o blog da companhia das letras apresenta breves trechos da tradução de vanessa barbara, aqui,
e a l&pm apresenta o primeiro capítulo da tradução de william lagos, aqui.
Dois exemplos devem bastar; um da Ilíada:e se João Oliva comenta:
"Idomeneu, o fortíssimo Ajaz. Ulisses, porventura";
da Odisseia o outro:
"Palas a todos contava do divo Ulisses os trabalhos";
e em ambos o torpe assassinato de Odisseu e do ritmo dactílico, e versos antes perfeitos agora de pé quebrado.
Não bastasse o "Ulisses" fora do ritmo, a Odisséia de bolso, a despeito de três preparadores de originais, manteve erro de efeito semelhante que a 6a edição da Ediouro INSERIU na sua própria e melhor edição anterior.[...] no verso 38 lê-se:eu acredito. E não só acredito, como fico encantada em saber que temos tão bons classicistas, tão bons conhecedores de Homero e admiradores da obra de Carlos Alberto Nunes, capazes de alertar a nós leitores.
"do próprio Atrida se uniu imolando-o no dia da volta",
em que os acentos recaem em prÓ, trI, nIU, lAN, dI, e vOL
ou seja, 2a, 4a, 7a, 10a, 13a, e 16a como deve ser para manter-se o andamento datílico.
Pois bem, a edição de 2004, já em formato maior, e esta atual trazem "Átrida", proparoxítono, contra a forma que Carlos Alberto Nunes escolheu, que, inclusive, é a correta, abonada pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia de Ciências de Lisboa,
Capítulo IIJuntando a com b, mesmo em minha mais abissal ignorância do grego, de Homero, da tradução de Carlos Alberto Nunes e das técnicas de versificação, parece-me que alterar um determinado ritmo e quebrar o pé de um verso não são coisa pouca e prejudicam, sim senhor, a integridade da obra.
Dos Direitos Morais do Autor
Art. 24. São direitos morais do autor:
[...]
IV – o de assegurar a integridade da obra, opondo-se a quaisquer modificações ou à prática de atos que, de qualquer forma, possam prejudicá-la [...]
A sra. Olivia Krahenbuhl, em artigo intitulado "Duplo aspecto da tradução",* aparecido num dos nossos suplementos dominicais, refere-se aos Sonetos da portuguesa, de Elizabeth Barrett Browning. Para quem fala de traduções, a referência, como está feita, me parece claudicante. Certamente o desejo da autora do artigo foi mencionar os Sonnets from the portuguese, coletânea de quarenta e quatro sonetos a que a mulher de Robert Browning deu esse título fantasista (ver a Cambridge history of english literature) - pois, embora não se trate de traduções, o título exprime que os sonetos da poetisa foram feitos "como se" inspirados nos da língua portuguesa. Logo, em português, o livro de Elizabeth Browning deveria chamar-se Sonetos tirados do português, ou Sonetos à maneira dos portugueses, ou ainda Sonetos ao molde dos da língua portuguesa. O que não se deve é dizer Sonetos da portuguesa, o que parece indicar que haja uma dama lusitana autora dos poemas.* o artigo citado pode ser lido aqui.
Não valeria mais a pena dirigir a atenção dos tradutores para obras que seguem inéditas? |
... encontrei num sebo uma tradução de Jane Eyre, numa edição da Ediouro, da coleção "Clássicos de Bolso". A tradução, segundo consta da capa e da folha de rosto, é de Sodré Viana (pelo que pesquisei, uma tradução dos anos 1940, originalmente para a Pongetti Irmãos Editora).
Pois bem. Dia desses, eu estava na Livraria Cultura e fui procurar uma edição de Jane Eyre para presentear uma amiga. Encontrei a da Editora Itatiaia, de 2008, que eu nunca havia visto até então. Resolvi folhear para ver o que achava da tradução. Logo nas primeiras frases do primeiro capítulo, levei um susto: eram idênticas, ou praticamente idênticas, às da tradução que li, da edição da Ediouro. Logo pensei: "ah, com certeza esta é a tradução do Sodré Viana". Mas ao olhar a folha de rosto, vi que o nome que constava como tradutor era outro: Waldemar Rodrigues de Oliveira. Não sendo do ramo, não conheço este tradutor. Mas continuei folheando o livro, e a primeira impressão foi se confirmando. Na verdade, eu conheço várias passagens de tradução do Viana de cor, pois a reli inúmeras vezes (pelo menos dez). E reconheci muitas delas na edição da Itatiaia. Como, por exemplo, as frases iniciais do livro, que já mencionei. O seguinte trecho (o primeiro parágrafo do livro) é uma transcrição da edição de Ediouro, que tenho diante de mim agora. E posso jurar pela minha vida que está idêntico (com exceção de talvez uma palavra ou duas, não mais que isso) ao trecho correspondente que li na edição da Itatiaia.
"Naquele dia não fora possível um passeio. É verdade que pela manhã, durante uma hora, tínhamos brincado sob o arvoredo nu. Mas, desde o almoço (quando a senhora Reed estava sem hóspedes almoçava muito cedo) o vento do inverno trouxera nuvens tão carregadas e uma chuva tão penetrante que o ar livre havia sido posto fora de cogitações."
E o mesmo trecho no original:
"There was no possibility of taking a walk that day. We had been wandering, indeed, in the leafless shrubbery an hour in the morning; but since dinner (Mrs. Reed, when there was no company, dined early) the cold winter wind had brought with it clouds so sombre, and a rain so penetrating, that further out-door exercise was now out of the question."
Pelo menos na minha opinião, as soluções trazidas pela tradução acima não são tão óbvias, não é? Não justifica as traduções serem idênticas.
Uma outra frase me chamou muito a atenção. Lembro-me que ao lê-la na edição da Ediouro, antes mesmo de ter tido qualquer contato com o romance no original, ela já me soou muito "esquisita". É uma frase dita pelo sr. Rochester no capítulo XV, quando Jane joga água em sua cama para acordá-lo e salvá-lo das chamas. No original, lê-se:
“Is there a flood?” he cried.
Na tradução de Sodré Viana, essa frase ficou assim:
"- Isto é lagoa? - gritou."
É o tipo da frase que, mesmo para os meus ouvidos de leiga completa (e mesmo sem que eu soubesse como era essa passagem no original), soou um pouco estranha, quando li o livro pela primeira vez. Antiquada, talvez. Enfim, no mínimo, uma maneira incomum de se traduzir a frase original. Procurei a mesma passagem na edição da Itatiaia, como uma forma de "tirar a prova", pois, apesar de não ter pretensões de ser entendida no assunto, confesso que não vejo como dois tradutores, por conta própria, pudessem chegar a essa mesmíssima solução diante dessa frase. E adivinhe só? Estava idêntica à tradução acima.
Não percebi semelhança somente nessas duas passagens que menciono, é claro, mas também em inúmeras outras. [...] A única dúvida que tenho é se há possibilidade de a tradução do Sodré Viana já ser de domínio público. Seria isso possível? As regras de copyright de traduções são as mesmas do copyright de obras originais? Pensei também na hipótese de a a editora detentora dos direitos da tradução do Viana tê-los cedido à Itatiaia, mas, se assim for, não entendo por que fizeram constar Waldemar Rodrigues de Oliveira como tradutor na edição da Itatiaia.agora é esperar chegarem os exemplares que encomendei e avaliar a extensão da coisa. por ora, como leitora, tradutora e apreciadora de nossa memória cultural, deixo aqui meu agradecimento à vanessa pelo alerta.