13 de fev. de 2023

publicação teatral no brasil

 "Uma Biblioteca Teatral Brasileira: publicação, circulação e políticas para edições de teatro (1917-1948)", tese de doutorado de henrique brener vertchenko, é um trabalho de pesquisa fabuloso, preciosíssimo. está disponível no academia.edu, aqui.



11 de fev. de 2023

hume no brasil



um interessantíssimo artigo de jaimir conte sobre as traduções das obras de david hume em português, disponível aqui.

o artigo traz um meticuloso levantamento das traduções publicadas no brasil e em portugal - reproduzo abaixo apenas as traduções brasileiras arroladas no referido levantamento.

1950 “Da simplicidade e do requinte na maneira de escrever”. In: Ensaístas ingleses. Tradução de José Manuel Sarmento de Beires e Jorge Costa Neves. Apresentação de Lúcia Miguel Pereira. Rio de Janeiro. Clássicos Jackson XVIII. W. M. Jackson editores.

1963 Ensaios políticos. Tradução de E. Jacy Monteiro. Série Clássicos da Democracia, v. 9. São Paulo: Ibrasa.

1967 Ensaios políticos. Tradução: João Paulo Monteiro. In: David Hume: ensaios políticos, tradução, introdução e notas. Dissertação de mestrado USP.

1972 Investigação acerca de entendimento humano. Tradução de Anoar Aiex. São Paulo, Companhia Editora Nacional/ Editora da USP.

1973 Investigação sobre o entendimento Humano. Tradução de Leonel Vallandro / Ensaios morais, políticos e literários. Tradução de João Paulo Monteiro e Armando Mora de Oliveira. In: Col. ‘Os Pensadores’, 1ª edição. São Paulo: Abril Cultural.

1975 Sumário do Tratado da natureza humana. Tradução, introdução e notas de Anoar Aiex. São Paulo, Companhia Editora Nacional.

1980. Investigação sobre o entendimento Humano. Tradução de Leonel Vallandro / Ensaios morais, políticos e literários. Tradução de João Paulo Monteiro e Armando Mora de Oliveira. In: Col. ‘Os Pensadores’, 2ª edição. São Paulo: Abril Cultural.

1983 Escritos sobre economia. Tradução de Sara Albieri; revisão de João Paulo Monteiro; apresentação de Rolf Kuntz. Col. ‘Os Economistas’. 1a  edição. São Paulo: Abril Cultural.

1992 Diálogos sobre a religião natural. Tradução de José Oscar de Almeida Marques. Prefácio e bibliografia atualizada, preparados por Michael Wrigley. São Paulo: Editora Martins Fontes, Coleção Clássicos XXVI.

1995 Resumo de um Tratado da natureza humana./An abstract of a treatise of human nature/ Ed. Bilíngue. Tradução de Rachel Gutierrez e Jose Sotero Caio. Porto Alegre: Editora Paraula.

1995 Uma investigação sobre os princípios da moral. Tradução e apresentação de José Oscar de Almeida Marques. Campinas, SP: Editora da Unicamp.

1996 Investigação acerca do entendimento humano. Tradução de Anoar Aiex. / Ensaios morais, políticos e literários. João Paulo Gomes Monteiro e Armando Mora D'Oliveira. In: Col. ‘Os Pensadores’. 6a  edição. São Paulo: Nova Cultural.

1997 Carta de um Cavalheiro a seu amigo em Edimburgo. Tradução de Plínio Junqueira Smith. In: Revista Manuscrito, Volume XX, n. 2 outubro de 1997, Campinas/CLE/Unicamp, 15-27.

1999 Investigação sobre o entendimento humano. Tradução de José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Editora UNESP.

2001 Tratado da natureza humana. Uma tentativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais. Tradução de Débora Danowski. 1a  ed. São Paulo: Editora da UNESP / Imprensa Oficial do Estado.

2003 Ensaios políticos. Kund Haakonsen (org.). Tradução de Pedro Paulo Pimenta. Série Clássicos Cambridge de filosofia política. São Paulo: Martins Fontes.

2004 Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Tradução de José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Ed. UNESP.

2004 Do suicídio e outros textos póstumos. Tradução de Jaimir Conte; Davi de Souza e Daniel Swoboda Murialdo. Desterro: Edições Nefelibata.

2004 Ensaios morais, políticos e literários. Miller, Eugene E. (Org.). Tradução de Luciano Trigo. Introdução de Renato Lessa. 1ª edição, Rio de Janeiro: Liberty Fund/Topbooks.

2005 História natural da religião. Tradução, apresentação e notas Jaimir Conte. São Paulo: Ed. UNESP.

2006 Ensaios políticos. Tradução de Saulo Krieger. Série Fundamentos de direito. São Paulo: Editora Ícone.

2006 Investigação sobre o entendimento humano. Tradução de André Campos Mesquita. São Paulo: Escala Educacional.

2006 Da imortalidade da alma e outros textos póstumos. Tradutores de Daniel Swoboda Murialdo, Davi de Souza, Jaimir Conte. Ijuí, RS: Editora da UNIJUÍ.

2008 Do suicídio. Tradução de Lívia Guimarães. In: Os Filósofos e o Suicídio (Coleção Travessias). Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais.

2008 Da delicadeza da paixão e do gosto. Tradução de Lívia Guimarães. In: Os Filósofos: Clássicos da Filosofia. Pecoraro, Rossano. (Org.) vol. I. Rio de Janeiro: Editora PUC Rio – Editora Vozes.

2009 Tratado da natureza humana. Uma tentativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais. Tradução de Débora Danowski. 2 edição, revista e ampliada. São Paulo: Editora da UNESP / Imprensa Oficial do Estado.

2010 Investigação sobre o entendimento humano. Organização e tradução de Alexandre Amaral Rodrigues. São Paulo: Editora Hedra.

2010. Da liberdade e necessidade (Seção 8 da Investigação sobre o entendimento humano). Tradução de José Oscar de Almeida Marques. In Marçal, Jairo (org.) Antologia de Textos Filosóficos. Curitiba: Secretaria de Estado da Educação do Paraná (nova tradução preparada especialmente para essa edição).

2011 A arte de escrever ensaio e outros ensaios: (morais, políticos e literários). Seleção Pedro Paulo Pimenta. Tradução de Márcio Suzuki e Pedro Paulo Pimenta. São Paulo: Iluminuras, 2008.

2011 Do padrão do gosto. Tradução de Rafael Fernandes Barros de Souza. In: O padrão do gosto na filosofia de Hume: um argumento e os seus aspectos. Dissertação de mestrado. Orientação: José Oscar de Almeida Marques. Campinas: Unicamp, p. 103-126.

2011 Carta à sra. Dysart de Eccles. Tradução de Pedro Paulo Pimenta. Folha de São Paulo, Ilustríssima 07/08/2011.

2011 Dissertação sobre as paixões. Tradução: Jaimir Conte. Revista Princípios. v.18, n.29, jan./jun. 2011, p. 371-399.

2013 Uma investigação sobre os princípios da moral. Tradução e apresentação de José Oscar de Almeida Marques. 2a  edição. São Paulo: Ed. Unicamp.

2013 Uma espécie de história da minha vida. Tradução de Jaimir Conte. Revista Litterarius. v. 12, n.2, 2013.

2013 O estoico. Tradução de Marcos Balieiro. Anais de Filosofia Clássica, v. 7 n.13, 2013.

2016 Diálogos sobre a religião natural. Tradução, notas e posfácio de Bruna Frascolla. Salvador: EdUFBA. (Inclui seleção de cartas de Hume feitas à época de sua revisão da obra, além de fragmentos inéditos em português.)

2015 História da Inglaterra. Da invasão de Júlio César à Revolução de 1688. Tradução de Pedro Paulo Pimenta. São Paulo: Editora da Unesp.

2017 Um ensaio histórico sobre a cavalaria e a honra dos modernos. Tradução e apresentação de Marcos Balieiro. Revista Prometeus. n. 23.

2017 Da simplicidade e do refinamento na escrita. Tradução de Bruno Henrique de Souza Soares. Controvérsia, São Leopoldo, v. 13, n. 2, p. 156-162.

2021 O cético. Tradução e apresentação de Marcos Balieiro. Sképsis: Revista de Filosofia. Vol. XII, N. 22, p. 136-51. 


21 de jan. de 2023

ipê - instituto progresso editorial, IX

 em 3 de agosto de 1947, o ipê publica seu primeiro anúncio na imprensa com os volumes que lançara até a data, aqui, à exceção do livro infantil tomaz, da coleção colibri.

embora não nomeadas, são sete as coleções abarcando os oito títulos divulgados na propaganda. 




17 de jan. de 2023

ipê, instituto progresso editorial - VI

a sexta coleção publicada pelo ipê era composta por edições de luxo em francês, impressas na itália, com tiragens restritas a 500 exemplares. 


COLLECTION DES POÈTES MAUDITS

Coleção de obras poéticas, 4 volumes

clique na imagem para ampliar

Baudelaire, Charles

Les Fleurs du Mal

Collection des Poètes Maudits, 1

1947

Verlaine, Paul

Choix de poésies

Collection des Poètes Maudits, 2

1947

Rimbaud, Arthur

Oeuvres completes – Illuminations, Une saison en enfer, Premiers vers

Collection des Poètes Maudits, 3

1947

Mallarmé, Stéphane

Poésie et un poème

Collection des Poètes Maudits, 4

1947


encontra-se no ano seguinte, em 1948, uma publicação do ipê com traços muito semelhantes aos encontrados nos volumes da collection des poètes maudits: o volume poèmes des années perdues, de um poeta estreante, então com 20 anos de idade, chamado claude pernié. o papel e o formato são similares, a temática é compatível com a da coleção (poemas), a língua de edição é o francês. a impressão, um pouco menos requintada, porém, foi feita na paulistana tipografia edanée. cabe também notar que os volumes da collection des poètes maudits traziam especificado o nome da coleção no alto da página de rosto. no volume de autoria de pernié, nota-se a ausência do nome da coleção, assim vetando a possibilidade de supor que a obra integraria a collection. não excluo a hipótese, a meu ver bastante plausível, de que a publicação tenha sido encomendada pelo próprio autor.



mais uma breve observação: haroldo de campos, num artigo publicado no jornal o estado de s. paulo, em  26 de setembro de 1998, à p. 107, aqui, mencionava rapidamente essa coleção, citando jules laforgue entre os autores da série. foi um engano seu, muito compreensível, aliás, em vista do tempo decorrido.

acompanhe: ipê - coleções, aqui


23 de nov. de 2022

literatura irlandesa no brasil

 irish literature in brazil since 1888, o excelente levantamento de peter o'neill, que já utilizei e citei várias vezes aqui neste blog, agora está disponível em https://dokumen.tips/documents/irish-literature-in-brazil-since-1888.html?page=1

os escritores presentes no levantamento são:

Cecelia Ahern, John Banville, Sebastian Barry, Samuel Beckett, Brendan Behan, Richard Beirne, Maeve Binchy, Dermot Bolger, Patrick Boyle, Edmund Burke, Marina Carr, Eiléan Ní Chuilleanáin, Eoin Colfer, Seamus Deane, J. R. Donleavy, Emma Donoghue, Siobhan Dowd, Roddy Doyle, Anne Enright, Brian Friel, Brian Gallagher, Oliver Goldsmith, Seamus Heaney, Melissa Hill, Neil Jordan, James Joyce, Marian Keyes, Patrick McCabe, Colum McCann, Frank McCourt, Michael McLaverty, Brian Moore, Tom Murphy, Edna O‟Brien, Fitz-James O‟Brien, Flan O‟Brien, Sean O‟Casey, Joseph O‟Connor, John O‟Donoghue, Séan O‟Faolain, Nuala O‟Faolain, Liam O‟Flaherty, Kevin Power, George Bernard Shaw, Somerville and Ross, James Stephens, Laurence Sterne, Bram Stoker, Jonathan Swift, Colm Tóibín, Oscar Wilde, Vincent Woods, William Butler Yeats.


1 de nov. de 2022

"aproveitando o trabalho do tradutor"

 sempre bom lembrar - agradeço a lucas verzola







12 de ago. de 2022

tradução é tudo de bom

 

Tradução é tudo de bom  

Desde Su-ilisu, tradutor de Meluhha, aquela antiga civilização do Indo de uns 4.500 anos atrás, ao Google Translator, tra, trans, über é sempre uma questão de passar: passar daqui para lá, de lá para cá. Contato, mistura, intercâmbio, compartilhamento. Tradução é a língua franca, a língua universal. Não consigo dissociar tradução de humanidade. E ao longo do tempo é essa fecundação que contribui incomensuravelmente para formar a cultura de um povo, a identidade de um país, permitindo seu crescimento, ampliando seus horizontes.

No Brasil, vamos ter o início efetivo da tradução como atividade sistemática, constante, profissional a partir da década de 1930. Claro que há antecedentes, sobretudo em revistas e jornais, mas a atividade tradutória só adquire constância, relevo e densidade a partir daquela década, pois é quando se tem a decisiva arrancada da indústria editorial nacional. Excepcionalmente tardio, não? Oitenta anos, apenas. Formação irregular, trajetória ainda incipiente, em certo sentido, se comparada à de outros países. Os nomes que participaram daquelas décadas iniciais da tradução como atividade profissional razoavelmente regular e sistemática no país não soam como herança muito distante: estão logo ali. Monteiro Lobato, Erico Veríssimo, Rachel de Queiroz, Manuel Bandeira, Mario Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Lívio Xavier, Elias Davidovitch, tantos e tantos. E toda a grande questão é que nosso patrimônio cultural e nosso próprio sistema literário guardam laços indissociáveis com esse ofício exercido por milhares e milhares de obscuros ou célebres tradutores.

Assim, tive um tremendo susto, um choque mesmo, em 2007, ao saber por meio de um colega tradutor, Saulo von Randow Jr., que a tradução de Brenno Silveira de Ivanhoé de Walter Scott, lançada pela Martins nos anos 1950, fora apropriada pela editora Nova Cultural em 2003, apresentando-a em nome de um misterioso “Roberto Nunes Whitaker”. Conversa vai, conversa vem, pesquisa vai, pesquisa vem, o que se descobriu foi a existência de uma verdadeira indústria de falcatruas de tradução, bem como vários alertas sobre essa prática espúria. Aqui vou fazer uma rápida reconstituição cronológica desses alertas.

Foi assim: em dezembro de 2001, o crítico literário Alfredo Monte denunciava em sua coluna no jornal santista A Tribuna que a tradução de Frankenstein, de Mary Shelley, publicada naquele mesmo ano pela editora Martin Claret em nome de Pietro Nassetti, era idêntica à anterior de Éverton Ralph, pela Ediouro. Creio que foi esta a primeira denúncia pública de uma praga que, como veríamos depois, já começara a infestar o mundo editorial numa escala inédita, desde alguns anos antes. Em 2002, o fino crítico e tradutor Ivo Barroso publicava um artigo chamado “Cyrano sem penacho”, demonstrando que a edição de Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, pela editora Nova Cultural, com tradução em nome de Fábio M. Alberti, não passava de uma despudorada apropriação e deturpação do trabalho de Carlos Porto Carreiro, publicado pela J. Ribeiro dos Santos em c.1907, mas várias vezes relançado pela Abril Cultural a partir de 1973. Ainda em 2002, o mesmo Ivo Barroso escreveu um artigo chamado “Flores roubadas do jardim alheio”, demonstrando que a edição de Flores do Mal, de Charles Baudelaire, pela editora Martin Claret, com tradução em nome de Pietro Nassetti, na verdade não passava de – mais uma – despudorada apropriação e deturpação do trabalho de – agora – Jamil Almansur Haddad, publicado pela Difel em 1958.

A partir de 2004, foi inestimável o papel do jornal Opção de Goiânia, na coluna do jornalista Euler de França Belém, mostrando a fraude com Oblomov, de Goncharov, e novamente do crítico Alfredo Monte n’A Tribuna de Santos, mostrando as fraudes em Mulheres Apaixonadas, de D.H. Lawrence, e Os Sonâmbulos, de Hermann Broch. A Folha de S.Paulo noticiou e deu maior visibilidade a tais alertas, e também ampliou o escopo das denúncias. Em 2007, multiplicaram-se novas denúncias, tanto no jornal Opção quanto na Folha de S.Paulo, envolvendo A República de Platão, Contos de Voltaire e outros tantos mais.

Foi também em 2007 que o tradutor Saulo von Randow Jr., antes mesmo dessas notícias na imprensa, constatara a fraude em Ivanhoé e a notícia se alastrou entre os fóruns virtuais de tradutores. Fizemos um manifesto, alimentamos por alguns meses um blogue coletivo, encaminhamos um abaixo-assinado a universidades, a editoras, a centros literários, à grande imprensa, e esse fatal problema de patrimonicídio tradutório ganhou mais visibilidade entre o público leitor.

Não que não existissem plágios e contrafações antes disso: existiam, sim. Mas foi a partir daqueles anos – mais a rigor, a partir de 1995, como descobriríamos mais tarde – que essa praga veio a adquirir uma velocidade e um grau de difusão sem precedentes, até pelo altíssimo volume das tiragens da coleção Obras-Primas (e também da coleção Os Pensadores) da Nova Cultural, na casa das centenas de milhares de exemplares, e pelo grande número de reedições dos volumes da coleção Obra-Prima de Cada Autor, da Martin Claret. Outras editoras também vinham seguindo por essa senda, porém com menor frequência, menor escala e menor impacto.

O interessante a notar é que essas fraudes se concentravam majoritariamente na apropriação de traduções antigas, muitas delas já fora de circulação, porém da autoria de intelectuais de importância fundamental em nossa história lítero-humanística. Basta ver os nomes dos espoliados: Mario Quintana, Lúcio Cardoso, Lúcia Miguel-Pereira, Jaime Bruna, Francisco Inácio Peixoto, Lígia Junqueira, Luiz Costa Lima, Hernâni Donato, Boris Schnaiderman. Chega a ser um escândalo.

Aí, claro, não deixaram de surgir aquelas reações mais cínicas: “Ah, mas então não tem problema: quer dizer que a tradução é boa; que diferença faz o nome do tradutor?”. Tudo errado. Tem problema, sim, a começar pelo aspecto mais básico, que é o de constituir um incurso penal, como crime de roubo intelectual. Ademais, o fato de ter sido, digamos, um Lúcio Cardoso a fazer tal ou tal tradução não significa que ela seja “boa”; o importante é – justamente – o nome do tradutor. Não por uma pretensa e automática “garantia de qualidade”, mas porque conhecer o percurso tradutório de um escritor ajuda a entender a própria trajetória literária desse autor. Conhecer o modo de inserção de obras estrangeiras em nossa cultura ajuda a entender melhor nossa cultura. Faz muita diferença saber que Monteiro Lobato foi o introdutor de Jack London no Brasil, e foi ele quem, em 1934, fez a tradução de O Lobo do Mar – que, a partir de 1998, é publicada pela editora Martin Claret, dizendo-a, mais uma vez, de Pietro Nassetti. E que, em outro exemplo, a tradução d’O Discurso do Método, de Descartes, foi feita por Jacob Guinsburg e Bento Prado Jr. para a Difel em 1962, e não por um tal “Enrico Corvisieri” para a Nova Cultural em 1999. Esse dado nos informa sobre a história de nosso patrimônio intelectual. Isso faz diferença.

Por isso criei o blogue Não Gosto de Plágio. Ele nasceu em 2008, em 30 de setembro, dia dedicado a São Jerônimo, padroeiro dos tradutores, como blogue pessoal de levantamento, análise e apontamento de fraudes de tradução. Ao longo de alguns anos de pesquisas, apurou-se a existência de algumas centenas de ocorrências dessa prática suspeita. Na maioria dos casos, entrei em contato com as editoras e, em casos mais renitentes, com pedido de representação junto ao Ministério Público. Sofri algumas intimidações, recebi algumas notificações extrajudiciais, enfrentei (e ainda enfrento) algumas ações judiciais, contando sempre com enorme apoio de colegas, intelectuais e leitores em geral.

A boa notícia é que o Não Gosto de Plágio deixou de atuar como “blogue de combate” já faz uns dois anos, pois, até onde pude constatar, a prática por ora cessou ou, pelo menos, arrefeceu drasticamente, sem novos lançamentos suspeitos.

Resta o fato, porém, de que essa brincadeira de algumas editoras inescrupulosas deixou um saldo não muito auspicioso: alguns milhões de exemplares de obras espúrias estão presentes em bibliotecas públicas e particulares; centenas de títulos fraudados continuam a constar entre milhares e milhares de teses, artigos e estudos acadêmicos e até como indicação bibliográfica em cursos superiores; e – espantosamente, mas talvez nem tanto – muitos e muitos títulos ainda continuam em circulação, à venda para os incautos ou indiferentistas.

Mas, na esfera pública, em tempos de Pátria Educadora, em tempos de um ministro insuspeito de anti-intelectualismo, uma providência muito interessante seria a efetiva retomada e urgente redinamização do Portal Domínio Público, do MEC, para disponibilizar à sociedade esse enorme acervo de obras de tradução entregues ao deus-dará, sujeitas a pilhagens e deturpações. Pois uma das grandes questões nesse imbróglio todo é que, em boa medida, as traduções indevidamente apropriadas se configuram como “obras órfãs” e/ou “obras abandonadas”, condição esta que, segundo nossa lei autoral 9610/98, garante a elas o ingresso em domínio público, cuja guarda compete ao Estado.

Urge pensar a obra de tradução como patrimônio histórico cultural. Ela o é, claro, mas urge vê-la, senti-la concretamente como tal, no dia a dia, no livro que está à nossa cabeceira, no texto utilizado em sala de aula ou lido na hora de lazer.

Mais uma razão, caros leitores, para sempre prestarem atenção aos créditos de tradução. Não se deixem enganar – o crédito correto faz diferença, sim, e muita. Mais uma razão, poderes constituídos, para resgatarem obras criminosamente apropriadas e ofertarem à sociedade obras que, na verdade, já pertencem a ela. O acesso lícito e legítimo à cultura faz diferença, sim, e muita.

 Artigo originalmente publicado na revista Suplemento, da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, 2015: A arte da tradução, edição especial organizada por João Pombo Barile.


26 de mai. de 2022

elias davidovich, II

Traduções de Elias Davidovich (1909-1998)

II. 1940-1949:

Lucio d'Ambra, Profissão de esposa. vol 2 da trilogia "Os Romances da Vida a Dois". Coleção Romances. Vecchi, 1940. 
F. Enriques e G. Santillana. Pequena história do pensamento científico: da antiguidade aos tempos modernos. Vecchi, 1940
Stefan Zweig, O momento supremo : seis miniaturas históricas (em edição especial com tiragem de 200 exemplares em papel de linho, destinados aos amigos da Editora como presente de Natal, numerados e assinados pelo autor). Guanabara, 1940
Stefan Zweig, O momento supremo : seis miniaturas históricas. Guanabara, 1941
August Forel, Memórias: vida e obra de um sexologista. Globo, 1941
Enrico Giupponi, A luta contra o câncer. Vecchi, 1941
Stefan Zweig, Três paixões. Tradução com Odilon Gallotti. Guanabara, 1942
Stefan Zweig, Confusão dos sentimentos, (Notas íntimas do professor R. de D.). Guanabara, 1942 
Dedicatória na p. 1: A son Excellence Le President de la Republique de Bresil Dr. Getulio Vargas avec toute sa gratitude Stefan Zweig.
http://museudarepublica.museus.gov.br/exposicoes/dedicatorias/paginas/1930-1936.htm
Richard Clarke Cabot & F. Denette Adams, Diagnóstico fisico. Guanabara, 1943
Frank Harris, Minha vida e meus amores. Meridiano, 1943
Frederic Morris Loomis, Novas confissões de um médico de senhoras. Globo, 1944.
John Albert Kolmer, Penicilinoterapia. Gertum Carneiro, 1945. Pref. Raymundo Moniz de Aragio
Egon Conte Corti, A casa de Rothschild. Coleção Vidas Extraordinárias. Vecchi, 1948








18 de mar. de 2022

lista atualizada de traduções

 


ADICHIE, C. N. Sejamos todos feministas: Planner 2021. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. (et al.)

ADICHIE, C. N. Para educar crianças feministas - Um manifesto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

ALIS, F. Numa dada situação. São Paulo: Cosac Naify, 2010. (et al.)

ALCOTT, L. M. Mulherzinhas. Porto Alegre: L&PM, 2016. (et al.)

ALLEN, M. Árabes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.

ALLEN, R. C. História econômica global. Porto Alegre: L&PM, 2017.

AMEUR, F. Guerra da Secessão. Porto Alegre: L&PM Editores, 2010.

ANDERSON, B. Comunidades imaginadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

ANDERSON, P. A crise da crise do marxismo. São Paulo: Brasiliense, 1984.

APPIAH, K. O código de honra. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

ARENDT, H. Compreender. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

ARENDT, H. Homens em tempos sombrios. Companhia das Letras, 1987.

ARENDT, H. Sobre a revolução. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

ARGAN, G. C. A arte moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. (et al.)

BAIRD, J. Vitória, a rainha. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

BAKEWELL, S. No café existencialista. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.

BECKER, H. Truques da Escrita. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.

BENVENISTE, E.  O vocabulário das instituições indo-europeias, vol. 1 - Poder, direito, religião. Campinas: Ed. UNICAMP, 1995.

BENVENISTE, E. O vocabulário das instituições indo-europeias vol. 2- Economia, parentesco, sociedade. Campinas: Ed. UNICAMP, 1995.

BETHELL, L. O Brasil no mundo (História contemporânea do Brasil, vol. II). Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. (artigo)

BHABHA, H. K. Situando Fanon. Rio de Janeiro: Zahar, 2022. (artigo).

BLOOM, H. O cânone americano. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.

BOEHMER, E. Mandela: o homem, a história e o mito. Porto Alegre: L&PM, 2013.

BOSUALDO, C. Tropicália, uma revolução na cultura brasileira. São Paulo: Cosac Naify, 2007. (artigos).

BOTTON, A. Arte como terapia. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

BOURRIAUD, N. Estética relacional. São Paulo: Martins, 2009.

BOURRIAUD, N. Pós-produção. São Paulo: Martins, 2009.

BOYNE, J. O Palácio de Inverno. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

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BURKE, P. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

BURKE, P. Da Enciclopédia à Wikipédia. Uma história social do conhecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

BURKERT, W. Antigos cultos de mistério. São Paulo: EDUSP, 1991.

CACCIARI, M. Duplo retrato - São Francisco em Dante e Giotto. Belo Horizonte/Veneza: Âyiné, 2016. (et al.)

CACCIARI, M. Três ícones. Belo Horizonte/Veneza: Âyiné, 2016. (et al.)

CASTLE, T. Crianças, Anôn. - Revista Zum, 2. São Paulo: IMS, 2012. (artigo)

CASTLE, T. Duplos, anônimos (Zum, 2). São Paulo: IMS, 2012. (artigo)

COLLIER, P. O futuro do capitalismo. Porto Alegre: L&PM, 2019.

CONDILLAC, E. Tratado das sensações. Campinas: Ed. UNICAMP, 1993.

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DARNTON, R. O beijo de Lamourette. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

DARNTON, R. O lado oculto da Revolução. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

DAVIS, N. O retorno de Martin Guerre. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

DEMAND, T.; GALASSI, P. Isto não é o que parece (Zum, 2), 2012. (artigo)

DIAWARA, M. Em busca da África - Pretitude e modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.

DOERRIES, B. O teatro da guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

DROUIN, J. Os grandes economistas. São Paulo: Martins, 2008.

DURAS, M. O amante. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

EAGLETON, T. Como ler literatura. Porto Alegre: L&PM, 2017.

ELKIN, L. Flâneuse - Mulheres andando pela cidade em Paris, Nova York, Tóquio, Veneza e Londres. São Paulo: Fósforo, 2022.

ELLMANN, R. Ao longo do riocorrente. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

ENIA, D. Assim na Terra. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2013. (et al.)

FLETCHER, K. Redução de danos: A resistência visual de mulheres negras dentro e fora do Brasil. MASP, 2019. (artigo)

FLORES, P. Fascismo e berlusconismo (Novos Estudos Cebrap, 9). São Paulo: Cebrap, 2011. (et al.; artigo)

FONTENELLE, B. Diálogos sobre a pluralidade dos mundos. Campinas: Ed. UNICAMP, 1993.

FRANKFURT, H. Sobre a verdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

FRIED, M. O realismo de Courbet (no prelo). São Paulo: Cosac Naify, 2008.

GALASSI, P. Entrevista, Zum 2. São Paulo: IMS, 2012. (artigo)

GARB, T.; MISTRY, J. Perseguindo sombras - Santu Mofokeng (Zum, 3), 2012. (artigo)

GARZA, A. O propósito do poder. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

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9 de jan. de 2022

a fazenda dos animais

 "a tradução revelou que a 'revolução dos bichos' não foi de fato uma revolução": generosa resenha de dinaura julles sobre a fazenda dos animais, na revista re-produção, da casa guilherme de almeida, disponível aqui.




13 de out. de 2021

os maiores êxitos da tela, 2

o segundo título da coleção "os maiores êxitos da tela", da vecchi editora, que consegui localizar em ordem cronológica, aparece divulgado na imprensa em agosto de 1946 (não tenho certeza, porém, se ele corresponde ao segundo volume da coleção ou se saiu algum outro título depois de "os mosqueteiros do rei" e antes desse) é farrapo humano, de charles jackson.

o livro de jackson (cujo título original era the lost weekend) fora publicado em 1944 e já em 1945 foi adaptado para o cinema, lançado oficialmente nos eua em janeiro de 1946 e chegando às telas brasileiras em julho. a direção era de billy wilder, com roteiro dele e de charles brackett, com ray milland como protagonista, e ganhou quatro oscars.

a tradução que saiu pela vecchi logo a seguir foi feita por alfredo ferreira, que também traduzira os mosqueteiros do rei - ver aqui. o título adotado pela casa evidentemente seguia, por compreensíveis razões comerciais, o nome brasileiro do filme. 

[diga-se de passagem que os procedimentos de escolha dos nomes brasileiros para filmes estrangeiros são notoriamente misteriosos...]






12 de out. de 2021

os maiores êxitos da tela

a editora vecchi manteve durante uma época uma coleção chamada "os maiores êxitos da tela". como o próprio nome da coleção já indicava, eram obras que tinham sido filmadas e a editora, na previsão ou na esteira do sucesso dos respectivos filmes, lançava-as no brasil.

a coleção se estendeu de 1946 a 1967, embora na década final os lançamentos fossem muito, muito esporádicos. foram publicados cerca de 56 títulos, e o primeiro deles, até onde consegui apurar, foi os mosqueteiros do rei (companheiros de jéhu), cujo lançamento foi divulgado na imprensa em março de 1946. 

o título principal usado pela vecchi, os mosqueteiros do rei, nada tem a ver com os três mosqueteiros de dumas, mas sim com seu livro les compagnons de jéhu, indicado no subtítulo do volume traduzido. o tradutor foi alfredo ferreira, que posteriormente veio a traduzir vários outros volumes dessa coleção. 

o filme que serviria para ancorar as vendas do livro era the fighting guardsman, uma adaptação do romance de dumas, com direção de henry levin e roteiro de edward dein e franz schulz, tendo willard parker como ator principal. 

não consegui uma imagem de capa decente, mas aí segue.



quanto ao filme:



14 de jul. de 2021

entrevista

 "minha história", na biblioteca mário de andrade, disponível aqui.


28 de jun. de 2021

entrevista

 "enquadrando o tradutor", pela pget-ufsc, disponível aqui.




21 de jun. de 2021

entrevista

  "tradução refletida", uma conversa com anderson lucarezi e eliakim oliveira, no youtube, aqui 




21 de mai. de 2021

baudelaire no brasil

 nos 200 anos de nascimento de charles baudelaire, atualizo os 150 anos de sua presença no brasil (1871- 2021): disponível aqui.

"traduzir: uma fatalidade"

 simpático artigo de rosário fusco, "traduzir: uma fatalidade", em a manhã, 31 de janeiro de 1945, disponível aqui.


26 de abr. de 2021

ainda sobre a fazenda dos animais

 aqui excertos de uma entrevista minha ao site da bienal do livro.


21 de mar. de 2021

matérias, entrevistas e palestras

 

matérias, entrevistas e palestras