30 de set. de 2008

posts de 10 a 30 de abril de 2008



mestre bosi

A carta-denúncia de Denise Bottmann revelou a existência de uma ação editorial lesiva não aos nomes de ilustres tradutores de obras clássicas para o Português como também à integridade mesma da vida intelectual no Brasil.

É dever imperioso de todos nós, escritores e leitores, associar-nos a essa justa reivindicação.Alfredo Bosi

Professor de Literatura Brasileira - USP
Membro da Academia Brasileira de Letras

um apelo sério e sincero

reproduzo aqui a cartinha que comecei a enviar para docentes, pesquisadores, intelectuais em geral.


com certeza os srs. estão a par da recente movimentação dos tradutores em defesa do patrimônio cultural do país, sabidamente constituído em grande parte por traduções de obras de alcance universal, as quais muito contribuíram e continuam a contribuir para que possamos nos sentir cidadãos do mundo, para que possamos até mesmo estabelecer nossos próprios cânones lingüísticos e literários.

os srs. certamente estão a par também dos vários atentados praticados contra este patrimônio, sendo o mais espetacularmente realizado e sobejamente demonstrado aquele perpetrado pela editora nova cultural nos últimos 13 anos.

a uma reflexão um pouco mais detida, naturalmente poderão surgir inúmeras razões que explicam, justificam, pavimentam e aplainam o caminho para esse estado de descalabro.

deixemos, porém, essa reflexão a quem couber.

o que cumpre a nós é proceder àquele pequeno gesto do menino colocando seu dedo no orifício da represa.

o que cumpre a nós é tentar deter o avanço dessa maré negra de destruição de nossos esforçados esforços, penadas penas, laboriosos labores para construir um pequeno edifício de referências culturais universais.

o que cumpre a nós é dizer: não foi enrico corvisieri que traduziu madame bovary, não foi fábio alberti que traduziu a divina comédia, não foi mirtes ugeda coscodai que traduziu ana karênina. e sim: fui eu, ivo barroso, que traduzi iluminações, fui eu, jório dauster, que traduzi lolita, fui eu, paulo bezerra, que traduzi crime e castigo.

e isso significa dizer, e cada um de nós dizer, a sós e em uníssono: quem traduziu iluminações foi ivo barroso, quem traduziu lolita foi jório dauster, quem traduziu crime e castigo foi paulo bezerra.

e isso significa que cada intelectual, cada docente, cada pesquisador, cada estudante deste país deverá dizê-lo com todas as letras, deverá colocar em seu estudo, em seu artigo, em sua tese, em sua monografia, em seu trabalho do semestre, a devida, pura, nua, singela informação: quem, como tradutor, trouxe essa obra ao seu alcance.

não só por uma questão de obrigação, ou porque assim manda a lei, ou porque assim pareceria "mais caprichado", mas porque é assim que é, e porque apenas falando a verdade poderemos deter a mentira.

caros docentes, pesquisadores e discentes: respeitem o tradutor, respeitem a obra que lêem em vernáculo, respeitem a verdade, respeitem a dignidade vossa, nossa, de todos nós: cuidem do texto, cuidem das citações, cuidem das referências bibliográficas.

cuidem da cultura e do país.

obrigada,
denise bottmann
http://assinado-tradutores.blogspot.com/

o retrato de dorian gray


Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray (trad. Oscar Mendes, cedida para o Círculo do Livro por cortesia da José Aguilar), pp. 142-43:

No estranho romance de Lodge, Uma Margarida da América, conta-se que nos aposentos da rainha podiam ser vistas "todas as mulheres castas do mundo, olhando-se através de espelhos polidos de crisólitos, carbúnculos, safiras e esmeraldas, engastados na prata". Marco Polo observou que os habitantes de Cipango (1) colocavam pérolas cor-de-rosa na boca dos mortos. Um monstro marinho enamorou-se da pérola que um mergulhador tinha vendido ao Rei Peroz, matou o ladrão e chorou durante sete luas a sua perda. Procópio nos conta que, quando os hunos levaram o rei à beira do grande precipício, atirou ele a pérola lá dentro e nunca mais ela foi encontrada, embora o Imperador Anastácio tivesse oferecido quinhentas toneladas de peças de ouro* a quem a encontrasse. [...]

(1) Nome que os escritores da Idade Média, entre os quais Marco Polo, davam ao Japão. (N. do E.)
Eduardo II deu a Piers Gaveston uma coleção** de armaduras de ouro vermelho, marchetadas de jacintos, um colar de rosas de ouro cravejado de turquesas e um elmo semeado de pérolas. [...] Que estranha*** existência a de outrora! Quanta magnificência na pompa e no adorno! A simples leitura e descrição daquele luxo desaparecido ainda eram maravilhosas.

Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray ("trad." Enrico Corvisieri, Nova Cultural), pp. 144-45:

No estranho romance de Lodge, Uma Margarida da América, conta-se que nos aposentos da rainha podiam ser vistas "todas as mulheres castas do mundo, olhando-se através de espelhos polidos de crisólitos, carbúnculos, safiras e esmeraldas, engastados na prata". Marco Polo observou que os habitantes de Cipango (Japão) colocavam pérolas cor-de-rosa na boca dos mortos. Um monstro marinho apaixonou-se pela pérola que um mergulhador vendera ao Rei Peroz, matou o ladrão e chorou durante sete luas a sua perda. Procópio nos relata que, quando os hunos levaram o rei à beira do grande precipício, atirou ele a pérola lá embaixo e ela nunca mais foi encontrada, embora o Imperador Anastácio tivesse oferecido quinhentas toneladas de peças de ouro* a quem a encontrasse. [...]

Eduardo II deu a Piers Gaveston uma coleção** de armaduras de ouro vermelho, marchetadas de jacintos, um colar de rosas de ouro cravejado de turquesas e um elmo semeado de pérolas. [...] Que estranha*** existência a de antigamente! Quanta magnificência na pompa e no adorno! A simples leitura e descrição daquele luxo desaparecido ainda eram maravilhosas.

curiosa reprodução dos equívocos de tradução:

* "Emperor Anastasius offered five hundred-weight of gold pieces for it."

** "a suit of red-gold armour"
*** "How exquisite life had once been!"

imagem: dorian gray, penguin.ca


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

a mulher de trinta anos, duplo plágio

Honoré de Balzac, Mulher de trinta anos (trad. José Maria Machado,* Clube do Livro)

3. Aos trinta anos (p. 129):
Desde esse momento, penetraram nos céus do amor. O céu e o inferno são dois grandes poemas que formulam os dois únicos pontos sobre os quais gira nossa existência: a alegria ou a dor. O céu não será sempre uma imagem do infinito dos nossos sentimentos, que só se poderá pintar nos seus detalhes, porque a felicidade é uma só, e o inferno não representa as infinitas torturas das nossas dores, de que podemos fazer uma obra de poesia, porque são todas dessemelhantes?

Honoré de Balzac, A mulher de trinta anos ("trad." Enrico Corvisieri, Nova Cultural - 1995)

3. Aos trinta anos (p. 95):
Desde esse momento, penetraram nos céus do amor. O céu e o inferno são dois grandes poemas que formulam os dois únicos pontos sobre os quais gira a nossa existência: a alegria ou a dor. O céu não será sempre uma imagem do infinito dos nossos sentimentos, que só se poderá pintar nos seus detalhes, porque a felicidade é uma só? E o inferno não representa as infinitas torturas das nossas dores, de que podemos fazer uma obra de poesia, porque são todas dessemelhantes?

Honoré de Balzac, Mulher de trinta anos (trad. José Maria Machado, Clube do Livro)

3. Aos trinta anos (pp. 130-1):
Inclinaram-se ao mesmo tempo para verem uma dessas majestosas paisagens cobertas de neve, de geleiras, de sombras pardacentas que tingem as faldas de montanhas fantásticas; um desses belos quadros cheios de bruscas oposições entre os tons negros e vermelhos que o firmamento apresenta antes que o sol se esconda de vez. Nesse momento, os cabelos de Júlia tocaram no rosto de Vandenesse: ela sentiu este ligeiro contato, estremeceu violentamente; e ele ainda mais; porque ambos tinham chegado gradualmente a uma dessas crises inexplicáveis em que a alma comunica aos sentimentos uma tão fina percepção que o mais fraco choque faz verter lágrimas, se o coração está entregue à tristeza, ou lhe dá prazeres inefáveis, se está perdido nas vertigens do amor. Júlia apertou quase involuntariamente a mão do seu amigo. Essa pressão persuasiva deu coragem à timidez do amante. As alegrias do momento e as esperanças do futuro, tudo se fundiu numa comoção, a da primeira carícia, do casto e modesto beijo que a senhora d'Aiglemont deixou depor-lhe na face. Quanto mais insignificante é o favor, mais forte e perigoso se torna. Para desgraça de ambos, não havia aí nem dissimulação nem falsidade. Foi a concordância de duas belas almas, separadas por tudo o que é lei, reunidas por tudo o que é sedução na natureza. Nesse momento, entrou o general d'Aiglemont.

Honoré de Balzac, A mulher de trinta anos ("trad." Enrico Corvisieri, Nova Cultural - 1995)

3. Aos trinta anos (pp. 95-6):
Inclinaram-se ao mesmo tempo para verem uma dessas majestosas paisagens cobertas de neve, de geleiras de sombras pardacentas que tingem as faldas de montanhas fantásticas. Um desses belos quadros cheios de bruscas oposições entre os tons negros e vermelhos que o firmamento apresenta antes que o sol se esconda de vez. Neste momento, os cabelos de Júlia tocaram no rosto de Vandenesse: ela sentiu este ligeiro contato, estremeceu violentamente, e ele ainda mais, porque ambos tinham chegado gradualmente a uma dessas crises inexplicáveis em que a alma comunica aos sentimentos uma tão fina percepção, que o mais fraco choque faz verter lágrimas se o coração está entregue à tristeza, ou lhe dá prazeres inefáveis se está perdido nas vertigens do amor. Júlia apertou quase involuntariamente a mão do seu amigo. Essa pressão persuasiva deu coragem à timidez do amante. As alegrias do momento e as esperanças do futuro, tudo se fundiu numa comoção, a da primeira carícia, do casto e modesto beijo que a senhora d'Aiglemont deixou depositar-lhe na face. Quanto mais insignificante é o favor, mais forte e perigoso se torna. Para desgraça de ambos, não havia aí nem dissimulação nem falsidade. Foi a concordância de duas belas almas, separadas por tudo que é lei, reunidas por tudo que é sedução na natureza. Neste momento, entrou o general d'Aiglemont.


Curiosamente, dentro da própria Nova Cultural, a mesma "tradução" que fora apropriada de José Maria Machado e atribuída a Enrico Corvisieri em 1995 foi reeditada na íntegra em 2003, com o crédito da "tradução" em nome de Gisele Donat Soares. A saber:

3. Aos trinta anos (p. 94):
Desde esse momento, penetraram nos céus do amor. O céu e o inferno são dois grandes poemas que formulam os dois únicos pontos sobre os quais gira a nossa existência: a alegria ou a dor. O céu não será sempre uma imagem do infinito dos nossos sentimentos, que só se poderá pintar nos seus detalhes, porque a felicidade é uma só? E o inferno não representa as infinitas torturas das nossas dores, de que podemos fazer uma obra de poesia, porque são todas dessemelhantes?

3. Aos trinta anos (pp. 95-6):
Inclinaram-se ao mesmo tempo para verem uma dessas majestosas paisagens cobertas de neve, de geleiras de sombras pardacentas que tingem as faldas de montanhas fantásticas. Um desses belos quadros cheios de bruscas oposições entre os tons negros e vermelhos que o firmamento apresenta antes que o sol se esconda de vez. Neste momento, os cabelos de Júlia tocaram no rosto de Vandenesse: ela sentiu este ligeiro contato, estremeceu violentamente, e ele ainda mais, porque ambos tinham chegado gradualmente a uma dessas crises inexplicáveis em que a alma comunica aos sentimentos uma tão fina percepção, que o mais fraco choque faz verter lágrimas se o coração está entregue à tristeza, ou lhe dá prazeres inefáveis se está perdido nas vertigens do amor. Júlia apertou quase involuntariamente a mão do seu amigo. Essa pressão persuasiva deu coragem à timidez do amante. As alegrias do momento e as esperanças do futuro, tudo se fundiu numa comoção, a da primeira carícia, do casto e modesto beijo que a senhora d'Aiglemont deixou depositar-lhe na face. Quanto mais insignificante é o favor, mais forte e perigoso se torna. Para desgraça de ambos, não havia aí nem dissimulação nem falsidade. Foi a concordância de duas belas almas, separadas por tudo que é lei, reunidas por tudo que é sedução na natureza. Neste momento, entrou o general d'Aiglemont.

* como se não bastasse, josé maria machado costumava aparecer como o responsável pelas chamadas "traduções especiais" do clube do livro, geralmente traduções portuguesas anteriores, apenas adaptadas ao português brasileiro. na verdade, essa tradução em nome de josé maria machado é cópia da tradução anônima lançada pela h.garnier em 1914 e depois pela civilização brasileira em 1937.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagem: www.alixnorth.com