17 de out. de 2012

o amante de lady chatterley, via gustavo barroso

algum tempo atrás, em 2008, levantei umas pistas que me parecem interessantes e mereceriam talvez uma pesquisa a rigor.

trata-se da misteriosa tradução de o amante de lady chatterley, atualmente no catálogo da record, com tradução em nome de "rodrigo richter".

em 1938, a minúscula e efemeríssima agência minerva editora, de linha integralista, estridentemente fascista e antissemita (cujo colaborador mais constante era gustavo barroso - até me pergunto se não seria ele o dono ou um dos associados dessa editora), publica uma tradução da lady chatterley, inexpurgada. tem reedições em 1941 e 1946. a tradução vinha anônima.

em 1956, a civilização brasileira volta a publicar essa tradução. em 1959, acrescenta na página de rosto créditos de tradução em nome de "rodrigo richter".

é incontável a quantidade de reedições dessa obra. quando a record adquiriu a civilização, ela passou a integrar seu catálogo, saindo pela bestbolso. aliás, essa tradução não escapou à sanha da martin claret, onde foi transcrita sob o nome de "jorge luís penha" e lá permanece viçosa até hoje.

reproduzo abaixo partes de dois posts que publiquei aqui e aqui, com algumas considerações:
desde que foi publicado pela primeira vez na itália, em 1928, lady chatterley's lover (na versão final de lawrence, a chamada "terceira versão") foi proibido pela censura britânica, sendo publicado em outros países, mas na inglaterra circulando ou clandestinamente ou numa versão "expurgada" durante 30 anos. em 1959, num julgamento nos estados unidos, o supremo tribunal liberou a edição da obra integral no país, abrindo a brecha para novo julgamento na inglaterra, onde ela foi finalmente liberada em 1960.
a tradução que aparece na civilização brasileira em nome de rodrigo richter, em 1959, na verdade foi publicada inicialmente em 1938, pela agência minerva. a página de rosto dessa edição de 1938 já traz os dizeres "versão integral inexpurgada", e na página da imprenta consta "versão autorizada". não consta o nome do tradutor.

a agência minerva publica uma segunda edição em 1941 e uma terceira em 1946, ambas com o apêndice "em defesa de 'lady chatterley'":

  
em 1956 o título reaparece na civilização brasileira, onde segue sua carreira por algumas décadas. é apenas em 1959 que a civilização brasileira acrescenta os créditos de tradução em nome de "rodrigo richter", desde a edição cuja capa de eugênio hirsch ficou célebre pela renovação gráfica que introduziu na editora. "rodrigo richter" se mantém até hoje como autor da tradução no catálogo da record (bestbolso).


com esses achados, o caso parece se tornar ainda mais interessante. trata-se de uma tradução que vem desde 1938, tendo portanto completado 70 anos de existência. [hoje, 74 anos!] 
quanto ao verdadeiro tradutor, que se manteve anônimo por vinte anos, não posso afirmar nada. "rodrigo richter" pode ser um pseudônimo, pode ser um nome emprestado, pode ser alguém de verdade. isso, decerto, a record há de saber melhor do que eu. 
quanto à sua edição inicial em 1938, o curioso é que ela foi publicada pela agência minerva. em seu reduzidíssimo catálogo, constam na mesma época a publicação de um livro de l. bertrand, a maçonaria, seita judaica: suas origens, sagacidade e finalidades anticristãs (1938), em alardeada tradução do integralista e antissemita gustavo barroso; o famosíssimo os protocolos dos sábios de sião (1936), traduzido, anotado, comentado e "apostilado" também por ele; e ainda o grande processo de berna sobre a autenticidade dos "protocolos" - provas documentais (1936), do mesmo gustavo barroso. 
na mesma década de 1930, gustavo barroso publicou várias obras pela companhia editora nacional, seja em seu selo principal, no selo civilização brasileira ou em sua coleção brasiliana (as colunas do templo; brasil, colônia de banqueiros; judaísmo, maçonaria e comunismo; a história secreta do brasil em 3 vols.; história militar do brasil). até os anos 1950, gustavo barroso fazia parte do quadro de sócios da civilização brasileira, ainda subsidiária da companhia editora nacional. 
isso parece sugerir vivamente que a migração de o amante de lady chatterley da agência minerva para a civilização brasileira teria se dado por meio de gustavo barroso, que teria feito a evidente conexão entre ambas. [sobre as relações entre gustavo barroso e a nacional/civilização, com octalles e ênio silveira, há farta documentação disponível para pesquisas.]
a curiosidade que fica é como, em primeiro lugar, a agência minerva teria decidido publicar em seu microcatálogo um título decididamente polêmico, ao lado de peças de propaganda antissemita traduzidas ou "apostiladas" pelo mais ruidoso e profícuo ideólogo integralista do país. (aqui talvez fosse o caso de se levarem em conta as posições protofascistas de d.h. lawrence, que certamente seriam prato cheio para alimentar a propaganda integralista no brasil...) 
então junte-se tudo isso: um livro que, sob vários aspectos, é um marco da literatura mundial, passa 30 anos censurado, é editado no brasil em sua versão integral antes mesmo de cair a censura por uma editora virulentamente militante na ala mais extremada do fascismo brasileiro, reaparece numa editora progressista,  depois é absorvida pela voragem comercial que tragou boa parte da diversidade de nossa indústria editorial e se mantém até hoje, com quase 75 anos de movimentada existência nas costas, incluindo até uma rude espoliação - a gente sente uma espécie de densidade nessa trajetória, que acho interessante e, quem sabe, importante de ser lembrada e resgatada. além disso, a própria vetustez da tradução em si poderia fornecer bons subsídios para o estudo de práticas tradutórias do passado, sem contar que um estudo desses entrelaçamentos editoriais ajudaria a compor em mais detalhes o cenário ideológico e cultural da primeira metade do século 20.
como tema de uma pesquisa de mestrado, creio que pode ser bastante fecundo. e até me arrisco a dar um palpite: não terá sido o próprio gustavo barroso, tradutor de vários livros, a traduzir também essa obra? não será "rodrigo richter" o nome que a civilização inventou ou lhe foi sugerido em 1959, ano da morte de gustavo barroso, para batizar sua tradução lançada vinte anos antes pela extinta agência minerva?

14 de out. de 2012

contra fraudes de tradução

a revista sorria deste mês, de n. 28, comenta o problema das fraudes de tradução.
está aqui, à p. 39. e se cola na prova é jeitinho, plágio de tradução é crime mesmo.

12 de out. de 2012

leya: tradução anônima?

a editora leya volta e meia é protagonista de umas confusões em suas traduções (lembrem-se os clamorosos episódios referentes a a guerra dos tronos). elvira serapicos avisa agora que: "O poder da união, da Leya, saiu em agosto; em NENHUM lugar aparece o nome da pessoa responsável pela tradução".



dona leya, a única hipótese em que a sra. pode se dispensar de colocar o nome do tradutor nos créditos e na ficha catalográfica é quando o tradutor PROÍBE expressamente a menção a seu nome. em procedendo a informação acima, foi isso o que aconteceu em o poder da união?

atualização em 14/10: elvira serapicos explica: "Oi, Denise. Só agora vi este post. Acho que fui muito enfática e não me expliquei direito. Minha indignação tem a ver com o fato de a Leya nunca fornecer o nome do tradutor para a divulgação; em todas as livrarias e sites, parece que o livro foi escrito em português.
Quanto aos créditos e ficha catalográfica, não sei dizer porque não vi o livro. Esse é outro hábito da editora. Lançam o livro e não enviam um exemplar, não informam o tradutor. Então, fico sem saber se meu nome consta ou não. Aconteceu a mesma coisa com A menina que não sabia ler. Só tive certeza de que meu nome constava como tradutora quando vi que o livro foi publicado e pedi um exemplar."

atualização em 25/10: elvira serapicos informa: "pedi um exemplar e recebi o livro O Poder da União, que traduzi para a Editora Leya e, por incrível que pareça, meu nome não consta nem da ficha catalográfica. Escreveram apenas: Tradução de As One. Simples assim, sem dizer quem traduziu. Isso não fere a legislação? Pode uma coisa dessas?"

11 de out. de 2012

tradução/ adaptação

vale a pena distinguir entre:
- a adaptação feita diretamente do original estrangeiro
- a tradução de uma adaptação estrangeira
- a adaptação de uma tradução previamente existente


o primeiro caso é o menos frequente - na verdade, é bastante raro (e, em minha modesta opinião, resulta nas adaptações mais saborosas).

no segundo caso, a editora costuma informar nos créditos qual foi a adaptação de origem.

o último caso - e mais frequente - não requer nenhuma atividade de tradução e, em geral, a tradução adotada como base nem vem indicada nos créditos.

9 de out. de 2012

mais uma sugestão de pesquisa (esta, ufa!)

o autor mais assíduo das chamadas "traduções especiais" do clube do livro parece ter sido josé maria machado. já comentei algumas vezes, por exemplo aqui e aqui, que essas traduções especiais muitas vezes não passam de meras adaptações de traduções portuguesas ao português brasileiro.

I.
apenas para registro, segue uma rápida lista de "traduções especiais" de josé maria machado. em vista das altas tiragens e frequentes reedições das obras publicadas pelo clube do livro em seus quarenta anos de existência (embora intermitente), talvez fosse interessante rastrear os verdadeiros tradutores dessas obras e compor um painel mais preciso de nossa produção e recepção literotradutória.

1944 (1987), gustave flaubert, madame bovary
1945 (1988), edgar allan poe, histórias extraordinárias 
1946, oscar wilde, o retrato de dorian gray (“j. machado”)
1947 (1988), honoré de balzac, mulher de trinta anos
1948, emily brontë, o morro dos ventos uivantes
1951, robert louis stevenson, o médico e o monstro
1953, walter scott, ivanhoé
1954, mark twain, as aventuras de tom sawyer 
1955, cyrano de bergerac, viagem aos impérios do sol e da lua
1955, flavia steno, apaixonadamente
1956, alexandre dumas, o colar de veludo 
1956, charles dickens, uma aventura de natal (com tito marcondes)
1956, jonathan swift, as viagens de gulliver
1956, théophile de gautier, a paixão de militona
1957, george sand, a pequena fadette*
1957, herman melville, moby dick
1958, charlotte brontë, o professor 
1958, victor hugo, os miseráveis (condensada, 516 pp.)
1960, georges kamké, na ponta de um arco
1961, alexandre dumas, a loura huberta 
1961, françois rabelais, o gigante gargântua
1961, mark twain, as aventuras de huckleberry finn
1962, fenimore cooper, o último dos moicanos
1963, ivã turgueniev, o passaporte
1963, oscar wilde, o jovem rei
1965, prosper mérimée, a serpente
1968, summer lincoln, a cicatriz
1969, charles dickens, tempos difíceis
1969, leon tolstoi, o diabo branco
1972, walter scott, a última torre
1974, alexandre dumas, homem de guadalupe
1975, william sackleton, dois mistérios (com paulo arinos)
1976, honoré de balzac, uma paixão no deserto (com augusto dantas)
1977, anne brontë, a preceptora
1983, honoré de balzac, o renegado

* agradeço a informação de elaphar. citem-se a propósito do clube do livro os estudos de john milton.

obs.: os dois primeiros e o quarto títulos saíram como tradução anônima - apenas em data posterior, assinalada entre parênteses, surge o nome de josé maria machado. já o retrato de dorian gray foi a primeira obra trazendo a menção "traduzido especialmente para o clube do livro", que depois se tornaria habitual. interessante notar que, nesta primeira aparição, consta apenas "j. machado".


II.
por outro lado, e mais na linha do pulp fiction, o clube do livro publicou alguns livretos (fletcher, oppenheim, futrelle e wallace) que já tinham saído na "coleção vampiro" da coluna sociedade editora, na tradução do próprio josé maria machado: 


Clique para ampliar a capa
1951 CSE, 1955 CdL

Clique para ampliar a capa
1951 CSE, 1956 CdL (a tôrre em 1963)

1952 CSE, 1956 CdL


1953 CSE, 1955 CdL


1953 CSE, 1957 CdL

outra tradução de josé maria machado na coleção vampiro, pela coluna, é atrás da máscara, de summer lincoln, de 1951, mas não encontrei imagem de capa e não tenho notícias de reedição pelo clube do livro.

não sei como é a história da coluna sociedade editora (que, aliás, introduziu a fotonovela no brasil, com a revista encanto, desde 1949). o que sei é que, a certa altura do ano de 1953, o clube do livro incorporou a coleção vampiro, o que explicaria tais reedições. mas tampouco sei como foi a sobrevida dessa coleção no CdL.

III.
um adendo final: mário graciotti, fundador e proprietário do clube do livro, foi um dos mais destacados membros da frente integralista brasileira, tendo sido seu primeiro secretário. segundo ele afirma em os deuses governam o mundo, josé maria machado era "português de nascimento, mas brasileiro de coração", seu companheiro de fundação da sep (sociedade de estudos políticos), capitaneada por plínio salgado, e correligionário da ação integralista brasileira. ver aqui. note-se também que josé maria machado foi autor de um livro chamado a marca de caim, publicado em 1948 pela coluna.

essa sugestão de pesquisa me parece mais ambiciosa do que as anteriores (veja aqui) e demandaria maior fôlego ou um trabalho cooperado. mas acho que valeria a pena, e muito.

8 de out. de 2012

que contraste!



inúmeras vezes frisei a importância de se pesquisarem amplamente as grandes contribuições da esquerda brasileira para a abertura do brasil ao mundo por intermédio da atividade de tradução.

inúmeras vezes também apontei as descabeladas fraudes de tradução perpetradas pelo clube do livro em seus quarenta anos de existência mais ou menos intermitente. consistiam basicamente na apropriação de traduções em geral portuguesas, que eram publicadas ou anonimamente ou, com maior frequência, como "feitas especialmente para o clube do livro por josé maria machado".

num expressivo contraste de valores, posições e ações - pense-se, por exemplo, na athena editora (aqui) -, tem-se que mário graciotti, concebedor, fundador e proprietário do clube do livro, era um destacado membro da frente integralista brasileira, tendo sido, aliás, seu primeiro secretário.

josé maria machado, o tal das "traduções especiais" do clube do livro, por sua vez, era correligionário de graciotti e foram ambos companheiros de fundação da SEP (sociedade de estudos políticos), capitaneada por plínio salgado, à qual se seguiu, poucos meses depois, a fundação da AIP (ação integralista brasileira). conta graciotti que machado - "português de nascimento, mas brasileiro de coração" - era um funcionário do clube português, cuja sede abrigara a assembleia de fundação da entidade. veja-se aqui o artigo de victor emanuel vilela barbuy, "setenta e seis anos da sep". machado escreveu uma obra chamada a marca de caim (cujo título, em tal contexto, dispensa maiores comentários), publicada em 1948 pela coluna sociedade editora.

imagem: capa da revista anauê, 1935, ano I, n. 2, aqui

7 de out. de 2012

um breve reparo e uma sugestão de pesquisa

aqui apresento mais um pequeno elemento para estudantes e estudiosos da história da tradução no brasil, que poderia servir como tema para um modesto plano de pesquisa.

o extenso e meticuloso levantamento de laurence hallewell sobre o livro no brasil (sua história) é fonte indispensável para qualquer estudo sobre o tema. e é devido à sua importância que vale a pena fazermos um pequeno reparo. ao comentar o papel pioneiro da laemmert para a literatura infantil no brasil, hallewell cita as contribuições de carlos jansen müller (1829-1889), que traduziu vários clássicos adaptados, entre eles dom quixote. trata-se de uma tradução seguindo o plano de adaptação da obra montado por hoffmann, e foi feita a partir do alemão (ver hohlfeldt, 2003).

Autor:Cervantes Saavedra, Miguel de, 1547-1616.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:D. Quixote de la Mancha
Imprenta:Rio de Janeiro, Laemmert & c. 
Descrição física:viii, 216 p. il.
Notas:Registro Pré-MARC
Entradas secundárias:Hoffmann, Franz, 1814-1882.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Jansen, Carlos, m. 1889.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 
Classificação Dewey:
Edição:
087.1
Indicação do Catálogo:087.1/C419d7 

hallewell dá como data de publicação o ano de 1901 (pp. 169-70). na verdade, a tradução de jansen teria saído inicialmente em 1886, segundo hohlfeld e também villas-boas (ver aqui), o que parece mais plausível, em vista do ano da morte de jansen. neste caso, pode ser que a data citada por hallewell se referisse a uma segunda edição. para confirmar, bastaria consultar os catálogos da laemmert.

por outro lado, o famigerado "k. d'avellar" que consta em tantas contrafações da h. garnier (ver aqui), várias delas depois republicadas pela livraria garnier, se sai com uma adaptação intitulada história de d. quichote:

Autoria:
Título:
Historia de D. Quichote / por Miguel de Cervantes Saavedra ; traducao de K. d'Avellar.
Título original:
[Don Quijote.Portugues].
Imprenta:
Rio de Janeiro : H. Garnier ...,Descrição: clique aqui para ver as obras desta Editora no Catálogo de Editores [19--?].
Descrição física:
[2], 90p., [8]p. de estampas col. : il. ; 31cm.



Autoria:
Título:
Historia de D. Quichote / por Miguel de Cervantes Saavedra ; traducao de K. d'Avellar. -
Título original:
[Don Quijote.Portugues.]
Imprenta:
Rio de Janeiro ; Paris [Franca] : Livraria Garnier ,Descrição: clique aqui para ver as obras desta Editora no Catálogo de Editores 1924.
Descrição física:
[2], 90p., [8]p. de estampas : il. ; 31cm.


quanto à data de edição pela h. garnier, imagino algo entre 1901 e 1911, em esp. 1906-1911, em vista do histórico das pretensas traduções de "k. d'avellar" publicadas pela casa. 

não me dediquei ao rastreamento da fonte dessa adaptação, mas a questão parece pertinente devido a mais um comentário de hallewell, que é o seguinte: algumas dezenas de páginas adiante, hallewell discorre sobre o papel de monteiro lobato para as traduções e adaptações infantojuvenis. afirma que lobato teria feito a versão de dom quixote e de outras obras baseando-se "nas traduções anteriores portuguesas publicadas pela garnier e pela laemmert" (p. 260).  

ora, pelo menos o dom quixote pela laemmert é uma tradução brasileira, justamente a do teutobrasileiro carlos jansen, como hallewell já havia mencionado, embora com data posterior de publicação.

várias perguntas interessantes surgem daí: monteiro lobato de fato se baseou nessas traduções anteriores, apenas adotando "linguagem cuidadosamente modernizada e abrasileirada", como afirma hallewell? a tradução publicada pela garnier, que hallewell dá sumariamente como portuguesa, mas sabendo nós que "k. d'avellar" não passa de um nome de fachada para as contrafações da h. garnier, seria da autoria de quem e de qual edição lusitana? em suma, qual é o histórico de dom quixote em suas primeiras adaptações infantojuvenis publicadas no brasil? 

6 de out. de 2012

como e quando madame bovary chega ao brasil? não sei

apenas para registrar.

outro dia encontrei um artigo sobre traduções de madame bovary no brasil, e o articulista comentava que a primeira tradução brasileira teria sido feita pelo literato mineiro renato travassos e publicada em 1931.

de fato, o volume saiu em 1931 pela waissman, em sua coleção "obras célebres", mas com "tradução revista por renato travassos". ver a catalogação na universidade de coimbra, aqui e aqui. não consta o nome do tradutor de origem.

o que andava muito em voga eram as sucessivas reedições da tradução lusitana de madame bovary pela livraria chardron, da lello & irmão, de portugal, importadas e vendidas aqui no brasil. o interessante é que essa tradução portuguesa, por sua vez, já era anônima e "revista" por joão barreira. ao longo das décadas, passou a ser publicada pura e simplesmente como tradução de joão barreira, em circulação até hoje, e assim constando em sua biografia e em vários estudos de sua obra.

de qualquer forma, os acervos portugueses trazem os exemplares mais antigos, desde a década de 1890, devidamente catalogados com a especificação de que se tratava apenas de uma revisão de tradução. por exemplo:

Autor: 
Título: 
Madame Bovary : scenas da província / Gustave Flaubert ; trad. revista por João Barreira
Publicação: 
Descrição física: 
2 vol. ; 16 cm
Descrição de 2º nível: 
vol. 1: 5.ª edição . - 265 p.
vol. 2: 4.ª edição . - 228 p.
CDU: 
Cota: 
L 7  BMC  68609
L 7  BMC  68610

a única notícia que tenho de uma tradução de madame bovary em português em data anterior à revisão de joão barreira é a de f. ferreira da silva vieira, publicada em 1881, da qual dispomos inclusive de um exemplar em nossos acervos na biblioteca nacional:

Autor:
Título / Barra de autoria:
Madame Bovary, costumes de provincia.
Imprenta:
Lisboa, Ty. Lisbonense, 1881. 
Descrição física:
2 v.
Notas:
Registro Pré-MARC
Classificação Dewey:
Edição:
843 
Indicação do Catálogo:
843/F587m7 

e na biblioteca nacional de portugal:

MADAME BOVARY : COSTUMES DE PROVINCIA. SEGUIDO DA REQUISITORIA DO ADVOGADO IMPERIAL DO PROCESSO INTENTADO CONTRO O AUCTOR NO TRIBUNAL CORRECIONAL DE PARIS / GUSTAVE FLAUBERT ; TRAD. DE F. F. DA SILVA VIEIRA
AUTOR(ES): 
Flaubert, Gustave, 1821-1881; Vieira, F. F. da Silva, 1831-1888, trad.
PUBLICAÇÃO: 
Lisboa : Emp. Literária Fluminense, 1881
DESCR. FÍSICA: 
1 t. ; 18 cm

assim, minha tendência é crer que a tradução de origem foi feita por da silva vieira, foi revista por joão barreira (a quem, com o tempo, veio-se a atribuí-la) e, no brasil, foi provavelmente essa tradução já revista por barreira que foi trevista por renato travassos. talvez, como trabalho de conclusão de curso (tcc), valesse a pena algum estudante pesquisar a procedência dessa hipótese.*

* existe outra possibilidade. algumas vezes usava-se "tradução revista por" em casos de traduções encomendadas pela editora que ficavam com qualidade tão aquém do desejado que precisavam ser reelaboradas e praticamente refeitas antes de ser publicadas. é o que acontece, por exemplo, com as traduções revistas por godofredo rangel ou por monteiro lobato, pela nacional. ver "uma breve tipologia dos créditos de tradução", aqui. se tiver sido este o caso, não seria difícil comprovar: bastaria compulsar a tradução de da silva vieira e a revista por joão barreira.

quanto à primeira madame bovary brasileira, fica a questão: há uma edição publicada em c.1934 pela sociedade impressora paulista. a ficha catalográfica na biblioteca nacional não registra os créditos de tradução: não sei se é de fato anônima ou se o dado existe e não foi cadastrado. escrevi à dinf (divisão de informação), da fbn, e estou no aguardo de uma resposta. até lá, as únicas informações de que disponho são estas:

Autor:Flaubert, Gustave, 1821-1880.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Madame Bovary.
Imprenta:S. Paulo, Impressora paulista, [1934?]. 
Descrição física:345 p.
Notas:Registro Pré-MARC
Classificação Dewey:
Edição:
843
Indicação do Catálogo:843/F587m7/1934 

atualização: sobre a dificuldade em conseguir um atendimento minimamente satisfatório da dinf/fbn, ver a novela aqui.

que legal

conversa com mamede jarouche e a tradução das mil e uma noites

4 de out. de 2012

prêmio paulo rónai de tradução

a fbn publicou edital anunciando o início das inscrições para seus prêmios literários, entre eles o prêmio paulo rónai de tradução. o edital está aqui.

saíram obras de tradução literária maravilhosas no período contemplado pelo edital (01 de setembro de 2011 a 31 de agosto de 2012). espero que os tradutores ou as editoras não as deixem de inscrever!

30 de set. de 2012

dia do verbo

assim como todo dia era dia de índio, todo dia é dia do verbo

imagem: aqui

30 de setembro, dia mundial dos tradutores

28 de set. de 2012

los traductores


muito bonito o artigo de muñoz molina sobre tradução, no caderno de cultura de el país, aqui. transcrevo um trechinho:
Un mismo libro se vuelve otro ligeramente distinto en la imaginación de cada lector: pero esa multiplicación, esa metamorfosis, es más acentuada aún en el caso de cada traductor. El traductor es el lector máximo, el lector tan completo que acaba escribiendo palabra por palabra el libro que lee. Él o ella es quien detecta los errores y los descuidos que el autor no vio y los editores no corrigieron. Él se ve forzado a medir el peso y el sentido de cada palabra con mucho más escrúpulo que el novelista mismo. Willi Zurbrüggen utilizó un término musical para hablar de su trabajo: lo que más se parece a una traducción, sobre todo entre lenguas tan distintas como el español y el alemán, es la transcripción de una pieza musical. 
Escuchaba hablar a estas personas, tan distintas entre sí, tan iguales en su devoción por el trabajo que hacen, y sentía gratitud y algo de remordimiento: una palabra que yo elegí por azar o instinto, una frase a la que dediqué tal vez unos minutos, les han podido causar horas o días de desvelo. Aprender sobre los límites de lo que puede ser traducido lo hace a uno más consciente de que también hay límites a lo que las palabras mismas pueden decir.
imagem: aqui

24 de set. de 2012

finalistas do jabuti de tradução

Início

no dia 20 de setembro, saiu a relação dos finalistas do prêmio jabuti de tradução literária.

o regulamento era bastante claro (ver aqui):
29. TraduçãoTextos exclusivamente literários de ficção (prosa ou poesia), traduzidos de qualquer idioma, para a língua portuguesa falada e escrita no Brasil.
já no ano passado, entre os finalistas houve a desclassificação de o outono da idade média, de johan huizinga, em tradução de francis petra janssen, justamente por não atender ao critério literário. a coordenação e o júri da atual edição do jabuti parecem não ter lido direito o regulamento nem aprendido a lição do ano passado, pois agora em 2012 foram indicadas duas obras entre os finalistas que escapam aos critérios de ficção e/ou poesia: frida, a biografia e, mais surpreendentemente, os grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política, de marx.

deve ser inútil esperar qualquer providência da cbl em relação a tais irregularidades. uma pena.

tirando isso, parabéns aos tradutores das oito obras legitimamente classificadas entre as dez finalistas. são eles:
1º - Odisseia - Trajano Vieira - Editora 34
2º - Madame Bovary - Mário Laranjeira - Companhia das letras
3º - Guerra e Paz - Rubens Figueiredo - Cosac & Naify
4º - Heine Hein? Poeta dos Contrários - André Vallias - Editora Perspectiva
5º - Duplo Canto e Outros Poemas - Bruno Palma - Editora Ateliê
6º - Frida: a biografia - Renato Marques - Editora Globo
7º - Os sonâmbulos - Marcelo Backes - Editora Saraiva
8º - Poesia completa de Yu Xuanji - Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao - Editora UNESP
9º - Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política - Mario Duayer, Nélio Schneider, Alice Helga Werner e Rudiger Hoffman - Editora Boitempo
10º - O duplo - Paulo Bezerra - Editora 34 
 a relação completa dos finalistas de todas as categorias está aqui.

atualização em 27/09/12: avisa nilton resende no facebook:

houve mudança na indicação do Jabuti em tradução (pelo menos em tradução). segundo e-mail distribuído pela CBL, houve "uma inconsistência no resultado". colo aqui o e-mail. e depois, o resultado corrigido.
e-mail:
"Em sua 54ª edição, o Jabuti, o mais prestigiado prêmio do mercado editorial, sempre primou por valorizar o setor, consagrando, a cada ano, os maiores talentos do livro brasileiro.
A apuração da 1ª fase foi realizada em sessão pública no último dia 20 de setembro, com a presença de jornalistas, jurados e membros do conselho curador.
Em virtude de um questionamento feito por um jurado, sempre prezando pela transparência das informações, a comissão do Jabuti solicitou nova compilação dos votos à Disoft, empresa responsável pelo sistema, com acompanhamento da auditoria Parker Randall, ocasião em que foi identificada inconsistência no resultado apurado pelo sistema. Conheça aqui a lista atualizada de finalistas que seguirão para a 2ª fase do Prêmio."
 
o resultado atual na categoria tradução: 
Tradução
1º - Odisseia - Trajano Vieira - Editora 34
2º - Madame Bovary - Mário Laranjeira - Companhia das Letras
3º - Guerra e paz - Rubens Figueiredo - Cosac & Naify
4º - Heine Hein? Poeta dos contrários - André Vallias - Editora Perspectiva
5º - Duplo Canto e Outros Poemas - Bruno Palma - Editora Ateliê
6º - Os sonâmbulos - Marcelo Backes - Editora Saraiva
7º - Poesia completa de Yu Xuanji - Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao - Editora UNESP
8º - O duplo - Paulo Bezerra - Editora 34
9º - Poemas - Regina Przybycien - Companhia das Letras
10º Ilusões Perdidas - Rosa Freire d'Aguiar - Companhia das Letras
que pode ser visualizado aqui: http://www.premiojabuti.com.br/resultado-fase1-2012

22 de set. de 2012

um país de tradutores


La Argentina un país de traductores
ótimo texto, que se aplica ao brasil também - indicação de claudio marcondes: un país de traductores, aqui.