RESUMO/ ABSTRACT
UMA
VINHETA
Este breve artigo
apresenta a verdadeira identidade de Paulo M. de Oliveira, responsável pela
tradução de diversos clássicos da literatura e do pensamento universal, em
trabalhos realizados na década de 1930. De passagem, vem revelada também a
identidade de Blasio Demétrio. Apresenta-se um conciso perfil da Athena Editora
e de seu fundador Pasquale Petraccone, e destaca-se a importância das
contribuições da esquerda para a constituição do acervo de obras traduzidas no
Brasil.
Palavras-chave:
tradução;
esquerda; pseudônimos
A
VIGNETTE
An old mystery solved: who really was Paulo M. de Oliveira, the
translator to several preeminent works in the 30s, under the dictatorship known
as Estado Novo? This article stresses
also the significant contributions given by the leftist activists to the corpus
of great works translated in Brazil.
Keywords: translation; leftism; pseudonyms
UMA VINHETA
Denise
Bottmann
dbottmann@gmail.com
I.
Paulo M. de Oliveira (ou,
às vezes, Paulo M. Oliveira) é um nome que aparece com frequência nos créditos
de tradução de diversos clássicos da literatura e do pensamento universal. Diversas
traduções suas continuam em circulação até a data de hoje, em editoras variadas.
Mas não se encontra nenhum artigo, nenhuma informação, nenhuma referência
biográfica sobre ele.
Rastreando as obras que
Paulo M. de Oliveira traduziu, nota-se que as datas de primeira edição se
concentram entre os anos 1935 e 1939, publicadas basicamente pela Athena (após
a reforma ortográfica de 1942, Atena) Editora. Localizei as seguintes traduções
de sua lavra, apresentadas abaixo em ordem cronológica:
Tommaso Campanella, A Cidade do Sol, 1935
Alfred de Musset, Confissões de um Filho do Século, 1936, com Adelaide Pinheiro Guimarães
Blaise Pascal, Pensamentos, 1936
François Rabelais, Gargântua, 1936
Charles Baudelaire, Pequenos Poemas em Prosa, 1937
Gustave Flaubert, Madame Bovary, 1937
Guido de Ruggiero, Sumário de História da Filosofia, 1937
Cesare Beccaria, Dos Delitos e das Penas, 1937
Dante Alighieri, Vida Nova, 1937, com Blasio Demétrio
Erasmo de Roterdã, Elogio da Loucura, 1939
René Descartes, Discurso sobre o Método, 1939
La Rochefoucauld, Máximas e Reflexões, 1939 (este pela Companhia Brasil Editora)
Alguns detalhes chamam a
atenção: a densa concentração de uma bibliografia de alto nível em apenas quatro
anos; além disso, a concentração das publicações numa mesma casa editorial; por
fim, o súbito desaparecimento de qualquer tradução de Paulo M. de Oliveira após
1939.
Quem era ele? E quem era Adelaide
Pinheiro Guimarães? E esse implausibilíssimo Blasio Demétrio, sobre o qual não
se encontra referência nenhuma, a não ser a parceria com Paulo M. de Oliveira
na tradução de Vida Nova? E quanto à
Athena – a que se devia sua identidade editorial tão marcada?
II.
Vale a pena talvez dar
uma rápida espiada no perfil da Athena Editora, inicialmente sediada no Rio de
Janeiro e mais tarde operando em São Paulo.
Desde sua fundação em
1935, a Athena se destacou por seu catálogo de conteúdo humanista clássico,
parecendo até mesmo uma propedêutica à história da cultura universal. São dos
primeiros aportes no Brasil de obras de Demóstenes, Petrônio, Plutarco,
Suetônio, Dante, Campanella, Erasmo, Maquiavel, Shakespeare, Rabelais, Molière,
Racine, La Bruyère, Rousseau, Voltaire, Diderot, Musset, Spinoza, Hegel,
Ricardo, Darwin, Baudelaire, Croce, Kropótkin, Górki... Chama a atenção também
o perfil de seus colaboradores: Berenice e Lívio Xavier, Sady Garibaldi, Maria
Lacerda de Moura, Victor de Azevedo, Francisco Frola, entre outros.
Laurence Hallewell, em
seu amplo levantamento da história d' O
Livro no Brasil, faz apenas uma brevíssima menção à editora,
desproporcional à sua importância e não tão efêmera existência, que se
prolongou até os inícios dos anos 1960. Ao tratar dos efeitos da profunda crise
mundial a partir de 1929, Hallewell comenta a brutal queda no volume de livros
importados, caindo para menos de um terço e chegando ao pico de baixa em 1936,
quando a importação da França ficou 94% abaixo dos patamares de 1928. É nesse
contexto econômico que o livro brasileiro e a ficção traduzida no Brasil têm um
arranque inédito, iniciado, diz ele, pela Livraria do Globo: e "outras
logo a acompanharam, a Athena Editora, do Rio, por exemplo, fundada em
1935" (HALLEWELL, 1985, p. 317). É esta a única referência que Hallewell faz
à Athena.
Sergio Miceli, em Intelectuais à Brasileira, também cita
rapidamente a Athena, classificando-a entre as editoras de médio porte daquele
período, e menciona a cifra de 70 mil exemplares publicados pela casa em 1937 (MICELI,
2001, p. 151).
Quanto à fundação da
empresa, o Diário Oficial da União publica
a autorização de registro da Athena Editora em sua edição de 26 de agosto de
1935, com o termo 36.330. Seu proprietário: P. Petraccone.
O mesmo Miceli faz uma
alusão muito passageira a Petraccone, precisamente no contexto econômico
apontado por Hallewell: "Vários comerciantes especializados na importação
de livros resolvem ampliar suas atividades no ramo com a abertura de um
departamento editorial: Pongetti, Vecchi, Petraccone, Garavini, Bertaso, Zagari
etc. foram sensíveis às mudanças que então se operavam e passaram a traduzir
para o mercado interno as obras que antes eles mesmos importavam" (p. 142).
Trata-se de Pasquale Petraccone
(c.1895-1951), economista natural de Potenza, que migrou para o Brasil em 1926,
escapando à ascensão do fascismo na Itália, editor do jornal Italia Libera, integrante destacado da Liga
Antifascista das colônias italianas no Brasil, de agitada biografia e intensa
participação nos movimentos de esquerda no país, classificado nos arquivos do DOPS
como trotskista. Há fartíssimo material sobre sua militância política, mas
muito pouco sobre seu trabalho à frente da Athena Editora.
III.
Sobre Adelaide Pinheiro
Guimarães, parceira de Paulo M. Oliveira na tradução de Confissão de um Filho do Século de Musset, pouco encontrei. Há
algumas referências esparsas a seu nome ao longo dos anos, e nenhuma referência
a qualquer outra tradução.
Mais fértil se revelou a
pesquisa sobre Vida Nova, de Dante,
que a Athena publicou em 1937, acrescida de um prefácio de Antonio Piccarolo,
um dos líderes do antifascismo italiano no Brasil. A tradução foi feita a
quatro mãos, assinada por Paulo M. de Oliveira e um improvável “Blasio
Demétrio”. E aqui mostra-se de fundamental importância o documento que me foi
gentilmente encaminhado por Paula Abramo: uma cópia da carta que seu avô Fúlvio
Abramo, destacado militante trotskista, escrevera à família quando se encontrava
na prisão, num de seus encarceramentos entre 1934 e 1935. Dizia ele: “Estou
trabalhando na tradução para o português da ‘Vida Nova’ de Dante, juntamente
com outro preso. O trabalho está quase no fim, e do resultado econômico que
obtiver, mandarei à senhora e ao maninho a maior parte”.
As ligações entre os
movimentos antifascistas e o trotskismo brasileiro são bastante conhecidas, e
materiais de pesquisa não faltam. O interessante é notar essa relação ativa
entre a Athena de Pasquale Petraccone e os presos políticos, militantes
sobretudo trotskistas na linha de frente contra o fascismo brasileiro. Assim
também se entende melhor a presença de, por exemplo, Lívio Xavier e Victor de
Azevedo entre os tradutores da casa.
Esta descoberta – a
saber, que Blasio Demétrio foi o pseudônimo que Fúlvio Abramo usou em sua
tradução de Vida Nova feita no
cárcere – oferece um exemplo concreto do riquíssimo painel das contribuições da
militância de esquerda na história cultural brasileira, ainda a ser explorado
por um trabalho sistemático de pesquisa.
IV.
Voltemos a Paulo M. de
Oliveira. Sabemos que Vida Nova saiu
pela Athena com tradução em seu nome e no de Blasio Demétrio. Sabemos agora que
este último foi o pseudônimo que Fúlvio Abramo adotou (ou que a editora adotou
por ele) para assinar sua tradução. E sabemos também que ele a fez “juntamente
com outro preso”.
Em vista da nulidade de
meus esforços em encontrar qualquer referência a Paulo M. de Oliveira a não ser
como tradutor, e ainda por cima de produção restrita ao período de 1935 a 1939;
em vista do luminosíssimo detalhe relatado por Fúlvio Abramo (“juntamente com
outro preso”); em vista do pseudônimo usado por este último para assinar sua
tradução; em suma, em vista desses vários aspectos, parecia muito plausível
aventar que Paulo M. de Oliveira fosse também um pseudônimo usado por um militante
preso na mesma época de Fúlvio Abramo, talvez até companheiro de luta ou de
partido.
E assim é que, entre
algumas elucubrações (cheguei a pensar em Lívio Xavier!), vários ziguezagues
entre textos sobre a esquerda brasileira e rastreamentos de edições separadas
por algumas décadas de intervalo, despontou uma hipótese que parecia bastante
promissora: quem sabe Paulo M. de Oliveira não seria o nom de plume de ninguém menos que Aristides Lobo...
A partir de tal hipótese,
vários indícios avulsos passaram a convergir para essa direção: um Gargântua de Aristides Lobo pela Atena
em 1957; uma posterior descoberta fortuita de um Gargântua de Paulo M. de Oliveira pela Athena em 1936; A Cidade do Sol de Campanella, em
tradução de Aristides pela Tecnoprint (futura Ediouro, e que absorvera o
catálogo da Atena após o encerramento de suas atividades), repetindo a de Paulo
M. de Oliveira pela Athena; um pequeno detalhe sugestivo, comentado por um
leitor no blog Não Gosto de Plágio, a
saber, que o tio materno de Aristides era o poeta Alberto de Oliveira... Ademais, acompanhando a cronologia de suas prisões,
via-se que ela coincidia com o período tão concentrado das traduções de Paulo
M. de Oliveira, publicadas entre 1935 e 1939 (considerando-se um prazo de mais
ou menos um ano entre a entrega do material e a publicação do livro). Por fim,
o coroamento: a generosa iniciativa de Paula Abramo em consultar o historiador Dainis
Karepovs, profundo conhecedor da história da esquerda brasileira, que confirmou
a procedência da hipótese – sim, Aristides Lobo efetivamente usava o pseudônimo
de Paulo M. de Oliveira. E assim foi possível extrair a conclusão: as traduções
publicadas pela Athena entre 1935 e 1939 sob o nome de Paulo M. de Oliveira foram
feitas por Aristides Lobo, durante os vários períodos que passou na prisão sob
o Estado Novo.
Diga-se de passagem que
foi Evaristo de Moraes – aliás, com suas obras Cárceres e Fogueiras da Inquisição e Da Monarquia para a República publicadas pela mesma Athena – quem,
em 1938, apelou da sentença do Tribunal de Segurança Nacional e obteve a
absolvição, dentre outros, do não mais misterioso “Paulo M. de Oliveira” e de
Pasquale Petraccone, o fundador e proprietário da Athena Editora.
V.
Uma observação final: é
lamentável, mas não muito surpreendente, que a Editora Martin Claret não tenha mostrado
maiores escrúpulos em se apropriar desse antigo trabalho de Fúlvio Abramo e
Aristides Lobo e em publicá-lo desde 2003 em sucessivas reedições, atribuindo
sua autoria a um tal “Jean Melville” e arrogando-se o copyright dessa tradução tão carregada de história.
Mais uma forte razão para
um urgente levantamento das contribuições da esquerda brasileira para a
constituição de nosso acervo traduzido de obras de importância mundial, antes
que tais contribuições acabem de cair no esquecimento.
Referências
bibliográficas
D.O.U. http://www.jusbrasil.com.br/diarios/2193930/dou-secao-1-28-08-1935-pg-83
Hallewell, Laurence. O
Livro no Brasil. São Paulo: TAQ/EDUSP, 1985.
Miceli, Sergio. Intelectuais à Brasileira. São Paulo:
Companhia das Letras, 2001.


E que legal o título da revista ser no plural, é tão verdadeiro com relação à prática da tradução.
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