20 de set. de 2008

rodando o mundo (e as editoras)


"assim, este personagem enigmático, o qual só se sabia que era muito amável e dos mais perfeitos cavalheiros da alta sociedade inglesa, sucedeu, ali, a um dos maiores oradores britânicos.

dizia-se que tinha certas semelhanças com byron - na cabeça, pois, quanto aos pés, era irrepreensível - mas um byron de bigode, um byron impassível, capaz de viver mil anos sem apresentar sintomas de velhice.

[...] dirigiu-se logo para a sala de jantar, cujas nove janelas davam para o jardim, já com as árvores douradas pelo sopro do outono. ali tomou lugar à mesa que lhe era habitual e onde já estava posto o serviço de sempre. compunha-se o almoço de entrada, peixe cozido, temperado com molho de primeira qualidade, carne mal assada rica de condimentação, bolo recheado de talos de ruibarbo e de groselhas verdes e um pedaço de queijo - tudo isto regado por excelente chá."

este é um trechinho de a volta ao mundo em oitenta dias, de júlio verne, em tradução de vieira neto, publicada em 1965 pela ed. matos peixoto, às pp. 9 e 19.

eis a réplica fiel da martin claret, às pp. 11 e 18 de sua edição, com a tradução atribuída ao impertérrito pietro nassetti:

"assim, este personagem enigmático, o qual só se sabia que era muito amável e dos mais perfeitos cavalheiros da alta sociedade inglesa, sucedeu, ali, a um dos maiores oradores britânicos.

dizia-se que tinha certas semelhanças com byron - na cabeça, pois, quanto aos pés, era irrepreensível - mas um byron de bigode, um byron impassível, capaz de viver mil anos sem apresentar sintomas de velhice.

[...] dirigiu-se logo para a sala de jantar, cujas nove janelas davam para o jardim, já com as árvores douradas pelo sopro do outono. ali tomou lugar à mesa que lhe era habitual e onde já estava posto o serviço de sempre. compunha-se o almoço de entrada, peixe cozido, temperado com molho de primeira qualidade, carne mal assada rica de condimentação, bolo recheado de talos de ruibarbo e de groselhas verdes e um pedaço de queijo - tudo isto regado por excelente chá."

hoje eu gostaria de ilustrar vividamente a cópia, apresentando em contraste duas traduções de autorias diferentes:

de p. m. v., pela francisco alves, pp. 5 e 13:
"sucedia pois a um dos maiores oradores de que a inglaterra se honra e ufana este phileas fogg, personagem enigmática, a respeito da qual nada se sabia, senão que era pessoa muito elegante, e um dos mais perfeitos gentlemen da alta sociedade inglesa.

dizia-se que tinha grandes parecenças com byron - na cabeça, pois quanto aos pés era phileas fogg irrepreensível -, mas um byron de bigode, um byron impassível, capaz de viver mil anos sem apresentar sintomas de velhice.

[...] phileas fogg dirigiu-se logo para a sala de jantar, cujas nove janelas deitavam para um jardim com muitas e frondosas árvores já douradas pelo sopro do outono. ali tomou lugar à mesa que lhe era habitual e onde o esperava o seu talher. compunha-se o almoço de um hors-d'oeuvre, de peixe cozido temperado com um molho de primeira qualidade, de um rosbife em sangue acompanhado de talos de ruibarbo e de groselhas verdes, e de um pedaço de queijo chamado chester - tudo isso regado por algumas chávenas de chá excelente, de propósito escolhido para a despensa do Reform-Club."

ivan pedro cesar da cunha, pela ed. fase, pp. 7 e 17:

"a vaga aberta pela morte de um dos mais eloqüentes oradores de que a inglaterra se orgulha, fora, assim, preenchida por esta personagem enigmática, de quem nada se sabia a não ser que era extremamente polido e um dos mais brilhantes gentleman [sic] da alta sociedade inglesa.

assemelhavam-no a byron - na cabeça, pois quanto aos pés era mesmo phileas fogg - mas um byron de bigodes e suíças, um byron impassível, capaz de viver mil anos sem envelhecer.

[...] dirigiu-se logo para a sala de jantar. então, sentou-se à mesa habitual, onde já o esperava o serviço de sempre. o almoço compunha-se de entrada, peixe cozido, rosbife mal passado, guarnecido de cogumelos, uma empada com recheio de ruibarbo e groselhas verdes e, por fim, uma fatia de queijo chester - tudo regado com algumas chávenas desse excelente chá expressamente colhido para a despensa do Reform-Club."

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


19 de set. de 2008

a balada


cento e poucos anos após sua morte, oscar wilde continua a ser objeto de agressões.

agora teve sua balada do cárcere de reading, em tradução da autoria de oscar mendes, publicada pela josé aguilar em tempos d'antanho, deslavadamente contrabandeada:

oscar mendes:

Soube tão só que torturante idéia
Lhe dava ao passo aquela pressa.
Porque olhava para o céu brilhante
Com tal olhar de ansiedade;
O homem matara aquela a quem amava
E assim teria de morrer.

Contudo os homens matam o que amam
Seja por todos isto ouvido,
Alguns o fazem com acerbo olhar,
Outros com frases de lisonja,
O covarde assassina com um beijo,
O bravo mata com punhal!

Uns matam seu amor, quando são jovens,
Outros quando velhos estão;
Com as mãos do Desejo uns estrangulam
Outros do Ouro com as mãos;
Os de mais compaixão usam a faca,
O morto assim logo se esfria.

Uns amam pouco tempo, outros demais;
Este o amor compra, aquele o vende;
Uns matam a chorar, com muitas lágrimas,
Outros sem mesmo suspirar;
Porque cada um de nós mata o que ama,
Mas nem todos hão de morrer.

na martin claret, o segundinho jean melville, uma vez mais:

Soube tão só que torturante idéia
Lhe dava ao passo aquela pressa.
Porque olhava para o céu brilhante
Com tal olhar de ansiedade;
O homem matara aquela a quem amava
E assim teria de morrer.

Contudo os homens matam o que amam
Seja por todos isto ouvido,
Alguns o fazem com acerbo olhar,
Outros com frases de lisonja,
O covarde assassina com um beijo,
O bravo mata com punhal!

Uns matam seu amor, quando são jovens,
Outros quando velhos estão;
Com as mãos do Desejo uns estrangulam
Outros do Ouro com as mãos;
Os de mais compaixão usam a faca,
O morto assim logo se esfria.

Uns amam pouco tempo, outros demais;
Este o amor compra, aquele o vende;
Uns matam a chorar, com muitas lágrimas,
Outros sem mesmo suspirar;
Porque cada um de nós mata o que ama,
Mas nem todos hão de morrer.

(a grande pista para mais este "flagrante" foi dada por james emanuel, em seu blog reflexões)

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

18 de set. de 2008

monteiro lobato

se houvesse algum patrono da tradução no brasil, a meu ver seria monteiro lobato. desde o começo do século XX defendia e praticava a abertura dos horizontes intelectuais brasileiros para o mundo - e reconhecia na obra do tradutor "a coisa suprema do mundo mental: universalização do pensamento".

é de revoltar o estômago que o livro da jângal, na deliciosíssima tradução de lobato (cia. editora nacional) a que apenas alguns escravos da letra podem levantar reparos, saia publicado pela martin claret, com tradução atribuída a alex marins.

é de revoltar o estômago que os cantos da floresta, tão belamente traduzidos por jamil almansur haddad, sejam conspurcados ao lhes ser atribuída tradução por alex marins.

todas as piores qualidades parecem se somar na dolorosa e chocante desfaçatez que cerca os crimes de lesa-patrimônio praticados pela martin claret.

recomendo vivamente o emocionado e emocionante artigo de lobato, "quem é esse kipling?", em mundo da lua e miscelânea - é uma elevada profissão de fé, e que possa falar mais alto do que essa imunda torrente que quer nos arrastar para a incultura e a passiva indiferença mental.
a. monteiro lobato (poema: jamil almansur haddad)
O Abutre Chil conduz a noite incerta
Que o morcego Mang ora liberta -
É esta a hora em que adormece o gado,
Pelo aprisco fechado.
É esta a hora do orgulho e da força,
Unha ferina e aguda garra.
Ouve-se o grito: Boa caçada àquele
Que à lei da Jângal se agarra.

Canto noturno na Jângal
Nos montes de Seeonee, ali pelas sete horas daquele dia tão quente, Pai Lobo despertava do seu longo sono, espreguiçava-se, bocejava e estirava as pernas para espantar a lombeira entorpecente. Deitada ao seu lado, com o focinho entre os quatro filhotes do casal, Mãe Loba tinha os olhos fixos na lua que, naquele momento, aparecia na boca da caverna.

Os bufos haviam mudado para uma espécie de rosnar sem direção. Esse rosnar sem direção, que parece vir dos quatro pontos cardeais, desorienta os lenhadores e ciganos que dormem ao relento, fazendo-os, às vezes, correr justamente para as goelas do tigre. [...] A Lei da Jângal, que nada prescreve sem razões, proíbe a todos os animais que comam homens, exceto quando algum deles está matando para ensinar os filhos como se mata. O motivo disto é que, quando comem um homem, cedo ou tarde aparecem no lugar homens brancos montados em elefantes e rodeados de centenas de homens pardos com archotes e gongos - e então a floresta inteira sofre. Mas a desculpa que os animais apresentam para que o homem seja respeitado, é que constitui ele a mais fraca e indefesa de todas as criaturas, sendo, portanto, covardia atacá-lo. Dizem também - e é verdade - que os comedores de homens se tornam sarnentos e perdem os dentes.

Pulemos agora dez anos de descrição da vida de Mowgli entre os lobos, coisa que daria matéria para todo um volume. Digamos apenas que ali cresceu entre os lobinhos, embora todos ficassem adultos antes que Mowgli deixasse de ser criança. Pai Lobo ensinou-lhe a vida e a significação das coisas da Jângal em todas as suas minudências. Os menores rumores nas ervas, o movimento das brisas, as notas do canto da coruja, cada arranhadura que a garra dos morcegos deixa na casca das árvores onde se penduram por um momento, a lambada n'água de cada peixinho ao dar pulos na superfície - tudo significa muito para os animais da floresta.

b. "alex marins"

O Abutre Chil conduz a noite incerta
Que o morcego Mang ora liberta -
É esta a hora em que adormece o gado,
Pelo aprisco fechado. É esta a hora do orgulho e da força,
Unha ferina e aguda garra.
Ouve-se o grito: Boa caçada àquele
Que à lei da Jângal se agarra.
Canto noturno na Jângal

Nos montes de Seeonee, ali pelas sete horas daquele dia tão quente, Pai Lobo despertava do seu longo sono, espreguiçava-se, bocejava e estirava as pernas para espantar a lombeira entorpecente. Deitada ao seu lado, com o focinho entre os quatro filhotes do casal, Mãe Loba tinha os olhos fixos na lua que, naquele momento, aparecia na boca da caverna. (p. 17)

Os bufos haviam mudado para uma espécie de rosnar sem direção. Esse rosnar sem direção, que parece vir dos quatro pontos cardeais, desorienta os lenhadores e ciganos que dormem ao relento, fazendo-os, às vezes, correr justamente para as goelas do tigre. [...] A Lei da Jângal, que nada prescreve sem razões, proíbe a todos os animais que comam homens, exceto quando algum deles está matando para ensinar os filhos como se mata. O motivo disto é que, quando comem um homem, cedo ou tarde aparecem no lugar homens brancos montados em elefantes e rodeados de centenas de homens pardos com archotes e gongos - e então a floresta inteira sofre. Mas a desculpa que os animais apresentam para que o homem seja respeitado, é que constitui ele a mais fraca e indefesa de todas as criaturas, sendo, portanto, covardia atacá-lo. Dizem também - e é verdade - que os comedores de homens se tornam sarnentos e perdem os dentes. (p. 19)

Pulemos agora dez anos de descrição da vida de Mowgli entre os lobos, coisa que daria matéria para todo um volume. Digamos apenas que ali cresceu entre os lobinhos, embora todos ficassem adultos antes que Mowgli deixasse de ser criança. Pai Lobo ensinou-lhe a vida e a significação das coisas da Jângal em todas as suas minudências. Os menores rumores nas ervas, o movimento das brisas, as notas do canto da coruja, cada arranhadura que a garra dos morcegos deixa na casca das árvores onde se penduram por um momento, a lambada n'água de cada peixinho ao dar pulos na superfície - tudo significa muito para os animais da floresta. (p. 27)

o plágio foi feito na íntegra, sem qualquer alteração, exceto o uso de itálico em palavras tidas como difíceis pelo editor e equipe da claret: "aprisco" e "minudências", explicadas em glossário como, respectivamente, "curral; covil, toca" e "pormenor. exame atento, observação escrupulosa" (pp. 231 e 233).


imagem: detalhe de um baixo-relevo feito por john lockwood kipling, pai de rudyard kipling, em que mowgli ataca shere khan. reproduzido na edição das obras completas de kipling, 1907.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

17 de set. de 2008

moby dick

o terror dos mares, o leviatã dos oceanos, o próprio!

vamos lá. de um lado a conhecidíssima tradução de péricles eugênio da silva ramos, pela editora abril cultural, de outro lado aquela prática medonha da claret, com o terceirinho alex marins. (pobre herman!)


Io! Peã! Io! Cantai
Para o Rei do povo písceo.

PE, 23: "e especialmente sempre que minha hipocondria adquire tal domínio sobre mim que é preciso um sólido princípio moral para impedir-me de sair deliberadamente para a rua e metodicamente surrar as pessoas - então acho que está na hora de ir para o mar o mais depressa possível".

AM, 29: "e especialmente sempre que minha hipocondria adquire tal domínio sobre mim que é preciso um sólido princípio moral para impedir-me de sair deliberadamente para a rua e metodicamente surrar as pessoas, significa que é sempre chegado o momento de ir para o mar o mais depressa possível".

PE, 30: "De onde mais, a não ser de Nantucket, saíam esses baleeiros aborígines, os peles-vermelhas, em canoas, para dar caça ao Leviatã? E de onde, a não ser de Nantucket, partiu também aquela primeira chalupazinha aventurosa, parcialmente carregada com pedras redondas de calçamento, importadas - assim se conta - para atirá-las nas baleias, com o fito de descobrir quando estavam perto, o bastante para arriscar do gurupés um arpão?"

AM, 34-5: "De onde mais, a não ser de Nantucket, saíam esses baleeiros aborígines, os peles-vermelhas, em canoas, para caçar o leviatã? E de onde, a não ser de Nantucket, partiu também aquela primeira chalupazinha aventurosa, parcialmente carregada com pedras redondas de calçamento, importadas - assim dizem - para atirá-las nas baleias, com o intuito de descobrir quando estavam perto, o bastante para arriscar do gurupés um arpão?"

PE, 70: "Aparafusada à parede por seu eixo, uma lâmpada oscilante balançava lentamente no cubículo de Jonas; e - adernado o navio para o molhe, com o peso dos últimos volumes que recebera - a lâmpada, chama e tudo, não obstante em suave movimento, mantém contudo permanente obliqüidade com referência ao quarto - embora, em verdade, infalivelmente reta em si mesma, ela apenas evidencie que são falsos e mentirosos os níveis entre os quais está suspensa."

AM, 69: "Aparafusada à parede por seu eixo, uma lâmpada oscilante balançava lentamente no cubículo de Jonas; e - adernado o navio para o molhe, com o peso dos últimos volumes que recebera - a lâmpada, chama e tudo, não obstante em suave movimento, mantém contudo permanente obliqüidade com referência ao quarto - embora, em verdade, infalivelmente reta em si mesma, ela apenas evidencie que são falsos e mentirosos os níveis entre os quais está suspensa."

PE, 226: "Aquela impalpável malignidade que desde o começo sempre existiu; a cujo domínio mesmo os cristãos atuais atribuem a metade dos mundos; que os antigos ofitas do oriente reverenciavam em seu demônio esculpido, Acab não se prosternava a adorá-la, como eles, mas, transferindo delirantemente a idéia dela para o detestado Cachalote Branco, opunha-se-lhe, todo mutilado. Tudo o que mais enlouquece e atormenta; tudo o que agita a borra das coisas; toda verdade que encerre algo de maligno; tudo o que rebente os nervos e endureça o cérebro; todos os sutis demonismos da vida e do pensamento; todo o mal, para o doido Acab, personificava-se visivelmente e podia praticamente ser atingido em Moby Dick."

AM, 202: "Aquela malignidade que desde o começo sempre existiu; a cujo domínio mesmo os cristãos atuais atribuem a metade dos mundos; que os antigos ofitas do oriente reverenciavam em seu demônio esculpido, Acab não se rendia a cultuá-la, como eles, mas, transferindo loucamente a idéia dela para o odiado cachalote branco, opunha-se-lhe, todo mutilado. Para o velho Acab, tudo o que mais enlouquece e atormenta; tudo o que agita a borra das coisas; toda verdade que encerre algo de maligno; tudo o que destroce os nervos e endureça o cérebro; todos os mais sutis demonismos da vida e do pensamento; todo o mal personificava-se e podia praticamente ser atingido em Moby Dick."


e por aí afora, por quase 700 páginas. as notas também foram copiadas.

para péricles, la nageuse de matisse.
para o terceirinho, www.piratemerch.com.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

16 de set. de 2008

o amante de lady chatterley

prosseguindo na campanha antipiratice, hoje vou de o amante de lady chatterley, de d. h. lawrence.

a edição publicada pela companhia editora nacional traz a obra em tradução de rodrigo richter.

até onde consigo entender, esta obra atualmente está ativa no catálogo da record, em formato de bolso (coleção best-bolso), com os devidos créditos de tradução em nome de rodrigo richter.

a edição da martin claret, por seu lado, traz os créditos de tradução atribuídos a "jorge luís penha".

contatei a editora record, para saber se os direitos haviam sido licenciados para a martin claret. cite-se de passagem a resposta do coordenador editorial da record a tal respeito: "Nossa empresa não firmou qualquer acordo de co-edição com a editora mencionada e desconhece a utilização de nossos textos por essa editora" (bom, agora já não desconhece mais).

RR, p. 9: Vivemos numa idade essencialmente trágica; por isso nos recusamos a tê-la como tal. O grande desastre aconteceu; achamo-nos entre ruínas, forçados a reconstruir novos habitats, a criar de novo pequeninas esperanças. Trabalho bastante duro. Já não há caminhos fáceis à nossa frente: temos de contornar os obstáculos, pular por cima deles - e isso porque temos de viver, seja qual for a extensão do desastre havido.

JLP, p. 27: Vivemos numa idade essencialmente trágica; por isso nos recusamos a tê-la como tal. O grande desastre aconteceu; achamo-nos entre ruínas, forçados a reconstruir novos hábitats, a criar de novo pequeninas esperanças. Trabalho bastante duro. Já não há caminhos fáceis à nossa frente: temos de contornar os obstáculos, pular por cima deles - e isso porque temos [sem o itálico] de viver, seja qual for a extensão do desastre havido.

RR, p. 24: Constance admirava-se da cegueira do marido, daquela fúria de tornar-se célebre num continente amorfo, que ela não conhecia e lhe inspirava até medo, daquela eterna ânsia de ser cotado como um dos escritores modernos de mais valor. Com o exemplo em casa de Sir Malcolm, Constance sabia muito bem como agem os artistas que querem vender seus produtos. Mas seu pai lançava mão dos meios usuais, ao passo que Clifford recorria a todos, e a muitos inéditos. Wragby passou a encher-se de gente de toda a espécie. Na fúria de conquistar reputação, ele jogava com todos os materiais.

JLP, p. 41: Constance admirava-se da cegueira do marido, daquela fúria de tornar-se célebre num continente amorfo, que ela não conhecia e lhe inspirava até medo, daquela eterna ânsia de ser cotado como um dos escritores modernos de mais valor. Com o exemplo em casa de Sir Malcolm, Constance sabia muito bem como agem os artistas que querem vender seus produtos. Mas seu pai lançava mão dos meios usuais, ao passo que Clifford recorria a todos, e a muitos inéditos. Wragby passou a encher-se de gente de toda a espécie. Na fúria de conquistar reputação, ele jogava com todos os materiais.

só para ninguém achar que a claret não maquiou nem um tiquinho, há um exemplo:

RR, p. 106: Já o romance como simples mexericada também pode excitar simpatias e desdéns, insinceros, mecânicos, mortais para a alma. Pode glorificar os sentimentos mais corrompidos, contando que eles permaneçam convencionalmente puros. E então o romance, como a mexericada, torna-se vicioso, e tanto mais vicioso quanto mais finge estar do lado dos anjos. A mexericada de Mrs. Bolton estava sempre do lado dos anjos. "E ele não era sério e ela era tão direita", dizia; mas, ao contrário disso, e mesmo com base nas próprias histórias de Mrs. Bolton, Constance via que a heroína não passava duma melosa e o herói dum brutal. O tudo era que uma honestidade brutal tornava o homem "não sério" e umas falas melosas tornavam a mulher "direita" - isso no canal vicioso para onde Mrs. Bolton desviava as suas simpatias.


JLP, p. 117: Já o romance como simples mexerico também pode excitar simpatias e desdéns, insinceros, mecânicos, mortais para a alma. Pode glorificar os sentimentos mais corrompidos, contando que eles permaneçam convencionalmente puros. E então o romance, como a mexerico, torna-se vicioso, e tanto mais vicioso quanto mais finge estar do lado dos anjos. A bisbilhotice de Mrs. Bolton estava sempre do lado dos anjos. "E ele não era sério e ela era tão direita", dizia; mas, ao contrário disso, e mesmo com base nas próprias histórias de Mrs. Bolton, Constance via que a heroína não passava duma melosa e o herói dum brutal. O tudo era que uma honestidade brutal tornava o homem "não sério" e umas falas melosas tornavam a mulher "direita" - isso no canal vicioso para onde Mrs. Bolton desviava as suas simpatias.

e por aí vai, até a famosa frase final:

RR, p. 308: "Estamos reunidos por uma grande parte de nós mesmos. Temos que ficar firmes e nos prepararmos para o próximo encontro. John Thomas, de cabeça caída, diz boa noite a Lady Jane. De cabeça caída, sim, mas cheio de esperanças."

JLP, p. 301: Estamos reunidos por uma grande parte de nós mesmos. Temos de ficar firmes e nos prepararmos para o próximo encontro. John Thomas, de cabeça caída, diz boa noite a Lady Jane. De cabeça caída, sim, mas cheio de esperanças.

outra coisa curiosa nesta edição da martin claret é o nome do capista: marcellin talbot.

sim, marcellin talbot, aquele mesmo cadastrado na fundação biblioteca nacional como tradutor de papéis avulsos de machado de assis.

para quem não acompanhou a farsa dos tradutores claretianos de machado, ver vários posts que publiquei em maio. um deles dá a lista geral das traduções da claret para obras portuguesas e brasileiras na fbn.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagem: www.bulwarkhouse.co.uk

15 de set. de 2008

ninguém merece


adolfo casais monteiro dispensa apresentação. seu filho joão paulo monteiro, livre-docente de filosofia na usp, teve sua tradução de o leviatã surripiada pelo segundinho da claret, "alex marins", conforme cotejo apresentado aqui no nãogostodeplágio, e prontamente se pôs a correr atrás do problema.

além disso, alarmado com a desfaçatez e preocupado com o legado intelectual de seu pai, enviou algumas páginas escaneadas de o desespero humano, traduzido por adolfo casais monteiro.

infelizmente, bingo.

foi o mesmo segundinho da claret que assinou o roubo: alex marins. abaixo, o kierkegaard da claret:

"[...] Desse modo derivada ou estabelecida, essa relação é o eu do homem. É uma relação que não é apenas consigo própria, mas com outrem. Daí provém que haja duas formas do verdadeiro desespero. Se o nosso eu tivesse sido estabelecido por ele mesmo, uma só existiria: não querermos ser nós mesmos, querermo-nos desembaraçar do nosso eu, e não poderia existir esta outra: a vontade desesperada de sermos nós mesmos. Com efeito, o que esta fórmula traduz é a dependência do conjunto da relação, que é o eu, ou seja, a incapacidade de, pelas suas próprias forças, o eu conseguir o equilíbrio e o repouso. Isso não lhe é possível, na sua relação consigo mesmo, senão relacionando-se com o que pôs o conjunto da relação. Mais ainda: esta segunda forma de desespero - a vontade de sermos nós próprios - designa tampouco uma maneira especial de desesperar, que, ao contrário, nela finalmente se resolve e a ela se reduz todo o desespero." etc.etc.

alerta: há douta tese recente em prestigiosa universidade tomando a pirataria como referência bibliográfica, além de artigos em revistas científicas.

mestre bosi de novo: é a própria credibilidade do trabalho intelectual que fica abalada.

14 de set. de 2008

cultivando a desmemória

escola particular conclui programa de curso de 2008 com recomendação enfática a seus aluninhos da sexta série - o livro "que você não pode deixar de ler: as mulherzinhas, louise may alcott, editora martin claret".

será que alguém lembra quem era godofredo rangel?

13 de set. de 2008

reação

joão paulo monteiro declara e pede divulgação: irá processar a editora martin claret pelo delito praticado em duas traduções - a sua, de o leviatã, e a de adolfo casais monteiro, de o desespero humano, de quem é o legítimo sucessor e herdeiro.

isso, mestre. não deixe barato, não.

12 de set. de 2008

ah!

Negócios Entidades do livro preocupadas com os direitos do autor
Postado por Galeno Amorim - 20h47
Cresce no mercado editorial a apreensão de editores diante da movimentação de setores do Ministério da Cultura para tentar modificar a atual legislação sobre direitos autorais. Algumas entidades, com o Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel) e a Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR) à frente, começam a se movimentar em sentido contrário. Argumentam que mexer nesses direitos deve desestimular tanto a criação dos autores como os investimentos das editoras em marketing, distribuição e desenvolvimento de novos produtos.

Políticas Públicas Deputados debaterão direitos do autor
Blog do Galeno - 11/09/2008 - por Galeno Amorim
Galeno Amorim informa que a Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados está programando uma audiência pública para debater as propostas existentes para modificar a atual legislação que rege os direitos do autor no País. Serão convidados os defensores da adoção de leis mais flexíveis e os representantes das editoras, que são contrários. O encontro foi provocado pela gerência da Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, que encampou e defende a mudança.
http://blogdogaleno.blog.uol.com.br/ (negritos meus, denise)

tenho divulgado aqui os vários seminários promovidos pelo fórum nacional dos direitos autorais. divulguei também os contatos com a coordenação geral do setor de direitos autorais, no minc. divulguei também o tipo de ação policialesca desenvolvida pela abdr. acompanhem a discussão.

por outro lado, bem que os representantes das editoras e associações agressivas como a abdr poderiam cuidar melhor da qualidade do mercado editorial: por exemplo, por que abrigar no quadro de seus associados editoras notórias por suas irregularidades, com centenas de edições suspeitas de plágio (ou edições de plágios comprovados)?

enquanto as entidades de classe dos editores e livreiros não colocarem em prática regras básicas de seus próprios estatutos (ética, integridade etc.), fica difícil acreditar nelas.

o decurso do método



já o mestre da dúvida, na duvidosa e duvidada edição da martin claret, teve sua biografia extraída a henry thomas na tradução de otávio mendes cajado, o texto em português profundamente inspirado em jacó guinsburg e bento prado jr., e as parcas singelíssimas notas recortadas das de gérard lebrun.


a "guapa figurinha de filósofo" em sua versão nassetti-claretiana permeia tentacularmente revistas científicas e universidades de norte a sul do brasil, no interior e nas capitais, públicas e privadas, em ementas de cursos e teses, na graduação e na pós-graduação, nas mais variadas áreas de conhecimento: direito, geografia, pedagogia, saúde, física, ciência da informação, teologia, educação física, psicologia, lingüística, contabilidade e ... filosofia!

11 de set. de 2008

uma biografia

"A mãe de René morreu de tuberculose poucos dias após o nascimento dele. Disseram a seu pai, os médicos, que René também estava destinado a uma sepultura precoce, porque ele herdara a pálida compleição e a tosse de sua mãe. O pai, funcionário público em Poitiers, entregou-o à guarda de uma ama que o afastava dos jogos e e brinquedos das outras crianças da aldeia. Como resultado desse excesso de mimos, cresceu ele com um espírito 'feminino' - dedicado, introspectivo, distante. [...]

Entretanto, após o seu momentâneo sofrimento recolheu-se de novo à cidadela de seus pensamentos. Comprou uma bela propriedade agrícola pouco distante de Leyden e apenas a 'duas horinhas' do mar. Aí, servido por 'uma quantidade suficiente de criados bem escolhidos', sentava-se em seu escritório octogonal, olhando para um velho jardim pitoresco e sonhando os seus sonhos de cética ortodoxia. Era uma guapa figurinha de filósofo"

tal é a biografia de rené descartes, in henry thomas e dana lee thomas, vidas de grandes filósofos, trad. otávio mendes cajado, ed. globo, pp. 83-89.

e tal é a biografia de rené descartes, meticulosamente copiada sem qualquer fonte ou crédito de autor, in rené descartes, discurso do método, "trad." pietro nassetti, martin claret, pp. 11-18.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


9 de set. de 2008

godofredo rangel x "alex marins"

mulherzinhas, louise may alcott

1. godofredo rangel, cia. editora nacional


2. "alex marins", martin claret


1. godofredo rangel
cap. I, brincando de peregrinos (p. 5):

- sem presentes o natal não é natal, murmurou jo, estendida sobre o tapete.

- é tão triste ser pobre! suspirou meg, fitando o seu vestido velho.

- não acho justo que umas moças tenham tantas coisas boas, ao passo que outras nada possuem - ajuntou a pequena amy, com um suspiro profundo.

- mas temos papai e mamãe, disse beth alegremente, do seu canto, e nos temos umas às outras, também.

as quatro faces juvenis brilharam aos lampejos do fogão aceso, a essas palavras joviais, mas entristeceram novamente quando jo lhes disse, com amargura:

2. "alex marins"
cap. I, brincando de peregrinos (p. 13):

- sem presentes o natal não é natal, murmurou jo, estendida sobre o tapete.

- é tão triste ser pobre! suspirou meg, fitando o seu vestido velho.

- não acho justo que umas moças tenham tantas coisas boas, ao passo que outras nada possuem - ajuntou a pequena amy, com um suspiro profundo.

- mas temos papai e mamãe, disse beth alegremente, do seu canto, - e nos temos umas às outras, também.

as quatro faces juvenis brilharam aos lampejos do fogão aceso, a essas palavras joviais, mas entristeceram novamente quando jo lhes disse, com amargura:

1. godofredo rangel
cap. VI, beth no palácio maravilhoso (p. 63):

a vasta casa era realmente um palácio maravilhoso embora precisasse de tempo para atingi-lo, pois beth arreceava dos leões. o velho sr. laurence era o maior de todos; depois, porém, de ter ele conversado - alguns gracejos ou palavras atenciosas ditos a cada uma das moças, algumas recordações dos antigos tempos à mãe - ninguém mais o temia exceto a tímida beth. o outro leão era o fato de serem pobres e laurie rico, pois tornava-as acanhadas receber favores que não podiam retribuir. após algum tempo, contudo, elas compreenderam que o velho as considerava como benfeitoras, não sabendo como demonstrar sua gratidão pela maternal bondade da sra. march, pela companhia jovial e conforto que encontrava naquela humilde casa; por isso, esqueceram-se logo de seu orgulho de pobres, trocando atenções sem se deter a pensar em quais eram as maiores.

2. "alex marins"
cap. VI, beth no palácio maravilhoso (p. 70):

a vasta casa era realmente um palácio maravilhoso embora precisasse de tempo para atingi-lo, pois beth arreceava dos leões. o velho sr. laurence era o maior de todos; depois, porém, de ter ele conversado - alguns gracejos ou palavras atenciosas ditos a cada uma das moças, algumas recordações dos antigos tempos à mãe - ninguém mais o temia, exceto a tímida beth. o outro leão era o fato de serem pobres e laurie rico, pois as tornava acanhadas receber favores que não podiam retribuir. após algum tempo, contudo, elas compreenderam que o velho as considerava como benfeitoras, não sabendo como demonstrar sua gratidão pela maternal bondade da sra. march, pela companhia jovial e o conforto que encontrava naquela humilde casa; por isso, esqueceram-se logo de seu orgulho de pobres, trocando atenções sem se deter a pensar em quais eram as maiores.

1. godofredo rangel
cap. XIII, castelos no ar (p. 146):

laurie embalava-se lentamente na rede em uma tarde cálida de setembro, perguntando-se o que seria feito de suas vizinhas, mas com preguiça suficiente para não ir saber notícias delas. estava num de seus dias de mau humor; o dia fora-lhe inútil e aborrecido e bem quisera vivê-lo de novo. o calor tornara-o indolente; deixara de lado o estudo, apoquentara a mais não poder o sr. brooke, aborrecera o avô, excitando-se em jogos grande parte do dia, assustara horrivelmente as criadas, fazendo-lhes crer, por maldade, que um dos cães ia ficar louco e, depois de dirigir palavras ásperas ao rapaz da estrebaria sob o pretexto imaginário de não ter tratado do seu cavalo, mergulhara finalmente na rede a pensar na estupidez do mundo até que, apesar de si próprio, o acalmara a placidez daquele belo dia.

2. "alex marins"
cap. XIII, castelos no ar (p. 154):

laurie embalava-se lentamente na rede em uma tarde cálida de setembro, perguntando-se o que seria feito de suas vizinhas, mas com preguiça suficiente para não ir saber notícias delas. estava num de seus dias de mau humor; o dia fora-lhe inútil e aborrecido e bem quisera vivê-lo de novo. o calor tornara-o indolente; deixara de lado o estudo, apoquentara a mais não poder o sr. brooke, aborrecera o avô, excitando-se em jogos grande parte do dia, assustara horrivelmente as criadas, fazendo-lhes crer, por maldade, que um dos cães ia ficar louco e, depois de dirigir palavras ásperas ao rapaz da estrebaria sob o pretexto imaginário de não ter tratado do seu cavalo, mergulhara finalmente na rede a pensar na estupidez do mundo até que, apesar de si próprio, o acalmara a placidez daquele belo dia.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagens: smileys, yes e no

8 de set. de 2008

nassetti em pdf

a ética a nicômaco, de aristóteles, foi publicada nos anos 1970 na coleção "os pensadores", coordenada por josé américo motta pessanha, na abril cultural.

a tradução era da autoria de leonel vallandro e gerd bornheim, a partir da versão inglesa de w.d. ross.

foi recentemente pirateada com leves toques de maquiagem pela martin claret, atribuída, claro, a pietro nassetti.

e agora a cópia atamancada da claret foi publicada como e-book, para download gratuito em pdf, com direito a todo aquele falatório autopromocional da claret no início, por alguém do curso de filosofia da uerj, talvez algum estudante insuficientemente informado.

como diz o mestre bosi, e repito mais uma vez, é a própria credibilidade do trabalho intelectual que fica abalada.

quanta enganação!


e o que dizer quando uma esforçada aluna de um curso universitário de tradução realiza um estudo comparado das traduções de orgulho e preconceito assinadas por lúcio cardoso e jean melville?

lúcio cardoso dispensa apresentação. já jean melville é o segundinho da martin claret, logo após pietro nassetti.

sua pretensa tradução de orgulho e preconceito é, na verdade, uma cópia levemente maquiada da tradução de maria francisca ferreira de lima, pela europa-américa, 1975.

tal é a editora martin claret com sua missão educacional, ajudando a cultura neste país.

6 de set. de 2008

encontro de editoras

imagem: smiley
a anpuh (associação nacional de professores universitários de história), em sua regional de são paulo, organiza uma feira de livros na semana que vem.

em pé de igualdade, convivendo alegremente com editoras sérias e responsáveis, quem está lá? sob a égide da anpuh? em área pública da usp? com divulgação em site da edusp?

http://www.edusp.com.br/eventos.asp

11 de ago. de 2008

que coisa...


a gente é boba e ignorante, mas é meio curiosa e acaba indo atrás de umas coisas.
como comentei num post anterior, estranhei a martin claret publicando traduções consagradésimas de shakespeare feitas por carlos alberto nunes.

e claro que, antes de seguir adiante, a gente vai se certificar dos fatos para não dizer bobagem.

então, na semana passada, liguei para a ediouro, e lá conversei com uma moça muito gentil, chamada cristiane. ela confirmou que as traduções de carlos alberto nunes ainda pertenciam à ediouro e demonstrou sincera surpresa e preocupação ao saber das recentes edições da martin claret. até porque, disse ela, estão preparando uma edição de luxo, em três volumes, das obras completas de shakespeare com lançamento previsto para o natal, e comentou que verificaria imediatamente com seu jurídico. eu disse a ela que não precisava, bastava consultar sua coordenadoria editorial. mas aí ela explicou que na verdade havia algumas negociações com a claret que passavam pelo jurídico, e que iria verificar.

bom, jurídico é jurídico e não se discute.

hoje entrei novamente em contato com cristiane da ediouro, para pegar a confirmação antes de sair em disparada atrás dos abana-pêras da claret. aí ela me explicou longamente, mas sem especificar os detalhes, que a ediouro tem algumas pendências com a claret e que as negociações das tais pendências incluíam um pacote de títulos da ediouro com publicação na claret e que, como o pacote era meio grande, ainda não tinham conseguido conferir se os abana-pêras faziam parte da negociação.

não tenho nada a ver com os negócios das editoras, apenas, como cidadã e leitora, com os livros que elas publicam. mas fiquei curiosa em saber que pendências seriam essas, capazes de envolver um tal pacote de títulos da maior, ou segunda maior, editora do brasil com a editora campeã em nassettis, marins e melvilles...

há mais detalhes, como títulos, datas e tradutores, no imbróglio claret/ediouro, em e o destino do bardo em terra brasilis. [dou de barato, naturalmente, que todo mundo sabe quem foi carlos alberto nunes.]

7 de ago. de 2008

o destino do bardo em terra brasilis

será que esse povo não se compadece do leitor e não se horroriza com o que está acontecendo com nosso patrimônio lítero-tradutório?

o guilherme abana-pêra da martin claret, na coleção "obra-prima de cada autor", desde 2001 e com várias reedições, é assim:

vol. 39 - hamlet - pietro nassetti
vol. 57 - rei lear - pietro nassetti
vol. 93 - romeu e julieta - jean melville
vol. 98 - macbeth - jean melville
vol. 123 - otelo - jean melville
vol. 152 - a megera domada - alex marins
vol. 201 - sonho de uma noite de verão - jean melville
vol. 219 - a tempestade - carlos alberto nunes
vol. 241 - o mercador de veneza - oscar mendes e cunha medeiros
vol. 249 - sonetos - jerónimo de aquino
vol. 259 - júlio césar - carlos alberto nunes
vol. 260 - antônio e cleópatra - carlos alberto nunes

até o vol. 201, eram os ectoplasmas da casa com suas tesouras e bastão de cola.

a partir de a tempestade, a coisa muda de figura.

até onde sei, os direitos patrimoniais das traduções de carlos alberto nunes pertencem à ediouro.

já os direitos patrimoniais das traduções de oscar mendes e cunha medeiros pertencem à nova aguilar (também da ediouro, mas com gestão própria).

os direitos morais pertencem aos respectivos herdeiros.

[quanto a jerónimo de aquino, o google não foi suficiente para socorrer à minha ignorância. o máximo que consegui vagamente entender é que foi um poeta português que, no século XVIII, traduziu os sonetos de shakespeare, e que foi resgatado do fundo do baú por - ora quem - o mesmo carlos alberto nunes. mas nem isso posso afiançar. se for este o caso, seria domínio público, em se dando os devidos créditos pelo desempoeiramento. ] atualizado em agosto de 2010: jerônimo de aquino foi professor do curso da escola normal de guaratinguetá por volta dos anos 1940. traduziu os 154 sonetos de shakespeare, publicados em edição bilíngue, com prefácio de carlos alberto nunes, pela editora melhoramentos, em 1956, como volume XXII das obras completas pela mesma editora. as traduções de jerônimo de aquino ainda não estão em domínio público.

contrafação, reprodução não-autorizada, plágio, não interessa: fraude sempre é.

dona ediouro, veja lá o que está acontecendo em seu pomar, pois daqui a pouco não vai ter mais o que abanar.

cadê minhas peras que estavam aqui?!

imagens: smiley, awww; www.icn.pt

6 de ago. de 2008


a martin claret passou anos atribuindo a seus indefectíveis jeans melvilles e pietros nassettis umas colchas de retalhos de shakespeare, com vastos remendos de oscar mendes/cunha medeiros, alguns elementos decorativos de bárbara heliodora e até uns pespontos coloridos de onestaldo de pennafort.*

aí, de uma hora para outra, a claret passou a publicar as consagradésimas traduções de carlos alberto nunes, antigamente editadas pela melhoramentos e depois, e até o momento, sempre pela ediouro.

terá havido algum contrato de cessão ou sublicenciamento dos direitos de tradução? e, se não, estará a ediouro correndo atrás do lesa-lesa?

* a quem se interessar pelo assunto, existe uma dissertação de mestrado muito meticulosa, escrita por márcia paredes nunes, letras, puc-rj, 2007, com cotejos detalhados das várias traduções.

imagem: http://respectance.com

3 de ago. de 2008

follow-up


decerto todos lembram a cautelar que a l&pm impetrou contra a nova cultural.

em todo caso reproduzimos abaixo, e damos o andamento da questão nos itens 2 e 3, abaixo:

1. L&PM questiona Nova Cultural sobre traduções
Por L&PM Editores

A L&PM Editores ajuizou medida acautelatória (Processo Cautelar 001/1.08.0127989-9 – 19ª Vara Cível de Porto Alegre) contra a EDITORA NOVA CULTURAL LTDA., visando ressalvar e prevenir direitos diante das denúncias e evidências em relação a falsificação de traduções.

Com o dito procedimento judicial, a L&PM antecipa a decisão de anular o contrato celebrado com a EDITORA NOVA CULTURAL LTDA., em relação a diversas traduções.

Recorda-se que a relação entre as duas empresas começou quando a NOVA CULTURAL propôs a aquisição das traduções (de propriedade da L&PM) dos livros: Romeu e Julieta, Macbeth e Otelo. Como forma de pagamento pela cessão dos direitos das mencionadas traduções, a NOVA CULTURAL ofereceu, em permuta, – e a L&PM aceitou – a cessão dos direitos de três traduções: Divina Comédia, Madame Bovary, Viagens de Gulliver e as notas de Dom Quixote (cuja tradução é de domínio público).

Ocorre que, desde o ano passado, vêm surgindo crescentes denúncias, segundo as quais as traduções dos livros Divina Comédia e Madame Bovary, cujos direitos foram transferidos à L&PM, além de outras traduções da NOVA CULTURAL, seriam falsas. Isto é: os nomes dos tradutores mencionados nos contratos e nas edições da NOVA CULTURAL seriam falsos, e que as traduções seriam apenas cópias ou plágios de outras traduções. Conforme publicações na “Folha de S. Paulo”, no jornal “O Globo” e em outros órgãos de imprensa, segundo foi denunciado por um grupo de tradutores, as traduções de propriedade da NOVA CULTURAL são plágios de traduções anteriores, consideradas clássicas e de autoria de prestigiosos autores e tradutores.

Um exame superficial das versões brasileiras de dois dos livros cedidos à L&PM, pela NOVA CULTURAL, como sendo de propriedade legítima da NOVA CULTURAL, na verdade revela que se trata de uma cópia grosseira de tradução anterior. A Divina Comédia, de Dante Alighieri, supostamente tradução de “Fábio Alberti” (que não se sabe se é nome verdadeiro ou pseudônimo de alguém) é uma cópia de tradução anterior, muito conhecida, de Hernâni Donato. Da mesma forma, o livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert, cuja tradução negociada à L&PM seria supostamente de “Enrico Corvisieri”, na verdade vem sendo denunciada como cópia da antiga tradução de Araújo Nabuco.

A lista de outros títulos que, segundo as denúncias publicadas nos jornais, utilizaram tradução adulterada e/ou plágio de tradução anterior, pela Nova Cultural, é longa:
“CRIME E CASTIGO”, Dostoiévski: Trad. sem crédito seria de Natália Nunes.
“CYRANO DE BERGERAC”, Edmond Rostand: Trad. de F. Alberti seria de Porto Carreiro.
“O VERMELHO E O NEGRO”, Stendhal: Trad. de Mª da Silva seria de Luiz Costa Lima.
“ANA KARÊNINA”, de Tolstói: Trad. de Mirtes Coscodai seria de João Gaspar Simões.
“O LEOPARDO”, de Lampedusa: Trad. de Leonardo Codignoto seria de Rui Cabeçadas. “FAUSTO” E “WERTHER”, Goethe: Trads. de Alberto Maximiliano seriam de Silvio Meira e Galeão Coutinho.
“CONTOS”, Voltaire: Trad. de Roberto Domenico Proença seria de Mário Quintana.
“O MORRO DOS VENTOS UIVANTES”, Emily Brontë: Trad. de Silvana Laplace seria de Oscar Mendes.
“O FALECIDO MATTIA PASCAL” e “SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR”, Pirandello: Trads. de Fernando Corrêa Fonseca seriam de Mário da Silva, Brutus Pedreira e Elvira Ricci.
“TOM JONES”, Fielding: Trad. de Jorge Pádua Conceição seria de Octavio Cajado.
“NANÁ”, Zola: Trad. de Roberto Valeriano seria de Eugênio Vieira.
“O RETRADO DE DORIAN GRAY”, Wilde: Trad. de E. Corvisieri seria de Oscar Mendes.
“A MULHER DE 30 ANOS”, Balzac: Trad. de Gisele Soares seria de José Maria Machado.
“OS TRÊS MOSQUETEIROS”, Dumas: Trad. de M. Coscodai seria de Octavio Cajado.
“LORD JIM”, Conrad: Trad. de Carmen Lomonaco seria de Mário Quintana.
“UMA VIDA”, Maupassant: Trad. de Roberto Proença seria de Ascendino Leite.
“SUAVE É A NOITE”, Scott Fitzgerald: Trad. de E. Corvisieri seria de Lígia Junqueira.
“IVANHOÉ”, Walter Scott: Trad. de Roberto Whitaker seria de Brenno Silveira.

Decepcionada e perplexa pelo silêncio e pela falta de explicações convincentes da NOVA CULTURAL diante dessas denúncias gravíssimas, a L&PM decidiu formalizar as medidas legais cabíveis à defesa de seus direitos e interesses.

A L&PM, claramente, é um terceiro de boa fé, vítima de uma fraude e, por isso, buscou o Poder Judiciário.

No procedimento judicial ajuizado, na forma dos arts. 867 e seguintes do Código de Processo Civil, a L&PM declara sua decisão de buscar a anulação do contrato celebrado entre as partes, com o cancelamento da cessão das traduções, de propriedade da notificante L&PM.

Igualmente, a L&PM torna público que está retirando de catálogo e recolhendo os exemplares em circulação das edições de livros da notificante lançados a partir das “traduções” cedidas pela notificada.

Através de perícia técnica, a L&PM está apurando os prejuízos que sofreu – e está sofrendo – em conseqüência da fraude tornada pública. Apurados os prejuízos, a L&PM cobrará judicialmente os prejuízos materiais e morais decorrentes dos fatos aqui noticiados.

2. Declaração do sr. Ivan Pinheiro Machado em julho 2008
"O pessoal da NC esteve aqui, em POA, muito gentis e aparentemente consternados... Não se falou em dinheiro. Nossa posição foi a mesma. Fizemos ver a eles que jamais a L&PM tinha tido um abalo tão grande. Nem a ditadura - que quase nos quebrou - conseguiu arranhar a nossa imagem pública, proeza que a NC conseguiu ao vender traduções falsas. Falamos em reparação de danos morais e danos materiais, sendo que a dos danos morais nós pretendemos doar para alguma entidade. E recusamos qualquer acordo entre 4 paredes. Tudo será público, com a devida divulgação a partir do nosso site."

3. Nova declaração do sr. Ivan Pinheiro Machado em agosto 2008
"Com a N. Cultural, vamos pedir que eles veiculem em jornais nacionais de grande circulação um comunicado informando que a L&PM editores não tinha conhecimento de que as traduções eram adulteradas e que eles (N. Cultural) assumem a responsabilidade e pedem desculpas à editora. [...] Na verdade é uma barbaridade o que se faz neste país."
imagem: lanternaacesa.blogspot.com

25 de jul. de 2008

sapienza/isbns


"só que a sapienza, depois de dar uns calotes na fundação biblioteca nacional e publicar uns livros com uns isbns que nem constam na respectiva agência nacional" - para explicar os "calotes" e ninguém achar que saio por aí atirando a esmo, exponho minhas diligências.

já há algum tempo, em contato com a fundação biblioteca nacional, a resposta que obtive foi que apenas a agência brasileira do isbn é habilitada a fornecer números de isbn. perante minha insistência, perguntando então o que seriam isbns estampados em livros e que não constam cadastrados no site da agência, a resposta foi a mesma: não existe esta hipótese, apenas a agência pode atribuí-los etc.etc. e perante a insistência em minha insistência, a senhora de lá ficou meio nervosinha e disse que já tinha explicado: isbn só pela fbn, e ponto final.

a ilação fica por conta do leitor e consulente perplexo.

segue a pesquisa feita no site da fbn, com todos os títulos publicados pela editora sapienza cadastrados na agência brasileira do isbn (11 ao todo):

Editora Sapienza
Prefixo Editorial: 98126
RESULTADO DA BUSCA: 11 Publicações encontradas, distribuídas em 1 página

ISBN e TÍTULO
85-98126-01-2 ARTE DA ESTRATEGIA
85-98126-02-0 OSMAR SANTOS :OMILAGRE DA VIDA
85-98126-03-9 DESCOMPORTE-SE
85-98126-04-7 IRAQUE: A GUERRA PELAS MENTES
85-98126-05-5 ARTE DE ENRIQUECER
85-98126-06-3 FELIZ NATAL
85-98126-07-1 VIVER BEM COM QUALIDADE - O FATOR WE// NESS
85-98126-08-X O LIVRO DE OURO DA SABEDORIA
85-98126-09-8 HISTORIA DA FILOSOFIA
85-98126-10-1 A REPUBLICA DE PLATÃO
85-98126-11-X JORNALISTA: PROFISSÃO MULHER

fonte: http://www.bn.br/site/default.htm

já a consulta sobre a famosa arte da guerra em adaptação* do suposto nikko bushidô, isbn 8598126152, resulta em: registro não foi encontrado.

* na edição da sapienza, fala-se em "adaptação de nikko bushidô". já na edição do jardim dos livros, fala-se em tradução direto do chinês e adaptação de nikko bushidô.
o fenômeno de upgrade se verifica também no pinga-pinga nova cultural -> best-seller -> sapienza. mirtes ugeda coscodai começa como revisora, passa para co-organizadora e termina como co-autora da história da filosofia.

outras obras publicadas pela sapienza, como As 100 leis da felicidade, de Petter Adams, ISBN 8598126128; Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã, ISBN 8598126209; Eu Amo Você, de Petter Adams, ISBN 8598126136; mais outro Livro de Ouro da Sabedoria, de Cláudio Varela, 2a. ed. revisada [sic] e atualizada, ISBN 8598126144, e de novo A República de Platão, ISBN 8598126179, tampouco constam nos cadastros da fundação biblioteca nacional, agência brasileira do isbn, que, repetindo pela enésima vez, é o único organismo habilitado a fornecer os benditos isbns.

como o número do isbn, além de ser obrigatório, tem se tornado cada vez mais a principal referência para a identificação de livros, sinto-me quase tentada a compará-lo com, por exemplo, o número do cpf ou rg das pessoas. são números de identificação exclusivos, irrepetíveis, e apenas um órgão federal específico pode atribuí-los.

se eu usar um número de cpf inexistente na receita, vai ser crime de falsidade ideológica. se o livro usar um número de isbn inexistente na agência brasileira do isbn, vai ser o quê?

[em tempo: a lei que prevê a obrigatoriedade do ISBN é a Lei do Livro, lei federal n° 10.753 de 2003:
"Art. 6º Na editoração do livro, é obrigatória a adoção do Número Internacional Padronizado, bem como a ficha de catalogação para publicação". ]
imagem: jornaljovensemacao.zip.net

24 de jul. de 2008

o pega-pega e o pinga-pinga IV

a estação mais intrigante do "pega-pega da arte da guerra" é o assombrado jardim dos livros, sobre o qual pairam alguns espectros de outras paragens.

a história é comprida e um tanto confusa, mas vamos lá.

diz adam sun: a arte da guerra pela ed. jardim dos livros, "lançada em tradução e adaptação de Nikko Bushidô, é um embuste desde o frontispício até o último capítulo". consiste em "um mega-arrastão nas versões brasileiras de Sunzi Bingfa. Simplesmente surrupiou a produção intelectual de José Sanz (Record, 1983), Mirian Paglia Costa e Caio Fernando Abreu (Cultura, 1994), Sueli Barros Cassal (L&PM, 2000) e Ana Aguiar Cotrim (Martins Fontes, 2002). Não contente, Bushidô arrebanhou também o prodigioso editor Martin Claret e seu prestativo colaborador Pietro Nassetti", que por sua vez haviam se apropriado da tradução portuguesa de ricardo iglésias.

como adam sun, além de respeitado jornalista, ex-chefe de checagem da revista veja e atual chefe de checagem da piauí, é tradutor e responsável pela tradução de a arte da guerra direto do mandarim, publicada pela editora conrad em 2006, ele sabe do que está falando.

bom, voltando ao jardim espectral. até onde sei, a jardim dos livros é uma pequena editora de são paulo criada em 2006 pelo jornalista cláudio varela. mas a arte da guerra, o tal "embuste" em nome de nikko bushidô, publicada pela jardim dos livros, na verdade tinha sido publicada inicialmente pela editora sapienza, em 2005.

ora, é aqui que surge a conexão com outra estupefaciência da picaretagem nacional e é aqui também que surge o gancho com a matéria da piauí: o que é ou era a editora sapienza?
a sapienza foi uma pequena e efêmera editora (2003-2005) do sr. cláudio varela, que com seu irmão ado varela carrega "larga experiência no mercado editorial, em editoras como Nova Cultural, Best Seller".

sigam o fio: aquele enrico corvisieri que era o queridinho nos plágios da nova cultural andou trafegando para a ed. best-seller. a ed. best-seller, que também pertencia ao grupo c.l.c., do indômito richard civita, dono da nova cultural, foi vendida à editora record em 2004. só que, antes disso, a best-seller/c.l.c. tinha publicado algumas coisas em nome do tal enrico corvisieri - entre elas a república de platão.

resumindo, esta república de enrico platão corvisieri (1997, nova cultural, os pensadores) migrou para a best-seller/c.l.c. (2000), retornou à nova cultural (2004) e, depois da venda da best-seller para a record, seguiu de mala e cuia para a editora sapienza (2005), do sr. cláudio varela.

além da república, a sapienza acolheu outro suspeitíssimo título migrado da finada best-seller/c.l.c., e também oriundo da coleção "os pensadores" da nova cultural: história da filosofia, de autoria atribuída à sra. mirtes ugeda coscodai (em parceria com bernadette abrão), aquela mesma que já tinha assinado alguns plágios nas obras-primas (ana karênina e os três mosqueteiros).

o pinga-pinga é: nova cultural -> best-seller/c.l.c. -> sapienza, no mais autêntico estilo da "técnica lavoisier".

só que a sapienza, depois de dar uns calotes na fundação biblioteca nacional e publicar uns livros com uns isbns que nem constam na respectiva agência nacional, resolveu mudar de nome e em 2006 virou "jardim dos livros". então relançou a colcha de retalhos de nikko bushidô, que veio a revelar suas verdadeiras cores sob o enérgico espanador de adam sun.

e aí, em março deste ano, cláudio varela [ex-nova cultural, ex-best-seller, ex-sapienza, jardim dos livros] se uniu a luiz fernando emediato [geração editorial/ex-ediouro], e juntos, mais a editora leitura de belo horizonte, resolveram criar uma nova frente editorial.

claro que o leitor sempre deseja o melhor a todos, a gente faz votos de sucesso, para dispor de um mercado editorial forte, limpo, honesto e diversificado.

mas, pelo que vi até agora, os outros dois títulos lançados com o selo "jardim dos livros" na nova frente comandada pela geração editorial - a saber, o essencial de jesus e o essencial do alcorão - não prometem grande transparência.
consultando seus isbns (978-85-60018123 e 978-85-60018147), surge o seguinte resultado:

PESQUISA NO CADASTRO DO ISBN - Nenhum registro foi encontrado.

imagens: the hollow men, mtparnaso.blogspot.com; flog.clickgratis.com.br

23 de jul. de 2008

piauí III - martin claret


no pega-pega da arte da guerra, vamos deixar o jardim dos livros para depois, e pular direto para a martin claret.

aí é sempre mais do mesmo. e adam sun tem pleno conhecimento do mar de lama em que ela se move.
"nos domínios da claret, aparentemente a desatenção com o alheio é método", pietro nassetti - "sim, sim", "sim, ele mesmo" - é "o erudito", "o azougue", o prestimoso e prolífico parceiro do "octogenário Claret... habituado à perene ligeireza". já fazem parte do folclore.

mas, indo aos fatos: a arte da guerra publicada pela martin claret, avisa-nos adam sun, é uma apropriação da versão portuguesa de ricardo iglésias, a partir do inglês, na tradução de samuel b. griffith. a cópia foi assinada pelo indefectível nassetti. e, como sempre, o sr. claret afirma que corrigirá "esse erro", lançará uma nova tradução "e está tudo resolvido". simples como isso.

alerta o articulista: talvez claret "mantenha em catálogo, distraidamente, toda uma coleção de vítimas de apropriação indébita". como são mais de 300 traduções sob suspeita, várias delas já comprovados casos de plágio, e como a santillana-prisa (objetiva) pelo jeito desistiu de bancar a aquisição da martin claret, sabe-se lá como ficarão as coisas.

com tanta desmoralização assim, de tudo o que diz respeito ao objeto "livro" - a obra, o autor, o tradutor, o revisor, o capista, o editor, o proprietário, o livreiro, as associações de classe dos editores, as associações de classe dos livreiros, o leitor, as escolas, as bibliotecas, tudo, tudo enlameado, uns com sua delinqüência, outros com sua conivência, outros com o desrespeito e danos sofridos, a sociedade como um todo vítima de um ultraje sem igual na história cultural do país -, eu não estranharia se algum dia a casa caísse.

22 de jul. de 2008

piauí II - dpl


retomando: a revista piauí n. 22, de julho de 2008, publicou um artigo muito interessante sobre fraudes e plágios em traduções, escrito por adam sun:
http://www.revistapiaui.com.br/artigoaspx?id=675&unica=1, ou pelo google.

o nome do artigo é "O pega-pega da Arte da Guerra", com o subtítulo "Um clássico chinês em adaptações policiais para todos os gostos".

o articulista pega o triste destino de a arte da guerra, de sunzi (ou sun-tzu) em algumas edições suas no brasil e acompanha seus aventurosos périplos. o circuito do pega-pega é composto de três estações: a editora DPL, a editora Jardim dos Livros e a editora Martin Claret.

a dpl, editora de livros de auto-ajuda, fez uma salada de referências das edições em inglês usadas para a tradução, e acabou tropeçando nas próprias pernas. até onde consigo entender, tratava-se mais de um certo tolo afã de querer parecer "culta". na verdade a edição de base usada para a tradução teria sido apenas uma: a de lionel giles. o principal problema que coloca o articulista é a questão dos direitos patrimoniais referentes à tradução feita por lionel giles e adotada para a tradução brasileira, que não teriam sido respeitados. lionel giles morreu em 1958, e portanto sua tradução não está em domínio público.

em todo caso, sob os ouropéis da dpl parece que houve de fato uma tradução, devidamente apresentada como interposta, com respeito ao direito moral de lionel giles. o livro traz notas e comentários aparentemente originais de caio bastos toledo, e assim por diante.

resumindo, não teria havido plágio nem apropriação fraudulenta de traduções em português já existentes, e sim desrespeito aos direitos patrimoniais do tradutor inglês, além do desrespeito ao leitor brasileiro, ludibriado com iscas de pseudo-erudição.

um pinóquio para a dpl.
que feio, dona dpl. não faça mais isso, está bem?


imagens: www.erich-hat-jetzt-zeit.de; walt disney, pinóquio

21 de jul. de 2008

piauí I


a revista piauí n. 22, de julho, traz um artigo excelente, chamado "O pega-pega da Arte da Guerra", escrito por Adam Sun.

a matéria é deliciosa, mas tem um grau de complexidade nas informações que fiquei quase doida ao ler. ela envolve bastante gente: nova cultural, sapienza, dpl, martin claret, jardim dos livros. o articulista é muito sério, e as informações são de extrema relevância.

se alguém pesquisar a fundo, é mais bombástico do que qualquer outra coisa já publicada a respeito.

voltarei a ela mais adiante.

imagem: jang.com.pk

15 de jul. de 2008

pimenta no zóio

o mundo é engraçado.

a ed. nova cultural, essa mesma que deu azo à revolta inicial dos tradutores contra apropriações descaradas de antigas traduções (mário quintana, araújo nabuco etc.), adorava acionar judicialmente outras editoras.

e acionava por quê? ora, por plágio! e plágio de quê? de SABRINA!

e a sra. janice florido, a coordenadora editorial da nova cultural, responsável, entre outras coisas, pela parceria com a suzano/ecofuturo para financiar a pavorosíssima coleção usurpadora de traduções superconsagradas da grande literatura universal, não se calava quando achava que algum concorrente tinha copiado, por exemplo, o folhetim "sedução e vingança". [a propósito, sabrina é uma revistinha editada com 365 títulos por ano, na faixa de 18 mil exemplares por edição, segundo informações prestadas por dona janice.]

pois que coisa terrível, não é mesmo, dona janice? mas aí o que foi que aconteceu? a sra. gostou da idéia do concorrente de copiar uma história da Sabrina, e resolveu implantar a coisa na coleção Obras-Primas? só que então em escala industrial, começando direto com 60 mil exemplares em cada tiragem, e várias tiragens para cada título? e não com os livrinhos da chamada "linha cor-de-rosa", mas com goethe, dostoievski e tantos outros mais para o plúmbeo ou o azul-escuro?

ou foi diferente? por favor, conte aqui para nós de onde saiu essa sua idéia. já sabemos que a sra. tem esse problema de memória, que não lembra bem as coisas e além do mais é uma pessoa muito ocupada, mas a gente fica curioso, entende?

a siciliano, para onde a sra. foi depois de sair da nova cultural, sabia dessas coisas? e a ediouro, sabe de tudo isso?

imagem: till eulenspiegel, http://www.pro-herten.de/

11 de jul. de 2008

a pasmaceira das editoras


shangyang reflete sobre os mistérios do mundo - http://www.wikipedia.com/

como todos sabem, a nova cultural, que posa de grande paladina da democratização do livro, a partir de 1995 saiu por aí saqueando antigas traduções consagradas.

deu uma maquiadazinha de leve - ou nem isso, só copiou mesmo e mandou bala -, colocando um nome qualquer de pseudo-tradutor nas obras das quais se apropriou, e saiu vendendo centenas de milhares, até milhões de exemplares dessa inédita iniciativa.

pois eu queria ver agora é o corre-corre das editoras lesadas.a l&pm, que foi solenemente embrulhada pela nova cultural num contrato ridículo de venda de falsas traduções, se sentiu ferida em seus brios e tomou suas providências, exigindo indenização por danos morais e materiais causados pela tal da nova cultural.

consta que esta abaixou a cabeça e assumiu toda a culpa (também, ia fazer o quê?).

e as outras?

segue abaixo a relação de casas editoriais lesadas pela coleguinha delas, tomando para si traduções que não eram suas e publicando-as com outros créditos na deplorável coleção "obras-primas":

1. Livraria Martins
- Madame Bovary
- Werther
- Uma vida
- Ivanhoé

2. Editora Globo
- Contos
- O morro dos ventos uivantes
- Tom Jones
- Lord Jim

3. José Aguilar (Nova Aguilar)
- Crime e castigo- Ana Karênina
- O retrato de Dorian Gray
- Os irmãos Karamázovi

4. Civilização Brasileira (Record)
- O falecido Mattia Pascal
- Seis personagens à procura de autor
- Suave é a noite

5. Cultrix (Pensamento)
- A divina comédia

6. Pongetti- Cyrano de Bergerac

7. Bruguera- O vermelho e o negro

8. DIFEL (Record)- O leopardo

9. Agir (Ediouro)- Fausto

10. Círculo dos Leitores (Portugal)- Naná

11. Saraiva- Os três mosqueteiros

12. Clube do Livro- A mulher de trinta anos

a essas alturas, eu me pergunto: por que esse silêncio ensurdecedor das editoras lesadas? (apenas 3 deixaram de existir, bruguera, clube do livro e pongetti.)

será que elas esquecem que a razão exclusiva de sua existência é o leitor, a única fonte que lhes permite viver, e que respeito é bom e todo mundo gosta?

p.s. por questão de justiça, devemos informar que a globo começou a se mexer também.