a novidade agora é o circo do dr. lao, na tradução de donaldson garschagen que tinha saído pela francisco alves em 1979 e que a leya relançou no segundo semestre de 2011:
francisco alves, 1979 leya, 2011
não li, não vi, não conheço, mas sou fã do alfredo monte, que considero o melhor crítico literário brasileiro em atividade, o mais lido, o mais arguto, o mais antenado, o menos ingênuo, menos deslumbrado e menos embeiçado por falatórios teóricos tão vicejantes na contemporaneidade, um autêntico, leal, fiel, verdadeiro amante e conhecedor de literatura, alta, média e popular, capaz de juízos maravilhosamente independentes e bem fundamentados. se ele diz, tem meu maior crédito de confiança. e, neste caso, eis o que ele diz:
O romance que o originou, O circo do doutor Lao (The Circus of Dr. Lao, 1935; a tradução que utilizo, de Donaldson M. Garschagen, havia sido publicada em 1979 pela Francisco Alves com o título semelhante ao filme, e agora reaparece, bastante revisada, pela Leya, com o título original e adequado [3]), escrito por Charles G. Finney, é de uma atordoante originalidade.aqui o artigo de alfredo monte na íntegra. bom, a notinha [3] é que interessa. tem lá:
[3] Sou muito devedor à coleção a que pertencia essa tradução da Francisco Alves, “Mundo Fantástico”, que me deu acesso a vários títulos imperdíveis. E pelo meu ponto de vista a maioria das modificações na versão atual da tradução de Garschagen foi para pior.naturalmente ganham a parada os bandoleiros em substituição às bandeirolas e as orelhas afiadas em substituição às orelhas afiladas, e sempre vai ter alguém desconversando e dizendo que foi uma mera, pequena, insignificante distração. mas além dos absurdos, distraídos ou não, existem coisas ridículas, e o que não é ridículo é simplesmente pífio. o revisor que fez o serviço deve ter alguma ótima explicação que nos esclareça por que, afinal, "temperatura abrasante" há de ser melhor do que "calor abrasante", e por que um urso que "parece um homem" há de ser melhor do que um urso que "parece gente". que a leya sapateie em cima da tradução de garschagen me parece um típico exemplo do descerebramento que anda acometendo muitas editoras por aí.
Alguns exemplos (os da edição de 1979 estão à esquerda; os da atual estão à direita da barra de separação):
“em tom bombástico” / “com floreio”
“aeroplano”/ “avião”
“nenhum homem mediano”/ “nenhum homem comum”
“para propiciar essa deidade, ainda mais antiga que Bel-Marduk”/ “para satisfazer essa deidade, ainda mais antiga que Bel-Marduk”
“o circo estaria franqueado ao público”/ “o circo estaria aberto ao público”
“a função noturna”/ “a apresentação noturna”
“quem foi o corretor” [do anúncio no jornal]/ “quem foi que vendeu o espaço para o anúncio”
“Disse que poderíamos escolher o tipo que quiséssemos”/ “Disse que poderíamos escolher a tipologia que quiséssemos”
“apanhei o dinheiro e a matéria”/ “apanhei o dinheiro e o anúncio”
“As definições deixaram-na mais esclarecida, porém mais triste”/ “As definições foram esclarecedoras, porém deixaram-na triste”
“uma visão fugaz através de um orifício”/ “uma visão fugaz através de um olho mágico”
“essa dureza”/ “essa penúria”
“sua carnadura”/ “sua carne”
“uma rainha da tela”/ “uma rainha do cinema”
“o emprego parcimonioso do grifo”/ “o emprego parcimonioso do itálico”
“atirada fora”/ “atirada ao chão”
“olhadela na parada”/ “olhadela no desfile”
“então deve ser um aleijão”/ “então deve ser um aleijão ou algo desse tipo”
“estou dizendo que tenho olhos”/ “estou dizendo que tenho bons olhos”
“saiu do restaurante para a rua”/ “saiu do restaurante em direção à rua principal”
“o que há com seus olhos?”/ “o que há de errado com seus olhos?”
“as pessoas estão começando a olhar para você, rindo”/ "as pessoas estão começando a olhar para você, com todo esse riso”
“subiram para o velho automóvel”/ “entraram no velho automóvel”
“nada, deixa”/ “nada, vamos”
“Pensa que não conheço um russo, merda?”/ “Pensa que eu não conheço um russo quando vejo um?”
“você me põe maluca”/ “você me deixa maluca”
“Você sabe que não é um jumento. Você sabe que os jumentos são peludos”/ “Você sabe que não é um jumento por que [sic] os jumentos são peludos.”
“Mas, que diabo, era um urso!”/ “Por Deus, era um urso!”
“Há, há! Índio nada, seu! Era um ursão.”/ “Há, há! Índio nada, era um ursão.”
“Como será que ele arranjou aquele chifre, vocês imaginam? Nunca ouvi falar em cavalo com chifre.”/ “”Como será que ele arranjou aquele chifre: Nunca vi um cavalo assim.”
“Bem, então era um urso muito parecido com gente”/ “Bem, então era um urso muito parecido com um homem”
“um cavalo com um chifre na testa, mas ele tinha um rabo gozado, disse Edna”/ “um cavalo com chifre na testa e um rabo gozado—respondeu Edna”
“O dia estava quente. Etaoin pensou como era bom que estivesse quente” / “O dia estava quente e o Sr. Etaoin caminhou pelas ruas de Abalone. Pensou como era bom que estivesse quente.”
“atravessou para a sombra”/ “atravessou rumo à sombra”
“por causa do calor abrasante”/ “por causa da temperatura abrasante”
“bandeirolas”/ “bandoleiros”[ sic]
“suas orelhas eram afiladas”/ “suas orelhas eram afiadas”[ sic]
“apenas sabia que estava suando”/ “apenas sabia que estava transpirando”
“cilindros de rezar”/ “cilindros de oração”
“duros sapatos de pau”/ “duros sapatos de madeira”
“os homens sonham com o amor, a senhora sabe”/ “os homens sonhavam com o amor, a senhora sabe”
Os “disse” dos diálogos viraram “replicou”, “respondeu”, “falou”.
escrevi ao donaldson comentando essas ridicularias. começava que ele nem sabia que a leya tinha publicado sua tradução. aí, se foi a francisco alves que cedeu, qual era o contrato do tradutor com a editora, são outros quinhentos, e é um assunto entre as partes - mas, para a obra e o leitor, uma coisa dessas dá dó, ah, se dá.
O link no banner ao lado, na sidebar está errado. Direciona para http://naogostoplagio.blogspot.com/ faltando o "de".
ResponderExcluirolá, luma, muito obrigada! já corrigi :-))
ResponderExcluirFaço os seguintes questionamentos:
ResponderExcluir1)Isso é ético? A meu ver, não, já que se está atribuindo ao tradutor algo que ele sequer viu.
2)Isso é legal? Aí eu não tenho conhecimento para dizer, mas não vejo como possa ser.
Aprovar o texto final deveria ser prerrogativa do tradutor em 100% dos casos e ponto final.
Denise, da minha parte só resta agradecer pelos comentários generosos, os quais temo que induziram seus leitores a me achar mais informado e lido do que sou (de qualquer forma, há aqueles leitores em que a gente sempre pensa quando está escrevendo, e você é um deles); creio que o importante mesmo é você chamar a atenção para o descaso com um trabalho criativo, no caso o de Garschagen, que algum editor ou revisor acha tão desimportante que pode ir mexendo sem a menor consideração (e sem o menor talento, também).
ResponderExcluirObrigado.