algum tio divertido como vos parece, ou quanto vos pode parecer. De resto, se agastados por toda essa tagarelice (estais irritados, sinto já), vós me perguntais o que sou, afinal de contas, responderei: sou um assistente de colégio. Entrei na administração para poder comer (mas unicamente para isso), e quando no ano passado um dos meus parentes afastados me legou por testamento seis mil rublos, pedi depressa minha demissão e me enterrei no meu canto; ali morava já há muito tempo, mas instalei-me agora definitivamente. O quarto que ocupo nos confins da cidade é feio, e desmantelado. Minha criada é uma velha camponesa que a burrice tornou malvada; além disso, cheira mal. Dizem-me que o clima de Petersburgo me é prejudicial, e que a vida custa caro demais para os recursos ínfimos de que disponho. Sei disso; sei bem melhor que todos esses sábios conselheiros. Mas fico em Petersburgo. Não deixarei Petersburgo porque.. . . Que eu parta ou não, aliás, que importa!...
Mas, do que um homem honesto pode falar com mais prazer?
Resposta: de si mesmo.
Pois bem! Vou então falar de mim mesmo!

ainda na internet, encontro aqui  a árvore de natal na casa de cristo num post de 2002, e aqui o mujique marei num post de 2005. nenhum dos dois, porém, traz as referências bibliográficas nem os créditos de tradução. compare-se com a edição claretiana de 2007; como se pode ver, há algumas mínimas alterações entre um e outro: "casa de cristo" x "casa do cristo"; "numa" x "em uma", uma ou duas vírgulas a mais ou a menos, e só.



afinal, quem traduziu realmente esses contos de dostoiévski? ruth guimarães, referida em várias edições e casas editoriais ao longo de décadas, ou isa silveira leal, em edição póstuma exclusiva para a martin claret?


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



15 de set. de 2010

clube do livro

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comentava a batata transgênica algum tempo atrás:
Resolvi reler A Preceptora (Agnes Grey, Anne Brontë) depois de sei lá quantos anos. Logo nas primeiras páginas do exemplar do Clube do Livro (São Paulo, 1977) me deparo com rapariga, pequeno almoço e mocetona.

Tradução especial para esta edição de José Maria Machado.

Será mais um caso para a Denise Bottmann, do não gosto de plágio?


achei muito simpática a menção ao nãogosto, e agradeço. mas, afora isso, a questão é realmente pertinente.

é um inferno essa história de plágios editoriais. aquela pobreza do clube do livro graças a deus acabou. deve ter tido lá algum mérito que ainda resta por descobrir, mas é longa a história dos cortes, adulterações, edulcorações, contrafações profusamente praticadas pelo clube do livro.

introduzi o tema no post sobre as viagens de marco polo, e reproduzo aqui uma passagem:
por outro lado, o próprio clube do livro apresentava algumas bizarrices tradutórias em seu catálogo. a chamada que ocasionalmente vinha na capa e/ou na página de rosto - "tradução especialmente feita para o clube do livro" ou "traduzido especialmente para o clube do livro" - costumava indicar que eram traduções condensadas e/ou adaptações de traduções portuguesas para o português do brasil. [...]

aliás, a propósito das práticas editoriais adotadas pelo extinto clube do livro, há um livro muito informativo e esclarecedor do prof. john milton, da usp, que recomendo vivamente a quem se interessa pela história da tradução no brasil. chama-se o clube do livro e a tradução, e foi publicado pela edusc em 2002. 
como o nãogostodeplágio aborda principalmente os problemas de obras publicadas por editoras em atividade (o clube do livro se encerrou em 1988), deixo apenas registrado o comentário, com uma observação: existe uma edição condensada da obra, o diário de miss grey, em tradução de maria isabel de mendonça soares, pela verbo juvenil, para o círculo dos leitores de portugal. não estranharia muito se a edição do clube do livro tivesse se baseado nela para sua "tradução especial".
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perplexidades I

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isa silveira leal (1910-1988) faz parte daquela fantástica família das letras que inclui valdomiro silveira, dinah silveira de queiroz, miroel silveira, brenno silveira, ênio silveira, helena silveira, cid silveira... dedicou-se basicamente à literatura infanto-juvenil, e sua personagem glorinha criou fama. entre os livros que isa silveira leal traduziu, estão:
  • thomas rourke, bolívar, o cavaleiro da glória, com miroel silveira (martins, 1942)
  • saint-simon, a corte de luís XIV. memórias de um cortesão, com miroel silveira (josé olympio, 1944)
  • harold laski, reflexões sobre a reflexão da nossa época, com prefácio de ênio silveira (cia. editora nacional, 1946)
  • konstantin simonow, dias e noites (cia. editora nacional, 1947)
  • pearl buck, refúgio tranquilo (instituto progresso, 1949)
  • zofia kossak, o rei leproso (o santo sepulcro), com miroel silveira (saraiva, 1950)
  • pierre van paassen, por que morreu jesus?, com miroel silveira (ed. do autor, 1952)
  • andré gide, os subterrâneos do vaticano, com miroel silveira (difel, 1960; abril, 1971)
  • william menninger, a nova juventude (ibrasa, 1970)
  • arnold toynbee, um estudo de história, com miroel silveira (ed. unb/ martins fontes, 1987)
  • john blofeld, mantras. palavras sagradas de poder, com miroel silveira (cultrix/pensamento, 1988)
  • john dos passos, 1919, com miroel silveira (guaíra, s/d)
desconheço que, entre suas traduções publicadas em vida, constasse alguma obra de dostoiévski. mas, por esses milagres modernos, encontramos na internet várias menções a isa silveira leal como tradutora de noites brancas e outras histórias,* publicadas exclusivamente pela editora martin claret em 2007. tratar-se-ia de uma publicação póstuma, o que, embora bizarro, não seria de todo impossível.

* as outras histórias dessa coletânea claretiana são: memórias do subsolo, a propósito da neve fundida, a árvore de natal na casa do cristo e o mujique mareï.

por outro lado, temos que outra famosa escritora e tradutora, quase contemporânea de isa silveira, de fato traduziu dostoiévski. refiro-me a ruth guimarães (1920- ).

aliás, ruth guimarães é autora de um livro chamado o mundo caboclo de valdomiro silveira, tido como o criador do romance regionalista paulista, pai de isa e miroel. com este último, ruth escreveu uma peça de teatro chamada romaria. além de trafegar pela literatura infanto-juvenil como a própria isa, ela responde pela tradução de:
  • honoré de balzac, histórias fascinantes (cultrix, 1960)
  • dostoiévski, histórias dramáticas (cultrix, 1960)
  • apuleio, o asno de ouro (ediouro, 1960)
  • alphonse daudet, histórias (cultrix, 1964)
  • dostoiévski, os mais brilhantes contos de dostoiewski (ediouro, 1966; também reeditada pela coleção universidade de bolso com o nome notas do subsolo e outros contos)
  • carrin dunne, buda e jesus: diálogos, com joaquim maria (pensamento, 1975)
  • dostoiévski, contos (cultrix, 1985)
  • alphonse daudet, contos, com rolando roque da silva (cultrix, 1986)
  • honoré de balzac, contos (cultrix, 1986)
  • alexandre dumas filho, a dama das camélias (ediouro, s/d)
  • dostoiévski, os melhores contos de f. dostoiévski (círculo do livro, 1987)
a coletânea da ediouro de 1966 e a do círculo do livro de 1987 trazem o mesmo conteúdo: subsolo [na ed. do círculo memórias do subsolo]; a propósito da neve fundidaa árvore de natal na casa do cristoo sonho de um homem ridículonoites brancaso mujique marei; bobok; krótkaia - todos em tradução de ruth guimarães.*

* desses oito contos, cinco fazem parte da edição da martin claret em nome de isa silveira leal.

o cadastro da coletânea noites brancas e outras histórias na agência brasileira do isbn não é muito esclarecedor. temos lá:
PESQUISA NO CADASTRO DO ISBN

RESULTADO
ISBN: 85-7232-649-9
TÍTULO: NOITES BRANCAS
VOLUME DA COLEÇÃO: 000
AUTOR: DOSTOIEVSKI
PÁGINAS: NÃO INFORMADO
EDITORA: MARTIN CLARET
outra fonte para confirmar os dados poderia ser a ficha de catalogação na fonte, a famosa ficha CIP. mas, embora obrigatória por lei, não consta na página de créditos da edição martin claret.

[continua aqui]
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14 de set. de 2010

noites brancas

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um livro que me despertou bastante curiosidade foi noites brancas e outras histórias, que teriam sido traduzidas por isa silveira leal. como eu nunca soube que isa silveira leal tivesse traduzido dostoiévski, achei a notícia deveras interessante.

12 de set. de 2010

lançamento 16/9

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para quem está no rio, um superlançamento dia 16 agora, na livraria da travessa: o novo romance de marcelo backes, cujo narrador e personagem principal é um tradutor (o que, aliás, ajuda a entender a referência do título).

a obra está traduzida para o alemão por berthold zilly, o chamado "embaixador do brasil", principal divulgador e mais respeitado tradutor de nossas letras para o alemão, 
de euclides de cunha e machado de assis, passando pelo projeto de uma nova tradução de guimarães rosa, a nosso querido backes. 

dia 24 de setembro, marcelo fará a leitura pública do livro
na academia de artes de berlim. 

que luxo! sucesso e parabéns!
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11 de set. de 2010

leituras

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ótimos artigos de ivone benedetti

imagem: summer arm
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10 de set. de 2010

santo agostinho, confissões 3

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as confissões de santo agostinho, pela editora martin claret, com pretensa tradução em nome do
espectral alex marins, calcada na tradução de frederico ozanam de barros e com pitadas de ambrósio de pina, faz sucesso por aí:
imagens: emoticon gif; excuseme.com

o coração da matéria

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boas editoras corrigem seus erros, e muitas vezes nem precisam da reclamação dos leitores ou de uma segunda edição. saem espontaneamente à praça, fazendo recall ou dando errata.

nem sempre é assim. veja-se o caso da universo dos livros e sua desconversa em relação ao livro que saiu sem as páginas do epílogo, ou o caso da alta books que, a despeito das centenas de reclamações em vários títulos de seu catálogo, parece não se abalar muito, ou da novo século, que promete correções numa "eventual" reedição.

pior ainda quando se trata de edições não erradas e/ou incompletas, mas francamente fraudadas: lembro o clamoroso caso da nova cultural em parceria com a suzano/ ecofuturo. tampouco se abalaram muito com os milhões de exemplares espúrios que soltaram na praça entre 2002 e 2003. com certa relutância, o instituto ecofuturo publicou em seu site uma lista corrigindo os créditos de tradução das edições fraudadas. saudei o fato em como diz o provérbio.

mas, como bem colocou um leitor em comentário ao post:
O problema é se as traduções foram adulteradas - o que muito provavelmente deve ter acontecido.

Nesse caso, a mera correção dos créditos de tradução não resolve o problema - uma vez que cada texto, se adulterado, deixa de corresponder ao texto estabelecido pelo tradutor original.

Será preciso restabelecer o texto original das traduções - o que pode exigir nova publicação dos títulos, digamos, problemáticos -, e, se for o caso, indenizar os tradutores (pela violação a direitos morais e patrimoniais) e os consumidores (pela fraude contra o consumidor).
sem dúvida, é este o caso: edições adulteradas que deixaram de corresponder ao texto estabelecido pelo verdadeiro tradutor. seria preciso, realmente, restabelecer o texto das traduções legítimas, e isso certamente exigiria uma nova publicação dos títulos problemáticos.

então, fazer bobagem é fácil, corrigir é que são elas.

imagem: scribe
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9 de set. de 2010

livro é produto, leitor é consumidor

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amante desperto é o terceiro volume de j. r. ward que integra a série "irmandade da adaga negra", com histórias de vampiros que têm eletrizado milhões de leitores.

disponível em e-book, a obra em formato impresso foi lançada durante a bienal do livro em são paulo - porém faltando o epílogo. a editora, contatada, teria alegado problema de impressão.

o imbróglio foi apresentado em "amante desperto? não. amante mutilado":
Resumindo a ópera, o tal comunicado dizia que a Editora admitia seu erro, mas que ele só seria corrigido caso houvesse uma nova reimpressão, ou, PASMEM! eles poderiam incluir o epílogo do terceiro livro no início do quarto livro. Um verdadeiro absurdo. Recolher as edições defeituosas estava fora de cogitação, pois levaria cerca de seis meses (aposto que distribuir levou bem menos tempo). Para quem quisesse, o tal epílogo seria enviado por e-mail. E, no entender deles, a falta do epílogo não comprometeria o entendimento da obra, razão pela qual ficou tudo por isso mesmo. O preço do livro, evidentemente, não foi reduzido pela ausência de uma parte.  
Acho interessante quando uma Editora decide o que podemos ler ou não, o que afeta o entendimento da obra ou não. Que tal tentar corrigir o erro e substiuir os livros defeituosos, e assim deixar que O LEITOR decida se o epílogo fará falta ou não? [...]
Eu, como consumidora e leitora, mais uma vez me sinto indignada. [...] E, vão me desculpar, mas o leitor foi o mais prejudicado nessa história toda.
Como confiar nas traduções que compramos? Quantos livros traduzidos não devem ter seu texto alterado? Só descobriram esse problema porque os fãs ardorosos da série, que tinham lido o e-book, compraram a edição nacional e notaram a ausência do epílogo.
e em troublemaker? who, me?
Eu já sabia que o terceiro livro dessa série saiu com um defeito de impressão, grave, ao meu ver. Praticamente todos eles vieram sem o final do livro, sem o Epílogo. [... vi ...] uma suposta declaração oficial da editora, afirmando que reconhecia o erro, que não recolheria os exemplares defeituosos porque isso levaria mais de seis meses, e que o máximo que poderia ser feito era enviar o tal epílogo por email a quem pedisse.
Eu pergunto: qual dessas partes aí é problema do consumidor? 
quem dera todos os leitores tivessem essa mesma lucidez e clareza. a qualidade editorial do país ganharia, e muito.
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impunidade

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o impressionante é a falta de instrumentos legais que protejam os leitores contra obras espúrias. mesmo com ações instauradas por determinação do ministério público, centenas de obras ilegais continuam à venda, totalizando milhões de exemplares a sujar o mercado e engordar os lucros oriundos de práticas ilícitas.

torço para que logo o comércio, a legislação e o poder judiciário se compenetrem plenamente de que livro não é apenas um bem imaterial. ele é um produto material e comercial - portanto, deve obedecer às mesmas leis que protegem os consumidores das fraudes, e as ilicitudes devem ser penalizadas com as mesmas sanções que penalizam, por exemplo, as fraudes da indústria alimentícia ou farmacêutica.
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