23 de mai. de 2009

o nietzsche burati-rideeliano

no caso dos clássicos meio detonadões devido aos sequestros tradutórios sofridos cá em nossa terrinha, costumo apresentar uma amostra dos estragos em teses, artigos, ementas de curso, acervos de bibliotecas públicas, licitações, concursos etc. dê uma olhada no arquivo à direita, "nas escolas".

para nietzsche não se sentir triste ou injustiçado por não ganhar uma listinha toda sua, eis por onde andam acerca da verdade e da mentira e o anticristo em plágio (ou será contrafação?)* atribuído pela editora rideel ao nome de "heloísa da graça burati".

"Plágio: Violação da propriedade intelectual que se caracteriza pela imitação total ou parcial de obra literária alheia, inculcando-se a qualidade de autor da mesma. [...] Torna-se contrafação quando há reprodução fraudulenta de obra alheia com o objetivo de lucro", Guimarães, Torrieri (org.), Dicionário Técnico Jurídico, SP, Rideel, 3a. ed., 2001, p. 427.



www.prto.mpf.gov.br/info/info_detalhes_a.php?iid=689&ctg=&sctg
www.administradores.com.br/artigos/como_nos_tornamos_aquilo_que_somos/544/
http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-14982007000200007&lng=es&nrm=iso
www.ufsj.edu.br/portal-repositorio/File/dimap/PREGAO_40_2008_LIVROS%20MAIOR%20DESC_POR%20AREA.doc
www.comunidadeespirita.com.br/artigos/artigos2006/shakespeare%20dante%20nietzsch...
www.scielo.br/pdf/agora/v10n2/a07v10n2.pdf
http://tede.pucrs.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=618
www.consciencia.org/niilismo-como-caminho-para-o-super-homem-em-friedrich-nietzsche
http://dspace.lcc.ufmg.br/dspace/bitstream/1843/ECAP-6ZRFJ3/1/flavio_barbeitas.pdf

muitíssimo felicissimamente, a listinha é curta, até onde consegui apurar. claro que tem também os milhares de leitores que adquiriram e continuam a adquirir os exemplares contrafeitos (contrafatos? contrafazidos?) - mais uma forte razão para que o pobre do nietzsche rideeliano saia de circulação, não é mesmo, dona rideel?

imagem: http://entendanietzsche.blogspot.com

22 de mai. de 2009

o quilo de 150 gramas

alguém sabe me explicar como um texto integral de mais ou menos umas 170-200 páginas, dependendo da edição, pode caber em 33 páginas, com letra de tamanho normal e formato pocket, e continuar se apresentando como "texto integral"?*

* por exemplo, maquiavel, a arte da guerra:
- editora escala, 174 pp.
- editora l&pm, 208 pp.
- editora martin claret, 33 pp.

imagem: http://complexus.blogs.sapo.pt

concurso


este foi um dos ganhadores do plagiarius 2008.
se alguma editora quiser concorrer,
pode baixar aqui o formulário de inscrição.

21 de mai. de 2009

frase do dia


RUDOLF VON IHERING, A LUTA PELO DIREITO

A irritabilidade e a ação, isto é, a faculdade de sentir a dor causada por uma lesão em nosso direito e a coragem aliada à resolução de repelir o ataque, são o duplo critério mediante o qual se pode reconhecer se o sentimento do direito é são - TAVARES BASTOS

A suscetibilidade, isto é, a capacidade de sentir a dor diante duma ofensa ao direito, e a energia, isto é, a coragem e determinação de repelir a agressão, constituem os critérios pelos quais se afere a presença dum sadio sentimento de justiça - ROBERTO DE BASTOS LELLIS

A suscetibilidade, isto é, a capacidade de sentir a dor diante de alguma ofensa ao direito, e a energia, isto é, a coragem e a determinação de repelir a agressão, ambas constituem os critérios pelos quais se confere a presença do sentimento sadio de justiça - PIETRO NASSETTI

20 de mai. de 2009

machado tradutor

machado de assis traduziu umas cinquenta obras, de victor hugo,* molière, la fontaine, shakespeare, poe (quem não conhece sua tradução de o corvo?), schiller, heine, dante. a editora crisálida, de belo horizonte, publicou no ano passado machado de assis tradutor, de jean-michel massa, um dos grandes especialistas em machado, sobretudo de sua atividade tradutória tão pouco lembrada por seus conterrâneos (blush, blush, shame on us!).


que legal, agora a crisálida está lançando três traduções inéditas de machado, em volume organizado por massa e traduzido (a introdução e as notas de massa, claro, não as traduções de machado!) por oséias silas ferraz. quem estiver em são paulo tem esse programa imperdível para o dia 5 de junho, na livraria cultura.

* a editora martin claret, diga-se de passagem, até cadastrou na fundação biblioteca nacional os trabalhadores do mar de victor hugo em suposta tradução de pietro nassetti. mas deve ter reconsiderado a questão, pois o volume acabou sendo publicado com os devidos créditos de tradução a nosso querido machado.

19 de mai. de 2009

notificação da martin claret

quanto à notificação que recebi da martin claret (extrajudicial, e não judicial como foi divulgado na publishnews e no blog do galeno), agradeço a todos que enviaram mensagens de apoio e solidariedade.


constituí advogado e estamos estudando as medidas judiciais e extrajudiciais que serão tomadas, tanto no terreno cível como no criminal.

imagem: banner criado por raquel sallaberry

16 de mai. de 2009

ajustando o foco


um leitor identificado apenas como "alberto" deixou ontem um comentário em lá e cá, que aqui reproduzo e aproveito para tecer algumas considerações.

estimada denise, seu trabalho protojornalístico é interessante, mas falta rigor no seu método. você faz afirmações bombásticas sem apurar completamente os fatos. com isso, expõe-se a processos. afirmações como "fulano de tal é diretor da cbl; portanto, a cbl endossa tais práticas" é leviana e perigosa. cuidado.

o que provavelmente acontece, nesses casos, é que uma editora cede os direitos de tradução para outra. mas aí vem a dúvida: o contrato do tradutor, apesar de ser de cessão definitiva de direitos, não prevê isso. "ah, troque o nome que ninguém vai perceber..." aí, inventaram a internet e... surgiu a denise. fique bem.

estimado alberto, agradeço suas observações, que acredito bem intencionadas.

embora eu não tenha a menor pretensão jornalística, espero sempre estar calçada nas informações que divulgo. assim, jamais fiz a afirmação mencionada em seu comentário: seria de fato algo ridículo e infundado, em vista das dezenas e dezenas de editoras íntegras que compõem a cbl, imagino que em esmagadoríssima maioria! creio que vc entendeu equivocadamente minhas palavras: muito pelo contrário, eu torceria por uma manifestação positiva, construtiva da entidade.

por outro lado, creio que expor opiniões e preocupações fundadas em fatos, apresentar dúvidas, fazer perguntas, é algo inteiramente legítimo. pois veja só: semanas atrás liguei para a cbl justamente para me informar sobre o funcionamento da entidade em relação a eventuais associadas que utilizam práticas editoriais de legalidade duvidosa. a resposta foi que o regimento da cbl não dispõe de um código de ética para os associados, que a câmara não entra no mérito das práticas empresariais adotadas por seus membros, e respeita igualmente a presença de todos os seus associados. tal foi a informação que gentilmente forneceu a presidente da cbl, sra. rosely boschini.

assim,
- se a legislação dos direitos autorais não contempla os interesses dos cidadãos leitores,
- se a principal entidade do livro no país não prevê em seus estatutos mecanismos de defesa institucional da idoneidade no setor,
- se a fundação biblioteca nacional declara que apenas cadastra os dados enviados pelos editores ou constantes nos exemplares impressos,
- se a imensa maioria das livrarias se julga acima da lei e não se incomoda em vender produtos admitidamente falsificados,
- se todas as orientações jurídicas são unânimes em afirmar que tais casos pertencem à alçada pública, sob a tutela coletiva de interesses difusos,
- se o instituto de defesa do consumidor diz que tais questões escapam à sua competência,
- se o ministério da cultura declara que não dispõe de nenhuma instância para tal e remete a competência para o ministério público federal,
- se o ministério público federal considera que tais casos não envolvem nomes com envergadura suficiente, à exceção do de monteiro lobato, que justifiquem providências suas,

então eu pergunto: como podem os leitores ter garantia do produto que adquirem? quem ou o que protege a qualidade e idoneidade editorial? quem ou o que assegura que as leis do país referentes ao bem cultural livro sejam respeitadas? quem ou o que se apresenta perante a sociedade como instituição portando a bandeira em defesa do livro honesto?

quanto à sua sugestão sobre "o que provavelmente acontece nesses casos", achei surpreendente: terei entendido mal, ou você afirma que "provavelmente" é a própria editora detentora inicial dos direitos de tradução que aconselha ou sugere à editora interessada em reeditar aquela tradução que "troque o nome" do tradutor? isso sim seria bombástico. fico estarrecida à simples ideia e prefiro descartá-la por demasiado alarmante e, até onde sei, felizmente infundada.

agradeço também seu aviso para que eu tome cuidado. de fato, se há um vazio jurídico e institucional na relação livro/cidadania, como exemplifiquei acima, se o leitor não encontra amparo legal para algo que - imagino eu - é um legítimo direito seu, a saber, poder confiar na integridade do livro que está lendo, a posição de quem protesta contra tal situação se torna muito vulnerável a intimidações. posso lhe dizer, no que tange a mim, que é algo contristador e, sob certos aspectos, até revoltante. pois até algum tempo atrás esperava eu, em minha singeleza, que as editoras probas e as entidades do livro cerrassem fileiras em torno da lisura e da transparência, e não que se calassem ou se abespinhassem por questões corporativas.

quanto à boutade final, "surgiu a denise", pode ser divertida, mas não corresponde aos fatos. pois de forma alguma fui eu a levantar essas lebres. boa parte dessas informações partiu do jornal opção, da folha de s.paulo, da revista agulha, da revista piauí, de o globo, com várias pessoas em diversas ocasiões denunciando na imprensa a onda de irregularidades. o problema da nova cultural foi levantado em diferentes oportunidades, entre outros, por ivo barroso, saulo von randow jr., manuel da costa pinto; o da martin claret, por gonçalo armijo, euler frança, ivo barroso, modesto carone, luis fernando vianna, editora 34 e tantos mais; o da jardim dos livros, por adam sun; o da landmark, por alessandra perlatti. os casos da hemus e rideel afloraram em simples decorrência das pesquisas em torno da martin claret. ações e notificações contra tais práticas foram e têm sido empreendidas por, entre outros, luiz costa lima, companhia editora nacional, companhia das letras, l&pm, editora globo, além de acordos com cláusulas de confidencialidade celebrados com outras editoras lesadas.

ou seja, e este aspecto é essencial, não sou de forma alguma, em absoluto, a única pessoa a se indignar profundamente contra os descalabros editoriais. tal como as coisas têm se colocado ultimamente, porém, parece até que se estaria criando um ente "denise", que serviria de bode expiatório e forma de jogar areia nos olhos em relação a problemas muito sérios, muito abrangentes e muito objetivos, que não de hoje vêm atingindo a credibilidade do mundo do livro no país.

como cidadã e leitora, quero poder confiar na lisura dos livros que leio, e não vejo o que há de errado nisso. continuo e continuarei insistindo e torcendo para que a cbl e outras entidades expressem uma posição clara e positiva frente à enxurrada de milhões de exemplares espúrios que têm inundado o país nos últimos 12-15 anos, e que estão presentes em milhões de lares, em milhares de bibliotecas públicas, em centenas de programas de curso e ementas de disciplinas em escolas de segundo e terceiro grau. afinal, é apenas disso que se trata: do livro honesto a que todos nós temos direito.

imagem: armazém da biblioteca nacional

14 de mai. de 2009

lá e cá

avisei a editora portuguesa relógio d'água que sua edição de acerca da verdade e da mentira, de nietzsche, na tradução feita pelo seminário de estudos filosóficos sob a coordenação da dra. helga hoock quadrado, da universidade de lisboa, tinha sido reproduzida no brasil pela editora rideel, mas curiosamente atribuindo a autoria da referida tradução a uma certa "heloísa da graça burati" e tomando para si o copirraite. veja a cópia da rideel aqui.

"prezados senhores:
lamento informar que sua edição 'acerca da verdade e da mentira', de nietzsche, em tradução de helga hoock quadrado, foi reproduzida literalmente no brasil, pela editora rideel, no entanto tomando para si o copyright e os direitos exclusivos sobre a referida tradução, atribuída a 'heloísa da graça burati'."

recebi a resposta:

"Estimada Denise Bottmann,
Agradecemos a informação que nos deu sobre o plágio cometido pela editora Rideel em relação a «Acerca da verdade e da mentira».Vamos de imediato averiguar a extensão desse abuso e exigir a necessária reparação em relação aos tradutores.
Os melhores cumprimentos,
Francisco Vasconcelos"

tomara que as editoras lesadas de lá tenham mais brios e demonstrem mais respeito por seus tradutores e leitores do que as editoras lesadas daqui, que, tirando o digno exemplo da l&pm, preferem, sabe-se lá por quê, enfiar a viola no saco e ficar caladinhas. outro fato curioso é que o proprietário da editora rideel faz parte da diretoria da câmara brasileira do livro, a principal entidade do livro no país... significará isso que a cbl compactua com tais práticas editoriais de associados e diretores seus? com a palavra a dona rideel e a dona cbl.

imagem: http://madteaparty.wordpress.com

13 de mai. de 2009

o papel pedagógico dos blogs

acalorado debate sobre os méritos e deméritos das más traduções e dos plágios em novesfora:
http://9sfora.wordpress.com/2009/05/08/jane-austen-em-maos-erradas

muito interessante. o responsável pelo blog, aliás, está de parabéns por sua quase infinita paciência com os mais exaltados. uma bonita lição de civismo.

imagem: http://sandrapontes.com

cá e lá

notícia na folha online:
nos eua começa a exigência de equipamentos tecnológicos obrigatórios em sala de aula, como material indispensável e pré-requisito mínimo aos estudantes para download de material. a ideia é que os alunos possam baixar materiais letivos que são gratuitos.

já nós aqui em terras tapuias temos de nos defender contra os nassettis, as buratis, os berwicks e os corvisieris da vida que algumas editoras tentam nos empurrar goela abaixo... e ainda engolir a pataquada da "pastinha do professor", toda feita de fragmentos picotados, que é a proposta da abdr, e pela qual os alunos têm de pagar para fazer download!

imagem: http://www.teclasap.com.br/

12 de mai. de 2009

scienza nuova

a ciência nova de giambattista vico é a obra mais interessante do barroco italiano e, acho, uma das mais interessantes de toda a filosofia moderna. há muito o que se dizer sobre ela, desde os bizarros deslumbramentos latinizantes de sua linguagem aos rompantes de categóricas afirmações desmesuradas sobre os primórdios dos tempos - por exemplo, sua "dignidade" ou axioma sobre as abóboras -, seu eruditismo jurídico-filológico e explorações meticulosas do sentido oculto da lei das doze tábuas, seu atrevimento esplendoroso de aplicar o more geometrico ao mundo humano, seu doce e profundo apreço por hobbes e o leviatã social construído por definições, seu visceral ódio por descartes, quase como se fosse o bode expiatório das dores e humilhações de seu aleijão...




vico, para mim, é a mais sublime encarnação de nápoles, a desmedida, na sórdida e patética prepotência de um fim de mundo imperial indizível, onde um servil professorzinho provinciano, enlouquecido ao final da vida em meio à gritaria das crianças famélicas e semiesfarrapadas correndo pelas vielas imundas de seu bairro, relembra insciente suas estrênues e reiteradas tentativas, retrospectivo profeta profano armado de santidade, de deflorar os mistérios do mundo. do lodo brota o lótus.

nos idos de 80 passei uns bons anos estudando sua obra, em especial a ciência nova de 1744. naquela época marco lucchesi ainda não se abalançara à inigualável proeza de verter essa enormidade do intraduzível para o português. havia alguns excertos perpetrados pela boa vontade do professor antônio lázaro de almeida prado, talvez não exitosamente como teria desejado, e só. fiz alguns cometimentos privados, algumas quatrocentas páginas minuciosamente anotadas com a recuperação filológico-filosófica do latim florentinizado que, para vico, seria o frasco histórico que encerrava a essência da expressão humana de todos os tempos. nunca cheguei a concluir esse estudo. foi divertido, intenso, e aprendi um pouco de italiano.

assim, fiquei curiosa em ver a ciência nova publicada em 2008 pela editora ícone (devem ser uns poucos excertos, pois é um livro fino e a scienza nuova é um vasto volume). será instrutivo conhecer o recorte escolhido para a seleta e as soluções adotadas para um texto notoriamente vasado numa das linguagens mais intrincadas e obscuras de que se tem notícia em toda a história da filosofia - uma das razões pelas quais, aliás, além do isolamento de seu autor, a ciência nova nunca chegou a ter grande difusão.

imagens: vico; frontispício da ciência nova, ed. 1744

11 de mai. de 2009

hoje na taverna


veja aqui por que o taverneiro foge de traduções.
muito simpático, vale a pena!


imagem: van gogh, livros amarelos na editoratrix

9 de mai. de 2009

tristeza

nossos sentimentos pela morte de claudia martinelli gama, e nossa profunda solidariedade a mauro gama.

8 de mai. de 2009

os irmãos do bem

fiquei felicíssima com a notícia: o prêmio de tradução da abl deste ano foi para paulo bezerra, com seu esplêndido labor em os irmãos karamázov, publicado pela editora 34.

além do imenso mérito da tradução, fiquei feliz também porque paulo bezerra é um dos que detestam figadalmente o plágio.

só para lembrar: os irmãos karamázov protagonizou um dos mais traumáticos casos de plágio no país, envolvendo a antiga tradução de boris schnaiderman publicada pela vecchi. veja aqui.

imagem: capa

o hiperbóreo nos trópicos


Prólogo

Conheço demasiado bem as condições em que alguém me compreende e, além disso, com necessidade me compreende. Há que ser íntegro até à dureza nas coisas de espírito para aguentar a minha seriedade e a minha paixão; estar afeito a viver nas montanhas, a ver abaixo de si o mesquinho charlatanismo actual da política e do egoísmo dos povos. Importa ter-se tornado indiferente, é preciso nunca perguntar se a verdade é útil, se chegará a ser uma fatalidade... Necessária é também uma preferência da força por questões a que hoje ninguém se atreve; a coragem para o proibido; a predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma nova música. Olhos novos para o mais longínquo. Uma consciência nova para verdades que, até hoje, permaneceram mudas. E uma vontade de economia de grande estilo: reter conjuntamente a sua força, o seu entusiasmo... O respeito por si mesmo, o amor-próprio, a liberdade incondicional para consigo...
Pois bem, só esses são os meus leitores, os meus autênticos leitores, os meus predestinados leitores: que importa o resto? O resto é simplesmente a Humanidade. Há que ser superior à humanidade em força, em grandeza de alma – e em desprezo...

7.
Chamam ao Cristianismo a religião da compaixão. A compaixão está em contradição com as emoções tónicas, que elevam a energia do sentimento vital; a compaixão tem uma acção depressiva. Quando alguém se compadece, perde a força. Pela compaixão aumenta-se e multiplica-se o desperdício de energia que o sofrimento, por si próprio, já traz à vida. O próprio sentimento torna-se, pela compaixão, infeccioso; em determinadas circunstâncias pode chegar-se a um desperdício global de vida e de energia vital, que se encontra numa relação absurda com o quantum da causa (o caso da morte do Nazareno). Eis o primeiro ponto de vista; mas existe outro ainda mais importante. Supondo que se mede a compaixão pelo valor das reacções que costuma suscitar, surge ainda mais claramente o seu carácter nocivo à vida. A traços largos, a compaixão contradiz a lei da evolução, que é a lei da selecção. Conserva o que está maduro para o declínio, luta em prol dos deserdados e dos condenados pela vida; e, pela abundância dos falhados de toda a espécie, que mantém vivos, confere à própria vida um aspecto lúgubre e duvidoso. Ousou-se mesmo chamar virtude à compaixão (em qualquer moral nobre surge como fraqueza); foi-se mais longe, fez-se dela a virtude, o solo e a origem de todas as virtudes – só que, e é necessário não o esquecer, a partir do ponto de vista de uma filosofia que era niilista, que inscrevia como divisa no seu escudo a negação da vida. Schopenhauer tinha razão ao dizer: «A vida é negada pela compaixão, a compaixão torna a vida ainda mais digna de ser negada » – compadecer-se é a prática do niilismo. Uma vez mais: este instinto depressivo e contagioso contradiz os instintos de conservação e de valorização da vida: como multiplicador da miséria, mais ainda como conservador de todos os míseros, é um instrumento essencial na acentuação da décadence; a compaixão incita ao nada!... Não se diz «nada»: menciona-se em seu lugar «o além», ou «Deus», ou «a verdadeira vida»; ou ainda Nirvana, redenção, beatitude... Esta inocente retórica, proveniente do domínio da idiossincrasia religiosa e moral, revela-se logo muito menos inocente quando se elucida qual a tendência que ali se abriga, sob o manto de sublimes palavras: a tendência hostil à vida. Schopenhauer era inimigo da vida; por isso, a piedade transformou-se para ele numa virtude... Aristóteles, como se sabe, via a compaixão num estado mórbido e perigoso, que seria útil extirpar de quando em quando por meio de um purgante: para ele, o purgante era a tragédia. Em nome do instinto vital, deveria efectivamente arranjar-se um meio de enfraquecer essa acumulação de piedade, tão mórbida e nociva, como se nos depara no caso de Schopenhauer (e, infelizmente, também no de toda a nossa décadence literária e artística, desde S. Petersburgo a Paris, de Tolstoi a Wagner): que rebente... Nada de mais insalubre, no meio da nossa insalubre modernidade, do que a nossa compaixão cristã. É aí que importa ser médico, é aí que é preciso ser implacável e manejar o escalpelo – eis o que nos incumbe, eis a nossa filantropia, eis o que nos faz filósofos, a nós, hiperbóreos!

31
Deveria lamentar-se que um Dostoievsky não tenha vivido na proximidade deste interessantíssimo décadent, quero dizer, alguém que soubesse sentir justamente o fascínio comovente de uma tal mescla de sublime, de doentio e infantil. Um último ponto de vista: o tipo, enquanto tipo de décadence, poderia efectivamente ter sido de uma peculiar multiplicidade e contrariedade: tal possibilidade não deve de todo excluir-se. Não obstante, dela tudo parece dissuadir-nos: a tradição deveria neste caso ser notavelmente fiel e objectiva; temos a seu respeito razões para admitir o contrário. Entretanto, há uma contradição entre o pregador das montanhas, dos lagos e dos prados, cuja manifestação é como a de um Buda num terreno muito pouco indiano, e aquele fanático da agressão e inimigo mortal dos teólogos e dos sacerdotes, que a malícia de Renan exaltou como «le grand maître en ironie». Eu próprio não duvido de que a copiosa dose de fel (e até de esprit) foi derramada sobre o tipo do Mestre só em virtude do estado de agitação da propaganda cristã: conhece-se sobejamente a falta de escrúpulos de todos os sectários em aprontar a sua própria apologia a partir do seu mestre. Quando a primeira comunidade precisou de um teólogo justiceiro, querelante, tempestuoso, perversamente capcioso contra os teólogos, criou para si o seu «Deus», segundo as suas necessidades: assim como também lhe pôs, sem hesitação, na boca os conceitos de todo contrários ao Evangelho, que agora não poderia dispensar, a «segunda vinda» [de Cristo], o «Juízo Final», toda a espécie de esperança e promessa temporais.

nietzsche, o anticristo
a elegante tradução acima é da autoria de artur morão, pelas edições 70.

a autoria da "tradução" abaixo é atribuída pela editora rideel ao nome de heloísa da graça burati.
 [não que o fervor nietzscheano pelos itálicos tenha sido muito respeitado.]

Prólogo
Conheço muito bem as condições em que alguém me compreende, aquelas sob as quais sou necessariamente compreendido. Há que ser íntegro até às últimas consequências nas coisas de espírito para aguentar a minha seriedade e a minha paixão; estar afeito a viver nas montanhas, a ver abaixo de si o mesquinho charlatanismo atual da política e do egoísmo dos povos. É importante ter-se tornado indiferente, é preciso nunca perguntar se a verdade é útil, se chegará a ser uma fatalidade... Necessária é também uma preferência da força por questões a que hoje ninguém se atreve; a coragem para o proibido; a predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma nova música. Olhos novos para o mais longínquo. Uma consciência nova para verdades que, até hoje, permaneceram mudas. E uma vontade de economia de grande estilo: reter conjuntamente a sua força, o seu entusiasmo... O respeito por si mesmo, o amor-próprio, a liberdade incondicional para consigo...
Pois bem, só esses são os meus leitores, os meus autênticos leitores, os meus predestinados leitores: que importa o resto? O resto é simplesmente a Humanidade. Há que ser superior à humanidade em força, em grandeza de alma – e em desprezo...

7.
Chamam ao cristianismo a religião da compaixão. A compaixão, porém, é a contradição das emoções tónicas, que aumentam a energia do sentimento vital; a compaixão tem uma ação depressiva. Quando alguém se compadece, perde a força. Pela compaixão aumenta-se e multiplica-se o desperdício de energia que o sofrimento, por si próprio, já traz à vida. O próprio sentimento torna-se, pela compaixão, infeccioso: em determinadas circunstâncias pode chegar-se a um desperdício global de vida e de energia vital, que se encontra numa relação absurda com o quantum da causa (o caso da morte do Nazareno). Eis o primeiro ponto de vista; mas existe outro ainda mais importante. Medindo-se a compaixão pelo valor das reações que costuma suscitar, surge ainda mais claramente o seu caráter nocivo à vida. A compaixão contradiz completamente a lei da evolução, que é a lei da seleção natural. Conserva o que está maduro para o declínio, luta em prol dos deserdados e dos condenados pela vida; e, pela abundância dos fracassados de toda a espécie que mantém vivos, confere à própria vida um aspecto lúgubre e duvidoso. Ousou-se mesmo chamar virtude à compaixão (em qualquer moral superior surge como fraqueza); foi-se mais longe, fez-se dela a virtude, o solo e a origem de todas as virtudes – só que, e é necessário não o esquecer, a partir do ponto de vista de uma filosofia que era niilista, que inscrevia como divisa no seu escudo a negação da vida. Schopenhauer tinha razão ao dizer:
«A vida é negada pela compaixão, a compaixão torna a vida ainda mais digna de ser negada » – compadecer-se é praticar o niilismo. Uma vez mais: esse instinto depressivo e contagioso contradiz os instintos de conservação e de valorização da vida: como multiplicador da miséria, mais ainda como conservador dos miseráveis, é um instrumento essencial na acentuação da décadence; a compaixão incita ao nada!... Não se diz «nada»: menciona-se em seu lugar «o além», ou «Deus», ou «a verdadeira vida»; ou ainda Nirvana, redenção, beatitude... Esta inocente retórica, proveniente do domínio da idiossincrasia religiosa e moral, revela-se logo muito menos inocente quando se elucida qual a tendência que ali se abriga, sob o manto de sublimes palavras: a tendência hostil à vida. Schopenhauer era inimigo da vida; por isso, a piedade transformou-se para ele numa virtude... Aristóteles, como se sabe, via a compaixão como um estado mórbido e perigoso, que seria útil extirpar de quando em quando por meio de um purgante: para ele, o purgante era a tragédia. Em nome do instinto vital, deveria efetivamente arranjar-se um meio de espetar essa acumulação de piedade, tão mórbida e nociva, como [] no caso de Schopenhauer (e, infelizmente, também no de toda a nossa décadence literária e artística, desde São Petersburgo a Paris, de Tolstói a Wagner): que estoure... Nada é mais insalubre, em meio à nossa insalubre modernidade, do que a nossa compaixão cristã. É aí que importa ser médico, é aí que é preciso ser implacável e manejar o escalpelo – eis o que nos incumbe, eis a nossa filantropia, eis o que nos faz filósofos, a nós, hiperbóreos!

31.
Deveria lamentar-se que um Dostoiévski não tenha vivido na proximidade deste interessantíssimo décadent, quero dizer, alguém que soubesse sentir justamente o fascínio comovente de uma tal mescla de sublime, doentio e infantil. Um último ponto de vista: o tipo, enquanto tipo de décadence, poderia efetivamente ter sido de uma peculiar multiplicidade e contrariedade: tal possibilidade não deve ser excluída totalmente. Não obstante, dela tudo parece dissuadir-nos: a tradição deveria, neste caso, ser notavelmente fiel e objetiva; temos a seu respeito razões para admitir o contrário. Entretanto, há uma contradição entre o pregador das montanhas, dos lagos e dos prados, cuja manifestação é como a de um Buda num terreno muito pouco indiano, e aquele fanático da agressão e inimigo mortal dos teólogos e dos sacerdotes, que a malícia de Renan exaltou como «le grand maître en ironie». Eu próprio não duvido de que a copiosa dose de fel (e até de esprit) foi derramada sobre o tipo do Mestre apenas em virtude do estado de agitação da propaganda cristã: a falta de escrúpulos de todos os sectários em aprontar a sua própria apologia a partir do seu mestre é mais do que conhecida. Quando a primeira comunidade precisou de um teólogo justiceiro, querelante, tempestuoso, perversamente capcioso contra os teólogos, criou para si o seu «Deus», segundo as suas necessidades: assim como também lhe pôs na boca, sem hesitação, os conceitos completamente contrários ao Evangelho, que agora não poderia ser dispensado, a «segunda vinda» [de Cristo], o «Juízo Final», toda a espécie de esperança e promessa temporais.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagens: título em manuscrito; munch, nietzsche, 1906

7 de mai. de 2009

discussão sobre a lda


estava para se realizar agora em maio o III Congresso sobre Direito de Autor e Interesse Público, na fundação getúlio vargas, organizado pela ufsc e pela fgv, com a finalidade de fornecer subsídios para o fórum nacional de direito autoral, do minc.

o congresso foi adiado para setembro, em data ainda a ser definida, mas a programação em princípio será a mesma. são 12 painéis, a saber:

Painel I: Princípios para revisão da LDA
Expositor: Prof. Dr. José de Oliveira Ascensão – Univ. de Lisboa

Painel II: Disposições Preliminares e Definições
Relator: Dr. Marcos Wachowicz – UFSC
Revisor: Dr. Antonio Morato – USP

Painel III: Obras Intelectuais e Autoria
Relator: Prof. Manoel J. Pereira dos Santos– FGV/GVlaw
Revisor: Dr. José Isaac Pilati – UFSC

Painel IV: Direitos do Autor: Direitos Patrimoniais
Relator: Dr. Newton Silveira – FADUSP
Revisor: Dra. Silmara Chinelatto – Profa. Titular da FADUSP

Painel V: Limitações aos Direitos Autorais I
Relator: Dr. Luiz Gonzaga Silva Adolfo – UNILASALLE E ULBRA - RS
Revisor: Dr. João Carlos Muller Chaves

Painel VI: Limitações aos Direitos Autorais II
Relator: Dr. Guilherme Carboni – FAAP
Revisor: Dr. Allan Rocha – UFRJ - UERJ

Painel VII: Obra Sob Encomenda – Licenças Não-Voluntárias
Relator: Dr. Denis Borges Barbosa – UFRJ
Revisor: Dra. Lilian de Melo Silveira

Painel VIII: Transferência dos Direitos do Autor
Relator: Dra. Eliane Abrão
Revisor: Dr. Eduardo Lycurgo Leite

Painel IX: Utilização de Obras Intelectuais e Fonogramas I
Relator: Dra. Vanisa Santiago
Revisor: Dr. Hildebrando Pontes Neto

Painel X: Utilização de Obras Intelectuais e Fonogramas II
Relator: Dr. Antonio de Figueiredo Murta – PUC/RJ
Revisor: Dra. Sonia Maria D’Elboux

Painel XI: Associações de Titulares e Entidade Reguladora
Relator: Dr. José Carlos Costa Netto
Revisor: Ministro Carlos Fernando Mathias de Souza – STJ

Painel XII: Sanções, Prescrição e Disposições Finais
Relator: Dra. Helenara Braga Avancini – PUC/RS
Revisor: Dr. Eduardo Pimenta – FADISP

imagem: www.tratojustoparatodos.cl

"fale conosco"

nesse meu constante esperneio contra plágios, contrafações, adulterações, apropriações indevidas e todas essas coisas que é feio fazer nos livros, sempre tento contatar a editora responsável pela pinoquice da vez e informar a editora e/ou o tradutor/ sucessor original.

ontem na rideel conversei com uma moça muito atenciosa chamada ana paula, do editorial. ficou de comunicar à sua chefia meu espanto com a semelhança entre a tradução atribuída a heloísa da graça burati e a tradução a cargo de helga hoock quadrado da obra de nietzsche, acerca da verdade e da mentira. comentou que de fato já andavam reavaliando essa coleção deles, o que deu a entender que eu não era a primeira pessoa a levantar o problema. explicou também que era uma questão muito trabalhosa, muito demorada, que seria muito prematuro afirmar ou esclarecer qualquer coisa, mas que eu podia ficar tranquila, pois certamente, quando apurassem os fatos, tomariam providências, pois o dono da empresa era uma pessoa maravilhosa e que ela podia garantir que, se eu o conhecesse, iria adorá-lo também. bom, o non sequitur não foi meu, mas ok, dei meu recado, e agora ficamos aqui torcendo.

só que ainda acho que, enquanto apuram, bem que podiam suspender provisoriamente as vendas até terem certeza da idoneidade do produto ou pelo menos se prontificar a trocar o produto com defeito ou algo assim, não é mesmo?

6 de mai. de 2009

zola na babilônia

esta é para quem gosta de análise comparada. encontrei um artigo interessante escrito por ana cristina tavares e josé manuel lopes, da universidade lusófona, chamado "Crítica das Traduções Portuguesas de La Bête humaine de Émile Zola". está na revista babilónia, n. 5, pp. 9-42.

os pesquisadores examinam 6 traduções de a besta humana, entre 1912 e 1991. a primeira foi feita por henrique marques, sob o pseudônimo de pandemónio. foi publicada em 1912 (T1a) pela guimarães e reeditada em 1956 (T1b) pela mesma editora, apenas com atualização ortográfica e mínimas outras alterações. no mesmo ano de 1956, a editorial crisos lança uma outra (suposta) tradução, em nome de gil avelar (T2), que, para a surpresa dos pesquisadores, mostrou ser cópia da tradução atualizada de pandemónio. em 1967, a guimarães lança nova tradução, em nome de jorge reis, também praticamente idêntica à sua edição de 1956 (T3). apenas a partir de 1976 começam a surgir traduções efetivamente novas: europa-américa, com sampaio marinho, T4; civilização, daniel augusto gonçalves (1983), T5; círculo dos leitores, isabel st. aubyn (1991), T6.

por mera curiosidade, dei uma olhada nos trechos destacados pelos pesquisadores em seu artigo, e comparei as diversas soluções às dadas por eduardo nunes fonseca, na hemus (1982). reproduzo abaixo as passagens do artigo, interpolando em vermelho os trechos correspondentes na pretensa tradução de eduardo nunes fonseca. acho que a conclusão salta aos olhos, e dispensa maiores comentários.

Assim, no original: «elle pouvait rattraper la phrase» (p.1012) aparece em T1a e b como: «podia iludir a frase» (p.23).
HEMUS - podia iludir a frase (p. 14)
A mesma tradução é retomada em T2 e T3, e só em T4 temos «podia recuperar a frase» (p.19) e, em T5 «podia ter emendado a frase» (p.26) e, em T6 «ainda estava a tempo de retomar a frase» (p.22).

«Mais, continua-t-il, tu m’as toujours dit que c’était ta mére qui te l’avait laissée, cette bague» (p.1012) surge com um tom empolado em ambas as versões da tradução: «— Mas — continuou ele — tu disseste-me sempre que fora tua mãe quem te dera esse anel.» (T1a e b, p.23).
HEMUS - — mas, continuou ele, tu disseste-me sempre que fora tua mãe quem te dera esse anel. (p. 14)em T4 há uma ligeira alteração: «— Mas — prosseguiu ele — sempre me disseste que foi a tua mãe que te deixou esse anel.» (p.19); em T5 «— Mas — continuou ele, — tu tinhas-me sempre dito que fora tua mãe que te deixara esse anel.» (p.26); em T6 «— Mas — prosseguiu ele — sempre me disseste que herdaste esse anel da tua mãe.» (p.22).

«Qu
and ils reprirent haleine, hébétés, gonflés de cette horreur, las de frapper et d’être frappé, ils étaient revenus près du lit […]»
Assim, temos em T1a: «Quando retomaram a respiração, embrutecidos, tumefactos d’aquelle horror, cançados de espancar e de ser espancada, tinham voltado para junto da cama [...]» (p. 26) e, em T1b: «Quando retomaram a respiração, embrutecidos, tumefactos daquele horror, cansados de se espancar um ao outro, tinham voltado para junto da cama [...]» (p. 25).
HEMUS - Quando retomaram a respiração, embrutecidos, tumefatos daquele horror, cansados de se espancarem um ao outro, tinham voltado para junto da cama [...], p. 21T5 opta por outra alternativa: «Quando recuperaram fôlego, estupidificados, cheios daquele horror, ele cansado de bater e ela de apanhar, tinham voltado perto do leito [...]» (p.28)

«Nom de Dieu de garce! tu as couché avec.» (p.1013), é traduzido em T1a por: «Grandíssima desvergonhada! Então tu foste com ele!» (p. 24), e T1b: «Grandíssima desavergonhada! Então tu foste dele!» (p.24). O mesmo se verifica em T2 e T3.
HEMUS - - Grandíssima desavergonhada! Então estiveste com ele! (p. 20)
Só nas edições posteriores ao 25 de Abril de 1974 vamos encontrar traduções que não evitam dizer o que se afirma no original. Deste modo, em T4, de 1976, temos uma tradução que não evita «transpor» o que se afirma no original: «Rameira duma figa! Dormiste com ele!» (p.20). Em T5, de 1983, encontramos «Sua cabra de um raio! Tu foste para a cama com ele!» (p.27), e em T6, de 1991: «Que pega, meu Deus! Dormiste com ele!» (p.23). Note-se que na única tradução feita por uma mulher, a T6 de Isabel St. Aubyn, a expressão é mais contida e indirecta.

«aussi, parfois, allait-il trop loin, il écrasait les pétards, “les cors au pied”, comme on dit, ce qui lui avait valu deux fois des mises à pied de huit jours.» (p.1162). Em T1a e T1b, este segmento é traduzido do seguinte modo: «por isso, às vezes, ia longe demais, o que lhe valera ser suspenso por vinte dias.» (T1a, p.7, vol.2), e em T1b (p.183).
HEMUS – por isso, às vezes, ia longe de mais, o que lhe valera ser suspenso por vinte dias (p. 159).Como se poderá constatar não foi traduzida a sequência que colocava mais dificuldades. Em T3, como se trata frequentemente de uma cópia de T1, a frase mantém-se igual. Em T4, porém, há uma tentativa de a traduzir: «esmagava os petardos, “com asas nos pés”, como sói dizer-se, o que lhe valera por duas vezes ser suspenso por oito dias» (p.164). T5, no entanto, apresenta outra alternativa igualmente pouco apropriada: «esmagava os petardos, “os calos do pé” como lhes chamam, o que lhe tinha valido por duas vezes suspensões de oito dias.» (p.156). Finalmente, em T6, poderemos ler o seguinte: «esmagava os petardos, complementos dos sinais ópticos, o que lhe valera já duas suspensões de oito dias.» (p.197). Ora parece-nos que a solução apropriada deveria ter sido: «passava os sinais da linha a toda a pressa, com “asas nos pés”, como se costuma dizer, o que lhe valera já duas suspensões de oito dias».

«comme le sang mêlé de leurs coeurs» (p.1151) que aparece como «o sangue amalgamado dos seus corações» (T1a, p.193, e T1b, p.171).
HEMUS - como o sangue amalgamado dos seus corações (p. 149)
Contudo, algumas das dificuldades que o texto original colocava também não foram resolvidas. É disto exemplo a frase «comme le sang mêlé de leurs coeurs» (p.1151) traduzida por «tal como o sangue dos seus corações» (p.183).

«Mon mari a dû m’empoigner» (p.1204), traduzido em T1 como «meu marido teve que pegar em mim» (T1a, p.58, vol.2).
HEMUS - Meu marido teve que pegar-me (p. 197)
Só em T5 descobrimos uma solução mais apropriada: «meu marido deve ter-me agarrado» (p. 192), porém, em T6, voltamos a ter «o meu marido deve ter pegado em mim» (p.244).

«Chez Séverine, après la montée ardente de ce long récit, ce cri était comme l’épanouissement même de son besoin de joie, dans l’exécration de ses souvenirs. Mais Jacques, qu’elle avait bouleversé et qui brûlait comme elle, la retint encore.
— Non, non, attends...Et tu étais aplatie sur ses jambes, et l’as senti mourir?» (p.1204).
Em T1b temos :
«Em Severina, depois da confissão ardente do seu crime, aquele grito era como que a expansão máxima da sua necessidade de alegria, na execração das suas recordações. Mas Tiago, cujo espírito ela revolvera e que ardia como ela, reteve-a ainda.
— Não, não, espera... E tu, quando lhe estavas a carregar nas pernas, sentiste-lo morrer?»
(p.228).
HEMUS – Em Severina, depois da confissão ardente do seu crime, aquele grito era como que a expansão máxima da sua necessidade de alegria, na execração das suas recordações. Mas Tiago, cujo espírito ela revolvera e que ardia como ela, reteve-a ainda.
— Não, não, espera... E tu, quando lhe forçavas as pernas, sentiste-o morrer?» (pp. 197-8)
Nesta passagem verificamos não só um excesso de interpretação em que «récit» é traduzido por «crime», mas onde também se verifica, tal como constatámos anteriormente, uma tradução demasiado «presa» ao original. Examinemos, então, as outras soluções. Dado que T3 é uma cópia de T1, passemos a T4:
«Em Séverine, após o arrebatado afluxo desta longa confissão, este grito era como uma manifestação da sua necessidade de alegria, no meio da execração das suas recordações. Mas Jacques, que ela havia perturbado e que também ardia de desejo não a deixou terminar ali.
— Não, não, espera... E tu estavas deitada nas suas pernas e sentiste-o morrer?» (p.204).
Em T5 temos:
«Em Severina, depois da explosão ardente desta longa narrativa, aquele grito era como a própria expansão da sua necessidade de alegria, na execração das suas recordações. Mas Tiago, que ela tinha transtornado e que ardia como ela, reteve-a ainda.
— Não, não espera... Tu estavas então deitada sobre as pernas do velho e sentiste-o morrer?» (p. 192),
e em T6:
«Para Séverine, depois da progressão ardente desta longa narrativa, este desabafo traduzia a sua carência de alegria, na execração das negras recordações. Mas Jacques, ardente de desejo e perturbado pela confissão, insistiu mais uma vez:
— Não, não, espera... Estavas deitada sobre as suas pernas, sentiste-o morrer?» (p.244).

«Les dents serrées, n’ayant plus qu’un bégaiement, Jacques cette fois l’avait prise ; et Séverine aussi le prenait. Ils se possédèrent, retrouvant l’amour au fond de la mort, dans la même volupté douloureuse des bêtes qui s’éventrent pendant le rut. Leur souffle rauque, seul, s’étendit. Au plafond, le reflet saignant avait disparu ; et, le poêle éteint, la chambre commençait à se glacer, dans le grand froid du dehors. Pas une voix ne montait de Paris ouaté de neige. Un instant, des ronflements étaient venus de chez la marchande de journaux, à côté. Puis, tout s’était abîmé au gouffre noir de la maison endormie.» (p. 1205)
Em T1b, temos a seguinte tradução literal:
«Com os dentes cerrados, mal balbuciando, o Tiago desta vez apoderara-se dela; e a Severina também dele tomara posse. Possuiram-se encontrando o amor no fundo da morte, a mesma voluptuosidade dolorosa dos animais que se matam durante o cio. Só se lhes ouvia a respiração rouca. No tecto, o reflexo sangrento desaparecera; como o fogão se tivesse apagado, o quarto começava a gelar, no grande frio exterior. Nem uma voz subia de Paris acolchoada de neve. Por um instante, sentiram-se rouquidos vindos da casa da vendedora de jornais, ao lado. Depois tudo mergulhara no abismo negro da casa adormecida.» (p. 229).
HEMUS - Com os dentes cerrados, mal balbuciando, Tiago desta vez apoderara-se dela; e Severina também dele tomara posse. Possuíram-se encontrando o amor no fundo da morte, a mesma voluptuosidade dolorosa dos animais que se matam durante o cio. Só se lhes ouvia a respiração rouca. No tecto, o reflexo sangrento desaparecera; como o fogão se tivesse apagado, o quarto começava a gelar, no grande frio exterior. Nem uma voz subia de Paris acolchoada de neve. Por um instante, ouviram-se roncos vindos da casa da vendedora de jornais, ao lado. Depois tudo mergulhara no abismo negro da casa adormecida.» (p. 198)Como se poderá ver, só em T6 as passagens acima assinaladas adquirem um registo perfeitamente adequado à língua portuguesa: «De dentes cerrados, num leve sussurro, Jacques abraçara-a; e Sévérine também o enlaçava. Possuíram-se, reencontrando o amor no fundo da morte, na mesma volúpia dolorosa dos animais que se dilaceram durante o cio. Ouvia-se apenas uma respiração rouca. No tecto, desvanecera-se o reflexo sangrento; o lume extinguira-se e o quarto começava a gelar, penetrado pelo frio intenso do exterior. Não se ouvia uma voz, nas ruas de Paris, cobertas de neve. Na casa do lado, a vendedora de jornais ressonou por alguns momentos. Depois, mergulhou tudo no negro abismo do prédio adormecido.» (p.245).

«Ce ne fut que plus d’une heure après qu’on vint ramasser le cadavre de Flore.» (p.1274), traduzido por «Só passada mais de meia hora, é que vieram levantar o cadáver da Flora.» (p.301).
HEMUS - Só passada mais de meia hora é que vieram levantar o cadáver de Flora. (p. 261)Só a partir de T4 encontramos escolhas mais pertinentes: «Só mais de uma hora depois foram buscar o cadáver de Flore.» (T4, p.270); «Foi só passada mais de uma hora que vieram recolher o corpo de Flora.» (T5, p.252); «Só uma hora mais tarde vieram buscar o cadáver de Flore»
(T6, p.324).

«Au sortir du tunnel, il s’était efforcé de crier l’accident au gardien. Mais, à Barentin seulement, il avait pu raconter que quelqu’un venait de se faire couper là-bas : c’était certainement une femme ; des cheveux, mêlés à dés débris de crâne, restaient collés encore à la vitre brisée du
fanal. » (p.1274).
Encontramos em T1 : «Ao sair do túnel, esforçara-se por comunicar, gritando, o acidente ao guarda. Mas só em Barentin pudera contar que alguém acabava de se fazer matar, lá para baixo: era decerto uma mulher; cabelos pegados a restos de crânio, estavam colados ainda ao vidro quebrado do farol» (T1, p.301).
HEMUS - Ao sair do túnel, esforçara-se por comunicar, gritando, o acidente ao guarda. Mas só em Barentin pudera contar que alguém acabava de expor-se à morte lá para baixo, decerto uma mulher; cabelos pegados a restos de crânio, estavam colados ainda ao vidro quebrado do farol (p. 261)A tradução literal, sobretudo nas partes a que demos ênfase, só irá, mais uma vez, ser resolvida a partir de T4: «Ao sair do túnel, esforçara-se por gritar ao guarda o acidente. Mas só em Barentin conseguira contar que alguém tinha sido trucidado; era certamente uma mulher: cabelos misturados com pedaços de crânio estavam ainda colados ao vidro estilhaçado do farol. (T4, p. 270). Se bem que esta tradução esteja mais bem conseguida, ainda apresenta uma frase que nos parece pouco apropriada: «esforçara-se por gritar ao guarda o acidente», melhor conseguida em T5: «tentara gritar ao guarda o que acontecera» (p. 252), ou em T6: «esforçara-se por comunicar o acidente ao guarda.» (p. 324)

«Qu’importaient les inconnus de la foule tombés en route, écrasés sous les roues ! On avait emporté les morts, lavé le sang, et l’on repartait pour là-bas, à l’avenir.» (p. 1275), notamos que a tradução em T1 ora se prende ao original, ora se afasta deste, omitindo alguns vocábulos relevantes: «Que importavam os desconhecidos da multidão, caídos no caminho, esmagados debaixo das rodas? Tinham-se levado os mortos, havia-se lavado, e tornava-se a partir lá para baixo, para o futuro.» (p. 302)

HEMUS - «Que importavam os desconhecidos da multidão, caídos no caminho, esmagados debaixo das rodas? Tinham-se levado os mortos, havia-se socorrido os feridos, e tornava-se a partir lá para baixo, para o futuro.» (p. 261-2)


Só a partir de T4, tal como nos outros casos, encontramos traduções mais bem conseguidas: «Que importavam os desconhecidos da multidão caídos em viagem, esmagados sob as rodas? Os mortos haviam sido levados, o sangue lavado, e partia-se de novo para longe, para o futuro.» (p.271). T5 apresenta uma melhor solução: «Que importavam os desconhecidos sem rosto, caídos pelo caminho, trucidados pelas rodas! Tinham levado os mortos, lavado o sangue e agora partia-se de novo para a frente, para o futuro» (T5, p.253), se bem que T6 seja a que mais nos agrada: «Que lhes importavam os desconhecidos caídos, trucidados pelas rodas! Transportados os cadáveres, lavado o sangue, retomavam o andamento rumo ao futuro.» (p.324).

Et la machine, libre de toute direction, roulait, roulait toujours. Enfin, la rétive, la fantasque, pouvait céder à la fougue de sa jeunesse, ainsi qu’une cavale indomptée encore, échappée des mains du gardien, galopant par la campagne rase.» (p. 1330).
Quando nos debruçamos sobre as várias traduções, constatamos uma série de padrões consistentes já mencionados anteriormente. Assim, T1 oscila entre o lapso e a literalidade:
«E a máquina, livre de qualquer direcção, rodava, rodava sempre. Enfim, a teimosa, a fantástica, podia ceder ao impulso da mocidade, como uma égua indomada ainda escapa das mãos do guarda, galopando pela montanha rasa. » (p. 360).
HEMUS - «E a máquina, livre de qualquer direção, rodava, rodava sempre. Enfim, a teimosa, a fantástica, podia ceder ao impulso da mocidade, como uma égua indomada ainda escapa das mãos do guarda, galopando pela montanha rasa. » (p. 312)
Se bem que a primeira frase ainda consiga manter o ritmo do original, temos «rodava» onde as outras traduções apresentam um mais apropriado «rolava»; «guarda» onde outras apresentam «tratador», e o deselegante oxímoro «montanha rasa» como tradução de «planura». [...] em T4 surge-nos uma melhor alternativa: «E a máquina, livre de qualquer direcção, rolava, rolava sempre: Finalmente, a renitente, a caprichosa podia ceder ao entusiasmo da sua juventude, como uma égua ainda por domar, escapada das mãos do tratador, galopando pelo campo plano.» (p. 324).
T5 surge-nos como uma variante de T4, e só em T6 nos surge a versão que nos parece mais bem conseguida: «E a máquina, descomandada, rolava, rolava sempre. Finalmente, a caprichosa, a reticente podia ceder ao impulso da juventude, como uma égua selvagem, livre das mãos do tratador, galopando pela planura.» (p.338)

«Qu’importaient les victimes que la machine écrasait en chemin ! N’allait-elle pas quand même à l’avenir, insoucieuse du sang répandu ? Sans conducteur, au milieu des ténèbres, en bête aveugle et sourde qu’on aurait lâchée parmi la mort, elle roulait, elle roulait, chargée de cette chair à canon, de ces soldats, déjà hébétés de fatigue, et ivres, qui chantaient» (p. 1331).
T1 apresenta-nos :
«Que importavam as vítimas que a máquina esmagava no caminho! Não ia ela também para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem o condutor no meio das trevas, como fera cega e surda, que se soltasse entre a morte, rodava, rodava atulhada dessa carne para canhão, desses
soldados já estupidificados de fadiga e embriagados, que cantavam.» (p. 362).
HEMUS - «Que importavam as vítimas que a máquina esmagava no caminho! Não ia ela também para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem condutor no meio das trevas, fera cega e surda, indômita, rodava, rodava atulhada dessa carne para canhão, desses soldados já estupidificados de fadiga e embriagados, que cantavam.» (p. 313)Por seu lado, T4 mostra-se mais elaborada: «Que importavam as vítimas que a máquina esmagava no caminho! Não se dirigia para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem condutor, no meio das trevas, como besta cega e surda largada entre a morte, rolava, rolava, carregada de carne para canhão, esses soldados já insensibilizados pela fadiga e embriagados que cantavam.» (p.325).
T5 sugere algumas variantes lexicais e um maior rigor de pontuação, contudo T6 apresenta-se-nos, uma vez mais, como a tradução mais bem conseguida: «Que importavam as vítimas que a máquina esmagava pelo caminho? Não caminhava para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem condutor, entre as trevas, como uma besta cega e surda libertada entre a
morte, rolava, rolava, carregada de carne para canhão, de soldados meio atordoados pela fadiga, e ébrios, que não paravam de cantar.» (p.390).

imagens: jean gabin em la bête humaine; capa da hemus, em google images

5 de mai. de 2009

por falar em verdade e mentira

a editora rideel está há quase 40 anos no mundo editorial, segundo o que consta em seu site: carrega uma história de sucesso e evolução, possui mais dois selos editoriais e mantém uma louvável iniciativa de fomento à literatura entre as crianças. seu catálogo na fundação biblioteca nacional parece bastante sólido, com inúmeras obras de direito e de literatura infantil. o responsável pela editora, sr. italo amadio, ocupa uma das diretorias da câmara brasileira do livro, com seu programa de transparência e desenvolvimento do livro no país.

então fiquei assombrada ao tropeçar nisso aqui, em tradução (diz a editora) feita por "heloísa da graça burati".

Acerca da Verdade e da Mentira

Num certo canto remoto do universo cintilante, vertido em incontáveis sistemas solares, havia uma vez um astro onde animais inteligentes inventaram o conhecimento Foi o minuto mais soberbo e hipócrita da «história mundial», mas foi apenas um minuto. Depois de a natureza ter respirado umas poucas vezes, o astro enregelou e os animais inteligentes tiveram de morrer. Assim, alguém poderia inventar uma fábula como esta e, no entanto, não ficaria suficientemente esclarecido quão lastimável, quão obscuro e fugidio, quão desprovido de finalidade e arbitrário se apresenta o intelecto humano no interior da natureza. Eternidades houve em que ele não existia; quando ele tiver de novo desaparecido, nada se terá alterado. Pois para este intelecto não há outra missão que transcenda a vida humana. Antes, pelo contrário, ele é humano, e só o seu dono e progenitor o encara tão pateticamente como se ele fosse o eixo à volta do qual gira o mundo. Mas se nós conseguíssemos comunicar com um mosquito, saberíamos que também ele paira neste ambiente com a mesma presunção e se sente como centro voador deste mundo. Na natureza não há nada de tão censurável e limitado que não se inchasse qual tubo insuflável por meio de um pequeno sopro dessa força do conhecimento; e tal como todo e qualquer carregador ambiciona ter o seu admirador, assim o homem mais orgulhoso, o filósofo, julga ver de todos os lados os olhares do universo, quais telescópios dirigidos para o seu agir e pensar.
[...] Que é que o homem no fundo sabe acerca de si mesmo? Sim, se ele conseguisse, ao menos uma vez, percepcionar-se completamente como se estivesse metido num expositor de vidro iluminado! Não é que a natureza lhe oculta a maior parte das coisas, mesmo sobre o seu corpo, para banir e fixá-lo longe das dobras intestinais, longe do rápido fluir da corrente sanguínea e dos estremecimentos emaranhados das fibras, numa consciência orgulhosa e malabarista! A natureza deitou fora a chave e ai da fatídica curiosidade que conseguisse, através de uma fenda, olhar para fora e para baixo da câmara da consciência e [] pressentir que o homem assenta no impiedoso, no sôfrego, no insaciável, no homicida, na indiferença do seu não saber e como que suspenso em sonhos preso nas costas de um tigre. De onde, com os diabos, vem nesta constelação o impulso da verdade?
[...] Que é então a verdade? Um exército móvel de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso, parecem a um povo fixas, canônicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal.
[...] Quem for tocado por essa exalação fria mal acreditará que também o conceito, descarnado e octogonal como um dado e deslocável como este, apesar de tudo, é como o resíduo de uma metáfora e que a ilusão da transposição artística de uma estimulação nervosa em imagens é, se não a mãe, pelo menos a avó de todo o conceito. Neste jogo de dados dos conceitos, chama-se porém «verdade» o utilizar cada dado tal como é designado, o contar rigorosamente os seus pontos, formar rubricas corretas e nunca subverter a ordem das castas e a seqüência das classes hierárquicas. Assim como os romanos e os Etruscos dividiam o céu através de rígidas linhas matemáticas e num espaço de tal forma delimitado, como um templo, fixavam um deus, assim também cada povo tem sobre ele um céu de conceitos semelhantes, matematicamente dividido e, por exigência da verdade, compreende agora o fato de cada deus conceptual apenas dever ser procurado na sua esfera.
[...] O investigador de tais verdades não procura, no fundo, senão a metamorfose do mundo no homem, ele luta por um compreender do mundo como coisa antropomórfica e consegue, no melhor dos casos, o sentimento de uma assimilação. De modo semelhante ao astrólogo, que observa as estrelas ao serviço do homem e em conexão com a sua felicidade e sofrimento, um tal investigador considera o mundo inteiro como vinculado ao homem, como a ressonância infinitamente modulada de um som originário, o do homem, como a cópia múltiplas vezes reproduzida de uma imagem originária, a do homem. O seu procedimento é tomar o homem como medida de todas as coisas: desse modo, no entanto, ele parte do erro de acreditar que tem essas coisas imediatamente perante si, como puros objetos. Esquece [] as metáforas intuitivas originais enquanto metáforas e toma-as pelas próprias coisas.

pois, até onde consigo ver e entender, trata-se de uma cópia fiel, apenas abrasileirada, da edição da relógio d'água, na tradução do seminário de estudos coordenado por helga hoock quadrado, docente da universidade de lisboa e integrante do goethe-institut de portugal:

Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral

Num certo canto remoto do universo cintilante vertido em incontáveis sistemas solares havia uma vez um astro onde animais inteligentes inventaram o conhecimento Foi o minuto mais soberbo e hipócrita da «história mundial», mas foi apenas um minuto. Depois de a natureza ter respirado umas poucas vezes, o astro enregelou e os animais inteligentes tiveram de morrer. Assim, alguém poderia inventar uma fábula como esta e, no entanto, não ficaria suficientemente esclarecido quão lastimável, quão obscuro e fugidio, quão desprovido de finalidade e arbitrário se apresenta o intelecto humano no interior da natureza. Eternidades houve em que ele não existia; quando ele tiver de novo desaparecido, nada se terá alterado. Pois para este intelecto não há outra missão que transcenda a vida humana. Antes pelo contrário ele é humano, e só o seu dono e progenitor o encara tão pateticamente como se ele fosse o eixo à volta do qual gira o mundo. Mas se nós conseguíssemos comunicar com um mosquito, saberíamos que também ele paira neste ambiente com a mesma presunção e se sente como centro voador deste mundo. Na natureza não há nada de tão censurável e limitado que não se inchasse qual tubo insuflável por meio de um pequeno sopro dessa força do conhecimento; e tal como todo e qualquer carregador ambiciona ter o seu admirador, assim o homem mais orgulhoso, o filósofo, julga ver de todos os lados os olhares do universo, quais telescópios dirigidos para o seu agir e pensar.
[...] Que é que o homem no fundo sabe acerca de si mesmo? Sim, se ele conseguisse ao menos uma vez percepcionar-se completamente como se estivesse metido num expositor de vidro iluminado! Não é que a natureza lhe oculta a maior parte das coisas, mesmo sobre o seu corpo, para banir e fixá-lo longe das dobras intestinais, longe do rápido fluir da corrente sanguínea e dos estremecimentos emaranhados das fibras, numa consciência orgulhosa e malabarista! A natureza deitou fora a chave e ai da fatídica curiosidade que conseguisse, através de uma fenda, olhar para fora e para baixo da câmara da consciência e que agora pressentia que o homem assenta no impiedoso, no sôfrego, no insaciável, no homicida, na indiferença do seu não saber e como que suspenso em sonhos preso nas costas de um tigre. De onde, com os diabos, vem nesta constelação o impulso da verdade?
[...] Que é então a verdade? Um exército móvel de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canónicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal.
[...] Quem for tocado por essa exalação fria mal acreditará que também o conceito, descarnado e octogonal como um dado e deslocável como este, apesar de tudo, é como o resíduo de uma metáfora e que a ilusão da transposição artística de uma estimulação nervosa em imagens é, se não a mãe, pelo menos a avó de todo o conceito. Neste jogo de dados dos conceitos, - chama-se porém «verdade» o utilizar cada dado tal como é designado, o contar rigorosamente os seus pontos, formar rubricas correctas e nunca subverter a ordem das castas e a sequência das classes hierárquicas. Assim como os Romanos e os Etruscos dividiam o céu através de rígidas linhas matemáticas e num espaço de tal forma delimitado, como um templo, fixavam um deus, assim também cada povo tem sobre ele um céu de conceitos semelhantes e matematicamente dividido e, por exigência da verdade, compreende agora o facto de cada deus conceptual apenas dever ser procurado na sua esfera.
[...] O investigador de tais verdades não procura no fundo senão a metamorfose do mundo no homem, ele luta por um compreender do mundo como coisa antropomórfica e consegue, no melhor dos casos, o sentimento de uma assimilação. De modo semelhante ao astrólogo que observa as estrelas ao serviço do homem e em conexão com a sua felicidade e sofrimento, um tal investigador considera o mundo inteiro como vinculado ao homem, como a ressonância infinitamente modulada de um som originário, o do homem, como a cópia múltiplas vezes reproduzida de uma imagem originária, a do homem. O seu procedimento é tomar o homem como medida de todas as coisas: desse modo, no entanto, ele parte do erro de acreditar que tem essas coisas imediatamente perante si, como puros objectos. Esquece pois as metáforas intuitivas originais enquanto metáforas e toma-as pelas próprias coisas.

bom, em minha humilde opinião, aparentemente temos aí algo acerca da verdade e da mentira, mas não num sentido extramoral; muito ao contrário, pelos códigos que aprendi em casa quando criança, parece-me algo que pertence à esfera moral.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagens: www.fnac.com.br; www.relogiodagua.pt

4 de mai. de 2009

o discurso do método para download

a partir de hoje temos disponível para download gratuito na internet o discurso do método de descartes na tradução de jacó guinsburg e bento prado jr., com notas de gérard lebrun, em arquivo digitalizado por eduardo baioni e reprodução gentilmente autorizada pelos detentores dos direitos de tradução.

para acompanhar o histórico deste caso, vejam-se aufklärung digital II e a aufklärung digital , com as autorizações e com os links que remetem a todo o histórico do caso: contexto e descrição da fraude, cotejos entre a tradução legítima e a pseudotradução de "enrico corvisieri", informe sobre retirada de catálogo da edição espúria da editora nova cultural, posição do portal do mec etc.

agora começa o trabalho de distribuição da obra para ser colocada nos sites de ebooks e bibliotecas virtuais. por ora está disponível no scribd (pdf) e no 4shared (rtf). será preciosa a colaboração de todos que puderem divulgar.

imagem: matisse, guache recortado, google images

3 de mai. de 2009

grandioso!


que notícia maravilhosa vi hoje na fsp! a editora da ufpr lançou o aventuroso simplicissimus, de grimmelshausen, em tradução de mario luiz frungillo. que coisa fenomenal! simplizissimus (1668) é daquelas coisas que dava até vergonha e a gente se sentia pequenininho e irremediavelmente ignorante por não dispor dele em português. é o grande romance do século 17 alemão, um clássico do picaresco, até inaugurando ou prenunciando a linhagem do sete-oitocentista bildungsroman. não à toa será o nome adotado para a revista satírica de munique, que tanta gente boa reuniu.

parabéns a mario luiz frungillo, que empreitada! e também à editora da ufpr, pela publicação! amanhã vou encomendar correndo meu exemplar.

imagem: www.bamby.de/1975/

2 de mai. de 2009

a ciranda dos autores

se você passear com o mouse sobre as imagens, em baixo aparece o nome das pessoas. são alguns dos autores que estão na dança do lesa-leitor em traduções que, segundo os dicionários, poderíamos qualificar de espúrias.






fonte das imagens: google images

1 de mai. de 2009

o príncipe, mais um

recebo a informação de que o príncipe cá aportado a bordo da ed. suprema cultura foi traduzido por márcio pugliesi. com isso a listinha dos diversos tradutores de o príncipe vai para 34 nomes, e os incógnitos diminuem para 5.

imagem: www.emblibrary.com