30 de set. de 2008

goethe, fausto









































continuo a reproduzir aqui os cotejos que publiquei no antigo blog assinado-tradutores.

Fausto, trad. Silvio Meira, ed. Abril Cultural, por licença de Silvio Meira (Agir) (p. 44)
CORO DAS MULHERES
Com essências preciosas
O untamos e guardamos,
Servas fiéis, cuidadosas,
Neste local o sepultamos.
Com tecidos e ataduras
Muito puras, o embrulhamos.
Ah! Por que não achamos
O Cristo que aqui deixamos!

Fausto, atrib. Alberto Maximiliano, ed. Nova Cultural (p. 38)
CORO DAS MULHERES
Com essências preciosas
O untamos e guardamos,
Servas fiéis, cuidadosas,
Neste local o sepultamos.
Com tecidos e ataduras
Muito puras, o embrulhamos.
Ah! Por que não achamos
O Cristo que aqui deixamos!

Fausto, trad. Silvio Meira, ed. Abril Cultural, por licença de Silvio Meira (Agir) (p. 89)
MEFISTÓFELES (vestido com a longa beca de Fausto)
Larga do ser humano a razão e a ciência,
São as forças mais altas que lhe dão potência!
Espíritos sutis te enleiam e te dominam,
A um mundo de ilusões e cegueira te inclinam...
Serás meu logo mais! Assim hei contratado!
A ele deu Destino espírito, por certo,
Que, livre, para a frente é sempre projetado [...]

Fausto, atrib. Alberto Maximiliano, ed. Nova Cultural (p. 78)
MEFISTÓFELES (vestido com a longa beca de Fausto)
Larga do ser humano a razão e a ciência,
São as forças mais altas que lhe dão potência!
Espíritos sutis te enleiam e te dominam,
A um mundo de ilusões e cegueira te inclinam...
Serás meu logo mais! Assim hei contratado!
A ele deu o destino espírito, por certo,
Que, livre, para a frente é sempre projetado [...]

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: Paul Konewka: Gestalten aus "Faust". Silhouetten

ivanhoé


e este - ivanhoé - foi o estopim desse deslindar da tremenda meada de fraudes da nova cultural - que descobrimos vir desde 1995.

foi saulo von randow jr. que localizou essa apropriação da obra de brenno silveira, em agosto de 2007. já havia as denúncias de ivo barroso desde 2002 e 2003 e os alertas do jornal opção, com euler de frança belém alertando o povo dos crimes da nova cultural e da martin claret.

mas, de alguma forma, quando saulo von randow jr. alertou sobre o ivanhoé, juntaram-se diversos fatores, e começou a investigação sistemática dessa indústria do plágio, que resultou na descoberta do mais sistemático e avassalador esquema de fraudes editoriais de que se tem notícia, com vários milhões de exemplares criminosos com o saque ao bolso e à boa-fé do consumidor.
Ivanhoé (Walter Scott), Círculo do Livro, trad. Brenno Silveira (licença de Martins Ed.)
Capítulo XVII - pp. 179-80

A VOLTA DO CRUZADO
I
Depois de grandes feitos, coberto de glória,
Da Palestina chega o cavaleiro;
Traz a cruz sobre os ombros
E no corpo o vestígio das batalhas e do sol inclemente.
Cada Marca em seu escudo amolgado
Fala de uma praça de guerra conquistada.
E assim, sob o balcão da sua amada,
Cantou ele ao crepúsculo :

II
Honra à beleza ! Contempla o teu cavaleiro,
Que voltou da longínqua terra dourada;
Riquezas não traz, nem delas necessita,
Salvo seus braços fortes e o seu corcel de guerra;
As rijas esporas, e, para investir contra o inimigo,
A lança e o gládio que o jogam por terra !
Eis da sua luta todos os troféus !
Ei-los ! E mais a esperança de um sorriso de Tekla !
(...)

Ivanhoé (Walter Scott), Nova Cultural, trad. atrib. Roberto Nunes Whitaker
Capítulo XVII - pp. 168-69

A VOLTA DO CRUZADO
I
Depois de grandes feitos, coberto de glória,
Da Palestina chega o cavaleiro;
Traz a cruz sobre os ombros
E no corpo o vestígio das batalhas e do sol inclemente.
Cada Marca em seu escudo amolgado
Fala de uma praça de guerra conquistada.
E assim, sob o balcão da sua amada,
Cantou ele ao crepúsculo :

II
Honra à beleza ! Contempla o teu cavaleiro,
Que voltou da longínqua terra dourada;
Riquezas não traz, nem delas necessita,
Salvo seus braços fortes e o seu corcel de guerra;
As rijas esporas, e, para investir contra o inimigo,
A lança e o gládio que o jogam por terra !
Eis da sua luta todos os troféus !
Ei-los ! E mais a esperança de um sorriso de Tekla !

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.
(...)
imagem: são jorge

tom jones

imagem: charge de tom jones na punch magazine

Henry Fielding, Tom Jones, trad. Octávio Mendes Cajado, Abril, 1983.

LIVRO SÉTIMO - Capítulo I (vol. 1) – p. 250
(...)
De cuja vulgar citação compensarei o leitor com outra notabilíssima que poucos, suponho-o, terão lido. É tirada de um poema que se chama Divindade, publicado há coisa de uns nove anos , e que, desde então, jaz no esquecimento; prova de que os bons livros, como os homens bons, nem sempre sobrevivem aos maus.

De ti todas as ações humanas tiram a sua origem,
A ascensão dos impérios e a queda dos reis !
Vê apresentado o vasto teatro do tempo,
Ao passo que sobre o palco passam arrogantes sucessivos heróis !
Com pompa se sucedem as imagens brilhantes.
Capitães que triunfam e monarcas que morrem !
Desempenham a parte indicada pela tua providência
O seu orgulho e as suas paixões inclinam-se a teus fins :
Brilham por algum tempo à face do dia,
E logo, a um aceno teu, passam os fantasmas;
Já não se vêem traços de toda a agitada cena,
Senão o que diz a lembrança -
As coisas que existiram !(...)

Henry Fielding, Tom Jones, "trad." Jorge Pádua Conceição, Nova Cultural, 2003

LIVRO VII - Capítulo I (vol. 1) - p. 263
(...)
De cuja vulgar citação compensarei o leitor com outra notabilíssima que poucos, suponho-o, terão lido. É tirada de um poema que se chama Divindade, publicado há cerca de nove anos, e que, desde então, jaz no esquecimento; prova de que os bons livros, como os homens bons, nem sempre sobrevivem aos maus.

De ti todas as ações humanas tiram a sua origem,
A ascensão dos impérios e a queda dos reis !
Vê apresentado o vasto teatro do tempo,
Ao passo que sobre o palco passam arrogantes sucessivos heróis !
Com pompa se sucedem as imagens brilhantes.
Capitães que triunfam e monarcas que morrem !
Desempenham a parte indicada pela tua providência
O seu orgulho e as suas paixões inclinam-se a teus fins :
Brilham por algum tempo à face do dia,
E logo, a um aceno teu, passam os fantasmas;
Já não se vêem traços de toda a agitada cena,
Senão o que diz a lembrança -
As coisas que existiram !
(...)

(em colaboração com saulo von randow jr.)

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

goethe, werther



Werther, trad. Galeão Coutinho, ed. Abril Cultural sob licença de Martins Editora (p. 287)

Maio, 4
Contente, eu, por haver partido! Meu caro amigo, que é então o coração humano? Apartar-me de você, que tanto estimo, você, de quem eu era inseparável, e andar contente! Mas eu sei que me há de perdoar. Longe de você, todas as minhas relações não parecem expressamente escolhidas pelo destino para atormentar um coração como o meu? Pobre Leonor! E, no entanto, eu não sou culpado. Cabe-me alguma culpa se, procurando distrair-me com as suas faceirices, a paixão nasceu no coração da sua irmã?

Werther, atrib. Alberto Maximiliano, ed. Nova Cultural (p. 221)

Maio, 4
Contente, eu, por haver partido! Meu caro amigo, que é então o coração humano? Apartar-me de você, que tanto estimo, você, de quem eu era inseparável, e andar contente! Mas eu sei que me há de perdoar. Longe de você, todas as minhas relações não parecem expressamente escolhidas pelo destino para atormentar um coração como o meu? Pobre Leonor! E, no entanto, eu não sou culpado. Cabe-me alguma culpa se, procurando distrair-me com as suas faceirices, a paixão nasceu no coração da sua irmã?

Werther, trad. Galeão Coutinho, ed. Abril Cultural sob licença de Martins Editora (p. 337)

Agosto, 15
A coisa mais certa deste mundo é que o afeto, somente, torna o homem necessário. Sinto que Carlota ficaria triste se me perdesse e as crianças sequer chegam a admitir que eu deixe de ir lá todos os dias. Fui hoje afinar o cravo de Carlota, mas nada pude fazer; as crianças não me largavam, pedindo um conto de fadas, e, por fim, ela mesma pediu que as atendesse.

Werther, atrib. Alberto Maximiliano, ed. Nova Cultural (p. 267)

Agosto, 15
A coisa mais certa deste mundo é que o afeto, somente, torna o homem necessário. Sinto que Carlota ficaria triste se me perdesse e as crianças sequer chegam a admitir que eu deixe de ir lá todos os dias. Fui hoje afinar o cravo de Carlota, mas nada pude fazer; as crianças não me largavam, pedindo um conto de fadas, e, por fim, ela mesma pediu que as atendesse.

publicado originalmente em 21/12/2007 em assinado-tradutores.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: primeira edição de werther

não gosto de plágio

no enlutado dia do tradutor, inicio também a retomada do blog palimpsestos.
o palimpsestos fazia um acompanhamento paralelo dos cotejos das fraudes, com frases curtas e expressivas retiradas dos livros espoliados.

agora ele retorna rebatizado como "não gosto de plágio".

um enlutado dia do tradutor


em homenagem a tantos tradutores caídos na sanha de editoras inescrupulosas: monteiro lobato, eça de queiroz, godofredo rangel, mario quintana, ligia junqueira, hernâni donato, leonidas hegenberg, leonel vallandro, brenno silveira, araújo nabuco, josé maria machado, galeão coutinho, rodrigo richter, natália nunes, oscar mendes, cunha medeiros, octavio mendes cajado, luiz costa lima, jamil almansur haddad, carlos porto carreiro, rui cabeçadas, joão gaspar simões, silvio meira, mário da silva, brutus pedreira, ascendino leite, eugênio vieira, joão paulo monteiro, paulo m. de oliveira, blásio demétrio, adolfo casais monteiro, boris schnaiderman, floriano de souza fernandes, wilson lousada, casimiro fernandes, octany silveira da mota, lívio xavier, sodré viana, péricles eugênio da silva ramos, maria francisca ferreira de lima, modesto carone, maria helena da rocha pereira, ricardo iglésias, ivan emilianovitch schawirin, odorico mendes, suely bastos, maria beatriz nizza da silva, leônidas gontijo, joaquim machado

"a tradução é uma obra criativa. é um ato desmedido. traduzir é uma exorbitância" - boris schnaiderman
imagem: agencia.ecclesia.pt

27 de set. de 2008

a semântica claretiana

I.
H. Rider Haggard, As minas do rei Salomão
Tradução de EÇA DE QUEIROZ
e-book disponível para download gratuito (obra em domínio público)

Capítulo I
Encontro com os meus camaradas

É bem estranho que nesta minha idade, aos cinqüenta e seis anos feitos, esteja eu aqui, de pena na mão, preparando-me a redigir uma história!

Nunca imaginei que tão prodigiosa ocorrência se pudesse dar na minha vida - vida que me parece bem cheia, e vida que me parece bem longa... Sem dúvida, por a ter começado tão cedo! Com efeito, na idade em que os outros rapazes ainda soletram nos bancos da escola, já eu andava agenciando o meu pão por esta velha colônia do Cabo. E por aqui fiquei desde então, metido em negócios, em serviços, em travessias, em guerras, em trabalhos - e nessa dura profissão, que é a minha, a caça ao elefante e ao marfim. Pois, com toda esta diligência, só ultimamente, há oito meses, arredondei o meu saco. É um bom saco. É um saco graúdo, louvado Deus. Creio mesmo que é um tremendo saco! E apesar disso, juro que para o sentir assim, redondo e soante entre as mãos, não me arriscava a passar outra vez os transes deste terrível ano que lá vai. Não! Nem tendo a certeza de chegar ao fim com a pele intacta e com o saco cheio. Mas eu no fundo sou um tímido, detesto violências, e ando farto, refarto de aventuras!

Como dizia, pois, é cousa estranhíssima que assim me lance a escrever um livro. Não está nada no meu feitio ser homem de prosa e de letras - ainda que, como outro qualquer, aprecio as belezas da Santa Bíblia e gozo com a História do Rei Artur e da sua Távola Redonda. No entanto, tenho razões, e razões consideráveis, para tomar a pena com esta mão inábil que há quase cinqüenta anos maneja a carabina. Em primeiro lugar, os meus companheiros, o Barão Cúrtis e o digno capitão da Armada Real, John Good (a quem chamo, por hábito, "o Capitão John") pediram-me para relatar e publicar a nossa jornada ao reino dos cacuanas. Em segundo lugar, estou aqui em Durban, estirado numa cadeira, inutilizado para umas semanas, com os meus achaques na perna. (Desde que aquele infernal leão me traçou a coxa de lado a lado, fiquei sujeito a estas crises, todos os anos, ordinariamente pelos fins do outono. Foi em fins de outono que apanhei a trincadela. ...)

II.
H. Rider Haggard, As minas do rei Salomão
Tradução de Jean Melville
Copyright desta tradução: Martin Claret, 2003

Capítulo I
Encontro com os meus camaradas

É bem estranho que nesta minha idade, aos cinqüenta e seis anos feitos, esteja eu aqui, de pena na mão, preparando-me para redigir uma história!

Nunca imaginei que tão prodigiosa ocorrência se pudesse dar na minha vida - vida que me parece bem cheia, e vida que me parece bem longa... Sem dúvida, por a ter começado tão cedo! Com efeito, na idade em que os outros rapazes ainda soletram nos bancos da escola, já eu andava agenciando o meu pão por esta velha colônia do Cabo. E por aqui fiquei desde então, metido em negócios, em serviços, em travessias, em guerras, em trabalhos - e nessa dura profissão, que é a minha, a caça ao elefante e ao marfim. Pois, com toda esta diligência, só ultimamente, há oito meses, arredondei a minha bolsa. É uma boa bolsa. É uma bolsa graúda, louvado Deus. Creio mesmo que é uma tremenda bolsa! E apesar disso, juro que para a sentir assim, redonda e soante entre as mãos, não me arriscava a passar outra vez os transes deste terrível ano que lá vai. Não! Nem tendo a certeza de chegar ao fim com a pele intacta e com a bolsa cheia. Mas eu no fundo sou um tímido, detesto violências, e ando farto, refarto de aventuras!

Como dizia, pois, é coisa estranhíssima que assim me lance a escrever um livro. Não está nada no meu feitio ser homem de prosa e de letras - ainda que, como outro qualquer, aprecie as belezas da Santa Bíblia e goze com a História do Rei Artur e da sua Távola Redonda. No entanto, tenho razões, e razões consideráveis, para tomar a pena com esta mão inábil que há quase cinqüenta anos maneja a carabina. Em primeiro lugar, os meus companheiros, o Barão Curtis e o digno capitão da Armada Real, John Good (a quem chamo, por hábito, "o Capitão John") pediram-me para relatar e publicar a nossa jornada ao reino dos cacuanas. Em segundo lugar, estou aqui em Durban, estirado numa cadeira, inutilizado por umas semanas, com os meus achaques na perna. (Desde que aquele infernal leão me traçou a coxa de lado a lado, fiquei sujeito a estas crises, todos os anos, ordinariamente pelos fins do outono. Foi em fins de outono que apanhei a trincadela. ...)

além da cômica substituição de "saco" por "bolsa", para evitar "o saco cheio" da tradução original de eça de queiroz, o que me parece haver aí é uma nada cômica demonstração dos procedimentos usuais na martin claret.

consta na quarta capa, quase ilegível: "nosso trabalho é calcado na famosa tradução de eça de queirós". o que significa isso? calcar é copiar? ah, então concordo - é uma cópia.

neste caso, porém, o que faz o nome de jean melville na folha de rosto, em maiúsculas: "TRADUÇÃO: JEAN MELVILLE"?

e o que significa "Copyright desta tradução: Editora Martin Claret, 2003" na página de créditos?

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagem: dantondantas.blogspot.com

25 de set. de 2008

a mulher de trinta anos nassettiana


a martin claret resolveu atacar a sra. balzaquiana indo de casimiro fernandes e wilson lousada, na famosésima edição coordenada por paulo rónai, para a editora globo, nos idos dos anos 1940.

a vontade de chorar já começa no "perfil" que a claret apresenta em algumas páginas, à guisa de introdução.

lá pelas tantas diz o texto do "perfil": "A Mulher de Trinta Anos faz parte do volume III de A Comédia Humana. Sobre esse romance o tradutor, entre outros, faz o seguinte comentário introdutório" (p. 14).

e segue-se uma enfiada de citações de vários parágrafos - ora, de quem? de paulo rónai, o coordenador e anotador da edição, que por um passe de mágica virou o tradutor da balzaquiana.

é de pasmar: o editor não dá a fonte nem a edição, não dá o nome do prefaciador, confunde o prefaciador com os tradutores, copia enormes trechos do prefácio de rónai e, não satisfeito, pega a mulher de trinta anos de wilson lousada e casimiro fernandes, troca meia-dúzia de palavras que deve ter achado muito difíceis ou desusadas (borzeguins, por exemplo) e publica a cópia atamancada em nome de (desculpem o repeteco, pas ma faute) pietro nassetti, uma vez mais.

outro dado importante: todas as notas que guarnecem a comédia humana na edição brasileira são de autoria de paulo rónai. as referentes a a mulher de trinta anos foram meticulosamente copiadas na edição da claret, claro que sem fonte. o leitor imagina que haverão de ser de pietro nassetti ou de martin claret.

devidamente registrada essa edição espúria na fundação biblioteca nacional, com o isbn 85-7232-278-7, especificado na página de créditos “Copyright desta tradução: Martin Claret, 2004”, o editor claret e os herdeiros de pietro nassetti abocanharam para si 70 anos de exclusividade nos direitos de exploração comercial do roubo disfarçado de tradução.

alô, alô, dona globo, alô, alô, herdeiros de paulo rónai, alô, alô, sucessores de wilson lousada e casimiro fernandes, vão deixar passar em branco?

e a abdr, cujo logotipo vem estampado em tamanho gigantesco na primeira página do livro de sua querida afiliada martin claret?

e o snel, que defende a abdr, ambos posando de bonzinhos e defensores do direito autoral?

e o pobre do leitor, e o pobre do consumidor lesado em sua boa-fé, e o patrimônio imaterial saqueado deste país?

imagem: emoticon, weeping

24 de set. de 2008

as sombras e as luzes

ainda sobre fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos, pela martin claret, a editora das sombras neste país.

a editora vozes, contatada, declara que está encaminhando a questão a seu departamento jurídico para as providências cabíveis sobre a cópia dos outros escritos, isto é, os opúsculos supostamente pouco conhecidos de kant, apresentados ontem no post as luzes e as sombras.

a edição da claret traz também o texto da própria fundamentação. devo alertar que ainda não fiz o cotejo da fundamentação, embora já tenha indícios da origem dessa tradução atribuída a leopoldo holzbach na claret. darei notícias mais concretas quando fizer o cotejo definitivo.

mas o que quero apontar desde já são outros fatos sugerindo graves irregularidades:

- em primeiro lugar, a edição das sombras não traz ficha catalográfica, em flagrante violação do art. 6 da lei do livro
- na "página de créditos", estampa os dizeres "Copyright desta tradução: Editora Martin Claret, 2002"
- ainda na "página de créditos", abaixo, estampa "1a. REIMPRESSÃO - 2008", em letras capitulares

essas duas declarações são enganosas:
- a martin claret não é detentora legítima do copyright da tradução
- desde 2002 encontram-se na praça várias edições desta fundamentação da claret: 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2008

a martins fontes, por exemplo, vende a edição de 2006 como primeira edição.

já a fnac vende a edição de 2002 como primeira edição.

a edição que tenho em mãos, como disse, é de 2008, com a chamada "1a. REIMPRESSÃO".

aí minha pergunta seria: primeira reimpressão de qual edição?

e por que várias edições de diferentes anos aparecem como "1a. edição"?

o que se está tentando disfarçar com essa subestimação da quantidade de exemplares no mercado?

ainda não começamos a questionar seriamente o papel das livrarias, mas não resta dúvida de que quem possibilita o prosseguimento desse absurdo é quem comercializa as edições fraudulentas.

como dispõe o art. 104, no capítulo referente às sanções civis que aplicam às violações dos direitos autorais, da lei 9.610/98, as livrarias são solidariamente responsáveis com o editor responsável pela fraude: a meu ver, seria muito importante que as livrarias começassem a exercer um maior discernimento na seleção das obras que colocam à disposição do público consumidor.

23 de set. de 2008

as luzes e as sombras


em fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos, de kant, na edição da claret, somos informados em nota do editor (pp. 97-98) que a coletânea inclui três opúsculos pouco conhecidos do filósofo de königsberg.

são eles: que significa orientar-se no pensamento, resposta à pergunta: que é o esclarecimento?, e sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade.

fiquei até envergonhada com minha desinformação: pois sempre pensei que was ist aufklärung fosse, se não o principal, pelo menos um dos principalíssimos textos do iluminismo (ou esclarecimento ou ilustração ou luzes), um dos marcos fundadores do conceito de autonomia e responsabilidade do sujeito! vá lá, que seja...

a questão é que, conhecida a aufklärung ou não, a ed. de claret atribui a tradução de sua coletânea a leopoldo holzbach, estampando o crédito: "Copyright desta tradução: Editora Martin Claret, 2002". ela tem tido sucessivas edições, até 2008. um sucesso de vendas em defesa da autonomia da razão!

bom, acontece que os tais opúsculos de kant já tinham sido publicados no brasil pela editora vozes, em edição bilíngüe, na tradução de floriano de sousa fernandes, além dos dois prefácios de kant à 1a. e à 2a. edição da crítica da razão pura, na tradução de frei raimundo vier.

duvido que a vozes tenha cedido os direitos de tradução para a claret, mas não sei dizer com certeza. em todo caso, a obra continua ativa em seu catálogo.

o que sei é que, tenha ela cedido ou não os direitos sobre a tradução, existe uma coisa chamada "direito moral", que é um direito inalienável, intransferível e imprescritível da pessoa a seu próprio nome.

ou seja, cadê floriano de sousa fernandes nos créditos da claret? o que faz esse tal leopoldo holzbach no lugar dele?

pois vejamos que significa orientar-se no pensamento:

floriano de sousa fernandes, vozes, p. 82: "muito mais importante é a necessidade da razão em seu uso prático, porque é incondicionado, e somos obrigados então a supor a existência de deus não somente se queremos julgar, mas porque devemos julgar. com efeito, o uso prático da razão consiste na prescrição das leis morais. todas elas, porém, conduzem à idéia do supremo bem possível no mundo, a saber, a moralidade, na medida em que somente é possível mediante a liberdade. por outro lado, as leis morais referem-se também àquilo que não depende apenas da liberdade humana mas igualmente da natureza, a saber, a maior felicidade, na medida em que está dividida proporcionalmente à primeira. a razão necessita portanto admitir um tal bem supremo dependente, e para esse fim uma inteligência suprema como supremo bem independente. e não procede assim para extrair dele o significado obrigatório das leis morais ou os estímulos para o cumprimento delas (não teriam então nenhum valor moral se seu móvel derivasse de algo diferente da própria lei moral, que, por si, é apoditicamente certa), mas apenas para dar realidade objetiva ao conceito do soberano bem, isto é, para impedir que este, juntamente com toda a moralidade, seja considerado um puro ideal, se não existe aquilo cuja idéia acompanha indissoluvelmente a moralidade."

leopoldo holzbach, claret, pp. 105-6: "muito mais importante é a necessidade da razão em seu uso prático, já que este não é condicionado, e somos então obrigados a supor a existência de deus não somente se queremos julgar, mas porque devemos julgar. ora, o uso prático da razão consiste na prescrição das leis morais. todas as leis morais, porém, remetem à idéia do supremo bem possível no mundo, a saber, a moralidade, na medida mesma em que esta só se faz possível mediante a liberdade. por outro lado, as leis morais referem-se também ao que não depende apenas da liberdade humana mas também da natureza, a saber, a maior felicidade, na medida mesma em que esta se encontra dividida proporcionalmente à primeira. portanto a razão precisa admitir tal bem supremo dependente, e, para esse fim, uma inteligência suprema como supremo bem independente. e dessa maneira não procede para extrair dele o significado obrigatório das leis morais ou os estímulos para o cumprimento dessas (não teriam então nenhum valor moral se seu motor determinante derivasse de algo diferente da própria lei moral, que, por si, é apodicticamente certa), mas apenas para conferir realidade objetiva ao conceito do soberano bem, isto é, para impedir que este, juntamente com toda a moralidade, seja tido como um puro ideal, caso não exista aquilo cuja idéia acompanha indissoluvelmente a moralidade."


tirando o fato de que as ênfases que constam nos originais do próprio kant, para frisar os conceitos, simplesmente sumiram, é até um escárnio supor que o que distingue uma tradução de outra é o uso de "precisa" em lugar de "necessita", "tido como" em vez de "considerado", "se encontra" em lugar de "está", "também" em lugar de "igualmente".

é supor que os leitores continuam presos a uma cômoda menoridade, sem fazer uso de seu entendimento...

imagem: was ist aufklärung, ed. original


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

22 de set. de 2008

dois pesos, duas medidas


a abdr é uma associação de editoras que persegue oficinas de xerox em escolas e universidades que copiam os livros e capítulos de livros indicados pelos professores. a abdr usa a força armada da polícia para proceder à invasão dos locais, para busca e apreensão deste crime hediondo contra o bolso das editoras.

para ser coerente consigo mesma, ela deveria processar, perseguir e aprisionar os reitores das universidades e os diretores das escolas, por conivência e cumplicidade no crime hediondo de tirar xerox do capítulo e/ou do livro indicado em sala de aula.

a abdr deveria também, em nome da coerência, processar cada docente individual que indica algum capítulo ou algum livro em sala de aula, por incitar seus alunos ao crime.

"Nossas ações:
Através de denúncias, equipes policiais têm conseguido apreender grande quantidade de cópias de livros em diversos estados brasileiros, indiciando seus proprietários com base no Art. 184 do Código Penal e em muitos casos lacrando as copiadoras infratoras."

"Obras pirateadas
Listagem de obras pirateadas apreendidas.
Nas nossas ações no sentido de coibir a pirataria do livro, apreendemos diversas obras em poder de copiadoras com a finalidade de comercializar cópias ilegais, lesando autores, editores e demais profissionais envolvidos no processo de edição de um livro."

segue-se uma listagem que dá vontade de chorar, de tão ridícula que é:

- Duas copiadoras no subsolo e no térreo do bloco H da UFRJ
a abdr nomeia 4 títulos e respectivas editoras, e a seguir dá apenas o resumo:
"113 cópias integrais de livros, dentre os quais:
11 cópias da obra HACIA EL ESPANOL - Editora SARAIVA;
O QUE É FICÇÃO - Editora BRASILIENSE;
ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA - Editora JORGE ZAHAR."

- Copiadora no 9º andar da UERJ
a abdr arrola 25 nomes de livros e respectivas editoras

- Copiadora do Centro Acadêmico da UERJ
a abdr arrola 7 nomes de livros e respectivas editoras, e a seguir arrola as cópias parciais de 39 obras, por exemplo:
"Cópia parcial da obra: ANTROPOLOGY AND MODERN LIFE - Editora DOVER PUBLICATIONS" e
"Cópia parcial da obra: UMA CATEGORIA DO ESPÍRITO HUMANO: A NOÇÃO DE PESSOA, A NOÇÃO DO "EU" - Extraído do JOURNAL OF THE ROYAL ANTROPOLOGICAL INSTITUTE"

- Copiadora SAVINNY, a abdr não dá a localização da copiadora e arrola 28 nomes de livros e respectivas editoras

exceto - atenção no detalhe:
"Cópia integral da obra: FUNDAMENTAÇÃO DA METAFÍSICA DOS COSTUMES- TEXTOS FILOSÓFICOS", que não menciona a editora.

quem acompanha nosso trabalho, sabe muito bem que a martin claret:
1. faz parte do quadro de associados da abdr;
2. estampa na primeira página de todas as suas edições o logotipo da abdr, com destaque maior do que os nomes do livro, do autor e do tradutor somados juntos;
3. é a mais notória plagiadora de livros no país nos últimos 10 anos, com centenas de títulos que não passam de contrafações ou plágios de traduções publicadas por outras editoras;
4. suas edições e reedições são na casa de dezenas de milhares por título, o que resulta em vários milhões de livros-pirata na praça;
5. plagiou abertamente a coletânea de textos da editora vozes, incluídos justamente numa obra intitulada fundamentação da metafísica dos costumes, conforme alerta e cotejo publicados aqui no nãogostoplágio.

assim, como acabei ficando meio desconfiada desse povo, acabo achando que a omissão do nome da editora nesta listagem da abdr, sem sequer a ressalva feita em outros 3 ou 4 casos da mesma lista (especificando: "sem nome de editora"), talvez não seja mero acaso.

pergunta: por que a abdr, ainda em nome da coerência, não chama a polícia com metralhadora e mandado de busca e apreensão até a editora martin claret? não é por falta de denúncia! eu mesma, quando não sabia direito o que era a abdr, fiz lá minhas denúncias da vida nova do dante (plágio da claret) e o colega joão paulo tentou que vissem o caso do leviatã (tb plágio da claret) - neca.

se não é por falta de denúncia, por que o tratamento diferenciado para a martin claret? se o rapaz da oficininha de xerox da ufrj ou da uerj se filiar à abdr, vai poder tirar suas cópias em paz? ou tem que ter carteirinha de editora para se filiar a ela, e então vai poder piratear à vontade?

é isso, então, que significa "defesa de direito autoral" para as entidades de classe como a abdr e o snel? contra a reprodução em xerox, mas não contra a reprodução não-autorizada em impressão gráfica? e por que a abdr se limita à perseguição da reprodução reprográfica, mas silencia em relação à contrafação gráfica?

imagens: http://www.abdr.org.br/index.html, mas poderia muito bem ser www.generalsjoe.com

21 de set. de 2008

perdidos na selva

o escritório que administra os direitos autorais de monteiro lobato, pertencentes a seus sucessores legítimos, agradece a exposição do plágio de o livro da jângal e informa estar tomando as medidas judiciais necessárias.

20 de set. de 2008

rodando o mundo (e as editoras)


"assim, este personagem enigmático, o qual só se sabia que era muito amável e dos mais perfeitos cavalheiros da alta sociedade inglesa, sucedeu, ali, a um dos maiores oradores britânicos.

dizia-se que tinha certas semelhanças com byron - na cabeça, pois, quanto aos pés, era irrepreensível - mas um byron de bigode, um byron impassível, capaz de viver mil anos sem apresentar sintomas de velhice.

[...] dirigiu-se logo para a sala de jantar, cujas nove janelas davam para o jardim, já com as árvores douradas pelo sopro do outono. ali tomou lugar à mesa que lhe era habitual e onde já estava posto o serviço de sempre. compunha-se o almoço de entrada, peixe cozido, temperado com molho de primeira qualidade, carne mal assada rica de condimentação, bolo recheado de talos de ruibarbo e de groselhas verdes e um pedaço de queijo - tudo isto regado por excelente chá."

este é um trechinho de a volta ao mundo em oitenta dias, de júlio verne, em tradução de vieira neto, publicada em 1965 pela ed. matos peixoto, às pp. 9 e 19.

eis a réplica fiel da martin claret, às pp. 11 e 18 de sua edição, com a tradução atribuída ao impertérrito pietro nassetti:

"assim, este personagem enigmático, o qual só se sabia que era muito amável e dos mais perfeitos cavalheiros da alta sociedade inglesa, sucedeu, ali, a um dos maiores oradores britânicos.

dizia-se que tinha certas semelhanças com byron - na cabeça, pois, quanto aos pés, era irrepreensível - mas um byron de bigode, um byron impassível, capaz de viver mil anos sem apresentar sintomas de velhice.

[...] dirigiu-se logo para a sala de jantar, cujas nove janelas davam para o jardim, já com as árvores douradas pelo sopro do outono. ali tomou lugar à mesa que lhe era habitual e onde já estava posto o serviço de sempre. compunha-se o almoço de entrada, peixe cozido, temperado com molho de primeira qualidade, carne mal assada rica de condimentação, bolo recheado de talos de ruibarbo e de groselhas verdes e um pedaço de queijo - tudo isto regado por excelente chá."

hoje eu gostaria de ilustrar vividamente a cópia, apresentando em contraste duas traduções de autorias diferentes:

de p. m. v., pela francisco alves, pp. 5 e 13:
"sucedia pois a um dos maiores oradores de que a inglaterra se honra e ufana este phileas fogg, personagem enigmática, a respeito da qual nada se sabia, senão que era pessoa muito elegante, e um dos mais perfeitos gentlemen da alta sociedade inglesa.

dizia-se que tinha grandes parecenças com byron - na cabeça, pois quanto aos pés era phileas fogg irrepreensível -, mas um byron de bigode, um byron impassível, capaz de viver mil anos sem apresentar sintomas de velhice.

[...] phileas fogg dirigiu-se logo para a sala de jantar, cujas nove janelas deitavam para um jardim com muitas e frondosas árvores já douradas pelo sopro do outono. ali tomou lugar à mesa que lhe era habitual e onde o esperava o seu talher. compunha-se o almoço de um hors-d'oeuvre, de peixe cozido temperado com um molho de primeira qualidade, de um rosbife em sangue acompanhado de talos de ruibarbo e de groselhas verdes, e de um pedaço de queijo chamado chester - tudo isso regado por algumas chávenas de chá excelente, de propósito escolhido para a despensa do Reform-Club."

ivan pedro cesar da cunha, pela ed. fase, pp. 7 e 17:

"a vaga aberta pela morte de um dos mais eloqüentes oradores de que a inglaterra se orgulha, fora, assim, preenchida por esta personagem enigmática, de quem nada se sabia a não ser que era extremamente polido e um dos mais brilhantes gentleman [sic] da alta sociedade inglesa.

assemelhavam-no a byron - na cabeça, pois quanto aos pés era mesmo phileas fogg - mas um byron de bigodes e suíças, um byron impassível, capaz de viver mil anos sem envelhecer.

[...] dirigiu-se logo para a sala de jantar. então, sentou-se à mesa habitual, onde já o esperava o serviço de sempre. o almoço compunha-se de entrada, peixe cozido, rosbife mal passado, guarnecido de cogumelos, uma empada com recheio de ruibarbo e groselhas verdes e, por fim, uma fatia de queijo chester - tudo regado com algumas chávenas desse excelente chá expressamente colhido para a despensa do Reform-Club."

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


19 de set. de 2008

a balada


cento e poucos anos após sua morte, oscar wilde continua a ser objeto de agressões.

agora teve sua balada do cárcere de reading, em tradução da autoria de oscar mendes, publicada pela josé aguilar em tempos d'antanho, deslavadamente contrabandeada:

oscar mendes:

Soube tão só que torturante idéia
Lhe dava ao passo aquela pressa.
Porque olhava para o céu brilhante
Com tal olhar de ansiedade;
O homem matara aquela a quem amava
E assim teria de morrer.

Contudo os homens matam o que amam
Seja por todos isto ouvido,
Alguns o fazem com acerbo olhar,
Outros com frases de lisonja,
O covarde assassina com um beijo,
O bravo mata com punhal!

Uns matam seu amor, quando são jovens,
Outros quando velhos estão;
Com as mãos do Desejo uns estrangulam
Outros do Ouro com as mãos;
Os de mais compaixão usam a faca,
O morto assim logo se esfria.

Uns amam pouco tempo, outros demais;
Este o amor compra, aquele o vende;
Uns matam a chorar, com muitas lágrimas,
Outros sem mesmo suspirar;
Porque cada um de nós mata o que ama,
Mas nem todos hão de morrer.

na martin claret, o segundinho jean melville, uma vez mais:

Soube tão só que torturante idéia
Lhe dava ao passo aquela pressa.
Porque olhava para o céu brilhante
Com tal olhar de ansiedade;
O homem matara aquela a quem amava
E assim teria de morrer.

Contudo os homens matam o que amam
Seja por todos isto ouvido,
Alguns o fazem com acerbo olhar,
Outros com frases de lisonja,
O covarde assassina com um beijo,
O bravo mata com punhal!

Uns matam seu amor, quando são jovens,
Outros quando velhos estão;
Com as mãos do Desejo uns estrangulam
Outros do Ouro com as mãos;
Os de mais compaixão usam a faca,
O morto assim logo se esfria.

Uns amam pouco tempo, outros demais;
Este o amor compra, aquele o vende;
Uns matam a chorar, com muitas lágrimas,
Outros sem mesmo suspirar;
Porque cada um de nós mata o que ama,
Mas nem todos hão de morrer.

(a grande pista para mais este "flagrante" foi dada por james emanuel, em seu blog reflexões)

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

18 de set. de 2008

monteiro lobato

se houvesse algum patrono da tradução no brasil, a meu ver seria monteiro lobato. desde o começo do século XX defendia e praticava a abertura dos horizontes intelectuais brasileiros para o mundo - e reconhecia na obra do tradutor "a coisa suprema do mundo mental: universalização do pensamento".

é de revoltar o estômago que o livro da jângal, na deliciosíssima tradução de lobato (cia. editora nacional) a que apenas alguns escravos da letra podem levantar reparos, saia publicado pela martin claret, com tradução atribuída a alex marins.

é de revoltar o estômago que os cantos da floresta, tão belamente traduzidos por jamil almansur haddad, sejam conspurcados ao lhes ser atribuída tradução por alex marins.

todas as piores qualidades parecem se somar na dolorosa e chocante desfaçatez que cerca os crimes de lesa-patrimônio praticados pela martin claret.

recomendo vivamente o emocionado e emocionante artigo de lobato, "quem é esse kipling?", em mundo da lua e miscelânea - é uma elevada profissão de fé, e que possa falar mais alto do que essa imunda torrente que quer nos arrastar para a incultura e a passiva indiferença mental.
a. monteiro lobato (poema: jamil almansur haddad)
O Abutre Chil conduz a noite incerta
Que o morcego Mang ora liberta -
É esta a hora em que adormece o gado,
Pelo aprisco fechado.
É esta a hora do orgulho e da força,
Unha ferina e aguda garra.
Ouve-se o grito: Boa caçada àquele
Que à lei da Jângal se agarra.

Canto noturno na Jângal
Nos montes de Seeonee, ali pelas sete horas daquele dia tão quente, Pai Lobo despertava do seu longo sono, espreguiçava-se, bocejava e estirava as pernas para espantar a lombeira entorpecente. Deitada ao seu lado, com o focinho entre os quatro filhotes do casal, Mãe Loba tinha os olhos fixos na lua que, naquele momento, aparecia na boca da caverna.

Os bufos haviam mudado para uma espécie de rosnar sem direção. Esse rosnar sem direção, que parece vir dos quatro pontos cardeais, desorienta os lenhadores e ciganos que dormem ao relento, fazendo-os, às vezes, correr justamente para as goelas do tigre. [...] A Lei da Jângal, que nada prescreve sem razões, proíbe a todos os animais que comam homens, exceto quando algum deles está matando para ensinar os filhos como se mata. O motivo disto é que, quando comem um homem, cedo ou tarde aparecem no lugar homens brancos montados em elefantes e rodeados de centenas de homens pardos com archotes e gongos - e então a floresta inteira sofre. Mas a desculpa que os animais apresentam para que o homem seja respeitado, é que constitui ele a mais fraca e indefesa de todas as criaturas, sendo, portanto, covardia atacá-lo. Dizem também - e é verdade - que os comedores de homens se tornam sarnentos e perdem os dentes.

Pulemos agora dez anos de descrição da vida de Mowgli entre os lobos, coisa que daria matéria para todo um volume. Digamos apenas que ali cresceu entre os lobinhos, embora todos ficassem adultos antes que Mowgli deixasse de ser criança. Pai Lobo ensinou-lhe a vida e a significação das coisas da Jângal em todas as suas minudências. Os menores rumores nas ervas, o movimento das brisas, as notas do canto da coruja, cada arranhadura que a garra dos morcegos deixa na casca das árvores onde se penduram por um momento, a lambada n'água de cada peixinho ao dar pulos na superfície - tudo significa muito para os animais da floresta.

b. "alex marins"

O Abutre Chil conduz a noite incerta
Que o morcego Mang ora liberta -
É esta a hora em que adormece o gado,
Pelo aprisco fechado. É esta a hora do orgulho e da força,
Unha ferina e aguda garra.
Ouve-se o grito: Boa caçada àquele
Que à lei da Jângal se agarra.
Canto noturno na Jângal

Nos montes de Seeonee, ali pelas sete horas daquele dia tão quente, Pai Lobo despertava do seu longo sono, espreguiçava-se, bocejava e estirava as pernas para espantar a lombeira entorpecente. Deitada ao seu lado, com o focinho entre os quatro filhotes do casal, Mãe Loba tinha os olhos fixos na lua que, naquele momento, aparecia na boca da caverna. (p. 17)

Os bufos haviam mudado para uma espécie de rosnar sem direção. Esse rosnar sem direção, que parece vir dos quatro pontos cardeais, desorienta os lenhadores e ciganos que dormem ao relento, fazendo-os, às vezes, correr justamente para as goelas do tigre. [...] A Lei da Jângal, que nada prescreve sem razões, proíbe a todos os animais que comam homens, exceto quando algum deles está matando para ensinar os filhos como se mata. O motivo disto é que, quando comem um homem, cedo ou tarde aparecem no lugar homens brancos montados em elefantes e rodeados de centenas de homens pardos com archotes e gongos - e então a floresta inteira sofre. Mas a desculpa que os animais apresentam para que o homem seja respeitado, é que constitui ele a mais fraca e indefesa de todas as criaturas, sendo, portanto, covardia atacá-lo. Dizem também - e é verdade - que os comedores de homens se tornam sarnentos e perdem os dentes. (p. 19)

Pulemos agora dez anos de descrição da vida de Mowgli entre os lobos, coisa que daria matéria para todo um volume. Digamos apenas que ali cresceu entre os lobinhos, embora todos ficassem adultos antes que Mowgli deixasse de ser criança. Pai Lobo ensinou-lhe a vida e a significação das coisas da Jângal em todas as suas minudências. Os menores rumores nas ervas, o movimento das brisas, as notas do canto da coruja, cada arranhadura que a garra dos morcegos deixa na casca das árvores onde se penduram por um momento, a lambada n'água de cada peixinho ao dar pulos na superfície - tudo significa muito para os animais da floresta. (p. 27)

o plágio foi feito na íntegra, sem qualquer alteração, exceto o uso de itálico em palavras tidas como difíceis pelo editor e equipe da claret: "aprisco" e "minudências", explicadas em glossário como, respectivamente, "curral; covil, toca" e "pormenor. exame atento, observação escrupulosa" (pp. 231 e 233).


imagem: detalhe de um baixo-relevo feito por john lockwood kipling, pai de rudyard kipling, em que mowgli ataca shere khan. reproduzido na edição das obras completas de kipling, 1907.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

17 de set. de 2008

moby dick

o terror dos mares, o leviatã dos oceanos, o próprio!

vamos lá. de um lado a conhecidíssima tradução de péricles eugênio da silva ramos, pela editora abril cultural, de outro lado aquela prática medonha da claret, com o terceirinho alex marins. (pobre herman!)


Io! Peã! Io! Cantai
Para o Rei do povo písceo.

PE, 23: "e especialmente sempre que minha hipocondria adquire tal domínio sobre mim que é preciso um sólido princípio moral para impedir-me de sair deliberadamente para a rua e metodicamente surrar as pessoas - então acho que está na hora de ir para o mar o mais depressa possível".

AM, 29: "e especialmente sempre que minha hipocondria adquire tal domínio sobre mim que é preciso um sólido princípio moral para impedir-me de sair deliberadamente para a rua e metodicamente surrar as pessoas, significa que é sempre chegado o momento de ir para o mar o mais depressa possível".

PE, 30: "De onde mais, a não ser de Nantucket, saíam esses baleeiros aborígines, os peles-vermelhas, em canoas, para dar caça ao Leviatã? E de onde, a não ser de Nantucket, partiu também aquela primeira chalupazinha aventurosa, parcialmente carregada com pedras redondas de calçamento, importadas - assim se conta - para atirá-las nas baleias, com o fito de descobrir quando estavam perto, o bastante para arriscar do gurupés um arpão?"

AM, 34-5: "De onde mais, a não ser de Nantucket, saíam esses baleeiros aborígines, os peles-vermelhas, em canoas, para caçar o leviatã? E de onde, a não ser de Nantucket, partiu também aquela primeira chalupazinha aventurosa, parcialmente carregada com pedras redondas de calçamento, importadas - assim dizem - para atirá-las nas baleias, com o intuito de descobrir quando estavam perto, o bastante para arriscar do gurupés um arpão?"

PE, 70: "Aparafusada à parede por seu eixo, uma lâmpada oscilante balançava lentamente no cubículo de Jonas; e - adernado o navio para o molhe, com o peso dos últimos volumes que recebera - a lâmpada, chama e tudo, não obstante em suave movimento, mantém contudo permanente obliqüidade com referência ao quarto - embora, em verdade, infalivelmente reta em si mesma, ela apenas evidencie que são falsos e mentirosos os níveis entre os quais está suspensa."

AM, 69: "Aparafusada à parede por seu eixo, uma lâmpada oscilante balançava lentamente no cubículo de Jonas; e - adernado o navio para o molhe, com o peso dos últimos volumes que recebera - a lâmpada, chama e tudo, não obstante em suave movimento, mantém contudo permanente obliqüidade com referência ao quarto - embora, em verdade, infalivelmente reta em si mesma, ela apenas evidencie que são falsos e mentirosos os níveis entre os quais está suspensa."

PE, 226: "Aquela impalpável malignidade que desde o começo sempre existiu; a cujo domínio mesmo os cristãos atuais atribuem a metade dos mundos; que os antigos ofitas do oriente reverenciavam em seu demônio esculpido, Acab não se prosternava a adorá-la, como eles, mas, transferindo delirantemente a idéia dela para o detestado Cachalote Branco, opunha-se-lhe, todo mutilado. Tudo o que mais enlouquece e atormenta; tudo o que agita a borra das coisas; toda verdade que encerre algo de maligno; tudo o que rebente os nervos e endureça o cérebro; todos os sutis demonismos da vida e do pensamento; todo o mal, para o doido Acab, personificava-se visivelmente e podia praticamente ser atingido em Moby Dick."

AM, 202: "Aquela malignidade que desde o começo sempre existiu; a cujo domínio mesmo os cristãos atuais atribuem a metade dos mundos; que os antigos ofitas do oriente reverenciavam em seu demônio esculpido, Acab não se rendia a cultuá-la, como eles, mas, transferindo loucamente a idéia dela para o odiado cachalote branco, opunha-se-lhe, todo mutilado. Para o velho Acab, tudo o que mais enlouquece e atormenta; tudo o que agita a borra das coisas; toda verdade que encerre algo de maligno; tudo o que destroce os nervos e endureça o cérebro; todos os mais sutis demonismos da vida e do pensamento; todo o mal personificava-se e podia praticamente ser atingido em Moby Dick."


e por aí afora, por quase 700 páginas. as notas também foram copiadas.

para péricles, la nageuse de matisse.
para o terceirinho, www.piratemerch.com.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

16 de set. de 2008

o amante de lady chatterley

prosseguindo na campanha antipiratice, hoje vou de o amante de lady chatterley, de d. h. lawrence.

a edição publicada pela companhia editora nacional traz a obra em tradução de rodrigo richter.

até onde consigo entender, esta obra atualmente está ativa no catálogo da record, em formato de bolso (coleção best-bolso), com os devidos créditos de tradução em nome de rodrigo richter.

a edição da martin claret, por seu lado, traz os créditos de tradução atribuídos a "jorge luís penha".

contatei a editora record, para saber se os direitos haviam sido licenciados para a martin claret. cite-se de passagem a resposta do coordenador editorial da record a tal respeito: "Nossa empresa não firmou qualquer acordo de co-edição com a editora mencionada e desconhece a utilização de nossos textos por essa editora" (bom, agora já não desconhece mais).

RR, p. 9: Vivemos numa idade essencialmente trágica; por isso nos recusamos a tê-la como tal. O grande desastre aconteceu; achamo-nos entre ruínas, forçados a reconstruir novos habitats, a criar de novo pequeninas esperanças. Trabalho bastante duro. Já não há caminhos fáceis à nossa frente: temos de contornar os obstáculos, pular por cima deles - e isso porque temos de viver, seja qual for a extensão do desastre havido.

JLP, p. 27: Vivemos numa idade essencialmente trágica; por isso nos recusamos a tê-la como tal. O grande desastre aconteceu; achamo-nos entre ruínas, forçados a reconstruir novos hábitats, a criar de novo pequeninas esperanças. Trabalho bastante duro. Já não há caminhos fáceis à nossa frente: temos de contornar os obstáculos, pular por cima deles - e isso porque temos [sem o itálico] de viver, seja qual for a extensão do desastre havido.

RR, p. 24: Constance admirava-se da cegueira do marido, daquela fúria de tornar-se célebre num continente amorfo, que ela não conhecia e lhe inspirava até medo, daquela eterna ânsia de ser cotado como um dos escritores modernos de mais valor. Com o exemplo em casa de Sir Malcolm, Constance sabia muito bem como agem os artistas que querem vender seus produtos. Mas seu pai lançava mão dos meios usuais, ao passo que Clifford recorria a todos, e a muitos inéditos. Wragby passou a encher-se de gente de toda a espécie. Na fúria de conquistar reputação, ele jogava com todos os materiais.

JLP, p. 41: Constance admirava-se da cegueira do marido, daquela fúria de tornar-se célebre num continente amorfo, que ela não conhecia e lhe inspirava até medo, daquela eterna ânsia de ser cotado como um dos escritores modernos de mais valor. Com o exemplo em casa de Sir Malcolm, Constance sabia muito bem como agem os artistas que querem vender seus produtos. Mas seu pai lançava mão dos meios usuais, ao passo que Clifford recorria a todos, e a muitos inéditos. Wragby passou a encher-se de gente de toda a espécie. Na fúria de conquistar reputação, ele jogava com todos os materiais.

só para ninguém achar que a claret não maquiou nem um tiquinho, há um exemplo:

RR, p. 106: Já o romance como simples mexericada também pode excitar simpatias e desdéns, insinceros, mecânicos, mortais para a alma. Pode glorificar os sentimentos mais corrompidos, contando que eles permaneçam convencionalmente puros. E então o romance, como a mexericada, torna-se vicioso, e tanto mais vicioso quanto mais finge estar do lado dos anjos. A mexericada de Mrs. Bolton estava sempre do lado dos anjos. "E ele não era sério e ela era tão direita", dizia; mas, ao contrário disso, e mesmo com base nas próprias histórias de Mrs. Bolton, Constance via que a heroína não passava duma melosa e o herói dum brutal. O tudo era que uma honestidade brutal tornava o homem "não sério" e umas falas melosas tornavam a mulher "direita" - isso no canal vicioso para onde Mrs. Bolton desviava as suas simpatias.


JLP, p. 117: Já o romance como simples mexerico também pode excitar simpatias e desdéns, insinceros, mecânicos, mortais para a alma. Pode glorificar os sentimentos mais corrompidos, contando que eles permaneçam convencionalmente puros. E então o romance, como a mexerico, torna-se vicioso, e tanto mais vicioso quanto mais finge estar do lado dos anjos. A bisbilhotice de Mrs. Bolton estava sempre do lado dos anjos. "E ele não era sério e ela era tão direita", dizia; mas, ao contrário disso, e mesmo com base nas próprias histórias de Mrs. Bolton, Constance via que a heroína não passava duma melosa e o herói dum brutal. O tudo era que uma honestidade brutal tornava o homem "não sério" e umas falas melosas tornavam a mulher "direita" - isso no canal vicioso para onde Mrs. Bolton desviava as suas simpatias.

e por aí vai, até a famosa frase final:

RR, p. 308: "Estamos reunidos por uma grande parte de nós mesmos. Temos que ficar firmes e nos prepararmos para o próximo encontro. John Thomas, de cabeça caída, diz boa noite a Lady Jane. De cabeça caída, sim, mas cheio de esperanças."

JLP, p. 301: Estamos reunidos por uma grande parte de nós mesmos. Temos de ficar firmes e nos prepararmos para o próximo encontro. John Thomas, de cabeça caída, diz boa noite a Lady Jane. De cabeça caída, sim, mas cheio de esperanças.

outra coisa curiosa nesta edição da martin claret é o nome do capista: marcellin talbot.

sim, marcellin talbot, aquele mesmo cadastrado na fundação biblioteca nacional como tradutor de papéis avulsos de machado de assis.

para quem não acompanhou a farsa dos tradutores claretianos de machado, ver vários posts que publiquei em maio. um deles dá a lista geral das traduções da claret para obras portuguesas e brasileiras na fbn.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagem: www.bulwarkhouse.co.uk

15 de set. de 2008

ninguém merece


adolfo casais monteiro dispensa apresentação. seu filho joão paulo monteiro, livre-docente de filosofia na usp, teve sua tradução de o leviatã surripiada pelo segundinho da claret, "alex marins", conforme cotejo apresentado aqui no nãogostodeplágio, e prontamente se pôs a correr atrás do problema.

além disso, alarmado com a desfaçatez e preocupado com o legado intelectual de seu pai, enviou algumas páginas escaneadas de o desespero humano, traduzido por adolfo casais monteiro.

infelizmente, bingo.

foi o mesmo segundinho da claret que assinou o roubo: alex marins. abaixo, o kierkegaard da claret:

"[...] Desse modo derivada ou estabelecida, essa relação é o eu do homem. É uma relação que não é apenas consigo própria, mas com outrem. Daí provém que haja duas formas do verdadeiro desespero. Se o nosso eu tivesse sido estabelecido por ele mesmo, uma só existiria: não querermos ser nós mesmos, querermo-nos desembaraçar do nosso eu, e não poderia existir esta outra: a vontade desesperada de sermos nós mesmos. Com efeito, o que esta fórmula traduz é a dependência do conjunto da relação, que é o eu, ou seja, a incapacidade de, pelas suas próprias forças, o eu conseguir o equilíbrio e o repouso. Isso não lhe é possível, na sua relação consigo mesmo, senão relacionando-se com o que pôs o conjunto da relação. Mais ainda: esta segunda forma de desespero - a vontade de sermos nós próprios - designa tampouco uma maneira especial de desesperar, que, ao contrário, nela finalmente se resolve e a ela se reduz todo o desespero." etc.etc.

alerta: há douta tese recente em prestigiosa universidade tomando a pirataria como referência bibliográfica, além de artigos em revistas científicas.

mestre bosi de novo: é a própria credibilidade do trabalho intelectual que fica abalada.

14 de set. de 2008

cultivando a desmemória

escola particular conclui programa de curso de 2008 com recomendação enfática a seus aluninhos da sexta série - o livro "que você não pode deixar de ler: as mulherzinhas, louise may alcott, editora martin claret".

será que alguém lembra quem era godofredo rangel?

13 de set. de 2008

reação

joão paulo monteiro declara e pede divulgação: irá processar a editora martin claret pelo delito praticado em duas traduções - a sua, de o leviatã, e a de adolfo casais monteiro, de o desespero humano, de quem é o legítimo sucessor e herdeiro.

isso, mestre. não deixe barato, não.

12 de set. de 2008

ah!

Negócios Entidades do livro preocupadas com os direitos do autor
Postado por Galeno Amorim - 20h47
Cresce no mercado editorial a apreensão de editores diante da movimentação de setores do Ministério da Cultura para tentar modificar a atual legislação sobre direitos autorais. Algumas entidades, com o Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel) e a Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR) à frente, começam a se movimentar em sentido contrário. Argumentam que mexer nesses direitos deve desestimular tanto a criação dos autores como os investimentos das editoras em marketing, distribuição e desenvolvimento de novos produtos.

Políticas Públicas Deputados debaterão direitos do autor
Blog do Galeno - 11/09/2008 - por Galeno Amorim
Galeno Amorim informa que a Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados está programando uma audiência pública para debater as propostas existentes para modificar a atual legislação que rege os direitos do autor no País. Serão convidados os defensores da adoção de leis mais flexíveis e os representantes das editoras, que são contrários. O encontro foi provocado pela gerência da Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, que encampou e defende a mudança.
http://blogdogaleno.blog.uol.com.br/ (negritos meus, denise)

tenho divulgado aqui os vários seminários promovidos pelo fórum nacional dos direitos autorais. divulguei também os contatos com a coordenação geral do setor de direitos autorais, no minc. divulguei também o tipo de ação policialesca desenvolvida pela abdr. acompanhem a discussão.

por outro lado, bem que os representantes das editoras e associações agressivas como a abdr poderiam cuidar melhor da qualidade do mercado editorial: por exemplo, por que abrigar no quadro de seus associados editoras notórias por suas irregularidades, com centenas de edições suspeitas de plágio (ou edições de plágios comprovados)?

enquanto as entidades de classe dos editores e livreiros não colocarem em prática regras básicas de seus próprios estatutos (ética, integridade etc.), fica difícil acreditar nelas.

o decurso do método



já o mestre da dúvida, na duvidosa e duvidada edição da martin claret, teve sua biografia extraída a henry thomas na tradução de otávio mendes cajado, o texto em português profundamente inspirado em jacó guinsburg e bento prado jr., e as parcas singelíssimas notas recortadas das de gérard lebrun.


a "guapa figurinha de filósofo" em sua versão nassetti-claretiana permeia tentacularmente revistas científicas e universidades de norte a sul do brasil, no interior e nas capitais, públicas e privadas, em ementas de cursos e teses, na graduação e na pós-graduação, nas mais variadas áreas de conhecimento: direito, geografia, pedagogia, saúde, física, ciência da informação, teologia, educação física, psicologia, lingüística, contabilidade e ... filosofia!

11 de set. de 2008

uma biografia

"A mãe de René morreu de tuberculose poucos dias após o nascimento dele. Disseram a seu pai, os médicos, que René também estava destinado a uma sepultura precoce, porque ele herdara a pálida compleição e a tosse de sua mãe. O pai, funcionário público em Poitiers, entregou-o à guarda de uma ama que o afastava dos jogos e e brinquedos das outras crianças da aldeia. Como resultado desse excesso de mimos, cresceu ele com um espírito 'feminino' - dedicado, introspectivo, distante. [...]

Entretanto, após o seu momentâneo sofrimento recolheu-se de novo à cidadela de seus pensamentos. Comprou uma bela propriedade agrícola pouco distante de Leyden e apenas a 'duas horinhas' do mar. Aí, servido por 'uma quantidade suficiente de criados bem escolhidos', sentava-se em seu escritório octogonal, olhando para um velho jardim pitoresco e sonhando os seus sonhos de cética ortodoxia. Era uma guapa figurinha de filósofo"

tal é a biografia de rené descartes, in henry thomas e dana lee thomas, vidas de grandes filósofos, trad. otávio mendes cajado, ed. globo, pp. 83-89.

e tal é a biografia de rené descartes, meticulosamente copiada sem qualquer fonte ou crédito de autor, in rené descartes, discurso do método, "trad." pietro nassetti, martin claret, pp. 11-18.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


9 de set. de 2008

godofredo rangel x "alex marins"

mulherzinhas, louise may alcott

1. godofredo rangel, cia. editora nacional


2. "alex marins", martin claret


1. godofredo rangel
cap. I, brincando de peregrinos (p. 5):

- sem presentes o natal não é natal, murmurou jo, estendida sobre o tapete.

- é tão triste ser pobre! suspirou meg, fitando o seu vestido velho.

- não acho justo que umas moças tenham tantas coisas boas, ao passo que outras nada possuem - ajuntou a pequena amy, com um suspiro profundo.

- mas temos papai e mamãe, disse beth alegremente, do seu canto, e nos temos umas às outras, também.

as quatro faces juvenis brilharam aos lampejos do fogão aceso, a essas palavras joviais, mas entristeceram novamente quando jo lhes disse, com amargura:

2. "alex marins"
cap. I, brincando de peregrinos (p. 13):

- sem presentes o natal não é natal, murmurou jo, estendida sobre o tapete.

- é tão triste ser pobre! suspirou meg, fitando o seu vestido velho.

- não acho justo que umas moças tenham tantas coisas boas, ao passo que outras nada possuem - ajuntou a pequena amy, com um suspiro profundo.

- mas temos papai e mamãe, disse beth alegremente, do seu canto, - e nos temos umas às outras, também.

as quatro faces juvenis brilharam aos lampejos do fogão aceso, a essas palavras joviais, mas entristeceram novamente quando jo lhes disse, com amargura:

1. godofredo rangel
cap. VI, beth no palácio maravilhoso (p. 63):

a vasta casa era realmente um palácio maravilhoso embora precisasse de tempo para atingi-lo, pois beth arreceava dos leões. o velho sr. laurence era o maior de todos; depois, porém, de ter ele conversado - alguns gracejos ou palavras atenciosas ditos a cada uma das moças, algumas recordações dos antigos tempos à mãe - ninguém mais o temia exceto a tímida beth. o outro leão era o fato de serem pobres e laurie rico, pois tornava-as acanhadas receber favores que não podiam retribuir. após algum tempo, contudo, elas compreenderam que o velho as considerava como benfeitoras, não sabendo como demonstrar sua gratidão pela maternal bondade da sra. march, pela companhia jovial e conforto que encontrava naquela humilde casa; por isso, esqueceram-se logo de seu orgulho de pobres, trocando atenções sem se deter a pensar em quais eram as maiores.

2. "alex marins"
cap. VI, beth no palácio maravilhoso (p. 70):

a vasta casa era realmente um palácio maravilhoso embora precisasse de tempo para atingi-lo, pois beth arreceava dos leões. o velho sr. laurence era o maior de todos; depois, porém, de ter ele conversado - alguns gracejos ou palavras atenciosas ditos a cada uma das moças, algumas recordações dos antigos tempos à mãe - ninguém mais o temia, exceto a tímida beth. o outro leão era o fato de serem pobres e laurie rico, pois as tornava acanhadas receber favores que não podiam retribuir. após algum tempo, contudo, elas compreenderam que o velho as considerava como benfeitoras, não sabendo como demonstrar sua gratidão pela maternal bondade da sra. march, pela companhia jovial e o conforto que encontrava naquela humilde casa; por isso, esqueceram-se logo de seu orgulho de pobres, trocando atenções sem se deter a pensar em quais eram as maiores.

1. godofredo rangel
cap. XIII, castelos no ar (p. 146):

laurie embalava-se lentamente na rede em uma tarde cálida de setembro, perguntando-se o que seria feito de suas vizinhas, mas com preguiça suficiente para não ir saber notícias delas. estava num de seus dias de mau humor; o dia fora-lhe inútil e aborrecido e bem quisera vivê-lo de novo. o calor tornara-o indolente; deixara de lado o estudo, apoquentara a mais não poder o sr. brooke, aborrecera o avô, excitando-se em jogos grande parte do dia, assustara horrivelmente as criadas, fazendo-lhes crer, por maldade, que um dos cães ia ficar louco e, depois de dirigir palavras ásperas ao rapaz da estrebaria sob o pretexto imaginário de não ter tratado do seu cavalo, mergulhara finalmente na rede a pensar na estupidez do mundo até que, apesar de si próprio, o acalmara a placidez daquele belo dia.

2. "alex marins"
cap. XIII, castelos no ar (p. 154):

laurie embalava-se lentamente na rede em uma tarde cálida de setembro, perguntando-se o que seria feito de suas vizinhas, mas com preguiça suficiente para não ir saber notícias delas. estava num de seus dias de mau humor; o dia fora-lhe inútil e aborrecido e bem quisera vivê-lo de novo. o calor tornara-o indolente; deixara de lado o estudo, apoquentara a mais não poder o sr. brooke, aborrecera o avô, excitando-se em jogos grande parte do dia, assustara horrivelmente as criadas, fazendo-lhes crer, por maldade, que um dos cães ia ficar louco e, depois de dirigir palavras ásperas ao rapaz da estrebaria sob o pretexto imaginário de não ter tratado do seu cavalo, mergulhara finalmente na rede a pensar na estupidez do mundo até que, apesar de si próprio, o acalmara a placidez daquele belo dia.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagens: smileys, yes e no

8 de set. de 2008

nassetti em pdf

a ética a nicômaco, de aristóteles, foi publicada nos anos 1970 na coleção "os pensadores", coordenada por josé américo motta pessanha, na abril cultural.

a tradução era da autoria de leonel vallandro e gerd bornheim, a partir da versão inglesa de w.d. ross.

foi recentemente pirateada com leves toques de maquiagem pela martin claret, atribuída, claro, a pietro nassetti.

e agora a cópia atamancada da claret foi publicada como e-book, para download gratuito em pdf, com direito a todo aquele falatório autopromocional da claret no início, por alguém do curso de filosofia da uerj, talvez algum estudante insuficientemente informado.

como diz o mestre bosi, e repito mais uma vez, é a própria credibilidade do trabalho intelectual que fica abalada.

quanta enganação!


e o que dizer quando uma esforçada aluna de um curso universitário de tradução realiza um estudo comparado das traduções de orgulho e preconceito assinadas por lúcio cardoso e jean melville?

lúcio cardoso dispensa apresentação. já jean melville é o segundinho da martin claret, logo após pietro nassetti.

sua pretensa tradução de orgulho e preconceito é, na verdade, uma cópia levemente maquiada da tradução de maria francisca ferreira de lima, pela europa-américa, 1975.

tal é a editora martin claret com sua missão educacional, ajudando a cultura neste país.

6 de set. de 2008

encontro de editoras

imagem: smiley
a anpuh (associação nacional de professores universitários de história), em sua regional de são paulo, organiza uma feira de livros na semana que vem.

em pé de igualdade, convivendo alegremente com editoras sérias e responsáveis, quem está lá? sob a égide da anpuh? em área pública da usp? com divulgação em site da edusp?

http://www.edusp.com.br/eventos.asp