17 de ago. de 2010

locke, segundo tratado sobre o governo

.
às vezes leva algum tempo até localizar a fonte de eventuais plágios e apropriações de tradução. foi o caso do segundo tratado sobre o governo, de john locke, em suposta tradução em nome de "alex marins", pela editora martin claret. trata-se de uma obra fundamental, utilizada praticamente em todos os cursos de filosofia, ciência política, história e sociologia. é de se imaginar o grau de infiltração dessa edição adulterada no ensino universitário, sem contar os leitores em geral.



em vista do histórico da editora, da flagrante inexistência de um suposto "alex marins" e do extenso registro de fraudes tradutórias em seu nome, eu tinha algumas suspeitas sobre essa edição.





acabei localizando a fonte de inspiração, ou melhor, de aspiração: trata-se da tradução de e. jacy monteiro, publicada em 1963 pelo extinto ibrasa (instituto brasileiro de difusão cultural).



há algum tempo apontei que duas traduções de jacy monteiro tinham sido apropriadas sob outros nomes pela mesma martin claret: são os contos janet do pescoço torcido e markheim, de robert louis stevenson, documentados respectivamente em graças e desgraças e mais um da galeria nassettiana.

no caso em apreço, tem-se uma cópia disfarçada, com várias adulterações, num "copidesque" cerrado, com arrevesamento sintático de algumas frases, num padrão não muito difícil de identificar, e que faz a pretensa tradução ficar bastante distante do original. as notas, por sua vez, foram integralmente transcritas sem qualquer alteração.

diga-se de passagem que os padrões dessas cópias de tradução da editora martin claret mereceriam um estudo à parte: parece existir uma certa regularidade em função do(s) "revisor(es)" incumbido(s) da tarefa e citado(s) na página de créditos. há desde aqueles que optam por não alterar nada até, no outro extremo, dois ou três que parecem realmente se esmerar no disfarce. talvez não por acaso, o próprio infatigável pietro nassetti costuma aparecer como um desses "revisores" mais empenhados.


as páginas abaixo permitem ver o padrão da "reescrita", a transcrição fiel das notas e, ao mesmo tempo, um tipo de deturpação realmente deletério. refiro-me à troca de "súditos" (traduzindo corretamente subjects) por "cidadãos" ao longo de todo o livro, num anacronismo tanto mais absurdo em se tratando de uma obra de um súdito britânico escrita em 1689, um século antes do surgimento de nosso conceito moderno de cidadão. igualmente inconcebível é substituir o correto "sanção" por um descabido "lei".

 e. jacy monteiro, ibrasa




 

"alex marins", martin claret

 
  


a título ilustrativo, para mostrar como traduções individuais dificilmente se confundem, abaixo segue o trecho correspondente na tradução de magda lopes e marisa lobo da costa (editora vozes).
Capítulo XI

DA EXTENSÃO DO PODER LEGISLATIVO

134. O grande objetivo dos homens quando entram em sociedade é desfrutar de sua propriedade pacificamente e sem riscos, e o principal instrumento e os meios de que se servem são as leis estabelecidas nesta sociedade; a primeira lei positiva fundamental de todas as comunidades políticas é o estabelecimento do poder legislativo; como a primeira lei natural fundamental, que deve reger até mesmo o próprio legislativo, é a preservação da sociedade e (na medida em que assim o autorize o poder público) de todas as pessoas que nela se encontram. O legislativo não é o único poder supremo da comunidade social, mas ele permanece sagrado e inalterável nas mãos em que a comunidade um dia o colocou; nenhum edito, seja de quem for sua autoria, a forma como tenha sido concebido ou o poder que o subsidie, tem a força e a obrigação de uma lei, a menos que tenha sido sancionado pelo poder legislativo que o público escolheu e nomeou. Pois sem isso faltaria a esta lei aquilo que é absolutamente indispensável para que ela seja uma lei, ou seja, o consentimento da
sociedade, acima do qual ninguém tem o poder de fazer leis*; exceto por meio do seu próprio consentimento e pela autoridade de alguém, mesmo em virtude dos vínculos mais solenes, termina afinal neste poder supremo e é dirigida por aquelas leis que ele adota; jamais um membro da sociedade, pelo efeito de um juramento que o ligaria a qualquer poder estrangeiro ou a qualquer poder subordinado na ordem interna, pode ser dispensado de sua obediência ao legislativo e agir por sua própria conta; da mesma forma, também não é obrigado a qualquer obediência contrária às leis adotadas, ou que ultrapasse seus termos; seria ridículo imaginar que um poder que não é o poder supremo na sociedade, possa se impor a quem quer que seja.

135. O poder legislativo é o poder supremo em toda comunidade civil, quer seja ele confiado a uma ou mais pessoas, quer
seja permanente ou intermitente. Entretanto, Primeiro: ele não é exercido e é impossível que seja exercido de maneira absolutamente arbitrária sobre as vidas e sobre as fortunas das pessoas. Sendo ele apenas a fusão dos poderes que cada membro da sociedade delega à pessoa ou à assembléia que tem a função do legislador, permanece forçosamente circunscrito dentro dos mesmos limites que o poder que estas pessoas detinham no estado de natureza antes de se associarem em sociedade e a ele renunciaram em prol da comunidade social. Ninguém pode transferir para outra pessoa mais poder do que ele mesmo possui; e ninguém tem um poder arbitrário absoluto sobre si mesmo ou sobre qualquer outro para destruir sua própria vida ou privar um terceiro de sua vida ou de sua propriedade. Foi provado que um homem não pode se submeter ao poder arbitrário de outra pessoa; por outro lado, no estado de natureza, o poder que um homem pode exercer sobre a vida, a liberdade ou a posse de outro jamais é arbitrário, reduzindo-se àquele a ele investido pela lei da natureza, para a preservação de si próprio e do resto da humanidade; esta é a medida do poder que ele confia e que pode confiar à comunidade civil, e através dela ao poder legislativo, que portanto não pode ter um poder maior que esse. Mesmo considerado em suas maiores dimensões, o poder que ela detém se limita ao bem público da sociedade**. É um poder que não tem outra finalidade senão a preservação, e por isso nunca tem o direito de destruir, escravizar ou, intencionalmente,
empobrecer os súditos. As obrigações da lei da natureza não se extinguem na sociedade, mas em muitos casos elas são delimitadas mais estritamente e devem ser sancionadas por leis humanas que lhes anexam penalidades para garantir seu cumprimento. Assim, a lei da natureza impõe-se como uma lei eterna a todos os homens, aos legisladores como a todos os outros. As regras às quais eles submetem as ações dos outros homens devem, assim como suas próprias ações e as ações dos outros homens, estar de acordo com a lei da natureza, isto é, com a vontade de Deus, da qual ela é declaração; como a lei fundamental da natureza é a preservação da humanidade, nenhuma sanção humana pode ser boa ou válida contra ela.

136. Segundo: O legislativo, ou autoridade suprema, não pode arrogar para si um poder de governar por decretos arbitrários improvisados, mas se limitar a dispensar a justiça e decidir os direitos do súdito através de leis permanentes já promulgadas*** e juízes autorizados e conhecidos. Como a lei da natureza não é uma lei escrita, e não pode ser encontrada em lugar algum exceto nas mentes dos homens, aqueles que a paixão ou o interesse incitam a mal citá-la ou a mal empregá-la não podem ser tão facilmente convencidos de seu erro na ausência de um juiz estabelecido. Por isso ela não serve, como deveria, para determinar os direitos e delimitar as propriedades daqueles que vivem sob sua submissão, especialmente onde cada um é também seu juiz, intérprete e executor, e além disso em causa própria; aquele que tem o direito do seu lado não dispõe,em geral, senão de sua energia pessoal, que não tem força suficiente para defendê-lo das injustiças ou para punir os delinqüentes. Para evitar esses inconvenientes que desorganizam suas posses no estado de natureza, os homens reuniram-se em sociedades em que eles dispõem da força conjunta de toda a sociedade para proteger e defender suas propriedades, e que eles podem delimitar segundo regras permanentes que permitem a cada um saber o que lhe pertence. Foi com esta finalidade que os homens renunciaram a todo o seu poder natural e o depuseram nas mãos da sociedade em que se inseriram, e a comunidade social colocou o poder legislativo nas mãos que lhe pareceram as mais adequadas; ela o encarregou também de governá-los segundo leis promulgadas, sem as quais sua paz, sua tranqüilidade e seus bens permaneceriam na mesma precariedade que no estado de natureza.

* “Como o poder legítimo de legislar para comandar sociedades humanas inteiras pertence, como propriedade particular, a estas mesmas sociedades em sua totalidade, cada vez que um príncipe ou um potentado da terra, seja de que espécie for, o exerce por sua própria iniciativa e não por delegação expressa imediata e pessoalmente recebida de Deus, ou por qualquer mandato que emana desde o início do consentimento daqueles sobre os quais ele legisla, isso não é melhor que uma mera tirania. Portanto, as leis não têm valor se não recebem a aprovação pública” (Hooker, Eccl. Pol., liv. i, sec. 10). “Sobre este ponto, então, devemos observar que tais homens não têm por natureza o poder completo e perfeito para comandar multidões humanas inteiras, e por isso não poderemos depender das ordens de ninguém se de alguma maneira não consentirmos nisso. Nós aceitamos ser comandados quando a sociedade de que fazemos parte consentiu ela própria, em qualquer época passada, sem revogar depois este consentimento através do mesmo acordo universal. “As leis humanas, sejam de que tipo forem, podem portanto ser adotadas através do consentimento” (Hooker, ibid.).
** “As sociedades públicas repousam sobre duas fundações; a primeira é uma inclinação natural pela qual todo homem deseja a vida social e a companhia; a segunda é uma ordem, estabelecida em termos expressos ou secretos, que regulamenta as modalidades de sua união na vida comum.Esta última constitui o que chamamos de direito de uma comunidade social, a verdadeira alma de um corpo político, do qual este direito anima e mantém unidos os elementos e os coloca em funcionamento em todas as atividades requeridas pelo bem público. As leis políticas, regidas por uma ordem e uma organização externas entre os homens, nunca são estruturadas como deveriam, amenos que se presumisse que a vontade do homem fosse intimamente obstinada, rebelde e adversa a qualquer obediência às leis sagradas de sua natureza; em resumo, a menos que se presumisse que o homem, considerado por seu espírito depravado, não valesse mais que um animal selvagem; apesar disso, as leis prevêem disposições próprias para orientar, externamente, os atos humanos, a fim de que eles não prejudiquem o bem comum, em vista do qual as sociedades são instituídas. Do contrário, elas não seriam perfeitas” (Hooker, Eccl. Pol., liv. i, sec. 10).

*** “As leis humanas desempenham o papel de critérios com respeito aos homens cujas ações elas regulamentam, mas estes critérios não são submetidos a regulamentos mais altos que regem sua apreciação; estas leis são duas – a lei de Deus e a lei da natureza; portanto, as leis humanas devem estar de acordo com as leis gerais da natureza e não contradizer nenhuma lei positiva da Escritura, senão elas estão mal feitas” (Hooker, Eccl. Pol., liv. iii, sec. 9); “Constranger os homens a atos inconvenientes parece irracional” (ibid., liv. i, sec. 10)

o original de locke se encontra disponível na internet, por exemplo aqui.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: emoticon, google images
.

16 de ago. de 2010

da monarquia, dante

.

passeando pelo blog de james emanuel, reflexões, encontro uma citação do ensaio de dante, da monarquia., em tradução de antonio piccarolo e leonor de aguiar.
A arte apresenta-se em três formas: no espírito do artífice, no órgão, e, enfim, na matéria trabalhada; assim, também a natureza pode ser encarada em três estados. De fato, a natureza existe no espírito do primeiro motor que é Deus; depois, no céu que é como o órgão material, pelo qual uma imagem de bondade eterna é impressa na matéria fluida.
Quando o artífice é excelente e o órgão também, se a forma é realizada imperfeitamente, é tão somente à matéria que será necessário atribuir o defeito; ora, Deus realiza a soberana perfeição e seu aparelho, que é o céu, não é privado de nenhuma das perfeições convenientes, assim como estabelece a filosofia das esferas; assim sendo, tudo o que se acha defeituoso nas coisas inferiores deve seu caráter deficiente à matéria; se os defeitos existem, é fora de intenção de Deus criador e do céu; ao contrário, tudo quanto é de bom nas coisas inferiores não pode provir da matéria, que é um puro poder; é preciso atribuir esse bem, em primeiro lugar a Deus, e, em segundo lugar, ao céu, que é o órgão, a arte divina e que é comumente chamado Natureza.
De tudo quanto precede, resulta que o direito, pois que o direito é o bem, existe, antes de tudo, na inteligência de Deus; ora, tudo quanto existe na inteligência de Deus, é Deus (segundo a palavra: tudo o que foi feito, nele era vida), e Deus quer estar acima de tudo, por isso, o direito, desde que está em Deus, é porque Deus assim o quer. Como o que Deus quer e a coisa desejada são a mesma coisa, a vontade divina é o direito.

ALIGHIERI, Dante. “Da Monarquia”. In. Pensadores Italianos. Prefácio de Adolfo Rava. Traduções de Antônio Piccarolo e Leonor de Aguiar. Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre: W. M. Jackson Inc. Editores, 1950.
fui dar uma olhada no exemplar da martin claret que tenho em casa, da monarquia e vida nova, com tradução atribuída a "jean melville" e pimba! lá estava o mesmo trecho às pp. 34-35, com duas pífias alterações (uma delas, aliás, errada) e uns pares de vírgulas a menos.
A arte apresenta-se sob três formas: no espírito do artífice, no órgão, e enfim, na matéria trabalhada; assim, também a natureza pode ser encarada em três estados. De fato, a natureza existe no espírito do primeiro motor que é Deus; depois, no céu que é como o órgão material, pelo qual uma imagem de bondade eterna é impressa na matéria fluida. Quando o artífice é excelente e o órgão também, se a forma é realizada imperfeitamente, é tão-somente à matéria que será necessário atribuir o defeito; ora, Deus realiza a soberana perfeição e seu aparelho, que é o céu, não é privado de nenhuma das perfeições convenientes, assim como estabelece a filosofia das esferas; assim sendo, tudo o que se acha defeituoso nas coisas inferiores deve seu caráter deficiente à matéria; se os defeitos existem, é fora da intenção de Deus criador e do céu; ao contrário, tudo quanto é bom nas coisas inferiores não pode provir da matéria, que é um puro poder; é preciso atribuir esse bem, em primeiro lugar a Deus e em segundo lugar ao céu, que é o órgão, a arte divina e que é comumente chamado Natureza.
De tudo quanto precede, resulta que o direito, pois que o direito é o bem, existe, antes de tudo, na inteligência de Deus; ora, tudo quanto existe na inteligência de Deus, é Deus (segundo a palavra: tudo o que foi feito, nele era vida), e Deus quer estar acima de tudo; por isso, o direito, desde que está em Deus, é porque Deus assim o quer. Como o que Deus quer e a coisa desejada é [sic] a mesma coisa, a vontade divina é o direito. 

normalmente meus cotejos são extensos e costumo ter em casa os exemplares correspondentes. aqui, a comparação desse trecho bastou para me despertar sérias dúvidas sobre a idoneidade dessa edição da martin claret. sobre vida nova, no mesmo volume, veja aqui.

15 de ago. de 2010

águas mal servidas


é muito bom que tradução seja vista, que as pessoas, ao ler um livro traduzido, entendam que aquele não é o original, e sim uma outra obra - justamente a obra de tradução.

e é muito bom que leitores e críticos venham a público comentar a qualidade de uma obra de tradução. e seria melhor ainda se alguns críticos se dessem ao trabalho de pensar antes de abrir a boca.

refiro-me especificamente ao filósofo, educador e escritor rubem alves e à surpreendente afoiteza com que, no jornal folha de s.paulo em 10/08/2010, aqui, arremeteu contra o livro no país das sombras longas, de hans ruesch. trata-se de uma tradução de raul de polillo lançada em 1974 e recentemente reeditada pela editora record. diga-se de passagem que o articulista nem sequer chega a mencionar o nome do tradutor, jornalista e crítico de arte, nascido em 1898, falecido em 1979, contentando-se em tratá-lo feito moleque.

diz rubem alves, em artigo de surrado título "tradutor, traidor":
Um caso cômico [] se encontra no delicioso livro "No País das Sombras Longas"... minha leitura foi interrompida por essa frase estranha: "Siorakidsok era paralítico da cintura para baixo e tinha ouvidos duros". Ouvidos duros... Não fez nenhum sentido. Até que me vali de um truque: tentei fazer a tradução ao contrário, do português para o inglês. Ouvidos duros, ao contrário: "hard of hearing". O homem era surdo...
na página seguinte essa frase me parou de novo: "A um canto via-se uma grande calha de pedra pela qual todos passavam as suas águas servidas, valiosas para o curtimento de couro..." Suas águas servidas? O que é isso? Usei então o mesmo método de decifração. Traduzi ao contrário: "passavam suas águas servidas", "pass water", que quer dizer fazer xixi... A tal calha de pedra era um mictório...
[negritos meus, db]
o que posso dizer se o eminente pedagogo não dispõe em sua bagagem cultural de referências que lhe permitam se deparar sem sobressaltos com a expressão "duro de ouvido" ou "ouvido duro"? pois devo esclarecer que se usa, sim, duro de ouvido ou ouvido duro em português, expressões que, a rigor, designam problemas de audição em grau variado, e não necessariamente a surdez (em termos pedestres, o sujeito duro de ouvido ou com ouvido duro é aquele para o qual a gente tem de dar uns berros para se fazer ouvir).

e o que se pode dizer a alguém que não sabe o que são "águas servidas" e numa singela "decifração" conclui que é "xixi"? ["Traduzi ao contrário: 'passavam suas águas servidas', 'pass water', que quer dizer fazer xixi", numa técnica de decifração tanto mais surpreendente por usar apenas water, sem lhe ocorrer que em inglês "água servida" se diz wastewater].
 
quero aqui ressalvar que não conheço o livro e não li o original. por outro lado, todo mundo ou muita gente sabe que os taninos presentes na urina eram muito usados para amaciar couros, devido a seu grau de acidez - aliás, a título de curiosidade, consta que foi esta a razão principal para a criação dos primeiros mictórios públicos na frança, para captação de urina em grandes volumes com destino aos curtumes -; e todo mundo ou muita gente também sabe que "águas servidas" são todas as águas ou líquidos usados (ou expelidos) em qualquer casa, loja, estabelecimento, que precisam ter algum destino - quando não existiam esgotos nas cidades, havia aquele lançamento antecedido pelo famoso brado de "água vai", que ia pela janela afora mesmo.
 
se o livro trata da vida dos esquimós na região ártica (daí a expressão "terra das sombras longas", que igualmente tanta perplexidade despertou no comentarista), imagino que eles, tal como nós, precisam dar algum destino a suas águas servidas. mas também faz sentido - e muito sentido - que a urina, tão preciosa para curtir couros, fosse canalizada por alguma calha específica para recipientes próprios, pois todo mundo também sabe que as roupas dos esquimós eram feitas de couro e pele, e que couro e pele precisam ser curtidos.

e aí, lançada a inconsequente suspeita, sem domínio vocabular seja do português, seja do inglês, sem dar qualquer contexto, a gente começa a viajar: mas, se havia uma calha só para a urina, aonde ou por onde iam as outras águas? quantas calhas seriam? e quem são esses "todos'? que "a um canto" era aquele? urinavam diretamente ali? em público? ou despejavam o conteúdo de seus equivalentes a nossos urinóis?
 
de um lado, fica difícil levar a sério uma ilação como "a tal calha de pedra era um mictório..." por parte de alguém que não sabe o que é "ouvido duro" nem "água servida". por outro lado, vai que a calha de pedra fosse mesmo reservada apenas à urina de todos, fazendo fila para despejar seu precioso líquido? e aí a solução da dúvida depende do que está no texto original. como o tradutor é falecido, caberia à editora elucidar a questão.
 
 
o que sei, e isso definitivamente não depende do original, é que, a grassar esse tipo de amadorismo frívolo em críticas de tradução, estarão mal servidos jornais, leitores, tradutores e editores. e dessa indigesta miscela será difícil se desfazer seja em calhas de pedra ou aos gritos de água vai.


14 de ago. de 2010

a imperdível gaveta do ivo

.
.
a grande novidade do mês é o nascimento do blog de ivo barroso, gaveta do ivo, poesia & tradução.

na verdade, iniciou-se em 25 de julho, com materiais distribuídos em várias seções:
há inúmeras preciosidades, e a gente aprende, se espanta, admira e se diverte.
.

12 de ago. de 2010

quando tradução vira loteria

.

alguns meses atrás, o fotógrafo clicio barroso escreveu um post muito interessante, chamado até os livros me traíram.

evitando citar diretamente no texto o nome da obra e da editora, clicio comentava alguns problemas medonhos de tradução num livro que havia comprado. pela própria dinâmica dos comentários ao post, ficou explícito que se tratava da obra otimização de website - o guia definitivo, de andrew b. king, em tradução feita por alguém de nome "arcanjo gabriel" e publicada pela editora alta books, do rio janeiro.

exemplos apresentados por clicio, extraídos do referido otimização de website:

"Almejando altas frases KEI com um volume de pesquisa adequado da a você a melhor chance para rankear rapidamente em termos em particular por indo onde os outros não estão competindo muito."

"Você irá economizar mais dinheiro alterando o seu orçamento de marketing de oito ou oitenta mercado em massa para altamente almejado, marketing online com resultados mensuráveis."

"papel em branco" para white paper (relatório), "cópia de anúncio" para ad copy (texto publicitário) e assim por diante.

também é muito instrutivo ver, num dos últimos comentários ao post, a transcrição do e-mail que a editora alta books enviou a um outro leitor insatisfeito com outra obra por ela publicada.*

* aliás, cheguei a ligar para a editora, para tentar entender quem seria o tal "arcanjo gabriel" (que, no cadastro do livro na fundação biblioteca nacional, consta como "arcanjo miguel"). 
atendeu uma moça chamada maristela; pedi para falar com o departamento editorial; maristela perguntou qual seria o assunto; fui genérica; ela insistiu e perguntou: "seria reclamação?". quando respondi que não, sua resposta foi: "ah, ok! um momento". bom, falei no editorial, nem vem muito ao caso, pois foi apenas uma desconversa do começo ao fim. mas achei curioso que a telefonista estivesse devidamente treinada para filtrar "reclamações".

o grande problema que vejo nesse tipo de linha editorial adotada pela alta books é a tremenda falta de credibilidade que lança sobre a qualidade da tradução em geral no país. pois o efeito imediato e duradouro de obras pessimamente traduzidas é imprimir na mente do leitor a ideia (e o receio) de que comprar livros traduzidos é uma espécie de loteria.

a meu ver, seria bom se existisse algum grupo, alguma entidade de tradutores que pressionasse editoras a atender requisitos mínimos de qualidade em suas publicações de obras traduzidas. bons profissionais não faltam e quem lê sabe muito bem distinguir entre uma tradução aceitável e uma tradução inaceitável: falta apenas que tais editoras respeitem seus leitores, abandonem a tradução automática e contratem bons tradutores.
.

11 de ago. de 2010

prêt-à-porter

.
eu dizia no post anterior: "é como se a página de créditos estivesse pré-pronta, para ser aplicada a qualquer obra lançada no verão daquele ano".


pelo jeito, podemos acrescentar "ou do ano seguinte".

a página de créditos acima corresponde a marco polo, as viagens "il milione".
.

10 de ago. de 2010

"missão editorial"

.
essa edição da martin claret, plagiando a tradução de um jogador feita por costa neves e creditando-a a "pietro nassetti" (veja aqui), traz também o prefácio do mesmo costa neves. ao final do prefácio, consta o devido crédito da autoria do texto, mas duvido, duvido mesmo que a josé olympio ou os sucessores de costa neves tenham licenciado o direito de uso desse prefácio. a mim, cheira a contrafação.

quanto à ficha cip, obrigatória por lei, já sabemos que ela não faz parte dos hábitos da editora. mas, neste caso d'o jogador, o requinte desinformativo chega ao ponto de excluir qualquer referência até ao título original da obra. é como se a página de créditos estivesse pré-pronta, para ser aplicada a qualquer obra lançada no verão daquele ano:


.
.

costa neves

.

faz pouco tempo que vim a conhecer o nome de costa neves, cuja tradução d'um jogador de dostoievski (josé olympio, 1944, aqui na 2a. ed., 1951) foi surripiada pela editora martin claret e atribuída a pietro nassetti - veja aqui. antes disso, eu o conhecia como cotradutor, junto com flávio poppe de figueiredo, de robinson crusoé, uma das poucas edições do texto integral de defoe no brasil (jackson, 1947).

essa garfada da martin claret me despertou a curiosidade em saber o que mais costa neves traduziu. o que encontrei, foi:

bommart, jean: estranhas aventuras de um repórter (minerva, c.1936)
defoe, daniel: robinson crusoe, com poppe de figueiredo (jackson, 1947)
dickens, charles: a vida de nosso senhor (josé olympio, 1943)
dickens, charles: david copperfield (jackson, 1947)
dostoievski, fiódor: nietótchka nezvanova (cia. brasil, 1937; josé olympio, 1947)
dostoievski, fiódor: o eterno marido (josé olympio, 1944)
dostoievski, fiódor: um jogador (josé olympio, 1944)
[a JO anunciou em 1944 um volume de dostoievski com o título novelas, contendo "uma história aborrecida", "notas de inverno sobre impressões de verão", "a voz subterrânea" e "o crocodilo", mas não encontrei corroboração de sua efetiva publicação - veja-se aqui]
gogol, nikolai: almas mortas (cia. brasil, 1937; josé olympio, 1941)
ludwig, emil: cleópatra, a história de uma rainha (o cruzeiro, 2a. ed. 1945)
peppard, harold: veja melhor sem óculos (mérito, 1948)
robert, henri: os grandes processos da história (globo, 1943)
sandeau, julio: a orphã (casa mandarino, s/d)
shakespeare, william: rei lear (jackson, 1948)
sholokhov, mikhail a., o don silencioso (o cruzeiro, 1945)
starhemberg, ernst rüdiger, fürst von, entre hitler e mussolini - as memórias (o cruzeiro, 1943)
tchecov, anton: contos [contém: la cigale; sonhos; o buraco; o beijo; varka; a estepe] (jackson, 1950)
vv.aa.: ensaístas ingleses, com sarmento de beires (jackson, 1958)
zweig, stefan: a cura pelo espírito: mesmer, baker-eddy, freud, com cândido de carvalho e elias davidovitch (guanabara, 1940)

para essa listinha ajudou o bom costume que tinha a josé olympio de dedicar a página de contra-rosto a uma minibibliografia do tradutor:


além das obras listadas na página acima, é autor da biografia verdi (1934), infâncias prodigiosas (s/d, c.1938) pretinha de pixe e os sete gigantes (1939) e história singela do café (depto. nacional do café, c.1939). diretor do annuario brasileiro de literatura (pongetti, 1937-1944). nasceu em 1908, ignoro a data de falecimento, e não consegui descobrir a que corresponde o "l." em seu nome completo: jorge l. costa neves.

atualização: claudio marcondes gentilmente informa que costa neves nasceu em nova friburgo e que o "l." corresponde a leal. assim temos que seu nome completo era jorge leal costa neves.

atualização: aqui mais alguns dados de nascimento, morte, filiação, casamentos, progênie. 
encontram-se na imprensa inúmeras menções a ele em colunas sociais e atualidades gerais, tendo sido inclusive assessor de direção do jornal carioca a noite e diretor-presidente da editora hemisfério s/a. em 1978, abriu uma efêmera empresa chamada jorge costa neves editores ltda., que não sei se chegou a entrar em atividade.

ver também aqui e aqui

.

9 de ago. de 2010

10 Perguntas e Meia

.


uma entrevista a lucas deschain, do Meia Palavra:

agradeço!
.

Entrevista com a criadora do Não Gosto de Plágio, Denise Bottmann

 em 9 de agosto de 2010
Denise.Bottmann

Denise Bottmann
, nascida em Curitiba em 1954, é historiadora por formação e foi docente da Unicamp entre 1983 e 1996. Começou a traduzir em 1985 e, após uma interrupção na atividade, continua até hoje a trazer livros e mais livros para nosso idioma. Em seu currículo estão autores que vão desde John Boyne até Hannah Arendt, passando por Marguerite Duras, Edward Said e Edward Palmer Thompson. Mantém o blog Não Gosto de Plágio, onde traz à tona casos de plágio de traduções de algumas editoras brasileiras.  Atualmente está envolvida no debate pela modernização da Lei de Direito Autoral.
1- Como você se sentiu a ser processada? Achou que o caso ia repercutir como aconteceu?
É, fiquei meio surpresa. Imagino que o caso só teve a repercussão que teve porque a outra parte (a Editora Landmark e o editor Fábio Cyrino) solicitou a remoção dos blogs Não Gosto de Plágio e Jane Austen em Português da internet. Com isso entrou-se num campo um pouco mais delicado, que é o direito de crítica e a liberdade de expressão, que são direitos fundamentais garantidos pela Constituição. Por isso, o juiz indeferiu o pedido de remoção sumária de nossos blogs e entendeu que teria de analisar a procedência da queixa antes de entrar nessa seara dos direitos fundamentais do cidadão. O processo está em andamento. E foi realmente emocionante, mais do que consigo expressar, receber tanto apoio e solidariedade.
2 – Quais são alguns pontos positivos e negativos em ser tradutora?
São todos positivos! É uma atividade encantadora. Você aprende constantemente, está sempre conhecendo coisas novas, as pesquisas te levam a coisas variadas e interessantes, é algo que entretém muito a mente e o espírito.
3 – Por que resolveu ser tradutora?
Foi muito por acaso. Na verdade minha atividade profissional era docência, e uma amiga recebeu um livro para traduzir. Isso foi em 1985. Ela não podia fazer, ofereceu a mim, achei interessante, fiz o contato e um teste na editora (era a Brasiliense), deu certo, e passei uns dez anos traduzindo. Depois parei, retomei em 2005 e, se depender de mim, vou continuar até onde der.
4 – Como anda a luta pela modificação do LDA? O que as pessoas podem fazer para ajudar?
É, está uma briga. Alguns interesses mais incrustados são visceralmente contrários, mas alguma coisa decerto haverá de ser modificada. É fundamental que haja uma modernização da lei do direito autoral. Para ajudar, é só participar. Basta ir ao site do Ministério da Cultura, preencher um mini-cadastro e deixar sua opinião, comentário ou proposta ao texto que está em consulta pública.
5- Quais são os escritores que mais admira?
Thomas Mann da maturidade e quase todo o Joseph Conrad. São inesgotáveis. ConsideroDoutor Fausto e O coração das trevas duas grandes obras-primas do século XX. Entre os poetas, tenho especial predileção por Thomas Stearns Eliot, e aprecio muito Wallace Stevens. No Brasil, gosto muito de Murilo Mendes.
6 – Cite 3 livros que gostaria de ter traduzido.
Algum do Henry James, algum do Conrad e, se eu soubesse alemão, A paz perpétua de Kant.
7 – Como está o mercado de trabalho para os tradutores no Brasil?
Olha, tenho a impressão de que está indo muito bem. Pois volta e meia abrem-se novas editoras, nunca se publicou tanto no país, e boa parte das edições são obras traduzidas. Então imagino que o mercado está até meio aquecido. Isso para falar só de tradução editorial, que é apenas um pequeno segmento dentro do campo geral de tradução.
8 – Qual o livro que te deu mais prazer em traduzir? E qual mais trabalho?
Tenho a sorte de receber obras sempre muito interessantes para traduzir. Tenho uma especial afeição pelo trabalho que fiz em Piero della Francesca, de Roberto Longhi, pela Cosac. Foi razoavelmente árduo, e era um texto esplendoroso. Outro livro trabalhoso – e isso é até curioso, porque aqui no Brasil não é tido como obra muito difícil ou hermética – foi Walden, de Henry David Thoreau, que deve sair em breve pela L&PM. Não é um texto elegante nem propriamente bonito, mas é bem complicadinho. Há muitas outras coisas que foram extremamente agradáveis: O amante, de Marguerite Duras, foi bem legal; Reflexões sobre a arte, de Matisse, gostei muitíssimo de fazer. E mesmo essa área de literatura mais de entretenimento, na qual eu nunca tinha trabalhado, achei bem divertida: O palácio de inverno, de John Boyne, que deve sair por esses dias, pela Cia. das Letras.
9 – Qual autor você considera o mais difícil de traduzir?
Isso depende da língua ou do estilo que cada um escreve? Ah, certamente depende do estilo em que cada um escreve. Mas, além do estilo, há outros elementos que tornam mais ou menos difícil uma tradução, sendo o principal deles, a meu ver, a carga de referências externas e internas do texto. Mesmo a tradução de uma obra aparentemente simples sempre vem acompanhada de um trabalho de pesquisa, que não aparece para o leitor, mas que é indispensável para a gente se nortear no que está fazendo.
10 – Além de tradução, existe uma escritora dentro de você?
Não, não… durante algum tempo, até fiz alguns cometimentos poéticos, mas nada que tenha qualquer relevância.
10 1/2 – O que torna uma língua bela é…. o amor que a gente tem por ela.
A equipe agradece a atenção de Denise Bottmann

um jogador

.
Dostoievski, Um jogador. Prefácio e tradução de Jorge L. Costa Neves, José Olympio, 1944.

Capítulo II

Francamente, não podia haver coisa mais desagradável para mim. Embora disposto a jogar, não gostaria de o fazer para os outros. Fiquei mesmo um tanto desconcertado e entrei de muito mau humor na sala de jogo.
Tudo me contrariou desde o primeiro olhar que lancei ao ambiente. Não posso suportar esse espírito de servilismo dos jornais do mundo inteiro, e principalmente da Rússia, que, ao chegar a primavera, impõem aos seus redatores dois temas de rasgados elogios: primeiro, o esplendor e o luxo dos salões de jogo nas estações de água do Reno; segundo, os montes de ouro que, segundo eles, cobrem as mesas. Mas esses redatores não são pagos para fazer descrições desse jaez. É puro servilismo. Na realidade, essas salas são tristes e despidas de esplendor, e, quanto ao ouro, longe de ser amontoado sobre as mesas, quase não é visto. Sem dúvida, durante a estação, chega de fora um estrangeiro ricaço, algum inglês, um asiático qualquer, um turco, por exemplo, como neste verão, que ganha ou perde somas consideráveis no decurso de dois ou três dias; mas quanto ao movimento normal, o que se vê são modestos jogadores que arriscam pequenas somas e, em média, há apenas poucos florins sobre o pano verde.

Sendo a primeira vez em minha vida que punha os pés num salão de jogo, hesitei uns minutos até me decidir a jogar. Havia muita gente, e isso me paralisava os movimentos. Aliás, caso me achasse sozinho teria sido a mesma coisa; creio mesmo que em vez de jogar teria saído imediatamente. Confesso que meu coração batia com força e que me faltava sangue-frio. Persuadira-me havia muito tempo de que não deixaria Rolettenburg sem alguma aventura; algo de radical e definitivo haveria de fatalmente sobrevir em meu destino. Assim devia ser e será! Por mais ridícula que possa parecer semelhante confiança na roleta, acho ainda mais ridícula a opinião corrente de que é absurdo esperar-se alguma coisa do jogo. Em que é o jogo pior do que qualquer outro meio de se obter dinheiro? Do que o comércio, por exemplo? Verdade é que, entre cem indivíduos, um apenas ganha. Mas que me importa?

Em todo caso, estava decidido a observar primeiramente e nada empreender de importante nesta noite inicial. Minha convicção era que o resultado da primeira noitada seria fortuito e insignificante. Além do mais, era preciso estudar a técnica do jogo, pois, não obstante os inúmeros tratados de roleta lidos por mim com verdadeira avidez, nada compreendia de semelhante engrenagem.

A princípio tudo me pareceu sujo e repugnante. Não me refiro aqui à expressão ávida e inquieta desses rostos que às dúzias, e até às centenas, rodeiam o pano verde. Não vejo nada de sujo no desejo de se ganhar o máximo possível no menor espaço de tempo. Sempre achei absurda a idéia dum moralista nédio e endinheirado que, ao argumento dum jogador de que arriscava apenas pequenas importâncias, respondeu: “Oh! ainda pior, porque nesse caso é levado por uma cupidez mesquinha!” Como se a cupidez não fosse sempre semelhante qualquer que seja o fim colimado! É um caso de mera proporção: o que para Rothschild é um zero, para mim é a opulência. Quanto ao lucro, não é somente na roleta que verificamos o fenômeno: em toda parte homens se maculam enriquecendo às expensas do próximo. Mas saber se o lucro ou o ganho é vil em si mesmo já é uma outra questão e não sou eu quem deseja resolvê-la aqui. Como eu mesmo sentia vivo desejo de ganhar, confesso que já me atingira a cupidez geral, essa mácula da cupidez se assim o querem, desde que pisei o chão daquela sala. Não havia nada mais encantador do que agir abertamente, sem cerimônia ou constrangimento. Aliás, que vantagem há em enganar-se a si próprio? Não é essa a ocupação mais vã, mais desclassificada? O que desagradava particularmente à primeira vista, naquela corja de jogadores, era seu modo respeitoso de agir, o ar sério e mesmo deferente com o qual rodeavam o pano verde. Eis por que existe uma rigorosa demarcação entre o jogo chamado de mauvais genre e o que é permitido a um homem às direitas. Há dois gêneros de jogo: um para uso dos “gentlemen”, outro reles, cúpido, bom para a canalha. É patente a diferença entre esses dois gêneros, mas, no fundo, que ridícula diferença! Um “gentleman” por exemplo arrisca cinco ou dez luíses, raramente mais — quando é muito rico talvez chegue a mil francos — porém ele os arrisca por amor ao jogo, somente pelo prazer de jogar, diverte-se com o estudo dos ganhos e das perdas, mas sem nunca se deixar empolgar pela paixão do lucro fácil. Se a sorte o favorece, esboça um sorriso de satisfação, troca uma palavrinha amável com o vizinho, e talvez tente de novo, dobrando a parada, mas unicamente por curiosidade, afim de observar as probabilidades, de se entregar a cálculos... mas em absoluto se deixa dominar pelo desejo plebeu do lucro.

Em resumo, um cavalheiro não deve considerar o jogo, roleta ou trente-et-quarente, senão como um passatempo organizado com o único fito de o divertir. Ele nem sequer deve desconfiar dos cálculos e artimanhas em que é baseada a banca. Teria mesmo a delicadeza de supor que todos os outros jogadores, toda essa canalha que o rodeia e estremece por um florim, se compõe de ricos senhores de fino trato que, exatamente como ele, jogam exclusivamente para se distrair. Essa ignorância completa da realidade, essa ingênua boa-fé seriam dotes aristocráticos. Muitas mães eu vi que chamavam as filhas, graciosas e inocentes criaturas de quinze ou dezesseis anos, e lhes davam algumas moedas de ouro explicando-lhes as regras do jogo. A mocinha ganhava ou perdia, mas retirava-se sempre encantada, o sorriso a lhe bailar no rosto.

Nosso general acercou-se da mesa com majestosa importância; um criado precipitou-se para lhe oferecer uma cadeira, mas ele fingiu não perceber. Com sua extrema lentidão retirou do bolso a carteira, apanhou trezentos francos, colocou-os no preto e ganhou. Não retirou o ganho. Novamente deu preto; deixou-o ainda e na terceira rodada deu o vermelho. Perdeu, assim, mil e duzentos francos de uma só vez. Retirou-se impassível, a sorrir. Tenho mais do que certeza de que ele por dentro estava fulo de raiva e, se a parada fosse duas ou três vezes maior, garanto que não saberia conservar o sangue-frio. A propósito, vi um francês ganhar, e depois perder, sem o menor vislumbre de emoção, uns trinta mil francos. Um verdadeiro “gentleman” não deve alterar-se, mesmo quando perde toda a sua fortuna. Cumpre-lhe manifestar pouco caso pelo dinheiro. (Como se o dinheiro na verdade não merecesse a mínima atenção!) Evidentemente é muito aristocrático parecer ignorar a imundície dessa corja e do meio onde ela se movimenta. Às vezes o contrário é também não menos distinto: observar, notar o comportamento da plebe, examiná-la nos detalhes, com os óculos ou de lorgnon, mas afetando contemplar a sórdida multidão como um espetáculo, uma comédia destinada a distrair o espectador. Pode-se até misturar-se a essa gente; mas, nesse caso, faz-se mister demonstrar pela atitude que se está em tal meio por mera curiosidade, sem nenhum outro elo comum com a corja. Aliás, não convém olhar com insistência; não, eis aí outra indignidade por parte de um “gentleman”; um espetáculo de tal ordem não merece uma atenção muito apurada, tão longa assim... Para um “gentleman” espetáculos dignos de interesse não são lá muito numerosos... No entanto a mim me parecia que tudo isso reclamava séria atenção, principalmente da parte de quem não fora aí como simples espectador, mas sim para incluir-se sincera e espontaneamente nessa corja. Quanto às minhas íntimas convicções morais, devo dizer que era natural não pudessem achar abrigo aí. Faço questão de o declarar para descanso da minha consciência. Contudo digo de passagem que há algum tempo já que experimento viva repugnância em aplicar aos meus atos e pensamentos qualquer critério moral. Obedeço a outro impulso...


Dostoievski, O jogador. Prefácio de J. L. Costa Neves e tradução de Pietro Nassetti. Martin Claret, 2002

Notem-se as diferenças no início do capítulo (em itálico), e depois a cópia fiel e integral.

Capítulo II

Reconheço que tudo aquilo era muito desagradável para mim. Apesar de me decidir a jogar, não estava disposto a fazê-lo pelos outros. Por isso, fiquei bem contrariado, e meu humor não era dos melhores quando entrei na sala de jogo.

Ali, meu desgosto só aumentou ao ver pelas notícias dos jornais do mundo inteiro, sobretudo da Prússia [sic], exaltando os salões de jogo nas estações de água do Reno, ao chegar a primavera, e ressaltando, ainda, as montanhas de ouro que cobriam as mesas. Os jornais são pagos para veicular essas notas? Ou assim procedem por puro prazer? Na realidade, essas salas são tristes e despidas de esplendor, e, quanto ao ouro, longe de ser amontoado sobre as mesas, quase não é visto. Sem dúvida, durante a estação, chega de fora um estrangeiro ricaço, algum inglês, um asiático qualquer, um turco, por exemplo, como neste verão, que ganha ou perde somas consideráveis no decurso de dois ou três dias; mas quanto ao movimento normal, o que se vê são modestos jogadores que arriscam pequenas somas e, em média, há apenas poucos florins sobre o pano verde.

Sendo a primeira vez em minha vida que punha os pés num salão de jogo, hesitei uns minutos até me decidir a jogar. Havia muita gente, e isso me paralisava os movimentos. Aliás, caso me achasse sozinho teria sido a mesma coisa; creio mesmo que em vez de jogar teria saído imediatamente. Confesso que meu coração batia com força e que me faltava sangue-frio. Persuadira-me havia muito tempo de que não deixaria Rolettenburg sem alguma aventura; algo de radical e definitivo haveria de fatalmente sobrevir em meu destino. Assim devia ser e será! Por mais ridícula que possa parecer semelhante confiança na roleta, acho ainda mais ridícula a opinião corrente de que é absurdo esperar-se alguma coisa do jogo. Em que é o jogo pior do que qualquer outro meio de se obter dinheiro? Do que o comércio, por exemplo? Verdade é que, entre cem indivíduos, um apenas ganha. Mas que me importa?

Em todo caso, estava decidido a observar primeiramente e nada empreender de importante nesta noite inicial. Minha convicção era que o resultado da primeira noitada seria fortuito e insignificante. Além do mais, era preciso estudar a técnica do jogo, pois, não obstante os inúmeros tratados de roleta lidos por mim com verdadeira avidez, nada compreendia de semelhante engrenagem.

A princípio tudo me pareceu sujo e repugnante. Não me refiro aqui à expressão ávida e inquieta desses rostos que às dúzias, e até às centenas, rodeiam o pano verde. Não vejo nada de sujo no desejo de se ganhar o máximo possível no menor espaço de tempo. Sempre achei absurda a idéia dum moralista nédio e endinheirado que, ao argumento dum jogador de que arriscava apenas pequenas importâncias, respondeu: “Oh! ainda pior, porque nesse caso é levado por uma cupidez mesquinha!” Como se a cupidez não fosse sempre semelhante qualquer que seja o fim colimado! É um caso de mera proporção: o que para Rothschild é um zero, para mim é a opulência. Quanto ao lucro, não é somente na roleta que verificamos o fenômeno: em toda parte homens se maculam enriquecendo às expensas do próximo. Mas saber se o lucro ou o ganho é vil em si mesmo já é uma outra questão e não sou eu quem deseja resolvê-la aqui. Como eu mesmo sentia vivo desejo de ganhar, confesso que já me atingira a cupidez geral, essa mácula da cupidez se assim o querem, desde que pisei o chão daquela sala. Não havia nada mais encantador do que agir abertamente, sem cerimônia ou constrangimento. Aliás, que vantagem há em enganar-se a si próprio? Não é essa a ocupação mais vã, mais desclassificada? O que desagradava particularmente à primeira vista, naquela corja de jogadores, era seu modo respeitoso de agir, o ar sério e mesmo deferente com o qual rodeavam o pano verde. Eis por que existe uma rigorosa demarcação entre o jogo chamado de mauvais genre e o que é permitido a um homem às direitas. Há dois gêneros de jogo: um para uso dos “gentlemen”, outro reles, cúpido, bom para a canalha. É patente a diferença entre esses dois gêneros, mas, no fundo, que ridícula diferença! Um “gentleman” por exemplo arrisca cinco ou dez luíses, raramente mais — quando é muito rico talvez chegue a mil francos — porém ele os arrisca por amor ao jogo, somente pelo prazer de jogar, diverte-se com o estudo dos ganhos e das perdas, mas sem nunca se deixar empolgar pela paixão do lucro fácil. Se a sorte o favorece, esboça um sorriso de satisfação, troca uma palavrinha amável com o vizinho, e talvez tente de novo, dobrando a parada, mas unicamente por curiosidade, afim de observar as probabilidades, de se entregar a cálculos... mas em absoluto se deixa dominar pelo desejo plebeu do lucro.

Em resumo, um cavalheiro não deve considerar o jogo, roleta ou trente-et-quarente, senão como um passatempo organizado com o único fito de o divertir. Ele nem sequer deve desconfiar dos cálculos e artimanhas em que é baseada a banca. Teria mesmo a delicadeza de supor que todos os outros jogadores, toda essa canalha que o rodeia e estremece por um florim, se compõe de ricos senhores de fino trato que, exatamente como ele, jogam exclusivamente para se distrair. Essa ignorância completa da realidade, essa ingênua boa-fé seriam dotes aristocráticos. Muitas mães eu vi que chamavam as filhas, graciosas e inocentes criaturas de quinze ou dezesseis anos, e lhes davam algumas moedas de ouro explicando-lhes as regras do jogo. A mocinha ganhava ou perdia, mas retirava-se sempre encantada, o sorriso a lhe bailar no rosto.

Nosso general acercou-se da mesa com majestosa importância; um criado precipitou-se para lhe oferecer uma cadeira, mas ele fingiu não perceber. Com sua extrema lentidão retirou do bolso a carteira, apanhou trezentos francos, colocou-os no preto e ganhou. Não retirou o ganho. Novamente deu preto; deixou-o ainda e na terceira rodada deu o vermelho. Perdeu, assim, mil e duzentos francos de uma só vez. Retirou-se impassível, a sorrir. Tenho mais do que certeza de que ele por dentro estava fulo de raiva e, se a parada fosse duas ou três vezes maior, garanto que não saberia conservar o sangue-frio. A propósito, vi um francês ganhar, e depois perder, sem o menor vislumbre de emoção, uns trinta mil francos. Um verdadeiro “gentleman” não deve alterar-se, mesmo quando perde toda a sua fortuna. Cumpre-lhe manifestar pouco caso pelo dinheiro. (Como se o dinheiro na verdade não merecesse a mínima atenção!) Evidentemente é muito aristocrático parecer ignorar a imundície dessa corja e do meio onde ela se movimenta. Às vezes o contrário é também não menos distinto: observar, notar o comportamento da plebe, examiná-la nos detalhes, com os óculos ou de luneta, mas afetando contemplar a sórdida multidão como um espetáculo, uma comédia destinada a distrair o espectador. Pode-se até misturar-se a essa gente; mas, nesse caso, faz-se mister demonstrar pela atitude que se está em tal meio por mera curiosidade, sem nenhum outro elo comum com a corja. Aliás, não convém olhar com insistência; não, eis aí outra indignidade por parte de um “gentleman”; um espetáculo de tal ordem não merece uma atenção muito apurada, tão longa assim... Para um “gentleman” espetáculos dignos de interesse não são lá muito numerosos... No entanto a mim me parecia que tudo isso reclamava séria atenção, principalmente da parte de quem não fora aí como simples espectador, mas sim para incluir-se sincera e espontaneamente nessa corja. Quanto às minhas íntimas convicções morais, devo dizer que era natural não pudessem achar abrigo aí. Faço questão de o declarar para descanso da minha consciência. Contudo digo de passagem que há algum tempo já que experimento viva repugnância em aplicar aos meus atos e pensamentos qualquer critério moral. Obedeço a outro impulso...


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.