2 de ago. de 2011

poe XLIV, FBN, socorro

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fico doente com o relaxo no cadastramento dos autores em nossa fundação biblioteca nacional:


NOME DO AUTOR

ALLAN POE
Edgar Alan Poe
Edgar Allam Poe
Edgar Allan Poe
Edgard Allan Poe
EDGAR ALLAN POE
EDGAR ALLAN POE
EDGAR ALLAN PPOE
EDGAR ALLEN POE
EDGARD ALLAN POE


Aí a gente vai consultar o Edgar Allan Poe (o quarto da lista acima), e temos lá:


Nome do Autor:
RESULTADO DA BUSCA
204 Publicações encontradas, distribuídas em 5 páginas
ISBN TÍTULO
85-98292-45-1 DESVELAR A POLÍTICA NA PERIFERIA : HISTÓRIAS DE MOVIMENTOS SOCIAS EM SÃO PAULO
85-98292-44-3 SEAN O´FAOLAIN´S LETTERS TO BRAZIL
85-98292-42-7 A POESIA NA ESTÉTICA DE HEGEL
85-98292-41-9 A VIA CRUCIS DO OUTRO : IDENTIDADE E ALTERIDADE EM CLARICE LISPECTOR
85-98292-40-0 MEIO AMBIENTE E DEGRADAÇÃO CULTURAL
85-98292-39-7 SEGURANÇA PRIVADA : A EXPANSÂO DOS SERVIÇOS DE PROTEÇÃO VIGILÂNCIA EM SÃO PAULO
85-98292-38-9 A TEORIA CARTESIANA DA VERDADE
85-98292-37-0 A VIDA E A LUTA DE UMA SOBREVIVENTE DO HOLOCAUTO
85-98292-35-4 DIÁLOGOS NA FALA E NA ESCRITA
85-98292-32-X DE RATIONIBUS EXORDIENDI - OS PRINCÍPIOS DA HISTÓRIA EM ROMA
85-98292-30-3 ARTE E IMTUIÇÃO : A QUESTÃO ESTÉTICA EM BERGSON
85-98292-29-X TÓPICOS DE PSICOLINGÜÍSTICA APLICADA - 3ª EDIÇÃO
85-98292-28-1 A FILOSOFIA EXPERIMENTAL NA INGLATERRA DO SÉC. XVII : FRANCIS BACON E ROBERT BOYLE
85-98292-27-3 RETÓRICAS DE ONTEM E DE HOJE
85-88227-49-5 A VIAGEM
85-88227-46-0 TEMAS KANTIANOS
85-89697-03-7 DESAFIOS PARA O CONTROLE SOCIAL : SUBSÍDIOS PARA CAPACITAÇÃO DE CONSELHEIROS DE SAÚDE
85-89697-04-5 VIDA E OBRA DE OSWALDO CRUZ
85-7665-050-9 O ASSASSINO EM MIM
85-7665-052-5 " NA TOCA DOS LEÕES : A HISTÓRIA DA WL BRASIL, UMA DAS AGÊNCIAS MAIS PREMIADAS DO MUNDO ".
85-7665-061-4 APRENDA A FALAR EM PÚBLICO
85-7665-054-1 COMO RETER E FIDELIZAR CLIENTES
85-7665-053-3 APRENDA AS CHAVES DA INTELIGÊNCIA EMOCIONAL
85-7665-072-X MAGIA SEXUAL : DO ORIENTE AO OCIDENTE, RECUPERANDO OS CAMINHOS DO PRAZER
85-7665-073-8 CURAR A CASA, SANAR A ALMA
85-7665-060-6 APRENDA A NEGOCIAR COM ÊXITO
85-7665-074-6 REENCARNAÇÃO - ESPERANÇA OU DESTINO?
85-7665-071-1 NAS TUAS MÃOS
85-7665-078-9 COMO ELABORAR UM BOM PLANO DE MARKENTING
85-7665-075-4 TÃO LONGE DO MUNDO
85-7665-080-0 CARTAS DO INFERNO
85-7665-081-9 ESTRANHA CONFISSÃO - UM DRAMA NA CAÇA
85-7665-079-7 CRÔNICAS I
85-7429-452-7 TEORIAS GLOBAIS E SUAS REVOLUÇÕES : IMPÉRIOS E ...
85-7429-442-X SEMINÁRIO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL 4 : 2003 IJUÍ
85-7429-426-8 EDUCAÇÃO, CIDADANIA E EMANCIPAÇÃO
85-7429-437-3 CAMINHOS PERCORRIDOS E TERRAS INCOGNITAS ...
85-7429-429-2 ESCÂNDALO DE CRISTO : ENSAIO SOBRE HEIDEGGER E SÃO PAULO...
85-7429-431-4 PRÁTICAS SISTEMATIZADAS : A NATAÇÃO NO CURSO DE GRADUAÇÃO
85-7429-427-6 O MASSACRE DO FUNDÃO : MEMÓRIA, ORALIDADE ...
85-7429-453-5 ESTUDO DA VARIAÇÃO DA MICROBIOTA DE FRANGO...
85-7429-428-4 ENSINO DE HISTÓRIA E EDUCAÇÃO
85-7429-425-X DIREITO INTERNACIONAL & DIREITO BRASILEIRO ...
85-7429-445-4 EDUCAÇÃO NAS CIÊNCIAS : PESQUISAS DISCENTES 2003
85-7429-443-8 INICIAÇÃO Á AUDITORIA
85-7429-438-1 POESIA VII : ALUNOS MOSTRAM O QUE FAZER
85-7429-456-X MÁRIO VÁRIO : UMA INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO ...
85-7429-436-5 A REINVENÇÃO DA PÁTRIA : A IDENTIDADE NACIONAL
85-7429-439-X JORNADA DE EXTENSÃO DA UNIJUÍ (5 : 2004 : IJUÍ)
85-7429-440-3 XII SEMINÁRIO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA
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GALENO AMORIM, SOCORRO!!!
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poe XLIII, planilhas no google docs

quem quiser acompanhar essa fase inicial de levantamento de dados sobre as traduções da ficção de edgar allan poe no brasil, as planilhas estão aqui no google docs. os dados podem ser livremente usados, mas solicito a gentileza de que seja dada a fonte do levantamento.


agradeço a sugestão de ricardo nassif.

imagem: brint montgomery
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alices

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Meu amiguinho Higor, do The Bloggerwocky, supertrabalha com as Alices e suas traduções, e conversando no twitter lembrei esse artigo muito legal do Jorge Furtado, que saiu no ano passado aqui. Transcrevo com as devidas vênias, porque é muito bom e informativo.

Jorge Furtado compara traduções brasileiras de Alice no País das Maravilhas

Tradutor aponta soluções diferentes para enfrentar as muitas dificuldades do texto

JORGE FURTADO*

Em 2008, ao terminar a tradução de As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, com a curiosidade acumulada durante os três anos que durou o trabalho, passei a ler com atenção todas as traduções brasileiras que consegui encontrar. Cada uma delas tem soluções originais, criativas, mais ou menos felizes, para enfrentar as muitas dificuldades do texto. Aqui, um quadro comparativo de algumas delas:

I. Poema de abertura, três primeiros versos
Lewis Carroll
Alice's Adventures in Wonderland

"All in the golden afternoon full leisurely we glide;
For both our oars, with little skill,
By little arms are plied, while little hands make vain pretence our wanderings to guide."

Monteiro Lobato (tradução e adaptação, Companhia Editora Nacional, primeira edição de 1931)
Alice no País das Maravilhas: não consta

Primavera das Neves (tradução, Editorial Bruguera, sem data)
Alice no País das Maravilhas: "Na cálida tarde deste dia, o barco desliza lentamente, e é agradável deixar vaguear a mente pelo reino da fantasia"

Oliveira Ribeiro Netto (tradução, Editora do Brasil, sem data)
Alice no País das Maravilhas: não consta

Maria Thereza Cunha de Giacomo (adaptação, Melhoramentos, 1966)
Alice no País das Maravilhas: não consta

Sebastião Uchôa Leite (tradução e organização, Summus, 1980)
Aventuras de Alice no País das Maravilhas: "No verão, na tarde de ouro, deslizamos vagarosamente. Nossos remos são manejados sem perícia, no sol ardente: mãos gentis, que fingindo vão guiar nosso passeio errante."

Regina Stella Moreira Gomes (Companhia Editora Nacional, 1984)
Alice no País das Maravilhas: não consta

Ana Maria Machado (Ática, 1997)
Alice no País das Maravilhas: "Num dourado entardecer rio abaixo a deslizar, os dois remos nem pediam nossos braços a remar. Mas pequeninas fingiam nosso passeio guiar."

Isabel de Lorenzo e Nelson Ascher (poemas) Editora Objetiva, São Paulo, 1999
Alice no País das Maravilhas: "Nós deslizamos à vontade na tarde que é dourada, Bracinhos remam de maneira mais que desajeitada Enquanto em vão mãozinhas fingem guiar nossa jornada."

Rosaura Eichenberg (L&PM, 1998)
Alice no País das Maravilhas: "Juntos na tarde dourada suavemente a deslizar, nossos remos, sem destreza, dois bracinhos a manejar, pequeninas mãos que fingem nossa direção guiar."

Maria Luiz de X. Borges (Jorge Zahar, 2002)
Aventuras de Alice no país das maravilhas: "Juntos naquela tarde dourada deslizávamos em doce vagar, pois eram braços pequenos, ineptos, que iam os remos a manobrar, enquanto mãozinhas fingiam apenas o percurso do barco determinar."

Jorge Furtado e Liziane Kugland (Objetiva, 2008)
Aventuras de Alice no País das Maravilhas: "Num verão, com sol perfeito, devagar flutua um bote. A remadora sem jeito, espera que ninguém note que não navega direito, mal sabe o que é sul ou norte."

Nicolau Sevcenko (Cosac Naify, 2009)
Alice no País das Maravilhas: "Todos no bote ao sol da tarde, cheios de alegria flutuando, mãozinhas desajeitadas os remos e os lemes comandando, a tatear nas águas ondeadas, desliza o divertido bando."

Clélia Regina Ramos (Universo dos Livros, 2009)
Alice no País das Maravilhas: não consta

II. Capítulo 1
Lewis Carroll
Down the Rabbit's Hole
"There are no mice in the air, I'm afraid, but you might catch a bat, and that's very like a mouse, you know. But do cats eat bats, I wonder?' And here Alice began to get rather sleepy, and went on saying to herself, in a dreamy sort of way, 'Do cats eat bats? Do cats eat bats?' and sometimes, 'Do bats eat cats?' for, you see, as she couldn't answer either question, it didn't much matter which way she put it."

Monteiro Lobato
Viagem à toca dos coelhos
"Sim, porque estou caindo na ar e no ar não há ratos, há morcegos, que é rato de asa. Mas será que gato come morcego?" Alice começou a sentir uma certa sonolência e neste estado o pensamento fica preguiçoso. Começou a repetir muitas vezes a mesma frase: — Gato come morcego? Às vezes repetia errado: — Morcego come gato? E como não obtivesse resposta continuava a repetir sempre a mesma pergunta."

Primavera das Neves
Capítulo Primeiro
"— No ar não há ratos, mas talvez haja morcegos. E os ratos e os morcegos são muito parecidos, só que os morcegos tem uma espécie de asas. Mas os gatos comerão morcegos? Às vezes enganava-se e dizia: — Os morcegos comerão gatos? Mas, de uma forma ou de outra, ninguém lhe podia responder, e ela tampouco, porque não sabia."

Oliveira Ribeiro Netto
Na toca do coelho
"Não há ratos no ar, infelizmente, mas você poderia caçar um morcego, que é muito parecido com rato, sabe? Mas será que gato come morcego? Aí Alice começou a sentir muito sono, e continuou a falar consigo mesma, numa espécie de sonho: Gato come morcego? Gato come morcego? E às vezes Morcego come gato?, porque, como vocês sabem, ela não podia responder a questão e de nada adiantava a maneira como perguntava."

Maria Thereza Cunha de Giacomo
Na toca do Coelho
"— Não há camundongo no ar, com certeza, mas você poderia caçar um morcego, que é tão parecido com rato. Só que tem asas. Gostaria de saber se gato come morcego... E, Alice, que já estava sonolenta, começou a repetir baixinho, como em um sonho: — Gato come morcego? Gato come morcego? Gato come morcego? E às vezes se enganava: morcego come gato? Como ninguém ia responder às suas perguntas, nem valia a pena falar certo."

Sebastião Uchôa Leite
Entrando na toca do coelho
"Não tem nenhum rato no ar, infelizmente, mas bem que você podia pegar um morcego, é igualzinho a um rato, sabe? Mas, gatos comem morcegos?" E aqui Alice começou a ficar meio sonolenta, continuando a dizer para si mesma, numa espécie de devaneio: 'Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?' E, às vezes, 'Morcegos comem gatos?', pois, como não sabia responder à pergunta, pouco importava a maneira como fosse colocada."

Regina Stella Moreira Gomes
Capítulo 1º
"— Penso que não existem camundongos no ar, mas você poderia caçar um morcego! Afinal, eles são bem parecidos com camundongos. Mas, será que gatos comem morcegos?
Alice já estava ficando com sono, e começou a repetir:
— Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?
Às vezes também falava:
— Morcegos comem gatos?
Mas, como não havia ninguém para responder, não tinha muita importância o modo como fazia as perguntas."

Ana Maria Machado
Na toca do Coelho
"— Quer dizer, eu sei que no ar não tem nenhum ratinho nem camundongo, e que você adora esses bichos, tem um amor cego por eles. Mas talvez você conseguisse pegar um morcego, quem sabe? Mas será que ia gostar? Também ia sentir um amor cego pelo morcego?
E como a essa altura Alice já estava ficando com muito sono, começou a dizer para si mesma, como se estivesse sonhando:
— Ia sentir um amor cego por morcego... E será que o morcego também sente amor cego?
É que, como ela não conseguia mesmo responder a nenhuma dessas perguntas, tanto fazia de um jeito como de outro."

Isabel de Lorenzo e Nelson Ascher
Na toca do Coelho
"Não tem nenhum rato no ar, infelizmente, mas você bem que poderia pegar um morcego... é quase igual a um rato, você sabe. Será que gatos comem morcegos?" E aqui Alice começou a ficar com sono, e continuou dizendo consigo mesma, numa espécie de devaneio: 'Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?' E, às vezes, 'Morcegos comem gatos?', pois, como ela não conseguia responder à pergunta, não importava muito a ordem em que era colocada."

Rosaura Eichenberg
Descendo pela toca do Coelho
"Não há camundongos no ar, infelizmente, mas você poderia pegar um morcego, e morcegos são parecidos com camundongos, sabe. Mas será que gatos comem morcegos? E nesse momento Alice começou a ficar com sono, e continuou a falar consigo mesma, meio que sonhando: 'Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?', e às vezes 'Morcegos comem gatos?', pois, sabem, como ela não sabia a resposta para nenhuma das perguntas, tanto fazia a ordem que lhes dava."

Maria Luiza de X. Borges
Pela toca do Coelho
"Pena que mão haja nenhum camundongo no ar, mas você poderia apanhar um morcego, é muito parecido com camundongo. 'Mas será que gatos comem morcegos?' e às vezes 'Morcegos comem gatos?' pois, como não sabia responder à nenhuma das perguntas, o jeito como as fazia não tinha muita importância."

Jorge Furtado e Liziane Kugland
Na toca do Coelho
"— Não tem nenhum rato no ar, que pena, mas você poderia pegar um morcego, que é como um rato, você sabe. Mas será que gato come morcego? E então Alice começou a ficar com bastante sono e continuou falando sozinha, como num sonho: 'Morcego é como rato e gato come rato… Ga-to-co-me-ra-to… Gato come rato?', e às vezes, 'Ra-to-co-me-ga-to?'. Sabe como é, já que ela não conseguia responder nenhuma das perguntas, não importava muito a ordem das palavras."

Nicolau Sevcenko
Descendo à toca do Coelho
"— É pena que não haja ratos no ar, mas você poderia pegar um morcego, que é bem parecido com rato, sabe? Mas será que Diná, minha gata angorá, come morcego andirá?
Adormecendo aos poucos, ela continuou repetindo, como se a sonhar: 'Angorás comem andirás? Angorás comem andirás?' E, às vezes, 'Andirás comem angorás?', pois, já que ela não sabia responder a nenhuma dessas questões, tanto fazia a ordem."

Clélia Regina Ramos
Para baixo na toca do coelho
"'Não há ratos no ar, eu temo, mas você poderia pegar um morcego, eles são tão parecidos com os ratos, você sabe. Mas será que os gatos comem morcegos?' E aqui Alice começou a ficar sonolenta e continuou falando para si mesma, de uma maneira sonhadora. 'Gatos comem morcegos?', e às vezes 'Morcegos comem gatos?'. Como vocês podem ver, ela não conseguia responder a nenhuma das duas questões, portanto não importava muito de que maneira ela as colocava."

Traduções:
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Nicolau Sevcenko (Cosac Naify, 2009)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Clélia Regina Ramos (Universo dos Livros, 2009)
  • Aventuras de Alice no País das Maravilhas - Tradução de Liziane Kugland e Jorge Furtado (Objetiva, 2008)
  • Alice: Edição Comentada - Tradução de Maria Luiza de X. Borges (Jorge Zahar, 2002)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Isabel de Lorenzo. Tradução dos poemas: Nelson Ascher (Sol, 2000)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Rosaura Eichenberg (L&PM, 1998)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Ana Maria Machado (Ática, 1997)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Barbara Theoto Lambert (Edições Loyola, 1995)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Regina Stella Moreira Gomes (Companhia Editora Nacional, 1984)
  • Aventuras de Alice no País das Maravilhas - Tradução de Sebastião Uchoa Leite. Tradução dos poemas: Augusto de Campos (Summus, 1977)
  • Aventuras de Alice no País das Maravilhas - Tradução de José Vaz Pereira e Manuel João Gomes (Editora Brasília, 1976)
  • Alice no País das Maravilhas - Adaptação de Maria Thereza Cunha de Giacomo (Melhoramentos, 1966)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Paulo Nasser (Vecchi, 1964)
  • Alice na Terra das Maravilhas - Tradução de Pepita de Leão (Livraria do Globo, 1947) [1a. ed.: 1934]
  • Aventuras de Alice no País das Maravilhas - Tradução e adaptação de Monteiro Lobato (Companhia Editora Nacional, 1944) [1a. ed.: 1931]
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução e adaptação de Oliveira Ribeiro Netto (Editora do Brasil, s/d)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Lúcia Benedetti (Editora Tecnoprint Ediouro)
  • Alice no País das Maravilhas (e Alice no País do Espelho) - Tradução de Primavera das Neves (Bruguera, sem data)
* Diretor de cinema, escritor e tradutor. Traduziu, com Liziane Koglund, As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (Objetiva, 2008)

imagem: aqui
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1 de ago. de 2011

poe XLII, primeira parcial

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nessa pesquisa sobre a bibliografia da ficção de edgar allan poe no brasil, estou chegando a uns resultados interessantes. numa parcial inicial, temos que, do total de 69 contos de poe, 66 estão traduzidos. faltam apenas coisas muito pouco conhecidas, a saber: um fragmento manuscrito descoberto apenas em 1924, chamado The Light-House, o conto Von Kempelen and his Discovery (também tratado no ensaio "O jogador de xadrez de Maelzel") e uma novela inacabada, The Journal of Julius Rodman. Uma hora, estou boa de traduzi-los e disponibilizá-los na rede, para termos a totalidade da ficção de Poe em português.

até o momento, levantei 401 traduções diferentes desses 66 contos. não estou levando em conta as edições, reedições e licenciamentos de cada tradução, mas apenas a primeira edição de cada uma delas. falta ainda localizar umas boas dezenas, principalmente em antologias com vários autores do tipo "obras-primas do conto tal e tal", "maravilhas do conto tal", muitas vezes utilizando traduções existentes. mas a distribuição até agora é bastante interessante. por exemplo, quatro contos tiveram mais de vinte traduções nesse período. são eles:

  • the black cat, com 27 traduções (21 legítimas e 6 espúrias)
  • the purloined letter, com 23 traduções (20 legítimas e três espúrias)
  • the gold-bug, com 23 traduções (19 legítimas e 4 espúrias)
  • the murders in the rue morgue, com 21 traduções (19 legítimas e 2 espúrias)


outro dado que achei interessante foi a distribuição temporal dessas traduções. a vantagem é que chegamos a 1944 com todos os 66 contos traduzidos por milton amado e oscar mendes, na edição que saiu pela globo. dividi o período em três blocos e os resultados até agora são seguintes:

  • 1900-1949: 106 traduções
  • 1950-1999: 202 traduções
  • 2000 -->   : 93 traduções

outra coisa interessante é o perfil das edições. sobretudo a partir dos anos 80, a quantidade de edições didáticas aumenta muito, e também a quantidade de adaptações para o público infanto-juvenil, afora gibis e quadrinhos.

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poe XLI, dificuldades

estou tentando rastrear os contos de poe em tradução brasileira publicados desde o começo do século XX até agora. já encontrei umas quatrocentas traduções de 66 contos, e falta ainda identificar algumas dezenas de outras.


mas tem um volume que está me dando uma canseira danada: contos de horror, em tradução de luiza lobo, que saiu pela bruguera em 1970, naquela coleção "trevo negro", vol. 11. as pouquíssimas referências estão no currículo da própria tradutora, aqui na pesquisa "poe no brasil" e no catálogo do acervo da fundação biblioteca nacional:


Autor: Poe, Edgar Allan, 1809-1849.
Título original: [Contos. Portugues. Selecoes]
Título / Barra de autoria: Contos de horror / Edgar Allan Poe ; traducao de Luiza Lobo. -
Imprenta: Rio [de Janeiro] : Bruguera, c1970.
Descrição física: 160p. ; 18cm. -
Série: (Colecao Trevo negro ; 11)
Notas: Faltam as p. de 1-58.
Classificação Dewey:
Edição: 813
Indicação do Catálogo: II-6,5,30 
e parece brincadeira: no volume da fbn faltam quase 60 páginas! já havia aquela confusão no volume da edibolso/cedibra, com contos traduzidos por brenno silveira e atribuídos a luiza lobo, que mostrei nos últimos posts. já numa tese que faz uma análise comparativa das traduções de the tell-heart, o autor menciona a tradução de luiza lobo numa antologia da bruguera com o título Horror - Antologia, com textos de poe, defoe e bierce, de 1971.

depois que a bruguera fechou e se transformou na cedibra, a trevo negro foi republicada, mas com outra numeração. descobri que o volume 16 da trevo negro da cedibra se chama horror, e é uma antologia - então talvez tenha essas misteriosas traduções, mas não consegui localizar um único exemplar!

tentei contato com a tradutora, liguei para a universidade onde ela dá aula, nada... então tenho que juntar as pequenas pistas: restam os contos da edibolso/cedibra de 1975. tirando os de brenno que estão em seu nome ("o gato preto" e "a queda da casa de usher"), ficariam "o enterro prematuro", "o barril de amontillado", "o coração revelador", "a máscara da peste vermelha" e "o homem na multidão".

atribuição é uma coisa complicada em pesquisa documental. pois esse "coração revelador" que tenho em mãos, de 1975, apresenta algumas diferenças significativas em relação às passagens de 1971 citadas na tese acima. como posso considerar que se trata da mesma tradução na edição da bruguera de 71 e na edição da edibolso de 75? este é apenas um pequeno exemplo das dificuldades em reconstituir a trajetória de um autor traduzido no brasil: exemplar mutilado em nosso acervo nacional, editoras extintas, livros que não se encontram nos sebos, cotejos que não batem, escassez de referências na internet...

imagem: histoires extraordinaires, ed. 1856

atualização em 02/08/2011: a leitora deize mara gentilmente forneceu o contato da profa. luiza lobo. espero poder logo esckarecer essas dúvidas.
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28 de jul. de 2011

poe XL, o conto fantasma

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Como se vê na foto do índice do volume, aqui, "Berenice" se iniciaria à p. 148. Sendo o único conto cuja tradução não é atribuída a Sandro Pivatto, a Berenice Xavier ou a Luisa Lobo na página dos créditos, imaginar-se-ia que finalmente seria a tradução de Brenno Silveira, que consta com destaque na página de rosto. No entanto, o livro termina na p. 147. Não sei se a foto consegue mostrar o que está na sequência, e que seria a p. 148: a propaganda do lançamento de O exorcista. E, depois de mais algumas páginas de divulgação das obras publicadas pela editora, termina o livro.


A meu ver, essa edição da Edibolso, com traduções licenciadas da Cedibra, lamentavelmente integra o capítulo das infâmias editoriais na história de Edgar Allan Poe no Brasil.


poe XXXIX, absurdidades editoriais

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Continuação:
O gato preto, Brenno Silveira:

Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã morro e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram. No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror — mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.

O gato preto, Luísa Lobo, segundo atribuição feita na edição Edibolso, com copirraite e licença da Cedibra:

Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã morro e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram. No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror — mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.
Como a tradução de Brenno Silveira saiu originalmente em 1959, e essa em nome de Luísa Lobo em 1975, não resta dúvida sobre a anterioridade. Para tornar as coisas ainda mais absurdas, tanto Brenno Silveira quanto Luísa Lobo são tradutores renomados, com trabalhos de qualidade, e é um absurdo supor que um se apropriasse da tradução do outro. Acontece que tais são os créditos constantes no livro, que, prima facie, têm valor documental. Como a Edibolso fechou, a Cedibra fechou, Brenno Silveira morreu, a meu ver seria importante que Luísa Lobo contribuísse para dirimir qualquer dúvida que possa vir a pairar sobre a legítima autoria dessa tradução.

imagem: google images
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poe XXXVIII, o poço da irresponsabilidade

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Prosseguindo, o segundo conto do volume, "O poço e o pêndulo", tem sua tradução atribuída a Sandro Pivatto. O nome não me é muito familiar, mas vejo várias referências a traduções suas para a Bruguera e a Cedibra entre os anos 60 e 70. Transcrevo as frases iniciais do conto na edição Edibolso, com licença da Cedibra:
Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia - e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. A sentença - a terrível sentença de morte - foi a última frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos. Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido indefinido de sonho.
Veja-se a tradução de Brenno Silveira:
Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia - e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. A sentença - a terrível sentença de morte - foi a última frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos. Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido indefinido de sonho.
Para a argumentação geral sobre o tema, ver o post anterior. Sobre a importância de uma manifestação pública de Sandro Pivatto desautorizando essa barbaridade da Edibolso/ Cedibra, idem. Se alguém se interessar pelo original e outras traduções do mesmo trecho, é só avisar.

imagem: o poço e o pêndulo
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poe XXXVII, irresponsabilidade

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Passo à apresentação dos motivos de minha perplexidade e irritação com irresponsabilidades editoriais que mencionei no post anterior, poe XXXVI. Seguirei o índice.
"A queda da Casa de Usher", pela Edibolso/Cedibra, em nome de Luísa Lobo:

Durante um dia inteiro de outono, escuro, sombrio, silencioso, em que as nuvens pairavam, baixas e opressoras, nos céus, passava eu a cavalo, sozinho, por uma região singularmente monótona - e, quando as sombras da noite se estendiam, finalmente me encontrei diante da melancólica Casa de Usher.
"A queda da Casa de Usher", pela Civilização Brasileira, em nome de Brenno Silveira:

Durante um dia inteiro de outono, escuro, sombrio, silencioso, em que as nuvens pairavam, baixas e opressoras, nos céus, passava eu a cavalo, sozinho, por uma região singularmente monótona - e, quando as sombras da noite se estendiam, finalmente me encontrei diante da melancólica Casa de Usher.
Poderia prosseguir até o final do conto, mas, para fins ilustrativos, creio que basta esta primeira frase. Para mostrar claramente como é impossível encontrar duas traduções iguais feitas por dois tradutores diferentes, veja-se como José Paulo Paes, Oscar Mendes/ Milton Amado e Aurélio Lacerda vertem o mesmo original:

A queda da Casa de Usher, pela Cultrix (Companhia das Letras), José Paulo Paes:

Durante todo um dia pesado, escuro e mudo de outono, em que nuvens baixas amontoavam-se opressivamente no céu, eu percorri a cavalo um trecho de campo de tristeza singular, e finamente me encontrei, quando as sombras da noite se avizinhavam, à vista da melancólica Casa de Usher.

A queda do Solar de Usher, pela Globo (Nova Aguilar), Oscar Mendes e Milton Amado:

Durante todo um pesado, sombrio e silente dia outonal, em que as nuvens pairavam opressivamente baixas no céu, estive eu passeando, sozinho, a cavalo, através de uma região do interior, singularmente tristonha, e afinal me encontrei, ao caírem as sombras da tarde, perto do melancólico Solar de Usher.

A queda da casa de Usher, pela Pinguim, Aurélio Lacerda:

Por todo o correr de um dia escuro, lúgubre e silencioso de outono, quando as nuvens, baixas, se acumulavam opressivas no céu, atravessara sozinho, a cavalo, uma região de campanha singularmente triste e, afinal, quando já caíam as sombras da tarde, encontrava-me à vista da merencórea Casa de Usher.
Eis o original:
During the whole of a dull, dark, and soundless day in the autumn of the year, when the clouds hung oppressively low in the heavens, I had been passing alone, on horseback, through a singularly dreary tract of country; and at length found myself, as the shades of the evening drew on, within view of the melancholy House of Usher.
Como a tradução de Brenno Silveira saiu originalmente em 1959, e essa em nome de Luísa Lobo em 1975, não resta dúvida sobre a anterioridade. Para tornar as coisas ainda mais absurdas, tanto Brenno Silveira quanto Luísa Lobo são tradutores renomados, com trabalhos de qualidade, e não faria o menor sentido que um se apropriasse da tradução do outro. Acontece que assim estão os créditos no livro; assim está a atribuição de autoria; assim, em termos materiais, está criado um dado objetivo. 

O grande risco, a meu ver, tal como ocorreu no caso da editora Itatiaia, atribuindo a Galeão Coutinho uma tradução de Mário Quintana, e no caso da editora Martin Claret, atribuindo a Isa Silveira Leal traduções de Ruth Guimarães, é que o nome do segundo tradutor, vitimado pela incúria da editora, fique conspurcado, ou pelo menos sob suspeita. No mínimo instaura-se uma confusão em nossa história lítero-tradutória. O que dirá um pesquisador daqui a cinquenta anos, perante a materialidade dos fatos?

Como a Edibolso fechou, a Cedibra fechou, Brenno Silveira morreu, a meu ver seria muito proveitoso que a profa. Luísa Lobo legasse para nossa memória documental um depoimento a respeito, a fim de esclarecer antecipadamente qualquer dúvida que possa vir a surgir no futuro sobre a legítima autoria dessa tradução.

atualização em 14/09/2011: a tradutora Luiza Lobo avisou que tentará descobrir o que pode ter acontecido.

imagem: a queda da casa de usher
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poe XXXVI, os torvelinhos da desmemória

como é difícil reconstituir coisas nem tão distantes em nossa história lítero-tradutória! e quantas surpresas desagradáveis!

explico-me: depois de ter feito um levantamento das primeiras edições de contos de poe no brasil, das várias traduções d' o gato preto e das diversas coletâneas enfeixadas sob o mesmo título de histórias extraordinárias - veja aqui -, retomei minha pesquisa, na intenção de cobrir todas as traduções brasileiras de poe no século XX e XXI.

e eis que me deparo com isso aqui:




como se vê, é um voluminho da edibolso, com traduções licenciadas pela cedibra, 1975.* a nos fiar pelos dados do livro, temos os seguintes responsáveis por elas:
  • sandro pivatto para "o poço e o pêndulo" e "a caixa quadrangular";
  • berenice xavier para "william wilson";
  • luisa lobo para "o enterro prematuro", "o barril de amontillado", "a queda da casa de usher", "o coração revelador", "o gato preto", "a máscara da peste vermelha", "o homem na multidão"
  • para brenno silveira, o único nominalmente anunciado na página de rosto, mas não citado na página de dados catalográficos, restaria "berenice"
se um paciente leitor ou um cuidadoso pesquisador tiver a curiosidade ou se der ao trabalho de comparar esses textos a outras traduções, provavelmente ficará em dúvida se o que norteou essa edição da edibolso (com licenciamento da cedibra) foi a ignorância, o desleixo, o acochambro ou a má fé - pois a transparência certamente não foi.

apresentarei os motivos de minha perplexidade e irritação nos próximos posts. reitero aqui minha indignação: enquanto este país e nossos editores se obstinarem em confundir, omitir, mascarar ou falsear os dados das obras tradutórias, continuaremos patinhando nessa patética rasura e ignorância em nossa formação cultural.

* esse volume me foi fornecido por joana canêdo, a quem agradeço novamente a gentileza.
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26 de jul. de 2011

rastreando kafka no brasil

Retomo o precioso artigo de Ribeiro, Brito e Santos, "A recepção da obra de Franz Kafka no Brasil", publicado na revista Pandaemonium Germanicum 9/2005, pp. 227-53, que venho comentando em alguns posts - ver aqui.

Sempre no intuito de contribuir para a reconstituição da trajetória de Kafka no Brasil, consolido aqui alguns dados e breves retificações, concentrando-me nas décadas 50 a 70. Os pesquisadores apresentam o seguinte levantamento das traduções e retraduções para este período, que complemento nas "Observações":

I. Anos 50
1. Metamorfose, Brenno Silveira, Civilização Brasileira, 1956
2. "O artista do trapézio", tradução anônima, Cultrix, 1958 (in Maravilhas do conto alemão, tradução dada como provavelmente a partir do inglês)

Observações:
1. Em 1956, temos também a publicação de Parábolas e fragmentos, em seleção e tradução de Geir Campos, pela Philobiblion, Civilização Brasileira, em edição especial para sua coleção Maldoror, com tiragem de 300 exemplares e quatro águas-fortes de Poty. A coleção Maldoror era feita na prensa manual "A Verônica", de Manuel Segalá. Assim, caberia colocá-la como pioneira, ao lado de Metamorfose.


 

2. Uma retificação rápida: o ano correto da primeira edição é 1957. Quanto à fonte dessa tradução, não creio que seja o inglês, de forma alguma, e merecerá um post à parte.

II. Anos 60
1. O castelo, Torrieri Guimarães, Tecnoprint, 1964 (supostamente do francês)
2. O processo, Torrieri Guimarães, Tema, 1964 (idem)
3. América, Torrieri Guimarães, Livraria Exposição do Livro, 1965 (idem)
4. Metamorfose em 3a. ed. (não cita a segunda), Brenno Silveira, BUP, teria ganhado prefácio de Ênio Silveira, 1965
5. A colônia penal, Torrieri Guimarães, Livraria Exposição do Livro, 1965 (idem, 39 títulos)*
6. Os melhores contos de Kafka, trad. A. Serra Leal, editora “paulista” Arcádia, 1966.
7. Parábolas e fragmentos, sel. e trad. Geir Campos, Ediouro, 1967
8. A muralha da China, Torrieri Guimarães, Clube do Livro, 1968 (30 contos)
9. A metamorfose; Na colônia penal; O artista da fome, trad. Brenno Silveira, Leandro Konder e Eunice Duarte (os 2 últimos pelo francês), Civilização Brasileira, 1969

Observações:
1. Em 1964, caberia ainda lembrar a publicação de Diário íntimo pela Livraria Exposição do Livro, em tradução de Torrieri Guimarães.


A Nova Época Editorial, concorrente direta da Exposição do Livro naquela mesma época, também publica Diário íntimo, em tradução de Osvaldo da Purificação, mas não consegui descobrir o ano exato de seu lançamento.

1a. A propósito de Torrieri Guimarães: as várias menções no ensaio apresentando o francês como suposta base para suas traduções a meu ver não procedem. Já demonstrei este ponto em relação a Metamorfose e Um artista da fome, aqui e aqui, e dedicarei mais alguns posts a respeito. As traduções de Torrieri eram visivelmente feitas a partir do espanhol, a despeito do que ele possa ter afirmado em entrevista aos pesquisadores.

1b. Quanto às traduções que inauguram o dito "boom" dos anos 60, ver observações ao item III, 3.

4. Uma rápida retificação: a primeira edição da Metamorfose pela BUP (Biblioteca Universitária Popular, pertencente a Ênio Silveira, irmão de Brenno Silveira) é de 1963, e já traz o prefácio citado.

5. A citação em asterisco, reproduzida abaixo, também mereceria alguns breves comentários e será objeto de um post à parte.

6. Aqui mais uma pequena retificação: a editora Arcádia não é paulista, mas portuguesa, sediada em Lisboa; assim, caberia excluí-la de um mapeamento das traduções brasileiras de Kafka. A primeira edição deste volume é de 1962.


7. Caberia eliminar Parábolas e fragmentos desse bloco cronológico, visto que, cf. observação acima, a pioneira tradução de Geir Campos foi publicada originalmente em 1956.

III. Anos 70
1. O processo, Marques Rebelo, Ediouro, 1971
2. Metamorfose, Marques Rebelo, Ediouro, 1971
3. O processo, Manoel Ferreira Pinto e Syomara Cajado, Círculo do Livro, 1977

Observações:
3. A tradução de Syomara Cajado (pelo inglês) foi publicada originalmente pela editora Nova Época. Manoel Ferreira Pinto foi provavelmente o preparador do texto para a edição posterior do Círculo Livro.

Quanto aos anos 80 em diante, chamou-me a atenção um apontamento dos articulistas: em 1985, haveria "uma nova tradução realizada também a partir do inglês por Enio Silveira e Marques Ribeiro Calouro, cuja publicação fica a encargo da editora Tecnoprint". (p. 239) Não consegui localizar nenhuma referência a esta edição e teria muita curiosidade em conhecê-la. Por outro lado, encontrei menção a um volume publicado pela Civilização Brasileira em 1983 (e mais numerosas para o ano de 1993), com o título de Contos, fábulas e aforismos, com seleção, introdução e tradução de Ênio Silveira, proprietário da editora. Marques Rebelo, por seu lado, fazia muitas adaptações para a Coleção Calouro da Tecnoprint. Talvez tenha havido aí alguma mistura entre os nomes

* Comentam os autores quanto a esta edição: "Um problema a ser levantado é o fato de Torrieri Guimarães referir-se à antologia como se fosse do próprio Kafka. Em nenhum momento, é esclarecido ao leitor que os textos não foram reunidos e dispostos daquela forma pelo autor (fato relevante, uma vez que se conhece a preocupação de Kafka com essa questão). Também não são indicados os critérios para a seleção dos textos." (p. 234). Para o esclarecimento dessa questão, ver aqui.

Quanto à fortuna de Metamorfose no Brasil, recomendo vivamente o livro de Celso Cruz, Metamorfoses de Kafka. São Paulo: Fapesp/ Annablume, 2007.

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23 de jul. de 2011

os sons do tempo III

descubro que lúcio cardoso, um dos poucos autores brasileiros do século XX em quem consigo perceber alguma afinidade com o intenso espírito trágico-romântico que vemos em poe, também traduziu e fez a adaptação teatral de the tell-tale heart, com o título de "o coração delator", para o teatro de câmera, em 1947.

segundo enaura quixabeira rosa e silva, "por inexplicável escrúpulo, lúcio cardoso apresenta [a peça] como de autoria de graça mello" (aqui, p. 147).

numa entrevista a sábato magaldi, porém, ele comenta:
... fundei com Agostinho Olavo e Gustavo Dória o “Teatro de Câmera”, que marcou a primeira reação contra o gênero “grande espetáculo” que “Os Comediantes” vinham impondo como gênero absoluto e que deu nascimento a essa série de teatrinhos íntimos e espetáculos mais ou menos fechados, atualmente tão em voga. O “Teatro de Câmera” deu-me sessenta contos de prejuízo e inúmeros dissabores. Mesmo assim, montei, num espetáculo inteiramente organizado por mim, O Coração Delator, de Edgar Poe. Foram tais atropelos que jurei não voltar tão cedo ao teatro. (in Junia N. Neves, aqui, p.63)
seria fascinante saber quais foram as soluções sonoras adotadas no palco para o deathwatch! aliás, lembrando a grandíssima amizade entre lúcio cardoso e clarice lispector, talvez não à toa a tradução e adaptação de the tell-tale heart feita por clarice, muitos anos depois, também se chame "o coração delator".
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16 de jul. de 2011

na oficina com mrs. dalloway

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comecei a traduzir mrs. dalloway, de virginia woolf, e criei uma espécie de diário de bordo: quem quiser acompanhar, o blog se chama traduzindo mrs. dalloway e está aqui.

imagem: manuscrito mrs. dalloway
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15 de jul. de 2011

da translação à tradução

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saiu o número 9 da revista scientia traductionis, da pós-gradução em estudos da tradução da ufsc. está disponível aqui, com muitos artigos valiosos.

um dos que mais me despertaram interesse foi o de antoine berman, em edição bilíngue, com tradução de marie-hélène torres e marlova assef: de la translation à la traduction (da translação à tradução). um dos aspectos históricos significativos levantados por berman diz respeito à prática renascentista da tradução como maneira de desenvolver o domínio da própria língua*: en fait, on apprend à écrire en traduisant. o artigo traz um belo painel da atividade tradutória entre o renascimento e o início da era moderna, uma exploração bastante convincente das conotações do radical ducere da palavra, as razões para a preservação do termo translation em inglês, a importância específica de algumas obras (como a poemata) e vários outros aspectos histórico-culturais em torno dessa atividade intelectual tão singular que é a tradução.

o artigo de berman está disponível para leitura e download aqui.

* embora a competente tradução de marie-hélène e marlova traga maîtrise de la langue, maîtrise du français como "matriz da língua", "matriz do francês", pessoalmente prefiro "domínio da língua", "domínio do francês".
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14 de jul. de 2011

falsos amigos II

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ricardo bada relata um caso muito divertido de um falso amigo que pegou nosso grande antônio callado:
Ahora bien, la historia más linda de las dos es una que me pasó personalmente cuando estaba chequeando las traducciones al alemán de García Márquez, por un común acuerdo del autor, la editorial y la traductora. Fue con El amor en los tiempos del cólera, y recuerdo que unos días antes de enfrentarme con los primeros capítulos de la traducción, tuvo lugar la Buchmesse, la feria del libro de Fráncfort, y allí, en el pabellón brasileño, descubrí un ejemplar de O Amor nos Tempos de Cólera, la novela de Gabo, traducida por otro gran novelista, Antonio Callado. Y me dije que sería bueno tenerlo a mano al estar chequeando la traducción de Dagmar Ploetz, buena amiga mía, para mirar las soluciones de Callado cuando ella y/o yo estuviésemos en dudas. ...
Dagmar Ploetz ... en este caso se limitó a subrayar una palabra y a poner varios signos de interrogación detrás:
Allí estaban las autoridades sin más protección contra el sol que los paraguas de diario, estaban las escuelas primarias agitando banderitas al compás de los himnos, las reinas de la belleza con flores achicharradas y coronas de cartón de oro, y ¿¿la papayera?? de la próspera población de Gayra, que era por aquellos tiempos la mejor de la costa Caribe.

¿Qué caramba era una «papayera»? Tampoco yo lo sabía entonces, pero releí el párrafo, hice mi composición de lugar (autoridades, escolares agitando banderitas al compás de los himnos, etc.) y me dije que debía de ser la banda de música. Seguro de que era eso, miré la traducción de Callado, donde decía:

Lá estavam as autoridades que só tinham como proteção contra o sol os guarda-chuvas do dia-a-dia, as escolas primárias agitando bandeirolas ao compasso dos hinos, as rainhas de beleza com flores esturricadas e coroas de papelão dourado, e gente da plantação de mamão da próspera localidade de Gayra, naqueles tempos a melhor da costa Caribe.

Me dije que fuera lo que fuese una papayera, con toda seguridad había algo que sí que no era: la gente de la plantación de papaya. Así es que llamé a Pacho Zumaqué, uno de los mejores compositores colombianos, y a la sazón agregado cultural en la embajada en Bonn, y el buen Pacho, que es de Montería, o sea, costeño, de la zona donde se desarrolla la novela de Gabo, a mi pregunta de qué era una papayera me contestó con una expresión que jamás olvidaré: «Un combo de chupacobres». O sea, lo que en alemán se traduciría como Blaskapelle, una banda de música compuesta de instrumentos de viento.
a íntegra do artigo está aqui.

imagem: google images
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13 de jul. de 2011

falsos amigos I

como compartilho da posição de julia escobar, publicada aqui, creio que podemos e devemos comentar nossos erros com serenidade, sem medo de ferir suscetibilidades. digo erros, não partidos adotados, não escolhas mais afortunadas ou menos afortunadas: erros mesmo. acho que é importante para o amadurecimento do ofício a médio e longo prazo, contribui para um processo de aprendizagem mais amplo, faz parte da ética profissional e é uma mostra de respeito pela principal instância à qual dedicamos tantos neuroninhos, que é o leitor.

eu começaria por uma família de erros que é simples, mas muito numerosa.

I.
faz parte do beabá do ofício de tradução a cautela que se deve ter com o chamado "falso amigo": é aquela palavra estrangeira que é muito parecida com outra palavra em português (ou outra língua qualquer), mas cujos sentidos são diferentes. podem ter a mesma origem etimológica e foram seus sentidos que seguiram rumos diversos, e nesses casos são "cognatos", ou podem ter origens distintas e seus sentidos sempre foram diferentes, e aí são "falsos cognatos" - de qualquer forma, cognatos ou não cognatos, deve-se desconfiar da amizade que eles nos oferecem com tanta prestimosidade.


falando aqui só do inglês para o português, eles existem às centenas, aos milhares, desde os mais descarados aos mais insidiosos. alguns exemplos bastante conhecidos: eventually, actual, relevance, evidence, ingenious, conceit, deception, (to be) partial e seus vários correlatos. isso no nível vocabular, mas existem amigos bem falsinhos também no nível sintático.

um exemplo mais propriamente sintático seria, digamos, what can be substituted for eggs when cooking? pode acontecer que algum tradutor, feliz da vida com uma frase tão facinha ou nem feliz, mas simplesmente sem se dar conta, ponha assim: "o que pode ser substituído por ovos na hora de cozinhar?" - na verdade, a pergunta é "o que pode substituir os ovos na hora de cozinhar?"

os falsos amigos que fazem a gente cair nessas esparrelas compõem um dos capítulos mais divertidos e mais embaraçosos dessa vida nossa de tradutor. alguns, a rigor, nem são falsíssimos, estão mais para hipócritas: um que não esqueço e jamais esquecerei é um intoxicated que pus como "intoxicado" (em vez de "embriagado", p.ex.) no belíssimo homens em tempos sombrios da hannah arendt, e que deve continuar circulando por aí em sua enésima edição. apesar do ditado "desgraça compartilhada é meia alegria", pouco consolo foi encontrar paulo rónai e aurélio buarque de hollanda usando também o mesmo infeliz "intoxicado" em algum conto do mar de histórias. bom, pelo menos a companhia é ilustre...

imagem: mango juice

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las meteduras de pata e os direitos do leitor

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lúcido artigo publicado em el trujamán:
Los derechos del lector

Por Julia Escobar

Decía Steiner que hay que aprender a traducir a través del tiempo. Creo que, de mejor o peor manera, es lo que hacemos ya todos. Somos deudores de nuestra tradición y de los que, antes que nosotros, abrieron las sendas por las que hoy transitamos. Por eso en traducción, como en cualquier otra profesión práctica, aprendemos de los errores, nuestros y ajenos, como puede aprender un ingeniero de caminos a rectificar una curva mal trazada por él mismo, o por otro.

Por eso no entiendo por qué muchos colegas se rasgan las vestiduras cuando se exponen a la luz las jugosas meteduras de pata que salpican tantas publicaciones. No se trata, como es natural, de cebarse en el malhadado traductor que la ha cometido, por el dudoso placer de reírse del torpe, sino en destacarla y señalarla para que no se vuelva a cometer jamás. Al impedir que se comente una mala traducción estamos haciendo un flaco favor a nuestra profesión, pues permitimos que funcione el peor de los corporativismos: el que sirve para enmascarar incompetencias y premiar nulidades. Además, y eso es todavía peor, contribuimos a estafar y engañar al verdadero destinatario de nuestro trabajo: el lector, el único que todavía no tiene establecidos sus derechos.
imagem: aqui
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aos senhores orientadores

uma doutoranda da usp pede informações biográficas sobre berenice xavier, em comentário aqui. informei o pouco que sei, mas a consulta me animou a a reiterar uma convicção que tenho faz algum tempo:

a contribuição da esquerda militante para a história da tradução no brasil durante o século 20 é preciosa, em quantidade impressionante e não raro com qualidade bastante respeitável.

seria, a meu ver, um tema de pesquisa excelente e realmente indispensável.
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6 de jul. de 2011

good girl

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sequência das traduções de kafka no brasil

sempre com o intuito de colaborar nessa ingente tarefa de reconstituir a trajetória de kafka no brasil, eu faria uma pequena retificação na seguinte passagem do artigo de sousa, brito e santos:
Manoel Paulo Ferreira e Syomara Cajado são os responsáveis por nova tradução de O processo em 1977.     A fonte não é mencionada e a publicação é de responsabilidade do Círculo do Livro (São Paulo). (p. 236)
em verdade, a tradução d' o processo feita por syomara cajado saiu em c.1972, pela editora paulista nova época. manoel paulo ferreira provavelmente foi o responsável pela revisão para a edição do círculo do livro.



veja também os vários posts reunidos em "pesquisa kafka", aqui.

imagem: aqui
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5 de jul. de 2011

o segundo ano de kafka no brasil

prosseguindo com essa difícil reconstrução da fortuna de kafka no brasil, apresentada no valioso artigo de sousa, brito e santos,* temos que:
Uma 2a tradução, Erstes Leid (traduzida como O artista do trapézio), vem a público em 1958, pela editora Cultrix, de autoria e fonte não mencionadas. O texto faz parte de uma antologia com o título Maravilhas do conto alemão, organizada por Diaulas Riedel. A seleção dos textos foi feita por Albert H. Widmann, com introdução e notas de Edgard Cavalheiro. Embora o tradutor não seja mencionado, há informações de que a tradução foi revista por T. Booker Washington, o que indica que o texto provavelmente também tenha sido traduzido a partir de edição inglesa. (pp. 232-33)
tentando contribuir, eu acrescentaria um ou dois pormenores.


a. essa coleção da cultrix em 24 volumes, com o título de maravilhas do conto x, y, z (aliás, bastante boa), concebida pelo falecido proprietário diaulas riedel, traz o nome de t. booker washington em vários deles: nas maravilhas do conto inglês, do conto italiano, do conto francês, do conto norte-americano, do conto russo, do conto universal... o que quero dizer é que, em vista disso, a presença do nome "t. booker washington" como revisor da tradução não indica que o texto de base fosse em inglês: como já afirmei em outro lugar (veja aqui), parece-me provável que seja apenas um pseudônimo usado por algum editor da casa na época - aliás, quem sabe se numa ressonância de booker t. washington, o ativista e pedagogo americano.

b. quanto ao responsável pela seleção desse volume de contos alemães da cultrix, não consegui localizar nenhuma referência a um "albert h. widmann" como antologista de kafka ou de qualquer outra coisa, seja em países de língua alemã ou de língua inglesa. eu não estranharia muito se fosse uma seleção nacional com nome istranjêro para ficar mais bonito.

c. o volume citado apareceu pela cultrix em 1957 (em 1958 talvez se trate de uma segunda edição).

d. finalmente, erstes leid traduzido como um artista do trapézio me evoca, em primeiro lugar e acima de tudo, a antiga tradução espanhola un artista del trapecio (publicada em nome de jorge luis borges, e que é toda uma outra novela do plagiarismo transnacional). vale notar que erstes leid foi publicado em inglês primeiro como first grief e depois, na tradução que se consagrou, como first sorrow - naturalmente, nada impede que um tradutor brasileiro resolvesse traduzir erstes leid ou first sorrow por um artista do trapézio. mas sinceramente me parece bem mais provável que a base dessa tradução publicada pela cultrix tenha sido mesmo un artista del trapecio.

de qualquer forma, esses dados da edição da cultrix parecem tão bizarros que mereceriam maiores pesquisas.

* veja aqui o primeiro kafka no brasil.

imagem: aqui
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4 de jul. de 2011

o primeiro kafka no brasil

como são impressionantes as lacunas sobre a história literária no brasil (digo "no", não "do"). estou pensando no caso de kafka, que começou a ser traduzido no país há cerca de cinquenta anos, com interposição do inglês e do espanhol, e só nas últimas décadas diretamente do alemão.

e mesmo assim, decorrido meio século apenas, é tremenda a dificuldade em reconstruir a trajetória de sua divulgação entre nós. transcrevo abaixo uma passagem de um artigo chamado "a recepção da obra de franz kafka no brasil", de celeste ribeiro de sousa, eduardo manoel de brito e maria célia ribeiro santos, publicado na revista pandemonium germanicum, 9/2005 (pp. 227-53, disponível aqui):
... a 1a obra de Kafka em tradução para o português do Brasil, realmente localizada, foi Die Verwandlung (A metamorfose) de 1956, uma tradução realizada por Brenno Silveira, e que marca o início da 1a fase. Trata-se de uma tradução efetuada a partir do texto em inglês, e publicada pela Civilização Brasileira no Rio de Janeiro. Essa tradução foi objeto de controvérsias. Enquanto Otto Maria Carpeaux, nos artigos “Romances proféticos” de 09.08. 1958 e “Livros que não há na mesa” de 13.06.1959, ambos publicados pelo jornal O Estado de São Paulo lamenta que nenhum texto de Kafka tenha sido traduzido no Brasil, estudiosos como João Barrento e Edgard Cavalheiro fazem referência em 1957 a essa tradução, desconhecida por Carpeaux. A própria editora Civilização Brasileira, em resposta à nossa solicitação de esclarecimentos, negou ter publicado tal tradução! Após várias buscas, contudo, dois exemplares deste texto controverso foram localizados no acervo de “Obras Raras” da Biblioteca Municipal Mário de Andrade em São Paulo, o que atesta a veracidade das informações de Barrento e Cavalheiro - a tradução de A metamorfose de 1956 realmente foi feita e existe.
eis a sobrecapa e a página de rosto da edição de 1956. foi uma edição de luxo, em tamanho grande (24,5 x 34,5), com sobrecapa e ilustrações em página inteira de walter lewy, com tiragem de 1.000 exemplares.



 

várias informações úteis sobre a edição e também sobre lewy podem ser encontradas no livro de celso cruz, metamorfoses de kafka (annablume/ fapesp, 2007, visualização aqui).
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tradutores e editoras III

o blog da cosac naify também traz algumas entrevistas de tradutores que publicam pela casa.
  • cláudio aquati, satíricon, aqui.
ou no próprio site da editora:
  • carlito azevedo, traduzindo pablo neruda, aqui
  • nicolau sevcenko, alice no país das maravilhas, aqui
  • rubens figueiredo, anna kariênina, aqui

2 de jul. de 2011

artigo

Why does — sometimes — the translated text take on a radiance which pushes the original work to another level altogether?
um artigo muito simpático de mini krishnan, phantom power of language, disponível aqui.

30 de jun. de 2011

tradutores e editoras II

a l&pm tem em seu site uma seção muito legal de entrevistas, várias delas com tradutores de obras publicadas
pela casa. por exemplo:
estas e outras entrevistas estão agrupadas aqui.
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29 de jun. de 2011

tradutores e editoras I

acho legal que a companhia das letras venha publicando textos de tradutores de obras lançadas pela casa. eis alguns:
  • alexandre barbosa de souza, orgulho e preconceito, de jane austen (aliás, com um ótimo vídeo com raquel sallaberry, do jane austen em português): aqui
  • rosa freire d'aguiar, os ensaios, de michel montaigne: aqui
  • paulo geiger, traduzindo amós oz: aqui
os posts da companhia das letras sobre as traduções estão agrupados aqui.

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28 de jun. de 2011

sim, não, muito pelo contrário

aliás, nessa história de tradução que troca negativa por afirmativa ou viceversa e outros erros de entendimento, além do caso do brenno em o grande gatsby que mencionei no último post, há um caso divertido em que tanto oscar mendes quanto josé paulo paes trocam as bolas: o gato preto, de edgar allan poe. o narrador está falando de sua esposa e diz a certa altura: my wife, who at heart was not a little tinctured with superstition... [not a little: não pouco, muito, bastante].


oscar mendes se saiu com "minha mulher, que no íntimo não tinha nem um pouco de superstição", e josé paulo paes com "minha mulher, que no íntimo não era nem um pouco supersticiosa". nessa brenno silveira não caiu e deu corretamente como "minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa".

em walden, fiz uma bobagem dessas em in a new country, fuel is an encumbrance: dei como "num país novo, combustível é um problema" (p. 71).

tal como nos outros casos, minha gafe também não engatava no contexto - pois thoreau está justamente dizendo que não é preciso se preocupar com o aquecimento das casas. foi só relendo o livro depois de impresso é que me veio num raio: pois claro, denise, que marcada! num país novo, com suas matas, a madeira - para se fazer lenha - é tanta que chega a atravancar! (numa eventual reedição, vou pedir que corrijam para algo como "num país novo, lenha é o que não falta" ou "lenha dá e sobra".)


em suma, às vezes a gente dá uns escorregões...

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