30 de set. de 2008

naná


Emile Zola, Naná (trad. Eugênio Vieira, Círculo do Livro, por cortesia do Círculo de Leitores, s/d), p. 5:

cap. I
Às nove horas a platéia do Théâtre des Variétés estava ainda vazia. Alguns espectadores, no balcão e na orquestra, esperavam, como que tresmalhados por entre as poltronas de veludo vermelho, na branca claridade do lustre a meia-luz. Uma sombra inundava a grande mancha vermelha do pano; e nem um ruído chegava da cena, estando a ribalta às escuras e as estantes dos músicos esbandalhadas. Somente em cima, no galinheiro, em redor da rotunda do teto, onde mulheres e crianças nuas tomavam o seu vôo num céu enverdecido pelo gás, os chamamentos e os risos sobressaíam por entre um alarido contínuo, e cabeças entoucadas ou embarretadas se mostravam, como que dispostas em degraus, sob as largas clarabóias redondas, de molduras douradas. Por momentos aparecia uma funcionária, azafamada, de bilhetes na mão, conduzindo à sua frente um cavalheiro acompanhado de senhora, que se sentavam, o homem de casaca, a senhora elegante e esbelta, passeando o olhar pela sala.


Emile Zola, Naná (atrib. Roberto Valeriano, Nova Cultural, 2003) (p. 7):
cap. I:
Às nove horas a platéia do Théâtre des Variétés estava ainda vazia. Alguns espectadores, no balcão e na orquestra, esperavam, como que tresmalhados por entre as poltronas de veludo vermelho, na branca claridade do lustre a meia-luz. Uma sombra inundava a grande mancha vermelha do pano; e nem um ruído chegava da cena, estando a ribalta às escuras e as estantes dos músicos esbandalhadas. Somente em cima, no galinheiro, em redor da rotunda do teto, onde mulheres e crianças nuas tomavam o seu vôo num céu enverdecido pelo gás, os chamamentos e os risos sobressaíam por entre um alarido contínuo, e cabeças entoucadas ou embarretadas se mostravam, como que dispostas em degraus, sob as largas clarabóias redondas, de molduras douradas. Por momentos aparecia uma funcionária, azafamada, de bilhetes na mão, conduzindo à sua frente um cavalheiro acompanhado de senhora, que se sentavam, o homem de casaca, a senhora elegante e esbelta, passeando o olhar pela sala.


Emile Zola, Naná (trad. Eugênio Vieira, Círculo do Livro, por cortesia do Círculo de Leitores, s/d), p. 248:
cap. X
Então Naná tornou-se uma mulher elegante, usufrutuária da estupidez e da imundície dos homens, marquesa do asfalto das ruas. Aquilo foi uma subida brusca e definitiva, uma subida na celebridade da galantaria, ostentando às claras as loucuras do dinheiro e as audácias lamacentas da beleza. Imperou, imediatamente, entre as mais queridas. As suas fotografias eram expostas nas vitrinas, citavam-na nos jornais. Quando passava, de carruagem, nos bulevares, a multidão voltava-se e nomeava-a com a emoção de um povo que saúda a sua soberana, enquanto ela, familiar, reclinada nos seus trajes flutuantes, sorria com ar alegre, sob a chuva do frisado loiro de seus cabelos, que lhe afogavam o azul bistrado dos olhos e o vermelho pintado dos lábios. E o prodígio foi que aquela jovem gorda, tão desastrada em cena, tão engraçada quando queria fazer-se de mulher honesta, representava na cidade, sem esforço, o papel de mulher encantadora.


Emile Zola, Naná (atrib. Roberto Valeriano, Nova Cultural, 2003) (p. 270):
Cap. X
Então Naná tornou-se uma mulher elegante, usufrutuária da estupidez e da imundície dos homens, marquesa do asfalto das ruas. Aquilo foi uma subida brusca e definitiva, uma subida na celebridade da galantaria, ostentando às claras as loucuras do dinheiro e as audácias lamacentas da beleza. Imperou, imediatamente, entre as mais queridas. As suas fotografias eram expostas nas vitrinas, citavam-na nos jornais. Quando passava, de carruagem, nos bulevares, a multidão voltava-se e nomeava-a com a emoção de um povo que saúda a sua soberana, enquanto ela, familiar, reclinada nos seus trajes flutuantes, sorria com ar alegre, sob a chuva do frisado loiro de seus cabelos, que lhe afogavam o azul bistrado dos olhos e o vermelho pintado dos lábios. E o prodígio foi que aquela jovem gorda, tão desastrada em cena, tão engraçada quando queria fazer-se de mulher honesta, representava na cidade, sem esforço, o papel de mulher encantadora.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: wormbook.addr.com

à dama das borrascosas alturas

emily brontë, o morro dos ventos uivantes (trad. oscar mendes, abril cultural, com licença da ed. globo, 1971) (p. 12):

José rosnou uns sons indistintos lá nas profundezas da adega, mas não deu sinal de aparecimento, de modo que seu patrão desceu a procurá-lo, deixando-me cara a cara com a celerada da cachorra e um par de terríveis peludos cães pastores que com ela exerciam estreita vigilância sobre todos os meus movimentos. Pouco desejoso de entrar em contato com os seus dentes, fiquei quieto, mas, acreditando que eles dificilmente entenderiam insultos tácitos, pus-me infelizmente a piscar os olhos e a fazer caretas para o trio. Alguma expressão de meu rosto irritou tanto a "madame", que ela se enraiveceu de repente e saltou-me para os joelhos.

emily brontë, o morro dos ventos uivantes (atrib. silvana laplace, nova cultural, 2003) (p. 10):

José rosnou alguns sons indistintos lá nas profundezas da adega, mas não apareceu, de maneira que seu patrão desceu a fim de procurá-lo, deixando-me cara a cara com a celerada da cadela e um par de terríveis peludos cães pastores que com ela exerciam estreita vigilância sobre todos os meus movimentos. Pouco desejoso de entrar em contato com os seus dentes, fiquei quieto, mas, acreditando que eles dificilmente entenderiam insultos tácitos, pus-me infelizmente a piscar os olhos e a fazer caretas para o trio. Alguma expressão de meu rosto irritou tanto a "madame", que ela se enraiveceu de repente e saltou-me para os joelhos.

abaixo, o que se pode considerar como tradução original de direito próprio - dispensarei os negritos por razões evidentes.

emily brontë, o morro dos ventos uivantes (trad. rachel de queiroz, círculo do livro, sob licença da record, 1995) (p. 18):
Das profundas da adega, Joseph resmungou indistintamente, mas não deu indícios de que subia; o patrão mergulhou, pois, em sua busca, deixando-me vis-à-vis com a feroz cadela e um casal de mal-encarados e peludos cães de pastor, que com ela partilhavam a ciosa guarda de todos os meus movimentos. Fiquei imóvel, pois não me agradava nada a ideia de lhes entrar em contato com as presas; mas, crente de que não entenderiam insultos mímicos, entreguei-me, infelizmente, ao prazer de piscar e fazer caretas para o trio; algum trejeito que tomou minha cara irritou a dama que, de repente, se enfureceu e me saltou aos joelhos.

emily brontë, o morro dos ventos uivantes (trad. celestino da silva, vecchi, 1967) (p. 9):
José resmungou indistintamente qualquer coisa no interior da adega, mas não deu sinal de sair; tanto assim que o patrão foi ao seu encontro, deixando-me frente a frente com aquela cachorra mal-educada e com um par de horrendos e peludos policiais que a secundavam na ciosa vigilância de todos os meus movimentos. Não tendo nenhum desejo de entrar em contacto com os seus dentes, fiquei quieto: mas, convencido de que eles não compreenderiam os meus tácitos insultos, atrevi-me, infelizmente, a piscar os olhos e a fazer caretas para aquela trinca. Aconteceu que algum aspecto da minha fisionomia irritou de tal modo a cadela que ela foi logo tomada de um acesso de fúria e se atirou sobre os meus joelhos.

o original:
Joseph mumbled indistinctly in the depths of the cellar, but gave no intimation of ascending; so his master dived down to him, leaving me vis-à-vis the ruffianly bitch and a pair of grim shaggy sheep-dogs, who shared with her a jealous guardianship over all my movements.  Not anxious to come in contact with their fangs, I sat still; but, imagining they would scarcely understand tacit insults, I unfortunately indulged in winking and making faces at the trio, and some turn of my physiognomy so irritated madam, that she suddenly broke into a fury and leapt on my knees.  

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.
imagem: br.geocities.com

faz uns 70 anos, sobre "essas tenazes abelhas da internacionalização"

Monteiro Lobato, Traduções, in Mundo da Lua e Miscelânea

"Entre os aspectos novos que o movimento editorial criou nesses últimos tempos cumpre assinalar a fúria tradutora. ... Um dia um editor inteligente teve a idéia de arejar o cérebro dos nossos eternos ledores de escrichadas e ponsonadas. ... Foi com verdadeira avidez que o público se atirou às traduções. ... A novidade era absoluta. ... E, deliciado com tanto novo, o público passou a pedir mais, mais, mais, até que se saturou, ou antes, que os editores saturaram o mercado. Só então os leitores começaram a dar tento ao mérito das traduções. Foi verificando que com a pressa de apresentar novidades os editores descuravam da qualidade, dando inúmeras traduções perfeitamente infames. E o público reclamou... Quanto à reclamação do público, os editores estudaram o caso e verificaram que havia razão na queixa. Traduzir é a tarefa mais delicada e difícil que existe... Ora isso exige que o tradutor seja também escritor - e escritor decente. Mas os escritores decentes ... preferem ... escrever obras originais do que transplantar para o português obras alheias. ... Daí um impasse. Mas o caminho é esse. Os editores têm ... de procurar por todos os meios descobrir bons tradutores. ... Os tradutores são os maiores beneméritos que existem, quando bons; e os maiores infames, quando maus. Os bons servem à cultura humana, dilatando o raio de alcance das grandes obras. ... E, pois, benditos sejam os editores inteligentes que descobrem bons tradutores, e malditos sejam os que entregam obras-primas da humanidade ao massacre dos infames 'tradittores'. "

carta

reproduzo aqui a carta que enviei a centenas de pessoas, alertando sobre os plágios da nova cultural.


Escrevemos para lhes expor um problema e solicitar seu apoio.

Talvez os srs. tenham tomado conhecimento pela imprensa de um certo início de movimentação entre tradutores contra a apropriação indébita de traduções clássicas, feitas por intelectuais já falecidos, de grandes obras da literatura universal.

Sucintamente, trata-se do seguinte:
Um levantamento inicial mostra que mais ou menos 30 obras da grande literatura universal, que haviam sido publicadas na coleção da Abril Cultural, foram reeditadas pela editora Nova Cultural com a substituição dos nomes dos tradutores originais, aparecendo em lugar deles ou nomes de fantasia ou nomes verdadeiros. Essa quantidade de obras corresponde a mais de 60% dos títulos da coleção Obras-Primas da editora Nova Cultural, e destarte parece indicar que não se trata de casos isolados, e sim de uma prática deliberada e sistemática adotada pela referida editora.

O que parece se configurar, portanto, é que a editora de maior visibilidade no país (que muitas pessoas ainda associam à Editora Abril e à extinta Abril Cultural) se apoderou de um patrimônio tradutório do país (pois nossa formação cultural, num país que depende tremendamente do acervo de obras traduzidas para o português, se constrói também e maciçamente sobre essa atividade) e, por razões ignoradas, mas com certeza escusas e que não vêm agora ao caso, eliminou, suprimiu, enterrou e está contribuindo ativamente para que se oblitere a contribuição desses intelectuais portugueses e brasileiros para a constituição de um acervo das grandes obras mundiais traduzidas para o vernáculo. Assim temos que Oscar Mendes, Octavio Mendes Cajado, Mario Quintana, Ligia Junqueira, Hernâni Donato, Silvio Meira, Brenno Silveira, Galeão Coutinho, Porto Carreiro, João Gaspar Simões, entre outros, foram eliminados, suprimidos, excluídos, aniquilados, exterminados, dos créditos de suas respectivas traduções. Pelo andar da carruagem, dentro em breve Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles, Manoel Bandeira também serão banidos dos créditos das traduções... Mesmo que isso não ocorra, de qualquer forma o sumiço já perpetrado é mais do que suficiente para despertar uma imensa indignação entre as pessoas de bem que prezam a parca tradição cultural deste país, construída tão a duras penas.

O fato é tanto mais grave porque, aqui, não são práticas avulsas, motivadas por questões financeiras, de pequenas editoras desacreditadas, como a Martin Claret, e sim partem de uma empresa de grande porte com suposta credibilidade acumulada ao longo de décadas junto ao público brasileiro, a qual certamente se aproveitou de seu prestígio junto aos leitores de boa-fé para impingir como verdade fraudes da mais descabelada grosseria.

Assim, a nosso ver, seria da máxima e mais premente importância que a referida editora devolvesse o que é de direito a quem é de direito, apresentando os devidos créditos de tradução desses grandes clássicos, restituindo a verdade e tratando de recompor esse nosso patrimônio vilipendiado.

Além de dever restituir a verdade, num gesto de decência básica e fundamental, uma atitude pública da Nova Cultural, retratando-se de sua conduta, certamente ajudaria a coibir a continuidade dessa prática inominável e permitiria que a história e a memória da tradução literária neste país deixassem de ser tão brutalmente adulteradas.

Foi por isso que decidimos nos dirigir aos srs., pois temos a certeza de que estarão entre os primeiros a defender nosso patrimônio intelectual e o direito do leitor brasileiro e da sociedade em geral em ter um acesso livre, transparente e de boa qualidade à cultura universal.

Solicitamos encarecidamente seu apoio para obstar essa nefanda devastação em curso e contamos com sua divulgação de nosso protesto entre todos os meios, entidades e instituições culturais que estiverem ao seu alcance. Aproveitamos a oportunidade para convidá-los a visitar nosso blog, onde estão publicadas estas e outras notícias, e onde há um abaixo-assinado para adesão: assinado-tradutores.blogspot.com. Pedimos que, caso concordem, manifestem sua adesão ao referido abaixo-assinado.

Atenciosamente,
Denise Bottmann
assinado-tradutores.blogspot.com

o vermelho e o negro

stendhal, o vermelho e o negro
a. trad. luiz costa lima, editorial bruguera, 1969
b. atrib. maria cristina f. da silva, nova cultural, 2003

a. livro primeiro, cap. III, p. 31:
a visita durou várias horas. o cura convidou para almoçar o senhor appert, que se escusou alegando ter cartas a escrever: êle não desejava comprometer mais ainda seu generoso companheiro. por volta das três horas, êstes senhores foram acabar a inspeção do asilo de mendicidade e voltaram em seguida à prisão. Aí, encontraram à porta o carcereiro, espécie de gigante de seis pés de altura e de pernas arqueadas; sua figura ignóbil tornara-se hedionda por efeito do terror.

b. livro primeiro, cap. III, p. 14:
a visita durou várias horas. o cura convidou para almoçar o sr. appert, que se escusou alegando ter cartas a escrever: ele não desejava comprometer mais ainda seu generoso companheiro. por volta das três horas, estes senhores foram acabar a inspeção do asilo de mendigos e voltaram em seguida à prisão. Aí, encontraram à porta o carcereiro, espécie de gigante de dois metros de altura e de pernas arqueadas; sua figura ignóbil tornara-se hedionda por efeito do terror.

a. livro segundo, cap. IV, p. 324:
não há cem mil escudos de renda nem condecoração alguma que possa lutar contra tal norma de salão. a menor idéia viva parecia uma grosseria. apesar do bom tom, da polidez perfeita, da vontade de ser agradável, o tédio se lia em tôdas as caras. os jovens que vinham apresentar seus cumprimentos, tendo receio de falar de qualquer coisa que provocasse suspeita de pensamento ou de trair alguma leitura proibida, calavam-se depois de algumas palavras bem elegantes sôbre Rossini e sôbre o tempo que fazia.

b. livro segundo, cap. IV, p. 178:
não há 100 mil escudos de renda nem condecoração alguma que possa lutar contra tal norma de salão. a menor idéia viva parecia uma grosseria. apesar do bom-tom, da polidez perfeita, da vontade de ser agradável, o tédio se lia em todas as caras. os jovens que vinham apresentar seus cumprimentos, tendo receio de falar de qualquer coisa que provocasse suspeita de pensamento ou de trair alguma leitura proibida, calavam-se depois de algumas palavras bem elegantes sobre Rossini e sobre o tempo que fazia.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: gamespot.com

cirano de bergerac


a denúncia inicial dessa baixaria foi feita por ivo barroso logo que a nova cultural lançou seu inqualificável fábio m. alberti

edmond rostand, cirano de bergerac
a. trad. carlos porto carreiro, abril cultural, 1976
b. atrib. fábio m. alberti, nova cultural, 2002

a. cena iv (p. 53):
cirano:
alto! alevantado!
- nariz chato, rombudo, arrinco, desnasado
sabei que eu tenho orgulho em semelhante apêndice!
pois, de ter nariz grande um cavalheiro, entende-se
que ele é bravo, polido, afável, liberal,
espirituoso e bom, tal qual eu sou, e tal
qual vos é, vil maroto, ilícito vos crerdes!
essa cara, a que o medo empresta cores verdes,
e esta mão vai buscar acima desse papo,
é tão falta...
[...]
... de brio e sentimento guapo,
de pompa, de saúde e cor amena e clara,
de nariz, afinal como aqueloutra cara...
[...]
que esta bota vos beija abaixo dos quadris.

b. cena iv (p. 56):
cyrano:
alto! alevantado!
- nariz chato, rombudo, arrinco, desnasado
sabei que eu tenho orgulho em semelhante apêndice!
pois, de ter nariz grande um cavalheiro, entende-se
que ele é bravo, polido, afável, liberal,
espirituoso e bom, tal qual eu sou, e tal
qual vos é, vil maroto, ilícito vos crerdes!
esse cara, a que o medo empresta cores verdes,
e esta mão vai buscar acima desse papo,
é tão falta...[...]... de brio e sentimento guapo,
de pompa, de saúde e cor amena e clara,
de nariz, afinal como aqueloutra cara...
[...]
que esta bota vos beija abaixo dos quadris.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

maupassant, uma vida


no caso de uma vida, de guy de maupassant, a edição da nova cultural atribui os créditos de tradução a roberto domênico proença, o mesmo que assinou a apropriação, investigada e denunciada pela folha de s.paulo, dos contos de voltaire traduzidos por mario quintana.

em uma vida, foram refeitos os três parágrafos iniciais. a partir daí, porém, segue-se fielmente a tradução original de ascendino leite.

guy de maupassant, uma vida:
a. trad. ascendino leite, abril cultural, 1985 (livraria martins, 1953)
b. atrib. roberto domênico proença, nova cultural, 2003

a. p. 23:
o último quadro, no entanto, representava um drama. próximo ao coelho, que continuava a comer, via-se um rapaz em posição estendida como se estivesse morto. a jovem contemplava-o, abrindo o seio com uma espada, e os frutos da árvores tinham-se tornado escuros.jeanne já estava a renunciar à compreensão da história quando descobriu num canto da gravura um animalzinho tão microscópico que o coelho, se fosse real, tê-lo-ia comido como uma verdade qualquer. e no entanto era a efígie de um leão.

b. p. 18:
o último quadro, no entanto, representava um drama. próximo ao coelho, que continuava a comer, via-se um rapaz em posição estendida como se estivesse morto. a jovem contemplava-o, abrindo o seio com uma espada, e os frutos da árvores tinham se tornado escuros.jeanne já estava a renunciar à compreensão da história quando descobriu num canto da gravura um animalzinho tão microscópico que o coelho, se fosse real, tê-lo-ia comido como uma verdade qualquer. e no entanto era a efígie de um leão.

a. p. 75:
jeanne sentia deliciosamente o sabor da bruma salgada, penetrando-a até a ponta dos dedos. o mar cobria tudo. no entanto, diante deles, uma coisa cinzenta, confundindo-se com o suave palor da aurora, espécie de nuvens devolutas, pontiagudas e despedaçadas, parecia pousar sobre as ondas.

b. pp. 85-6:
jeanne sentia deliciosamente o sabor da bruma salgada, penetrando-a até a ponta dos dedos. o mar cobria tudo. no entanto, diante deles, uma coisa cinzenta, confundindo-se com o suave palor da aurora, espécie de nuvens devolutas, pontiagudas e despedaçadas, parecia pousar sobre as ondas.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



suave é a noite



Scott Fitzgerald, Suave é a noite

a. tradução de Lígia Junqueira, Abril, 1972
b. atribuição a Enrico Corvisieri, Nova Cultural, 1995



a. 1a. parte. XIX (pp.104-5):
Abe devia partir da Gare Saint-Lazare às onze horas. Estava só, sob a suja cúpula de vidro, relíquia da era do Palácio de Cristal; suas mãos, que tinham a vaga côr acinzentada que só aparece após vinte e quatro horas de vigília, estavam nos bolsos, para esconder a tremedeira. Assim sem chapéu, via-se que seus cabelos sòmente na parte de cima estavam penteados para trás - os de baixo apontavam resolutamente para os lados. Mal se podia reconhecer nêle o homem que nadara na praia do Hotel de Gausse, quinze dias antes.

b. 1a. parte, XIX (p. 88):
Abe devia partir da Gare Saint-Lazare às onze horas. Estava só, sob a suja cúpula de vidro, relíquia da era do Palácio de Cristal; suas mãos, que tinham a vaga cor acinzentada que só aparece após vinte e quatro horas de vigília, estavam nos bolsos, para esconder a tremedeira. Assim sem chapéu, via-se que seus cabelos somente na parte de cima estavam penteados para trás - os de baixo apontavam resolutamente para os lados. Mal se podia reconhecer nele o homem que nadara na praia do Hotel de Gausse, quinze dias antes.

a. 2a. parte, VIII (p. 189):
Foi embora empurrando a bicicleta, sentindo que os olhos de Nicole o seguiam, sabendo que ela sofria com aquêle seu primeiro amor, sabendo que também êle tinha o coração amargurado. Seguiu durante trezentas jardas morro acima, até o outro hotel, e tomou um quarto. Dali a pouco percebeu que se lavava, sem se lembrar do que acontecera nos dez minutos intermediários, a não ser do som de vozes agitadas, vozes sem importância, de pessoas que não sabiam da paixão que êle sentia.

b. 2a. parte, VIII (p. 158):
Foi embora empurrando a bicicleta, sentindo que os olhos de Nicole o seguiam, sabendo que ela sofria com aquele seu primeiro amor, sabendo que também ele tinha o coração amargurado. Seguiu durante trezentos metros morro acima, até o outro hotel, e tomou um quarto. Dali a pouco percebeu que se lavava, sem se lembrar do que acontecera nos dez minutos intermediários, a não ser do som de vozes agitadas, vozes sem importância, de pessoas que não sabiam da paixão que êle sentia.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: capa da edição original, www.sc.edu

carta a departamentos de letras e literatura

bom dia, senhores

dispensarei qualquer arrazoado sobre as características de nossa formação cultural, tão dependente de pontes para o mundo, digamos, da "cultura universal", e sobre a importância das traduções de grandes obras da literatura mundial para nós, brasileiros, feitas, aliás, por renomados intelectuais (portugueses e brasileiros) do passado.

irei direto ao ponto. tem-se evidenciado que a editora nova cultural, em sua coleção obras-primas (montada nos moldes da coleção imortais da literatura, da extinta abril cultural), em vários casos eliminou a correta publicação dos créditos de tradução dessas obras, passando a atribuí-la a outros tradutores, talvez fictícios, talvez existentes.

o que parece se configurar, portanto, é que a editora de maior visibilidade no país (que muitas pessoas ainda associam à editora abril) tomou um patrimônio tradutório do país e, por razões ignoradas, mas com certeza escusas e inaceitáveis, eliminou, suprimiu, enterrou a contribuição desses intelectuais para nosso patrimônio cultural, e está trabalhando ativamente para o esquecimento do papel por eles desempenhado nesse âmbito. assim temos que os nomes de octavio mendes cajado, mario quintana, joão gaspar simões, araújo nabuco, silvio meira, galeão coutinho, porto carreiro, brenno silveira foram eliminados, suprimidos, tirados fora, aniquilados, exterminados, dos créditos de tradução. tal prática não poupou sequer um nome em vida, a saber, hernâni donato.

o fato é tanto mais grave porque, aqui, não são procedimentos avulsos, motivados por questões financeiras, de pequenas editoras desacreditadas, como a martin claret, e sim partem de uma empresa de grande porte com suposta credibilidade acumulada ao longo de décadas junto ao público leitor brasileiro.

desnecessário lembrar que muito provavelmente esses créditos fraudados estão sendo reproduzidos aos milhares em inúmeras teses, dissertações, artigos, papers, trabalhos de curso e assim por diante, se não em todas, pelo menos na maioria das faculdades e institutos universitários de literatura e línguas no brasil, numa rede de distribuição capilar que multiplica exponencialmente a força destrutiva de tal prática.

abaixo transcrevo a listagem da coleção obras-primas.

a coleção é composta por 5 obras em português (portanto sem tradução), 23 obras publicadas com créditos aparentemente corretos de tradução, 23 obras (se incluirmos Irmãos Karamazóvi), cujos falsos créditos de tradução estão destacados em vermelho, e 1 sob suspeita, destacado em verde.

OBS.: ISBN 85-351-0485-2: Dostoievski, Os irmãos Karamazóvi, trad. Enrico Corvisieri (Natália Nunes e Oscar Mendes) – apesar de publicado, foi cancelado da coleção, e seu número dentro dela foi substituído.

Miguel de Cervantes, Dom Quixote, trad. Viscondes de Castilho e Azevedo
Victor Hugo, Os trabalhadores do mar, trad. Machado de Assis
Dante Alighieri, A divina comédia, trad. Fábio M. Alberti (Hernâni Donato)
Dostoievski, Crime e castigo, não consta tradutor (Natália Nunes)
Edmond Rostand, Cyrano de Bergerac, trad. Fábio M. Alberti (Porto Carreiro)
Stendhal, O vermelho e o negro, trad. Maria Cristina F. da Silva (Luiz Costa Lima)
Flaubert, Madame Bovary, trad. Enrico Corvisieri (Araújo Nabuco)
Jane Austen, Razão e sensibilidade, trad. Therezinha Deutsch
Leon Tolstoi, Ana Karênina, trad. Mirtes Ugeda Coscodai (João Gaspar Simões)
Homero, Odisséia, trad. Antonio Pinto de Carvalho
Tommaso di Lampedusa, O leopardo, trad. Leonardo Codignoto (Rui Cabeçadas)
Charles Dickens, Um conto de duas cidades, trad. Sandra Luzia Couto
Bram Stoker, Drácula, trad. Vera M. Renoldi
Euclides da Cunha, Os sertões
Franz Kafka, A metamorfose, trad. Calvin Carruthers (não localizado)
Mark Twain, As aventuras de Tom Sawyer, trad. Luísa Derouet
Choderlos de Laclos, Relações perigosas, trad. Sérgio Milliet
Sinclair Lewis, Babbitt, trad. Leonel Vallandro
Camões, Os lusíadas
Goethe, Fausto e Werther, trad. Alberto Maximiliano (Silvio Meira e Galeão Coutinho, respectivamente)
Voltaire, Contos, trad. Roberto Domenico Proença (Mário Quintana)
Tchecov, As três irmãs, trad. Maria Jacintha
Herman Melville, Moby Dick, trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes, trad. Silvana Laplace (Oscar Mendes)
Machado de Assis, Memorial de Aires e Esaú e Jacó
Daniel Defoe, Moll Flanders, trad. Antônio Alves Cury
Eça de Queiroz, A cidade e as serras
Gogol, Almas mortas, trad. Tatiana Belinky
Boccacio, Decamerão, trad. Torrieri Guimarães
Pirandello, O falecido Mattia Pascal e Seis personagens à procura de autor, trad. Fernando Corrêa Fonseca (Mário da Silva e Brutus Pedreira)
Louise May Alcott, Mulherzinhas, trad. Vera Maria Marques Martins
Virgílio, Eneida, trad. Tassilo Orpheu Spalding
Alexandre Dumas Filho, A dama das camélias, trad. Therezinha Deutsch
Henry Fielding, Tom Jones, trad. Jorge Pádua Conceição (Octavio Mendes Cajado)
Émile Zola, Naná, trad. Roberto Valeriano (Eugênio Vieira)
Shakespeare, Tragédias, trad. Beatriz Viégas-Faria
Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray, trad. Enrico Corvisieri (Oscar Mendes)
Honoré de Balzac, A mulher de trinta anos, trad. Enrico Corvisieri (José Maria Machado)
Edgar Allan Poe, Histórias extraordinárias, trad. Brenno Silveira e outros
Jules Verne, A volta ao mundo em oitenta dias, trad. Therezinha Deutsch
Jonathan Swift, As viagens de Gulliver, trad. Therezinha Deutsch
Alexandre Dumas, Os três mosqueteiros, trad. Mirtes Ugeda Coscodai (Octavio Mendes Cajado)
Ibsen, A casa de bonecas, trad. Cecil Thiré
Joseph Conrad, Lord Jim, trad. Carmen Lia Lomonaco (Mário Quintana)
Henry James, Lady Barberina e A outra volta do parafuso, trad. Leônidas Gontijo e Brenno Silveira
Raul Pompéia, O ateneu
Guy de Maupassant, Uma vida, trad. Roberto Domenico Proença (Ascendino Leites)
Scott Fitzgerald, Suave é a noite, trad. Enrico Corvisieri (Lígia Junqueira)
D. H. Lawrence, Mulheres apaixonadas, trad. Cabral do Nascimento
Walter Scott, Ivanhoé, trad. Roberto Nunes Whitaker (Brenno Silveira)

seu apoio será da máxima importância, e sugestões sobre maneiras de encaminhar o problema serão muitíssimo bem-vindas.

agradeço a atenção,

denise bottmann
dbottmann@uol.com.br

a divina comédia














Divina Commedia

Canto XI
La frode, ond'ogne coscienza è morsa,
può l'omo usare in colui che 'n lui fida
e in quel che fidanza non imborsa.
Questo modo di retro par ch'incida
pur lo vinco d'amor che fa natura;
onde nel cerchio secondo s'annida
ipocresia, lusinghe e chi affattura,
falsità, ladroneccio e simonia,
ruffian, baratti e simile lordura.

Dante, A divina comédia (trad. Hernâni Donato, Abril Cultural, por cessão da Cultrix para a edição de 1979) (p. 57):
Canto XI
"A fraude, seguida por remorso eterno, é praticada traindo-se a confiança conquistada ou tramando danos contra o próximo que confia desprevenido. Quem por este segundo modo ofende a doce lei do amor fraterno, encontra seu castigo no círculo segundo. Ali estão os hipócritas, os aduladores, os falsários, os mistificadores, os rufiões, os simoníacos e outros da mesma laia."

Dante, A divina comédia ("trad." Fábio M. Alberti, Nova Cultural, 2002) (p. 49):
Canto XI
"A fraude, seguida por eterno remorso, é praticada traindo-se a confiança conquistada ou tramando danos contra o próximo que confia. Quem por este segundo modo ofende a doce lei do amor fraterno encontra seu castigo no círculo segundo. Nele se acham os hipócritas, os aduladores, os falsários, os mistificadores, os rufiões, os simoníacos e outros do mesmo jaez."

Original:
Canto XIII
Non era ancor di là Nesso arrivato,
quando noi ci mettemmo per un bosco
che da neun sentiero era segnato.
Non fronda verde, ma di color fosco;
non rami schietti, ma nodosi e 'nvolti;
non pomi v'eran, ma stecchi con tòsco:
(...)
Io sentia d'ogne parte trarre guai,
e non vedea persona che 'l facesse;
per ch'io tutto smarrito m'arrestai.
Cred'io ch'ei credette ch'io credesse
che tante voci uscisser, tra quei bronchi
da gente che per noi si nascondesse.
Però disse 'l maestro: «Se tu tronchi
qualche fraschetta d'una d'este piante,
li pensier c'hai si faran tutti monchi».
(...)
e colsi un ramicel da un gran pruno (...)

Dante, A divina comédia (trad. Hernâni Donato, Abril Cultural, por cessão da Cultrix para a edição de 1979) (pp. 62-63):

Canto XIII
Não havia ainda Nesso chegado à outra margem quando penetramos floresta de tal modo espessa que por trilha alguma era cortada. Não era verde a sua fronde, mas escura; não lisos e sim nodosos os ramos, dos quais não balouçavam frutos, porém farpas venenosas.[...] De todos os lados chegava-me aiar dolorido, mas não alcançava vislumbrar os que assim gritavam. Detive-me, confuso e angustiado. Creio que o guia supôs estivesse eu acreditando procederem os gritos de turba que entre as árvores de nós se houvesse escondido. Pois observou: “Se quebrares ramo dessa fronde, verás que teu pensar não é acertado”. [...] de um galho arranquei um ramo [...]

Dante, A divina comédia ("trad." Fábio M. Alberti, Nova Cultural, 2002) (pp. 56-57):
“Nesso ainda não chegara à outra margem quando adentramos uma floresta de tal modo espessa que por trilha alguma era cortada. Sua fronde não era verde, mas escura; não eram lisos seus ramos, e sim nodosos, e deles pendiam, em lugar de frutos, farpas venenosas” (...)
“Vinha-me de todos os lados o aiar dolorido, mas eu não alcançava deslumbrar os que assim gritavam. Detive-me confuso e angustiado. Creio que o guia supôs estivesse eu acreditando procederem os gritos de tubas, que entre as árvores de nós se houvesse escondido. Ele observou: Se quebrares um ramo dessa dessa fronde verás que teu pensar não é correto”
“Arranquei então o ramo de um galho”(...)

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem na biblioteca vaticana.

o leopardo


(aqui também em parceria com Saulo von Randow Jr.)

Lampedusa, O leopardo, trad. Rui Cabeçadas, Abril Cultural (sob licença da Difel), 1974

Capítulo II – p. 63
Nem uma árvore, nem uma gota de água : sol e poeira. No interior das carruagens, fechadas por causa do sol e do pó, a temperatura havia certamente atingido os cinqüenta graus. Aquelas árvores sedentas, gesticulando sob um céu desbotado, anunciavam muitas coisas: que estavam a menos de duas horas do termo da viagem; que entravam nos domínios da casa Salina; que podiam comer e talvez lavar também o rosto na água infecta dos poços.

Capítulo IV – p. 146
A primeira visita de Angelica à família na qualidade de noiva desenrolou-se segundo uma montagem teatral impecável. A atitude da moça foi a tal ponto perfeita que parecia ter-lhe sido sugerida palavra por palavra por Tancredi (...)
Angelica chegou às seis da tarde, vestida de branco e rosa; as grossas e negras tranças abrigavam-se na sombra de um grande chapéu de palha ainda estival, cujos cachos de uvas artificiais e espigas douradas evocavam discretamente as vinhas de Gibidolce (...)

Capítulo V – p. 195
As origens do padre Pirrone eram rústicas : nascera em San Cono, uma aldeia pequenina que, hoje, graças ao ônibus, é quase uma das "favelas" satélites de Palermo, mas que, há cerca de um século, pertencia, por assim dizer, a um sistema planetário independente, distante como estava, quatro ou cinco horas-carroça, do sol palermitano.

Lampedusa, O leopardo, pretensa tradução de Leonardo Codignoto, Nova Cultural, 2003

Capítulo II – p. 66
Nem uma árvore sequer, nem uma gota de água : sol e poeira. No interior das carruagens, fechadas por causa do sol e do pó, a temperatura havia certamente atingido os cinqüenta graus. Aquelas árvores sedentas, gesticulando sob um céu desbotado, anunciavam muitas coisas: que estavam a menos de duas horas do termo da viagem; que entravam nos domínios da casa Salina; que podiam comer e talvez lavar também o rosto na água infecta dos poços.

Capítulo IV – pp. 162-3
A primeira visita de Angelica à família na qualidade de noiva desenrolou-se segundo uma montagem teatral impecável. A atitude da moça foi a tal ponto perfeita que parecia ter-lhe sido sugerida palavra por palavra por Tancredi (...)
Angelica chegou às seis da tarde, vestida de branco e rosa; as grossas e negras tranças abrigavam-se na sombra de um grande chapéu de palha ainda estival, cujos cachos de uvas artificiais e espigas douradas evocavam discretamente as vinhas de Gibidolce (...)

Capítulo V – p. 219
As origens do padre Pirrone eram rústicas : nascera em San Cono, uma aldeia pequenina que, hoje, graças ao ônibus, é quase uma das "favelas" satélites de Palermo, mas que, há cerca de um século, pertencia, por assim dizer, a um sistema planetário independente, distante como estava, quatro ou cinco horas-carroça, do sol palermitano.

o trocadilho da imagem com o infame decapitamento tradutório de rui cabeçadas demandará explicações? já o infame trocadilho para a invenção do fantasma canibal será exposto em outro post.
p.s. a sherloquice inicial sobre a decapitação de rui cabeçadas se deve a euler de frança belém, do intrépido jornal opção de goiânia. desde 2004 alertava ele: "A segunda tradução, da Nova Cultural, pode não ser plágio da versão de Cabeçadas, mas é muito parecida, senão idêntica".

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: reticenciaseumpontofinal.blogspot.com

historinha edificante para o final de ano


a historinha é a seguinte:

em 21 de agosto de 2002, a veja online divulgou a coleção de obras-primas publicadas pela nova cultural.

a lista divulgada pela veja online é bastante falha, com peculiaridades muito interessantes, mas que não vêm ao caso agora.

o interessante é a atribuição dos créditos de tradução de a metamorfose de kafka, na edição da nova cultural, a "calvin carruthers".

ora, sucede que calvin carruthers era o nome do detetive, personagem do filme de horror classe Z blood and lace (1971), direção de philip s. gilvert, eua, papel desempenhado por vic tayback (que também estrelou alice não mora mais aqui), o qual morreu em 1990, e cujo último filme foi horseplayer (1990), dirigido por kurt voss, no gênero psychothriller.

neste referido filme (horseplayer), também classe Z, vic tayback desempenhou o papel de um personagem chamado, nada mais nada menos, george samsa.

desnecessário lembrar que o nome do protagonista de a metamorfose é gregor samsa.

esse lúgubre puzzle barato criado pela nova cultural e divulgado pela veja online, e impresso certamente em muitas dezenas de milhares de exemplares que foram adquiridos na maior boa-fé pelos pobres leitores brasileiros, é um bom exemplo do espírito cultural da referida indústria cultural encabeçada pela nova cultural neste país.

seria o caso de pedir uma revisão dos significados atribuídos aos vocábulos "cultura" e "cultural" junto aos dicionaristas brasileiros?

boas festas, e sobreviveremos!

ana karênina



(esta descoberta se deveu à colaboração de josé oscar de almeida marques e saulo von randow jr.)

Tolstói, Ana Karênina, trad. João Gaspar Simões. Abril Cultural, 1982

TERCEIRA PARTE
Capítulo V (Volume I), p. 238
Depois do almoço coube a Liêvin ceifar entre um velho trocista, que o convidou a alinhar com ele, e um mujique novo, que se casara no outono e era a primeira vez que ceifava naquele ano.O velho, que se mantinha muito direito, ia adiante, dando grandes passadas rítmicas, com as suas pernas ligeiramente tortas. Graças a um movimento vigoroso e compassado, que não lhe custava mais que balançar os braços em marcha, como se brincasse, amontoava medas altas e uniformes. Dir-se-ia que não era ele, mas apenas a gadanha afiada que cortava a erva suculenta.


Tolstói, Ana Karênina, trad. atrib. a Mirtes Ugeda. Nova Cultural, 2003
TERCEIRA PARTE
Capítulo V, p. 210
Depois do almoço coube a Liêvin ceifar entre um velho zombador, que o convidou a alinhar com ele, e um mujique novo, que se casara no outono e era a primeira vez que ceifava naquele ano.O velho, que se mantinha muito direito, ia adiante, dando grandes passadas rítmicas, com as suas pernas ligeiramente tortas. Graças a um movimento vigoroso e compassado, que não lhe custava mais que balançar os braços em marcha, como se brincasse, amontoava medas altas e uniformes. Dir-se-ia que não era ele, mas apenas a gadanha afiada que cortava a erva suculenta.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: exlibrisalterum.blogspot.com

goethe, fausto









































continuo a reproduzir aqui os cotejos que publiquei no antigo blog assinado-tradutores.

Fausto, trad. Silvio Meira, ed. Abril Cultural, por licença de Silvio Meira (Agir) (p. 44)
CORO DAS MULHERES
Com essências preciosas
O untamos e guardamos,
Servas fiéis, cuidadosas,
Neste local o sepultamos.
Com tecidos e ataduras
Muito puras, o embrulhamos.
Ah! Por que não achamos
O Cristo que aqui deixamos!

Fausto, atrib. Alberto Maximiliano, ed. Nova Cultural (p. 38)
CORO DAS MULHERES
Com essências preciosas
O untamos e guardamos,
Servas fiéis, cuidadosas,
Neste local o sepultamos.
Com tecidos e ataduras
Muito puras, o embrulhamos.
Ah! Por que não achamos
O Cristo que aqui deixamos!

Fausto, trad. Silvio Meira, ed. Abril Cultural, por licença de Silvio Meira (Agir) (p. 89)
MEFISTÓFELES (vestido com a longa beca de Fausto)
Larga do ser humano a razão e a ciência,
São as forças mais altas que lhe dão potência!
Espíritos sutis te enleiam e te dominam,
A um mundo de ilusões e cegueira te inclinam...
Serás meu logo mais! Assim hei contratado!
A ele deu Destino espírito, por certo,
Que, livre, para a frente é sempre projetado [...]

Fausto, atrib. Alberto Maximiliano, ed. Nova Cultural (p. 78)
MEFISTÓFELES (vestido com a longa beca de Fausto)
Larga do ser humano a razão e a ciência,
São as forças mais altas que lhe dão potência!
Espíritos sutis te enleiam e te dominam,
A um mundo de ilusões e cegueira te inclinam...
Serás meu logo mais! Assim hei contratado!
A ele deu o destino espírito, por certo,
Que, livre, para a frente é sempre projetado [...]

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: Paul Konewka: Gestalten aus "Faust". Silhouetten

ivanhoé


e este - ivanhoé - foi o estopim desse deslindar da tremenda meada de fraudes da nova cultural - que descobrimos vir desde 1995.

foi saulo von randow jr. que localizou essa apropriação da obra de brenno silveira, em agosto de 2007. já havia as denúncias de ivo barroso desde 2002 e 2003 e os alertas do jornal opção, com euler de frança belém alertando o povo dos crimes da nova cultural e da martin claret.

mas, de alguma forma, quando saulo von randow jr. alertou sobre o ivanhoé, juntaram-se diversos fatores, e começou a investigação sistemática dessa indústria do plágio, que resultou na descoberta do mais sistemático e avassalador esquema de fraudes editoriais de que se tem notícia, com vários milhões de exemplares criminosos com o saque ao bolso e à boa-fé do consumidor.
Ivanhoé (Walter Scott), Círculo do Livro, trad. Brenno Silveira (licença de Martins Ed.)
Capítulo XVII - pp. 179-80

A VOLTA DO CRUZADO
I
Depois de grandes feitos, coberto de glória,
Da Palestina chega o cavaleiro;
Traz a cruz sobre os ombros
E no corpo o vestígio das batalhas e do sol inclemente.
Cada Marca em seu escudo amolgado
Fala de uma praça de guerra conquistada.
E assim, sob o balcão da sua amada,
Cantou ele ao crepúsculo :

II
Honra à beleza ! Contempla o teu cavaleiro,
Que voltou da longínqua terra dourada;
Riquezas não traz, nem delas necessita,
Salvo seus braços fortes e o seu corcel de guerra;
As rijas esporas, e, para investir contra o inimigo,
A lança e o gládio que o jogam por terra !
Eis da sua luta todos os troféus !
Ei-los ! E mais a esperança de um sorriso de Tekla !
(...)

Ivanhoé (Walter Scott), Nova Cultural, trad. atrib. Roberto Nunes Whitaker
Capítulo XVII - pp. 168-69

A VOLTA DO CRUZADO
I
Depois de grandes feitos, coberto de glória,
Da Palestina chega o cavaleiro;
Traz a cruz sobre os ombros
E no corpo o vestígio das batalhas e do sol inclemente.
Cada Marca em seu escudo amolgado
Fala de uma praça de guerra conquistada.
E assim, sob o balcão da sua amada,
Cantou ele ao crepúsculo :

II
Honra à beleza ! Contempla o teu cavaleiro,
Que voltou da longínqua terra dourada;
Riquezas não traz, nem delas necessita,
Salvo seus braços fortes e o seu corcel de guerra;
As rijas esporas, e, para investir contra o inimigo,
A lança e o gládio que o jogam por terra !
Eis da sua luta todos os troféus !
Ei-los ! E mais a esperança de um sorriso de Tekla !

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.
(...)
imagem: são jorge

tom jones

imagem: charge de tom jones na punch magazine

Henry Fielding, Tom Jones, trad. Octávio Mendes Cajado, Abril, 1983.

LIVRO SÉTIMO - Capítulo I (vol. 1) – p. 250
(...)
De cuja vulgar citação compensarei o leitor com outra notabilíssima que poucos, suponho-o, terão lido. É tirada de um poema que se chama Divindade, publicado há coisa de uns nove anos , e que, desde então, jaz no esquecimento; prova de que os bons livros, como os homens bons, nem sempre sobrevivem aos maus.

De ti todas as ações humanas tiram a sua origem,
A ascensão dos impérios e a queda dos reis !
Vê apresentado o vasto teatro do tempo,
Ao passo que sobre o palco passam arrogantes sucessivos heróis !
Com pompa se sucedem as imagens brilhantes.
Capitães que triunfam e monarcas que morrem !
Desempenham a parte indicada pela tua providência
O seu orgulho e as suas paixões inclinam-se a teus fins :
Brilham por algum tempo à face do dia,
E logo, a um aceno teu, passam os fantasmas;
Já não se vêem traços de toda a agitada cena,
Senão o que diz a lembrança -
As coisas que existiram !(...)

Henry Fielding, Tom Jones, "trad." Jorge Pádua Conceição, Nova Cultural, 2003

LIVRO VII - Capítulo I (vol. 1) - p. 263
(...)
De cuja vulgar citação compensarei o leitor com outra notabilíssima que poucos, suponho-o, terão lido. É tirada de um poema que se chama Divindade, publicado há cerca de nove anos, e que, desde então, jaz no esquecimento; prova de que os bons livros, como os homens bons, nem sempre sobrevivem aos maus.

De ti todas as ações humanas tiram a sua origem,
A ascensão dos impérios e a queda dos reis !
Vê apresentado o vasto teatro do tempo,
Ao passo que sobre o palco passam arrogantes sucessivos heróis !
Com pompa se sucedem as imagens brilhantes.
Capitães que triunfam e monarcas que morrem !
Desempenham a parte indicada pela tua providência
O seu orgulho e as suas paixões inclinam-se a teus fins :
Brilham por algum tempo à face do dia,
E logo, a um aceno teu, passam os fantasmas;
Já não se vêem traços de toda a agitada cena,
Senão o que diz a lembrança -
As coisas que existiram !
(...)

(em colaboração com saulo von randow jr.)

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

goethe, werther



Werther, trad. Galeão Coutinho, ed. Abril Cultural sob licença de Martins Editora (p. 287)

Maio, 4
Contente, eu, por haver partido! Meu caro amigo, que é então o coração humano? Apartar-me de você, que tanto estimo, você, de quem eu era inseparável, e andar contente! Mas eu sei que me há de perdoar. Longe de você, todas as minhas relações não parecem expressamente escolhidas pelo destino para atormentar um coração como o meu? Pobre Leonor! E, no entanto, eu não sou culpado. Cabe-me alguma culpa se, procurando distrair-me com as suas faceirices, a paixão nasceu no coração da sua irmã?

Werther, atrib. Alberto Maximiliano, ed. Nova Cultural (p. 221)

Maio, 4
Contente, eu, por haver partido! Meu caro amigo, que é então o coração humano? Apartar-me de você, que tanto estimo, você, de quem eu era inseparável, e andar contente! Mas eu sei que me há de perdoar. Longe de você, todas as minhas relações não parecem expressamente escolhidas pelo destino para atormentar um coração como o meu? Pobre Leonor! E, no entanto, eu não sou culpado. Cabe-me alguma culpa se, procurando distrair-me com as suas faceirices, a paixão nasceu no coração da sua irmã?

Werther, trad. Galeão Coutinho, ed. Abril Cultural sob licença de Martins Editora (p. 337)

Agosto, 15
A coisa mais certa deste mundo é que o afeto, somente, torna o homem necessário. Sinto que Carlota ficaria triste se me perdesse e as crianças sequer chegam a admitir que eu deixe de ir lá todos os dias. Fui hoje afinar o cravo de Carlota, mas nada pude fazer; as crianças não me largavam, pedindo um conto de fadas, e, por fim, ela mesma pediu que as atendesse.

Werther, atrib. Alberto Maximiliano, ed. Nova Cultural (p. 267)

Agosto, 15
A coisa mais certa deste mundo é que o afeto, somente, torna o homem necessário. Sinto que Carlota ficaria triste se me perdesse e as crianças sequer chegam a admitir que eu deixe de ir lá todos os dias. Fui hoje afinar o cravo de Carlota, mas nada pude fazer; as crianças não me largavam, pedindo um conto de fadas, e, por fim, ela mesma pediu que as atendesse.

publicado originalmente em 21/12/2007 em assinado-tradutores.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: primeira edição de werther

não gosto de plágio

no enlutado dia do tradutor, inicio também a retomada do blog palimpsestos.
o palimpsestos fazia um acompanhamento paralelo dos cotejos das fraudes, com frases curtas e expressivas retiradas dos livros espoliados.

agora ele retorna rebatizado como "não gosto de plágio".

um enlutado dia do tradutor


em homenagem a tantos tradutores caídos na sanha de editoras inescrupulosas: monteiro lobato, eça de queiroz, godofredo rangel, mario quintana, ligia junqueira, hernâni donato, leonidas hegenberg, leonel vallandro, brenno silveira, araújo nabuco, josé maria machado, galeão coutinho, rodrigo richter, natália nunes, oscar mendes, cunha medeiros, octavio mendes cajado, luiz costa lima, jamil almansur haddad, carlos porto carreiro, rui cabeçadas, joão gaspar simões, silvio meira, mário da silva, brutus pedreira, ascendino leite, eugênio vieira, joão paulo monteiro, paulo m. de oliveira, blásio demétrio, adolfo casais monteiro, boris schnaiderman, floriano de souza fernandes, wilson lousada, casimiro fernandes, octany silveira da mota, lívio xavier, sodré viana, péricles eugênio da silva ramos, maria francisca ferreira de lima, modesto carone, maria helena da rocha pereira, ricardo iglésias, ivan emilianovitch schawirin, odorico mendes, suely bastos, maria beatriz nizza da silva, leônidas gontijo, joaquim machado

"a tradução é uma obra criativa. é um ato desmedido. traduzir é uma exorbitância" - boris schnaiderman
imagem: agencia.ecclesia.pt

27 de set. de 2008

a semântica claretiana

I.
H. Rider Haggard, As minas do rei Salomão
Tradução de EÇA DE QUEIROZ
e-book disponível para download gratuito (obra em domínio público)

Capítulo I
Encontro com os meus camaradas

É bem estranho que nesta minha idade, aos cinqüenta e seis anos feitos, esteja eu aqui, de pena na mão, preparando-me a redigir uma história!

Nunca imaginei que tão prodigiosa ocorrência se pudesse dar na minha vida - vida que me parece bem cheia, e vida que me parece bem longa... Sem dúvida, por a ter começado tão cedo! Com efeito, na idade em que os outros rapazes ainda soletram nos bancos da escola, já eu andava agenciando o meu pão por esta velha colônia do Cabo. E por aqui fiquei desde então, metido em negócios, em serviços, em travessias, em guerras, em trabalhos - e nessa dura profissão, que é a minha, a caça ao elefante e ao marfim. Pois, com toda esta diligência, só ultimamente, há oito meses, arredondei o meu saco. É um bom saco. É um saco graúdo, louvado Deus. Creio mesmo que é um tremendo saco! E apesar disso, juro que para o sentir assim, redondo e soante entre as mãos, não me arriscava a passar outra vez os transes deste terrível ano que lá vai. Não! Nem tendo a certeza de chegar ao fim com a pele intacta e com o saco cheio. Mas eu no fundo sou um tímido, detesto violências, e ando farto, refarto de aventuras!

Como dizia, pois, é cousa estranhíssima que assim me lance a escrever um livro. Não está nada no meu feitio ser homem de prosa e de letras - ainda que, como outro qualquer, aprecio as belezas da Santa Bíblia e gozo com a História do Rei Artur e da sua Távola Redonda. No entanto, tenho razões, e razões consideráveis, para tomar a pena com esta mão inábil que há quase cinqüenta anos maneja a carabina. Em primeiro lugar, os meus companheiros, o Barão Cúrtis e o digno capitão da Armada Real, John Good (a quem chamo, por hábito, "o Capitão John") pediram-me para relatar e publicar a nossa jornada ao reino dos cacuanas. Em segundo lugar, estou aqui em Durban, estirado numa cadeira, inutilizado para umas semanas, com os meus achaques na perna. (Desde que aquele infernal leão me traçou a coxa de lado a lado, fiquei sujeito a estas crises, todos os anos, ordinariamente pelos fins do outono. Foi em fins de outono que apanhei a trincadela. ...)

II.
H. Rider Haggard, As minas do rei Salomão
Tradução de Jean Melville
Copyright desta tradução: Martin Claret, 2003

Capítulo I
Encontro com os meus camaradas

É bem estranho que nesta minha idade, aos cinqüenta e seis anos feitos, esteja eu aqui, de pena na mão, preparando-me para redigir uma história!

Nunca imaginei que tão prodigiosa ocorrência se pudesse dar na minha vida - vida que me parece bem cheia, e vida que me parece bem longa... Sem dúvida, por a ter começado tão cedo! Com efeito, na idade em que os outros rapazes ainda soletram nos bancos da escola, já eu andava agenciando o meu pão por esta velha colônia do Cabo. E por aqui fiquei desde então, metido em negócios, em serviços, em travessias, em guerras, em trabalhos - e nessa dura profissão, que é a minha, a caça ao elefante e ao marfim. Pois, com toda esta diligência, só ultimamente, há oito meses, arredondei a minha bolsa. É uma boa bolsa. É uma bolsa graúda, louvado Deus. Creio mesmo que é uma tremenda bolsa! E apesar disso, juro que para a sentir assim, redonda e soante entre as mãos, não me arriscava a passar outra vez os transes deste terrível ano que lá vai. Não! Nem tendo a certeza de chegar ao fim com a pele intacta e com a bolsa cheia. Mas eu no fundo sou um tímido, detesto violências, e ando farto, refarto de aventuras!

Como dizia, pois, é coisa estranhíssima que assim me lance a escrever um livro. Não está nada no meu feitio ser homem de prosa e de letras - ainda que, como outro qualquer, aprecie as belezas da Santa Bíblia e goze com a História do Rei Artur e da sua Távola Redonda. No entanto, tenho razões, e razões consideráveis, para tomar a pena com esta mão inábil que há quase cinqüenta anos maneja a carabina. Em primeiro lugar, os meus companheiros, o Barão Curtis e o digno capitão da Armada Real, John Good (a quem chamo, por hábito, "o Capitão John") pediram-me para relatar e publicar a nossa jornada ao reino dos cacuanas. Em segundo lugar, estou aqui em Durban, estirado numa cadeira, inutilizado por umas semanas, com os meus achaques na perna. (Desde que aquele infernal leão me traçou a coxa de lado a lado, fiquei sujeito a estas crises, todos os anos, ordinariamente pelos fins do outono. Foi em fins de outono que apanhei a trincadela. ...)

além da cômica substituição de "saco" por "bolsa", para evitar "o saco cheio" da tradução original de eça de queiroz, o que me parece haver aí é uma nada cômica demonstração dos procedimentos usuais na martin claret.

consta na quarta capa, quase ilegível: "nosso trabalho é calcado na famosa tradução de eça de queirós". o que significa isso? calcar é copiar? ah, então concordo - é uma cópia.

neste caso, porém, o que faz o nome de jean melville na folha de rosto, em maiúsculas: "TRADUÇÃO: JEAN MELVILLE"?

e o que significa "Copyright desta tradução: Editora Martin Claret, 2003" na página de créditos?

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagem: dantondantas.blogspot.com

25 de set. de 2008

a mulher de trinta anos nassettiana


a martin claret resolveu atacar a sra. balzaquiana indo de casimiro fernandes e wilson lousada, na famosésima edição coordenada por paulo rónai, para a editora globo, nos idos dos anos 1940.

a vontade de chorar já começa no "perfil" que a claret apresenta em algumas páginas, à guisa de introdução.

lá pelas tantas diz o texto do "perfil": "A Mulher de Trinta Anos faz parte do volume III de A Comédia Humana. Sobre esse romance o tradutor, entre outros, faz o seguinte comentário introdutório" (p. 14).

e segue-se uma enfiada de citações de vários parágrafos - ora, de quem? de paulo rónai, o coordenador e anotador da edição, que por um passe de mágica virou o tradutor da balzaquiana.

é de pasmar: o editor não dá a fonte nem a edição, não dá o nome do prefaciador, confunde o prefaciador com os tradutores, copia enormes trechos do prefácio de rónai e, não satisfeito, pega a mulher de trinta anos de wilson lousada e casimiro fernandes, troca meia-dúzia de palavras que deve ter achado muito difíceis ou desusadas (borzeguins, por exemplo) e publica a cópia atamancada em nome de (desculpem o repeteco, pas ma faute) pietro nassetti, uma vez mais.

outro dado importante: todas as notas que guarnecem a comédia humana na edição brasileira são de autoria de paulo rónai. as referentes a a mulher de trinta anos foram meticulosamente copiadas na edição da claret, claro que sem fonte. o leitor imagina que haverão de ser de pietro nassetti ou de martin claret.

devidamente registrada essa edição espúria na fundação biblioteca nacional, com o isbn 85-7232-278-7, especificado na página de créditos “Copyright desta tradução: Martin Claret, 2004”, o editor claret e os herdeiros de pietro nassetti abocanharam para si 70 anos de exclusividade nos direitos de exploração comercial do roubo disfarçado de tradução.

alô, alô, dona globo, alô, alô, herdeiros de paulo rónai, alô, alô, sucessores de wilson lousada e casimiro fernandes, vão deixar passar em branco?

e a abdr, cujo logotipo vem estampado em tamanho gigantesco na primeira página do livro de sua querida afiliada martin claret?

e o snel, que defende a abdr, ambos posando de bonzinhos e defensores do direito autoral?

e o pobre do leitor, e o pobre do consumidor lesado em sua boa-fé, e o patrimônio imaterial saqueado deste país?

imagem: emoticon, weeping

24 de set. de 2008

as sombras e as luzes

ainda sobre fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos, pela martin claret, a editora das sombras neste país.

a editora vozes, contatada, declara que está encaminhando a questão a seu departamento jurídico para as providências cabíveis sobre a cópia dos outros escritos, isto é, os opúsculos supostamente pouco conhecidos de kant, apresentados ontem no post as luzes e as sombras.

a edição da claret traz também o texto da própria fundamentação. devo alertar que ainda não fiz o cotejo da fundamentação, embora já tenha indícios da origem dessa tradução atribuída a leopoldo holzbach na claret. darei notícias mais concretas quando fizer o cotejo definitivo.

mas o que quero apontar desde já são outros fatos sugerindo graves irregularidades:

- em primeiro lugar, a edição das sombras não traz ficha catalográfica, em flagrante violação do art. 6 da lei do livro
- na "página de créditos", estampa os dizeres "Copyright desta tradução: Editora Martin Claret, 2002"
- ainda na "página de créditos", abaixo, estampa "1a. REIMPRESSÃO - 2008", em letras capitulares

essas duas declarações são enganosas:
- a martin claret não é detentora legítima do copyright da tradução
- desde 2002 encontram-se na praça várias edições desta fundamentação da claret: 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2008

a martins fontes, por exemplo, vende a edição de 2006 como primeira edição.

já a fnac vende a edição de 2002 como primeira edição.

a edição que tenho em mãos, como disse, é de 2008, com a chamada "1a. REIMPRESSÃO".

aí minha pergunta seria: primeira reimpressão de qual edição?

e por que várias edições de diferentes anos aparecem como "1a. edição"?

o que se está tentando disfarçar com essa subestimação da quantidade de exemplares no mercado?

ainda não começamos a questionar seriamente o papel das livrarias, mas não resta dúvida de que quem possibilita o prosseguimento desse absurdo é quem comercializa as edições fraudulentas.

como dispõe o art. 104, no capítulo referente às sanções civis que aplicam às violações dos direitos autorais, da lei 9.610/98, as livrarias são solidariamente responsáveis com o editor responsável pela fraude: a meu ver, seria muito importante que as livrarias começassem a exercer um maior discernimento na seleção das obras que colocam à disposição do público consumidor.

23 de set. de 2008

as luzes e as sombras


em fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos, de kant, na edição da claret, somos informados em nota do editor (pp. 97-98) que a coletânea inclui três opúsculos pouco conhecidos do filósofo de königsberg.

são eles: que significa orientar-se no pensamento, resposta à pergunta: que é o esclarecimento?, e sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade.

fiquei até envergonhada com minha desinformação: pois sempre pensei que was ist aufklärung fosse, se não o principal, pelo menos um dos principalíssimos textos do iluminismo (ou esclarecimento ou ilustração ou luzes), um dos marcos fundadores do conceito de autonomia e responsabilidade do sujeito! vá lá, que seja...

a questão é que, conhecida a aufklärung ou não, a ed. de claret atribui a tradução de sua coletânea a leopoldo holzbach, estampando o crédito: "Copyright desta tradução: Editora Martin Claret, 2002". ela tem tido sucessivas edições, até 2008. um sucesso de vendas em defesa da autonomia da razão!

bom, acontece que os tais opúsculos de kant já tinham sido publicados no brasil pela editora vozes, em edição bilíngüe, na tradução de floriano de sousa fernandes, além dos dois prefácios de kant à 1a. e à 2a. edição da crítica da razão pura, na tradução de frei raimundo vier.

duvido que a vozes tenha cedido os direitos de tradução para a claret, mas não sei dizer com certeza. em todo caso, a obra continua ativa em seu catálogo.

o que sei é que, tenha ela cedido ou não os direitos sobre a tradução, existe uma coisa chamada "direito moral", que é um direito inalienável, intransferível e imprescritível da pessoa a seu próprio nome.

ou seja, cadê floriano de sousa fernandes nos créditos da claret? o que faz esse tal leopoldo holzbach no lugar dele?

pois vejamos que significa orientar-se no pensamento:

floriano de sousa fernandes, vozes, p. 82: "muito mais importante é a necessidade da razão em seu uso prático, porque é incondicionado, e somos obrigados então a supor a existência de deus não somente se queremos julgar, mas porque devemos julgar. com efeito, o uso prático da razão consiste na prescrição das leis morais. todas elas, porém, conduzem à idéia do supremo bem possível no mundo, a saber, a moralidade, na medida em que somente é possível mediante a liberdade. por outro lado, as leis morais referem-se também àquilo que não depende apenas da liberdade humana mas igualmente da natureza, a saber, a maior felicidade, na medida em que está dividida proporcionalmente à primeira. a razão necessita portanto admitir um tal bem supremo dependente, e para esse fim uma inteligência suprema como supremo bem independente. e não procede assim para extrair dele o significado obrigatório das leis morais ou os estímulos para o cumprimento delas (não teriam então nenhum valor moral se seu móvel derivasse de algo diferente da própria lei moral, que, por si, é apoditicamente certa), mas apenas para dar realidade objetiva ao conceito do soberano bem, isto é, para impedir que este, juntamente com toda a moralidade, seja considerado um puro ideal, se não existe aquilo cuja idéia acompanha indissoluvelmente a moralidade."

leopoldo holzbach, claret, pp. 105-6: "muito mais importante é a necessidade da razão em seu uso prático, já que este não é condicionado, e somos então obrigados a supor a existência de deus não somente se queremos julgar, mas porque devemos julgar. ora, o uso prático da razão consiste na prescrição das leis morais. todas as leis morais, porém, remetem à idéia do supremo bem possível no mundo, a saber, a moralidade, na medida mesma em que esta só se faz possível mediante a liberdade. por outro lado, as leis morais referem-se também ao que não depende apenas da liberdade humana mas também da natureza, a saber, a maior felicidade, na medida mesma em que esta se encontra dividida proporcionalmente à primeira. portanto a razão precisa admitir tal bem supremo dependente, e, para esse fim, uma inteligência suprema como supremo bem independente. e dessa maneira não procede para extrair dele o significado obrigatório das leis morais ou os estímulos para o cumprimento dessas (não teriam então nenhum valor moral se seu motor determinante derivasse de algo diferente da própria lei moral, que, por si, é apodicticamente certa), mas apenas para conferir realidade objetiva ao conceito do soberano bem, isto é, para impedir que este, juntamente com toda a moralidade, seja tido como um puro ideal, caso não exista aquilo cuja idéia acompanha indissoluvelmente a moralidade."


tirando o fato de que as ênfases que constam nos originais do próprio kant, para frisar os conceitos, simplesmente sumiram, é até um escárnio supor que o que distingue uma tradução de outra é o uso de "precisa" em lugar de "necessita", "tido como" em vez de "considerado", "se encontra" em lugar de "está", "também" em lugar de "igualmente".

é supor que os leitores continuam presos a uma cômoda menoridade, sem fazer uso de seu entendimento...

imagem: was ist aufklärung, ed. original


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

22 de set. de 2008

dois pesos, duas medidas


a abdr é uma associação de editoras que persegue oficinas de xerox em escolas e universidades que copiam os livros e capítulos de livros indicados pelos professores. a abdr usa a força armada da polícia para proceder à invasão dos locais, para busca e apreensão deste crime hediondo contra o bolso das editoras.

para ser coerente consigo mesma, ela deveria processar, perseguir e aprisionar os reitores das universidades e os diretores das escolas, por conivência e cumplicidade no crime hediondo de tirar xerox do capítulo e/ou do livro indicado em sala de aula.

a abdr deveria também, em nome da coerência, processar cada docente individual que indica algum capítulo ou algum livro em sala de aula, por incitar seus alunos ao crime.

"Nossas ações:
Através de denúncias, equipes policiais têm conseguido apreender grande quantidade de cópias de livros em diversos estados brasileiros, indiciando seus proprietários com base no Art. 184 do Código Penal e em muitos casos lacrando as copiadoras infratoras."

"Obras pirateadas
Listagem de obras pirateadas apreendidas.
Nas nossas ações no sentido de coibir a pirataria do livro, apreendemos diversas obras em poder de copiadoras com a finalidade de comercializar cópias ilegais, lesando autores, editores e demais profissionais envolvidos no processo de edição de um livro."

segue-se uma listagem que dá vontade de chorar, de tão ridícula que é:

- Duas copiadoras no subsolo e no térreo do bloco H da UFRJ
a abdr nomeia 4 títulos e respectivas editoras, e a seguir dá apenas o resumo:
"113 cópias integrais de livros, dentre os quais:
11 cópias da obra HACIA EL ESPANOL - Editora SARAIVA;
O QUE É FICÇÃO - Editora BRASILIENSE;
ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA - Editora JORGE ZAHAR."

- Copiadora no 9º andar da UERJ
a abdr arrola 25 nomes de livros e respectivas editoras

- Copiadora do Centro Acadêmico da UERJ
a abdr arrola 7 nomes de livros e respectivas editoras, e a seguir arrola as cópias parciais de 39 obras, por exemplo:
"Cópia parcial da obra: ANTROPOLOGY AND MODERN LIFE - Editora DOVER PUBLICATIONS" e
"Cópia parcial da obra: UMA CATEGORIA DO ESPÍRITO HUMANO: A NOÇÃO DE PESSOA, A NOÇÃO DO "EU" - Extraído do JOURNAL OF THE ROYAL ANTROPOLOGICAL INSTITUTE"

- Copiadora SAVINNY, a abdr não dá a localização da copiadora e arrola 28 nomes de livros e respectivas editoras

exceto - atenção no detalhe:
"Cópia integral da obra: FUNDAMENTAÇÃO DA METAFÍSICA DOS COSTUMES- TEXTOS FILOSÓFICOS", que não menciona a editora.

quem acompanha nosso trabalho, sabe muito bem que a martin claret:
1. faz parte do quadro de associados da abdr;
2. estampa na primeira página de todas as suas edições o logotipo da abdr, com destaque maior do que os nomes do livro, do autor e do tradutor somados juntos;
3. é a mais notória plagiadora de livros no país nos últimos 10 anos, com centenas de títulos que não passam de contrafações ou plágios de traduções publicadas por outras editoras;
4. suas edições e reedições são na casa de dezenas de milhares por título, o que resulta em vários milhões de livros-pirata na praça;
5. plagiou abertamente a coletânea de textos da editora vozes, incluídos justamente numa obra intitulada fundamentação da metafísica dos costumes, conforme alerta e cotejo publicados aqui no nãogostoplágio.

assim, como acabei ficando meio desconfiada desse povo, acabo achando que a omissão do nome da editora nesta listagem da abdr, sem sequer a ressalva feita em outros 3 ou 4 casos da mesma lista (especificando: "sem nome de editora"), talvez não seja mero acaso.

pergunta: por que a abdr, ainda em nome da coerência, não chama a polícia com metralhadora e mandado de busca e apreensão até a editora martin claret? não é por falta de denúncia! eu mesma, quando não sabia direito o que era a abdr, fiz lá minhas denúncias da vida nova do dante (plágio da claret) e o colega joão paulo tentou que vissem o caso do leviatã (tb plágio da claret) - neca.

se não é por falta de denúncia, por que o tratamento diferenciado para a martin claret? se o rapaz da oficininha de xerox da ufrj ou da uerj se filiar à abdr, vai poder tirar suas cópias em paz? ou tem que ter carteirinha de editora para se filiar a ela, e então vai poder piratear à vontade?

é isso, então, que significa "defesa de direito autoral" para as entidades de classe como a abdr e o snel? contra a reprodução em xerox, mas não contra a reprodução não-autorizada em impressão gráfica? e por que a abdr se limita à perseguição da reprodução reprográfica, mas silencia em relação à contrafação gráfica?

imagens: http://www.abdr.org.br/index.html, mas poderia muito bem ser www.generalsjoe.com

21 de set. de 2008

perdidos na selva

o escritório que administra os direitos autorais de monteiro lobato, pertencentes a seus sucessores legítimos, agradece a exposição do plágio de o livro da jângal e informa estar tomando as medidas judiciais necessárias.