9 de ago de 2010

um jogador

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Dostoievski, Um jogador. Prefácio e tradução de Jorge L. Costa Neves, José Olympio, 1944.

Capítulo II

Francamente, não podia haver coisa mais desagradável para mim. Embora disposto a jogar, não gostaria de o fazer para os outros. Fiquei mesmo um tanto desconcertado e entrei de muito mau humor na sala de jogo.
Tudo me contrariou desde o primeiro olhar que lancei ao ambiente. Não posso suportar esse espírito de servilismo dos jornais do mundo inteiro, e principalmente da Rússia, que, ao chegar a primavera, impõem aos seus redatores dois temas de rasgados elogios: primeiro, o esplendor e o luxo dos salões de jogo nas estações de água do Reno; segundo, os montes de ouro que, segundo eles, cobrem as mesas. Mas esses redatores não são pagos para fazer descrições desse jaez. É puro servilismo. Na realidade, essas salas são tristes e despidas de esplendor, e, quanto ao ouro, longe de ser amontoado sobre as mesas, quase não é visto. Sem dúvida, durante a estação, chega de fora um estrangeiro ricaço, algum inglês, um asiático qualquer, um turco, por exemplo, como neste verão, que ganha ou perde somas consideráveis no decurso de dois ou três dias; mas quanto ao movimento normal, o que se vê são modestos jogadores que arriscam pequenas somas e, em média, há apenas poucos florins sobre o pano verde.

Sendo a primeira vez em minha vida que punha os pés num salão de jogo, hesitei uns minutos até me decidir a jogar. Havia muita gente, e isso me paralisava os movimentos. Aliás, caso me achasse sozinho teria sido a mesma coisa; creio mesmo que em vez de jogar teria saído imediatamente. Confesso que meu coração batia com força e que me faltava sangue-frio. Persuadira-me havia muito tempo de que não deixaria Rolettenburg sem alguma aventura; algo de radical e definitivo haveria de fatalmente sobrevir em meu destino. Assim devia ser e será! Por mais ridícula que possa parecer semelhante confiança na roleta, acho ainda mais ridícula a opinião corrente de que é absurdo esperar-se alguma coisa do jogo. Em que é o jogo pior do que qualquer outro meio de se obter dinheiro? Do que o comércio, por exemplo? Verdade é que, entre cem indivíduos, um apenas ganha. Mas que me importa?

Em todo caso, estava decidido a observar primeiramente e nada empreender de importante nesta noite inicial. Minha convicção era que o resultado da primeira noitada seria fortuito e insignificante. Além do mais, era preciso estudar a técnica do jogo, pois, não obstante os inúmeros tratados de roleta lidos por mim com verdadeira avidez, nada compreendia de semelhante engrenagem.

A princípio tudo me pareceu sujo e repugnante. Não me refiro aqui à expressão ávida e inquieta desses rostos que às dúzias, e até às centenas, rodeiam o pano verde. Não vejo nada de sujo no desejo de se ganhar o máximo possível no menor espaço de tempo. Sempre achei absurda a idéia dum moralista nédio e endinheirado que, ao argumento dum jogador de que arriscava apenas pequenas importâncias, respondeu: “Oh! ainda pior, porque nesse caso é levado por uma cupidez mesquinha!” Como se a cupidez não fosse sempre semelhante qualquer que seja o fim colimado! É um caso de mera proporção: o que para Rothschild é um zero, para mim é a opulência. Quanto ao lucro, não é somente na roleta que verificamos o fenômeno: em toda parte homens se maculam enriquecendo às expensas do próximo. Mas saber se o lucro ou o ganho é vil em si mesmo já é uma outra questão e não sou eu quem deseja resolvê-la aqui. Como eu mesmo sentia vivo desejo de ganhar, confesso que já me atingira a cupidez geral, essa mácula da cupidez se assim o querem, desde que pisei o chão daquela sala. Não havia nada mais encantador do que agir abertamente, sem cerimônia ou constrangimento. Aliás, que vantagem há em enganar-se a si próprio? Não é essa a ocupação mais vã, mais desclassificada? O que desagradava particularmente à primeira vista, naquela corja de jogadores, era seu modo respeitoso de agir, o ar sério e mesmo deferente com o qual rodeavam o pano verde. Eis por que existe uma rigorosa demarcação entre o jogo chamado de mauvais genre e o que é permitido a um homem às direitas. Há dois gêneros de jogo: um para uso dos “gentlemen”, outro reles, cúpido, bom para a canalha. É patente a diferença entre esses dois gêneros, mas, no fundo, que ridícula diferença! Um “gentleman” por exemplo arrisca cinco ou dez luíses, raramente mais — quando é muito rico talvez chegue a mil francos — porém ele os arrisca por amor ao jogo, somente pelo prazer de jogar, diverte-se com o estudo dos ganhos e das perdas, mas sem nunca se deixar empolgar pela paixão do lucro fácil. Se a sorte o favorece, esboça um sorriso de satisfação, troca uma palavrinha amável com o vizinho, e talvez tente de novo, dobrando a parada, mas unicamente por curiosidade, afim de observar as probabilidades, de se entregar a cálculos... mas em absoluto se deixa dominar pelo desejo plebeu do lucro.

Em resumo, um cavalheiro não deve considerar o jogo, roleta ou trente-et-quarente, senão como um passatempo organizado com o único fito de o divertir. Ele nem sequer deve desconfiar dos cálculos e artimanhas em que é baseada a banca. Teria mesmo a delicadeza de supor que todos os outros jogadores, toda essa canalha que o rodeia e estremece por um florim, se compõe de ricos senhores de fino trato que, exatamente como ele, jogam exclusivamente para se distrair. Essa ignorância completa da realidade, essa ingênua boa-fé seriam dotes aristocráticos. Muitas mães eu vi que chamavam as filhas, graciosas e inocentes criaturas de quinze ou dezesseis anos, e lhes davam algumas moedas de ouro explicando-lhes as regras do jogo. A mocinha ganhava ou perdia, mas retirava-se sempre encantada, o sorriso a lhe bailar no rosto.

Nosso general acercou-se da mesa com majestosa importância; um criado precipitou-se para lhe oferecer uma cadeira, mas ele fingiu não perceber. Com sua extrema lentidão retirou do bolso a carteira, apanhou trezentos francos, colocou-os no preto e ganhou. Não retirou o ganho. Novamente deu preto; deixou-o ainda e na terceira rodada deu o vermelho. Perdeu, assim, mil e duzentos francos de uma só vez. Retirou-se impassível, a sorrir. Tenho mais do que certeza de que ele por dentro estava fulo de raiva e, se a parada fosse duas ou três vezes maior, garanto que não saberia conservar o sangue-frio. A propósito, vi um francês ganhar, e depois perder, sem o menor vislumbre de emoção, uns trinta mil francos. Um verdadeiro “gentleman” não deve alterar-se, mesmo quando perde toda a sua fortuna. Cumpre-lhe manifestar pouco caso pelo dinheiro. (Como se o dinheiro na verdade não merecesse a mínima atenção!) Evidentemente é muito aristocrático parecer ignorar a imundície dessa corja e do meio onde ela se movimenta. Às vezes o contrário é também não menos distinto: observar, notar o comportamento da plebe, examiná-la nos detalhes, com os óculos ou de lorgnon, mas afetando contemplar a sórdida multidão como um espetáculo, uma comédia destinada a distrair o espectador. Pode-se até misturar-se a essa gente; mas, nesse caso, faz-se mister demonstrar pela atitude que se está em tal meio por mera curiosidade, sem nenhum outro elo comum com a corja. Aliás, não convém olhar com insistência; não, eis aí outra indignidade por parte de um “gentleman”; um espetáculo de tal ordem não merece uma atenção muito apurada, tão longa assim... Para um “gentleman” espetáculos dignos de interesse não são lá muito numerosos... No entanto a mim me parecia que tudo isso reclamava séria atenção, principalmente da parte de quem não fora aí como simples espectador, mas sim para incluir-se sincera e espontaneamente nessa corja. Quanto às minhas íntimas convicções morais, devo dizer que era natural não pudessem achar abrigo aí. Faço questão de o declarar para descanso da minha consciência. Contudo digo de passagem que há algum tempo já que experimento viva repugnância em aplicar aos meus atos e pensamentos qualquer critério moral. Obedeço a outro impulso...


Dostoievski, O jogador. Prefácio de J. L. Costa Neves e tradução de Pietro Nassetti. Martin Claret, 2002

Notem-se as diferenças no início do capítulo (em itálico), e depois a cópia fiel e integral.

Capítulo II

Reconheço que tudo aquilo era muito desagradável para mim. Apesar de me decidir a jogar, não estava disposto a fazê-lo pelos outros. Por isso, fiquei bem contrariado, e meu humor não era dos melhores quando entrei na sala de jogo.

Ali, meu desgosto só aumentou ao ver pelas notícias dos jornais do mundo inteiro, sobretudo da Prússia [sic], exaltando os salões de jogo nas estações de água do Reno, ao chegar a primavera, e ressaltando, ainda, as montanhas de ouro que cobriam as mesas. Os jornais são pagos para veicular essas notas? Ou assim procedem por puro prazer? Na realidade, essas salas são tristes e despidas de esplendor, e, quanto ao ouro, longe de ser amontoado sobre as mesas, quase não é visto. Sem dúvida, durante a estação, chega de fora um estrangeiro ricaço, algum inglês, um asiático qualquer, um turco, por exemplo, como neste verão, que ganha ou perde somas consideráveis no decurso de dois ou três dias; mas quanto ao movimento normal, o que se vê são modestos jogadores que arriscam pequenas somas e, em média, há apenas poucos florins sobre o pano verde.

Sendo a primeira vez em minha vida que punha os pés num salão de jogo, hesitei uns minutos até me decidir a jogar. Havia muita gente, e isso me paralisava os movimentos. Aliás, caso me achasse sozinho teria sido a mesma coisa; creio mesmo que em vez de jogar teria saído imediatamente. Confesso que meu coração batia com força e que me faltava sangue-frio. Persuadira-me havia muito tempo de que não deixaria Rolettenburg sem alguma aventura; algo de radical e definitivo haveria de fatalmente sobrevir em meu destino. Assim devia ser e será! Por mais ridícula que possa parecer semelhante confiança na roleta, acho ainda mais ridícula a opinião corrente de que é absurdo esperar-se alguma coisa do jogo. Em que é o jogo pior do que qualquer outro meio de se obter dinheiro? Do que o comércio, por exemplo? Verdade é que, entre cem indivíduos, um apenas ganha. Mas que me importa?

Em todo caso, estava decidido a observar primeiramente e nada empreender de importante nesta noite inicial. Minha convicção era que o resultado da primeira noitada seria fortuito e insignificante. Além do mais, era preciso estudar a técnica do jogo, pois, não obstante os inúmeros tratados de roleta lidos por mim com verdadeira avidez, nada compreendia de semelhante engrenagem.

A princípio tudo me pareceu sujo e repugnante. Não me refiro aqui à expressão ávida e inquieta desses rostos que às dúzias, e até às centenas, rodeiam o pano verde. Não vejo nada de sujo no desejo de se ganhar o máximo possível no menor espaço de tempo. Sempre achei absurda a idéia dum moralista nédio e endinheirado que, ao argumento dum jogador de que arriscava apenas pequenas importâncias, respondeu: “Oh! ainda pior, porque nesse caso é levado por uma cupidez mesquinha!” Como se a cupidez não fosse sempre semelhante qualquer que seja o fim colimado! É um caso de mera proporção: o que para Rothschild é um zero, para mim é a opulência. Quanto ao lucro, não é somente na roleta que verificamos o fenômeno: em toda parte homens se maculam enriquecendo às expensas do próximo. Mas saber se o lucro ou o ganho é vil em si mesmo já é uma outra questão e não sou eu quem deseja resolvê-la aqui. Como eu mesmo sentia vivo desejo de ganhar, confesso que já me atingira a cupidez geral, essa mácula da cupidez se assim o querem, desde que pisei o chão daquela sala. Não havia nada mais encantador do que agir abertamente, sem cerimônia ou constrangimento. Aliás, que vantagem há em enganar-se a si próprio? Não é essa a ocupação mais vã, mais desclassificada? O que desagradava particularmente à primeira vista, naquela corja de jogadores, era seu modo respeitoso de agir, o ar sério e mesmo deferente com o qual rodeavam o pano verde. Eis por que existe uma rigorosa demarcação entre o jogo chamado de mauvais genre e o que é permitido a um homem às direitas. Há dois gêneros de jogo: um para uso dos “gentlemen”, outro reles, cúpido, bom para a canalha. É patente a diferença entre esses dois gêneros, mas, no fundo, que ridícula diferença! Um “gentleman” por exemplo arrisca cinco ou dez luíses, raramente mais — quando é muito rico talvez chegue a mil francos — porém ele os arrisca por amor ao jogo, somente pelo prazer de jogar, diverte-se com o estudo dos ganhos e das perdas, mas sem nunca se deixar empolgar pela paixão do lucro fácil. Se a sorte o favorece, esboça um sorriso de satisfação, troca uma palavrinha amável com o vizinho, e talvez tente de novo, dobrando a parada, mas unicamente por curiosidade, afim de observar as probabilidades, de se entregar a cálculos... mas em absoluto se deixa dominar pelo desejo plebeu do lucro.

Em resumo, um cavalheiro não deve considerar o jogo, roleta ou trente-et-quarente, senão como um passatempo organizado com o único fito de o divertir. Ele nem sequer deve desconfiar dos cálculos e artimanhas em que é baseada a banca. Teria mesmo a delicadeza de supor que todos os outros jogadores, toda essa canalha que o rodeia e estremece por um florim, se compõe de ricos senhores de fino trato que, exatamente como ele, jogam exclusivamente para se distrair. Essa ignorância completa da realidade, essa ingênua boa-fé seriam dotes aristocráticos. Muitas mães eu vi que chamavam as filhas, graciosas e inocentes criaturas de quinze ou dezesseis anos, e lhes davam algumas moedas de ouro explicando-lhes as regras do jogo. A mocinha ganhava ou perdia, mas retirava-se sempre encantada, o sorriso a lhe bailar no rosto.

Nosso general acercou-se da mesa com majestosa importância; um criado precipitou-se para lhe oferecer uma cadeira, mas ele fingiu não perceber. Com sua extrema lentidão retirou do bolso a carteira, apanhou trezentos francos, colocou-os no preto e ganhou. Não retirou o ganho. Novamente deu preto; deixou-o ainda e na terceira rodada deu o vermelho. Perdeu, assim, mil e duzentos francos de uma só vez. Retirou-se impassível, a sorrir. Tenho mais do que certeza de que ele por dentro estava fulo de raiva e, se a parada fosse duas ou três vezes maior, garanto que não saberia conservar o sangue-frio. A propósito, vi um francês ganhar, e depois perder, sem o menor vislumbre de emoção, uns trinta mil francos. Um verdadeiro “gentleman” não deve alterar-se, mesmo quando perde toda a sua fortuna. Cumpre-lhe manifestar pouco caso pelo dinheiro. (Como se o dinheiro na verdade não merecesse a mínima atenção!) Evidentemente é muito aristocrático parecer ignorar a imundície dessa corja e do meio onde ela se movimenta. Às vezes o contrário é também não menos distinto: observar, notar o comportamento da plebe, examiná-la nos detalhes, com os óculos ou de luneta, mas afetando contemplar a sórdida multidão como um espetáculo, uma comédia destinada a distrair o espectador. Pode-se até misturar-se a essa gente; mas, nesse caso, faz-se mister demonstrar pela atitude que se está em tal meio por mera curiosidade, sem nenhum outro elo comum com a corja. Aliás, não convém olhar com insistência; não, eis aí outra indignidade por parte de um “gentleman”; um espetáculo de tal ordem não merece uma atenção muito apurada, tão longa assim... Para um “gentleman” espetáculos dignos de interesse não são lá muito numerosos... No entanto a mim me parecia que tudo isso reclamava séria atenção, principalmente da parte de quem não fora aí como simples espectador, mas sim para incluir-se sincera e espontaneamente nessa corja. Quanto às minhas íntimas convicções morais, devo dizer que era natural não pudessem achar abrigo aí. Faço questão de o declarar para descanso da minha consciência. Contudo digo de passagem que há algum tempo já que experimento viva repugnância em aplicar aos meus atos e pensamentos qualquer critério moral. Obedeço a outro impulso...


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



3 comentários:

  1. Marcos9.8.10

    Pelo menos eles mantiveram o crédito do prefácio ao seu verdadeiro autor... Hehe. Só faltava atribuir o prefácio ao lendário Pietro Nassetti também...

    Adoram fazer a gente de bobo...

    Obrigado outra vez, Denise.

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  2. Alexandre Girardi18.3.12

    Putz, conhecimento geográfico: zero. Prússia?

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  3. prússia é bom, né, alexandre?

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