31 de out. de 2014

o desplante da h. garnier


mentira da grossa e da feia. é cópia literal e integral da tradução de mécia mousinho de albuquerque. vide os posts nas tags "h. garnier", "edgar allan poe" e "pesquisa 'poe no brasil'". agradeço a paulo soriano a gentilíssima remessa desse anúncio publicado na gazeta de notícias em 4 de dezembro de 1903.

24 de out. de 2014

Plágio, uma Marca de Nascença da Tradução no Brasil

opa, saiu a programação do citrat - para quem estiver em são paulo, dia 7, na usp, e eu lá, toda exibida, ao lado de um pessoal de primeiríssima:

O CITRAT (Centro de Tradução e Terminologia da FFLCH), o Departamento de Letras Modernas da FFLCH, e o Programa de Pós-graduação em Estudos da Tradução da USP (TRADUSP) convidam para a XII Jornada CITRAT e a III Jornada TRADUSP na sexta-feira, 7 de novembro de 2014, na Sala 266, Prédio de Letras, Av. Luciano Gualberto 403, Cidade Universitária.

Copyright, Plágio, Tradução

Programação:

9h: Palestra: Denise Bottmann (Tradutora e Historiadora)
Plágio, uma Marca de Nascença da Tradução no Brasil
Por incrível que pareça, os plágios e contrafações não foram excrescências na história da tradução no Brasil. Na verdade, antes mesmo que se firmasse a figura do tradutor brasileiro, o que se tem é a apropriação de traduções portuguesas apresentadas como traduções brasileiras, anônimas ou sob nomes fictícios. É como se a atividade adquirisse vida às avessas, sob o signo da negação e do ocultamento. Bombasticamente, eu diria: a tradução no Brasil nasce sob a forma de plágio.
10h30: Mesa com advogados
Allan Rocha de Souza
Antonio Carlos Morato
Renata de Arruda Botelho da Veiga Turco
Rodrigo Salinas
14h: Relatos de casos:
João Azenha
Stella Tagnin e Luciana Carvalho
Lenita Esteves e Renato Franco de Campos
16h Palestra: Márcia Pietroluongo (UFRJ)
Que tradutores somos nós?
Panorama dos diferentes tipos de tradutores e suas diversas configurações autorais no mercado de trabalho brasileiro da tradução. Reflexão sobre as diferentes legislações que os regem, sobre o caráter heterogêneo de suas inscrições neste campo, e sobre suas possíveis incidências nos modos de traduzir, enfatizando a relevância da relação intersubjetiva no trabalho de tradução que, antes de se fundar em textos, se dá entre os sujeitos implicados no processo.

16 de out. de 2014

jabuti 2014

muito contente em ficar em companhia tão honrosa! viva e parabéns a todos os ganhadores!




vale lembrar que a categoria geral de tradução abrange todas as línguas, com obras literárias e não literárias. a categoria especial é reservada a obras literárias, num idioma só (por rodízio anual, neste ano o inglês).

a lista completa está aqui.

30 de set. de 2014

30 de setembro, dia internacional da tradução

jerônimo, tradutor da bíblia para o latim, padroeiro do ofício, esboço de mantegna:

obrigada a federico carotti pela imagem

23 de set. de 2014

jabuti 2014

aqui os finalistas para o prêmio jabuti de tradução literária, categoria especial inglês/português (tive a honra de ser incluída com ao farol, de virginia woolf, pela l&pm):


aqui os finalistas para o prêmio jabuti de tradução, categoria geral:


viva, parabéns a todos!

16 de set. de 2014

Barbara Maidel Page II: Editoras

Barbara Maidel Page II: Editoras: Sou maníaca por editoras. Tenho as minhas preferidas. Às vezes elas me decepcionam. Por exemplo, fico chateada (de verdade) quando uma ed...

29 de ago. de 2014

o "legado" da germinal

hoje recebi os seguintes informes sobre o inquérito policial por estelionato em curso contra a editora germinal por fraudes de tradução (acompanhe o caso aqui):







19 de ago. de 2014

dicas

em conversa com zaqueu fogaça, da saraiva conteúdo, "dez dicas de denise bottmann para quem deseja ser tradutor", aqui.

DEZ dicas de Denise Bottmann para quem deseja ser tradutor19. 08. 2014
Literatura
A tradutora Denise Bottmann
Por Zaqueu Fogaça

São incontáveis as obras estrangeiras publicadas no Brasil todos os anos em língua portuguesa. Isso só é possível graças ao esforço de um profissional que às vezes escapa aos olhos apressados da maioria dos leitores: o tradutor, aquele sujeito que se debruça por meses, e até mesmo anos, no texto original para entregar a obra em português, pronta para ser lida.

O ofício do tradutor requer muita paciência para decifrar o labiríntico processo de composição de uma obra, como explica a tradutora Denise Bottmann: “O grande desafio é entender de fato o texto. Entender uma frase não significa entender as palavras e o sentido visível em determinada construção. Significa entender as articulações daquela frase dentro da construção geral da obra, princípios estruturais e compositivos utilizados pelo autor. Traduzir é basicamente decifrar o texto original, seguindo uma ou mais chaves de leitura, e reconstituir essa decifração num outro texto e em outra língua”.

Graduada em História e mestra em Teoria da História, a curitibana lecionou Filosofia na Unicamp; posteriormente, em 1985, direcionou seus esforços ao campo da tradução, trabalho que executa até hoje como tradutora de inglês, francês e italiano.

Entre os autores que verteu para o português figuram nomes como Hannah Arendt, Marguerite Duras, Henry David Thoreau e Virginia Woolf. Desta última, Denise traduziu o livro Mrs. Dalloway (L&PM), trabalho agraciado, em 2013, com o Prêmio Paulo Rónai da Biblioteca Nacional.

Em face das possibilidades e complexidades que cada obra apresenta, faz-se necessário definir uma linha tradutória. “Perante tal complexidade, o tradutor opta por uma determinada abordagem, um determinado ‘partido tradutório’. Assim, o principal objetivo de uma tradução em relação ao texto original é manter a coerência do partido adotado, checando constantemente sua validade em relação ao original”, diz a tradutora, que também é autora do blog Não Gosto de Plágio, no qual expõe ao público os plágios de traduções no país.

A pedido do SaraivaConteúdo, Denise Bottmann elencou dez componentes que considera importantes para quem ambiciona se aventurar pelo campo da tradução. Confira a relação abaixo.

1. DOMÍNIO DO PORTUGUÊS

Ter um domínio muito bom do português. E não se trata apenas de conhecer a língua. Trata-se de ter uma familiaridade lógica com estruturas linguísticas. Se a pessoa não tem pleno domínio linguístico de sua língua materna, dificilmente conseguirá ter uma percepção das estruturas lógicas de outra língua.

2. DOMÍNIO DA OUTRA LÍNGUA

Ter um domínio pelo menos bom da outra língua. O mais importante é o domínio das estruturas linguísticas; nesse sentido, eventuais e inevitáveis lacunas vocabulares podem ser preenchidas com o recurso a dicionários.
 
Alguns dos títulos traduzidos por Denise Bottmann

3. CONHECIMENTO DO ASSUNTO

Ter um domínio pelo menos razoável da área a que pertence a obra. Não é preciso ser um especialista no assunto, mas é indispensável um mínimo de conhecimentos gerais que permitam ao tradutor trafegar com relativa familiaridade pelos temas tratados.

4. MATERIAL DE APOIO

Dispor de ampla variedade de materiais de consulta e pesquisa: dicionários, enciclopédias, glossários, estudos sobre aquela área, outros livros relacionados ao tema. Com a Internet, tudo isso fica muito mais fácil.

5. CONTEXTO DA OBRA

Ter noção do quadro literário, teórico ou científico em que se insere a obra. Para quem traduz literatura, é indispensável ter noções de recursos estilísticos e literários em geral. Em humanidades em geral, é indispensável ter noção da linhagem a que se filia a obra e dos debates em torno do tema.

6. CONTEXTO HISTÓRICO

Ter noção do quadro histórico e cultural em que se insere a obra. É indispensável que se tenha noção da inserção histórica da obra e de suas relações com a época, seja uma obra de literatura ou de humanidades em geral.

7. AUTODISCIPLINA E CONCENTRAÇÃO

Com o instrumental dado nos seis itens anteriores, o tradutor põe mãos à obra. É um tipo de atividade intelectual que demanda muita concentração, por horas a fio, ao longo de semanas e meses. Requer bastante esforço continuado e disciplina para atender satisfatoriamente às exigências do texto.

8. DECISÃO E RESPONSABILIDADE

Capacidade de tomar decisões, adotar soluções conscientes e poder responder por elas. A responsabilidade do tradutor consiste em ser capaz de explicar a si e a outrem as razões de suas escolhas. Como traduzir envolve escolhas constantes, qualquer eventual alegação de que “É assim que está no original” simplesmente não faria o menor sentido.

9. RELEITURA E REVISÃO

Proceder a constantes releituras e revisões do texto em tradução.Traduzir é uma atividade extremamente dinâmica, e nada garante a priori a qualidade do resultado. Tropeços, deslizes, inconsistências, vaguezas nos afligem constantemente e muitas vezes escapam à nossa atenção. Daí a necessidade de reler e retrabalhar várias vezes o texto traduzido.

10. CALMA E PONTUALIDADE

Tradutores profissionais costumam dispor de prazos estabelecidos pelas editoras. Proficiência linguística, materiais de apoio, boa bagagem geral, dedicação e responsabilidade de pouco adiantam se não respeitarmos prazos e não cumprirmos o combinado com a editora. Mas o mais importante, acima de tudo, é manter a calma. Keep calm and translate on!
 
Revisão do livro Mrs. Dalloway
 
 

16 de ago. de 2014

púchkin tradutor

muito interessante o artigo "púchkin, tradutor de gonzaga", por boris schnaiderman, disponível aqui.

10 de jul. de 2014

prêmio abl de tradução 2014

parabéns a safa jubran pelo prêmio abl de tradução deste ano, com a tradução direta do árabe de e nós cobrimos seus olhos, do egípcio alaa al aswany, publicado pela companhia das letras.

2 de jul. de 2014

noemi jaffe sobre mrs. dalloway

a crítica noemi jaffe cita generosamente meu trabalho em mrs. dalloway, pela l&pm, e comenta também as dificuldades gerais do ofício de tradução, mais ou menos entre os 15,20 e 19,20 min. do vídeo abaixo:




agradeço a sérgio tadeu guimarães pelo link.

lembrando a capinha da edição:



















18 de jun. de 2014

tradução e criatividade

a revista língua portuguesa de junho, n. 104, publicou um artigo chamado o quebra-cabeça da criatividade, disponível aqui.  fui gentilmente entrevistada pela jornalista renata d'elia sobre tradução e criatividade, entrevista esta que resultou numa breve e simpática citação na matéria:



meu ponto, na verdade, não era tanto um "equilíbrio das expectativas" e sim a ideia de que uma tradução "criativa", isto é, não diretamente decalcada do original, pode ser mais "fiel" do que uma tradução demasiado colada a ele. transcrevo abaixo a íntegra de nossa conversa.
Como a criatividade se aplica ao trabalho do tradutor? Há algum tipo de inspiração para quem traduz? Você se lembra de algum caso em que a criatividade ... fez muita diferença em relação a um texto original? 
Se criativo for aquele capaz de lançar mão de certa liberdade interior, intelectual e emocional, para gerar coisas novas e inesperadas, então creio que algum arrojo, destemor mesmo, pode conferir um grau de criatividade a uma tradução. Creio que a gente pode falar em alguma dose de ousadia ou intrepidez.  Pois a grande questão é que somos uma espécie de Houdinis, presos dentro daquela implacável caixa do original no fundo da água, e de alguma maneira temos de conseguir nos desvencilhar e subir à tona com um texto em português, extraído de dentro daquela caixa após mil malabarismos mentais.  
Se há alguma inspiração nisso, é aquela disposição mais especial num dia ou noutro, quando você sente suas faculdades mais aguçadas, quando seu processador mental consegue vasculhar com maior eficiência e rapidez as toneladas de informações meio que adormecidas dentro dele, quando você consegue estabelecer ligações nem sempre muito óbvias, numa relação mais desimpedida entre o original e seu próprio repertório. Aí podem surgir coisas interessantes, que então vão se depositando no texto em português e que aí você vai consolidando e desenvolvendo ao longo do trabalho – mas, retomando a velha duplinha inspiração/ transpiração, há de se transpirar muito para que aquela centelha mais inspirada consiga contagiar todo o texto.  
E veja, muitas vezes uma tradução criativa não significa que ela faça muita diferença em relação ao original; muito pelo contrário, soluções criativas tendem a aproximar mais o texto traduzido ao texto original, a gerar uma maior afinidade entre eles. Pois é um equívoco supor que uma tradução muito colada ao original seja uma boa tradução: pelo contrário, esse servilismo geralmente resulta num decalque sem muito viço, mecânico, inexpressivo. Em suma, essa tradução mais colada ao original é a que, paradoxalmente, costuma ficar mais distante dele, sobretudo em obras literárias. Por isso é preciso um certo arrojo, uma certa coragem – pois sentimos medo, claro: de não captar bem algumas conotações, de errar, de ser meio obtusos – para elaborarmos com alguma desenvoltura outras soluções não tão imediatamente evidentes. 
O que pode acontecer é que muitas editoras mantenham códigos mais ou menos cerrados, em alguns casos impedindo essa maior desenvoltura, esperando algo mais simples ou convencional, em nome de um “leitor médio” abstrato. Mas nem sempre é este o caso, sobretudo em obras de maior densidade literária. Se não tudo, muito depende mesmo é da atenção, do cuidado e da dedicação do tradutor. Nesses casos, sempre haverá o que poderíamos chamar de criatividade, sim.

mais um alerta contra as ervas daninhas da germinal

sebastião ramos osias avisa aqui, na caixa de comentários, que cruzada sem cruz, a tradução de berenice xavier do livro arrival and departure, de arthur koestler, que saiu pelo instituto progresso editorial (i.p.e.) em 1948, teria sido plagiada por "uma tal de juliana borges", em edição publicada pela germinal em 2000, com o título de chegada e partida.




não cheguei a cotejar esses dois títulos, mas não me surpreenderia muito. já denunciei aqui vários casos da infeliz germinal, que utiliza os nomes de wilson hilário borges, juliana borges, felipe padula borges e vera lúcia rodrigues, respectivamente o dono (agora finado) da editora, sua filha, seu sobrinho e sua companheira, em traduções que não passam dos mais vulgares plágios escancarados de antigas traduções.

o catálogo da germinal cadastrado na fbn consta de 33 títulos, entre eles quinze obras traduzidas. são elas, com os respectivos nomes que assinam as traduções:

arthur koestler, ladrões na noite (juliana borges)
arthur koestler, o iogue e o comissário (não descobri)
arthur koestler, chegada e partida (juliana borges)
saul bellow, a vítima (juliana borges)
james agee, morte na família (juliana borges)
isaac b. singer, o escravo (juliana borges)
gustave glotz, história econômica da grécia (vera lúcia rodrigues)
ivan goncharov, oblomov (juliana borges)
ignazio silone, a semente sob a neve (wilson hilário borges)
sinclair lewis, o nobre senhor kingsblood (juliana borges)
hermann broch, os sonâmbulos (wilson hilário borges)
g. k. chesterton, o homem que foi quinta-feira (vera lúcia rodrigues)
d. h. lawrence, mulheres apaixonadas (felipe padula borges)
fenimore cooper, o último dos moicanos (vera lúcia rodrigues)
gustave flaubert, salambô (não descobri)
luigi pirandello, a excluída (wilson hilário borges)

após a morte de wilson hilário borges, vera lúcia rodrigues assumiu o controle da editora e doze desses títulos traduzidos continuam a constar no catálogo da casa, aqui.

o crítico literário alfredo monte, aliás, desde 2004 denunciou os plágios de mulheres apaixonadas, de d.h. lawrence, e d'os sonâmbulos, de hermann broch, em memorial do caso germinal. veja aqui.

também em 2004, euler da frança belém, do jornal opção de goiânia, denunciou o plágio de oblomov na mesma editora. veja aqui.

suélen bortolo, por sua vez, em 2012 avisou que a semente sob a neve, de ignazio silone (germinal, 2001), com tradução em nome de wilson hilário borges, é praticamente idêntica à edição que saiu pela brasiliense em 1947, em tradução de eglantina santi.

  • para o caso de oblomov, de goncharov, veja-se aqui;
  • para o caso de d. h. lawrence, com mulheres apaixonadasaqui;
  • para hermann broch, com os sonâmbulosaqui;
  • para o homem que foi quinta-feira, de chesterton, aqui;
  • para isaac b. singer e o escravoaqui.

encaminhei ao ministério público um pedido de representação contra a editora em 2010, com um vasto dossiê demonstrando as fraudes. o mp determinou a instauração de um inquérito policial para apurar os fatos.


em 2011, fui ouvida na delegacia aqui em registro, confirmei nomes, fatos e provas, e o inquérito seguiu seu andamento. ainda tentei acompanhar o andamento por algum tempo, para saber se o ministério decidiria ingressar com ação contra a editora. infelizmente, não sei dizer em que pé se encontra hoje em dia.

de todo modo, fica reiterado o alerta contra tais edições inescrupulosas.


17 de jun. de 2014

ivanhoé

Anno Litterario de 1905


almanaque brasileiro da garnier, 1907

por que me aferrar a walter scott, a "d'avellar" e a detalhes do catálogo da h. garnier aparentemente insignificantes de mais de cem anos atrás? nessa crônica que venho esboçando, o quadro geral é composto por três linhas de força principais: 1. a trajetória de uma das mais importantes editoras do país, a garnier; 2. a relativa estagnação econômica nas décadas finais do século 19 e na virada do século 20; 3. a lei dos direitos autorais de 1898.

assim, uma importante editora de repente se vê acéfala, perdendo seu proprietário que exercia gestão direta de seus negócios, em meio à crise política que se segue à implantação da república, é transferida para um sucessor ainda mais idoso do que o falecido, desde sempre morador em paris, com seus próprios assuntos e negócios a cuidar, o qual envia um gerente francês para assumir a editora, o qual desconhece o brasil e a língua e contrata um gerente regional, isso em meio a uma estagnação econômica geral e o encarecimento das tarifas de importação, seja de livros, seja de papel - e perante a entrada em vigor de uma legislação referente aos direitos autorais que passa a inviabilizar uma prática secular, qual seja, a utilização brasileira de traduções cujos direitos pertencem a casas editoriais estrangeiras (portugal, sobretudo), opção, aliás, já dificultada pelo alto custo do papel importado. continua a ser mais barato imprimir as edições nacionais no exterior, em paris, sobretudo. porém, o uso de traduções portuguesas para as edições nacionais se torna inviável devido à nova lei autoral. além disso, a concorrência ameaça: a laemmert assume o posto de principal editora e livraria no brasil, até então ocupado pela b.-l. garnier. o finado garnier já sabia disso; desde 1891, antes de falecer, já tentava vender a empresa, sem conseguir.

daí, a meu ver, o esforço de manter um catálogo, de manter um mínimo de atividade editorial - pois hyppolite, o idoso irmão sucessor que herdou a b.-l. garnier, preferira antes investir na reforma da livraria, não da editora. a parte editorial, mais lenta, passa a retomar alguma atividade maior já no século 20 - como, porém? trazendo autores inéditos no país em formato de livro, como edgar allan poe, alardeando ser "traducção brasileira" (assim, em aparente obediência à nova lei autoral), porém simplesmente reproduzindo traduções portuguesas do século anterior. é interessante notar, a propósito, que as primeiras edições de walter scott no catálogo da h. garnier, a partir de 1905, não trazem créditos de tradução. é apenas a partir de 1907, 1908 que passa a aparecer o nome de "k. d'avellar" ou "r. d'avellar" - suspeito que devido a algum tipo de pressão, seja dos concorrentes, seja dos clientes, seja de quem fosse.

foi o pior dos caminhos. o gerente brasileiro saiu da h. garnier em 1906, poucos anos depois de ser contratado. a partir daí se intensificam os lançamentos de walter scott, de balzac e outros autores estrangeiros.

16 de jun. de 2014

walter scott, anúncios

anúncios no jornal correio da manhã:

04 de julho de 1906



14 de setembro de 1906



12 de maio de 1909





walter scott, anúncio

no correio paulistano de 10 de março de 1907, temos o anúncio de chegada à livraria de nada menos que quatro obras de walter scott pela h. garnier:


o anúncio se manteve durante dez dias seguidos, até 19 de março, e depois por mais dez dias salteados em abril, veja em nossa hemeroteca digital, aqui.


ivanhoé em folhetim

interessante notar que o jornal correio paulistano publicou o ivanhoé inteiro durante 41 edições, em longuíssimos excertos a cada vez, entre 30 de julho e 9 de outubro de 1905, na mesma tradução anônima que saiu naquele ano pela h. garnier:


ver nossa hemeroteca digital, aqui.


o walter scott da h. garnier, II

note-se que ivanhoé foi o primeiro título de walter scott publicado pela h. garnier (1905). já apresentei meu palpite em o walter scott da h. garnier, I, de que se trataria de uma contrafação da tradução portuguesa lançada pela guimarâes & libânio em 1901, mera hipótese de trabalho que teria de ser investigada antes de poder afirmar qualquer coisa com certeza.

aqui as imagens da capa, da página de rosto e da última página de texto de ivanhoé, em sua edição pela livraria garnier, gentilmente enviadas por raquel sallaberry brião, do jane austen em português, a quem agradeço muito:





vale lembrar que a h. garnier deixou de existir em 1911, a partir de então passando a se chamar livraria garnier que, naturalmente, manteve o catálogo da h. garnier e procedeu a várias reedições. a título ilustrativo, vejam-se os dois padrões de edição em capa dura da mesma obra pela h. garnier e pela livraria garnier:




15 de jun. de 2014

o walter scott da h. garnier, I

um autor que vale a pena ser visto no catálogo da h. garnier é walter scott, autor favorito da casa. entre 1905 e 1911, a editora publicou nada menos que catorze volumes (com quinze romances) de scott em sua "collecção dos autores celebres da literatura extrangeira". foram eles:
ivanhoé: romance histórico (tradução anônima, 1905);
kenilworth (tradução anônima, 1906);
os puritanos da escócia (tradução anônima, 1906);
o talisman, ou, ricardo na palestina (tradução anônima, 1906);
waverley (tradução anônima, 1906);
quintino durward (trad. k. d’avellar, 1906);
a prisão d’edimburgo (trad. k. d’avellar, 1906);
a formoza donzella de perth: seguido d'o misanthropo, ou, o anão das pedras negras (1. trad. fauconpret, 2. anônima, 1907);*
o official de fortuna, ou, uma lenda de montrose (tradução anônima, 1908)
guy mannering, ou, o astrólogo (trad. k. d’avellar, 1908);
woodstock (trad. k. d’avellar, 1909);
o mosteiro (trad. k. d’avellar, 1910);
anna de geierstein, ou, a donzella do nevoeiro (trad. k. d’avellar, 1911);
os desposados: novella tirada da historia das cruzadas (trad. k. d’avellar, 1911).



já comentei em vários posts anteriores o problema de contrafações na h. garnier e, de passagem, mencionei a alta frequência com que aparece o nome de "k. d'avellar" ("k. de avelar" e até "r. d'avellar") como tradutor não só de scott, mas também de dickens, balzac e chateaubriand. o que me surpreendeu foi a absoluta falta de qualquer referência a esse nome em qualquer outra fonte que não fossem as edições da h. garnier (em boa parte reeditadas posteriormente pela livraria garnier).

aqui no caso das traduções de walter scott, o interessante é notar que seis delas haviam sido traduzidas entre os anos 1830 e os anos 1850 por caetano lopes de moura (médico baiano que morava em paris e era tradutor contratado pela aillaud para seu catálogo de obras em português, para exportação basicamente para o brasil, pela laemmert), a saber: o talismã ou o ricardo na palestina; os puritanos da escócia; quintino durward; o misantropo, ou o anão das pedras negras; waverley; a prisão de edimburgo. 

parece-me curioso que o título original the black dwarf tenha recebido idêntica tradução na h. garnier, o misanthropo, ou, o anão das pedras negras, ainda mais a tantas décadas e a tantos quilômetros de distância (é de se lembrar que caetano lopes de moura vivia na frança). além dele, temos um subtítulo muito parecido para os desposados na tradução anônima publicada pela portuguesa galhardo & irmãos, de 1837: primeira novella tirada da história das cruzadas. analogamente, a única tradução de ivanhoé que traz o subtítulo de romance histórico, de que tenho notícia, é a publicada pela guimarães libânio em 1901. é difícil crer que essas ocorrências não passem de meras coincidências.

a propósito, um resenhista comenta o lançamento de o talisman em 1906 em termos muito elogiosos, destacando o pleno domínio da prosa e um lavor literário que, a seu ver, não pertencia àquela época e que devia ser bastante anterior. vide na péssima digitalização da brasiliana, disponível aqui.

todos esses indícios levam a crer que poderia ser bastante interessante verificar a procedência das traduções de walter scott publicadas pela h. garnier, fosse anonimamente ou em nome desse misterioso "k. d'avellar".

aqui umas capinhas de época, inclusive das traduções de caetano lopes de moura (pena que não consegui imagem da página de rosto d'o misantropo, onde consta os subtítulo):








* no caso do volume da h. garnier que traz a formoza donzella de perth e o misanthropo, a coisa é tão bizarra que a tradução vem em nome do célebre tradutor francês de walter scott, auguste defauconpret.

11 de jun. de 2014

luto




meus respeitos por wladir dupont.


a família mantém seu blog aberto, aqui.

27 de mai. de 2014

artigos

podem-se encontrar alguns artigos meus sobre a história da tradução no brasil no site da academia.edu, no link aqui.

25 de mai. de 2014

os tomates e a feira

o falecimento de garcía márquez trouxe em sua esteira vários comentários sobre a tradução de sua obra no brasil (inclusive um dele mesmo, coisa penosa, que comentei outro dia aqui).

o interessante - e enriquecedor, sem dúvida, mas também curioso, ao mesmo tempo - é a percepção que parece emanar difusamente de vários comentários: como se tradução fosse uma espécie de pinga-pinga, algo no varejo, que se pega como um tomate na feira e se examina para ver se tem uma pintinha aqui, uma pintinha ali, que se aperta para ver se está firme ou molengato, e assim por diante.

por ocasião da morte de garcía márquez, nas dezenas de comentários nas redes sociais sobre suas obras no brasil, senti falta de uma noção mais "conteudística", mais viva e dinâmica do que é essa coisa chamada tradução. tradução NÃO é o tomate na feira; se for para manter a metáfora, tradução é A FEIRA.

entre outras coisas, tradução é, como diz saramago, o que torna internacional uma literatura nacional; outra coisa que tradução também é, é agente formador de cultura, cultura daquela língua ou país que acolhe e processa em seu interior elementos de outra cultura.

nesse sentido, e voltando a garcía márquez, se um tradutor seu tropeça num gallinazo e acha que é uma galinha, outro se engasga com uma astromélia da qual nunca ouviu falar e imagina que é uma flor inventada pelo autor, e assim por diante, tudo isso pode nos fazer enrubescer ou gargalhar, pode servir de mote para deboche por parte de alguns mais impacientes, seja o que for, mas não passa de uma baciada (ou de simples punhado) de meros faits-divers.

não quero diminuir de maneira nenhuma a importância de apontar erros, lapsos, falhas de tradução em geral para o aprimoramento constante e a consolidação de uma maior sensibilidade do ofício perante o original - quem me conhece, sabe bem qual é meu ponto de vista a respeito.

mas, numa ocasião dessas, tão propícia a uma espécie de avaliação ou balanço do vulto literário de garcía márquez, muito mais interessante, a meu ver, seria procurar entender de maneira mais ampla e mais concreta sua presença no brasil por intermédio da tradução: não se deter na pintinha do tomate, mas enxergar o movimento da feira.

sobre as traduções de garcía márquez no brasil, veja aqui.

drummond em ritmo de tradução II

outra bela contribuição de emmanuel santiago - drummond e o ofício de tradução:


SONETOS HEREDIANOS

II

A concha de Heredia encanta e contagia
o brasílio Parnaso. O verbo alexandrino
reluz em facho de ouro, e a noite se faz dia
por artes do cantor e seu sabor ladino.

Ingrato, o nosso idioma, e por isso mais fino
o triunfo verbal que ao público extasia:
vulva 'frêle et navrée', num lance cristalino,
expõe-se, esplendorosa, em sua plena magia.

Palmas ao tradutor, esforçado xavante,
guarani culto e sábio ou famoso tupi,
mestre no deglutir, em quarteto e terceto,

o sol, o sal, a cor que iguais eu nunca vi,
embora nosso herói se confesse ofegante,
depois de haver parido um alheio soneto.

ANDRADE, Carlos Drummond. In: "Amar se aprende amando"


drummond em ritmo de tradução I

bela contribuição de emmanuel santiago - poema de drummond descrevendo o ofício:


SONETOS HEREDIANOS

I

Era bom traduzir os sonetos de Herédia
a poder de martelo, altas horas da noite.
No suplício da forma um sabor de comédia
testará o animal que na treva se acoite.

O desfecho (in)feliz envolve-se na média
de galas esmagadas. Qualquer um que se afoite
nos meandros do 'mot' há de soltar as rédeas
ao cavalo interior, carente de pernoite.

A língua, inda sangrando em cacos de palavras
que jamais tornarão à virtude primeira,
pergunta (ou quase que), após servido o chá.

E o bardo, recalcando aporias escravas,
silente se recolhe à furna derradeira.
Ninguém que me responda: Herédia ou Herediá?

ANDRADE, Carlos Drummond de. In: "Amar se aprende amando"


pierre louÿs no brasil

aphrodite foi a primeira obra de pierre louÿs a ser publicada no brasil, em tradução de elias davidovich - tradutor de tão grande importância em nossa história bibliográfico-cultural e o amiguinho de leôncio basbaum que o levou às sendas tradutórias, como comentávamos há pouco, aqui.

o romance saiu pela editora americana em 1931:


a tradução de davidovich será reeditada pela vecchi em 1945 e pela ediouro a partir dos anos 1990, com o subtítulo de romance de costumes antigos.


elias davidovich II

segue uma listagem (incompleta) das traduções de elias davidovich, disponível na wiki, aqui (fiz alguns acréscimos entre colchetes, assinalando db):


Traduções[editar | editar código-fonte]

  • Afrodite (Aphrodite), de Pierre Louÿs, Ediouro, 1991. [na verdade, sai com o título aphrodite em 1931, pela editora americana - db]
  • Uma Vida, Guy de Maupassant, Coleção Clássicos de Bolso, Ediouro Publicações. idem, americana, 1931 - db]
  • Fernão de Magalhães: história da primeira circumnavegação, Stefan Zweig. Editora Guanabara, 1938/ Editora Delta, 1956 (Obras completas de Stefan Zweig, volume 11, tomo XI)
  • Freud e Tolstoi, Stefan Zweig. Editora Guanabara Koogan, 1935.
  • Obras completas de Sigmund Freud, Editora Delta [como coordenador da coleção - db; são vários tradutores]
  • Galeria Delta de Pintura Universal, Marco Valsecchi (diretor). Rio de Janeiro: Editora Delta, 1974,
  • August Forel: Memórias. Biografia. Porto Alegre: Globo, 1985.
  • Rudin (Rudin), Ivan Turgueniev [Flores e Mano, 1932 - db]
  • A Luta pela paz, Golda Meir. Editora Delta, 1965.
  • Manon, Abade Prévost. Rio: Coleção Benjamim Costallat, 1934. [1933 - db]
  • Três paixões, Stefan Zweig; tradução de Odilon Gallotti & Elias Davidovich. Porto: Livraria Civilização. Editora Delta (Obras completas de Stefan Zweig, volume 5, tomo XVI) [Guanabara, 1942, db]
  • Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Trad. revista por Elias Davidovich. Rio de Janeiro, Guanabara, 1936 [tradução portuguesa - db]
  • Ensaio sobre o burguês, de Fiódor Dostoiévski. Rio de Janeiro, Pongetti, s/d.
  • Os pobres diabos, de Fiódor Dostoievski. Rio de Janeiro, Flores e Mano, 1932.*
  • O tyrano, de Fiódor Dostoiévski. Ed. Americana (Calvino Filho), 1933. Reeditado como "O Vilarejo". São Paulo: Global Editora, 1984, Coleção Magias.
  • Caleidoscópio, Stefan Zweig. Editora Delta (Obras completas de Stefan Zweig, volume 6, tomo VI)
  • O Momento Supremo, Stefan Zweig. (Trad. de Medeiros e Albuquerque, Odilon Gallotti e Elias Davidovich). Editora Delta (Obras completas de Stefan Zweig, volume 13, tomo XIII)
  • Jeremias, Stefan Zweig. Editora Delta (Obras completas de Stefan Zweig, volume 16, tomo XX)
  • O Talmud essencial, Adin Steinsaltz, Editora A. Koogan, 1989
  • Os Vegetarianos do Amor (I vegetariani dell'amore), Dino Segri Pitigrilli. Rio de Janeiro: Arturo Vecchi & Freitas Bastos, 1932.
  • A casa de Rothschild, Egon Conte Corti. Rio de Janeiro: Editôra Vecchi, 1948, Coleção Vidas Extraordinárias.
  • Ultraje ao pudor (Oltraggio al pudore), Dino Segri Pitigrilli. Rio de Janeiro: Arturo Vecchi & Freitas Bastos, 1930.
  • Ofício de marido (Il mestiere di marito), Lúcio D’Ambra. Rio de Janeiro: Editora Vecchi, 1939. Coleção Romances, trilogia “Os Romances da Vida a Dois”, nº 1.
  • Profissão de Esposa (La professione di moglie), Lúcio D’Ambra. Rio de Janeiro: Editora Vecchi, 1940. Coleção Romances, trilogia “Os Romances da Vida a Dois”, nº 2.
  • Accuso! (J’accuse), Emile Zola. Calvino Filho, editor. 1934.
  • Casamento Secreto, Dyvonne, Editora Americana, 1930, Coleção Biblioteca Feminina.
  • A Sarracena (La Sarrasine), de Germaine Acremant, volume 161 da Coleção Biblioteca das Moças, da Companhia Editora Nacional. Apenas uma edição, em 1956 .
  • Diagnóstico fisico (Physical diagnosis), Richard Clarke Cabot & F. Denette Adams. Guanabara, 1943.
  • Penicilinoterapia (Penicillin therapy), John Albert Kolmer. Gertum Carneiro, 1945. Pref. Raymundo Moniz de Aragio.
  • Novas confissões de um médico de senhoras (The bond between us; the third component), Frederic Morris Loomis. Editora Globo, 1944.
  • Minha vida e meus amores (My life and loves), Frank Harris. Meridiano, 1943.
  • Duplo assassinato na Rua Morgue, Edgar Allan Poe. Guanabara, s.d.
* aqui é dada como tradução feita diretamente do russo, mas duvido. ele mesmo declarava desconhecer o russo.

acrescentem-se :
a luta contra o câncer, de enrico giupponi, pela vecchi, 1941
roudine, de tourgueneff, pela vecchi e freitas bastos, 1932
werther, de goethe, collecção bejamin costallat, 1932
a gondola das chimeras, maurice dekobra, vecchi e freitas bastos, 1933
a machina de ler pensamentos, de andré maurois, pela vecchi, 1939
o amor, de michelet, pela j. leite, 1932
o principe, de nicholas [sic] machiavel, calvino filho, 1933
os grandes problemas da medicina contemporânea, de pasteur valéry-radot, pela vecchi, 1937
alberta, de pierre benoit, pela vecchi, 1938
o traumatismo do nascimento, de otto rank, pela livraria marisa, 1934
graphologia, de crépieux-jarmin, pela flores e mano, 1936
a visão do propheta (Jeremias). guanabara, s/d


a título de curiosidade, uma resenha bastante negativa de mário de andrade sobre um livro de contos escritos por davidovich, uns homens que eram deuses, de 1939, aqui


veja também um interessantíssimo depoimento de elias davidovich aqui.