9 de mai. de 2009

tristeza

nossos sentimentos pela morte de claudia martinelli gama, e nossa profunda solidariedade a mauro gama.

8 de mai. de 2009

os irmãos do bem

fiquei felicíssima com a notícia: o prêmio de tradução da abl deste ano foi para paulo bezerra, com seu esplêndido labor em os irmãos karamázov, publicado pela editora 34.

além do imenso mérito da tradução, fiquei feliz também porque paulo bezerra é um dos que detestam figadalmente o plágio.

só para lembrar: os irmãos karamázov protagonizou um dos mais traumáticos casos de plágio no país, envolvendo a antiga tradução de boris schnaiderman publicada pela vecchi. veja aqui.

imagem: capa

o hiperbóreo nos trópicos


Prólogo

Conheço demasiado bem as condições em que alguém me compreende e, além disso, com necessidade me compreende. Há que ser íntegro até à dureza nas coisas de espírito para aguentar a minha seriedade e a minha paixão; estar afeito a viver nas montanhas, a ver abaixo de si o mesquinho charlatanismo actual da política e do egoísmo dos povos. Importa ter-se tornado indiferente, é preciso nunca perguntar se a verdade é útil, se chegará a ser uma fatalidade... Necessária é também uma preferência da força por questões a que hoje ninguém se atreve; a coragem para o proibido; a predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma nova música. Olhos novos para o mais longínquo. Uma consciência nova para verdades que, até hoje, permaneceram mudas. E uma vontade de economia de grande estilo: reter conjuntamente a sua força, o seu entusiasmo... O respeito por si mesmo, o amor-próprio, a liberdade incondicional para consigo...
Pois bem, só esses são os meus leitores, os meus autênticos leitores, os meus predestinados leitores: que importa o resto? O resto é simplesmente a Humanidade. Há que ser superior à humanidade em força, em grandeza de alma – e em desprezo...

7.
Chamam ao Cristianismo a religião da compaixão. A compaixão está em contradição com as emoções tónicas, que elevam a energia do sentimento vital; a compaixão tem uma acção depressiva. Quando alguém se compadece, perde a força. Pela compaixão aumenta-se e multiplica-se o desperdício de energia que o sofrimento, por si próprio, já traz à vida. O próprio sentimento torna-se, pela compaixão, infeccioso; em determinadas circunstâncias pode chegar-se a um desperdício global de vida e de energia vital, que se encontra numa relação absurda com o quantum da causa (o caso da morte do Nazareno). Eis o primeiro ponto de vista; mas existe outro ainda mais importante. Supondo que se mede a compaixão pelo valor das reacções que costuma suscitar, surge ainda mais claramente o seu carácter nocivo à vida. A traços largos, a compaixão contradiz a lei da evolução, que é a lei da selecção. Conserva o que está maduro para o declínio, luta em prol dos deserdados e dos condenados pela vida; e, pela abundância dos falhados de toda a espécie, que mantém vivos, confere à própria vida um aspecto lúgubre e duvidoso. Ousou-se mesmo chamar virtude à compaixão (em qualquer moral nobre surge como fraqueza); foi-se mais longe, fez-se dela a virtude, o solo e a origem de todas as virtudes – só que, e é necessário não o esquecer, a partir do ponto de vista de uma filosofia que era niilista, que inscrevia como divisa no seu escudo a negação da vida. Schopenhauer tinha razão ao dizer: «A vida é negada pela compaixão, a compaixão torna a vida ainda mais digna de ser negada » – compadecer-se é a prática do niilismo. Uma vez mais: este instinto depressivo e contagioso contradiz os instintos de conservação e de valorização da vida: como multiplicador da miséria, mais ainda como conservador de todos os míseros, é um instrumento essencial na acentuação da décadence; a compaixão incita ao nada!... Não se diz «nada»: menciona-se em seu lugar «o além», ou «Deus», ou «a verdadeira vida»; ou ainda Nirvana, redenção, beatitude... Esta inocente retórica, proveniente do domínio da idiossincrasia religiosa e moral, revela-se logo muito menos inocente quando se elucida qual a tendência que ali se abriga, sob o manto de sublimes palavras: a tendência hostil à vida. Schopenhauer era inimigo da vida; por isso, a piedade transformou-se para ele numa virtude... Aristóteles, como se sabe, via a compaixão num estado mórbido e perigoso, que seria útil extirpar de quando em quando por meio de um purgante: para ele, o purgante era a tragédia. Em nome do instinto vital, deveria efectivamente arranjar-se um meio de enfraquecer essa acumulação de piedade, tão mórbida e nociva, como se nos depara no caso de Schopenhauer (e, infelizmente, também no de toda a nossa décadence literária e artística, desde S. Petersburgo a Paris, de Tolstoi a Wagner): que rebente... Nada de mais insalubre, no meio da nossa insalubre modernidade, do que a nossa compaixão cristã. É aí que importa ser médico, é aí que é preciso ser implacável e manejar o escalpelo – eis o que nos incumbe, eis a nossa filantropia, eis o que nos faz filósofos, a nós, hiperbóreos!

31
Deveria lamentar-se que um Dostoievsky não tenha vivido na proximidade deste interessantíssimo décadent, quero dizer, alguém que soubesse sentir justamente o fascínio comovente de uma tal mescla de sublime, de doentio e infantil. Um último ponto de vista: o tipo, enquanto tipo de décadence, poderia efectivamente ter sido de uma peculiar multiplicidade e contrariedade: tal possibilidade não deve de todo excluir-se. Não obstante, dela tudo parece dissuadir-nos: a tradição deveria neste caso ser notavelmente fiel e objectiva; temos a seu respeito razões para admitir o contrário. Entretanto, há uma contradição entre o pregador das montanhas, dos lagos e dos prados, cuja manifestação é como a de um Buda num terreno muito pouco indiano, e aquele fanático da agressão e inimigo mortal dos teólogos e dos sacerdotes, que a malícia de Renan exaltou como «le grand maître en ironie». Eu próprio não duvido de que a copiosa dose de fel (e até de esprit) foi derramada sobre o tipo do Mestre só em virtude do estado de agitação da propaganda cristã: conhece-se sobejamente a falta de escrúpulos de todos os sectários em aprontar a sua própria apologia a partir do seu mestre. Quando a primeira comunidade precisou de um teólogo justiceiro, querelante, tempestuoso, perversamente capcioso contra os teólogos, criou para si o seu «Deus», segundo as suas necessidades: assim como também lhe pôs, sem hesitação, na boca os conceitos de todo contrários ao Evangelho, que agora não poderia dispensar, a «segunda vinda» [de Cristo], o «Juízo Final», toda a espécie de esperança e promessa temporais.

nietzsche, o anticristo
a elegante tradução acima é da autoria de artur morão, pelas edições 70.

a autoria da "tradução" abaixo é atribuída pela editora rideel ao nome de heloísa da graça burati.
 [não que o fervor nietzscheano pelos itálicos tenha sido muito respeitado.]

Prólogo
Conheço muito bem as condições em que alguém me compreende, aquelas sob as quais sou necessariamente compreendido. Há que ser íntegro até às últimas consequências nas coisas de espírito para aguentar a minha seriedade e a minha paixão; estar afeito a viver nas montanhas, a ver abaixo de si o mesquinho charlatanismo atual da política e do egoísmo dos povos. É importante ter-se tornado indiferente, é preciso nunca perguntar se a verdade é útil, se chegará a ser uma fatalidade... Necessária é também uma preferência da força por questões a que hoje ninguém se atreve; a coragem para o proibido; a predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma nova música. Olhos novos para o mais longínquo. Uma consciência nova para verdades que, até hoje, permaneceram mudas. E uma vontade de economia de grande estilo: reter conjuntamente a sua força, o seu entusiasmo... O respeito por si mesmo, o amor-próprio, a liberdade incondicional para consigo...
Pois bem, só esses são os meus leitores, os meus autênticos leitores, os meus predestinados leitores: que importa o resto? O resto é simplesmente a Humanidade. Há que ser superior à humanidade em força, em grandeza de alma – e em desprezo...

7.
Chamam ao cristianismo a religião da compaixão. A compaixão, porém, é a contradição das emoções tónicas, que aumentam a energia do sentimento vital; a compaixão tem uma ação depressiva. Quando alguém se compadece, perde a força. Pela compaixão aumenta-se e multiplica-se o desperdício de energia que o sofrimento, por si próprio, já traz à vida. O próprio sentimento torna-se, pela compaixão, infeccioso: em determinadas circunstâncias pode chegar-se a um desperdício global de vida e de energia vital, que se encontra numa relação absurda com o quantum da causa (o caso da morte do Nazareno). Eis o primeiro ponto de vista; mas existe outro ainda mais importante. Medindo-se a compaixão pelo valor das reações que costuma suscitar, surge ainda mais claramente o seu caráter nocivo à vida. A compaixão contradiz completamente a lei da evolução, que é a lei da seleção natural. Conserva o que está maduro para o declínio, luta em prol dos deserdados e dos condenados pela vida; e, pela abundância dos fracassados de toda a espécie que mantém vivos, confere à própria vida um aspecto lúgubre e duvidoso. Ousou-se mesmo chamar virtude à compaixão (em qualquer moral superior surge como fraqueza); foi-se mais longe, fez-se dela a virtude, o solo e a origem de todas as virtudes – só que, e é necessário não o esquecer, a partir do ponto de vista de uma filosofia que era niilista, que inscrevia como divisa no seu escudo a negação da vida. Schopenhauer tinha razão ao dizer:
«A vida é negada pela compaixão, a compaixão torna a vida ainda mais digna de ser negada » – compadecer-se é praticar o niilismo. Uma vez mais: esse instinto depressivo e contagioso contradiz os instintos de conservação e de valorização da vida: como multiplicador da miséria, mais ainda como conservador dos miseráveis, é um instrumento essencial na acentuação da décadence; a compaixão incita ao nada!... Não se diz «nada»: menciona-se em seu lugar «o além», ou «Deus», ou «a verdadeira vida»; ou ainda Nirvana, redenção, beatitude... Esta inocente retórica, proveniente do domínio da idiossincrasia religiosa e moral, revela-se logo muito menos inocente quando se elucida qual a tendência que ali se abriga, sob o manto de sublimes palavras: a tendência hostil à vida. Schopenhauer era inimigo da vida; por isso, a piedade transformou-se para ele numa virtude... Aristóteles, como se sabe, via a compaixão como um estado mórbido e perigoso, que seria útil extirpar de quando em quando por meio de um purgante: para ele, o purgante era a tragédia. Em nome do instinto vital, deveria efetivamente arranjar-se um meio de espetar essa acumulação de piedade, tão mórbida e nociva, como [] no caso de Schopenhauer (e, infelizmente, também no de toda a nossa décadence literária e artística, desde São Petersburgo a Paris, de Tolstói a Wagner): que estoure... Nada é mais insalubre, em meio à nossa insalubre modernidade, do que a nossa compaixão cristã. É aí que importa ser médico, é aí que é preciso ser implacável e manejar o escalpelo – eis o que nos incumbe, eis a nossa filantropia, eis o que nos faz filósofos, a nós, hiperbóreos!

31.
Deveria lamentar-se que um Dostoiévski não tenha vivido na proximidade deste interessantíssimo décadent, quero dizer, alguém que soubesse sentir justamente o fascínio comovente de uma tal mescla de sublime, doentio e infantil. Um último ponto de vista: o tipo, enquanto tipo de décadence, poderia efetivamente ter sido de uma peculiar multiplicidade e contrariedade: tal possibilidade não deve ser excluída totalmente. Não obstante, dela tudo parece dissuadir-nos: a tradição deveria, neste caso, ser notavelmente fiel e objetiva; temos a seu respeito razões para admitir o contrário. Entretanto, há uma contradição entre o pregador das montanhas, dos lagos e dos prados, cuja manifestação é como a de um Buda num terreno muito pouco indiano, e aquele fanático da agressão e inimigo mortal dos teólogos e dos sacerdotes, que a malícia de Renan exaltou como «le grand maître en ironie». Eu próprio não duvido de que a copiosa dose de fel (e até de esprit) foi derramada sobre o tipo do Mestre apenas em virtude do estado de agitação da propaganda cristã: a falta de escrúpulos de todos os sectários em aprontar a sua própria apologia a partir do seu mestre é mais do que conhecida. Quando a primeira comunidade precisou de um teólogo justiceiro, querelante, tempestuoso, perversamente capcioso contra os teólogos, criou para si o seu «Deus», segundo as suas necessidades: assim como também lhe pôs na boca, sem hesitação, os conceitos completamente contrários ao Evangelho, que agora não poderia ser dispensado, a «segunda vinda» [de Cristo], o «Juízo Final», toda a espécie de esperança e promessa temporais.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagens: título em manuscrito; munch, nietzsche, 1906

7 de mai. de 2009

discussão sobre a lda


estava para se realizar agora em maio o III Congresso sobre Direito de Autor e Interesse Público, na fundação getúlio vargas, organizado pela ufsc e pela fgv, com a finalidade de fornecer subsídios para o fórum nacional de direito autoral, do minc.

o congresso foi adiado para setembro, em data ainda a ser definida, mas a programação em princípio será a mesma. são 12 painéis, a saber:

Painel I: Princípios para revisão da LDA
Expositor: Prof. Dr. José de Oliveira Ascensão – Univ. de Lisboa

Painel II: Disposições Preliminares e Definições
Relator: Dr. Marcos Wachowicz – UFSC
Revisor: Dr. Antonio Morato – USP

Painel III: Obras Intelectuais e Autoria
Relator: Prof. Manoel J. Pereira dos Santos– FGV/GVlaw
Revisor: Dr. José Isaac Pilati – UFSC

Painel IV: Direitos do Autor: Direitos Patrimoniais
Relator: Dr. Newton Silveira – FADUSP
Revisor: Dra. Silmara Chinelatto – Profa. Titular da FADUSP

Painel V: Limitações aos Direitos Autorais I
Relator: Dr. Luiz Gonzaga Silva Adolfo – UNILASALLE E ULBRA - RS
Revisor: Dr. João Carlos Muller Chaves

Painel VI: Limitações aos Direitos Autorais II
Relator: Dr. Guilherme Carboni – FAAP
Revisor: Dr. Allan Rocha – UFRJ - UERJ

Painel VII: Obra Sob Encomenda – Licenças Não-Voluntárias
Relator: Dr. Denis Borges Barbosa – UFRJ
Revisor: Dra. Lilian de Melo Silveira

Painel VIII: Transferência dos Direitos do Autor
Relator: Dra. Eliane Abrão
Revisor: Dr. Eduardo Lycurgo Leite

Painel IX: Utilização de Obras Intelectuais e Fonogramas I
Relator: Dra. Vanisa Santiago
Revisor: Dr. Hildebrando Pontes Neto

Painel X: Utilização de Obras Intelectuais e Fonogramas II
Relator: Dr. Antonio de Figueiredo Murta – PUC/RJ
Revisor: Dra. Sonia Maria D’Elboux

Painel XI: Associações de Titulares e Entidade Reguladora
Relator: Dr. José Carlos Costa Netto
Revisor: Ministro Carlos Fernando Mathias de Souza – STJ

Painel XII: Sanções, Prescrição e Disposições Finais
Relator: Dra. Helenara Braga Avancini – PUC/RS
Revisor: Dr. Eduardo Pimenta – FADISP

imagem: www.tratojustoparatodos.cl

"fale conosco"

nesse meu constante esperneio contra plágios, contrafações, adulterações, apropriações indevidas e todas essas coisas que é feio fazer nos livros, sempre tento contatar a editora responsável pela pinoquice da vez e informar a editora e/ou o tradutor/ sucessor original.

ontem na rideel conversei com uma moça muito atenciosa chamada ana paula, do editorial. ficou de comunicar à sua chefia meu espanto com a semelhança entre a tradução atribuída a heloísa da graça burati e a tradução a cargo de helga hoock quadrado da obra de nietzsche, acerca da verdade e da mentira. comentou que de fato já andavam reavaliando essa coleção deles, o que deu a entender que eu não era a primeira pessoa a levantar o problema. explicou também que era uma questão muito trabalhosa, muito demorada, que seria muito prematuro afirmar ou esclarecer qualquer coisa, mas que eu podia ficar tranquila, pois certamente, quando apurassem os fatos, tomariam providências, pois o dono da empresa era uma pessoa maravilhosa e que ela podia garantir que, se eu o conhecesse, iria adorá-lo também. bom, o non sequitur não foi meu, mas ok, dei meu recado, e agora ficamos aqui torcendo.

só que ainda acho que, enquanto apuram, bem que podiam suspender provisoriamente as vendas até terem certeza da idoneidade do produto ou pelo menos se prontificar a trocar o produto com defeito ou algo assim, não é mesmo?

6 de mai. de 2009

zola na babilônia

esta é para quem gosta de análise comparada. encontrei um artigo interessante escrito por ana cristina tavares e josé manuel lopes, da universidade lusófona, chamado "Crítica das Traduções Portuguesas de La Bête humaine de Émile Zola". está na revista babilónia, n. 5, pp. 9-42.

os pesquisadores examinam 6 traduções de a besta humana, entre 1912 e 1991. a primeira foi feita por henrique marques, sob o pseudônimo de pandemónio. foi publicada em 1912 (T1a) pela guimarães e reeditada em 1956 (T1b) pela mesma editora, apenas com atualização ortográfica e mínimas outras alterações. no mesmo ano de 1956, a editorial crisos lança uma outra (suposta) tradução, em nome de gil avelar (T2), que, para a surpresa dos pesquisadores, mostrou ser cópia da tradução atualizada de pandemónio. em 1967, a guimarães lança nova tradução, em nome de jorge reis, também praticamente idêntica à sua edição de 1956 (T3). apenas a partir de 1976 começam a surgir traduções efetivamente novas: europa-américa, com sampaio marinho, T4; civilização, daniel augusto gonçalves (1983), T5; círculo dos leitores, isabel st. aubyn (1991), T6.

por mera curiosidade, dei uma olhada nos trechos destacados pelos pesquisadores em seu artigo, e comparei as diversas soluções às dadas por eduardo nunes fonseca, na hemus (1982). reproduzo abaixo as passagens do artigo, interpolando em vermelho os trechos correspondentes na pretensa tradução de eduardo nunes fonseca. acho que a conclusão salta aos olhos, e dispensa maiores comentários.

Assim, no original: «elle pouvait rattraper la phrase» (p.1012) aparece em T1a e b como: «podia iludir a frase» (p.23).
HEMUS - podia iludir a frase (p. 14)
A mesma tradução é retomada em T2 e T3, e só em T4 temos «podia recuperar a frase» (p.19) e, em T5 «podia ter emendado a frase» (p.26) e, em T6 «ainda estava a tempo de retomar a frase» (p.22).

«Mais, continua-t-il, tu m’as toujours dit que c’était ta mére qui te l’avait laissée, cette bague» (p.1012) surge com um tom empolado em ambas as versões da tradução: «— Mas — continuou ele — tu disseste-me sempre que fora tua mãe quem te dera esse anel.» (T1a e b, p.23).
HEMUS - — mas, continuou ele, tu disseste-me sempre que fora tua mãe quem te dera esse anel. (p. 14)em T4 há uma ligeira alteração: «— Mas — prosseguiu ele — sempre me disseste que foi a tua mãe que te deixou esse anel.» (p.19); em T5 «— Mas — continuou ele, — tu tinhas-me sempre dito que fora tua mãe que te deixara esse anel.» (p.26); em T6 «— Mas — prosseguiu ele — sempre me disseste que herdaste esse anel da tua mãe.» (p.22).

«Qu
and ils reprirent haleine, hébétés, gonflés de cette horreur, las de frapper et d’être frappé, ils étaient revenus près du lit […]»
Assim, temos em T1a: «Quando retomaram a respiração, embrutecidos, tumefactos d’aquelle horror, cançados de espancar e de ser espancada, tinham voltado para junto da cama [...]» (p. 26) e, em T1b: «Quando retomaram a respiração, embrutecidos, tumefactos daquele horror, cansados de se espancar um ao outro, tinham voltado para junto da cama [...]» (p. 25).
HEMUS - Quando retomaram a respiração, embrutecidos, tumefatos daquele horror, cansados de se espancarem um ao outro, tinham voltado para junto da cama [...], p. 21T5 opta por outra alternativa: «Quando recuperaram fôlego, estupidificados, cheios daquele horror, ele cansado de bater e ela de apanhar, tinham voltado perto do leito [...]» (p.28)

«Nom de Dieu de garce! tu as couché avec.» (p.1013), é traduzido em T1a por: «Grandíssima desvergonhada! Então tu foste com ele!» (p. 24), e T1b: «Grandíssima desavergonhada! Então tu foste dele!» (p.24). O mesmo se verifica em T2 e T3.
HEMUS - - Grandíssima desavergonhada! Então estiveste com ele! (p. 20)
Só nas edições posteriores ao 25 de Abril de 1974 vamos encontrar traduções que não evitam dizer o que se afirma no original. Deste modo, em T4, de 1976, temos uma tradução que não evita «transpor» o que se afirma no original: «Rameira duma figa! Dormiste com ele!» (p.20). Em T5, de 1983, encontramos «Sua cabra de um raio! Tu foste para a cama com ele!» (p.27), e em T6, de 1991: «Que pega, meu Deus! Dormiste com ele!» (p.23). Note-se que na única tradução feita por uma mulher, a T6 de Isabel St. Aubyn, a expressão é mais contida e indirecta.

«aussi, parfois, allait-il trop loin, il écrasait les pétards, “les cors au pied”, comme on dit, ce qui lui avait valu deux fois des mises à pied de huit jours.» (p.1162). Em T1a e T1b, este segmento é traduzido do seguinte modo: «por isso, às vezes, ia longe demais, o que lhe valera ser suspenso por vinte dias.» (T1a, p.7, vol.2), e em T1b (p.183).
HEMUS – por isso, às vezes, ia longe de mais, o que lhe valera ser suspenso por vinte dias (p. 159).Como se poderá constatar não foi traduzida a sequência que colocava mais dificuldades. Em T3, como se trata frequentemente de uma cópia de T1, a frase mantém-se igual. Em T4, porém, há uma tentativa de a traduzir: «esmagava os petardos, “com asas nos pés”, como sói dizer-se, o que lhe valera por duas vezes ser suspenso por oito dias» (p.164). T5, no entanto, apresenta outra alternativa igualmente pouco apropriada: «esmagava os petardos, “os calos do pé” como lhes chamam, o que lhe tinha valido por duas vezes suspensões de oito dias.» (p.156). Finalmente, em T6, poderemos ler o seguinte: «esmagava os petardos, complementos dos sinais ópticos, o que lhe valera já duas suspensões de oito dias.» (p.197). Ora parece-nos que a solução apropriada deveria ter sido: «passava os sinais da linha a toda a pressa, com “asas nos pés”, como se costuma dizer, o que lhe valera já duas suspensões de oito dias».

«comme le sang mêlé de leurs coeurs» (p.1151) que aparece como «o sangue amalgamado dos seus corações» (T1a, p.193, e T1b, p.171).
HEMUS - como o sangue amalgamado dos seus corações (p. 149)
Contudo, algumas das dificuldades que o texto original colocava também não foram resolvidas. É disto exemplo a frase «comme le sang mêlé de leurs coeurs» (p.1151) traduzida por «tal como o sangue dos seus corações» (p.183).

«Mon mari a dû m’empoigner» (p.1204), traduzido em T1 como «meu marido teve que pegar em mim» (T1a, p.58, vol.2).
HEMUS - Meu marido teve que pegar-me (p. 197)
Só em T5 descobrimos uma solução mais apropriada: «meu marido deve ter-me agarrado» (p. 192), porém, em T6, voltamos a ter «o meu marido deve ter pegado em mim» (p.244).

«Chez Séverine, après la montée ardente de ce long récit, ce cri était comme l’épanouissement même de son besoin de joie, dans l’exécration de ses souvenirs. Mais Jacques, qu’elle avait bouleversé et qui brûlait comme elle, la retint encore.
— Non, non, attends...Et tu étais aplatie sur ses jambes, et l’as senti mourir?» (p.1204).
Em T1b temos :
«Em Severina, depois da confissão ardente do seu crime, aquele grito era como que a expansão máxima da sua necessidade de alegria, na execração das suas recordações. Mas Tiago, cujo espírito ela revolvera e que ardia como ela, reteve-a ainda.
— Não, não, espera... E tu, quando lhe estavas a carregar nas pernas, sentiste-lo morrer?»
(p.228).
HEMUS – Em Severina, depois da confissão ardente do seu crime, aquele grito era como que a expansão máxima da sua necessidade de alegria, na execração das suas recordações. Mas Tiago, cujo espírito ela revolvera e que ardia como ela, reteve-a ainda.
— Não, não, espera... E tu, quando lhe forçavas as pernas, sentiste-o morrer?» (pp. 197-8)
Nesta passagem verificamos não só um excesso de interpretação em que «récit» é traduzido por «crime», mas onde também se verifica, tal como constatámos anteriormente, uma tradução demasiado «presa» ao original. Examinemos, então, as outras soluções. Dado que T3 é uma cópia de T1, passemos a T4:
«Em Séverine, após o arrebatado afluxo desta longa confissão, este grito era como uma manifestação da sua necessidade de alegria, no meio da execração das suas recordações. Mas Jacques, que ela havia perturbado e que também ardia de desejo não a deixou terminar ali.
— Não, não, espera... E tu estavas deitada nas suas pernas e sentiste-o morrer?» (p.204).
Em T5 temos:
«Em Severina, depois da explosão ardente desta longa narrativa, aquele grito era como a própria expansão da sua necessidade de alegria, na execração das suas recordações. Mas Tiago, que ela tinha transtornado e que ardia como ela, reteve-a ainda.
— Não, não espera... Tu estavas então deitada sobre as pernas do velho e sentiste-o morrer?» (p. 192),
e em T6:
«Para Séverine, depois da progressão ardente desta longa narrativa, este desabafo traduzia a sua carência de alegria, na execração das negras recordações. Mas Jacques, ardente de desejo e perturbado pela confissão, insistiu mais uma vez:
— Não, não, espera... Estavas deitada sobre as suas pernas, sentiste-o morrer?» (p.244).

«Les dents serrées, n’ayant plus qu’un bégaiement, Jacques cette fois l’avait prise ; et Séverine aussi le prenait. Ils se possédèrent, retrouvant l’amour au fond de la mort, dans la même volupté douloureuse des bêtes qui s’éventrent pendant le rut. Leur souffle rauque, seul, s’étendit. Au plafond, le reflet saignant avait disparu ; et, le poêle éteint, la chambre commençait à se glacer, dans le grand froid du dehors. Pas une voix ne montait de Paris ouaté de neige. Un instant, des ronflements étaient venus de chez la marchande de journaux, à côté. Puis, tout s’était abîmé au gouffre noir de la maison endormie.» (p. 1205)
Em T1b, temos a seguinte tradução literal:
«Com os dentes cerrados, mal balbuciando, o Tiago desta vez apoderara-se dela; e a Severina também dele tomara posse. Possuiram-se encontrando o amor no fundo da morte, a mesma voluptuosidade dolorosa dos animais que se matam durante o cio. Só se lhes ouvia a respiração rouca. No tecto, o reflexo sangrento desaparecera; como o fogão se tivesse apagado, o quarto começava a gelar, no grande frio exterior. Nem uma voz subia de Paris acolchoada de neve. Por um instante, sentiram-se rouquidos vindos da casa da vendedora de jornais, ao lado. Depois tudo mergulhara no abismo negro da casa adormecida.» (p. 229).
HEMUS - Com os dentes cerrados, mal balbuciando, Tiago desta vez apoderara-se dela; e Severina também dele tomara posse. Possuíram-se encontrando o amor no fundo da morte, a mesma voluptuosidade dolorosa dos animais que se matam durante o cio. Só se lhes ouvia a respiração rouca. No tecto, o reflexo sangrento desaparecera; como o fogão se tivesse apagado, o quarto começava a gelar, no grande frio exterior. Nem uma voz subia de Paris acolchoada de neve. Por um instante, ouviram-se roncos vindos da casa da vendedora de jornais, ao lado. Depois tudo mergulhara no abismo negro da casa adormecida.» (p. 198)Como se poderá ver, só em T6 as passagens acima assinaladas adquirem um registo perfeitamente adequado à língua portuguesa: «De dentes cerrados, num leve sussurro, Jacques abraçara-a; e Sévérine também o enlaçava. Possuíram-se, reencontrando o amor no fundo da morte, na mesma volúpia dolorosa dos animais que se dilaceram durante o cio. Ouvia-se apenas uma respiração rouca. No tecto, desvanecera-se o reflexo sangrento; o lume extinguira-se e o quarto começava a gelar, penetrado pelo frio intenso do exterior. Não se ouvia uma voz, nas ruas de Paris, cobertas de neve. Na casa do lado, a vendedora de jornais ressonou por alguns momentos. Depois, mergulhou tudo no negro abismo do prédio adormecido.» (p.245).

«Ce ne fut que plus d’une heure après qu’on vint ramasser le cadavre de Flore.» (p.1274), traduzido por «Só passada mais de meia hora, é que vieram levantar o cadáver da Flora.» (p.301).
HEMUS - Só passada mais de meia hora é que vieram levantar o cadáver de Flora. (p. 261)Só a partir de T4 encontramos escolhas mais pertinentes: «Só mais de uma hora depois foram buscar o cadáver de Flore.» (T4, p.270); «Foi só passada mais de uma hora que vieram recolher o corpo de Flora.» (T5, p.252); «Só uma hora mais tarde vieram buscar o cadáver de Flore»
(T6, p.324).

«Au sortir du tunnel, il s’était efforcé de crier l’accident au gardien. Mais, à Barentin seulement, il avait pu raconter que quelqu’un venait de se faire couper là-bas : c’était certainement une femme ; des cheveux, mêlés à dés débris de crâne, restaient collés encore à la vitre brisée du
fanal. » (p.1274).
Encontramos em T1 : «Ao sair do túnel, esforçara-se por comunicar, gritando, o acidente ao guarda. Mas só em Barentin pudera contar que alguém acabava de se fazer matar, lá para baixo: era decerto uma mulher; cabelos pegados a restos de crânio, estavam colados ainda ao vidro quebrado do farol» (T1, p.301).
HEMUS - Ao sair do túnel, esforçara-se por comunicar, gritando, o acidente ao guarda. Mas só em Barentin pudera contar que alguém acabava de expor-se à morte lá para baixo, decerto uma mulher; cabelos pegados a restos de crânio, estavam colados ainda ao vidro quebrado do farol (p. 261)A tradução literal, sobretudo nas partes a que demos ênfase, só irá, mais uma vez, ser resolvida a partir de T4: «Ao sair do túnel, esforçara-se por gritar ao guarda o acidente. Mas só em Barentin conseguira contar que alguém tinha sido trucidado; era certamente uma mulher: cabelos misturados com pedaços de crânio estavam ainda colados ao vidro estilhaçado do farol. (T4, p. 270). Se bem que esta tradução esteja mais bem conseguida, ainda apresenta uma frase que nos parece pouco apropriada: «esforçara-se por gritar ao guarda o acidente», melhor conseguida em T5: «tentara gritar ao guarda o que acontecera» (p. 252), ou em T6: «esforçara-se por comunicar o acidente ao guarda.» (p. 324)

«Qu’importaient les inconnus de la foule tombés en route, écrasés sous les roues ! On avait emporté les morts, lavé le sang, et l’on repartait pour là-bas, à l’avenir.» (p. 1275), notamos que a tradução em T1 ora se prende ao original, ora se afasta deste, omitindo alguns vocábulos relevantes: «Que importavam os desconhecidos da multidão, caídos no caminho, esmagados debaixo das rodas? Tinham-se levado os mortos, havia-se lavado, e tornava-se a partir lá para baixo, para o futuro.» (p. 302)

HEMUS - «Que importavam os desconhecidos da multidão, caídos no caminho, esmagados debaixo das rodas? Tinham-se levado os mortos, havia-se socorrido os feridos, e tornava-se a partir lá para baixo, para o futuro.» (p. 261-2)


Só a partir de T4, tal como nos outros casos, encontramos traduções mais bem conseguidas: «Que importavam os desconhecidos da multidão caídos em viagem, esmagados sob as rodas? Os mortos haviam sido levados, o sangue lavado, e partia-se de novo para longe, para o futuro.» (p.271). T5 apresenta uma melhor solução: «Que importavam os desconhecidos sem rosto, caídos pelo caminho, trucidados pelas rodas! Tinham levado os mortos, lavado o sangue e agora partia-se de novo para a frente, para o futuro» (T5, p.253), se bem que T6 seja a que mais nos agrada: «Que lhes importavam os desconhecidos caídos, trucidados pelas rodas! Transportados os cadáveres, lavado o sangue, retomavam o andamento rumo ao futuro.» (p.324).

Et la machine, libre de toute direction, roulait, roulait toujours. Enfin, la rétive, la fantasque, pouvait céder à la fougue de sa jeunesse, ainsi qu’une cavale indomptée encore, échappée des mains du gardien, galopant par la campagne rase.» (p. 1330).
Quando nos debruçamos sobre as várias traduções, constatamos uma série de padrões consistentes já mencionados anteriormente. Assim, T1 oscila entre o lapso e a literalidade:
«E a máquina, livre de qualquer direcção, rodava, rodava sempre. Enfim, a teimosa, a fantástica, podia ceder ao impulso da mocidade, como uma égua indomada ainda escapa das mãos do guarda, galopando pela montanha rasa. » (p. 360).
HEMUS - «E a máquina, livre de qualquer direção, rodava, rodava sempre. Enfim, a teimosa, a fantástica, podia ceder ao impulso da mocidade, como uma égua indomada ainda escapa das mãos do guarda, galopando pela montanha rasa. » (p. 312)
Se bem que a primeira frase ainda consiga manter o ritmo do original, temos «rodava» onde as outras traduções apresentam um mais apropriado «rolava»; «guarda» onde outras apresentam «tratador», e o deselegante oxímoro «montanha rasa» como tradução de «planura». [...] em T4 surge-nos uma melhor alternativa: «E a máquina, livre de qualquer direcção, rolava, rolava sempre: Finalmente, a renitente, a caprichosa podia ceder ao entusiasmo da sua juventude, como uma égua ainda por domar, escapada das mãos do tratador, galopando pelo campo plano.» (p. 324).
T5 surge-nos como uma variante de T4, e só em T6 nos surge a versão que nos parece mais bem conseguida: «E a máquina, descomandada, rolava, rolava sempre. Finalmente, a caprichosa, a reticente podia ceder ao impulso da juventude, como uma égua selvagem, livre das mãos do tratador, galopando pela planura.» (p.338)

«Qu’importaient les victimes que la machine écrasait en chemin ! N’allait-elle pas quand même à l’avenir, insoucieuse du sang répandu ? Sans conducteur, au milieu des ténèbres, en bête aveugle et sourde qu’on aurait lâchée parmi la mort, elle roulait, elle roulait, chargée de cette chair à canon, de ces soldats, déjà hébétés de fatigue, et ivres, qui chantaient» (p. 1331).
T1 apresenta-nos :
«Que importavam as vítimas que a máquina esmagava no caminho! Não ia ela também para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem o condutor no meio das trevas, como fera cega e surda, que se soltasse entre a morte, rodava, rodava atulhada dessa carne para canhão, desses
soldados já estupidificados de fadiga e embriagados, que cantavam.» (p. 362).
HEMUS - «Que importavam as vítimas que a máquina esmagava no caminho! Não ia ela também para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem condutor no meio das trevas, fera cega e surda, indômita, rodava, rodava atulhada dessa carne para canhão, desses soldados já estupidificados de fadiga e embriagados, que cantavam.» (p. 313)Por seu lado, T4 mostra-se mais elaborada: «Que importavam as vítimas que a máquina esmagava no caminho! Não se dirigia para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem condutor, no meio das trevas, como besta cega e surda largada entre a morte, rolava, rolava, carregada de carne para canhão, esses soldados já insensibilizados pela fadiga e embriagados que cantavam.» (p.325).
T5 sugere algumas variantes lexicais e um maior rigor de pontuação, contudo T6 apresenta-se-nos, uma vez mais, como a tradução mais bem conseguida: «Que importavam as vítimas que a máquina esmagava pelo caminho? Não caminhava para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem condutor, entre as trevas, como uma besta cega e surda libertada entre a
morte, rolava, rolava, carregada de carne para canhão, de soldados meio atordoados pela fadiga, e ébrios, que não paravam de cantar.» (p.390).

imagens: jean gabin em la bête humaine; capa da hemus, em google images

5 de mai. de 2009

por falar em verdade e mentira

a editora rideel está há quase 40 anos no mundo editorial, segundo o que consta em seu site: carrega uma história de sucesso e evolução, possui mais dois selos editoriais e mantém uma louvável iniciativa de fomento à literatura entre as crianças. seu catálogo na fundação biblioteca nacional parece bastante sólido, com inúmeras obras de direito e de literatura infantil. o responsável pela editora, sr. italo amadio, ocupa uma das diretorias da câmara brasileira do livro, com seu programa de transparência e desenvolvimento do livro no país.

então fiquei assombrada ao tropeçar nisso aqui, em tradução (diz a editora) feita por "heloísa da graça burati".

Acerca da Verdade e da Mentira

Num certo canto remoto do universo cintilante, vertido em incontáveis sistemas solares, havia uma vez um astro onde animais inteligentes inventaram o conhecimento Foi o minuto mais soberbo e hipócrita da «história mundial», mas foi apenas um minuto. Depois de a natureza ter respirado umas poucas vezes, o astro enregelou e os animais inteligentes tiveram de morrer. Assim, alguém poderia inventar uma fábula como esta e, no entanto, não ficaria suficientemente esclarecido quão lastimável, quão obscuro e fugidio, quão desprovido de finalidade e arbitrário se apresenta o intelecto humano no interior da natureza. Eternidades houve em que ele não existia; quando ele tiver de novo desaparecido, nada se terá alterado. Pois para este intelecto não há outra missão que transcenda a vida humana. Antes, pelo contrário, ele é humano, e só o seu dono e progenitor o encara tão pateticamente como se ele fosse o eixo à volta do qual gira o mundo. Mas se nós conseguíssemos comunicar com um mosquito, saberíamos que também ele paira neste ambiente com a mesma presunção e se sente como centro voador deste mundo. Na natureza não há nada de tão censurável e limitado que não se inchasse qual tubo insuflável por meio de um pequeno sopro dessa força do conhecimento; e tal como todo e qualquer carregador ambiciona ter o seu admirador, assim o homem mais orgulhoso, o filósofo, julga ver de todos os lados os olhares do universo, quais telescópios dirigidos para o seu agir e pensar.
[...] Que é que o homem no fundo sabe acerca de si mesmo? Sim, se ele conseguisse, ao menos uma vez, percepcionar-se completamente como se estivesse metido num expositor de vidro iluminado! Não é que a natureza lhe oculta a maior parte das coisas, mesmo sobre o seu corpo, para banir e fixá-lo longe das dobras intestinais, longe do rápido fluir da corrente sanguínea e dos estremecimentos emaranhados das fibras, numa consciência orgulhosa e malabarista! A natureza deitou fora a chave e ai da fatídica curiosidade que conseguisse, através de uma fenda, olhar para fora e para baixo da câmara da consciência e [] pressentir que o homem assenta no impiedoso, no sôfrego, no insaciável, no homicida, na indiferença do seu não saber e como que suspenso em sonhos preso nas costas de um tigre. De onde, com os diabos, vem nesta constelação o impulso da verdade?
[...] Que é então a verdade? Um exército móvel de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso, parecem a um povo fixas, canônicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal.
[...] Quem for tocado por essa exalação fria mal acreditará que também o conceito, descarnado e octogonal como um dado e deslocável como este, apesar de tudo, é como o resíduo de uma metáfora e que a ilusão da transposição artística de uma estimulação nervosa em imagens é, se não a mãe, pelo menos a avó de todo o conceito. Neste jogo de dados dos conceitos, chama-se porém «verdade» o utilizar cada dado tal como é designado, o contar rigorosamente os seus pontos, formar rubricas corretas e nunca subverter a ordem das castas e a seqüência das classes hierárquicas. Assim como os romanos e os Etruscos dividiam o céu através de rígidas linhas matemáticas e num espaço de tal forma delimitado, como um templo, fixavam um deus, assim também cada povo tem sobre ele um céu de conceitos semelhantes, matematicamente dividido e, por exigência da verdade, compreende agora o fato de cada deus conceptual apenas dever ser procurado na sua esfera.
[...] O investigador de tais verdades não procura, no fundo, senão a metamorfose do mundo no homem, ele luta por um compreender do mundo como coisa antropomórfica e consegue, no melhor dos casos, o sentimento de uma assimilação. De modo semelhante ao astrólogo, que observa as estrelas ao serviço do homem e em conexão com a sua felicidade e sofrimento, um tal investigador considera o mundo inteiro como vinculado ao homem, como a ressonância infinitamente modulada de um som originário, o do homem, como a cópia múltiplas vezes reproduzida de uma imagem originária, a do homem. O seu procedimento é tomar o homem como medida de todas as coisas: desse modo, no entanto, ele parte do erro de acreditar que tem essas coisas imediatamente perante si, como puros objetos. Esquece [] as metáforas intuitivas originais enquanto metáforas e toma-as pelas próprias coisas.

pois, até onde consigo ver e entender, trata-se de uma cópia fiel, apenas abrasileirada, da edição da relógio d'água, na tradução do seminário de estudos coordenado por helga hoock quadrado, docente da universidade de lisboa e integrante do goethe-institut de portugal:

Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral

Num certo canto remoto do universo cintilante vertido em incontáveis sistemas solares havia uma vez um astro onde animais inteligentes inventaram o conhecimento Foi o minuto mais soberbo e hipócrita da «história mundial», mas foi apenas um minuto. Depois de a natureza ter respirado umas poucas vezes, o astro enregelou e os animais inteligentes tiveram de morrer. Assim, alguém poderia inventar uma fábula como esta e, no entanto, não ficaria suficientemente esclarecido quão lastimável, quão obscuro e fugidio, quão desprovido de finalidade e arbitrário se apresenta o intelecto humano no interior da natureza. Eternidades houve em que ele não existia; quando ele tiver de novo desaparecido, nada se terá alterado. Pois para este intelecto não há outra missão que transcenda a vida humana. Antes pelo contrário ele é humano, e só o seu dono e progenitor o encara tão pateticamente como se ele fosse o eixo à volta do qual gira o mundo. Mas se nós conseguíssemos comunicar com um mosquito, saberíamos que também ele paira neste ambiente com a mesma presunção e se sente como centro voador deste mundo. Na natureza não há nada de tão censurável e limitado que não se inchasse qual tubo insuflável por meio de um pequeno sopro dessa força do conhecimento; e tal como todo e qualquer carregador ambiciona ter o seu admirador, assim o homem mais orgulhoso, o filósofo, julga ver de todos os lados os olhares do universo, quais telescópios dirigidos para o seu agir e pensar.
[...] Que é que o homem no fundo sabe acerca de si mesmo? Sim, se ele conseguisse ao menos uma vez percepcionar-se completamente como se estivesse metido num expositor de vidro iluminado! Não é que a natureza lhe oculta a maior parte das coisas, mesmo sobre o seu corpo, para banir e fixá-lo longe das dobras intestinais, longe do rápido fluir da corrente sanguínea e dos estremecimentos emaranhados das fibras, numa consciência orgulhosa e malabarista! A natureza deitou fora a chave e ai da fatídica curiosidade que conseguisse, através de uma fenda, olhar para fora e para baixo da câmara da consciência e que agora pressentia que o homem assenta no impiedoso, no sôfrego, no insaciável, no homicida, na indiferença do seu não saber e como que suspenso em sonhos preso nas costas de um tigre. De onde, com os diabos, vem nesta constelação o impulso da verdade?
[...] Que é então a verdade? Um exército móvel de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canónicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal.
[...] Quem for tocado por essa exalação fria mal acreditará que também o conceito, descarnado e octogonal como um dado e deslocável como este, apesar de tudo, é como o resíduo de uma metáfora e que a ilusão da transposição artística de uma estimulação nervosa em imagens é, se não a mãe, pelo menos a avó de todo o conceito. Neste jogo de dados dos conceitos, - chama-se porém «verdade» o utilizar cada dado tal como é designado, o contar rigorosamente os seus pontos, formar rubricas correctas e nunca subverter a ordem das castas e a sequência das classes hierárquicas. Assim como os Romanos e os Etruscos dividiam o céu através de rígidas linhas matemáticas e num espaço de tal forma delimitado, como um templo, fixavam um deus, assim também cada povo tem sobre ele um céu de conceitos semelhantes e matematicamente dividido e, por exigência da verdade, compreende agora o facto de cada deus conceptual apenas dever ser procurado na sua esfera.
[...] O investigador de tais verdades não procura no fundo senão a metamorfose do mundo no homem, ele luta por um compreender do mundo como coisa antropomórfica e consegue, no melhor dos casos, o sentimento de uma assimilação. De modo semelhante ao astrólogo que observa as estrelas ao serviço do homem e em conexão com a sua felicidade e sofrimento, um tal investigador considera o mundo inteiro como vinculado ao homem, como a ressonância infinitamente modulada de um som originário, o do homem, como a cópia múltiplas vezes reproduzida de uma imagem originária, a do homem. O seu procedimento é tomar o homem como medida de todas as coisas: desse modo, no entanto, ele parte do erro de acreditar que tem essas coisas imediatamente perante si, como puros objectos. Esquece pois as metáforas intuitivas originais enquanto metáforas e toma-as pelas próprias coisas.

bom, em minha humilde opinião, aparentemente temos aí algo acerca da verdade e da mentira, mas não num sentido extramoral; muito ao contrário, pelos códigos que aprendi em casa quando criança, parece-me algo que pertence à esfera moral.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagens: www.fnac.com.br; www.relogiodagua.pt

4 de mai. de 2009

o discurso do método para download

a partir de hoje temos disponível para download gratuito na internet o discurso do método de descartes na tradução de jacó guinsburg e bento prado jr., com notas de gérard lebrun, em arquivo digitalizado por eduardo baioni e reprodução gentilmente autorizada pelos detentores dos direitos de tradução.

para acompanhar o histórico deste caso, vejam-se aufklärung digital II e a aufklärung digital , com as autorizações e com os links que remetem a todo o histórico do caso: contexto e descrição da fraude, cotejos entre a tradução legítima e a pseudotradução de "enrico corvisieri", informe sobre retirada de catálogo da edição espúria da editora nova cultural, posição do portal do mec etc.

agora começa o trabalho de distribuição da obra para ser colocada nos sites de ebooks e bibliotecas virtuais. por ora está disponível no scribd (pdf) e no 4shared (rtf). será preciosa a colaboração de todos que puderem divulgar.

imagem: matisse, guache recortado, google images

3 de mai. de 2009

grandioso!


que notícia maravilhosa vi hoje na fsp! a editora da ufpr lançou o aventuroso simplicissimus, de grimmelshausen, em tradução de mario luiz frungillo. que coisa fenomenal! simplizissimus (1668) é daquelas coisas que dava até vergonha e a gente se sentia pequenininho e irremediavelmente ignorante por não dispor dele em português. é o grande romance do século 17 alemão, um clássico do picaresco, até inaugurando ou prenunciando a linhagem do sete-oitocentista bildungsroman. não à toa será o nome adotado para a revista satírica de munique, que tanta gente boa reuniu.

parabéns a mario luiz frungillo, que empreitada! e também à editora da ufpr, pela publicação! amanhã vou encomendar correndo meu exemplar.

imagem: www.bamby.de/1975/

2 de mai. de 2009

a ciranda dos autores

se você passear com o mouse sobre as imagens, em baixo aparece o nome das pessoas. são alguns dos autores que estão na dança do lesa-leitor em traduções que, segundo os dicionários, poderíamos qualificar de espúrias.






fonte das imagens: google images

1 de mai. de 2009

o príncipe, mais um

recebo a informação de que o príncipe cá aportado a bordo da ed. suprema cultura foi traduzido por márcio pugliesi. com isso a listinha dos diversos tradutores de o príncipe vai para 34 nomes, e os incógnitos diminuem para 5.

imagem: www.emblibrary.com

30 de abr. de 2009

simpaticices

Diálogo entre o tradutor Eric Nepomuceno e o escritor Gabriel García Márquez

ERIC Tem uma hora lá em que você escreve que ficou feliz porque ganhou um caderno de "kalella". O que é isso?
GABO Não, eu não escrevi isso.
ERIC Claro que escreveu, ache aí, na pág. tal...
GABO Peraí. Porra, acho que chamei assim porque achei bonito. Como você colocou em português?
ERIC Coloquei "caderno de kalella".
GABO Não quer dizer nada em português?
ERIC Não.
GABO Então tudo bem, porque em castelhano também não quer dizer nada.

veja aqui a íntegra dessa delícia.

os 200 anos de darwin, hemus/ediouro

em le deuil, citei algumas supostas traduções de eduardo nunes fonseca que a editora hemus licenciou para a ediouro. faço agora uma retificação: além de a cidade antiga, de fustel de coulanges, uma outra dita "tradução" da hemus que está na ediouro e que, a meu ver, consiste num flagrante atentado à boa-fé do leitor é a origem das espécies, de darwin.

a tradução da hemus licenciada para a ediouro está em nome de eduardo fonseca, e tem tido inúmeras reedições e reimpressões nas duas editoras. salta à vista a inequívoca semelhança com a tradução do médico português joaquim dá mesquita paul, publicada em 1913 pela livraria chardron, lello & irmão editores, no porto. aliás, para quem se interessar, o portal da ediouro disponibiliza uma prévia do livro no googlebooks e a tradução de joaquim paul está disponível para download gratuito na web.


seguem-se, a título comparativo, apenas dois parágrafos, o primeiro e o último do livro:

1. joaquim dá mesquita paul:
Proponho-me noticiar a largos traços o progresso da opinião relativamente à origem das espécies. Até há bem pouco tempo, a maior parte dos naturalistas supunha que as espécies eram produções imutáveis criadas separadamente. Numerosos sábios defenderam habilmente esta hipótese. Outros, pelo contrário, admitiam que as espécies provinham de formas preexistentes por intermédio de geração regular. Pondo de lado as alusões que, a tal respeito, se encontram nos autores antigos,1 Buffon foi o primeiro que, nos tempos modernos, tratou este assunto de um modo essencialmente científico. Todavia, como as suas opiniões variavam muito de época para época, e não trata nem das causas, nem dos meios de transformação da espécie, é inútil entrar aqui em maiores minudências a respeito dos seus trabalhos.
(1) Aristóteles, nas suas «Physicae Auscultationes» (lib. II, cap. VIII, 2), depois de ter notado que a chuva não cai para fazer crescer o trigo como não cai para o deteriorar quando o rendeiro o bate nas eiras, aplica o mesmo argumento aos organismos e acrescenta (foi M. Clair Grece que me notou esta passagem): «Qual a razão por que as diferentes partes (do corpo) não teriam na natureza estas relações puramente acidentais? Os dentes, por exemplo, crescem necessariamente incisivos na parte anterior da boca, para dividir os alimentos; os maiores, planos, servem para mastigar; portanto não foram feitos para este fim, e esta forma é o resultado de um acidente. O mesmo se diz para os outros órgãos que parecem adaptados a
determinado acto. Por toda a parte, pois, todas as coisas reunidas (isto é, o conjunto das partes de um todo) são constituídas como se tivessem sido feitas com vista em algum desiderato; estas formas de uma maneira apropriada, por uma espontaneidade interna, são conservadas, enquanto que, no caso contrário, têm desaparecido e desaparecem ainda». Encontra-se aqui um esboço dos princípios da selecção natural; mas as observações sobre a conformação dos dentes indicam quão pouco Aristóteles compreendia estes princípios.

2. eduardo nunes fonseca:
Proponho-me noticiar a largos traços o progresso da opinião referente à origem das espécies. Até há bem pouco tempo, a maioria dos naturalistas admitia que as espécies eram produções imutáveis criadas separadamente. Numerosos cientistas defenderam habilmente esta possibilidade. Outros, pelo contrário, admitiam que as espécies provinham de formas preexistentes através de geração regular. Deixando de lado as alusões que, a tal respeito, se encontram nos autores antigos,1 Buffon foi o primeiro nos tempos modernos, a tratar este assunto de maneira essencialmente científica. Contudo, como as suas opiniões variavam muito de época para época, e não trata nem das causas, nem dos meios de transformação da espécie, é inútil entrar aqui em minúcias com referência aos seus trabalhos.
(1) Aristóteles nas suas Physicae Auscultationes (lib. II, cap. VIII, 2), depois de ter observado que a chuva não cai para fazer crescer o trigo como não cai para o deteriorar quando o rendeiro o bate nas eiras, aplica o mesmo argumento aos organismos e acrescenta (foi M. Clair Grece que me anotou esta passagem): «Qual a razão por que as diferentes partes (do corpo) não teriam na natureza estas relações puramente acidentais? Os dentes, por exemplo, crescem necessariamente incisivos na parte anterior da boca, para dividir os alimentos; os maiores, planos, servem para mastigar; portanto não foram feitos para este fim, e esta forma é o resultado de um acidente. O mesmo se diz para os outros órgãos que parecem adaptados a determinado ato. Por toda parte, pois, todas as coisas reunidas (isto é, o conjunto das partes de um todo) são constituídas como se tivessem sido feitas com vista em algum desiderato; estas formas de uma maneira apropriada, por uma espontaneidade interna, são conservadas, enquanto que, no caso contrário, desapareceram e desaparecem ainda». Encontra-se aqui um esboço dos princípios da seleção natural; mas as observações sobre a conformação dos dentes indicam quão pouco Aristóteles compreendia estes princípios.

1. joaquim dá mesquita paul:
É interessante contemplar uma ribeira luxuriante, atapetada com numerosas plantas pertencentes a numerosas espécies, abrigando aves que cantam nos ramos, insectos variados que volitam aqui e ali, vermes que rastejam na terra húmida, se se pensar que estas formas tão admiravelmente construídas, tão diferentemente conformadas, e dependentes umas das outras de uma maneira tão complexa, têm sido todas produzidas por leis que actuam em volta de nós. Estas leis, tomadas no seu sentido mais lato, são: a lei do crescimento e reprodução; a lei da hereditariedade que implica quase a lei de reprodução; a lei de variabilidade, resultante da acção directa e indirecta das condições de existência, do uso e não uso; a lei da multiplicação das espécies em razão bastante elevada para trazer a luta pela existência, que tem como consequência a selecção natural, que determina a divergência de caracteres, a extinção de formas menos aperfeiçoadas. O resultado directo desta guerra da natureza que se traduz pela fome e pela morte, é, pois, o facto mais admirável que podemos conceber, a saber: a produção de animais superiores. Não há uma verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida, com os seus poderes diversos atribuídos primitivamente pelo Criador a um pequeno número de formas, ou mesmo a uma só? Ora, enquanto que o nosso planeta, obedecendo à lei fixa da gravitação, continua a girar na sua órbita, uma quantidade infinita de belas e admiráveis formas, saídas de um começo tão simples, não têm cessado de se desenvolver e desenvolvem-se ainda!

2. eduardo nunes fonseca:
É interessante contemplar uma ribeira exuberante, atapetada com numerosas plantas pertencentes a numerosas espécies, abrigando aves que cantam nos galhos, insetos variados que saltitam aqui e ali, vermes que rastejam na terra úmida, se se pensar que estas formas tão admiravelmente construídas, tão diferentemente conformadas, e dependentes umas das outras de uma maneira tão complicada, foram todas produzidas por leis que atuam ao nosso redor. Estas leis, tomadas no seu sentido mais amplo, são: a lei do crescimento e reprodução; a lei da hereditariedade de que implica [] a lei de reprodução; a lei de variabilidade, resultante da acção direta e indireta das condições de vida, do uso e não-uso; a lei da multiplicação das espécies em razão bastante elevada para provocar a luta pela sobrevivência, que tem como consequência a seleção natural, que determina a divergência de caracteres, a extinção de formas menos aperfeiçoadas. O resultado direto desta guerra da natureza que se traduz pela fome e pela morte, é, pois, o fato mais admirável que podemos conceber, a saber: a produção de animais superiores. Não há uma verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida, com os seus poderes diversos atribuídos primitivamente pelo Criador a um pequeno número de formas, ou mesmo a uma só? Ora, enquanto que o nosso planeta, obedecendo à lei fixa da gravitação, continua a girar na sua órbita, uma quantidade infinita de belas e admiráveis formas, originadas de um começo tão simples, não cessou de se desenvolver e desenvolve-se ainda!

escolhi este último parágrafo também por uma interessante observação adicional, relatada pelo físico carlos fiolhais, no blog coletivo de rerum natura, e que reproduzo aqui:

O Dr. José Feijó, Comissário da Exposição sobre Darwin, na Fundação Gulbenkian, chamou-me a atenção para o facto de na edição original não haver esta referência ao Criador, na penúltima frase... O leitor poderá verificar isso mesmo, lendo o original inglês:

It is interesting to contemplate an entangled bank, clothed with many plants of many kinds, with birds singing on the bushes, with various insects flitting about, and with worms crawling through the damp earth, and to reflect that these elaborately constructed forms, so different from each other, and dependent on each other in so complex a manner, have all been produced by laws acting around us. These laws, taken in the largest sense, being Growth with Reproduction; inheritance which is almost implied by reproduction; Variability from the indirect and direct action of the external conditions of life, and from use and disuse; a Ratio of Increase so high as to lead to a Struggle for Life, and as a consequence to Natural Selection, entailing Divergence of Character and the Extinction of less-improved forms. Thus, from the war of nature, from famine and death, the most exalted object which we are capable of conceiving, namely, the production of the higher animals, directly follows. There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being, evolved.

a ediouro está ciente do fato desde dezembro de 2008, quando enviei um e-mail alertando-a do problema. espero de todo o coração que ela tome providências junto a nós leitores, pois esse descaso em relação ao público consumidor e a toda a sociedade é realmente contristador.

imagem: http://dererummundi.blogspot.com

atualização feita em 18 de outubro de 2009:

um leitor me informa que apenas a primeira edição da origem das espécies não trazia a referência ao Criador. assim, o motivo pelo qual eu tinha escolhido o último parágrafo como exemplo da identidade entre a secular tradução de joaquim dá mesquita paul e a pretensa tradução de eduardo nunes fonseca perde sua razão de ser.

apresento, então, outros trechos para ilustrar o tema deste post. usarei como fonte do original a edição da universidade da pensilvânia, disponível em http://www2.hn.psu.edu/faculty/jmanis/darwin/originspecies.pdf

conforme dito acima a edição de joaquim dá mesquita paul se encontra em: http://www.4shared.com/get/23646920/1962dc99/Charles_Darwin_-_A_Origem_das_Espcies.html;jsessionid=D1A6327C7C1707E18F50FF2F8625DFCA.dc156

a edição da hemus que tenho em mãos não traz data, e a edição citada da ediouro se encontra em:
http://books.google.com.br/books?id=WYOwnMq3x9MC&pg=PA3&dq=origem+das+esp%C3%A9cies+ediouro&ei=Sah4Sq2LNqbAygTw7q2TAw#v=onepage&q=&f=false

Dá Mesquita Paul:
É na excelente história de Isidore Geoffroy Saint-Hilaire (”Hist. Nat. Générale”, 1859, t. II, p. 405) que encontrei a data da primeira publicação de Lamarck; esta obra contém também um resumo das conclusões de Buffon sobre o mesmo assunto. É curioso ver quanto o Dr. Erasmo Darwin, meu avô, na sua «Zoonomia» (vol. I, p. 500-510), publicada em 1794, antecedeu Lamarck nas suas ideias e seus erros. Segundo Isidore Geoffroy, Goethe partilhava completamente as mesmas ideias, como prova a introdução de uma obra escrita em 1794 e 1795, mas publicada muito mais tarde. Insistiu sobre este ponto («Goethe als Naturforscher», pelo Dr. Karl Meding, p. 34), que os naturalistas terão de procurar, por exemplo, como os bois e carneiros adquiriram os cornos, e não para que servem, É um caso bastante singular a aparição quase simultânea de opiniões semelhantes, porque se vê que Goethe na Alemanha, o Dr. Darwin na Inglaterra, e Geoffroy Saint-Hilaire em França, chegam, nos anos de 1794-1795, à mesma conclusão sobre a origem das espécies.

Eduardo Nunes Fonseca:
É na excelente história de Isidore Geoffroy Saint-Hilaire (Hist. Nat. Générale, 1859, t. II, p. 405) que encontrei a data da primeira publicação de Lamarck; esta obra contém também um resumo das conclusões de Buffon sobre o mesmo assunto. É curioso ver quanto o Dr. Erasmo Darwin, meu avô, na sua «Zoonomia» (vol. I, p. 500-510), publicada em 1794, antecedeu Lamarck nas suas idéias e seus erros. Segundo Isidore Geoffroy, Goethe partilhava completamente as mesmas idéias, como prova a introdução de uma obra escrita em 1794 e 1795, mas publicada muito mais tarde. Insistiu sobre este ponto (Goethe als Naturforscher, pelo Dr. Karl Meding, p. 34), que os naturalistas terão de procurar, por exemplo, como os bois e carneiros adquiriram os cornos, e não para que servem.* É um caso bastante singular a aparição quase simultânea de opiniões semelhantes, porque se vê que Goethe na Alemanha, o Dr. Darwin na Inglaterra, e Geoffroy Sant[sic]-Hilaire na França, chegam, nos anos de 1794-1795, à mesma conclusão sobre a origem das espécies.
* curiosamente, na edição da ediouro, está "como os bois e carneiros adquiriram os cornos, e para que servem".

Joaquim Dá Mesquita Paul:
Na sua obra Nature of Limbs, p. 86, o professor Owen escrevia em 1849: «A ideia arquétipo está encarnada no nosso planeta por manifestações diversas, muito tempo antes da existência das espécies animais de que são actualmente a expressão. Mas, até agora, ignoramos inteiramente a que leis naturais ou a que causas secundárias têm sido submetidas a sucessão regular e a progressão destes fenómenos orgânicos». No seu discurso na Associação Britânica, em 1858, fala (p. 51) do «axioma da contínua potência criadora, ou do destino preordenado das coisas vivas». Mais adiante, a propósito da distribuição geográfica, acrescenta: «Estes fenómenos abalam a crença em que estávamos de que o aptérix da Nova Zelândia e o “tetras urogallus L.” da Inglaterra tenham sido criações distintas feitas numa ilha e só para ela. É útil, além disso, lembrar sempre que o zoólogo atribui o nome de criação ao processo sobre o qual nada se conhece». Desenvolve esta ideia acrescentando que todas as vezes que um «zoólogo cita exemplos, como o precedente, para provar uma criação distinta numa ilha e para ela, quer dizer somente que não sabe como o “tetras urogallus L.” se encontra exclusivamente neste lugar, e que esta maneira de exprimir a sua ignorância implica ao mesmo tempo a crença numa grande causa criadora primitiva, à qual a ave, assim como as ilhas, devem a sua origem». Se nós relacionarmos as frases pronunciadas no seu discurso umas com as outras, parece que em 1858 o célebre naturalista não estava convencido que o aptérix e o “tetras urogallus L.” tenham aparecido pela primeira vez nos seus países respectivos, sem que se possa explicar como e porquê.

Eduardo Nunes Fonseca:
Na sua obra Nature of Limbs, p. 86, o professor Owen escrevia em 1849: «A idéia arquétipo está encarnada no nosso planeta por manifestações diversas, muito tempo antes da existência das espécies animais de que são atualmente a expressão. Mas, até agora, ignoramos inteiramente a que leis naturais ou a que causas secundárias têm sido submetidas a sucessão regular e a progressão destes fenômenos orgânicos». No seu discurso na Associação Britânica, em 1858, fala (p. 51) do «axioma da contínua potência criadora, ou do destino preordenado das coisas vivas». Mais adiante, a propósito da distribuição geográfica, acrescenta: «Estes fenômenos abalam a crença em que estávamos de que o aptérix da Nova Zelândia e o tetras urogallus L. da Inglaterra tenham sido criações distintas feitas numa ilha e só para ela. É útil, com efeito, lembrar sempre que o zoólogo atribui o nome de criação ao processo sobre o qual nada se conhece». Explana esta idéia acrescentando que todas as vezes que um «zoólogo cita exemplos, como o precedente, para provar uma criação distinta numa ilha e para ela, quer dizer apenas que não sabe como o tetras urogallus L. se encontra exclusivamente neste lugar, e que esta maneira de exprimir a sua ignorância implica, ao mesmo tempo, a crença numa grande causa criadora primitiva, à qual a ave, assim como as ilhas, devem a sua origem». Se [] relacionarmos as frases pronunciadas no seu discurso umas com as outras, parece que em 1858 o eminente naturalista não estava convencido que o aptérix e o tetras urogallus L. tenham aparecido pela primeira vez nas suas respectivas regiões, sem que se possa explicar como e porquê.

vale a pena ver o original:
Professor Owen, in 1849 ("Nature of Limbs", page 86), wrote as follows: "The archetypal idea was manifested in the flesh under diverse such modifications, upon this planet, long prior to the existence of those animal species that actually exemplify it. To what natural laws or secondary causes the orderly succession and progression of such organic phenomena may have been committed, we, as yet, are ignorant." In his
address to the British Association, in 1858, he speaks (page li) of "the axiom of the continuous operation of creative power, or of the ordained becoming of living things." Further on (page xc), after referring to geographical distribution, he adds, "These phenomena shake our confidence in the conclusion that the Apteryx of New Zealand and the Red Grouse of England were distinct creations in and for those islands respectively. Always, also, it may be well to bear in mind that by the word 'creation' the zoologist means 'a process he knows not what.'" He amplifies this idea by adding that when such cases as that of the Red Grouse are "enumerated by the zoologist as evidence of distinct creation of the bird in and for such islands, he chiefly expresses that he knows not how the Red Grouse came to be there, and there exclusively; signifying also, by this mode of expressing such ignorance, his belief that both the bird and the islands owed their origin to a great first Creative Cause." If we interpret these sentences given in the same address, one by the other, it appears that this eminent philosopher felt in 1858 his confidence shaken that the Apteryx and the Red Grouse first appeared in their respective homes "he knew not how," or by some process "he knew not what."

ou ainda, joaquim dá mesquita paul:
Entrevejo num futuro afastado caminhos abertos a pesquisas muito mais importantes ainda. A psicologia será solidamente estabelecida sobre a base tão bem definida já por M. Herbert Spencer, isto é, sobre a aquisição necessariamente gradual de todas as faculdades e de todas as aptidões mentais, o que lançará uma viva luz sobre a origem do homem e sua história. Certos autores eminentes parecem plenamente satisfeitos com a hipótese de cada espécie ter sido criada de uma maneira independente. A meu ver, parece-me que o que nós sabemos das leis impostas à matéria pelo Criador concorda melhor com a hipótese de que a produção e a extinção dos habitantes passados e presentes do Globo são o resultado de causas secundárias, tais como as que determinam o nascimento e a morte do indivíduo. Quando considero todos os seres, não como criações especiais, mas como os descendentes em linha recta de alguns seres que viveram muito tempo antes que as primeiras camadas do sistema cambriano tivessem sido depositadas, parecem-me enobrecidos. Julgando assim pelo passado, podemos concluir com exactidão que nenhuma das espécies actualmente vivas transmitirá a sua semelhança intacta a uma época futura muito afastada, e que só um pequeno número delas terá descendentes nas idades por vir, Porque o modo de agrupamento de todos os seres organizados nos prova que, em cada género, o maior número de espécies, e que todas as espécies em muitos géneros, não deixaram descendente algum, mas estão totalmente extintas. Podemos mesmo lançar ao futuro um volver de olhos profético e predizer que são as espécies mais comuns e as mais espalhadas, pertencendo aos grupos mais consideráveis de cada classe, que prevalecerão ulteriormente e que procriarão espécies novas e preponderantes.
Como todas as formas actuais da vida descendem em linha recta das que viviam muito tempo antes da época cambriana, podemos estar certos de que a sucessão regular das gerações jamais foi interrompida e que nenhum cataclismo subverteu o mundo por completo. Podemos, pois, contar, com alguma confiança, sobre um futuro de incalculável comprimento. Ora, como a selecção natural actua apenas para o bem de cada indivíduo, todas as qualidades corporais e intelectuais devem tender a progredir para a perfeição.

eduardo nunes fonseca:
Entrevejo, num futuro remoto, caminhos abertos a pesquisas muito mais importantes ainda. A psicologia será solidamente estabelecida sobre a base tão bem definida [] por Mr. Herbert Spencer, isto é, sobre a aquisição necessariamente progressiva de todas as faculdades e de todas as aptidões mentais, o que lançará uma nova luz sobre a origem do homem e sua história.
Certos autores abalizados parecem plenamente satisfeitos com a possibilidade de cada espécie ter sido criada de uma maneira independente. A meu ver, parece-me que o que nós sabemos das leis impostas à matéria pelo Criador concorda melhor com a hipótese de que a produção e a extinção dos habitantes passados e presentes do globo sejam o resultado de causas secundárias, tais como as que determinam o nascimento e a morte do indivíduo. Quando considero todos os seres, não como criações especiais, mas como os descendentes em linha reta de alguns seres que viveram muito tempo antes que as primeiras camadas do sistema cambiano [sic] tivessem sido depositadas, parecem-me enobrecidos. Analisando assim pelo passado, podemos concluir com certeza que nenhuma das espécies atualmente vivas transmitirá a sua semelhança intacta a uma época futura muito afastada, e que só um pequeno número delas terá descendentes nas idades por vir, porque o modo de agrupamento de todos os seres organizados nos prova que, em cada gênero, o maior número de espécies, e que todas as espécies em muitos gêneros, não deixaram nenhum descendente, porém, estão totalmente extintas. Podemos mesmo lançar no futuro um olhar profético e dizer que são as espécies mais comuns e as mais disseminadas, pertencendo aos grupos mais consideráveis de cada classe, que prevalecerão posteriormente e que procriarão espécies novas e predominantes.
Como todas as formas atuais da vida descendem em linha reta das que viviam muito tempo antes da época cambriana, podemos estar certos de que a sucessão regular das gerações jamais foi interrompida e que nenhum cataclismo subverteu totalmente o mundo. Podemos, pois, contar, com alguma confiança, sobre um futuro de incalculável comprimento. Ora, como a seleção natural atua apenas para o bem de cada indivíduo, todas as qualidades corporais e intelectuais devem tender a progredir para a perfeição.

original:
In the future I see open fields for far more important researches. Psychology will be securely based on the foundation already well laid by Mr. Herbert Spencer, that of the necessary acquirement of each mental power and capacity by gradation. Much light will be thrown on the origin of man and his history.
Authors of the highest eminence seem to be fully satisfied with the view that each species has been independently created. To my mind it accords better with what we know of the laws impressed on matter by the Creator, that the production and extinction of the past and present inhabitants of the world should have been due to secondary causes, like those determining the birth and death of the individual. When I view all beings not as special creations, but as the lineal descendants of some few beings which lived long before the first bed of the Cambrian system was deposited, they seem to me to become ennobled. Judging from the past, we may safely infer that not one living species will transmit its unaltered likeness to a distinct futurity. And of the species now living very few will transmit progeny of any kind to a far distant futurity; for the manner in which all organic beings are grouped, shows that the greater number of species in each genus, and all the species in many genera, have left no descendants, but have become utterly extinct. We can so far take a prophetic glance into futurity as to foretell that it will be the common and widely spread species, belonging to the larger and dominant groups within each class, which will ultimately prevail and procreate new and dominant species. As all the living forms of life are the lineal descendants of those which lived long before the Cambrian epoch, we may feel certain that the ordinary succession by generation has never once been broken, and that no cataclysm has desolated the whole world. Hence, we may look with some confidence to a secure future of great length. And as natural selection works solely by and for the good of each being, all corporeal and mental endowments will tend to progress towards perfection.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



29 de abr. de 2009

maquiavel e a última flor do lácio

.
assim, maquiavel chega ao brasil por volta de 1940, com o príncipe e a famosa carta a vettori na tradução de lívio xavier. [vide atualização] se a data parece tardia, também é surpreendente o adiantado dos anos da primeira publicação de maquiavel em portugal. foi somente em 1935 que apareceu a primeira tradução portuguesa do florentino: justamente o príncipe, posto em vernáculo por francisco morais e publicado pela editora atlântida.

num contraste com a edição brasileira, e que achei muito interessante, a primeira tradução maquiavelina lusitana traz como prefácio um artigo de mussolini* e o tradutor era destacado defensor do regime de salazar. justiça lhe seja feita: afirmam os comentadores que a integridade intelectual de francisco morais foi mais do que suficiente para garantir que o viés do fascismo não interferisse no trabalho de tradução. vide aqui.

* no brasil, até onde sei, a única edição que reproduz esse artigo (em posfácio) é a da editora rio (1979), com tradução em nome de aurora pereira de carvalho.

assim, maquiavel leva uns 420 anos para aportar em solo brasileiro e em solo lusitano: entre 1933 e 1935. em ambos os casos, conhecemo-lo inicialmente em o príncipe. do lado de lá do atlântico, sob a égide salazarista; do lado de cá, em lavra de eminente figura de oposição à ditadura varguista. em ambos os casos, traduções respeitáveis e respeitadas. a chamada "tradução fascista" jamais conheceu reedição, sendo raridade bibliográfica, ao passo que a fortuna histórica da tradução de lívio xavier ainda tem longa vida pela frente.

atualização em 12/02/2013: este post perdeu parte de sua validade no que se refere à datação, visto que a primeira edição dessa tradução de lívio xavier saiu em 1933 pela editora unitas, passando a ser publicada pela athena editora a partir de c.1938. ademais, também em 1933 sai a tradução d'o príncipe feita por elias davidovitch para a editora calvino. mantenho o post pelas outras informações, que me parecem interessantes.

maquiavel, lívio xavier

sobre a abundância de edições de o príncipe de maquiavel, veja aqui o que foi localizado agora:
- 58 edições diferentes
- 33 traduções diferentes (em princípio), sem contar a de carlos eduardo soveral, por ser portuguesa
- 6 edições cujo tradutor não descobri

a tradução mais reproduzida é a de lívio xavier, em 11 editoras ou selos editoriais diferentes, em inúmeras e sucessivas reedições: abril cultural, agir, atena, ediouro, edipro, escala, fundação para a leitura do cego, nova cultural (até 1999), pocket ouro, prestígio e tecnoprint.

agir, ediouro, pocket ouro, prestígio e tecnoprint fazem parte do mesmo grupo, a ediouro. a atena fechou. a abril cultural fechou. a nova cultural trocou a tradução de lívio xavier por uma de olívia bauduh. (sobre olívias bauduhs e trocas na nova cultural, já vimos o caso dos pensamentos de pascal - talvez seja algo na mesma linha.) a escala até 2008 publicava a tradução de o príncipe em nome de ciro mioranza. parece que em 2009 resolveu adotar a de lívio xavier.

resumindo: atualmente, a tradução de lívio xavier circula pela ediouro, pela edipro, pela escala e em braille. ainda é a mais difundida e certamente serve de base ou de consulta para outras traduções.

é também a obra que introduziu maquiavel pela primeira vez no brasil. traz em apêndice a famosa carta de maquiavel a vettori, e vem com prefácio e notas do tradutor. ignoro o ano em que foi lançada pela atena editora. sei que a segunda edição é de 1944. tenho a terceira edição, de 1948. então, aplicando ao reverso esse intervalo de 4 anos, vou considerar 1940 como data hipotética da inaugural arribada maquiavelina in terra brasilis.*

* agradeceria muito se alguém soubesse me informar a data exata dessa primeira edição.

é um contexto bem interessante, em plena ditadura estadonovista, com uma razoável influência ideológica do fascismo, época da segunda guerra mundial. lívio barreto xavier, nascido em 1900 no ceará, formado em direito no rio de janeiro, teve intensa militância política desde 1925, data em que ingressou no partido comunista brasileiro. em 1929 foi expulso do partido, por divergências de fundo com a linha dominante de perfil nacionalista, sob astrojildo pereira. em 1931 mudou-se para são paulo, criando com mário pedrosa, aristides lobo, benjamin péret, a primeira organização trotskista brasileira. sob a forte repressão da ditadura vargas e o peso das divergências internas do trotskismo brasileiro, acabou se afastando da política militante em 1935, dedicando-se à tradução, à crítica literária e ao jornalismo cultural. morreu em 1988.

lívio xavier traduziu muito. seu nome faz parte do panteão dos tradutores que colocaram as obras do pensamento universal ao alcance dos brasileiros. tinha escrita fluente, elegante e mordaz. deixou sua marca entre a intelectualidade brasileira. seu texto esboço de uma análise da situação econômica e social do brasil (1930), em parceria com mário pedrosa, é tido como a primeira análise marxista, séria e consistente, sobre o país. autor também de nosso patrimônio cultural, tempestade sobre a ásia: a luta pela manchúria (com o pseudônimo de l. mantsô), infância na granja, o elmo de mambrino (que lhe valeu o prêmio jabuti de 1976, na categoria de estudos literários). como poeta bissexto, deixou uma coletânea de dez poemas de lívio xavier ilustrados por noêmia mourão. seu acervo se encontra no cedem, centro de documentação e memória, da unesp.

entre suas traduções incluem-se:

benjamin farrington, a ciência grega, e o que significa para nós (com joão cunha andrade)
edgar a. poe, o poço e o pêndulo
gandhi, memórias de gandhi
hegel, enciclopédia das ciências filosóficas (3 vol.) - aqui também trata-se da primeira tradução de uma obra integral de hegel no brasil (1936)
kropotkin, em torno de uma vida - memórias de um revolucionário (com berenice xavier)
louis fischer, alvorada da vitória (1943, ed. prometeu)
maquiavel, carta a vettori
maquiavel, escritos políticos
maquiavel, o príncipe
rené wellek, história da crítica moderna
roger gal, história da educação
rosa luxemburgo, reforma ou revolução
rosa luxemburgo, reforma, revisionismo e oportunismo
spinoza, ética
trotsky, minha vida
trotsky, terrorismo e comunismo

imagem: http://cronologia.leonardo.it

atualização em 12/2/2013:  o príncipe em tradução de lívio xavier saiu em 1933 pela editora unitas, passando a ser publicada pela athena a partir de c.1938.


atualização em 24/5/13: agradeço a dainis karepovs pela imagem de capa.