18 de jan. de 2013
entrevista
16 de jan. de 2013
traduções de poesia, 1960-2009
14 de jan. de 2013
os prêmios da fbn 2012, IV
seria muito importante que a fbn criasse um novo prêmio ou desdobrasse o paulo rónai em dois prêmios distintos, passando a contemplar também obras de tradução de humanidades. aliás, este foi um pleito que fizemos em petição em 2011, num documento entregue por ivo barroso nas mãos do presidente da fundação, galeno amorim, por ocasião da cerimônia de entrega dos prêmios daquele ano. ver a petição aqui.
enquanto não se o criar, porém, as regras atualmente vigentes deveriam ser respeitadas pela própria instituição que as estabeleceu.
veja também a sequência dos posts dedicados à premiação: III (tradução), II (poesia) e I (isbn).
os prêmios da fbn 2012, III
havia 41 inscritos na categoria de tradução: quinze tiveram suas inscrições rejeitadas; oito entraram com recurso e apenas um teve seu recurso deferido. boa parte das inabilitações se deu por inexistência de cadastro no isbn (critério que já comentei aqui). com isso, ficaram 27 concorrentes ao prêmio paulo rónai. o ganhador foi francisco josé saraiva degani, com a tradução os noivos, de alessandro manzoni.
minha perplexidade não foi em relação ao resultado, de maneira nenhuma - aliás, parabenizo sinceramente francisco degani. minha perplexidade foi em relação à composição do júri.
vamos por partes. o prêmio literário da fundação biblioteca nacional, em suas várias categorias, foi criado em 1995 (exceção feita às de literatura infantil e juvenil, criadas em 2007). o patrono do prêmio de tradução, paulo rónai, dispensa apresentações.
a comissão avaliadora é composta de três membros, os quais, segundo os termos do edital, devem ter "experiência profissional comprovada" e "notório saber na área pertinente a cada categoria", a ser nomeados pela presidência da fbn (ver aqui). naturalmente entende-se a indiscutível procedência de tal exigência. o edital também frisa a necessidade de respeitar o princípio de representatividade regional, sempre que possível.
quanto aos critérios adotados pela comissão, devem ser a qualidade literária da obra, a originalidade, a criatividade, a contribuição à cultura nacional, a qualidade linguística da tradução e criatividade no uso dos recursos gráficos, quando couber. tirando este último critério, naturalmente todos os demais se aplicam a uma obra de tradução.
no caso em apreço, a comissão avaliadora das obras concorrendo ao prêmio paulo rónai de tradução foi composta por ana cristina campos rodrigues, leny de azevedo werneck e tomaz adour da câmara. certamente todos são nomes muito respeitáveis, sem dúvida de experiência comprovada e notório saber em suas respectivas áreas - que, no entanto, não é, pelo que posso entender, a área de tradução literária.
a primeira, até onde consegui me informar, é uma historiadora de sólida formação, técnica de documentação na fbn desde 2006, tendo em seu currículo uma tradução da tese de sua orientadora em 2002-2004 e a participação numa oficina de tradução ministrada por carlos irineu da costa.
a segunda é escritora e jornalista no rio de janeiro, e não localizei nenhuma referência a algum contato direto seu com a atividade de tradução.
o terceiro é editor da usina de letras, também no rio de janeiro. tampouco localizei qualquer referência a alguma atividade de tradução.
salvo melhor juízo e com base em tais informações, a mim parece de clareza meridiana que os critérios básicos para a seleção dos membros da comissão avaliadora do prêmio paulo rónai de tradução não foram atendidos à suficiência.
os prêmios da fbn 2012, II
o grande problema é que o regulamento era muito claro: as inscrições deviam ser feitas pessoalmente pelos autores (donde se deduzia que o prêmio se destinava exclusivamente a autores vivos), ou, em casos de inscrição pela casa publicadora, seria necessária uma autorização de próprio punho do autor (donde se inferia mais uma vez que o autor teria de estar vivo). a íntegra do edital está aqui e abaixo transcrevo os artigos correspondentes a tal exigência:
2.3. As obras deverão ser inscritas pelo autor, de acordo com as categorias premiadas.este era o ponto mais absurdo e flagrante na premiação, que a invalidaria de plano. em todo caso, havia outras irregularidades na obra premiada: 1. o edital determinava que a obra deveria ser inédita; não era. 2. ademais, consistindo o ineditismo no fato de ser uma edição crítica da obra, não caberia concorrer na categoria de poesia.
2.3.1. As inscrições por intermédio de editoras serão permitidas como forma de assistência ao autor apenas mediante autorização por escrito deste, que deverá ser anexada à ficha de inscrição.
a perplexidade e os protestos logo se difundiram pelas mídias sociais, como o twitter e o facebook, por vários blogues e na grande imprensa, além de uma petição online contra a premiação e uma intensa divulgação das irregularidades por meio de vários e volumosos mailings. dois autores (marcus fabiano e renato suttana) e duas entidades (coletivo quatati e união brasileira de escritores) entraram com recurso junto à fbn, pedindo a anulação do prêmio.
dois membros do júri tentaram se justificar declarando à folha de s.paulo:
A poeta Leila Míccolis, integrante do júri que escolheu “Carlos Drummond de Andrade: Poesia 1930-62”, da Cosac Naify, como vencedora do Prêmio Biblioteca Nacional de Literatura, diz que preferia ter premiado um poeta vivo. “Eu tinha outra escolha, mas respeitei a decisão coletiva.” Seu colega de júri Francisco Orban avalia que caberia à organização decidir se o livro estava habilitado ou não —já que, pelo edital, a inscrição só poderia ser feita pelo autor ou pela editora com autorização por escrito do autor. (aqui)a posição de leila míccolis também gerou perplexidade, pois, num júri de três pessoas, seria difícil conceber que dois votos pudessem constituir uma "decisão coletiva". e a fbn, de seu lado e como de hábito, tentou se fazer de mortinha, declarando que "só analisará o caso se houver recurso de algum concorrente".
tudo isso em meio ao natal e vésperas de ano novo, imagine-se! em 30 de dezembro, o jornal estado de são paulo informou que a fbn havia suspendido a homologação dos prêmios até que os recursos interpostos fossem julgados (aqui).
por fim, a fbn informou que havia analisado em 03 de janeiro o recurso do poeta marcus fabiano e que traria a público sua decisão em 08 de janeiro. a fbn acabou se manifestando alguns dias depois, conforme noticiou a jornalista raquel cozer em 11 de janeiro na folha de s.paulo, aqui. o prêmio foi anulado, mas aparentemente os jurados ainda não conseguiram ainda chegar a um acordo. agora é aguardar.
- recurso apresentado por marcus fabiano, aqui
- recurso apresentado pela ube, aqui
- ata de julgamento dos recursos, fbn, aqui
- aqui o edital que a fbn publicou hoje, dia 14 de janeiro, deixando em branco o nome do premiado, até decisão do mesmo júri ou por escolha do departamento de economia do livro.
não há a menor dúvida de a grande responsável pela falha grotesca, inominável, imperdoável, foi a fundação biblioteca nacional - mas que o júri não conhecesse ou preferisse desconhecer o teor do regulamento também me causou bastante surpresa.
estão de parabéns todos os que noticiaram, divulgaram, protestaram e reagiram prontamente contra o malfeito. é da maior importância que a fbn consiga imprimir e conservar lisura, coerência e imparcialidade a todo o conjunto dos prêmios da instituição.
os prêmios da fbn 2012, I
em 12 de dezembro, porém, eu havia divulgado a lista das inscrições habilitadas e inabilitadas e já comentara a surpresa com a quantidade de inabilitações devido a irregularidades no isbn. veja aqui.
por um lado, achei extremamente saudável que a fundação biblioteca nacional começasse a checar a regularidade no uso de isbns. venho tratando faz tempo desse problema, e os interessados podem consultar vários posts incluídos no marcador fbn/isbn, aqui.
por outro lado, espantou-me que as irregularidades se concentrassem em títulos publicados pelo grupo record: nada menos de 74 inscrições recusadas por inexistência de cadastro dos isbns usados nas edições! ora, o uso do isbn é obrigatório desde 2003, pela lei n. 10753, a chamada lei do livro, que instituiu a politica nacional do livro, e a única entidade que pode atribuí-lo aos interessados é a agência brasileira do isbn, abrigada na fundação biblioteca nacional.
a jornalista raquel cozer publicou no sábado passado, dia 12 de janeiro, uma notícia assombrosa, numa matéria chamada "os sem cadastro", aqui. transcrevo uma parte:
OS SEM CADASTRO Não à toa 74 títulos da Record inscritos no Prêmio de Literatura da Fundação Biblioteca Nacional, no fim de 2012, foram inabilitados por "insuficiência de ISBN". Desde 2007, quando a versão brasileira do código internacional que identifica livros passou a ter 13 dígitos, em vez de dez, a editora praticamente não cadastra obras na agência nacional do International Standard Book Number. Assim como as outras cinco primeiras casas a aderir ao sistema no país, em 1978, a Record teve por anos o direito de autoatribuir seus códigos, sem ter de pagar. Com a mudança de 2007, as pioneiras perderam o privilégio. A Record continuou atribuindo seus códigos por conta - cada ISBN inclui um número da editora e outro da publicação -, sem cadastrá-los na agência.de fato, é hora de nossas instituições e entidades do livro começarem a pôr um pouco de ordem no mundo do livro e a coibir tanta prepotência e arbitrariedade.
ISBN FECHA O CERCO
Em anos anteriores, títulos da Record levaram o prêmio da FBN, mas isso porque a instituição, que representa o ISBN no Brasil, ainda não eliminava concorrentes por irregularidades no cadastro.
A inabilitação no último prêmio foi um movimento da agência para que editoras se regularizem.
traduzires
RESUMO/ ABSTRACT
UMA
VINHETA
Este breve artigo
apresenta a verdadeira identidade de Paulo M. de Oliveira, responsável pela
tradução de diversos clássicos da literatura e do pensamento universal, em
trabalhos realizados na década de 1930. De passagem, vem revelada também a
identidade de Blasio Demétrio. Apresenta-se um conciso perfil da Athena Editora
e de seu fundador Pasquale Petraccone, e destaca-se a importância das
contribuições da esquerda para a constituição do acervo de obras traduzidas no
Brasil.
Palavras-chave:
tradução;
esquerda; pseudônimos
A
VIGNETTE
An old mystery solved: who really was Paulo M. de Oliveira, the
translator to several preeminent works in the 30s, under the dictatorship known
as Estado Novo? This article stresses
also the significant contributions given by the leftist activists to the corpus
of great works translated in Brazil.
Keywords: translation; leftism; pseudonyms
UMA VINHETA
Denise
Bottmann
dbottmann@gmail.com
I.
Paulo M. de Oliveira (ou,
às vezes, Paulo M. Oliveira) é um nome que aparece com frequência nos créditos
de tradução de diversos clássicos da literatura e do pensamento universal. Diversas
traduções suas continuam em circulação até a data de hoje, em editoras variadas.
Mas não se encontra nenhum artigo, nenhuma informação, nenhuma referência
biográfica sobre ele.
Rastreando as obras que
Paulo M. de Oliveira traduziu, nota-se que as datas de primeira edição se
concentram entre os anos 1935 e 1939, publicadas basicamente pela Athena (após
a reforma ortográfica de 1942, Atena) Editora. Localizei as seguintes traduções
de sua lavra, apresentadas abaixo em ordem cronológica:
Tommaso Campanella, A Cidade do Sol, 1935
Alfred de Musset, Confissões de um Filho do Século, 1936, com Adelaide Pinheiro Guimarães
Blaise Pascal, Pensamentos, 1936
François Rabelais, Gargântua, 1936
Charles Baudelaire, Pequenos Poemas em Prosa, 1937
Gustave Flaubert, Madame Bovary, 1937
Guido de Ruggiero, Sumário de História da Filosofia, 1937
Cesare Beccaria, Dos Delitos e das Penas, 1937
Dante Alighieri, Vida Nova, 1937, com Blasio Demétrio
Erasmo de Roterdã, Elogio da Loucura, 1939
René Descartes, Discurso sobre o Método, 1939
La Rochefoucauld, Máximas e Reflexões, 1939 (este pela Companhia Brasil Editora)
Alguns detalhes chamam a
atenção: a densa concentração de uma bibliografia de alto nível em apenas quatro
anos; além disso, a concentração das publicações numa mesma casa editorial; por
fim, o súbito desaparecimento de qualquer tradução de Paulo M. de Oliveira após
1939.
Quem era ele? E quem era Adelaide
Pinheiro Guimarães? E esse implausibilíssimo Blasio Demétrio, sobre o qual não
se encontra referência nenhuma, a não ser a parceria com Paulo M. de Oliveira
na tradução de Vida Nova? E quanto à
Athena – a que se devia sua identidade editorial tão marcada?
II.
Vale a pena talvez dar
uma rápida espiada no perfil da Athena Editora, inicialmente sediada no Rio de
Janeiro e mais tarde operando em São Paulo.
Desde sua fundação em
1935, a Athena se destacou por seu catálogo de conteúdo humanista clássico,
parecendo até mesmo uma propedêutica à história da cultura universal. São dos
primeiros aportes no Brasil de obras de Demóstenes, Petrônio, Plutarco,
Suetônio, Dante, Campanella, Erasmo, Maquiavel, Shakespeare, Rabelais, Molière,
Racine, La Bruyère, Rousseau, Voltaire, Diderot, Musset, Spinoza, Hegel,
Ricardo, Darwin, Baudelaire, Croce, Kropótkin, Górki... Chama a atenção também
o perfil de seus colaboradores: Berenice e Lívio Xavier, Sady Garibaldi, Maria
Lacerda de Moura, Victor de Azevedo, Francisco Frola, entre outros.
Laurence Hallewell, em
seu amplo levantamento da história d' O
Livro no Brasil, faz apenas uma brevíssima menção à editora,
desproporcional à sua importância e não tão efêmera existência, que se
prolongou até os inícios dos anos 1960. Ao tratar dos efeitos da profunda crise
mundial a partir de 1929, Hallewell comenta a brutal queda no volume de livros
importados, caindo para menos de um terço e chegando ao pico de baixa em 1936,
quando a importação da França ficou 94% abaixo dos patamares de 1928. É nesse
contexto econômico que o livro brasileiro e a ficção traduzida no Brasil têm um
arranque inédito, iniciado, diz ele, pela Livraria do Globo: e "outras
logo a acompanharam, a Athena Editora, do Rio, por exemplo, fundada em
1935" (HALLEWELL, 1985, p. 317). É esta a única referência que Hallewell faz
à Athena.
Sergio Miceli, em Intelectuais à Brasileira, também cita
rapidamente a Athena, classificando-a entre as editoras de médio porte daquele
período, e menciona a cifra de 70 mil exemplares publicados pela casa em 1937 (MICELI,
2001, p. 151).
Quanto à fundação da
empresa, o Diário Oficial da União publica
a autorização de registro da Athena Editora em sua edição de 26 de agosto de
1935, com o termo 36.330. Seu proprietário: P. Petraccone.
O mesmo Miceli faz uma
alusão muito passageira a Petraccone, precisamente no contexto econômico
apontado por Hallewell: "Vários comerciantes especializados na importação
de livros resolvem ampliar suas atividades no ramo com a abertura de um
departamento editorial: Pongetti, Vecchi, Petraccone, Garavini, Bertaso, Zagari
etc. foram sensíveis às mudanças que então se operavam e passaram a traduzir
para o mercado interno as obras que antes eles mesmos importavam" (p. 142).
Trata-se de Pasquale Petraccone
(c.1895-1951), economista natural de Potenza, que migrou para o Brasil em 1926,
escapando à ascensão do fascismo na Itália, editor do jornal Italia Libera, integrante destacado da Liga
Antifascista das colônias italianas no Brasil, de agitada biografia e intensa
participação nos movimentos de esquerda no país, classificado nos arquivos do DOPS
como trotskista. Há fartíssimo material sobre sua militância política, mas
muito pouco sobre seu trabalho à frente da Athena Editora.
III.
Sobre Adelaide Pinheiro
Guimarães, parceira de Paulo M. Oliveira na tradução de Confissão de um Filho do Século de Musset, pouco encontrei. Há
algumas referências esparsas a seu nome ao longo dos anos, e nenhuma referência
a qualquer outra tradução.
Mais fértil se revelou a
pesquisa sobre Vida Nova, de Dante,
que a Athena publicou em 1937, acrescida de um prefácio de Antonio Piccarolo,
um dos líderes do antifascismo italiano no Brasil. A tradução foi feita a
quatro mãos, assinada por Paulo M. de Oliveira e um improvável “Blasio
Demétrio”. E aqui mostra-se de fundamental importância o documento que me foi
gentilmente encaminhado por Paula Abramo: uma cópia da carta que seu avô Fúlvio
Abramo, destacado militante trotskista, escrevera à família quando se encontrava
na prisão, num de seus encarceramentos entre 1934 e 1935. Dizia ele: “Estou
trabalhando na tradução para o português da ‘Vida Nova’ de Dante, juntamente
com outro preso. O trabalho está quase no fim, e do resultado econômico que
obtiver, mandarei à senhora e ao maninho a maior parte”.
As ligações entre os
movimentos antifascistas e o trotskismo brasileiro são bastante conhecidas, e
materiais de pesquisa não faltam. O interessante é notar essa relação ativa
entre a Athena de Pasquale Petraccone e os presos políticos, militantes
sobretudo trotskistas na linha de frente contra o fascismo brasileiro. Assim
também se entende melhor a presença de, por exemplo, Lívio Xavier e Victor de
Azevedo entre os tradutores da casa.
Esta descoberta – a
saber, que Blasio Demétrio foi o pseudônimo que Fúlvio Abramo usou em sua
tradução de Vida Nova feita no
cárcere – oferece um exemplo concreto do riquíssimo painel das contribuições da
militância de esquerda na história cultural brasileira, ainda a ser explorado
por um trabalho sistemático de pesquisa.
IV.
Voltemos a Paulo M. de
Oliveira. Sabemos que Vida Nova saiu
pela Athena com tradução em seu nome e no de Blasio Demétrio. Sabemos agora que
este último foi o pseudônimo que Fúlvio Abramo adotou (ou que a editora adotou
por ele) para assinar sua tradução. E sabemos também que ele a fez “juntamente
com outro preso”.
Em vista da nulidade de
meus esforços em encontrar qualquer referência a Paulo M. de Oliveira a não ser
como tradutor, e ainda por cima de produção restrita ao período de 1935 a 1939;
em vista do luminosíssimo detalhe relatado por Fúlvio Abramo (“juntamente com
outro preso”); em vista do pseudônimo usado por este último para assinar sua
tradução; em suma, em vista desses vários aspectos, parecia muito plausível
aventar que Paulo M. de Oliveira fosse também um pseudônimo usado por um militante
preso na mesma época de Fúlvio Abramo, talvez até companheiro de luta ou de
partido.
E assim é que, entre
algumas elucubrações (cheguei a pensar em Lívio Xavier!), vários ziguezagues
entre textos sobre a esquerda brasileira e rastreamentos de edições separadas
por algumas décadas de intervalo, despontou uma hipótese que parecia bastante
promissora: quem sabe Paulo M. de Oliveira não seria o nom de plume de ninguém menos que Aristides Lobo...
A partir de tal hipótese,
vários indícios avulsos passaram a convergir para essa direção: um Gargântua de Aristides Lobo pela Atena
em 1957; uma posterior descoberta fortuita de um Gargântua de Paulo M. de Oliveira pela Athena em 1936; A Cidade do Sol de Campanella, em
tradução de Aristides pela Tecnoprint (futura Ediouro, e que absorvera o
catálogo da Atena após o encerramento de suas atividades), repetindo a de Paulo
M. de Oliveira pela Athena; um pequeno detalhe sugestivo, comentado por um
leitor no blog Não Gosto de Plágio, a
saber, que o tio materno de Aristides era o poeta Alberto de Oliveira... Ademais, acompanhando a cronologia de suas prisões,
via-se que ela coincidia com o período tão concentrado das traduções de Paulo
M. de Oliveira, publicadas entre 1935 e 1939 (considerando-se um prazo de mais
ou menos um ano entre a entrega do material e a publicação do livro). Por fim,
o coroamento: a generosa iniciativa de Paula Abramo em consultar o historiador Dainis
Karepovs, profundo conhecedor da história da esquerda brasileira, que confirmou
a procedência da hipótese – sim, Aristides Lobo efetivamente usava o pseudônimo
de Paulo M. de Oliveira. E assim foi possível extrair a conclusão: as traduções
publicadas pela Athena entre 1935 e 1939 sob o nome de Paulo M. de Oliveira foram
feitas por Aristides Lobo, durante os vários períodos que passou na prisão sob
o Estado Novo.
Diga-se de passagem que
foi Evaristo de Moraes – aliás, com suas obras Cárceres e Fogueiras da Inquisição e Da Monarquia para a República publicadas pela mesma Athena – quem,
em 1938, apelou da sentença do Tribunal de Segurança Nacional e obteve a
absolvição, dentre outros, do não mais misterioso “Paulo M. de Oliveira” e de
Pasquale Petraccone, o fundador e proprietário da Athena Editora.
V.
Uma observação final: é
lamentável, mas não muito surpreendente, que a Editora Martin Claret não tenha mostrado
maiores escrúpulos em se apropriar desse antigo trabalho de Fúlvio Abramo e
Aristides Lobo e em publicá-lo desde 2003 em sucessivas reedições, atribuindo
sua autoria a um tal “Jean Melville” e arrogando-se o copyright dessa tradução tão carregada de história.
Mais uma forte razão para
um urgente levantamento das contribuições da esquerda brasileira para a
constituição de nosso acervo traduzido de obras de importância mundial, antes
que tais contribuições acabem de cair no esquecimento.
Referências
bibliográficas
D.O.U. http://www.jusbrasil.com.br/diarios/2193930/dou-secao-1-28-08-1935-pg-83
Hallewell, Laurence. O
Livro no Brasil. São Paulo: TAQ/EDUSP, 1985.
Miceli, Sergio. Intelectuais à Brasileira. São Paulo:
Companhia das Letras, 2001.
11 de jan. de 2013
as traduções de erico veríssimo, I
Encontro na Wiki:
Traduções
- Romances
- O sineiro (The Ringer), de Edgar Wallace – 1931
- O círculo vermelho (The Crimson Circle), de Edgar Wallace – 1931*
- A porta das sete chaves (The Door with Seven Locks), de Edgar Wallace – 1931*
- Classe 1902 (Jahrgang 1902), de Ernst Glaeser – 1933
- Contraponto (Point Counter Point), de Aldous Huxley – 1934
- E agora, seu moço? (Kleiner Mann, Was nun?), de Hans Fallada – 1937
- Não estamos sós (We Are Not Alone), de James Hilton – 1940
- Adeus Mr. Chips (Goodbye Mr. Chips), de James Hilton – 1940
- Ratos e homens (Of Mice and Men), de John Steinbeck – 1940
- O retrato de Jennie (Portrait of Jennie), de Robert Nathan – 1942
- Mas não se mata cavalo? (They Shoot Horses, Don't They?), de Horace McCoy – 1947
- Maquiavel e a dama (Then and Now), de Somerset Maugham – 1948
- A pista do alfinete novo (The Clue of the New Pin), de Edgar Wallace – 1956
- * tenho algumas dúvidas de que esses dois títulos tenham sido traduzidos por veríssimo: nos exemplares constam como tradutores, respectivamente, darcy azambuja e pedro bruno dischinger.
- Contos
- Psicologia (Psychology), de Katherine Mansfield – 1939 (Revista do Globo)
- Felicidade (Bliss), de Katherine Mansfield – 1940
- O seu primeiro baile (Her First Ball), de Katherine Mansfield – 1940 (Revista do Globo)
Leve-se em conta que os contos "Felicidade" e "O seu primeiro baile", acima mencionados, compõem a coletânea Felicidade, com mais doze contos, todos em tradução de Veríssimo. Veja-se aqui.
À listagem da Wiki podem-se acrescentar, além dos demais contos de Felicidade:
- O mistério da escada circular, de M. R. Rinehart, 1932
- A filha de Fu-Manchu, de Sax Rohmer, 1935
- A cobra amarela, de Edgar Wallace, 1936
- "O sorriso da Gioconda", in A Novela n. 5, fev. 1937
- A morte mora em Chicago, de Edgar Wallace, 1934
- Três titãs - Miguel Ângelo, Rembrandt, Beethoven, de Emil Ludwig, 1939
O Dicionário de tradutores literários (DITRA), da UFSC, na bibliografia de Erico Veríssimo, aqui, traz também algumas traduções da Coleção Amarela publicadas com o nome de Gilberto Miranda. Não estão incluídas neste breve levantamento, pois não creio que se possa considerá-lo como um pseudônimo ocasionalmente usado por Veríssimo, em vista do que ele mesmo disse sobre a identidade de "Gilberto Miranda":
... trata-se duma "personalidade de conveniência" que inventei, uma espécie de factótum literário. Se uma equipe anônima organiza um livro ou escreve um ensaio e precisamos de um nome para aparecer como autor dessas tarefas, convocamos Gilberto Miranda que, assim, tem sido, além de tradutor, especialista em crítica literária, modas femininas e masculinas, trabalhos manuais, política internacional, história natural, psicologia etc., etc. Gilberto Miranda não tem idade. Nestes últimos quarenta anos, Henrique e eu temos ficado mais velhos, mas o infernal Miranda continua jovem: tem sempre trinta anos, a mesma cara, a mesma disposição para o trabalho e continua a ser suficientemente cínico (ou prático) para emprestar seu nome a qualquer empreendimento literário, por mais medíocre que seja. (veja aqui)
10 de jan. de 2013
manifesto do futurismo
depois de lê-las e compará-las com o original, o que me parece é que almachio diniz, se por um lado fez uma tradução em grande parte de direito próprio, bastante distinta da de manuel dantas sob vários aspectos, por outro lado não teve muito pejo em utilizar diretamente algumas soluções de dantas. é a única explicação que encontro para trechos como os seguintes (pp. 115-24):
Il coraggio, l’audacia, la ribellione, saranno elementi essenziali della nostra poesia.
Os elementos essenciais da nossa poesia serão a coragem, a audacia e a revolta.
Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem, a audacia e a rebellião.
La letteratura esaltò fino ad oggi l’immobilità pensosa, l’estasi e il sonno.
A litteratura, tendo até aqui magnificado a immobilidade pensativa, o extase e o somno...
A literatura, tendo endeosado até hoje a immobilidade pensante, o extase e o somno...
[além da mesma modificação da estrutura sintática, note-se a reiteração de um equivocado "êxtase" para estasi]*
il passo di corsa: ambos adotam "o passo gymnastico".
Noi affermiamo che la magnificenza del mondo si è arricchita di una bellezza nuova: la bellezza della velocità.
Declaramos que o esplendor do mundo se enriqueceu com uma nova belleza: a belleza da velocidade.
Declaramos que o esplendor do mundo o enriqueceu com uma nova belleza: a belleza da velocidade.
Nessuna opera che non abbia un carattere aggressivo può essere un capolavoro.
Não ha obra prima sem caracter aggressivo.
Não ha obra-prima sem caracter aggressivo.
La poesia deve essere concepita come un violento assalto contro le forze ignote...
A poesia deve ser um assalto violento contra as forças desconhecidas...
A poesia deve ser um assalto violento contra as forças desconhecidas...
Noi vogliamo glorificare [...] il gesto distruttore dei libertari, le belle idee per cui si muore e il disprezzo della donna.
Queremos glorificar [...] o gesto destruidor dos anarchistas, as bellas idéas que matam, e o desprezo da mulher.
Queremos glorificar [...] o gesto destruidor dos anarchistas, as bellas Ideas, que matam e o despreso da mulher.
Noi vogliamo distruggere i musei, le biblioteche, le accademie d’ogni specie, e combattere [...] contro ogni viltà opportunistica o utilitaria.
Queremos demolir os museus, as bibliothecas, combater [...] todas as covardias opportunistas e utilitarias.
Queremos demolir os museus, as bibliothecas, combater [...] todas as covardias opportunistas e utilitarias.
achei curioso.
* atualização: aqui o erro foi meu, confundindo estasi com stasi. agradeço a diogo rodrigues pela correção.








