21 de abr. de 2009

le deuil

naturalmente o caro leitor se deu conta da calamidade referida no post aiaiai, e agora.

em se confirmando o plágio da hemus (1975) em cima da tradução de fernando de aguiar de a cidade antiga, de fustel de coulanges, essa praga adquire uma dimensão exorbitante. por várias razões:
- se quem faz um faz cem, isso obriga a checar as outras traduções em nome de jonas camargo leite (ao que parece, tradutor de livro único, a dita cidade antiga da hemus, que a bem dizer não é propriamente uma tradução) e de eduardo nunes fonseca.
- se uma editora publica traduções que não são propriamente traduções, isso obriga a conferir os demais títulos dessa editora, em nome de outros tradutores.
- se essa editora vende e sublicencia suas pseudotraduções para outras editoras, isso obriga a conferir o catálogo dessas outras editoras.

e, estando a editora há quase quarenta anos na praça, a coisa fica deveras alarmante. a pergunta básica, que qualquer criança faria, é: "mas então ninguém viu?" - ou, pior: "viram e pouco se importaram?". não interessa, o fato permanece.

então, recapitulando: a editora martin claret, responsável pela maior enxurrada de fraudes e plágios no mercado editorial de que há notícia na história do livro no brasil, tem em circulação a cidade antiga, de fustel de coulanges, em nome de "jean melville". um grupo de estudantes descobriu que era um plágio da edição da ediouro, em nome de jonas camargo leite e eduardo nunes fonseca. de minha parte, descobri que essa edição da ediouro, por sua vez, era reedição de um plágio da hemus em cima da clássica editora, de portugal.

se a coisa tivesse parado lá pelos anos 70, época da publicação da hemus, eu nem mexeria nisso. o problema é que essa fraude está aí próspera e viçosa, ainda em catálogo da hemus, licenciada para a ediouro (a qual declarou que vai tomar as providências cabíveis), e replagiada pelo intrépido claret, na mais autêntica ciranda com o joão-bobo do leitor no meio.

mas, nessa brincadeira, a perninha curta da mentira já começa a aparecer. eduardo nunes fonseca, o suposto cotradutor de a cidade antiga, assina pelo menos mais duas traduções pela hemus que TAMBÉM estão licenciadas para a ediouro, em sucessivas reedições. a saber: darwin, a origem das espécies, e émile zola, germinal. ainda esta semana apresentarei os cotejos clássica x hemus/ediouro (a cidade antiga) e vecchi x hemus/ediouro (germinal).

resta ver o que a ediouro fará. seria uma vergonha que o maior grupo editorial do país continuasse a abrigar lixo tóxico em seu catálogo.

imagens: o luto

20 de abr. de 2009

aiaiai, e agora

sempre achei a partenogênese uma idéia muito interessante. é a analogia que me ocorre quando vejo se multiplicarem traduções a partir da mesma tradução.



pois parece muita coincidência que uma frase simples como:
les grecs appelaient cet autel de noms divers [...]; ce dernier finit par prévaloir dans l'usage et fut le mot dont on désigna ensuite la déesse vesta
apareça como:
1. os gregos tinham vários nomes para designar este altar [...]; a última destas expressões prevaleceu no uso e foi a palavra pela qual mais tarde se designou a deusa vesta
2. os gregos tinham vários nomes para designar este altar [...]; a última destas expressões prevaleceu no uso e foi a palavra pela qual mais tarde se designou a deusa vesta
3. os gregos tinham vários nomes para designar este altar [...]; a última destas expressões prevaleceu no uso e foi a palavra pela qual mais tarde se designou a deusa vesta

ou
il y avait un jour de l'année, qui était chez les romains le 1er mars, où chaque famille devait éteindre son feu sacré et en rallumer un autre aussitôt
apareça como:
1. havia determinado dia no ano, entre os romanos o primeiro de março, no qual cada família devia apagar o seu fogo sagrado e reacender logo outro em seu lugar
2. havia determinado dia no ano, entre os romanos era o primeiro de março, no qual cada família devia apagar seu fogo sagrado e reacender logo outro em seu lugar
3. havia certo dia no ano, que entre os romanos era o primeiro de março, em que cada família devia extinguir o seu fogo sagrado para acender logo outro em seu lugar

ou
le repas était l'acte religieux par excéllence
surja como:
1. considerava-se a refeição como o ato religioso por excelência
2. considerava-se o repasto como o ato religioso por excelência
3. o banquete era considerado o ato religioso por excelência

ou
le dieu y présidait. c'était lui qui avait cuit le pain et préparé les aliments; aussi lui devait-on une prière au commencement et à la fin du repas
como:
1. o deus presidia. era o deus quem tinha cozido o pão e preparado os alimentos; por isso se lhe devia uma oração no começo e outra no fim da refeição
2. o deus presidia. era o deus quem tinha cozido o pão e preparado os alimentos; por isso se lhe devia uma oração no início e outra no fim da refeição
3. o deus presidia. era ele quem tinha cozido o pão e preparado os alimentos; por isso era-lhe devida uma oração no começo e outra no fim da refeição

ou
on peut donc penser que le foyer domestique n'a été à l'origine que le symbole du culte des morts
como:
1. é lícito julgar-se portanto ter sido o lar doméstico, na sua origem, considerado como expressão do culto dos mortos
2. é lícito julgar-se, portanto, ter sido o fogo doméstico, em sua origem, considerado como expressão do culto dos mortos
3. é lícito, pois, pensar ter sido o fogo doméstico, em sua origem, considerado como expressão do culto dos mortos

fustel de coulanges, a cidade antiga, nas seguintes traduções:*
1. fernando de aguiar, clássica editora, 1945
2. jonas camargo leite e eduardo nunes fonseca, hemus, 1975 (ediouro, 1985 em diante)
3. jean melville, martin claret, 2001 (com revisão de pietro nassetti, sic)

* como contraponto, ver a tradução de frederico ozanam pessoa de barros, editora das américas, 1961:
- Os gregos chamavam a esse altar de nomes diversos: bõmos, eschára, hestía; esse último acabou por prevalecer no uso, e foi a palavra pela qual passaram a designar a deusa Vesta.
- Havia um dia do ano, que entre os romanos era o 1.° de março, em que cada família devia extinguir o fogo sagrado, e acender imediatamente outro
- O banquete era o ato religioso por excelência, presidido pelo deus, que havia cozido o pão e preparado os alimentos; dirigiam-lhe também uma prece no princípio e no fim da refeição.
- Pode-se, pois, pensar que o fogo doméstico, na origem, nada mais foi que o símbolo do culto dos mortos
esses são só alguns exemplos ilustrativos, e depois apresentarei cotejos detalhados. aqui o que chama a atenção é a sequência: clássica -> hemus -> ediouro -> martin claret.

inicialmente, a pesquisa foi feita com as edições da claret e da clássica, e surgiram algumas coincidências improváveis. parecia ser uma malandragem tomando por base a tradução de fernando de aguiar. na sequência das pesquisas, porém, consultas à edição da hemus mostraram que ela parecia estar mais próxima da clássica do que a própria claret, e que a tradução de jonas camargo leite e eduardo nunes fonseca funcionava como ponte entre a de fernando de aguiar e a de jean melville. trocando em miúdos: havia elementos suficientes para sugerir a possibilidade de um plágio do plágio. acho que isso fica bem evidente nos exemplinhos dados acima.

então entrei em contato com a ediouro, para perguntar se por acaso andavam plagiando o fernando de aguiar, aliás reeditado várias vezes pela martins fontes pelo menos desde 1987, ou se tinham caído em algum conto do vigário. a posição da ediouro foi muito clara: não, não plagiaram, a empresa não é afeita a tais procedimentos. compraram em 1985 os direitos sobre a tradução da hemus, tomando-a por boa, e tinham o contrato em mãos. bom, a explicação me pareceu satisfatória - o que a ediouro vai fazer ou deixar de fazer com seu contrato, é problema dela. para nós leitores, o importante é o livro honesto - e aí vai ser um abacaxi: três edições da mesma obra com problema? ruim, hein?

imagens: www.biologie.uni-hamburg.de; http://lgollo.blog.terra.com.br
agradeço a joana canêdo por assinalar as soluções de frederico ozanam de barros

18 de abr. de 2009

viva o dia nacional do livro infanto-juvenil


monteiro lobato, reinações de narizinho em russo.

a agência de empregos da claret, parte II

o CITRAT (Centro Interdisciplinar de Tradução e Terminologia), da USP, em sua candidatura ao nosso hall of shame, tem despertado reações contrárias da parte de gente que ainda acredita em dignidade intelectual e que ainda acha que é bom ler as mensagens e se informar do teor delas antes de sair feito alucinado por aí, bombardeando pessoas inocentes com estranhas propostas.

a atual diretoria do CITRAT não se manifestou, uma ex-diretoria pretendeu me repreender pela divulgação do ocorrido, a secretaria alegou a ignorância de um bebê recém-nascido.

já do lado de cá do mundo, várias pessoas me enviaram e-mails ou deixaram comentários aqui no nãogosto, manifestando incredulidade, espanto, horror. posição muito digna também foi a de mamede jarouche, o famoso tradutor das mil e uma noites e docente do departamento de letras orientais da pilatusp: ele escreveu com muita calma e paciência à tal sandra nascida-ontem explicando os fatos do mundo e aconselhando vivamente o CITRAT a não se misturar com a turma martinclaretiana, pois pega muito mal.

é isso aí, dr. mamede: em tempos de tão aguda escassez de discernimento e clareza de idéias, quem dera se multiplicassem as honestas vozes do bom senso.

imagem: www.78sclub.com

17 de abr. de 2009

o citrat/usp agora é agência de empregos da claret?

inúmeros e inúmeros docentes da usp apoiam essa briga contra o plágio e a trapaça intelectual. mas já a usp enquanto instituição sempre me espanta. além de gestar teses elogiando as fraudes de pietro nassetti, além de volta e meia promover feiras de livros para as quais convida a plagiadora-mor do brasil, além de nunca, jamais ter emitido qualquer posição institucional contra as fraudes editoriais (ao contrário da unicamp e da ufrgs, por exemplo), agora seu centro de estudos de tradução, o CITRAT, parece ter entrado em "entendimentos por telefone" com a martin claret, envolvendo uma parceria tradutória com a dita cuja.

1. o CITRAT, além dos tais entendimentos telefônicos, resolveu enviar para toda a sua mala direta a proposta da martin claret:

A
CITRAT-USP
At. Sandra Cunha
Conforme entendimentos por telefone, a Editora Martin Claret está procurando bons tradutores, com o objetivo de pôr no mercado traduções cuidadosas, a partir da língua original. O projeto abrange obras de Niezstche [sic], clássicos gregos e latinos, literatura inglesa, francesa e russa.
Tendo conhecimento da excelência de alunos e professores desse Centro, gostaríamos de propor uma parceria que, certamente, iria contribuir grandemente para a divulgação da cultura em nosso país.
Atenciosamente,
Martin Claret
Diretor

2. até onde consigo entender, a usp é uma instituição pública, e não há autonomia universitária capaz de justificar alguma eventual pretensão sua de não ter que prestar contas de seus atos à sociedade. portanto escrevi ao CITRAT e a seu diretor, o prof. John Milton:

De: Denise Bottmann [mailto:dbottmann@uol.com.br] Enviada em: sexta-feira, 17 de abril de 2009 15:32Para: irene hirsch; john milton; citrat@usp.br

boa tarde
várias pessoas já me repassaram e-mails que têm recebido do CITRAT em nome da martin claret.
é realmente uma lástima que o CITRAT esteja se prestando ao papel de aliciador de tradutores para a referida editora.

denise bottmann

3. vinte minutos depois, recebo essa peróla:

From: CITRAT
To: 'Denise Bottmann'
Sent: Friday, April 17, 2009 3:52 PM

Desculpe Denise

Somente hoje fiquei sabendo o que ocorre com a Editora. Mas não estamos com parceria com eles. Apenas redirecionamos o email.

Boa tarde,
SANDRA CUNHA
CITRAT/FFLCH/USP
Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia da Universidade de São Paulo

4. só hoje ficou sabendo, dona sandra? é rotina normal do CITRAT que sua secretaria não repasse à sua diretoria as propostas de parceria que recebe, os entendimentos telefônicos a que chega? é normal que saia por aí aliciando tradutores cadastrados em sua mala direta sem o conhecimento da direção? pois certamente a direção sabe muito bem, e de longa data, "o que ocorre com a Editora". então de duas uma: ou a diretoria do CITRAT sabe e determinou à secretaria que fizesse circular a proposta da martin claret entre sua mala direta, ou a diretoria do CITRAT não sabe e a secretaria demonstrou grande e injustificada irresponsabilidade, além de ter passado seu atestado de ignorância.

imagem: www.toonpool.com

ufa, caiu a ficha!

Um acordão?

Postado por Galeno Amorim - 16/4/209
Dada a largada no debate sobre o que fazer com os livreiros independentes (iniciada com a apresentação de projeto de lei propondo a criação da lei do preço fixo, que já vigora em alguns países), a Associação Nacional de Livrarias acredita que as discussões possam ter outros desdobramentos. Em vez de uma legislação aprovada no Legislativo, por exemplo, já admite conversar sobre a possibilidade de um acordo no próprio setor envolvendo as outras entidades do livro.

gosto muito da libre, a liga brasileira de pequenas e médias editoras independentes. ela tem uma excelente posição em defesa da bibliodiversidade, adota perspectivas inovadoras, é moderna, arejada, reúne editores de alta qualidade, promove eventos ótimos como a primavera dos livros.

achei uma pena que ela parecesse ter embarcado acriticamente na proposta da anl, que abriga grandes e tradicionais livrarias, tipo saraiva, siciliano, nobel, leitura etc. para criar uma reserva de mercado no setor, tabelando o livro por seu preço cheio e acabando com descontos e promoções para os leitores.

fiquei confusa, e acabei achando que a libre poderia demarcar de maneira mais explícita os limites de seu apoio à proposta do preço fixo cheio do livro. pois não por acaso boa parte das supostas pequenas e médias livrarias associadas à anl são também editoras que, aliás, não compartilham propriamente o perfil dos associados da libre. a impressão que dá é que na proposta do preço cheio da anl estão mesclados interesses editoriais incrustados, cuja principal preocupação é a participação cada vez maior do capital internacional no setor -interesses estes que se apresentam ao público e mesmo dentro do mundo do livro sob a fachada dos problemas específicos enfrentados pelo segmento livreiro de pequeno e médio porte.

então é evidente que a briga é outra, e que a tentativa de instrumentalizar a difícil situação das livrarias realmente médias e pequenas em favor de uma proposta que atende basicamente a interesses de tradicionais editoras, apenas prejudica e penaliza os leitores, e dificilmente conseguirá despertar muita simpatia entre a sociedade.

a nota de galeno amorim parece sinalizar que a anl está começando a colocar a discussão onde deveria ter sido colocada desde o começo: não no legislativo, e sim dentro de seu próprio setor, abrindo-se para vários desdobramentos interessantes. aí sim ela poderá ser profícua e até conquistar maior apoio em geral.

imagem: www.alterinfo.net

pensadores, pascal

o pobre pascal já tinha sido garfado pela martin claret. a notória copiou a tradução de leonel vallandro, publicada pela globo/mec, e tascou-lhe um nassetti básico.

já a nova cultural, na coleção os pensadores a cargo da dona janice florido, preferiu pichelingar sérgio milliet (difel, depois pensadores da abril). e assim foi que o nariz da cleópatra ficou a cargo de uma tal "olívia bauduh".

no começo, o copidesque de plantão até tentou fazer jus a uns trocos:

milliet:
[5] Os que julgam sem regras uma obra estão em relação aos outros como os que não têm relógios, em relação aos demais. Um diz: "Já passaram duas horas", o outro : "Passaram apenas três quartos de hora". Olho o meu relógio, e digo a um: "Você está se aborrecendo", e a outro: "O tempo anda depressa para você, pois passou hora e meia". E zombo dos que dizem que o tempo custa a passar para mim, e que julgo pela imaginação: não sabem que julgo pelo meu relógio.

bauduh:
[5] Aqueles que sem regras julgam uma obra estão, para os demais, como os que não possuem relógios em relação aos outros. Um fala: "Passaram-se já duas horas", o outro : "Passaram-se somente três quartos de hora". Consulto meu relógio e digo a um: "Você está se aborrecendo", e a outro: "O tempo anda rapidamente para você, pois passou-se hora e meia". E zombo dos que pensam custar o tempo a passar, para mim, e que julgo pela imaginação: desconhecem que julgo por meu relógio.

depois o fulaninho deve ter cansado da brincadeira e foi tomar um café na esquina.

milliet:[140] Esse homem tão abatido com a morte de sua mulher e de seu único filho e sujeito ao tormento de tão grande dor, por que não está triste neste momento, e o vemos tão isento destes pensamentos penosos e inquietantes? Não há motivo para estranharmos: acabam de entregar-lhe uma bola e cabe-lhe atirá-la a seu companheiro, e ei-lo a pegá-la de modo a marcar um
ponto.

bauduh:
[140] Esse homem tão abatido com a morte de sua mulher e de seu único filho e sujeito ao tormento de tão grande dor, por que não está triste neste instante, e o vemos tão desprovido de tais pensamentos dolorosos e inquietantes? Não há por que estranhar: acabam de entregar-lhe uma bola e cabe-lhe atirá-la a seu companheiro, e ei-lo a pegá-la de modo a marcar um ponto.

milliet:
[141] Ocupam-se os homens com uma bola ou uma lebre; esse é o prazer, inclusive para os reis.

bauduh:
[141] Ocupam-se os homens com uma bola ou uma lebre; é esse o prazer, inclusive para os reis.

milliet:
[162] Quem quiser conhecer por completo a vaidade do homem não tem senão que considerar as causas e os efeitos do amor. A causa é um não sei o quê (Corneille) e os efeitos são espantosos.
Esse não sei o quê, tão pouca coisa que não se pode reconhecê-lo, revolve toda a terra, os príncipes, os exércitos, o mundo inteiro.
Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado.

bauduh:
[162] Quem quiser conhecer por inteiro a vaidade do homem não tem senão que considerar as causas e os efeitos do amor. A causa é um não-sei-quê (Corneille) e os efeitos são assombrosos. Esse não-sei-quê, tão pouca coisa que não se pode reconhecê-lo, revolve toda a terra, os príncipes, os exércitos, o mundo inteiro.
Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado.

milliet:
[233] Vejamos. Já que é preciso escolher, vejamos o que menos vos interessa. Tendes duas coisas a perder: a verdade e o bem; e duas coisas a empenhar: vossa razão e vossa vontade, vosso conhecimento e vossa beatitude; e vossa natureza tem que fugir de duas coisas: o erro e a miséria. Vossa razão não se sentirá mais atingida por terdes escolhido uma coisa de preferência a outra, já que é preciso necessariamente escolher. Eis um ponto liquidado. Mas, vossa beatitude? Pesemos o ganho e a perda escolhendo a cruz, que é Deus. Consideremos esses dois casos: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, não perdereis nada. Apostai, pois, que ele existe, sem hesitar.

bauduh:
[233] Vejamos. Uma vez que é necessário escolher, vejamos o que menos vos interessa. Tendes duas coisas a perder: a verdade e o bem; e duas coisas a empenhar: vossa razão e vossa vontade, vosso conhecimento e vossa beatitude; e vossa natureza tem que fugir de duas coisas: o erro e a miséria. Vossa razão não se sentirá mais atingida por terdes escolhido uma coisa de preferência a outra, pois é preciso necessariamente escolher. Eis um ponto liquidado. Mas, e vossa beatitude? Pesemos o ganho e a perda escolhendo a cruz, que é Deus. Consideremos esses dois casos: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, não perdereis nada. Apostai, pois, que ele existe, sem hesitação.

milliet:
[245] Há três meios de crer: a razão, o costume, a inspiração. A religião cristã, que é a única que tem razão, não admite como verdadeiros filhos os que crêem sem inspiração: não que exclua a razão e o costume, ao contrário; mas é preciso abrir o espírito às provas, assegurar-se destas pelo costume, oferecer-se pelas humilhações às inspirações, que são as únicas que podem produzir o verdadeiro e salutar efeito: Ne evacuetur crux Christi.

bauduh:
[245] Existem três meios de acreditar: a razão, o costume, a inspiração. A religião cristã, [] a única que tem razão, não admite como verdadeiros filhos os que crêem sem inspiração: não que exclua a razão e o costume, ao contrário; no entanto, é preciso abrir o espírito às provas, delas assegurar-se pelo costume, mas ofertar-se, pelas humilhações, às inspirações, que são as únicas que podem produzir o verdadeiro e salutar efeito: Ne evacuetur crux Christi.

milliet:
[294] Haverá algo mais divertido do que um homem ter direito de me matar porque mora do outro lado das águas, e porque o seu príncipe tem uma questão com o meu, embora eu nada
tenha contra ele?

bauduh:
[294] Haverá algo mais divertido do que um homem ter direito de me matar porque mora do outro lado das águas, e porque o seu príncipe tem uma questão com o meu, embora eu nada tenha contra ele?

milliet:
[331] [Platão e Aristóteles] Se escreveram sobre política, foi como para pôr ordem num hospício; e, se fizeram menção de falar dela como de uma grande coisa, é que sabiam que os loucos a que falavam julgavam-se reis e imperadores; entravam nos seus princípios para moderar a loucura deles na medida do possível.

bauduh:
[331] Se [Platão e Aristóteles] escreveram sobre política, foi como para pôr em ordem um hospício; e, se fizeram menção de falar dela como de uma grande coisa, é que sabiam que os loucos a que falavam julgavam ser reis e imperadores; entravam nos seus princípios para moderar a loucura deles na medida do possível.

milliet:
[543] As provas metafísicas de Deus acham-se tão afastadas do raciocínio dos homens e tão embrulhadas que pesam pouco; e, mesmo que isso servisse para alguns, serviria apenas durante o instante em que vissem essa demonstração; mas, uma hora depois, receariam ter-se enganado.

bauduh:
[543] As provas metafísicas de Deus encontram-se tão apartadas do raciocínio dos homens e tão embrulhadas que pesam pouco; e, mesmo que isso valesse para alguns, somente valeria no instante em que vissem essa demonstração; uma hora depois, entretanto, receariam ter-se enganado.

é mais uma daquelas famosas "traduções feitas por renomados estudiosos e com acabamento primoroso" que a nova (in)cultural impinge desde 1999 até hoje ao incauto leitor. mas, como dizem, who cares?


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


atualização: aliás, a própria tradução de milliet é suspeitíssima, conforme alertou paulo rónai.


imagens: http://candimba.blogspot.com; www.historicprintandmap.com

16 de abr. de 2009

nossa homenagem

em abril há vários "dias do livro".

dia 2 é o dia internacional do livro infanto-juvenil (dia em que nasceu hans christian andersen).
dia 18 é o dia nacional do livro infantil (dia em que nasceu monteiro lobato).
dia 23 é o dia mundial do livro e do direito autoral (do autor, não do copirraite!), instituído pela unesco porque juntou um monte de gente nesse dia: morreram shakespeare e cervantes, mas também nasceram nabokov, druon, vallejo e outros mais.

então, em homenagem ao grande paladino brasileiro do livro e do direito do autor, martin claret, apresentamos à direita uma mostra da superprodução de seus fiéis colaboradores. começamos, como não poderia deixar de ser, com pietro nassetti.

viva a martin, viva a fbn/isbn, vivam as feiras do livro da usp, vivam todas as escolas com suas teses e ementas de curso martinescas, vivam todos os solidários claretianos! viva brasil!

em tempo: agradecemos à livraria cultura e às livrarias curitiba. todas as imagens do slideshow com uma parte da superprodução nassettiana provêm de seus sites. viva a elas também!

obs.: no caso das obras com discrepância de dados entre o isbn/fbn e o exemplar impresso, as imagens são apenas a título ilustrativo e trazem a legenda "chapa fria".

15 de abr. de 2009

e dá-lhe fajutagem

da série "me engana que eu gosto":

de 14 a 16 de abril, a feira de livros da usp leste, com a presença de mais de 50 editoras e descontos de 50% no preço das obras, conta também com a indefectível banquinha claretiana.

ao que consta, o convite partiu da comissão organizadora da feira. escrevi perplexa à usp, várias diretorias e pró-reitorias. mas, com uma comissão dessas, quem há de estranhar algumas maluquices intelectuais que depois acontecem nos cursos e teses da usp?

imagem: http://www.pipette.w1host.org/

14 de abr. de 2009

e-books

joana canêdo deixou um comentário muito pertinente em e a arte, onde fica?

reproduzo: "Notei que o site do domínio público tem como uma de suas instituições parceiras a CultVox ('os melhores e-livros da internet'). Eles têm uma seção de downloads gratuitos, que inclui vários clássicos, porém não há qualquer menção sobre a tradução ou o tradutor. Quando indaguei o suporte deles sobre isso eles me responderam que 'os e-livros grátis são doados de forma voluntária e não costumamos indagar sobre a tradução'."

sim, a grandíssima maioria dos e-books em tradução para download gratuito não costuma trazer o nome do tradutor. além disso, a grandíssima maioria dos e-books em tradução para download gratuito, mesmo muitos que estão no portal do mec, não está em domínio público.

acho o tema muito interessante porque se imbricam aí questões delicadas e pouco tratadas. não é uma simples questão abdrística de achar que é "pirataria". o próprio governo reconhece a sensatez de disponibilizar em seu portal obras traduzidas há mais de vinte, trinta, cinquenta anos, e muitas vezes esgotadas no mercado. as editoras que estão sentadas em cima desses direitos de publicação, mofando em seus baús, não protestam contra a disponibilização desses e-books, e deixam circular livremente. é como se fosse um mundo paralelo.


por outro lado, a grande maioria desses e-books não traz nome de tradutor em parte por acharem irrelevante, mas sobretudo como forma de se resguardarem. eis um trecho do comentário de um docente sobre esse fenômeno: "Recentemente recebi um e-mail de um aluno com um link para uma entrevista de Foucault na internet. Fui conferir o link em um site chamado scribd.com [...]. Lá encontrei uma entrevista de Foucault em português com cento e tantas páginas, mas sem identificação do autor da entrevista, do tradutor, do editor original. E mais: quem pirateou o texto declarava que havia suprimido propositalmente essas informações para dificultar a identificação do original".

então entendo a coisa mais ou menos assim: fica uma espécie de ameaça difusa no ar de que isso seria pirataria; por outro lado, as pessoas querem compartilhar e compartilham mesmo; por outro lado ainda, os detentores desses direitos aceitam, com seu silêncio, esse compartilhamento digital; finalmente, o governo dá seu aval incluindo muitas dessas obras em seu portal. não se pode dizer que seja "pirata": afinal todos os envolvidos estão de acordo, seja pelo silêncio, seja pela iniciativa, seja pelo aval dado. mas sobre essas obras continua a pairar o fantasma da ilegalidade, prejudicial para todos. afora a desinformação para o público, para os pesquisadores é uma via crúcis tentar descobrir editor, tradutor etc. dessas obras.

uma saída puntual seria pedir uma espécie de legalização do "usucapião" desses e-books, de forma que ninguém seja penalizado, e que se possam incluir os dados de identificação faltantes. outra possibilidade, e de maior alcance, seria que a legislação finalmente autorizasse a disponibilização digital sem fins lucrativos, para a sociedade, de obras esgotadas há mais de 3/5 anos, conforme sugestão do grupo de estudos da fgv.

em tempo: há coisa de um ano atrás contatei o minc, o mec e o cultvox sobre esse problema. a troca de correspondência se encontra aqui.

imagem: http://diariosdabicicleta.blogspot.com

13 de abr. de 2009

... não fica


a parte trágica da poética clareto-nasettiana promove seus workshops e oficinas literárias nos acervos de bibliotecas, ementas de curso, teses, artigos etc.

é a fraude aristotelando por aí, e o público nem tem direito a catarse alguma.

http://www4.mackenzie.com.br/fileadmin/Pos_Graduacao/Doutorado/Letras/Cadernos/Volume_4/009.pdf www.revistafenix.pro.br/PDF10/ARTIGO7.SECAO%20LIVRE.Ana.Teresa.Contier.pdf
www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/1843/ALDR-6WEKBT/1/versao_final_junho.pdf
www.fasete.edu.br/arquivos/file/secretaria/2008/Planos_de_Curso20082/Letras/1º/Teoria%20da%20Literatura%20I.pdf http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faced/article/view/3545/2764
www.contemporanea.uerj.br/pdf/ed_07/04RAFAEL&MARCOS.pdf http://websmed.portoalegre.rs.gov.br/escolas/montecristo/simone/edipo.doc http://www6.mackenzie.br/inicie/1/SilvioDias.pdf. www.fdj.com.br/graduacao/filosofia/ementario_e_bibliografia_filosofia.pdf www.ip.usp.br/laboratorios/lapa/versaoportugues/2c4a.pdf http://irece.ba.gov.br/livros.pdf.
http://publique.rdc.puc-rio.br/revistaalceu/media/alceu_n12_Freire.pdf
http://tede.pucrs.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1459
http://esade.phlnet.com.br/cgi-bin/wxis.exe?IsisScript=phl8/003.xis&cipar=phl8.cip&bool=exp&opc=decorado&exp=ARTE&code=&lang=
http://bch.phlnet.com.br/cgi-bin/wxis.exe?IsisScript=phl8/003.xis&cipar=phl8.cip&bool=exp&opc=decorado&exp=ARISTOTELES&code=&lang= http://esmac.phlnet.com.br/cgi-bin/wxis.exe?IsisScript=phl8/003.xis&cipar=phl8.cip&bool=exp&opc=decorado&exp=POETICA&code=&lang= www.abralic.org.br/cong2008/AnaisOnline/simposios/pdf/082/AMILTON_QUEIROZ.pdf http://artigocientifico.uol.com.br/uploads/artc_1150213537_75.pdf
http://libdigi.unicamp.br/document/?code=vtls000380274
www.intv.cefetce.br/connepi/viewpaper.php?id=1354 www.ufpe.br/pgletras/2006/dissertaoes/diss-savio-roberto.pdf www.filosofianocotidiano.com.br/programa-filosofia-no-cotidiano-livros.php www.dibib.ufsj.edu.br/dibib/principal/resultadofinal.pdf www.filologia.org.br/cluerj-sg/anais/v/completos%5Ccomunicacoes%5CVinicius%20Carvalh... www.llv.cce.ufsc.br/ProjetoPedagSet2006.pdf http://tede.biblioteca.ucg.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=82
http://ibict.metodista.br/tedeSimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1818
www.letraseletras.ileel.ufu.br/include/getdoc.php?id=384&article=101&mode=pdf
http://dspace.c3sl.ufpr.br/dspace/bitstream/1884/13432/1/disserta%C3%A7%C3%A3ogiorgia.pdf
www.estacio.br/publicacoes/redeletras/rededeletrasmar08.pdf www.fflch.usp.br/df/site/posgraduacao/2006_mes/Fernando_Gazoni_A_Poetica_de_Aristoteles.pdf www.unesp.br/prograd/ix%20cepfe/Arquivos%202007/6CGerarPD.pdf http://bdtd.bce.unb.br/tedesimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=925
http://bdtd.bce.unb.br/tedesimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=2861
http://ibict.metodista.br/tedeSimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1171
www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/cgi-bin/PRG_0599.EXE/7001_8.PDF?NrOcoSis=19920&CdLinPrg=pt www.tede.ufsc.br/teses/PLIT0284-D.pdf www.letras.ufrj.br/posverna/mestrado/SoaresMP.pdf www.sapientia.pucsp.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=2714 www.bdtd.ndc.uff.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=905 www.letras.ufmg.br/hispanistas/hot/literatura_espanhola.pdf www.bibliotecadigital.ufba.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=593


imagem: klaus kinski, nosferatu, google images; knockout, msn emoticon

e a arte, onde fica?

eu já tinha comentado um caso que me parece paradigmático dos prejuízos que a editora martin claret causa à vida do intelecto.

fiquei devendo a demonstração do plágio: aqui vai ela. trata-se de aristóteles, arte poética, traduzido por antônio pinto de carvalho, publicado pela difel (1958, com várias reedições) e depois pela ediouro. além disso, a edição da claret pilhou o cuidadoso índice onomástico da edição dos pensadores, abril cultural, elaborado por eudoro de souza. aliás, o perfil biográfico na claret é cópia da introdução dessa mesma edição dos pensadores da abril, com consultoria de josé américo pessanha - tudo, naturalmente, atribuído a pietro nassetti.*

*aliás, às vezes eu me indago o que fazem os vários revisores mencionados nos créditos dos plágios da claret. revisam o quê, acompanhando com o quê?

1. antônio pinto de carvalho

CAPÍTULO I
Da poesia e da imitação segundo os meios, o objeto e o modo de imitação

1. Nosso propósito é abordar a produção poética em si mesma e em seus diversos gêneros, dizer qual a função de cada um deles, e como se deve construir a fábula visando a conquista do belo poético; qual o número e natureza de suas diversas partes, e também abordar os demais assuntos relativos a esta produção. Seguindo a ordem natural, começaremos pelos pontos mais importantes.
2. A epopéia e a poesia trágica, assim como a comédia, a poesia ditirâmbica, a maior parte da aulética e da citarística, consideradas em geral, todas se enquadram nas artes de imitação.
3. Contudo há entre estes gêneros três diferenças: seus meios não são os mesmos, nem os objetos que imitam, nem a maneira de os imitar.
4. Assim como alguns fazem imitações em modelo de cores e atitudes — uns com arte, outros levados pela rotina, outros com a voz –, assim também, nas artes acima indicadas, a imitação é produzida por meio do ritmo, da linguagem e da harmonia, empregados separadamente ou em conjunto.
5. Apenas a aulética e a citarística utilizam a harmonia e o ritmo, mas também o fazem algumas artes análogas em seu modo de expressão; por exemplo, o uso da flauta de Pã.
6. A imitação pela dança, sem o concurso da harmonia, tem base no ritmo; com efeito, é por atitudes rítmicas que o dançarino exprime os caracteres, as paixões, as ações.
7. A epopéia serve-se da palavra simples e nua dos versos, quer mesclando metros diferentes, quer atendo-se a um só tipo, como tem feito até ao presente.
8. Carecemos de uma denominação comum para classificar em conjunto os mimos de Sófron e de Xenarco,
9. as imitações em trímetros, em versos elegíacos ou noutras espécies vizinhas de metro.
10. Sem estabelecer relação entre gênero de composição e metro empregado, não é possível chamar os autores de elegíacos, ou de épicos; para lhes atribuir o nome de poetas, neste caso temos de considerar não o assunto tratado, mas indistintamente o metro de que se servem.
11. Não se chama de poeta alguém que expôs em verso um assunto de medicina ou de física! Entretanto nada de comum existe entre Homero e Empédocles, salvo a presença do verso. Mais acertado é chamar poeta ao primeiro e, ao segundo, fisiólogo.
12. De igual modo, se acontece que um autor, empregando todos os metros, produz uma obra de
imitação, como fez Querémon no Centauro, rapsódia em que entram todos os metros, convém que se lhe atribua o nome de poeta. É assim que se devem estabelecer as definições nestas matérias.
13. Há gêneros que utilizam todos os meios de expressão acima indicados, isto é, ritmo, canto, metro; assim procedem os autores de ditirambos, de nomos, de tragédias, de comédias; a diferença entre eles consiste no emprego destes meios em conjunto ou em separado.
14. Tais são as diferenças entre as artes que se propõem a imitação.

CAPÍTULO II
Diferentes espécies de poesia segundo os objetos imitados

Como a imitação se aplica aos atos das personagens e estas não podem ser senão boas ou ruins (pois os caracteres dispõem-se quase nestas duas categorias apenas, diferindo só pela prática do vício ou da virtude), daí resulta que as personagens são representadas melhores, piores ou iguais a todos nós.
2. Assim fazem os poetas: Polignoto pintava tipos melhores; Páuson, piores; e Dionísio, iguais a nós.
3. É evidente que cada uma das imitações de que falamos apresentará estas mesmas diferenças, e também alguns aspectos exclusivos delas, porém inseridos na classificação exposta.
4. Assim na dança, na aulética, na citarística, é possível encontrar estas diferenças;
5. e também nas obras em prosa, nos versos não cantados. Por exemplo, Homero pinta o homem melhor do que é; Cleofonte, tal qual é; Hegémon de Tasso, o primeiro autor de paródias, e Nicócares, em sua Delíade, o pintam pior.
6. O caráter da imitação também existe no ditirambo e nos nomos, havendo neles a mesma variedade possível, como em Os persas e Os ciclopes de Timóteo e Filóxeno.
7. É também essa diferença o que distingue a tragédia da comédia: uma se propõe imitar os homens, representando-os piores; a outra os torna melhores do que são na realidade.

CAPÍTULO III
Diferentes espécies de poesia segundo a maneira de imitar

Existe uma terceira diferença em relação à maneira de imitar cada um dos modelos.
2. Com efeito, é possível imitar os mesmos objetos nas mesmas situações e numa simples narrativa, seja pela introdução de um terceiro personagem, como faz Homero, seja insinuando-se a própria pessoa sem que intervenha outro personagem, ou ainda apresentando a imitação com a ajuda de personagens que vemos agirem e executarem as ações elas próprias.
3. A imitação é realizada segundo esses três aspectos, como dissemos no princípio, a saber: os meios, os objetos, a maneira.
4. Sófocles, por um lado, imita à maneira de Homero, pois ambos representam homens melhores; entretanto ele também imita à maneira de Aristófanes, visto ambos apresentarem a imitação usando personagens que agem perante os espectadores.. Daí que alguns chamem a essas obras dramas, porque fazem aparecer e agir as próprias personagens.
5. Disto procede igualmente que os dórios atribuem a si a invenção da tragédia e da comédia; e os megarenses também se arrogam a invenção da comédia, como fruto de seu regime democrático; e além desses, também os sicilianos se acham inventores da comédia, por serem compatriotas do poeta Epicarmo, que viveu muito antes de Crônidas e de Magnete. A criação da comédia é também reclamada pelos peloponésios, que invocam os nomes usados para denominá-la com palavras de seu dialeto, para argumentar ser esta a razão por que a comédia é invenção deles.
6. Pretendem que entre eles a aldeia se chama cvma, enquanto os atenienses a denominam dhmoz , donde resulta que os comediantes derivam o nome da comédia, não do verbo cwmazeiu (celebrar uma festa com danças e cantos), mas de outro fato: por serem desprezados na cidade, eles andam de aldeia em aldeia.
Quanto ao verbo agir, que entre eles se diz drau, os atenienses exprimem-no por pratteiu.
7. É bastante o dito, sobre as diferenças da imitação, quanto a seu número e natureza.

disponível no portal do domínio público do mec


2. pietro nassetti (who else?)


CAPÍTULO I
Da poesia e da imitação segundo os meios, o objeto e o modo de imitação

Propomo-nos tratar da produção poética em si mesma e de seus diversos gêneros, dizer qual a função de cada um deles, como se deve construir a fábula, no intuito de obter o belo poético; qual o número e natureza de suas diversas partes, e falar igualmente dos demais assuntos relativos a esta produção. Seguindo a ordem natural, começaremos pelos [] mais importantes. A epopéia e a poesia trágica, e também a comédia, a poesia ditirâmbica, a maior parte da aulética e da citarística, consideradas em geral, todas se enquadram nas artes de imitação. Contudo há entre estes gêneros três diferenças: seus meios não são os mesmos, nem os objetos que imitam, nem a maneira de os imitar. Do mesmo modo que alguns fazem imitações segundo um modelo com cores e atitudes — uns com arte, outros levados pela rotina, outros com a voz; assim também, nas artes acima indicadas, a imitação é produzida por meio do ritmo, da linguagem e da harmonia, empregados separadamente ou em conjunto. Utilizam a harmonia e o ritmo só a aulética e a citarística, bem como as demais artes análogas em seu modo de expressão, por exemplo, a flauta de Pã. No ritmo, sem o concurso da harmonia, consiste a imitação pela dança; com efeito, é por atitudes rítmicas que o dançarino exprime os caracteres, as paixões, as ações. A epopéia serve-se unicamente da palavra simples e nua dos versos, quer mesclando diferentes metros, quer atendo-se a um só tipo, como o tem feito até ao presente. Carecemos de uma denominação comum para classificar em conjunto os mimos de Sófron e de Xenarco, as imitações em trímetros, em versos elegíacos ou noutras espécies de metro vizinhas. A não ser estabelecendo uma relação entre tal gênero de composição e o metro empregado, não se denominam os autores ou elegíacos ou épicos; dando-lhes este nome de poetas, não segundo o assunto tratado, mas indistintamente segundo o metro de que se servem. Não acontece que, por se ter exposto em verso um assunto de medicina ou de física, se é chamado correntemente de poeta! Entretanto nada de comum existe entre Homero e Empédocles, salvo a presença do verso. Mais acertado é chamar poeta ao primeiro e, ao segundo, fisiólogo, mais do que poeta. De igual modo, se acontece que um autor, empregando todos os metros, produz uma obra de imitação, como fez Querémon no Centauro, rapsódia em que entram todos os metros, convém que se lhe atribua o nome de poeta. É assim que nestas matérias se devem estabelecer as definições. Há gêneros que se utilizam de todos os meios de expressão acima indicados, isto é, do ritmo, do canto, do metro; assim procedem os autores de ditirambos, de nomos, de tragédia, de comédias; a diferença entre eles consiste no emprego destes meios em conjunto ou em separado. Tais são as diferenças entre as artes que se propõe a imitação.

CAPÍTULO II
Diferentes espécies de poesia segundo os objetos imitados

Como a imitação se aplica aos atos das personagens e estes não podem ser senão bons ou maus (pois os caracteres dispõem-se quase só nestas duas categorias, diferindo apenas pela prática do vício ou da virtude), daí resulta que as personagens são representadas ou melhores ou piores ou iguais a todos nós. Assim fazem os poetas: Polignoto pintava tipos melhores; Páuson, piores; e Dionísio, tais quais são. 3. É evidente que cada uma das imitações de que falamos apresentará estas mesmas diferenças, e também [] aspectos diversos segundo esta variedade. Assim na dança, na aulética, na citarística, é possível encontrar estas diferenças e também nas obras em prosa, nos versos não cantados; por exemplo, Homero pinta o homem melhor do que é; Cleofonte, tal qual é; Hegémon de Taso, o primeiro autor de paródias, e Nicócares, em sua Delíade, o pintam pior. O mesmo caráter da imitação [] no ditirambo e nos nomos, e a mesma possibilidade de imitação, como em Os persas e Os ciclopes de Timóteo e de Filóxeno. A mesma diferença [] distingue a tragédia da comédia: uma propõe-se imitar os homens, representando-os piores, a outra [] melhores do que são na realidade.

CAPÍTULO III
Diferentes espécies de poesia segundo a maneira de imitar

Existe uma terceira diferença, segundo a maneira de imitar cada um dos modelos. Com efeito é possível imitar os mesmos objetos nas mesmas situações, numa simples narrativa ou pela introdução de um terceiro [], como faz Homero, ou insinuando-se a própria pessoa sem que intervenha outra personagem, ou ainda apresentando a imitação com a ajuda de personagens que vemos agirem e executarem as ações elas próprias. A imitação produz-se segundo esses três modos, como dissemos ao princípio, a saber: os meios, os objetos, a maneira. Sófocles, de um lado, imita à maneira de Homero, pois ambos representam homens melhores; de outro lado, ele também imita à maneira de Aristófanes, visto ambos apresentarem a imitação por personagens em ação diante de nós. Daí vem que alguns chamam a essas obras dramas, porque fazem aparecer e agir as próprias personagens. Daí procede igualmente que os dórios atribuem a si a invenção da tragédia e da comédia; os megarenses se arrogam a invenção da comédia, como fruto de seu regime democrático, e também os sicilianos, enquanto compatriotas do poeta Epicarmo, que viveu muito antes de Crônidas e de Magnete. A [] comédia é também reclamada pelos peloponésios, que invocam a semelhança dos nomes []. Pretendem que entre eles a aldeia se chama κομα, ao passo que os atenienses a denominam δεμοσ , donde resulta que os comediantes derivam o nome da comédia, não do verbo κομαχειν (celebrar uma festa com danças e cantos), mas de que, por serem desprezados na cidade, andam de aldeia em aldeia. Quanto ao verbo agir, que entre eles se diz δραν, os atenienses exprimem-no por πραττειν. Baste o dito, acerca das diferenças da imitação, quanto a seu número e natureza.

quanto ao índice onomástico ao final da edição clareto-nassettiana, é cópia pura e simples de eudoro de souza. o índice de eudoro é elaboradíssimo e fica até engraçado no livreco claretiano.

o bizarro é que as notas de rodapé de antônio pinto de carvalho, embora muito mais simples que as de eudoro, também são onomásticas, reproduzidas com leve copidescada na claret. só que a grafia de alguns nomes na tradução de carvalho (pelo francês) é diferente da grafia de eudoro, direto do grego. claret/nassetti não se avexaram: tem para todos os gostos, e o freguês pode escolher se quer, por exemplo, cleofonte ou cleófon, dionísio de colofônia ou dionísio de colofão, magnete ou magnes, quer encontre correspondência no texto da obra ou não.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagens: raquel sallaberry; www.daehlico.no; www.plagiarius.com

12 de abr. de 2009

11 de abr. de 2009

matéria de reflexão

pelo jeito, a câmara argentina do livro deve ser do mesmo clube da famigerada abdr.


heideggeriana é desativado por ação judicial



imagem: www.hthclan.com. toque: twittada de paula góes.

10 de abr. de 2009

não devia ser ao contrário?

cláudio willer publicou no brasil que lê um artigo que achei muito lúcido e consistente criticando a ressurreta proposta de certos setores privados para que o governo aprove uma lei tabelando o livro pelo preço cheio.

todo mundo já reclama que livro é caro no brasil, e agora tem livreiro que quer acabar com desconto e promoção, porque acha que desse jeito leva prejuízo?!


Preço
fixo: ameaça de retrocesso
Claudio Willer

Em 2003, quando presidia a UBE, União Brasileira de Escritores, recebi manifestação da Associação Nacional de Livrarias, solicitando apoio a uma proposta de lei fixando o preço dos livros; ou seja, proibindo abatimentos, descontos. A justificativa: estabelecimentos do setor, ao baixarem preços de alguns títulos, estariam prejudicando concorrentes.

Depois de apresentar o assunto à diretoria da UBE, manifestei-me contra, observando que a fixação compulsória de preços não nos interessava, nem como escritores, nem como leitores.

Não tive mais notícias desse projeto. Dei a iniciativa como extinta, pelo interesse restrito. No entanto, eis que ela reaparece; conforme o blogue noticioso mantido por Galeno Amorim: haverá audiência pública no Congresso para debatê-lo, neste dia 2 de abril. Por isso, solicito divulgação para alguns argumentos contrários a esse projeto:

1 - Para o escritor, o interesse de uma medida dessas é nulo. Direitos autorais são fixados sobre o preço de capa do livro; se alguma livraria decidir reduzi-lo, por sua conta, isso não alterará prestações de contas e pagamentos a que o autor tem direito. Aliás, se descontos contribuírem para promover mais vendas de livros, há motivos para defender o contrário: livreiros, derrubem os preços...!

2 - Livros publicados no Brasil, salvo exceções como os “pockets” em grandes tiragens e a baixo custo, são caros. Compra-se a edição original norte-americana, francesa, etc, pelo mesmo preço da tradução brasileira; isso, apesar do preço do livro importado ser o dobro daquele na origem, por causa de taxações e custos de transporte. Nosso índice de leitura de livros per capita é notoriamente baixo; não é difícil associar-lhe nossos elevados índices de analfabetismo funcional. A discussão oportuna, de interesse social e pedagógico, seria, portanto, como baixar preços de livros, e não como fixá-los pelo máximo.

3 - O preço fixo em livros é adotado na França, pelo que sei; mas não na Inglaterra e outros países. Não por acaso, comparado a um centro livreiro do porte daquele da Charing Cross Road em Londres, o mercado livreiro parisiense é irrisório. Grandes organizações do comércio de livros, a exemplo da Amazon, fazem ofertas e dão descontos, prodigamente. Há motivos para desconfiar que a aprovação de um dispositivo desses no Brasil seria aberrante, colocando-nos no contrafluxo de lugares onde prospera o comércio de livros.

4 - Será mais uma lei inócua. Quem irá fiscalizá-la? Livreiros continuarão dando descontos à vontade; bastará não anunciá-los. E os sebos e alfarrábios, também serão tabelados? E as pontas de estoque de grandes editoras, despejadas em bancas e outros lugares a R$ 9,90? E as feiras de livros promovidas por editoras, como aquela da USP, com preços reduzidos, chances para que estudantes e demais interessados possam comprar livros? E as boas políticas de fidelização de clientes de algumas livrarias, com descontos proporcionais ao volume de compras, assim estimulando-as? Uma lei dessas será um retrocesso com relação ao que vem ocorrendo de bom para facilitar e democratizar o acesso ao livro.

5 - Finalmente, é indecoroso, demonstração de insensibilidade, essa discussão acontecer na forma de confronto de corporações, dos livreiros versus editores, sem convocar, não apenas os autores, porém o principal interessado, presumivelmente: o leitor; ou seja, a sociedade. Mas nem é preciso um grande esforço de adivinhação para prever qual seria a resposta do público a um projeto que iria dificultar-lhe o acesso ao livro.

Claudio Willer é poeta, ensaísta e tradutor. Foi presidente da União Brasileira de Escritores, UBE, em quatro mandatos.

imagem: www.mochaquest.com. agradeço a cláudio willer e a galeno amorim a autorização para reproduzir o artigo.

9 de abr. de 2009

para não esquecer

algum tempo atrás comentei que a claret tinha começado a esboçar tímidos sinais de que iria começar a trocar algumas de suas fraudes por traduções aparentemente legítimas, e citei o caso do elogio da loucura. além de combater a fraude editorial, também acho importante preservar a memória e a história das coisas. então fica aqui registrada a demonstração do saque claretiano em cima da tradução original de paulo m. oliveira (atena editora, 1950; depois, ediouro até hoje).

1. paulo m. oliveira

ERASMO A THOMAS MORE, SAÚDE.

Achando-me, dias atrás, de regresso da Itália à Inglaterra, a fim de não gastar todo o tempo da viagem em insípidas fábulas, preferi recrear-me, ora volvendo o espírito aos nossos comuns estudos, ora recordando os doutíssimos e ao mesmo tempo dulcíssimos amigos que deixara ao partir. E foste tu, meu caro More, o primeiro a aparecer aos meus olhos, pois que malgrado tanta distância, eu via e falava contigo com o mesmo prazer que costumava ter em tua presença e que juro não ter experimentado maior em minha vida. Não desejando, naquele intervalo, passar por indolente, e não me parecendo as circunstâncias adequadas aos pensamentos sérios, julguei conveniente divertir-me com um elogio da Loucura. Porque essa inspiração? — perguntar-me-ás. Pelo seguinte: a princípio, dominou-me essa fantasia por causa do teu gentil sobrenome, tão parecido com a Mória quanto realmente estás longe dela e, decerto, ainda mais longe do conceito que em geral dela se faz. Em seguida, lisonjeou-me a idéia de que essa engenhosa pilhéria pudesse merecer a tua aprovação, se é verdade que divertimentos tão artificiais, não me parecendo plebeus, naturalmente, nem de todo insulsos, te possam deleitar, permitindo que, como um novo Demócrito, observes e ridicularizes os acontecimentos da vida humana. Mas, assim como, pela excelência do gênio e de talentos, estás acima da maioria dos homens, assim também, pela rara suavidade do costume e pela singular afabilidade, sabes e gostas, sempre e em toda parte, de habituar-te a todos e a todos parecer amável e grato.

Por conseguinte, gostarás agora, não só de aceitar de bom grado esta minha pequena arenga, como um presente do teu bom amigo, mas também de colocá-la sob o teu patrocínio, como coisa sagrada para ti e, na verdade, mais tua do que minha. Já prevejo que não faltarão detratores para insurgir-se contra ela, acusando-a de frivolidade indigna de um teólogo, de sátira indecente para a moderação cristã, em suma, clamando e cacarejando contra o fato de eu ter ressuscitado a antiga comédia e, qual novo Luciano, ter magoado a todos sem piedade. Mas, os que se desgostarem com a ligeireza do argumento e com o seu ridículo devem ficar avisados de que não sou eu o seu autor, pois que com o seu uso se familiarizaram numerosos grandes homens. Com efeito, muitos séculos antes, Homero escreveu a sua Batraquiomaquia, Virgílio cantou o mosquito e a amoreira, e Ovídio a nogueira; Polícrates chegou a fazer o elogio de Busiris, mais tarde impugnado e corrigido por Isócrates; Glauco enalteceu a injustiça, o filósofo Favorino louvou Tersites e a febre quartã; Sinésio a calvície e Luciano a mosca parasita; finalmente, Sêneca ridicularizou a apoteose de Cláudio, Plutarco escreveu o diálogo do grilo com Ulisses, Luciano e Apuleio falaram do burro; e um tal Grunnio Corocotta fez o testamento do porco, citado por São
Jerônimo. Saibam, pois, esses censores que também, para divertir-me, já joguei xadrez e montei em cavalo de pau, como um menino. Na verdade, haverá maior injustiça do que, sendo permitida uma brincadeira adequada a cada idade e condição, não poder pilheriar um literato, principalmente quando a pilhéria tem um fundo de seriedade, sendo as facécias manejadas apenas como disfarce, de forma que quem as lê, quando não seja um solene bobalhão, mas possua algum faro, encontre nelas ainda mais proveito do que em profundos e luminosos temas? Que dizer, então, de alguém que, com um longo discurso, depois de muito estudar e fatigar as costas elogiasse a retórica ou a filosofia? Ou de alguém que escrevesse o elogio de um príncipe, outro uma exortação contra os turcos, outro fizesse horóscopos e predições baseado nos planetas, outro questões de lana caprina e investigações futilíssimas? Portanto, assim como não há nada mais inepto do que abordar graves argumentos puerilmente, assim também é bastante agradável e plausível tratar de igual forma as pilhérias, não têm aqui outro objetivo senão o de pilheriar.

Quanto a mim, deixo que os outros julguem esta minha tagarelice; mas, se o meu amor-próprio não deixar que eu o perceba, contentar-me-ei de ter elogiado a Loucura sem estar inteiramente louco. Quanto à imputação de sarcasmo, não deixarei de dizer que há muito tempo existe a liberdade de estilo com a qual se zomba da maneira por que vive e conversa o homem, a não ser que se caia no cinismo e no veneno. Assim, pergunto se se deve estimar o que magoa, ou antes o que ensina e instrui, censurando a vida e os costumes humanos, sem pessoalmente ferir ninguém. Se assim não fosse, precisaria eu mesmo fazer uma sátira a meu respeito, com todas as particularidades que atribuo aos outros. Além disso, quem se insurge em geral contra todos os aspectos da vida não deve ser inimigo de ninguém, mas unicamente do vício em toda a sua extensão e totalidade. Se houver, pois, alguém que se sinta ofendido por isso, deverá procurar descobrir as suas próprias mazelas, porque, do contrário, se tornará suspeito ao mostrar receio de ser objeto da minha censura. Muito mais livre e acerbo nesse gênero literário foi São Jerônimo, que nem sequer perdoava os nomes das pessoas! Nós, porém, além de calarmos absolutamente os nomes, temperámos o estilo, de forma que o leitor honesto verá por si mesmo que o meu propósito foi mais divertir do que magoar. Seguindo o exemplo de Juvenal, em nenhum ponto tocámos na oculta cloaca de vícios da humanidade, nem relevámos as suas torpezas e infâmias, limitando-nos a mostrar o que nos pareceu ridículo. Se, apesar de tudo, ainda houver ranzinzas e descontentes, que ao menos observem como é bonito e vantajoso ser acusado de loucura. Com efeito, na boca da que trouxemos à cena e fizemos falar, foi necessário pôr os juízos e as palavras que mais se coadunam com o seu caráter.

Mas, para que hei de te dizer todas essas coisas, se és emérito advogado, capaz de defender egregiamente mesmo as causas menos favoráveis?

Sem mais, eloqüentíssimo More, estimo que estejas são e tomes animosamente a parte de tua loucura.

Vila, 10 de junho de 1508.


2. pietro nassetti até 2000; depois, alex marins até final de 2008

ERASMO A THOMAS MORE, SAÚDE.

Achando-me, dias atrás, de regresso da Itália à Inglaterra, a fim de não gastar todo o tempo da viagem em insípidas fábulas, preferi recrear-me, ora volvendo o espírito aos nossos comuns estudos, ora recordando os doutíssimos e ao mesmo tempo dulcíssimos amigos que deixara ao partir. E foste tu, meu caro More, o primeiro a aparecer aos meus olhos, pois que malgrado tanta distância, eu via e falava contigo com o mesmo prazer que costumava ter em tua presença e que juro não ter experimentado maior em minha vida. Não desejando, naquele intervalo, passar por indolente, e não me parecendo as circunstâncias adequadas aos pensamentos sérios, julguei conveniente divertir-me com um elogio da Loucura. Porque essa inspiração? — perguntar-me-ás. Pelo seguinte: a princípio, dominou-me essa fantasia por causa do teu gentil sobrenome, tão parecido com a Mória quanto realmente estás longe dela e, decerto, ainda mais longe do conceito que em geral dela se faz. Em seguida, lisonjeou-me a idéia de que essa engenhosa pilhéria pudesse merecer a tua aprovação, se é verdade que divertimentos tão artificiais, não me parecendo plebeus, naturalmente, nem de todo insulsos, te possam deleitar, permitindo que, como um novo Demócrito, observes e ridicularizes os acontecimentos da vida humana. Mas, assim como, pela excelência do gênio e de talentos, estás acima da maioria dos homens, assim também, pela rara suavidade do costume e pela singular afabilidade, sabes e gostas, sempre e em toda parte, de habituar-te a todos e a todos parecer amável e grato.

Por conseguinte, gostarás agora, não só de aceitar de bom grado esta minha pequena arenga, como um presente do teu bom amigo, mas também de colocá-la sob o teu patrocínio, como coisa sagrada para ti e, na verdade, mais tua do que minha. Já prevejo que não faltarão detratores para insurgir-se contra ela, acusando-a de frivolidade indigna de um teólogo, de sátira indecente para a moderação cristã, em suma, clamando e cacarejando contra o fato de eu ter ressuscitado a antiga comédia e, qual novo Luciano, ter magoado a todos sem piedade. Mas, os que se desgostarem com a ligeireza do argumento e com o seu ridículo devem ficar avisados de que não sou eu o seu autor, pois que com o seu uso se familiarizaram numerosos grandes homens. Com efeito, muitos séculos antes, Homero escreveu a sua Batraquiomaquia, Virgílio cantou o mosquito e a amoreira, e Ovídio a nogueira; Polícrates chegou a fazer o elogio de Busiris, mais tarde impugnado e corrigido por Isócrates; Glauco enalteceu a injustiça, o filósofo Favorino louvou Tersites e a febre quartã; Sinésio a calvície e Luciano a mosca parasita; finalmente, Sêneca ridicularizou a apoteose de Cláudio, Plutarco escreveu o diálogo do grilo com Ulisses, Luciano e Apuleio falaram do burro; e um tal Grunnio Corocotta fez o testamento do porco, citado por São Jerônimo. Saibam, pois, esses censores que também, para divertir-me, já joguei xadrez e montei em cavalo de pau, como um menino. Na verdade, haverá maior injustiça do que, sendo permitida uma brincadeira adequada a cada idade e condição, não poder pilheriar um literato, principalmente quando a pilhéria tem um fundo de seriedade, sendo as facécias manejadas apenas como disfarce, de forma que quem as lê, quando não seja um solene bobalhão, mas possua algum faro, encontre nelas ainda mais proveito do que em profundos e luminosos temas? Que dizer, então, de alguém que, com um longo discurso, depois de muito estudar e fatigar as costas elogiasse a retórica ou a filosofia? Ou de alguém que escrevesse o elogio de um príncipe, outro uma exortação contra os turcos, outro fizesse horóscopos e predições baseado nos planetas, outro questões de lana caprina e investigações futilíssimas? Portanto, assim como não há nada mais inepto do que abordar graves argumentos puerilmente, assim também é bastante agradável e plausível tratar de igual forma as pilhérias, não têm aqui outro objetivo senão o de pilheriar. Quanto a mim, deixo que os outros julguem esta minha tagarelice; mas, se o meu amor-próprio não deixar que eu o perceba, contentar-me-ei de ter elogiado a Loucura sem estar inteiramente louco. Quanto à imputação de sarcasmo, não deixarei de dizer que há muito tempo existe a liberdade de estilo com a qual se zomba da maneira por que vive e conversa o homem, a não ser que se caia no cinismo e no veneno. Assim, pergunto se se deve estimar o que magoa, ou antes o que ensina e instrui, censurando a vida e os costumes humanos, sem pessoalmente ferir ninguém. Se assim não fosse, precisaria eu mesmo fazer uma sátira a meu respeito, com todas as particularidades que atribuo aos outros. Além disso, quem se insurge em geral contra todos os aspectos da vida não deve ser inimigo de ninguém, mas unicamente do vício em toda a sua extensão e totalidade. Se houver, pois, alguém que se sinta ofendido por isso, deverá procurar descobrir as suas próprias mazelas, porque, do contrário, se tornará suspeito ao mostrar receio de ser objeto da minha censura. Muito mais livre e acerbo nesse gênero literário foi São Jerônimo, que nem sequer perdoava os nomes das pessoas! Nós, porém, além de calarmos absolutamente os nomes, temperámos o estilo, de forma que o leitor honesto verá por si mesmo que o meu propósito foi mais divertir do que magoar. Seguindo o exemplo de Juvenal, em nenhum ponto tocámos na oculta cloaca de vícios da humanidade, nem relevámos as suas torpezas e infâmias, limitando-nos a mostrar o que nos pareceu ridículo. Se, apesar de tudo, ainda houver ranzinzas e descontentes, que ao menos observem como é bonito e vantajoso ser acusado de loucura. Com efeito, na boca da que trouxemos à cena e fizemos falar, foi necessário pôr os juízos e as palavras que mais se coadunam com o seu caráter.

Mas, para que hei de te dizer todas essas coisas, se és emérito advogado, capaz de defender egregiamente mesmo as causas menos favoráveis?

Sem mais, eloqüentíssimo More, estimo que estejas são e tomes animosamente a parte de tua loucura.

Vila, 10 de junho de 1508.

imagens: erasmo por dürer, questotrentino.it/; portugues.istockphoto.com; absolutmartunis.blogspot.com


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



8 de abr. de 2009

não vale cabular

O ISBN e o ISSN: orientações sobre sua utilização

Palestra no dia 24 de abril de 2009 - às 14hs, sobre Aplicação do ISSN, tema proferido por Sueli Maffia ( Coordenadora do Centro Nacional do ISSN do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia -Ibict), do ISBN, proferida por Andréa Coêlho de Souza (Chefe da Agência Brasileira do ISBN) e o tema Editoração de Livros, proferida por Anamaria da Costa Cruz (Editora Intertexto), que acontece no auditório Machado de Assis, Av. México s/n em frente ao nº 98 (entrada pelo jardim), Centro, Rio de Janeiro.
O objetivo do evento é orientar e auxiliar os profissionais sobre as melhores práticas na utilização do ISBN (International Standard Book Number) e do ISSN (Número Internacional Normalizado para Publicações Seriadas) como instrumentos de controle da edição de livros e publicações seriadas.
As inscrições são gratuitas e devem ser feitas pelo e-mail isbn@bn.br até o dia 20 de abril.
Os participantes receberão certificado de presença.

seria legal que a dona andréa coêlho convocasse os digitadores/cadastradores da agência brasileira do isbn/fbn para a palestra.

aí talvez o leitor não tropeçasse na dama de espadão de puchikime, ou em mobi dicki ou no rei epido de willian shakespeare. e talvez diminuísse a quantidade de machados e eças traduzidos por pietros nassettis.

tomara também que os fãs da chapa fria, tipo jardim dos livros (selo do grupo geração), dêem um pulinho lá.

imagem: winkle, emoticon msn

que dupla!


rosencrantz e guildenstern estão mortos é um dos filmes mais divertidos, movimentados e espirituosos que eu conheço. não tão divertido é claret e nassetti são vivos. além de monótono e repetitivo, é um insulto à inteligência.


Hamlet: Ser ou não ser, eis a questão! Que é mais nobre para o espírito: sofrer os dardos e setas de um ultrajante fardo, ou tomar armas contra um mar de calamidades para pôr-lhes fim, resistindo? Morrer... dormir; nada mais! E com o sono, dizem, terminamos o pesar do coração e os mil naturais conflitos que constituem a herança da carne! Que fim poderia ser mais devotadamente desejado? Morrer... dormir! Dormir!... Talvez sonhar! Sim, eis aí a dificuldade! Porque é forçoso que nos detenhamos a considerar que sonhos possam sobrevir, durante o sono da morte, quando nos tenhamos libertado do torvelinho da vida. Aí está a reflexão que torna uma calamidade a vida assim tão longa! Porque, senão, quem suportaria os ultrajes e desdéns do tempo, a injúria do opressor, a afronta do soberbo, as angústias do amor desprezado, a morosidade da lei, as insolências do poder e as humilhações que o paciente mérito recebe do homem indigno, quando ele próprio pudesse encontrar quietude com um simples estilete? Quem gostaria de suportar tão duras cargas, gemendo e suando sob o peso de uma vida afanosa, se não fosse o temor de alguma coisa depois da morte, região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou, confundindo nossa vontade e impelindo-nos a suportar aqueles males que nos afligirem, ao invés de nos atirarmos a outros que desconhecemos? E é assim que a consciência nos transforma em covardes e é assim que o primitivo verdor de nossas resoluções se estiola na pálida sombra do pensamento e é assim que as empresas de maior alento e importância, com tais reflexões, desviam seu curso e deixam de ter o nome de ação.

SHAKESPEARE, William. Hamlet, príncipe da Dinamarca. In: Tragédias. Tradução F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros e Oscar Mendes. Aguilar, 1969; Abril Cultural, 1981.

Hamlet: Ser ou não ser, eis a questão! Que é mais nobre para alma: sofrer os dardos e setas de um destino cruel, ou pegar em armas contra um mar de calamidades para pôr-lhes fim, resistindo? Morrer... dormir; nada mais! E com o sono, dizem, terminamos o pesar do coração e os inúmeros naturais conflitos que constituem a herança de carne! Que fim poderia ser mais devotamente desejado? Morrer... [] Dormir!... Talvez sonhar! Sim, eis [] a dificuldade! Porque é forçoso que nos detenhamos a considerar que sonhos possam sobrevir, durante o sono da morte, quando nos tenhamos libertado do torvelinho da vida. Aí está a reflexão que dá à desventura uma [sic!] vida assim tão longa! Pois, senão, quem suportaria os insultos e desdéns do tempo, a injúria do opressor, a afronta do soberbo, as angústias do amor desprezado, a morosidade da lei, as insolências do poder e as humilhações que o paciente mérito recebe do homem indigno, quando ele próprio pudesse encontrar repouso com um simples estilete? Quem gostaria de suportar tão duras cargas, gemendo e suando sob o peso de uma vida afanosa, se não fosse o temor de alguma coisa depois da morte, região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou, confundindo nossa vontade e impelindo-nos a suportar aqueles males que nos afligirem, em vez de nos lançarmos a outros que desconhecemos? E é assim que a consciência nos transforma em covardes, é assim que o primitivo verdor de nossas resoluções se debilita na pálida sombra do pensamento e é assim que as empresas de maior alento e importância, com semelhantes reflexões, desviam seu curso e deixam de ter o nome de ação.

SHAKESPEARE, William. Hamlet. "Tradução" Pietro Nassetti. Martin Claret, 2007.

o hamlet claretiano nos fiéis solidários livreiros: livrarias curitiba, submarino, cortez, nobel, saraiva, loyola, estação cult (decerto achando que trash é cult), e por aí afora.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.