22 de out. de 2019

lista de traduções

atualizando:

1    Catálogo da exposição 'Arquitetura para cães'Outro2019
2    Catálogo da exposição 'Beleza sobre Quatro Rodas'Outro2019
3    Catálogo da exposição 'Chiharu Shiota'Outro2019
4    Catálogo da exposição 'Experiência Da Vinci'Outro2019
5    Catálogo da exposição 'O feminismo na arte'Outro2019
6    ChernobylLivro2019
7    ChurchillLivro2019
8    Contra a interpretação e outros ensaiosLivro2019
9    Espião de mim mesmoLivro2019
10    Hinos MarianosOutro2019
11    Livre para voarLivro2019
12    Mercados radicaisLivro2019
13    O futuro do capitalismoLivro2019
14    O gato - quatro estaçõesLivro2019
15    Redução de danos: A resistência visual de mulheres negras dentro e fora do BrasilArtigo2019
16    She SaidLivro2019
17    Sobre ThoreauArtigo2019
18    Um quarto só seuLivro2019
19    1984 - Textos complementaresLivro2019
20    A arte do romanceLivro2018
21    A cor da liberdade - Os anos de presidênciaLivro2018
22    Catálogo da exposição 'São Francisco'Outro2018
23    Dicionário sobre a escravidão e a liberdadeLivro2018
24    Minha históriaLivro2018
25    O gato e as orquídeasLivro2018
26    O teatro da guerraLivro2018
27    Sobre a vida e a história de TucídidesArtigo2018
28    UtopiaLivro2018
29    Vitória, a rainhaLivro2018
30    A mãe de todas as perguntas - Reflexões sobre os novos feminismosLivro2017
31    Aqui de dentroLivro2017
32    Como ler literaturaLivro2017
33    Considerações sobre o governo representativoLivro2017
34    História econômica globalLivro2017
35    No café existencialistaLivro2017
36    O cânone americanoLivro2017
37    Os Románov, 1613-1918Livro2017
38    Para educar crianças feministas - Um manifestoLivro2017
39    Reforma ProtestanteLivro2017
40    A oeste do ÉdenLivro2016
41    Algumas reflexões sobre a filosofia do hitlerismoLivro2016
42    AnjosLivro2016
43    As meninas ocultas de KabulLivro2016
44    BíbliaLivro2016
45    Contra o realismo histórico, in Peixe-elétrico #4Artigo2016
46    Duplo retrato - São Francisco em Dante e GiottoLivro2016
47    MulherzinhasLivro2016
48    O dono do morroLivro2016
49    Os melhores contos de Katherine MansfieldLivro2016
50    Sobre a liberdadeLivro2016
51    Sobre o exílioLivro2016
52    Três íconesLivro2016
53    Uma vida no escuroLivro2016
54    A arte de pedirLivro2015
55    A filosofia do hitlerismoArtigo2015
56    Faça acontecerLivro2015
57    Moneyball - O homem que mudou o jogoLivro2015
58    MS encontrado numa garrafa, in Sombras de CarcosaLivro2015
59    Nan Goldin, entrevista a Philip Larratt-Smith.(ZUM 8)Artigo2015
60    No final do corredorOutro2015
61    O gato filósofoLivro2015
62    O gato zenLivro2015
63    O pequeno príncipeLivro2015
64    Para explicar o mundo - a descoberta da ciência modernaLivro2015
65    Sempre em movimentoLivro2015
66    Sinatra: o chefãoLivro2015
67    Três íconesLivro2015
68    Truques da EscritaLivro2015
69    Uma garota é uma coisa pela metade (no prelo)Livro2015
70    Aguapés (Prêmio ABL de Tradução)Livro2014
71    Arte como terapiaLivro2014
72    Flash Boys - Revolta em Wall StreetLivro2014
73    O Bom Livro - uma Bíblia laicaLivro2014
74    O romance, vol. III (no prelo)Livro2014
75    SalingerLivro2014
76    Todos os homens do presidenteLivro2014
77    A prisão da féLivro2013
78    A vida oculta das cidades (Zum, 4)Artigo2013
79    Ao farol (Prêmio Jabuti de Tradução 2014, 3o. lugar)Livro2013
80    Assim na TerraLivro2013
81    Bulevar (Zum, 4)Artigo2013
82    Eu sou MalalaLivro2013
83    Faça acontecerLivro2013
84    Mandela: o homem, a história e o mitoLivro2013
85    O campo ampliado da arquitetura: antologia teórica 1993-2009Livro2013
86    O guardião da história: Li Zhensheng (Zum, 4)Artigo2013
87    A dança da solidão - Francesca Woodman (Zum, 3)Artigo2012
88    A ideia de justiçaLivro2012
89    AcabadoraLivro2012
90    Capitalismo e escravidãoLivro2012
91    CaravaggioLivro2012
92    Conversas com escritoresLivro2012
93    Crianças, Anôn. - Revista Zum, 2Artigo2012
94    Da Enciclopédia à Wikipédia. Uma história social do conhecimentoLivro2012
95    Duplos, anônimos (Zum, 2)Artigo2012
96    Entrevista, Zum 2Artigo2012
97    Isto não é o que parece (Zum, 2)Artigo2012
98    Mrs. Dalloway (Prêmio Paulo Rónai de Tradução, FBN, 2013)Livro2012
99    O Brasil no mundo (História contemporânea do Brasil, vol. II)Artigo2012
100    O código de honraLivro2012
101    O sinal: o Santo Sudário e o segredo da RessurreiçãoLivro2012
102    O tubarão de 12 milhões de dólaresLivro2012
103    Perseguindo sombras - Santu Mofokeng (Zum, 3)Artigo2012
104    Profissões para mulheres e outros artigos feministasLivro2012
105    RousseauLivro2012
106    Tigres no espelhoLivro2012
107    Uma conversa com Errol Morris (Zum, 2)Artigo2012
108    Van Gogh - A vidaLivro2012
109    Von Kempelen e sua descobertaOutro2012
110    A festa ao ar livreOutro2011
111    A Nova HistóriaArtigo2011
112    Claude Lévi-Strauss: o poeta no laboratórioLivro2011
113    Dormindo com o inimigo: a guerra secreta de Coco ChanelLivro2011
114    Fascismo e berlusconismo (Novos Estudos Cebrap, 91)Artigo2011
115    Junkspace (Serrote, 9)Artigo2011
116    KantLivro2011
117    O Romance, vol. II (no prelo)Livro2011
118    Prefácio a 'Tales of the Grotesque and Arabesque'Outro2011
119    Sobre a revoluçãoLivro2011
120    Steve Jobs: uma biografiaLivro2011
121    Travessias difíceisLivro2011
122    Entrevista (introdução a O outono da Idade Média)Artigo2010
123    Guerra da SecessãoLivro2010
124    Investigando PieroLivro2010
125    JesusLivro2010
126    MaquiavelLivro2010
127    Numa dada situaçãoLivro2010
128    O Palácio de InvernoLivro2010
129    WaldenLivro2010
130    100 fotografias: Juan RulfoLivro2010
131    A New Sentimental JourneyLivro2009
132    As vidas dos artistasLivro2009
133    Cada um na sua leiLivro2009
134    Devolvendo as classes populares portuguesas à história da União Ibérica e da RestauraçãoArtigo2009
135    Estética relacionalLivro2009
136    MatisseLivro2009
137    Modernismo, o fascínio da heresiaLivro2009
138    NietzscheLivro2009
139    O romance, vol. I - A cultura do romanceLivro2009
140    Pós-produçãoLivro2009
141    Quem escreverá nossa história?Livro2009
142    Um outro arabescoLivro2009
143    CompreenderLivro2008
144    Comunidades imaginadasLivro2008
145    Escritos e reflexões sobre arteLivro2008
146    Nova York deliranteLivro2008
147    O livro das vidasLivro2008
148    O realismo de Courbet (no prelo)Livro2008
149    O suplício de Papai NoelLivro2008
150    Os grandes economistasLivro2008
151    ÁrabesLivro2007
152    Grid: construção e desconstruçãoLivro2007
153    O amanteLivro2007
154    Piero della FrancescaLivro2007
155    Sobre a verdadeLivro2007
156    Tropicália, uma revolução na cultura brasileira (vários artigos)Artigo2007
157    Breve mas verídica história da arte italianaLivro2005
158    A imagem precáriaLivro1996
159    A vida em comumLivro1996
160    BarcelonaLivro1995
161    Cultura e imperialismoLivro1995
162    O vocabulário das instituições indo-europeias - Economia, parentesco, sociedadeLivro1995
163    O vocabulário das instituições indo-europeias - Poder, direito, religiãoLivro1995
164    Código da naturezaLivro1994
165    Ensaio sobre os elementos de filosofiaLivro1994
166    Diálogos sobre a pluralidade dos mundosLivro1993
167    Maquiavel no infernoLivro1993
168    Tratado das sensaçõesLivro1993
169    A arte modernaLivro1992
170    História da vida privada, vol. VLivro1992
171    Antigos cultos de mistérioLivro1991
172    Ao longo do riocorrenteLivro1991
173    ArielLivro1991
174    Religião e declínio da magiaLivro1991
175    SamarcandaLivro1991
176    Sir Richard Francis BurtonLivro1991
177    As leis do crescimento espacial dos EstadosArtigo1990
178    Dáfnis e Cloé (versão de Pierre Grimal)Livro1990
179    História da vida privada, vol. IVLivro1990
180    O beijo de LamouretteLivro1990
181    O estilo da históriaLivro1990
182    O ressurgimento da narrativa: alguns comentáriosArtigo1990
183    O ressurgimento da narrativa: reflexões sobre uma velha questão (RH, 3)Artigo1990
184    Viena fin-de-siècle (Finalista Prêmio Jabuti de Tradução 1991)Livro1990
185    Cultura popular na Idade ModernaLivro1989
186    França revolucionáriaLivro1989
187    Modernismo - Guia geral, 1890-1930Livro1989
188    Reversibilidade (RH, 1)Artigo1989
189    Freud, uma vida para nosso tempoLivro1988
190    O lado oculto da RevoluçãoLivro1988
191    Os excluídos da históriaLivro1988
192    A força da tradiçãoLivro1987
193    Homens em tempos sombriosLivro1987
194    Memórias de um revolucionárioLivro1987
195    O retorno de Martin GuerreLivro1987
196    Senhores e caçadoresLivro1987
197    A formação da classe operária inglesa - A árvore da liberdadeLivro1986
198    A formação da classe operária inglesa - A força dos trabalhadoresLivro1986
199    CafeiculturaLivro1986
200    Economia e movimentos sociais na América LatinaLivro1986
201    O palácio da memória de Matteo RicciLivro1986
202    Paisagens da solidãoLivro1986
203    Exterminismo e Guerra FriaLivro1985
204    O capitalismo históricoLivro1985
205    A crise da crise do marxismoLivro1984

disponível aqui.

19 de out. de 2019

a ver

o facebook me relembra que quatro anos atrás comentei o seguinte, numa postagem lá:

ontem, a título de curiosidade, eu perguntava qual a primeira coisa que vinha à mente dos amiguinhos ao verem o nome de gustavo barroso. sim, como bem lembraram Danilo Nogueira, Éder Silveira, Thiago Alves e outros mais, gustavo barroso foi um dos principais nomes do integralismo, lá com suas divergências com plínio salgado por ser, mais do que fascista, um convicto e militante antissemita e filonazista. 
foi, como bem lembrou a Amelina de Aquino, o primeiro diretor do museu histórico nacional; muito culto, autor prolífico, foi também dicionarista, como mencionou o Braulio Tavares. e foi também fundador e dono da civilização brasileira, depois vendida para a nacional, mantendo ligações com a editora, mesmo quando já era de ênio silveira, até sua morte. 
depois de vender a civilização para a nacional, ele teve uma pequena editora por alguns anos, a agência minerva. mas bem antes disso já tinha sido tradutor da h. garnier por alguns anos, infelizmente sem assinar suas traduções para a casa, exceto nossa primeira tradução do fausto de goethe, que fez em 1913, mas que, devido à guerra, só saiu em 1920, com os devidos créditos em seu nome.ando rastreando a fortuna histórica d'"a mulher de trinta anos" de balzac no brasil. 
ela saiu inicialmente pela h. garnier em 1914, bem na época em que barroso andava trabalhando para a editora, e foi reeditada em 1922 pela agora livraria garnier. gustavo barroso funda a civilização brasileira em 1929 e exatamente o mesmíssimo texto de balzac reaparece lá em 1931. entre 1914 e 1929, a h. garnier já tinha sofrido várias vicissitudes, estava devagar-quase-parando, e não duvido nem um pouco que gustavo barroso pudesse ter-se sentido suficientemente à vontade para levar consigo sua tradução (e tradução em termos: na verdade, um copidesque de uma tradução portuguesa anterior). 
depois que a civilização foi vendida para a nacional (em 1932), mantendo o nome como selo editorial da c.e.n, sai outra edição d'"a mulher de trinta anos", em 1937, a mesma que vinha lá desde 1914.é por isso que estou bem achando que aquela edição lá de 1914 fora preparada pelo gustavo barroso - pois, do contrário, como explicar que trafegasse com tanta lepidez e lampeirice da garnier para a civilização? e - note-se - sempre anônima. 
acho sempre muito interessantes essas coisas. mas ainda tenho de pesquisar mais e melhor, para ver até que ponto vai essa hipótese.

13 de out. de 2019

três coleções


saiu agora na revistra tradterm, da citrat/ usp, um artigo meu sobre a série negra, da companhia editora nacional, a seleção labirinto, da editora mérito, e a coleção saraiva, da editora saraiva. disponível aqui.

11 de set. de 2019

artigo

uma boa geralzona:

A Translation for Our Time?
Tim Parks

Do contemporary approaches to translation tell us something about our times?
Samuel Johnson was the first to offer a brief history of attitudes to translation, observing how some periods produce many translations, others very few, and how each period tends to privilege different criteria when translating. He notes that the Greeks did not translate texts from the Egyptians, that eminent Romans tended to learn Greek and experience it directly rather than make or read Latin versions, that “the Arabs were the first nation who felt the ardour of translation,” when they conquered parts of the Greek empire and sought to acquire their new subjects’ knowledge for themselves. 
Moving to modern times, Johnson analyzed different approaches before and after the Restoration in 1660. The writers before the Restoration, he decided, “had at least learning equal to their genius”; when tackling classical texts, if they couldn’t “exhibit their graces and transfuse their spirit,” they made up for it by translating a great deal, and they “translated literally, that their fidelity might shelter their insipidity or harshness.” The wits of the Restoration, on the other hand, Johnson claims, having “seldom more than slight and superficial views,” hid “their want of learning behind the colours of a gay imagination” hoping “that their readers should accept sprightliness for knowledge, and consider ignorance and mistake as the impatience and negligence of a mind too rapid to stop at difficulties, and too elevated to descend to minuteness.”
From the Romantic period onward, such observations on how other times and cultures have translated became commonplace, with both English and German critics remarking on how remorselessly the French reduced any foreign text, however idiosyncratic, to their own way of writing. It was understood at once that this kind of radical domestication had to do with the confidence of French culture, though philosopher and critic Johann Gottfried Herder (1744–1803), biblical scholar Friedrich Schleiermacher (1768–1834), and German language scholar Wilhelm von Humboldt (1767–1835) all believed it prevented the French from learning anything at all from the many translations they made. 
Schleiermacher was convinced that, in contrast, it was the destiny of “the German people to incorporate linguistically, and to preserve in the geographical center and heart of Europe, all the treasures of both foreign and our own art and scholarship in a prodigious historical totality, so that with the help of our language everyone can enjoy, as purely and as perfectly as a foreigner can, all the beauty that the ages have wrought.” This would be done, he decided, with a radically non-domesticating approach, taking the reader as far as possible toward the foreignness of the foreign text, something German was better equipped to do than other languages, he believed. The poet and critic Friedrich Schlegel (1772–1829) agreed: “Of all the languages into which prose and verse translations of Homer have been made, from the Syriac to the English, none can approach the original text with such happy fidelity as German.” 
So, while the French appeared to believe that French style was already the proper template for everything, the Germans believed their language was the most flexible instrument to reflect every style.
In 1882, Friedrich Nietzsche observed that, “The degree of the historical sense of any age may be inferred from the manner in which this age makes translations and tries to absorb former ages and books.” The more a culture becomes aware of the real differences of other cultures and other times, as the Germans had become, the less likely it is, he wrote, to try to “take possession” of the other the way “in the age of Corneille… the French took possession of Roman antiquity.”
But what of our own time and our culture? Are we reducing everything we translate to standard English, whatever that might be? Or are we struggling to get close to the otherness of foreign texts? 
What strikes anyone listening to the discussion of such issues in the translation world among its academics, practitioners, and publishers is the huge range of opinion and approaches advocated, the extreme eclecticism and general vagueness about what is entailed in translation. Reviewing any number of books in translation over the last thirty years, I’ve come to the conclusion that there is no dominant approach in our age: accurate and inaccurate, fluent and clumsy, all translations seem to be equally praised and criticized (though rather more the former than the latter). Two opinions, however, do emerge as so universally held as scarcely to need articulating. 
The first is that translation is always a good thing, politically, ethically, aesthetically. The translator brings cultures together, promotes understanding, undermines nationalism, contributes to avoiding conflict. It’s something we should all be doing and feeling good about doing, and congratulating one another for doing.
The second is that literary translation is not only entirely possible, but, somewhat surprisingly, that it can often match or even improve upon the quality of the original. The press release announcing shortlists for the UK’s Society of Authors 2019 Translation Prizes uses the verb “capture” again and again to suggest that the winning translations have left nothing of the original unexpressed; hence readers can feel confident they are missing nothing by reading in translation. Of one work we hear that it “equals, and sometimes even surpasses” its original, while another is praised for how it “captures the music of [the original’s] terrestrial spheres, showing that translation is, in fact, our universal language.” 
Turning to the academic world, one is struck by how rarely translations are carefully compared against originals, how little is said about language competence. Instead, if we consider the kind of texts regularly included in anthologies of translation theory—from Schleiermacher’s seminal work “On the Different Methods of Translating” (1813), through Walter Benjamin’s “The Task of the Translator” (1923), Octavio Paz’s “Translation: Literature and Letters” (1971), and Jacques Derrida’s “Des Tours de Babel” (1985)—it’s not hard to see how a pervasive romantic idealism, mysticism even, comes to underwrite those effusive contemporary panegyrics that would have translations improving on their originals and saving humanity in the process. 
We’ve already heard Schleiermacher speaking of his dream of “a prodigious historical totality,” in which every book ever written can be enjoyed by everyone. Here is Benjamin: “In translation the original rises into a higher and purer linguistic air… the predestined, hitherto inaccessible realm of reconciliation and fulfillment of languages…” And again: “It is the task of the translator to release in his own language that pure language which is under the spell of another, to liberate the language imprisoned in a work in his re-creation of that work.”
Derrida, after giving enormous weight to the Biblical myth of the Tower of Babel, reaches the following conclusion:
Nothing is more serious than a translation… For if the structure of the original [work] is marked by the requirement to be translated, it is because in laying down the law, the original begins by indebting itself as well with regard to the translator. The original is the first debtor, the first petitioner; it begins by lacking—and by pleading for translation.
This mysterious speculation that any written text is immediately “lacking” completion because it is not available in all the other languages of the world has become a staple in translation theory, perhaps because by elevating translation to a categorical imperative it implicitly confers great and solemn importance on a field that was largely ignored in universities until some twenty years ago. In general, it’s astonishing how much respect is still afforded to these bizarre and muddled texts. 
Paz, though he never reaches the dizzy heights of Benjamin and Derrida, is equally positive and emphatically universalist: “Translation within the same language is not essentially different from translation between two tongues, and the histories of all peoples parallel the child’s experience…” And again: “Although language is not universal, languages nevertheless form part of a universal society in which, once some difficulties have been overcome, all people can communicate with and understand each other. And they can do so because in any language men always say the same things.”
Any talk of untranslatability, for Paz, can only be the result of an “inordinate attachment to verbal matter,” or becoming “ensnared in the trap of subjectivity.” “Throughout the ages,” he goes on, “European poets—and now those of both halves of the American continent as well—have been writing the same poem in different languages… a symphony in which improvisation is inseparable from translation and creation is indistinguishable from imitation.”
Essentially, then, all these approaches to translation underwrite the age’s appetite for globalization and feed a zeitgeist that favors the cultural melting pot in which any individual can fully possess any cultural expression, and no profound difference or incomprehension is admitted. 
Is there a problem? Or is my unease mere grumpiness? “To a thousand cavils,” Samuel Johnson wrote, defending Pope’s translation of Homer, “one answer is sufficient; the purpose of a writer is to be read, and the criticism which would destroy the power of pleasing must be blown aside.” That seems a persuasive, salutary, no-nonsense attitude, especially when tempered by Johnson’s insistence on scholarship and accuracy. I’m as ready as anyone for a world teeming with translations. After all, I’ve been responsible for quite a few myself. 
But let us recall that, for all their enthusiasm, the theorists I’ve mentioned, with the exception perhaps of Paz, are nevertheless aware of an otherness in a foreign text that remains elusive to translation—unconquered, uncaptured. And even as Schleiermacher launches into his vision of a German language adapting itself in a thousand ways to “bring those two utterly unconnected people together”—the original author and the reader of the translation—he nevertheless remembers that at best the reader will only “catch a glimmer … of the original language and the work’s indebtedness to it.” Certainly this is Nabokov’s position in “Problems of Translation: Onegin in English,” when he suggests, lepidopterist as he was, that the translation will have the same relation to the original as a butterfly mounted in a collector’s case will have to a butterfly in its natural state. 
Nabokov’s analogy is discouraging and I think inaccurate; there are plenty of very lively translations fluttering around. But what underlies both his and Schleiermacher’s thought is the understanding of translation as an invitation toward a meeting that is exciting as it is difficult, between quite different mind sets, different cultures, different languages. “All humans are under the sway of the language they speak,” Schleiermacher acknowledges, “so that it is impossible to think with complete clarity anything that lies beyond its boundaries.”
What is exciting about translation, then, is not the notion that it has delivered a hundred percent—something Schleiermacher would never have signed up to—or that the entire world of human feeling can be made available to us in our own idiom—a fantasy that will only induce complacency—but its encouragement to move toward, or at least become aware of, what we do not know; translation as a wake-up call, and an instrument to spur us to more effort, not to have us sit back and applaud another successful worldwide publishing phenomenon.
To close on a provocation, it’s perhaps worth observing that current enthusiasm for literary translation in the Anglo-Saxon world has come at the same time as a steep decline in language learning. 

22 de jul. de 2019

preciosidade

em "kafka no abrasil: 1946-1979", disponível aqui, mencionei o conto "cruza" entre os primeiros textos de kafka publicados no brasil, publicado na revista goiana agora, em seu primeiro número (agosto de 1946).

eis que, pela extrema gentileza de mário zeidler filho, temos agora as imagens:




12 de jul. de 2019

isso mesmo

bons conselhos de w. focchetto jr., aqui.

"Depois de algum tempo (levei coisa de dois, três anos), você passa a saber, por experiência, que algumas editoras possuem traduções de ampla aceitação (universidades públicas optam por elas); não cito nenhuma delas agora porque não estou sendo pago para isso (risos). Cheguei a essa conclusão após muito ter lido artigos de Denise Bottmann em seu Blog "Não Gosto de Plágio". "Tradução é prótese", nos diz Umberto Eco (2010:39) em seu "Como Se Faz Uma Tese". Tá certo. Mas convenhamos: se o original é grego, alemão, russo ou qualquer idioma não tão acessível assim, deixamos de estudar determinada obra*? Não. Claro que não. Apenas nos apoiaremos em traduções de editoras confiáveis, ok?"


6 de jul. de 2019

tcc

que simpático!

Bárbara Vieira
; "Plágio e tradução: o trabalho filológico e tradutológico de Denise Bottmann no blog "não gosto de plágio"; ; 2016; Iniciação Científica; (Graduando em Abi - Letras) - Universidade Federal de Minas Gerais; Orientador: Constantino Luz de Medeiros.

11 de jun. de 2019

"thoreau", de virginia woolf

o artigo de woolf por ocasião do centenário de nascimento de thoreau saiu em tradução minha na revista helena, disponível aqui.




22 de abr. de 2019

entrevista

agradeço a fabiano seixas fernandes pela grande gentileza. entrevista disponível aqui.

Tradutora, investigadora, blogueira: entrevista com Denise Bottmann

 . 9 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes

Tradutora, investigadora, blogueira: entrevista com Denise Bottmann
A tradutora, escritora e pesquisadora Denise Bottmann é um dos mais importantes nomes da tradução no Brasil. Sua atividade como pesquisadora independente auxilia a resgatar a memória de tradução (como podemos ver em seu blogue arquivo de traduções) e também a repensarmos a honestidade intelectual do mercado editorial brasileiro (como fica evidente por meu favorito, o não gosto de plágio).
Bottmann muito gentilmente respondeu a algumas perguntas sobre sua atividade profissional como tradutora e investigadora.
Em sua entrevista ao Digestivo cultural, você comentou que vem desenvolvendo uma pesquisa independente no campo de História da Tradução. Gostaria que falasse um pouco da pesquisa em si, e de como é pesquisar sem vínculos institucionais.
Ah, é ótimo, faço o que quero do jeito e no ritmo que quero, sem maiores preocupações e sem ter de prestar contas senão a mim mesma. Por outro lado, como tento manter um mínimo de rigor e solidez nas pesquisas, encontro generoso espaço de publicação dos artigos resultantes dessas pesquisas em diversos periódicos universitários ligados à área. Então sinto-me agraciada com o melhor dos dois mundos: a liberdade do pesquisador independente e a receptividade na academia.
Sua última postagem no não gosto de plágio é uma entrevista de José Nunes que detalha o seu processo individual de tradução. Mas você também já traduziu a várias mãos. Quais as diferenças entre traduzir uma obra integralmente e traduzi-la dividindo-a com outras pessoas?
Veja, essas traduções a várias mãos se dão basicamente por problemas de prazo. A editora pretende lançar rapidamente aquela obra, por qualquer razão que seja, e avalia que um tradutor só não teria condições de fazer a tradução inteira no curto prazo exigido. Assim, opta por dividir a obra em duas ou mais partes, que entrega a dois ou mais tradutores. Normalmente não há um contato assíduo entre os diversos incumbidos da tarefa, e cada qual faz sua parte. A padronização do texto e a uniformização dos termos costumam ficar, na maioria das vezes, a cargo do preparador – que certamente é quem mais sofre nesse processo. Assim, pelo menos para mim, não faz muita diferença. Traduzo aquela parte como se fosse um todo – e é mesmo um todo, pelo menos como tarefa que me foi atribuída. Não gosto muito do sistema; aliás, imagino que nenhum dos envolvidos goste muito, mas são decisões editoriais que têm lá sua razão de ser e não cabe a mim achar ou deixar de achar nada.
Além de tradutora e autora, você também mantém uma intensa atividade nas redes sociais: uma conta bastante ativa no Twitter e alguns blogs—alguns pontuais, como o blogue a biografia do Van Gogh, e outros mais duradouros, como o não gosto de plágio. Inúmeras tradutoras e tradutores vêm, nos últimos tempos, participando dessa onda de digitalização, e buscando se tornar influencers em seus campos. Como você encara esse movimento, desde o ponto de vista da quase proverbial “invisibilidade do tradutor”?
Na verdade, não uso quase o Twitter. Minha conta no Facebook é vinculada à do Twitter; então o que posto no FB é automaticamente publicado no Twitter, só isso. Quanto aos blogs, tenho especial carinho por eles. Vários são de duração limitada, pois são blogs de acompanhamento da tradução que estou fazendo naquele momento: além da biografia do Van Gogh, há os blogs sobre Walden, Mrs. Dalloway, Ao farol, Como ler literatura, As mulherzinhas, Utopia, Emily Dickinson… Além desses blogs de acompanhamento de tradução, mantenho alguns blogs, também de duração limitada, sobre essas pesquisas bibliográficas que faço: A Coleção Amarela da Globo, A Série Negra, A Coleção Saraiva, BLM - Biblioteca do Leitor Moderno e outros mais. Não vejo, ou não via, essas iniciativas como parte de uma “onda de digitalização” – são espaços muito práticos, muito fáceis de operar, em que posso ir desenvolvendo questões que me interessam naquele momento, e acabam se tornando repositórios de coisas que posso vir a recuperar mais tarde.
O ramo da tradução ainda é um visto como atividade remunerada secundária; ainda há poucas pessoas que se dedicam, como você, à tradução como forma principal ou única de renda. Você acha importante que exista essa dedicação exclusiva para a classe das tradutoras e tradutores de um modo geral?
Não, não creio que seja muito importante. Sou grande defensora do que chamo de “diletantismo” e defensora ainda maior da fundamental importância de traduções acadêmicas feitas por docentes conhecedores daquela determinada área. E falar em “classe” de tradutores/as me parece um tanto abstrato. Não vejo o conjunto das pessoas que exercem o ofício de tradução, mesmo como atividade principal ou exclusiva, como uma “classe” ou sequer como uma “categoria”. Ainda mais se se incluírem intérpretes, dubladores, legendadores, o pessoal de língua de sinais, torna-se um campo quase infinito. Mas talvez quem sabe algum dia venha a se criar uma categoria profissional legalmente reconhecida como tal. A ideia não me entusiasma especialmente, de maneira alguma – mas, como dentro desse amplo universo da tradução em sentido geral trabalho num segmento minoritário, qual seja, a tradução de obras lítero-humanísticas para o setor editorial, nem tenho muito o que opinar.
Em relação ainda à digitalização da tradução, para além de vermos tradutores e intérpretes tomando as redes com podcasts, canais e blogs, também vemos que estão às voltas com um processo de uberização de seus serviços, recebendo encomendas por meio de plataformas semelhantes ao Uber, e vendo seus vencimentos serem achatados em decorrência. A inteligência artificial também é uma aliada ambígua, que, a longo prazo, poderá contribuir com a obsolescência desta e de muitas outras profissões. Como você enxerga a classe dos tradutores frente a esses desafios?
Repito, não consigo ver a soma dos mais variados tradutores, intérpretes, legendadores das mais variadas áreas para os mais variados fins como uma “classe”. De todo modo, essa uberização, como você diz, decorre da maciça terceirização de serviços que se iniciou nos anos 1970-1980. Um grande número de tradutores exerce hoje em dia funções que eram realizadas pelas antigas secretárias bilíngues e trilíngues (uso o feminino, pois era uma profissão ocupada majoritariamente por mulheres). A profissão da secretária executiva, da secretária de diretoria, altamente qualificada, hoje em dia está quase à beira da extinção, em decorrência, justamente, desse processo de terceirização. Então, até é possível que hoje o número de homens realizando tarefas antes realizadas pelas secretárias mulheres seja maior, em termos relativos, do que era trinta ou quarenta anos atrás. Quanto à tecnologia, sim, talvez. Não conheço a área de tradução técnica, comercial e financeira, que, até onde sei, é a que mais utiliza os novos recursos tecnológicos, como programas de tradução, memórias de tradução e assim por diante – se bem que o uso dessas ferramentas de auxílio à tradução parece estar abrindo caminho também na tradução editorial. Mas eis aí mais um assunto sobre o qual não posso falar, pois não estou bem a par.
O não gosto de plágio oferece uma importante contribuição à produção intelectual, denunciando casos de apropriação indevida no meio editorial. Curiosamente, isso é feito de forma extra-institucional: em um país onde a universidade controla o grosso da produção intelectual, uma das defesas mais contundentes dessa produção vem, por assim dizer, de fora, de alguém que se afastou da carreira docente, e que emprega um meio a que as instituições de ensino e pesquisa não costumam recorrer. Como você encara a contribuição do não gosto de plágio não só à tradução, mas à pesquisa e às instituições onde é mais comumente realizada no Brasil?
Por uma série de circunstâncias, o gravíssimo problema das apropriações indébitas de traduções alheias encontrou ouvidos muito receptivos nas instituições acadêmicas. Para essa receptividade, sem dúvida contribuiu muito o fato de que centenas e centenas de traduções espúrias eram, precisamente, de obras utilizadas nas bibliografias de cursos universitários, sobretudo nas áreas de ciências humanas, filosofia, letras e direito: desde Aristóteles, Platão, Santo Agostinho, Descartes, Hume a Shakespeare, Emerson, Marx, Weber, Von Ihering e dezenas de outros autores de presença obrigatória na academia. Assim, houve um maciço apoio de muitas universidades e de muitas centenas de docentes, chocados com a extensão da fraude. Creio que Alfredo Bosi, na época, sintetizou bem o problema: tratava-se de um atentado “à integridade mesma da vida intelectual no Brasil”. Então creio que a contribuição do não gosto de plágio foi reconhecida nas e pelas esferas mais fortemente atingidas por tais contrafações. Não foram poucos os professores – e não só universitários – que, a partir de então, redobraram sua atenção e muitos passaram a adotar a prática sistemática de incluir os créditos de tradução em suas bibliografias de curso, bem como de exigir dos alunos que os incluíssem em seus trabalhos.
Gostaria que comentasse uma impressão pessoal que vou compartilhar. A tradução é uma tarefa de mediação cultural: entrega-se a um público o texto de outrem; nosso ato de fala basilar parece ser: “eis aqui o que Fulana disse em obra tal”. Isso contribuiu para nossa invisibilidade: quem lê Kakfa deseja ler Kafka, não Carone; quem lê Virginia Woolf deseja ler Woolf, não Cecília Meireles ou Denise Bottmann. Assim, embora seja intelectualmente impreciso e desonesto que não se mencione quem traduziu, dar ênfase demasiada ao tradutor também pode gerar uma espécie de quebra de confiança: se Haroldo é mais importante que Homero no Homero de Haroldo, a quem estou lendo? Não vejo solução fácil a essa contradição, e pediria que discorresse a respeito.
Bem, não vejo nenhuma contradição. Pois haverá alguém que julgue Haroldo mais importante do que Homero no Homero de Haroldo? Pode ser, e é, interessante como questão referente ao ofício e à prática da tradução, mas ninguém (a não ser algum estudante com algum projeto de mestrado ou doutorado muito específico ou algum estudioso da prática tradutória ou da produção específica de um determinado intelectual brasileiro), repetindo, ninguém vai ler Kafka por causa do Modesto – vai ler Modesto por causa de Kafka; nem vai ler Woolf por causa da Denise – vai ler Denise por causa da Woolf (no caso da Cecília Meirelles, é possível e até provável que leiam sua tradução de Orlando por causa dela mesma, mas aí é outra história: quem faz isso é porque está interessado na obra da Cecília, na qual se incluem suas traduções). Não vamos inverter as prioridades, os verdadeiros interesses, nem confundir literatura e obras de pensamento com suas várias e múltiplas versões em diferentes línguas: isso fala mais da riqueza da obra original do que de qualquer eventual mérito de suas diversas traduções, fala mais da historicidade e variabilidade das línguas do que das escolhas feitas numa tradução x ou y.
Quanto ao primeiro aspecto que você havia levantado, concordo: tradução também é, ou pretende ser, esse “eis aqui o que Fulana disse em obra tal”. Em certa medida e em alguns aspectos, tradução também é isso, sem dúvida. Agora, mesmo limitando-nos a essa acepção mais restrita da tradução, esse “o que ela disse” vai variar muito: um vai dizer que, naquela passagem, Fulana disse “o tempo estava encoberto”, outro vai dizer que Fulana disse “o dia estava nublado” ou que “as nuvens toldavam o céu”. Ninguém vai dizer que, naquela passagem, Fulana disse “o navio chegou atrasado ao porto”. Mas as escolhas, as soluções, os fraseados já constituem outro assunto, bastante complexo. E daí, entre outras coisas, a dificuldade em decidir o que “de fato” Fulana teria dito.
Agora, se você não se importar, vou comentar um detalhe. Quando você fala em “invisibilidade”, a famosíssima invisibilidade do tradutor, está-se referindo, pelo que entendi, ao papel quase ignorado da atividade tradutória para o acesso à leitura em determinada língua de textos originalmente escritos em outra língua. De minha parte, entendo que a expressão significa um hipotético desideratum, isto é, que a mão, a pena do tradutor não se faça demasiado visível na tradução, e se aplica em oposição àquelas traduções geralmente muito decalcadas ou com muitos cacoetes desnecessários. Até onde sei e até onde consigo lembrar, foi apenas a partir de Lawrence Venuti que se desenvolveu ou se passou a divulgar aquela outra acepção quase, digamos, vitimista do pobre tradutor que tanto trabalha, tanto se esfalfa e ninguém vê – e Venuti até recomenda que o tradutor calque fortemente a mão para se fazer bem visível e deixar bem evidente que aquilo é uma tradução. Bom, não é de Venuti que estamos falando e deixemos isso de lado. Gostaria apenas de comentar que entendo a “invisibilidade do tradutor” naquele outro sentido, a meu ver mais preciso e mais objetivo, de um trabalho que não reproduza mecanicamente estruturas sintáticas próprias da língua original ou outros “vícios” do ofício, nem se exiba demais com um cartaz dizendo – ou nem precisando de cartaz nenhum, mas simplesmente alardeando: vejam, vejam, isso é uma tradução! Agora, que da invisibilidade do tradutor, nessa acepção que considero mais objetiva, se possa inferir que, então, o tradutor não deixa, não pode, não deve deixar sua marca pessoal... bom, são outros quinhentos. Seria uma tolice imaginar isso, e felizmente, ao que parece, as correntes tradutórias mais normativistas vêm deixando de lado algumas noções um tanto fantásticas como, por exemplo, a de “equivalência”. Eu proporia, só para não parecer muito implicante e para fazer um pouco de graça, algo como “a marca invisível” ou “a marcada invisibilidade” ou, ainda, “a marcante invisibilidade do tradutor”, naturalmente denotando um valor positivo.

11 de abr. de 2019

Um guia do melhor da web literária

hoje por acaso encontrei uma linda menção ao blog:

Falando em tradução, o Não gosto de plágio vai direto ao assunto, e sem papas na língua. É um dos espaços mais corajosos da web, denunciando as picaretagens de várias editoras, como fraudes de tradução, apropriação indevida de direitos autorais e cópias. O blog é abastecido por Denise Bottmann, que atua como tradutora de inglês, francês e italiano desde 1985. aqui

17 de mar. de 2019

entrevista

agradeço a josé nunes pelo gentilíssimo convite. disponível aqui.



Como escreve Denise Bottmann


Denise Bottmann é historiadora e tradutora.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?
Tenho uma espécie de rotina, sim, um pouco flexível. Levanto, preparo o café da manhã [meu querido amor, que é um madrugador, já deixa a mesa preparada, tudo no jeito], tomamos café, conversamos do mais e do menos, fazemos festa nos cachorros e nos gatos e vamos ver as orquídeas. Aí cada qual vai para seu escritório e seu computador, e começo a traduzir.
Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?
De dia mesmo. Entre as 9 ou 10 da manhã e as 3 ou 4 da tarde, com os devidos intervalos – conversar, comer, espairecer, andar pelo jardim, ver alguma coisa aqui ou ali.
Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?
Tradução é basicamente uma questão de método e rotina, creio eu. Então traduzo de segunda a sexta, com uma meta de dez a quinze laudas por dia. Às vezes vai que é um raio, e até dá para fazer mais. Outros dias a coisa fica mais devagar e sai um pouco menos. Mas, entre uma variação e outra, ao final acaba tendo uma média relativamente constante.
Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?
Tem gente que faz uma série de preparações prévias antes de começar a traduzir. Lê o original inteiro ou boa parte dele, assinala e consulta as dúvidas, faz pesquisas de antemão e assim por diante. Já eu não. Tenho uma concepção da coisa que é meio assim: entendo melhor a estrutura compositiva do texto se eu for traduzindo à medida que o leio, pois então, ao traduzir, preciso ir pegando os vários aspectos presentes, desde as escolhas vocabulares do autor, os recursos linguísticos de que lança mão, as figuras de estilo que adota, até a construção gradual e cumulativa de um ou mais sentidos que constroem o conjunto da coisa. Numa leitura corrida prévia, creio que eu perderia boa parte da construção do texto, que, a meu ver, capta-se melhor num acompanhamento mais denso, mais próximo, que é o que procuro fazer nesse processo concomitante de leitura/tradução.
Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?
Felizmente, não tenho esses problemas mais peculiares a um escritor de obra própria.
Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?
Ah, ler, reler, treler tradução é indispensável! Sempre mudando uma coisinha aqui, outra ali. Até a hora em que a gente precisa dar um basta, senão nunca para.
Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?
No mundo da tradução, sou o que chamam de “dinossauro”. Enquanto boa parte dos tradutores e tradutoras de áreas técnicas, comerciais e até mesmo acadêmicas e literárias emprega programas e ferramentas de auxílio à tradução, utiliza glossários montados a partir de memórias de tradução e assim por diante, fico só com meu computadorzinho. E claro que o buscador do Google é uma imensa mão na roda para consultas das mais variadas questões, pois cobre quase a totalidade dos dicionários e enciclopédias mais importantes e oferece uma grande variedade de outras fontes de consulta, bem como traz uma profusão de links para textos e pesquisas sobre o tema em que estou trabalhando naquele momento.
De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativa?
“Ideias” nesse sentido, em tradução, imagino que significa basicamente pensar, avaliar e definir o partido tradutório (o tom, o tratamento, o tipo de costura, os níveis de registro da linguagem, o tipo e grau de aderência ao texto de origem, os recursos a adotar em ocorrências de difícil solução, e assim por diante) que emprego no trabalho que estou fazendo naquele momento. Mas, como disse, visto que meu processo de tradução é praticamente simultâneo à leitura do texto, essa reflexão, essa avaliação e essa definição do partido tradutório vão se fazendo e se configurando ao longo desse mesmo processo, sobretudo em suas fases iniciais. Conforme a gente caminha, as ideias quanto aos procedimentos mais cabíveis vão se fazendo mais claras e se consolidando melhor.
O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesma se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?
Ah, a gente adquire mais segurança, sente a palavra, a formulação das palavras de maneira mais correta e mais escorreita, a gente fica mais à vontade no e com o texto. Acho que não diria nada; ou, talvez, agradeceria àquela pessoinha das primeiras traduções, sempre tão bem-disposta, a despeito dos erros e das inseguranças que nem percebia serem erros e inseguranças.
Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?
Projetos profissionais e próprios não faltam. Que os deuses permitam que eu os vá executando dia a dia, vez a vez.

2 de mar. de 2019

podcast

"lugar da mulher é onde ela quiser", edição especial de a voz do tradutor, ano II, n. 33, com organização e coordenação de damiana rosa de oliveira, disponível aqui.


A VOZ DO TRADUTOR - ano II - nº33 - O podcast da Escola de Tradutores! - Edição Especial "O podcast é delas" de 02 de março de 2019

Nesta edição, você vai ouvir: mensagem da presidente do Sintra,  Luisa Lamas; Hora do café com a tradutora literária Denise Bottmann; relatos emocionantes das colegas tradutoras Rane Souza, Carol Pimentel, Andressa Gatto e Ligia Ribeiro.


plágios

matéria de alessandro giannini, disponível aqui.

Denúncias de plágio agitam o meio literário: como fica a autoria no século XXI?
Hoje é muito mais fácil praticar — mas também descobrir — as cópias
Alessandro Giannini
02/03/2019 - O Globo
Acusações de plágio já respingaram em nomes tão diversos como Valesca Popozuda, Led Zeppelin, o ministro do STF Alexandre de Moraes e até o designer da logo do Galeão.
Num mundo globalizado, empresas têm gastado muito para proteger suas marcas.
Na produção literária, porém, a cópia tornou-se tão frequente quanto o uso dos comandos Control-C e Control-V (copiar e colar). Só neste ano, foram revelados casos envolvendo o britânico Ian McEwan, o americano Dan Mallory e a brasileira Cristiane Serruya, best-seller da autopublicação responsabilizada por surrupiar textos de (no mínimo) 34 autores.
Com tanto conteúdo disponível na internet, há quem sustente que usar escritos de outros é homenagem. Para muita gente, porém, é roubo descarado e ponto final. Opiniões à parte, o plágio está tipificado no artigo 184 do Código Penal Brasileiro como crime passível de três meses a 4 anos de detenção. E multa.
Perfil devastador
O plágio (diz-se também plagiarismo ou plagiato) é o ato de assinar ou apresentar uma obra intelectual de qualquer natureza (texto, música, obra pictórica, fotografia, obra audiovisual etc.) contendo partes de uma obra que pertença a outra pessoa sem a permissão do autor.
Mas a arte só começa onde a imitação acaba.
Em 2009, o argentino Pablo Katchadjian incluiu 5.600 palavras no conto “O Aleph”, de Jorge Luis Borges. Criou, assim, “O Aleph engordado”. A viúva de Borges não curtiu a “homenagem” e processou Katchadjian por plágio. Ele só foi inocentado seis anos depois.
— Hoje, o plágio é fácil de praticar, mas muitíssimo mais fácil de localizar — decreta a historiadora e tradutora Denise Bottmann. — E dura pouco essa coisa do “eu sou o autor”, “eu escrevi”. Até porque todo mundo sabe que não se vive de escrever livro, pelo menos não aqui no Brasil.
Denise é conhecida pela excelência de suas versões e pela inclemência com editores que plagiam traduções — modalidade infelizmente comum no mercado. Em 2010, a Landmark entrou com uma ação contra ela e a blogueira Raquel Salaberry, que acusaram a editora de copiar versões de clássicos para o português. No mês passado, as duas venceram a batalha.
Outro caso recente de grande repercussão foi o do americano Dan Mallory, autor do bem-sucedido suspense “A mulher na janela” e uma das mais festejadas atrações da última Bienal do Livro de São Paulo. Ele foi alvo de um perfil devastador publicado pela revista “New Yorker”, que o pinta como um farsante inventor de histórias sobre sua vida. Logo depois, deu no “New York Times”: Mallory acusado de plagiar o romance “Saving April”, da britânica Sarah A. Denzil.
O advogado do escritor, porém, apresentou provas de que ele havia enviado um rascunho com personagens bem desenhados e tramas bem definidas antes de Sarah começar a escrever seu romance.
— A melhor ficção se baseia em trabalhos anteriores em termos de linguagem e senso de lugar — diz Stuart Karle, professor adjunto da Columbia Journalism School, especialista em lei de mídia. — Na ficção, é mais aceito e espera-se estar sujeito a isso.
A internet facilita o plágio e a descoberta dele, como disse Denise Bottmann, mas a prática vem de muito antes, como mostram episódios emblemáticos da produção literária brasileira.
Caso curioso o dos herdeiros do escritor Humberto de Campos, que moveram ação contra a Federação Espírita Brasileira, reivindicando direitos sobre a publicação de obra psicografada por Chico Xavier, de autoria do espírito do “autor”. A ação foi julgada improcedente. Apesar da perícia ter afirmado semelhança de estilos na obra, não se poderia pleitear direito do espírito.
Outro caso famoso é o do romance “A sucessora”, da escritora e tradutora Carolina Nabuco (1890-1981), que teria virado o romance “Rebecca” (1934), adaptado para o cinema por Alfred Hitchcock .
— Um escândalo — diz o advogado José Thomaz Nabuco, de 82 anos, sobrinho da escritora. — Roubaram a obra dela.
Saindo do armário
Mas a própria definição do plágio tem mudado ao longo da História. William Shakespeare foi acusado de ter plagiado “Romeu e Julieta” de outro autor. Na verdade, havia cinco versões diferentes do drama. Hoje, o caso provavelmente acabaria nos tribunais.
Para a tradutora Ana Resende, falar de empréstimos, influências e supostos plágios literários requer cuidado:
— Era prática comum autores desenvolverem temas de seus pares e reconhecer isso. O tema do guarda-roupa como um portal mágico, central na série de romances sobre Nárnia, de C.S. Lewis, foi retirado de um conto, “The Aunt and Amabel", de Edith Nesbit. E Lewis reconheceu sua dívida com Nesbit, que hoje é pouquíssimo lembrada.
Todo homem nasce original e morre plágio.
Colaborou (com os plágios, inclusive) Emiliano Urbim.


24 de fev. de 2019

autoras estrangeiras traduzidas no brasil

um bom trabalho de pesquisa em história da tradução no brasil: "Publicar mulheres: três coleções de escritoras estrangeiras no Brasil (séc. XX e XXI)", de ana elisa ribeiro e sérgio karam, disponível aqui.





2 de fev. de 2019

judeus sem dinheiro

um caso interessante, que me foi apontado por lucas verzola.

cid franco, militante de esquerda, socialista democrático, traduziu judeus sem dinheiro, de michael gold, publicado pela pax em 1932. em 1934, a cultura brasileira relançou a obra. anos depois, em 1944, a calvino publicou mais uma vez a tradução de cid franco, porém sem lhe dar os créditos. em 1961, quando a pluma relança o romance de michael gold, cid franco comenta esses fatos. (embora ele não cite qual teria sido a "certa empresa que tirou mais uma edição", foi de fato a calvino.)



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vale notar que mesmo a capa, assinada por kaufmann, retoma a capa da edição da cultura brasileira.
resta saber quem teria traduzido "120 milhões" para a edição da calvino.
veja-se a dissertação de vinicius juberte, disponível aqui.


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JUDEUS SEM DINHEIRO

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19 de dez. de 2018



http://www.aescotilha.com.br/literatura/contracapa/o-papel-do-tradutor-e-questao-de-autoria/

O papel do tradutor e a questão de autoria

Morte de tradutora de Harry Potter levanta debate sobre a falta de reconhecimento da profissão.

A morte de Lia Wyler, aos 84 anos, no dia 11/12, não causou muito alvoroço. Como a de nenhum tradutor parece causar. Responsável por verter ao português os sete livros de saga Harry Potter e autores como Tom Wolfe, Hnery Miller e Stephen King, a paulista de Ourinhos havia passado por dois AVCs – um deles logo após entregar Harry Potter e as relíquias da morte.
O quase silêncio sobre os tradutores incomoda, e muito. Lia, que entre 1991 e 1993 presidiu o Sindicato Nacional dos Tradutores, foi quem adaptou para o português termos do universo de Potter. Quidditch virou quadribol, e muggle trouxa. Certa feita, depois de encerrar a série do bruxinho, Wyler declarou sentir falta dos personagens e da mitologia que envolve os livros de J. K. Rowling.
A Rocco, editora para qual Lia mais traduziu, emitiu uma nota de falecimento. No comunicado, a casa reitera a sensibilidade da tradutora e a importância do seu labor. “O trabalho do tradutor é um dos fios principais de uma história. Ele empresta suas palavras para construir narrativas e fazer que uma história seja compreendida, tocando o coração das pessoas”, diz o texto.
Denise Bottmann: ‘É uma responsabilidade e tanto, pois, na hora em que você ‘decide’, digamos assim, qual o partido que vai adotar’.

O papel do tradutor

Denise Bottmann – tradutora de obras de Virginia Woolf, Harold Bloom, Thomas More e outros – mantém desde 2008 o blog não gosto de plágio, cujo objetivo é um pouco óbvio: encontrar incongruências e irregularidades nas traduções para o português do Brasil. Um dos grandes alvos de Bottmann foi a editora Martin Claret, inúmeras vezes apontada por Denise como fonte constante de plágios e apropriações de textos alheios. Para escamotear a ação, a editoria teria criado diversos pseudônimos e retalhado excertos de diversos tradutores.
Ainda assim, é difícil dimensionar o papel de um tradutor para a obra de um autor, mas é ele o responsável por dar acessibilidade a determinados escritores. Quando a primeira tradução de Ulisses, de Joyce, foi publicada no Brasil, o professor e filólogo Antônio Houaiss foi “acusado” de tornar o livro do irlandês ainda mais intransponível. No começo dos anos 2000, a professora Bernardina da Silveira Pinheiro sofreu a acusação inversa: a de simplificar demais. Caetano Galindo, uma década mais tarde, teve uma recepção mais amistosa, e sua versão foi classificada com a mais próxima do original.
“É uma responsabilidade e tanto, pois, na hora em que você ‘decide’, digamos assim, qual o partido que vai adotar, que tipo de tratamento vai dar à obra em sua tradução, o que você julga mais adequado ou mais compatível com o original, você vai ter de manter esse mesmo tipo de aderência/descolamento ao longo de todo o texto. Não é fácil. E é por isso que podem existir tantas traduções de uma mesma obra. As escolhas nunca são as mesmas”, disse Bottmann em entrevista de 2013.
Borges, em um dos seus mais célebres textos, tratou da questão do tradutor. No conto, Pierre Menard almeja uma tradução tão perfeita de Dom Quixote para que a autoria passe a lhe caber. O relato borgiano é o retrato do labirinto da tradução, das voltas e voltas que se dá para transpor com o máximo de fidelidade uma obra. E, no final, qual o reconhecimento dado ao tradutor? Pouco ainda.

18 de nov. de 2018

SIP / Civilização Brasileira

mais uma sugestão de pesquisa em nível de mestrado sobre a história da tradução no brasil: a relação entre a Edições Sociedade Impressora Paulista (SIP) e a coleção "Edições SIP - Collecções econômicas" lançada pela civilização brasileira (após aquisição pela companhia editora nacional) durante alguns anos na década de 1930.

vale notar que nenhum dos volumes dessa coleção que chegaram a meu conhecimento traz créditos de tradução - o que não deixa de ser surpreendente em se tratando de uma coleção publicada (por acordo? por licenciamento? não sei dizer) pela civilização brasileira, então filial e subsidiária carioca da cia. editora nacional, esta sempre bastante ciosa nesse quesito.

18 de out. de 2018

um depoimento

na semana dos tradutores, blog da companhia das letras, disponível aqui


Um depoimento, por Denise Bottmann
Este ano faz 35 anos que comecei a traduzir. Digo, traduzir “para fora”. Antes já traduzia um pouco, poemas, ensaios, coisas de que gostava, que guardava na gaveta ou às vezes publicava aqui e ali, em alguma revista. Mas traduzir por encomenda, a pedido, por contratação, a primeira vez foi 35 anos atrás, com Luiz Schwarcz, ainda na Brasiliense. Ocorreu meio por acaso, e nem vem muito – para rimar – ao caso. Tirando um intervalo de dez anos em que parei de traduzir, continuo na C/companhia de Luiz, com alguns passeios paralelos.
Traduzir é algo maravilhoso, por todos os lados que se olhe. Começa, em primeiro lugar, por ser a única – não, única talvez não, mas a principal – coisa capaz de estabelecer contato entre povos e culturas de qualquer tempo e de qualquer espaço, transpondo milhares de anos e muitos milhares de quilômetros. Então é uma coisa significativa, importante. Imaginem todo mundo ilhado na sua língua. Bem ou mal, não haveria propriamente uma humanidade. Não estaríamos aqui conversando.
Outro lado de traduzir é que a gente se sente, de certa forma, contribuindo não só para conservar, mas também para criar uma memória das coisas – e, de mais a mais, uma memória compartilhada, trazida de outro canto do mundo. Digo isso porque considero memória algo muito importante. Sou historiadora, por formação, por carreira acadêmica e, na última década, por estudos historiográficos que venho fazendo sobre... ora, vejam só, a tradução no Brasil.
Além disso, o ofício é muito generoso, ensina sem cessar; a gente está sempre aprendendo, vendo coisas novas, sabendo coisas que não sabia antes, e de maneira muito agradável: lendo, escrevendo, com paz e tranquilidade, tendo nosso fiel amigo, o leão cuja pata ferida ajudamos a curar, sempre a nosso lado.

Assim, nesses 35 anos, é como se se formasse um círculo perfeito para quem adotou a tradução por gosto e convicção: é uma das mais importantes atividades que vieram a constituir um tempo-espaço humano coletivo; é o eixo de formação de um patrimônio imaterial comum; como se não bastasse, é um ofício prazeroso e enriquecedor no plano pessoal.
Quase tudo passa. Mas algumas coisas ficam. Ficam vozes de estadistas firmando a paz, súplicas de reis ansiando por herdeiros, cantos de amor e aventura de poetas, devoções ardentes, cosmogonias e épicos grandiosos, conselhos e receituários médicos multimilenares, de povos há muito desaparecidos.
Fica a escrita – e a escrita nunca cessa de se multiplicar: sobre ela, prosseguem os infindáveis pentimentos que a mão de todos os jerônimos e todas as jerônimas traça incansavelmente ao longo do tempo. E é assim que dialogamos.