22 de dez. de 2025

???


deixo aqui registrada a minha perplexidade: de uns meses para cá, têm surgido várias referências bibliográficas em textos acadêmicos que trazem meu nome como tradutora de tal ou tal ou tal obra. não sei de onde esse povo tira essas referências. dou aqui três exemplos recentes, citados em três artigos publicados em 2025:

MURDOCH, Iris. A soberania do bem. Tradução de Denise Bottmann. Campinas: Editora da Unicamp, 1997.

GILROY, Paul. O Atlântico negro: modernidade e dupla consciência. Tradução: Denise Bottmann. São Paulo: Editora 34, 2001.

MORETTI, Franco. Atlas do romance europeu: 1800-1900. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003.

nem nunca ouvi falar nessas obras - quando fui informada, consultei o google: as traduções das obras acima são, respectivamente, de julian fuks, cid knipel moreira e sandra g. vasconcelos.


outras loucuradas: 

ELKIN, Lauren. Flâneuse: mulheres que caminham pela cidade em Paris, Nova York, Tóquio, Veneza e Londres. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Rocco, 2016 - sim, tradução minha, mas pela editora fósforo, publicada em 2022! [ocorrência registrada em texto acadêmico de 2025]

LATOUR, Bruno. 2012 [2005]. Reagregando o Social. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Editora 34 - tradução não minha e sim de gilson césar cardoso de sousa. [ocorrência registrada em dois textos acadêmicos, um de 2024, outro de 2025]

NUSSBAUM, Martha C. Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015 - tradução não minha e sim de fernando santos. [ocorrência registrada em texto acadêmico de 2025]


atualização em 28/12/2025
- mais um descalabro: PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Contexto, 2007.

não! quem traduziu essa obra foi ângela m. s. corrêa. [ocorrência registrada em texto acadêmico de 2025]




28 de mai. de 2025

a coleção cultura musical

Em 7 de abril de 1934, Galeão Coutinho escreve uma carta a Mário de Andrade, convidando-o para coordenar a Coleção Cultura Musical, de sua recém-criada editora, que então se chamava Livraria Cultura Brasileira e depois adotou o nome de Edições Cultura Brasileira. Mário aceitou o convite.

Em veloz sucessão, começaram a sair os volumes da nova coleção - as primeiras notícias na imprensa sobre as publicações começam em agosto de 1934, já comentando o segundo título lançado, Vida de Liszt.

Segue-se abaixo a relação dos volumes da coleção coordenada e dirigida por Mário de Andrade, estendendo-se de 1934 a 1938 e incluindo um volume "extra-série", O romance de Schubert.


COLEÇÃO CULTURA MUSICAL

Direção e coordenação de Mário de Andrade

 

1. Vida de Beethoven, Romain Rolland – trad. José Lannes, 1934

2. Vida de Liszt, Guy de Pourtalès – trad. Leonor Aguiar e C. Fonseca, 1934

3. Vida de Grieg, Paul de Stoecklin – trad. Nair Duarte Nunes, 1934

4. Vida de Chopin, Guy de Pourtalès – trad. Aristides Ávila, 1934

5. Vida de Wagner, René Dumesnil – trad. Maria Ricardina Mendes de Almeida [mais conhecida como Diná Lopes Coelho], 1934

6. Vida de Massenet, René Brancour – trad. Maxime Seguin, 1934

7. Schumann: sua vida e sua obra, Camille Mauclair – trad. José Lannes, 1934

8. Panorama da Música Contemporânea, André Coeuroy – trad. Maria de Lourdes Cabral, 1935

9. Vida de Brahms, Willibald Nagel – trad. Joaquim Clemente de Almeida Moura, [1935] 

10. Memórias de Gounod, Charles Gounod – trad. Nair Duarte Nunes, [1935]

11. Vida de Paganini, J. G. Prod’homme – trad. Pedro Antonio de Oliveira Ribeiro Netto, [1935]

12. Vida Amorosa de Bellini, Antonio Aniante – trad. Carlos de Aragão, 1935

13. Vida de Rimsky-Korsakov, [Igor] Markévitch – trad. Pedro Antonio de Oliveira Ribeiro Netto, 1935 

14. Vida de Verdi, Marcilio Sabba – trad. Antônio Teles Vasconcelos, 1936

15. Vida de Paderewski, Henryk Opiensk – trad. Augusto de Souza, 1936

16. Vida de Mozart, Henri de Curzon – trad. Edith Magarino Torres, [1937]  

17. Vida de Haendel, Romain Rolland – trad. Haroldo Paranhos, 1938

18. Vida de Bach [subtítulo: Memórias íntimas de Ana Madalena Bach], Anna Magdalena Bach – trad. Augusto de Souza, 1938

 

Extra-série: O romance de Schubert, Rudolf Hans Bartsch – trad. Pedro e Clemente de Almeida Moura, 1934 


 
 
 



vide também "coleção, collecção", aqui.

15 de mai. de 2025

coleção, collecção

daqueles minidetalhes interessantes que a gente encontra nas pesquisas.
poupo vocês da enorme novela da reforma ortográfica que se prolongou por décadas, entre reuniões, acordos formais, aprovações oficiais, decretos não aprovados e aprovados, até desembocar na reforma oficial de 1943. se alguém se interessar por um resumo da coisa, tem aqui.

mas o detalhe que achei simpático - e que me parece indicar a tenaz minuciosidade modernista de mário de andrade - é o seguinte: todos os volumes das coleções publicadas pela edições cultura brasileira usam a grafia "COLLECÇÃO" - exceto a coleção a cargo de mário, que em todos seus 18 volumes traz sempre "COLEÇÃO cultura musical" (1934-1938), e uns 2 volumes meio que perdidos na "collecção grandes homens". 


  

sobre herbert caro

 um artigo interessante, "Herbert Caro ou o tradutor como lenda", de Michael Korfmann, disponível aqui. 


16 de abr. de 2025

falsi d'autore

 eu soube recentemente, graças à gentileza do prezado diogo rodrigues, que fui citada no livro de daniele petruccioli (2014) em referência à caça a plágios de tradução que, tempos atrás, empreendi durante alguns anos. fiquei muito contente, porque é realmente uma imensa sacanagem, principalmente para com o público leitor e o patrimônio histórico-cultural do país.




22 de mar. de 2025

traduções de federico carotti

OBRAS DE TRADUÇÃO DE

FEDERICO CAROTTI

  

  • Alcott, Louisa May. Mulherzinhas. Porto Alegre: L&PM, 2017 (com Denise Bottmann)
  • Altan. Colombo. Porto Alegre: L&PM, 1989
  • Argan, Giulio Carlo. Arte moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992 (com Denise Bottmann)
  • Auerbach, Erich. Dante como poeta do mundo terreno. São Paulo: 34, 2022 (tradução das expressões e poemas em italiano)
  • Auerbach, Erich. Língua literária e público na Antiguidade tardia latina e na Idade Média. São Paulo: 34, a sair (tradução de trechos, citações e poemas em italiano)
  • Barbagli, Marzio. O suicídio no Ocidente e no Oriente. Petrópolis: Vozes, 2019
  • Barbero, Alessandro. Dante – a biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2021
  • Bruschini, Vito. O chefão dos chefões. São Paulo: Companhia das Letras, 2012
  • Cacciari, Massimo. Duplo retrato: São Francisco em Dante e Giotto. Veneza: Âyiné, 2016
  • Calasso, Roberto. O ardor. São Paulo: Companhia das Letras, 2016
  • Calasso, Roberto. O caçador celeste. São Paulo: Companhia das Letras, a sair
  • Calasso, Roberto. O inominável atual. São Paulo: Companhia das Letras, 2020
  • Calvino, Italo. Cartas a Chichita (1962-1963). São Paulo: Companhia das Letras, a sair
  • Calvino, Italo. Nasci na América. São Paulo: Companhia das Letras, 2024
  • Calvino, Italo. Um otimista na América. São Paulo: Companhia das Letras, 2023
  • Cambiano, Giuseppe. Como navio na tempestade. São Paulo: Loyola, a sair
  • Canfora, Luciano. A biblioteca desaparecida. São Paulo: Companhia das Letras, 1989
  • Canfora, Luciano. A escravidão do capital. São Paulo: Estação Liberdade, a sair
  • Canfora, Luciano. O mundo dos gregos. São Paulo: Companhia das Letras, 2015
  • Cantini, Barbara. Entrevista ao Blog das Letrinhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2021
  • Civita, Cesare. Minha vida. São Paulo: Companhia das Letras, a sair
  • Colli, Giorgio. O nascimento da filosofia. Campinas: Editora da Unicamp, 1988
  • Crepax, Guido. A curva de Lesmo. Porto Alegre: L&PM Editores, 2014
  • Crepax, Guido. O bebê de Valentina. Porto Alegre: L&PM Editores, 1988
  • Crepax, Guido. Valentina de botas. Porto Alegre: L&PM Editores, 1988
  • Crepax, Guido. Valentina intrépida. Porto Alegre: L&PM Editores, 2014
  • Crepax, Guido. Valentina intrépida de papel. Porto Alegre: L&PM Editores, 2014
  • Crepax, Guido. Os subterrâneos. Porto Alegre: L&PM, 2018 (et al.)
  • De Masi, Domenico. Alfabeto da sociedade desorientada. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017
  • Enia, Davide. Assim na Terra. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2013
  • Flores d’Arcais, Paolo. “Fascismo e Berlusconismo”, Novos Estudos Cebrap, 9. São Paulo: Cebrap, 2011
  • Frugoni, Chiara. Francisco: A vida de um homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011
  • Gargano, Guido Innocenzo. O mistério da amêndoa. São Paulo: Loyola, a sair
  • Ginzburg, Carlo. A letra mata. São Paulo: Companhia das Letras, a sair
  • Ginzburg, Carlo. “David, Marat” e “Peur, vénération, terreur”, in Medo, reverência, terror. São Paulo: Companhia das Letras, 2014
  • Ginzburg, Carlo. Mitos, emblemas, sinais. São Paulo: Companhia das Letras, 1989
  • Gramsci, Antonio. Cadernos do cárcere. São Paulo: Companhia das Letras, a sair
  • Izzo, Alberto. História do pensamento sociológico. Petrópolis: Vozes, 2021
  • Lampedusa, G.T. di. O leopardo (tradução do prefácio, notas e aparato crítico). São Paulo: Companhia das Letras, 2017
  • Legrenzi, Paolo, e Umiltà, Carlo. Por que precisamos da alma. São Paulo: Loyola, a sair
  • Leopardi, Giacomo. Memórias do primeiro amor. São Paulo: Nós, a sair
  • Levi, Primo, e Benedetti, Leonardo de. Assim foi Auschwitz – Testemunhos 1945-1986. São Paulo: Companhia das Letras, 2015
  • Malaparte, Curzio. Kaputt. São Paulo: Companhia das Letras, 2021
  • Maldonato, Mauro. Na base do farol não há luz. São Paulo: Edições SESC, 2016
  • Maquiavel, Nicolau. O príncipe. Belo Horizonte: Autêntica, a sair
  • Maurensig, Paolo. A variante de Lüneburg. São Paulo: Companhia das Letras, 1994
  • Mazzantini, Margaret. A rosa de Saravejo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011
  • Mercuri, Chiara. Francisco de Assis. A história negada. São Paulo: Loyola, 2024
  • Montanari, Massimo. Histórias da mesa. São Paulo: Estação Liberdade, 2015
  • Moretti, Franco. O romance, vol. II. São Paulo: Cosac Naify
  • Moretti, Franco. O romance, vol. III. São Paulo: Cosac Naify
  • Moretti, Nanni. “Aula de cinema” in VV.AA., Lições de cinema. São Paulo: Martins Editora, 2010
  • Mulas, Ugo, “Apresentação” in Zum 6. São Paulo: IMS, 2014
  • Murgia, Michela. Acabadora. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2012
  • Paik, Nam June. Catálogo de exposição. São Paulo: Base7, 2017
  • Papa Francisco. Esperança – a autobiografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2025 (et al.)
  • Parisi, Giusi. Eu, valentão. São Paulo: FTD, 2022
  • Pirandello, Luigi. Seis personagens em busca de um autor. Porto Alegre: L&PM, 2020
  • Prosperi, Adriano. Dar a alma. São Paulo: Companhia das Letras, 2010
  • Ravasi, Gianfranco. A página sagrada. São Paulo: Loyola, 2020
  • Ravasi, Gianfranco. Darwin e o papa. São Paulo: Loyola, 2021
  • Ravera, Lidia.  Regue as flores e me espere. São Paulo: Editora Brasiliense, 1989
  • Rossi, Paolo. Os filósofos e as máquinas. São Paulo: Companhia das Letras, 1989
  • Rossi, Pio. Dicionário da mentira. São Paulo: Nós, a sair
  • Saramago, José. “Depoimentos” (entrevistas em italiano), in Palavras de Saramago. São Paulo: Companhia das Letras, 2010
  • Sassi, Maria Michela. Investigação sobre Sócrates. São Paulo: Loyola, 2023
  • Saviano, Roberto. Entrevistas [vídeo]. São Paulo: Companhia das Letras, FLIP, 2019
  • Saviano, Roberto. Zero zero zero. São Paulo: Companhia das Letras, 2014 (et al.)
  • Saviano, Roberto. “Introdução: Saramago”. São Paulo: Companhia das Letras, 2014
  • Schelling, Vivian. A presença do povo na cultura brasileira. Campinas: Ed. Unicamp, 1990
  • Sciascia, Leonardo. O caso Aldo Moro. São Paulo: Mundaréu, a sair
  • Scurati, Antonio. A melhor época da nossa vida. São Paulo: Mundaréu, 2024
  • Siti, Walter. “O romance no tribunal”, in Moretti, Franco, O romance, vol. I. São Paulo: Cosac Naify, 2010
  • Svevo, Italo. A consciência de Zeno. Porto Alegre: L&PM, 2019
  • Tabucchi, Antonio. A cabeça perdida de Damasceno Monteiro. São Paulo: Estação Liberdade, a sair
  • Tabucchi, Antonio. A mulher de Porto Pim. São Paulo: Estação Liberdade, a sair
  • Tabucchi, Antonio. Noturno indiano. São Paulo: Estação Liberdade, a sair
  • Tabucchi, Antonio. Os três últimos dias de Fernando Pessoa. São Paulo: Estação Liberdade, a sair
  • Tabucchi, Antonio. Os voláteis do Beato Angélico. São Paulo: Estação Liberdade, a sair
  • Tabucchi, Antonio. Para Isabel: uma mandala. São Paulo: Estação Liberdade, 2024
  • Tabucchi, Antonio. Pequenos equívocos sem importância. São Paulo: Estação Liberdade, a sair
  • Tabucchi, Antonio. Tristão morre. São Paulo: Estação Liberdade, a sair
  • Tonelli, Guido. Gênesis. A história do universo em sete dias. Rio de Janeiro: Zahar, 2021
  • Tonelli, Guido. Tempo. O sonho de matar Chrónos. Rio de Janeiro: Zahar, 2023
  • Vattimo, Giovanni, e Paterlini, Piergiorgio. Não ser Deus. Petrópolis: Vozes, 2018
  • Vegetti, Mario, e Ademollo, Francesco. Encontro com Aristóteles. São Paulo: Loyola, 2024
  • Verri, Pietro, Observações sobre a tortura. São Paulo: Martins Fontes, 1992
  • VV.AA., Hélio Oiticica: Exercícios experimentais de liberdade. Catálogo de exposição. São Paulo: Base 7, 2016
  • VV.AA., Jogos da Antiguidade: Grécia e Roma. Catálogo de exposição. São Paulo: Base 7, 2016
  • VV.AA. Nam June Paik. Catálogo de exposição. São Paulo: Base 7, 2017
  • VV.AA. O Barroco em prata napolitano. Catálogo de exposição. São Paulo: Base 7, 2014
  • VV.AA. Roma, a vida e os imperadores. Catálogo de exposição. São Paulo: MASP, 2012
  • Zanotti, Giovanni. “Paulo Arantes, a dialética e o problema da ‘ideologia francesa’”, posfácio a Paulo Arantes, Formação e desconstrução: uma visita ao Museu da Ideologia Francesa. São Paulo: Editora 34, 2021
disponível aqui.

 


11 de dez. de 2024

visibilia

só hoje vi uma postagem de 2018 do caetano galindo no blog da companhia das letras. lindinha a postagem sobre a importância da tradução - e agradeço a  generosa menção. a postagem se chama em tradução (visibilia) e está disponível aqui.


7 de dez. de 2024

gostos, nichos, artesanias

 no começo desse ano, respondendo a algumas perguntas da jornalista natália albertoni, comentei:


Uma coisa muito importante e fascinante no ofício de tradução é o gosto, o prazer em

fazer aquilo. Transcende o aspecto meramente pragmático do trabalho; abre portas a

uma dedicação de outra natureza: é o que às vezes chamo de “tradução afetiva”. Faz-se

por amor à palavra e também, digamos, por humildade perante uma obra que nos

envolve e nos sobrepuja: o diletantismo na verdadeira acepção do termo. Felizmente,

são muitos os profissionais na área de tradução lítero-humanística (que é a que conheço

melhor) que preservam um bom grau de diletantismo nesse sentido estrito. E felizmente

há editoras que abrigam de bom grado esse diletantismo profissional ou esse

profissionalismo diletante. De entremeio a uma contemporaneidade permeada por

ferramentas de automatização do ofício, existem, pois, os profissionais-diletantes que

prezam mais a artesania das palavras do que a tecnologia de automatização; isto é, são

menos operadores de máquinas e mais “tradutores” na acepção digamos humanista,

atualmente até já obsoleta, do termo. E de entremeio à crescente enxurrada de textos

produzidos por várias modalidades de IA há nichos de artesãos de alta qualidade,

aqueles seres que – curiosamente – têm conseguido escapar à extinção e até, um pouco

aqui, um pouco ali, vêm esparsamente se somando e acrescentando novos nichos.

Sobreviverão? Sem dúvida. A onda avassaladora da automatização da tradução cessará?

Não, de forma alguma; aumentará. Isso é bom, isso é ruim? Não sei e não compete a

mim julgar. O bom, com certeza, é que existam nichos onde se pode tentar,

experimentar, renovar, se comprazer naquela antiquíssima atividade que confere sentido

concreto ao termo “humanidade”: o ofício da tradução.


um trecho desse comentário foi publicado na revista pernambuco, disponível aqui.


3 de dez. de 2024

uau!

 uma emocionante e incrível iniciativa da dirce waltrick do amarante, marlova assef e myllena lacerda: a revista qorpus, da pglit/ufsc, lançou um número especial dedicado a mim (a mim!!) septuagenando.

disponível aqui. 



3 de nov. de 2024

werther em português

 Traduções de Werther em português

 Portugal

João Antonio da Fonseca, Cartas selectas de Werther, traduzidas do francez (1796), Manuscritos da Livraria, Real Mesa Censória, Arquivo Nacional Torre do Tombo. Manteve-se inédita até a publicação sob curadoria e introdução de Maria Antônia Gaspar Teixeira. Porto: Afrontamento, ILCML: 2018

 Anônimo, Werther. História alemã escrita pelo doutor Goethe e traduzida em portuguez. Lisboa: Rollandiana, 1821 [São Paulo: Hedra, 2006 (introdução de Oliver Tolle), com o título O sofrimento do jovem Werther].

E. A. Vidal: Werther (excertos). Lisboa: semanário Archivo Pittoresco, 1868.

 A. R. Gonçalves Viana, Mágoas de Werther. Paris, Guillard, Aillaud & Cia, 1885.

João Theodoro Monteiro, Werther. Lisboa: Guimarães, s/d [séc. XIX, 2a. ed. 1906].

Maria Henriques Osswald, Werther: sua paixão e sofrimento. Porto: Civilização, 1938.

 João Barreira, Werther. Lisboa: Excelsior, 1940.

Teresa Seruya, A paixão do jovem Werther. Ed. João Azevedo, 1989.[1]

 Gab. de Traduções P.A.R., Werther. Alfragide: Ediclube. 2002. 


Brasil

·         Anônimo. As amorosas paixões do joven [sic] Werther. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1842.[1]

·         Elias Davidovich: Werther. Seguido do estudo de Sainte Beuve [sic]. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932.[2]

·         Galeão Coutinho, Werther. São Paulo: Livraria Martins, c.1941.

·         Anônimo, Manon Lescaut / Os sofrimentos de Werther. Rio de Janeiro: W.M. Jackson, 1955.[3]

·         Anônimo, Werther. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1957.[4]

·         Ary de Mesquita, Os sofrimentos de Werther. Rio de Janeiro: Tecnoprint (Edições de Ouro), 1965.

·         Erlon José Paschoal, Os sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Clube do Livro, 1988; (versão retrabalhada) Estação Liberdade, 1999.

·         Marion Fleischer, Os sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

·         Leonardo César Lack, Os sofrimentos do jovem Werther (posfácio de Willi Bolle). São Paulo: Nova Alexandria, 1999.

·         Marcelo Backes, Os sofrimentos do jovem Werther. Porto Alegre: L&PM, 2001.

·         Claudia Cavalcanti, Os sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Martin Claret, 2014.[5]****

·         Claudia Dornbusch, Os sofrimentos do jovem Werther. Rio de Janeiro: Antofágica, 2020.

·         Maurício Mendonça Cardozo, Os sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

·         Daniel Martineschen: Os sofrimentos do jovem Werther. Porto Alegre: TAG Experiências Literárias, 2022.


Nesse rápido levantamento, não incluí histórias em quadrinhos nem adaptações infanto-juvenis ou juvenis, pois usualmente baseiam-se em traduções já existentes.

Segundo a listagem acima, temos 9 traduções portuguesas, se incluirmos os excertos publicados no citado hebdomadário. Encontram-se 12 traduções brasileiras: estão excluídas as contrafações da Pongetti, da W.M. Jackson e da Martin Claret, bem como o caso da edição da Simões ainda em suspenso, que demandaria um cotejo com traduções previamente existentes.


 



 





[1] Algumas fontes indicam: “Teresa Seruya (com Judite Berkemeier e João Barrento): A paixão do jovem Werther. Lisboa (Bertrand), 2014”. No entanto, essa publicação inclui três obras: Werther (trad. Seruya), O conto da serpente verde (trad. Berkemeier) e Novela (trad. Barrento), numa edição lançada inicialmente em 1991 pelo Círculo de Leitores.



[1] Laurence Hallewell, em seu O livro no Brasil, aventa a título hipotético que a tradução teria sido feita por Eduardo Laemmert.

[2] Em 1942, a Pongetti publica essa tradução de Davidovich, porém anonimamente, sem dar os créditos de tradução, fazendo constar na página de rosto apenas “com um prefácio de Marques Rebelo”.

[3] A Jackson tinha como procedimento habitual utilizar traduções portuguesas sem licenciamento e sem os créditos de tradução, colocando apenas a observação na contrapágina de rosto: “Tradução adaptada e revista pelo Departamento Editorial da Jackson”. É o que também consta nesse volume 2 de sua coleção Romances Universais.

[4] A Simões publicava basicamente autores brasileiros; as poucas edições traduzidas costumavam ser reproduções de traduções lusitanas. Antes de poder arrolar com segurança esse volume de Werther como uma nova tradução brasileira dos anos 50, seria recomendável cotejá-lo com as traduções lusitanas disponíveis na época.

[5] Antes dessa edição, a Martin Claret publicara em 2000, com várias reedições ao longo dos anos, mais uma contrafação em nome de Pietro Nassetti.

12 de out. de 2024

bagrinhos

geir campos comenta em sua matéria, aqui, que vera mourão foi bagrinho de "um renomado tradutor do rio janeiro". fiquei curiosa em saber quem seria...


Ainda a tradução (2)

Geir Campos

Voltemos à chamada “vaca fria”, isto é, ao assunto de que tratávamos na semana passada: a tradução.

Ia eu dizendo então que o “bom” tradutor há de dominar um pouquinho melhor a língua para a qual traduz (também denominada, tecnicamente, língua de chegada ou língua meta ou língua alvo; em francês langue d’arrivée; em alemão Ziel Sprache; em inglês target language; em espanhol lengua de llegada), e ligeiramente menos bem a língua da qual traduz (também denominada, em termos técnicos, língua partida ou língua fonte; em francês langue de départ; em alemão Ausgang Sprache; em inglês source language; em espanhol lengua de origen). Explica-se: a língua materna aprende-se ao mesmo tempo que se aprende a falar, a andar, a viver; e é uma forma de aprender muito cheia de conotações e ensinamentos paralelos, por assim dizer; já a língua da qual se traduz costuma ser uma língua que se aprendeu mais pelo intelecto que pela emoção – e isto faz uma enorme diferença. Um bom amigo meu costumava dizer que língua materna é aquela em que a pessoa reza e xinga e faz contas. Para rezar e xingar e fazer contas é preciso que se tenha um aprendizado bem antigo, bem inicial, bem fundamental. É na língua materna que o tradutor há de encontrar elementos denotativos e conotativos capazes de expressarem da melhor forma possível as ideias que ele tenha sido capaz de captar em outra língua – esta, sim, talvez aprendida intelectualmente, por um ato de vontade, que é como em geral se aprendem línguas estrangeiras, a não ser que a pessoa viva em permanente contato com uma língua estrangeira, como acontece. Digamos. em zonas de fronteira...

Mas, bom conhecedor, bom “domador” ou dominador, por assim dizer, da própria língua, e razoável conhecedor de uma língua estrangeira, estará o indivíduo quase pronto a ser um “bom” tradutor. Mas é claro que a um bom tradutor são necessárias certas disposições, por assim dizer, especiais. Um bom tradutor está sempre a postos: é só ele bater os olhos em um texto e já lhe dará uma vontade interior quase irresistível de traduzi-lo, de pô-lo ao alcance de pessoas que talvez não conheçam, ou pelo menos não conheçam tão bem, a língua estrangeira em que o tal texto está escrito... O tradutor é, assim, uma espécie de “missionário”; a “missão” do tradutor é esta: tornar acessível, a pessoas que não falam determinada língua estrangeira, o que o autor estrangeiro diz ou está querendo dizer com as palavras dele.

Mas é claro que, paralelamente a esse aspecto “missionário” do tradutor há de existir sempre – e feio e forte como se diz – o aspecto material. Mesmo porque trabalho é trabalho, seja braçal, seja intelectual, e ninguém está aí para trabalhar de graça, ora essa. A profissão de tradutor envolve um esforço e um trabalho como qualquer outra profissão e há de ser remunerada como qualquer outra. Para coibir certos abusos praticados contra eventuais tradutores por usuários de traduções mais ou menos bem intencionados (de “boas intenções”, etc.), existe e funciona no Rio de Janeiro (o telefone é 252.1616, DDD 021) a ABRATES, Associação Brasileira de Tradutores, com endereço no catálogo telefônico e tudo.

Um dos “problemas” trazidos com mais frequência ao conhecimento da ABRATES é o dos “tradutores fantasmas”: tradutores que, como os “escritores fantasmas” (em inglês ghost writers), não assinam seus trabalhos e são apenas parcialmente pagos pelo que fazem. Explicação: um tradutor de “renome”, por esta ou aquela razão, “aceita” encomendas de tradução em volume superior ao que talvez pudesse cumprir dentro dos prazos estabelecidos (toda tradução tem um prazo, e é bom cumprir sempre esses prazos dados); premido pelo tempo, etc., esse tradutor “de renome” passa adiante, ou “subloca”, seu trabalho a alguém de sua confiança que acaba “fazendo o trabalho para ele”, e ao qual ele afinal paga apenas uma parte do que lhe é pago pelo editor. Isso explica a diferença de qualidade entre várias traduções assinadas por um mesmo tradutor, pois diferenças hão de existir entre as várias pessoas por ele “contratadas” ou “subcontratadas” –  e não é sempre que o dito tradutor de “renome” tem tempo ou disposição para efetuar uma boa revisão do texto traduzido que vai levar sua assinatura... E “isso” pode acontecer? – perguntarão alguns. Pois “pode” acontecer e efetivamente acontece. Quando conheci a excelente tradutora Vera Mourão, por exemplo, ela trabalhava como “tradutora fantasma” para um renomado tradutor do Rio de Janeiro; não foi sem algum esforço que consegui tirá-la dessa condição e apresentá-la como “tradutora” a alguns editores cariocas, para os quais ela passou a traduzir e assinar – e, naturalmente, receber... Mas talvez seja até um caminho razoável, esse, de alguém entrar no território da tradução como “tradutor fantasma”, levado pela mão exploradora de algum tradutor renomado; talvez seja até um caminho, eu ia dizendo, mas não creio que seja o melhor. O melhor caminho, creio eu, é o do tradutor que procura os editores e presta-se a fazer os testes necessários e fica esperando que chegue sua vez. Se isso “demora”? Às vezes: depende muito da qualidade da tradução feita pelo candidato. Um bom candidato é imediatamente chamado, um candidato de pior qualidade há de ficar mofando na espera. E vale aqui chamar a atenção para a qualidade do trabalho do tradutor, uma qualidade que há de ser sempre uma distinção.  

Publicado originalmente no jornal A ORDEM, ano LXII, São José do Calçado, domingo, 5 de fevereiro de 1989, nº 2493.