30 de set. de 2008

madame bovary


gustave flaubert, madame bovary (trad. araújo nabuco, ed. abril cultural, sob licença da livraria martins editora)

primeira parte, capítulo viii (p. 41):

Ema, ao entrar, sentiu-se envolta numa atmosfera tépida, misto de perfume de flores e de boa roupa, de odor de iguarias e de cheiro de trufas. As velas dos candelabros punham reflexos na baixela de prata; os cristais facetados, embaciados pelos vapores, lançavam uns aos outros pálidas radiações; em toda a extensão da mesa havia uma fileira de ramalhetes e nos pratos de larga cercadura os guardanapos, dobrados em forma de mitra, mostravam pela abertura das dobras um pãozinho de forma oval. As pernas vermelhas das lagostas projetavam-se fora das travessas; magníficas frutas em açafates rendados acastelavam-se acamadas sobre musgo; as codornizes conservavam as pernas; vapores subiam; de calção e meia de seda, gravata branca em tufos, grave como um desembargador, o mordomo passava por entre os ombros dos convivas os pratos já trinchados, e com um movimento de colher servia a cada um o bocado escolhido. Na grande estufa de porcelana com varões de cobre, uma estátua de mulher, vestida até o queixo, olha fixamente para a sala repleta.

gustave flaubert, madame bovary (atrib. enrico corvisieri, ed. nova cultural)

primeira parte, capítulo 8 (p. 61):

Quando entrou, Ema sentiu-se envolta numa atmosfera morna, misto de perfume de flores e de boa roupa, de odor de iguarias e de cheiro de trufas. As velas dos candelabros punham reflexos na baixela de prata; os cristais facetados, embaciados pelos vapores, lançavam uns aos outros pálidas radiações; em toda a extensão da mesa havia uma fileira de ramalhetes e nos pratos de larga cercadura os guardanapos, dobrados em forma de mitra, mostravam pela abertura das dobras um pãozinho de forma oval. As pernas vermelhas das lagostas projetavam-se fora das travessas; magníficas frutas em cestos rendados acastelavam-se acamadas sobre musgo; as codornizes conservavam as pernas; vapores subiam; de calção e meia de seda, gravata branca em tufos, grave como um desembargador, o mordomo passava por entre os ombros dos convivas os pratos já trinchados, e com um movimento de colher servia a cada um o bocado escolhido. Na grande estufa de porcelana com varões de cobre, uma estátua de mulher, vestida até o queixo, olha fixamente para a sala repleta.

gustave flaubert, madame bovary (trad. araújo nabuco, ed. abril cultural, sob licença da livraria martins editora)

segunda parte, capítulo ii (pp. 66-67):

A Sra. Bovary usava então uma gravatinha de seda azul que mantinha direita como uma gargantilha, um colarinho de cambraia encanudado, de modo que a parte inferior do rosto, segundo os movimentos que ela fazia com a cabeça, ora se ocultava dentro da cambraia, ora saía dela suavemente. Foi assim, um junto do outro, enquanto Carlos conversava com o farmacêutico, que eles entraram numa dessas vagas conversações em que o acaso das frases nos conduz a todo instante ao centro fixo de uma simpatia comum. Espetáculos de Paris, nomes de romances, novas quadrilhas, o mundo que eles não conheciam, Tostes, de onde ela viera, e Yonville, onde se achavam tudo examinaram e de tudo falaram até o fim do jantar.

gustave flaubert, madame bovary (atrib. enrico corvisieri, ed. nova cultural)

segunda parte, capítulo 2 (p. 104):

A sra. Bovary usava uma gravatinha de seda azul que mantinha direita como uma gargantilha, um colarinho de cambraia encanudado, de modo que a parte inferior do rosto, segundo os movimentos que ela fazia com a cabeça, ora se ocultava dentro da cambraia, ora saía dela suavemente. Foi assim, um junto do outro, enquanto Carlos conversava com o farmacêutico, que eles entraram numa dessas vagas conversações em que o acaso das frases nos conduz a todo instante ao centro fixo de uma simpatia comum. Espetáculos de Paris, títulos de romances, novas quadrilhas, o mundo que eles não conheciam, Tostes, de onde ela viera, e Yonville, onde se achavam tudo examinaram e de tudo falaram até o fim do jantar.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: wikimedia.

crime e castigo


Dostoiévski, Crime e Castigo (trad. Natália Nunes, Abril Cultural, sob licença de Nova Aguilar, 2 vols.)

Primeira Parte, Capítulo 1 (vol. 1, p. 9):
Nos começos de julho, por um tempo extremamente quente, saía um rapaz de um cubículo alugado, na travessa de S..., e, caminhando devagar, dirigia-se à ponte de K...
Discretamente, evitou encontrar-se com a dona da casa na escada. O tugúrio em que vivia ficava precisamente debaixo do telhado de uma alta casa de cinco andares e parecia mais um armário do que um quarto. A mulher que lho alugara, com refeição completa, vivia no andar logo abaixo, e, por isso, quando o rapaz saía tinha de passar fatalmente diante da porta da cozinha, quase sempre aberta de par em apr sobre o patamar. E todas as vezes que procedia assim sentia uma mórbida impressão de covardia, que o envergonhava e fazia franzir o sobrolho. Estava zangado com a dona da casa e tinha medo de encontrá-la.

Quarta Parte, Capítulo 1 (vol. 2, p. 7):
- Vim vê-lo por dois motivos: primeiro, porque desejava conhecê-lo pessoalmente, pois há algum tempo que ouvi contar coisas muito curiosas e interessantes a seu respeito, e segundo, porque tenho a convicção de que não se negará a prestar-me o seu auxílio num caso que afeta diretamente a sua irmã Avdótia Românovna. Sozinho e sem qualquer recomendação, eu teria probabilidades de ser posto por ela na rua, ao passo que, em conseqüência de certos preconceitos, graças ao seu auxílio, eu conto, pelo contrário, que...
- Não conte com isso – atalhou Raskólhnikov.

Epílogo, Capítulo 2 (vol. 2, p. 311):
Mas aqui começa já uma nova história, a história da gradual renovação de um homem, a história do seu trânsito progressivo dum mundo para outro, do seu contato com outra realidade nova, compleamente ignorada até ali. Isto poderia constituir o tema duma nova narrativa... mas a nossa presente narrativa termina aqui.

Dostoiévski, Crime e Castigo (não consta tradutor, Nova Cultural)

Primeira Parte, Capítulo 1 (p. 9):
Nos começos de julho, por um tempo extremamente quente, saía um rapaz de um cubículo alugado, na travessa de S..., e, caminhando devagar, dirigia-se à ponte de K...
Discretamente, evitou encontrar-se com a dona da casa na escada. O tugúrio em que vivia ficava precisamente debaixo do telhado de uma alta casa de cinco andares e parecia mais um armário do que um quarto. A mulher que lho alugara, com refeição completa, vivia no andar logo abaixo, e, por isso, quando o rapaz saía tinha de passar fatalmente diante da porta da cozinha, quase sempre aberta de par em apr sobre o patamar. E todas as vezes que procedia assim sentia uma mórbida impressão de covardia, que o envergonhava e fazia franzir o sobrolho. Estava zangado com a dona da casa e tinha medo de encontrá-la.

Quarta Parte, Capítulo 1 (p. 261):
- Vim vê-lo por dois motivos: primeiro, porque desejava conhecê-lo pessoalmente, pois há algum tempo que ouvi contar coisas muito curiosas e interessantes a seu respeito, e segundo, porque tenho a convicção de que não se negará a prestar-me o seu auxílio num caso que afeta diretamente a sua irmã Avdótia Românovna. Sozinho e sem qualquer recomendação, eu teria probabilidades de ser posto por ela na rua, ao passo que, em conseqüência de certos preconceitos, graças ao seu auxílio, eu conto, pelo contrário, que...
- Não conte com isso – atalhou Raskólhnikov.

Epílogo, Capítulo 2 (p. 510):
Mas aqui começa já uma nova história, a história da gradual renovação de um homem, a história do seu trânsito progressivo dum mundo para outro, do seu contato com outra realidade nova, compleamente ignorada até ali. Isto poderia constituir o tema duma nova narrativa... mas a nossa presente narrativa termina aqui.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.
imagem: raulla.wordpress.com

os três mosqueteiros

Alexandre Dumas, Os três mosqueteiros (trad. Octávio Mendes Cajado, Ed. Abril Cultural, com licença da Saraiva, 2a. ed., 1971) (pp. 345, 350, 401):

Capítulo XLIII
Mal chegado ao acampamento, o rei, tão ansioso de se ver diante do inimigo, e que, com maiores direitos que o cardeal, compartia do seu ódio contra Buckingham, quis logo fazer todos os preparativos, primeiro para expulsar os ingleses da ilha de Ré, e depois para apertar o cerco da Rochela; no entanto, malgrado seu, retardaram-no as dissensões surgidas entre os senhores de Bassompierre e Schomberg, de um lado, e o Duque de Angoulême, de outro. [...]

Era favorável a conjuntura: os ingleses, que, antes de tudo, precisam de bons víveres para serem bons soldados, só comiam carne seca e biscoitos estragados, e por isso tinham muitos doentes nas fileiras; de mais a mais, o mar, muito revolto nessa época do ano em todas as costas do oceano, metia quase diariamente a pique algum navio [...]

Um homem embuçado apareceu incontinenti e trocou algumas palavras com o cardeal; depois, montou a cavalo e partiu na direção de Surgères, que era também a de Paris.

Capítulo LI
[...] Por melhor que a Rochela estivesse cercada, por mais seguro que parecesse o triunfo, graças às precauções tomadas e, principalmente, ao dique que já não permitia a entrada de nenhuma embarcação na cidade sitiada, o bloqueio, entretanto, poderia durar muito tempo ainda; o que representava para o senhor cardeal que já não precisava, é verdade, indispor Luís XIII com Ana da Áustria, porque já estavam indispostos, mas, pelo contrário, reconciliar o Sr. de Bassompierre com o Duque de Angoulême, que estavam brigados.

Alexandre Dumas, Os três mosqueteiros (atrib. Mirtes Ugeda, ed. Nova Cultural, 2003) (pp. 332, 337, 393):

Capítulo XLIII
Mal chegado ao acampamento, o rei, tão ansioso de se ver diante do inimigo, e que, com maiores direitos que o cardeal, compartia do seu ódio contra Buckingham, quis logo fazer todos os preparativos, primeiro para expulsar os ingleses da ilha de Ré, e depois para apertar o cerco de La Rochelle; no entanto, malgrado seu, retardaram-no as dissensões surgidas entre os senhores de Bassompierre e Schomberg, de um lado, e o Duque de Angoulême, de outro. [...]

Era favorável a conjuntura: os ingleses, que, antes de tudo, precisavam de bons víveres para serem bons soldados, só comiam carne-seca e biscoitos estragados, e por isso tinham muitos doentes nas fileiras; de mais a mais, o mar, muito revolto nessa época do ano em todas as costas do oceano, metia quase diariamente a pique algum navio [...]

Um homem embuçado apareceu incontinenti e trocou algumas palavras com o cardeal; depois, montou a cavalo e partiu na direção de Surgères, que era também a de Paris.

Capítulo LI
[...] Por melhor que La Rochelle estivesse cercada, por mais seguro que parecesse o triunfo, graças às precauções tomadas e, principalmente, ao dique que já não permitia a entrada de nenhuma embarcação na cidade sitiada, o bloqueio, entretanto, poderia durar muito tempo ainda; o que representava para o senhor cardeal que já não precisava, é verdade, indispor Luís XIII com Ana da Áustria, porque já estavam indispostos, mas, pelo contrário, reconciliar o Sr. de Bassompierre com o Duque de Angoulême, que estavam brigados.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.
imagem: umpoucomaisdeazul.blogspot.com

voltaire, contos

Voltaire, Contos (trad. Mário Quintana, Abril Cultural, com licença da Edit. Globo, 1972) (p. 302):


"O Ingênuo", cap. 1:
- Acreditas - dizia a Srta. de Kerkabon - que a nossa cunhada tenha sido devorada pelos iroqueses, como nos disseram? É certo que, se não a tivessem comido, teria voltado à sua terra. Hei de chorá-la toda a vida: era uma mulher encantadora; e nosso irmão, que era bastante inteligente, teria feito uma bela fortuna.
Enquanto assim se comoviam a tais lembranças, viram entrar na baía de Rance uma pequena embarcação que chegava com a maré: eram ingleses que vinham vender alguns gêneros de seu país. Saltaram em terra, sem se preocupar com o senhor prior nem com a senhorita sua irmã, que ficou muito chocada com a desatenção.
Não sucedeu o mesmo com um jovem de excelente compleição, que, saltando por cima da cabeça de seus companheiros, veio cair de pé em frente à senhorita. Cumprimentou-a com a cabeça, pois, pelos modos, não aprendera a fazer reverência. Seu aspecto e sua indumentária atraíram os olhares do irmão e da irmã. Tinha a cabeça descoberta, as pernas nuas, longas tranças, pequenas sandálias, e um gibão que lhe modelava o talhe esbelto; e um ar ao mesmo tempo viril e bondoso. Trazia numa das mãos uma pequena garrafa de água de Barbados, e na outra uma espécie de bolsa na qual havia uma caneca e bolachas.

Voltaire, Contos (atrib. Roberto Domênico Proença, Nova Cultural, 2002) (p. 272):


"O Ingênuo", cap. 1:
- Acreditas - dizia a srta. de Kerkabon - que a nossa cunhada tenha sido devorada pelos iroqueses, como nos contaram? É certo que, se não a tivessem comido, teria voltado à sua terra. Hei de chorá-la toda a vida: era mulher encantadora; e nosso irmão, que era bastante inteligente, teria feito uma bela fortuna.
Enquanto assim se comoviam as tais lembranças, viram entrar na baía de Rance uma pequena embarcação que chegava com a maré: eram ingleses que vinham vender alguns gêneros de seu país. Saltaram em terra, sem se preocupar com o senhor prior nem com a senhorita sua irmã, que ficou muito chocada com a desatenção.
Não aconteceu o mesmo com um jovem de ótima compleição, que, saltando por cima da cabeça de seus companheiros, veio cair de pé em frente à senhorita. Cumprimentou-a com a cabeça, pois não aprendera a fazer reverência. Seu aspecto e seus trajes atraíram os olhares do irmão e da irmã. Tinha a cabeça descoberta, as pernas nuas, longas tranças, pequenas sandálias e um gibão que lhe modelava o corpo esbelto; e um ar ao mesmo tempo viril e bondoso. Trazia numa das mãos uma pequena garrafa de água de Barbados, e na outra uma espécie de bolsa na qual havia uma caneca e bolachas.

Voltaire, Contos (trad. Mário Quintana, Abril Cultural, com licença da Edit. Globo, 1972) (p. 400):


"O homem dos quarenta escudos", cap. 10:
"Que magistrado, um pouco sensível a seus deveres, à simples humanidade, poderia sustentar tais idéias? Poderá ele, na solidão do gabinete, sem fremir de horror e de piedade, lançar os olhos sobre esses papéis, infelizes monumentos do crime ou da inocência? Não lhe parecerá brotarem gementes vozes desses fatais escritos, a instá-lo para decidir da sorte de um cidadão, de um esposo, de um pai, de uma família? Que impiedoso juiz (se for encarregado de um único processo) poderá passar de sangue-frio por diante de uma prisão? - Sou eu então - dirá ele - que mantenho, nessa detestável morada, meu semelhante, talvez meu igual, meu concidadão, um homem enfim!? Sou eu que todos os dias o agrilhôo, que fecho sobre ele essas odiosas portas!? Talvez o desespero se haja apoderado da sua alma; lança aos céus o meu nome, de envolta com maldições; e sem dúvida atesta contra mim o grande Juiz que nos observa e que nos deve julgar a ambos."

Voltaire, Contos (atrib. Roberto Domênico Proença, Nova Cultural, 2002) (pp. 381-82):

"O homem dos quarenta escudos", cap. 10:

"Que magistrado, um pouco sensível a seus deveres, à simples humanidade, poderia sustentar tais idéias? Poderá ele, na solidão do gabinete, sem estremecer de horror e de piedade, lançar os olhos sobre esses papéis, infelizes monumentos do crime ou da inocência? Não lhe parecerá brotarem gementes vozes desses fatais escritos, a instá-lo para decidir da sorte de um cidadão, de um esposo, de um pai, de uma família? Que impiedoso juiz (se for encarregado de um único processo) poderá passar de sangue-frio em frente a uma prisão? - Sou eu então - dirá ele - que mantenho, nessa detestável morada, meu semelhante, talvez meu igual, meu concidadão, um homem enfim?! Sou eu que todos os dias o agrilhôo, que fecho sobre ele essas odiosas portas?! Talvez o desespero se haja apoderado da sua alma; lança aos céus o meu nome, de envolta com maldições; e sem dúvidas atesta contra mim o grande Juiz que nos observa e que nos deve julgar a ambos."

mais notícias sobre este plágio na folha de s.paulo.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagens: www.site-magister.com; www.ilab.org

seis personagens à procura de um autor

este caso é uma tristeza. o espoliado foi um dos maiores nomes do teatro nacional, brutus pedreira, e que esteve também em limite, de mário peixoto.

luigi pirandello, seis personagens à procura de um autor (trad. brutus pedreira; abril cultural, 1981) (p. 454):

A ENTEADA:

Esperem, esperem! Primeiro, a Menina, na fonte!
(Corre para apanhar a Menina, abaixa-se, dobrando os joelhos diante dela e toma-lhe o rostinho entre as mãos.)
Pobre amorzinho meu, você olha, perdida, com esses olhões tão lindos... Quem sabe onde pensa que está? Estamos num palco, minha querida. Que é um palco?... Pois - está vendo? - é um lugar onde se brinca a sério, onde se fazem peças. E nós vamos fazer, agora, uma peça. A sério, sabe? Você também...
(Abraça-a, apertando-a ao peito e embalando-a um pouco.)
Ah, meu amorzinho, meu amorzinho, que peça feia você vai fazer! Que coisa horrível pensaram para você! O jardim, a fonte... É fingida, é claro! O mal é esse, querida, que aqui tudo é fingido! Mas talvez você goste mais de uma fonte fingida do que uma verdadeira, para poder brincar, não é? Para os outros será um jogo, mas não para você, infelizmente, que é uma menina verdadeira, amorzinho, e que brinca de verdade, numa fonte verdadeira, linda, grande, verde, com tantos bambus que fazem sombra, refletindo-se nela, e tantos, tantos patinhos que nadam, quebrando aquela sombra. Você quer agarrar um desses patinhos...

luigi pirandello, seis personagens à procura de um autor (atrib. fernando correa fonseca; nova cultural, 2003) (pp. 358-59):

A ENTEADA:
Esperem! Primeiro, a Menina, na fonte!
(Corre para apanhar a Menina, abaixa-se diante dela e toma-lhe o rostinho entre as mãos.) Pobre amorzinho meu, você olha, perdida, com esses olhões tão lindos... Quem sabe onde pensa que está? Estamos num palco, minha querida. O que é um palco?... Está vendo? É um lugar onde se brinca a sério, onde se fazem peças. E nós, agora, vamos fazer uma peça. A sério, sabe? Você também...
(Abraça-a, apertando-a ao peito e embalando-a um pouco.)
Ah, meu amorzinho, que peça feia você vai fazer! Que coisa horrível pensaram para você! O jardim, a fonte... É falsa, é claro! O mal é esse, querida, que aqui tudo é falso! Mas talvez você goste mais de uma fonte falsa do que uma de verdade, para poder brincar, não é? Para os outros vai ser um jogo, mas não para você, infelizmente, que é uma menina verdadeira, amorzinho, e que brinca de verdade, numa fonte verdadeira, bonita, grande, verde, com tantos bambus que fazem sombra, refletindo-se nela, e muitos patinhos que nadam, quebrando aquela sombra. Você quer pegar um desses patinhos...


agora sem qualquer maquiagem:

luigi pirandello, seis personagens à procura de um autor (trad. brutus pedreira; abril cultural, 1981) (p. 459-60):

O FILHO
(lutando com ele e, por fim, jogando-o ao chão, perto da escadinha, com horror de todos)
Mas que frenesi é esse que lhe deu? Não tem pudor de trazer, diante de todos, a sua vergonha e a nossa? Eu não me presto! Não me presto! E interpreto, assim, a vontade daquele que não quis trazer-nos para a cena!
[seguem-se pequenas frases ipsis litteris]
O FILHO
Foi ele que quis vir, arrastando-nos a todos e prestando-se até a combinar lá, junto com o senhor, não só o que realmente aconteceu, mas, como se não bastasse, o que nunca se passou!...O DIRETOR
Mas diga, diga você ao menos o que se passou! Diga-o a mim! Saiu do seu quarto, sem dizer nada?
[mais algumas pequenas frases dos personagens, também ipsis litteris]
O FILHO (lentamente, olhando para diante de si)
Acudi, precipitei-me para tirá-la de lá... Mas, de repente, parei, porque atrás daquelas árvores vi uma coisa que me gelou: o Rapazinho, o Rapazinho que estava ali, quieto, com olhos de louco, a olhar, na fonte, a irmãzinha afogada.

luigi pirandello, seis personagens à procura de um autor (atrib. fernando correa fonseca; nova cultural, 2003) (pp. 361-63):

O FILHO (lutando com ele e, por fim, jogando-o ao chão, perto da escadinha, com horror de todos)
Mas que frenesi é esse que lhe deu? Não tem pudor de trazer, diante de todos, a sua vergonha e a nossa? Eu não me presto! Não me presto! E interpreto, assim, a vontade daquele que não quis trazer-nos para a cena!
[seguem-se pequenas frases ipsis litteris]
O FILHO
Foi ele que quis vir, arrastando-nos a todos e prestando-se até a combinar lá, junto com o senhor, não só o que realmente aconteceu, mas, como se não bastasse, o que nunca se passou!...
O DIRETOR

Mas diga, diga você ao menos o que se passou! Diga-o a mim! Saiu do seu quarto, sem dizer nada?

[mais algumas pequenas frases dos personagens, também ipsis litteris]

O FILHO (lentamente, olhando para diante de si)

Acudi, precipitei-me para tirá-la de lá... Mas, de repente, parei, porque atrás daquelas árvores vi uma coisa que me gelou: o Rapazinho, o Rapazinho que estava ali, quieto, com olhos de louco, a olhar, na fonte, a irmãzinha afogada.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: limite, www.preceitos.com

o falecido mattia pascal


1. primeiro, uma amostra dos retoques aplicados apenas em começo de parágrafo:

Luigi Pirandello, O falecido Mattia Pascal (trad. Mário da Silva, publicada sob licença da Ed. Civilização Brasileira, Abril Cultural, 1981) (cap. 3, p. 21):

Uma santa mulher, minha mãe! De índole retraída e muito pacata, tinha pouquíssima experiência da vida e dos homens. Ouvindo-a falar, parecia uma criança. Falava em tom fanhoso e ria, também, com o nariz, visto que, todas as vezes, como se tivesse vergonha de rir, apertava os lábios. De compleição muito delicada, andou sempre meio combalida, após a morte de meu pai; mas nunca se queixou de seus males e não creio que se apoquentasse muito por eles, aceitando-os, resignada, como uma conseqüência natural de sua desventura. Talvez contasse que ela também morreria, de dor; devia, portanto, agradecer a Deus, que a mantinha em vida, ainda que infeliz e atribulada, para o bem dos filhos.

Luigi Pirandello, O falecido Mattia Pascal (atrib. Fernando Correa Fonseca, Nova Cultural, 2003) (cap. 3, pp. 18-19):

Uma santa mulher, minha mãe! De temperamento retraído e muito pacata, possuía muito pouca experiência da vida e dos homens. Ouvindo-a falar, parecia uma criança. Falava em tom fanhoso e ria, também, com o nariz, visto que, todas as vezes, como se tivesse vergonha de rir, apertava os lábios. De compleição muito delicada, andou sempre meio combalida, após a morte de meu pai; mas nunca se queixou de seus males e não creio que se apoquentasse muito por eles, aceitando-os, resignada, como uma conseqüência natural de sua desventura. Talvez contasse que ela também morreria, de dor; devia, portanto, agradecer a Deus, que a mantinha em vida, ainda que infeliz e atribulada, para o bem dos filhos.

2. agora parágrafo sem qualquer retoque:

Luigi Pirandello, O falecido Mattia Pascal (trad. Mário da Silva, publicada sob licença da Ed. Civilização Brasileira, Abril Cultural, 1981) (cap. 7, p. 98):

Reli, com expressão feroz e o coração em tumulto, não sei mais quantas vezes, aquelas poucas linhas. No primeiro impulso, todas as minhas energias vitais insurgiram-se violentamente para protestar, como se a notícia, tão irritante em seu impassível laconismo, pudesse ser verdadeira também para mim. Mas, senão para mim, ela era verdadeira para os outros; e a certeza que tinham esses outros, desde a véspera, de minha morte, constituía, contra mim, uma violência intolerável, permanente, esmagadora...

Luigi Pirandello, O falecido Mattia Pascal (atrib. Fernando Correa Fonseca, Nova Cultural, 2003) (cap. 7, p. 88):

Reli, com expressão feroz e o coração em tumulto, não sei mais quantas vezes, aquelas poucas linhas. No primeiro impulso, todas as minhas energias vitais insurgiram-se violentamente para protestar, como se a notícia, tão irritante em seu impassível laconismo, pudesse ser verdadeira também para mim. Mas, senão para mim, ela era verdadeira para os outros; e a certeza que tinham esses outros, desde a véspera, de minha morte, constituía, contra mim, uma violência intolerável, permanente, esmagadora...

interessante notar a reprodução do erro e da curiosa virgulação da tradução original.

interessante também notar que soluções mais marcantes, como "andou sempre meio combalida", "que se apoquentasse muito" etc., que acabam por constituir o sinete da individualidade do tradutor, foram mantidas sem pejo.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: www.liberamenteonline.org

do intrépido cavalheiro dos mares ...


joseph conrad, lord jim (trad. mário quintana, abril cultural, 1982) (I, pp. 11-12):

Fiel como um amigo e cheio de atenções filiais para com o capitão, ele dá mostras, no trato com este, de uma paciência de Jó, do devotamento que se esperaria de uma mulher, e de uma alegria de bom vivedor. Depois do que, envia-se a nota. É um belo ofício, feito de atenta cordialidade, e os bons vendedores marítimos são raros. Quando um vendedor que possui a teoria da Esperteza se encontra assim provido de uma educação de marinheiro, ele vale o seu peso em ouro para o patrão e pode esperar deste todos os favores. Jim ganhava sempre bons ordenados, e os favores que se via dispensar teriam assegurado a fidelidade de um demônio, o que não o impedia, com uma negra ingratidão, de abandonar sem mais nem menos o seu emprego, para mudar-se para outra parte. As razões que dava a seus chefes eram manifestamente insuficientes e provocavam da parte destes esta simples reflexão: "Maldito imbecil!", desde que lhes voltava as costas. Tal era a crítica que despertava a sua excessiva sensibilidade.

joseph conrad, lord jim (atrib.: carmen lia lomônaco, nova cultural, 2003) (I, pp. 9-10):
Fiel como um amigo e cheio de atenções filiais para com o capitão, ele dá mostras, no trato com este, de uma paciência de Jó, do devotamento que se esperaria de uma mulher, e de uma alegria de bon-vivant. Depois do que, envia-se a nota. É um belo ofício, feito de atenta cordialidade, e os bons vendedores marítimos são raros. Quando um vendedor que possui a teoria da Esperteza se encontra assim provido de uma educação de marinheiro, ele vale o seu peso em ouro para o patrão e pode esperar deste todos os favores. Jim ganhava sempre bons ordenados, e os favores que se via dispensar teriam assegurado a fidelidade de um demônio, o que não o impedia, com uma negra ingratidão, de abandonar sem mais nem menos o seu emprego, para mudar-se para outra parte. As razões que dava a seus chefes eram manifestamente insuficientes e provocavam da parte destes esta simples reflexão: "Maldito imbecil!", desde que lhes voltava as costas. Tal era a crítica que causava a sua excessiva sensibilidade.

joseph conrad, lord jim (trad. mário quintana, abril cultural, 1982) (VIII, p. 73):
O "Patna" tinha um longo passadiço onde se encontravam enfileiradas todas as chalupas, quatro de um lado e três do outro. Jim afirmava-me, com o evidente desejo de ser acreditado, que sempre cuidara de ter as embarcações prontas para qualquer emergência.Ele avançou, pois, tropeçando. Tinha de transpor membros, evitar cabeças. Sentiu de repente uma mão agarrar-se às suas calças, enquanto uma voz angustiada se elevava sob o seu cotovelo. A luz da lâmpada tombou sobre um rosto erguido, cujos olhos eram tão suplicantes como a voz. Jim conhecia bastante a língua dos peregrinos para compreender a palavra "água" pronunciada diversas vezes, num tom de súplica e quase desespero. Quis desvencilhar-se, com um repelão, mas sentiu braços agarrados às suas pernas.


joseph conrad, lord jim (atrib.: carmen lia lomônaco, nova cultural, 2003) (VIII, p. 72):
O "Patna" tinha um longo passadiço onde se encontravam enfileiradas todas as chalupas, quatro de um lado e três do outro. Jim afirmava-me, com o evidente desejo de ser acreditado, que sempre cuidara de ter as embarcações prontas para qualquer emergência.Ele avançou, pois, tropeçando. Tinha de transpor membros, evitar cabeças. Sentiu de repente uma mão agarrar-se às suas calças, enquanto uma voz angustiada se elevava sob o seu cotovelo. A luz da lâmpada tombou sobre um rosto erguido, cujos olhos eram tão suplicantes como a voz. Jim conhecia bastante a língua dos peregrinos para compreender a palavra "água" pronunciada diversas vezes, num tom de súplica e quase desespero. Quis desvencilhar-se, com um repelão, mas sentiu braços agarrados às suas pernas.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagens: manhattanrarebooks.literature.com; portugues.istockphoto.com

naná


Emile Zola, Naná (trad. Eugênio Vieira, Círculo do Livro, por cortesia do Círculo de Leitores, s/d), p. 5:

cap. I
Às nove horas a platéia do Théâtre des Variétés estava ainda vazia. Alguns espectadores, no balcão e na orquestra, esperavam, como que tresmalhados por entre as poltronas de veludo vermelho, na branca claridade do lustre a meia-luz. Uma sombra inundava a grande mancha vermelha do pano; e nem um ruído chegava da cena, estando a ribalta às escuras e as estantes dos músicos esbandalhadas. Somente em cima, no galinheiro, em redor da rotunda do teto, onde mulheres e crianças nuas tomavam o seu vôo num céu enverdecido pelo gás, os chamamentos e os risos sobressaíam por entre um alarido contínuo, e cabeças entoucadas ou embarretadas se mostravam, como que dispostas em degraus, sob as largas clarabóias redondas, de molduras douradas. Por momentos aparecia uma funcionária, azafamada, de bilhetes na mão, conduzindo à sua frente um cavalheiro acompanhado de senhora, que se sentavam, o homem de casaca, a senhora elegante e esbelta, passeando o olhar pela sala.


Emile Zola, Naná (atrib. Roberto Valeriano, Nova Cultural, 2003) (p. 7):
cap. I:
Às nove horas a platéia do Théâtre des Variétés estava ainda vazia. Alguns espectadores, no balcão e na orquestra, esperavam, como que tresmalhados por entre as poltronas de veludo vermelho, na branca claridade do lustre a meia-luz. Uma sombra inundava a grande mancha vermelha do pano; e nem um ruído chegava da cena, estando a ribalta às escuras e as estantes dos músicos esbandalhadas. Somente em cima, no galinheiro, em redor da rotunda do teto, onde mulheres e crianças nuas tomavam o seu vôo num céu enverdecido pelo gás, os chamamentos e os risos sobressaíam por entre um alarido contínuo, e cabeças entoucadas ou embarretadas se mostravam, como que dispostas em degraus, sob as largas clarabóias redondas, de molduras douradas. Por momentos aparecia uma funcionária, azafamada, de bilhetes na mão, conduzindo à sua frente um cavalheiro acompanhado de senhora, que se sentavam, o homem de casaca, a senhora elegante e esbelta, passeando o olhar pela sala.


Emile Zola, Naná (trad. Eugênio Vieira, Círculo do Livro, por cortesia do Círculo de Leitores, s/d), p. 248:
cap. X
Então Naná tornou-se uma mulher elegante, usufrutuária da estupidez e da imundície dos homens, marquesa do asfalto das ruas. Aquilo foi uma subida brusca e definitiva, uma subida na celebridade da galantaria, ostentando às claras as loucuras do dinheiro e as audácias lamacentas da beleza. Imperou, imediatamente, entre as mais queridas. As suas fotografias eram expostas nas vitrinas, citavam-na nos jornais. Quando passava, de carruagem, nos bulevares, a multidão voltava-se e nomeava-a com a emoção de um povo que saúda a sua soberana, enquanto ela, familiar, reclinada nos seus trajes flutuantes, sorria com ar alegre, sob a chuva do frisado loiro de seus cabelos, que lhe afogavam o azul bistrado dos olhos e o vermelho pintado dos lábios. E o prodígio foi que aquela jovem gorda, tão desastrada em cena, tão engraçada quando queria fazer-se de mulher honesta, representava na cidade, sem esforço, o papel de mulher encantadora.


Emile Zola, Naná (atrib. Roberto Valeriano, Nova Cultural, 2003) (p. 270):
Cap. X
Então Naná tornou-se uma mulher elegante, usufrutuária da estupidez e da imundície dos homens, marquesa do asfalto das ruas. Aquilo foi uma subida brusca e definitiva, uma subida na celebridade da galantaria, ostentando às claras as loucuras do dinheiro e as audácias lamacentas da beleza. Imperou, imediatamente, entre as mais queridas. As suas fotografias eram expostas nas vitrinas, citavam-na nos jornais. Quando passava, de carruagem, nos bulevares, a multidão voltava-se e nomeava-a com a emoção de um povo que saúda a sua soberana, enquanto ela, familiar, reclinada nos seus trajes flutuantes, sorria com ar alegre, sob a chuva do frisado loiro de seus cabelos, que lhe afogavam o azul bistrado dos olhos e o vermelho pintado dos lábios. E o prodígio foi que aquela jovem gorda, tão desastrada em cena, tão engraçada quando queria fazer-se de mulher honesta, representava na cidade, sem esforço, o papel de mulher encantadora.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: wormbook.addr.com

à dama das borrascosas alturas

emily brontë, o morro dos ventos uivantes (trad. oscar mendes, abril cultural, com licença da ed. globo, 1971) (p. 12):

José rosnou uns sons indistintos lá nas profundezas da adega, mas não deu sinal de aparecimento, de modo que seu patrão desceu a procurá-lo, deixando-me cara a cara com a celerada da cachorra e um par de terríveis peludos cães pastores que com ela exerciam estreita vigilância sobre todos os meus movimentos. Pouco desejoso de entrar em contato com os seus dentes, fiquei quieto, mas, acreditando que eles dificilmente entenderiam insultos tácitos, pus-me infelizmente a piscar os olhos e a fazer caretas para o trio. Alguma expressão de meu rosto irritou tanto a "madame", que ela se enraiveceu de repente e saltou-me para os joelhos.

emily brontë, o morro dos ventos uivantes (atrib. silvana laplace, nova cultural, 2003) (p. 10):

José rosnou alguns sons indistintos lá nas profundezas da adega, mas não apareceu, de maneira que seu patrão desceu a fim de procurá-lo, deixando-me cara a cara com a celerada da cadela e um par de terríveis peludos cães pastores que com ela exerciam estreita vigilância sobre todos os meus movimentos. Pouco desejoso de entrar em contato com os seus dentes, fiquei quieto, mas, acreditando que eles dificilmente entenderiam insultos tácitos, pus-me infelizmente a piscar os olhos e a fazer caretas para o trio. Alguma expressão de meu rosto irritou tanto a "madame", que ela se enraiveceu de repente e saltou-me para os joelhos.

abaixo, o que se pode considerar como tradução original de direito próprio - dispensarei os negritos por razões evidentes.

emily brontë, o morro dos ventos uivantes (trad. rachel de queiroz, círculo do livro, sob licença da record, 1995) (p. 18):
Das profundas da adega, Joseph resmungou indistintamente, mas não deu indícios de que subia; o patrão mergulhou, pois, em sua busca, deixando-me vis-à-vis com a feroz cadela e um casal de mal-encarados e peludos cães de pastor, que com ela partilhavam a ciosa guarda de todos os meus movimentos. Fiquei imóvel, pois não me agradava nada a ideia de lhes entrar em contato com as presas; mas, crente de que não entenderiam insultos mímicos, entreguei-me, infelizmente, ao prazer de piscar e fazer caretas para o trio; algum trejeito que tomou minha cara irritou a dama que, de repente, se enfureceu e me saltou aos joelhos.

emily brontë, o morro dos ventos uivantes (trad. celestino da silva, vecchi, 1967) (p. 9):
José resmungou indistintamente qualquer coisa no interior da adega, mas não deu sinal de sair; tanto assim que o patrão foi ao seu encontro, deixando-me frente a frente com aquela cachorra mal-educada e com um par de horrendos e peludos policiais que a secundavam na ciosa vigilância de todos os meus movimentos. Não tendo nenhum desejo de entrar em contacto com os seus dentes, fiquei quieto: mas, convencido de que eles não compreenderiam os meus tácitos insultos, atrevi-me, infelizmente, a piscar os olhos e a fazer caretas para aquela trinca. Aconteceu que algum aspecto da minha fisionomia irritou de tal modo a cadela que ela foi logo tomada de um acesso de fúria e se atirou sobre os meus joelhos.

o original:
Joseph mumbled indistinctly in the depths of the cellar, but gave no intimation of ascending; so his master dived down to him, leaving me vis-à-vis the ruffianly bitch and a pair of grim shaggy sheep-dogs, who shared with her a jealous guardianship over all my movements.  Not anxious to come in contact with their fangs, I sat still; but, imagining they would scarcely understand tacit insults, I unfortunately indulged in winking and making faces at the trio, and some turn of my physiognomy so irritated madam, that she suddenly broke into a fury and leapt on my knees.  

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.
imagem: br.geocities.com

faz uns 70 anos, sobre "essas tenazes abelhas da internacionalização"

Monteiro Lobato, Traduções, in Mundo da Lua e Miscelânea

"Entre os aspectos novos que o movimento editorial criou nesses últimos tempos cumpre assinalar a fúria tradutora. ... Um dia um editor inteligente teve a idéia de arejar o cérebro dos nossos eternos ledores de escrichadas e ponsonadas. ... Foi com verdadeira avidez que o público se atirou às traduções. ... A novidade era absoluta. ... E, deliciado com tanto novo, o público passou a pedir mais, mais, mais, até que se saturou, ou antes, que os editores saturaram o mercado. Só então os leitores começaram a dar tento ao mérito das traduções. Foi verificando que com a pressa de apresentar novidades os editores descuravam da qualidade, dando inúmeras traduções perfeitamente infames. E o público reclamou... Quanto à reclamação do público, os editores estudaram o caso e verificaram que havia razão na queixa. Traduzir é a tarefa mais delicada e difícil que existe... Ora isso exige que o tradutor seja também escritor - e escritor decente. Mas os escritores decentes ... preferem ... escrever obras originais do que transplantar para o português obras alheias. ... Daí um impasse. Mas o caminho é esse. Os editores têm ... de procurar por todos os meios descobrir bons tradutores. ... Os tradutores são os maiores beneméritos que existem, quando bons; e os maiores infames, quando maus. Os bons servem à cultura humana, dilatando o raio de alcance das grandes obras. ... E, pois, benditos sejam os editores inteligentes que descobrem bons tradutores, e malditos sejam os que entregam obras-primas da humanidade ao massacre dos infames 'tradittores'. "

carta

reproduzo aqui a carta que enviei a centenas de pessoas, alertando sobre os plágios da nova cultural.


Escrevemos para lhes expor um problema e solicitar seu apoio.

Talvez os srs. tenham tomado conhecimento pela imprensa de um certo início de movimentação entre tradutores contra a apropriação indébita de traduções clássicas, feitas por intelectuais já falecidos, de grandes obras da literatura universal.

Sucintamente, trata-se do seguinte:
Um levantamento inicial mostra que mais ou menos 30 obras da grande literatura universal, que haviam sido publicadas na coleção da Abril Cultural, foram reeditadas pela editora Nova Cultural com a substituição dos nomes dos tradutores originais, aparecendo em lugar deles ou nomes de fantasia ou nomes verdadeiros. Essa quantidade de obras corresponde a mais de 60% dos títulos da coleção Obras-Primas da editora Nova Cultural, e destarte parece indicar que não se trata de casos isolados, e sim de uma prática deliberada e sistemática adotada pela referida editora.

O que parece se configurar, portanto, é que a editora de maior visibilidade no país (que muitas pessoas ainda associam à Editora Abril e à extinta Abril Cultural) se apoderou de um patrimônio tradutório do país (pois nossa formação cultural, num país que depende tremendamente do acervo de obras traduzidas para o português, se constrói também e maciçamente sobre essa atividade) e, por razões ignoradas, mas com certeza escusas e que não vêm agora ao caso, eliminou, suprimiu, enterrou e está contribuindo ativamente para que se oblitere a contribuição desses intelectuais portugueses e brasileiros para a constituição de um acervo das grandes obras mundiais traduzidas para o vernáculo. Assim temos que Oscar Mendes, Octavio Mendes Cajado, Mario Quintana, Ligia Junqueira, Hernâni Donato, Silvio Meira, Brenno Silveira, Galeão Coutinho, Porto Carreiro, João Gaspar Simões, entre outros, foram eliminados, suprimidos, excluídos, aniquilados, exterminados, dos créditos de suas respectivas traduções. Pelo andar da carruagem, dentro em breve Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles, Manoel Bandeira também serão banidos dos créditos das traduções... Mesmo que isso não ocorra, de qualquer forma o sumiço já perpetrado é mais do que suficiente para despertar uma imensa indignação entre as pessoas de bem que prezam a parca tradição cultural deste país, construída tão a duras penas.

O fato é tanto mais grave porque, aqui, não são práticas avulsas, motivadas por questões financeiras, de pequenas editoras desacreditadas, como a Martin Claret, e sim partem de uma empresa de grande porte com suposta credibilidade acumulada ao longo de décadas junto ao público brasileiro, a qual certamente se aproveitou de seu prestígio junto aos leitores de boa-fé para impingir como verdade fraudes da mais descabelada grosseria.

Assim, a nosso ver, seria da máxima e mais premente importância que a referida editora devolvesse o que é de direito a quem é de direito, apresentando os devidos créditos de tradução desses grandes clássicos, restituindo a verdade e tratando de recompor esse nosso patrimônio vilipendiado.

Além de dever restituir a verdade, num gesto de decência básica e fundamental, uma atitude pública da Nova Cultural, retratando-se de sua conduta, certamente ajudaria a coibir a continuidade dessa prática inominável e permitiria que a história e a memória da tradução literária neste país deixassem de ser tão brutalmente adulteradas.

Foi por isso que decidimos nos dirigir aos srs., pois temos a certeza de que estarão entre os primeiros a defender nosso patrimônio intelectual e o direito do leitor brasileiro e da sociedade em geral em ter um acesso livre, transparente e de boa qualidade à cultura universal.

Solicitamos encarecidamente seu apoio para obstar essa nefanda devastação em curso e contamos com sua divulgação de nosso protesto entre todos os meios, entidades e instituições culturais que estiverem ao seu alcance. Aproveitamos a oportunidade para convidá-los a visitar nosso blog, onde estão publicadas estas e outras notícias, e onde há um abaixo-assinado para adesão: assinado-tradutores.blogspot.com. Pedimos que, caso concordem, manifestem sua adesão ao referido abaixo-assinado.

Atenciosamente,
Denise Bottmann
assinado-tradutores.blogspot.com

o vermelho e o negro

stendhal, o vermelho e o negro
a. trad. luiz costa lima, editorial bruguera, 1969
b. atrib. maria cristina f. da silva, nova cultural, 2003

a. livro primeiro, cap. III, p. 31:
a visita durou várias horas. o cura convidou para almoçar o senhor appert, que se escusou alegando ter cartas a escrever: êle não desejava comprometer mais ainda seu generoso companheiro. por volta das três horas, êstes senhores foram acabar a inspeção do asilo de mendicidade e voltaram em seguida à prisão. Aí, encontraram à porta o carcereiro, espécie de gigante de seis pés de altura e de pernas arqueadas; sua figura ignóbil tornara-se hedionda por efeito do terror.

b. livro primeiro, cap. III, p. 14:
a visita durou várias horas. o cura convidou para almoçar o sr. appert, que se escusou alegando ter cartas a escrever: ele não desejava comprometer mais ainda seu generoso companheiro. por volta das três horas, estes senhores foram acabar a inspeção do asilo de mendigos e voltaram em seguida à prisão. Aí, encontraram à porta o carcereiro, espécie de gigante de dois metros de altura e de pernas arqueadas; sua figura ignóbil tornara-se hedionda por efeito do terror.

a. livro segundo, cap. IV, p. 324:
não há cem mil escudos de renda nem condecoração alguma que possa lutar contra tal norma de salão. a menor idéia viva parecia uma grosseria. apesar do bom tom, da polidez perfeita, da vontade de ser agradável, o tédio se lia em tôdas as caras. os jovens que vinham apresentar seus cumprimentos, tendo receio de falar de qualquer coisa que provocasse suspeita de pensamento ou de trair alguma leitura proibida, calavam-se depois de algumas palavras bem elegantes sôbre Rossini e sôbre o tempo que fazia.

b. livro segundo, cap. IV, p. 178:
não há 100 mil escudos de renda nem condecoração alguma que possa lutar contra tal norma de salão. a menor idéia viva parecia uma grosseria. apesar do bom-tom, da polidez perfeita, da vontade de ser agradável, o tédio se lia em todas as caras. os jovens que vinham apresentar seus cumprimentos, tendo receio de falar de qualquer coisa que provocasse suspeita de pensamento ou de trair alguma leitura proibida, calavam-se depois de algumas palavras bem elegantes sobre Rossini e sobre o tempo que fazia.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: gamespot.com

cirano de bergerac


a denúncia inicial dessa baixaria foi feita por ivo barroso logo que a nova cultural lançou seu inqualificável fábio m. alberti

edmond rostand, cirano de bergerac
a. trad. carlos porto carreiro, abril cultural, 1976
b. atrib. fábio m. alberti, nova cultural, 2002

a. cena iv (p. 53):
cirano:
alto! alevantado!
- nariz chato, rombudo, arrinco, desnasado
sabei que eu tenho orgulho em semelhante apêndice!
pois, de ter nariz grande um cavalheiro, entende-se
que ele é bravo, polido, afável, liberal,
espirituoso e bom, tal qual eu sou, e tal
qual vos é, vil maroto, ilícito vos crerdes!
essa cara, a que o medo empresta cores verdes,
e esta mão vai buscar acima desse papo,
é tão falta...
[...]
... de brio e sentimento guapo,
de pompa, de saúde e cor amena e clara,
de nariz, afinal como aqueloutra cara...
[...]
que esta bota vos beija abaixo dos quadris.

b. cena iv (p. 56):
cyrano:
alto! alevantado!
- nariz chato, rombudo, arrinco, desnasado
sabei que eu tenho orgulho em semelhante apêndice!
pois, de ter nariz grande um cavalheiro, entende-se
que ele é bravo, polido, afável, liberal,
espirituoso e bom, tal qual eu sou, e tal
qual vos é, vil maroto, ilícito vos crerdes!
esse cara, a que o medo empresta cores verdes,
e esta mão vai buscar acima desse papo,
é tão falta...[...]... de brio e sentimento guapo,
de pompa, de saúde e cor amena e clara,
de nariz, afinal como aqueloutra cara...
[...]
que esta bota vos beija abaixo dos quadris.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

maupassant, uma vida


no caso de uma vida, de guy de maupassant, a edição da nova cultural atribui os créditos de tradução a roberto domênico proença, o mesmo que assinou a apropriação, investigada e denunciada pela folha de s.paulo, dos contos de voltaire traduzidos por mario quintana.

em uma vida, foram refeitos os três parágrafos iniciais. a partir daí, porém, segue-se fielmente a tradução original de ascendino leite.

guy de maupassant, uma vida:
a. trad. ascendino leite, abril cultural, 1985 (livraria martins, 1953)
b. atrib. roberto domênico proença, nova cultural, 2003

a. p. 23:
o último quadro, no entanto, representava um drama. próximo ao coelho, que continuava a comer, via-se um rapaz em posição estendida como se estivesse morto. a jovem contemplava-o, abrindo o seio com uma espada, e os frutos da árvores tinham-se tornado escuros.jeanne já estava a renunciar à compreensão da história quando descobriu num canto da gravura um animalzinho tão microscópico que o coelho, se fosse real, tê-lo-ia comido como uma verdade qualquer. e no entanto era a efígie de um leão.

b. p. 18:
o último quadro, no entanto, representava um drama. próximo ao coelho, que continuava a comer, via-se um rapaz em posição estendida como se estivesse morto. a jovem contemplava-o, abrindo o seio com uma espada, e os frutos da árvores tinham se tornado escuros.jeanne já estava a renunciar à compreensão da história quando descobriu num canto da gravura um animalzinho tão microscópico que o coelho, se fosse real, tê-lo-ia comido como uma verdade qualquer. e no entanto era a efígie de um leão.

a. p. 75:
jeanne sentia deliciosamente o sabor da bruma salgada, penetrando-a até a ponta dos dedos. o mar cobria tudo. no entanto, diante deles, uma coisa cinzenta, confundindo-se com o suave palor da aurora, espécie de nuvens devolutas, pontiagudas e despedaçadas, parecia pousar sobre as ondas.

b. pp. 85-6:
jeanne sentia deliciosamente o sabor da bruma salgada, penetrando-a até a ponta dos dedos. o mar cobria tudo. no entanto, diante deles, uma coisa cinzenta, confundindo-se com o suave palor da aurora, espécie de nuvens devolutas, pontiagudas e despedaçadas, parecia pousar sobre as ondas.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



suave é a noite



Scott Fitzgerald, Suave é a noite

a. tradução de Lígia Junqueira, Abril, 1972
b. atribuição a Enrico Corvisieri, Nova Cultural, 1995



a. 1a. parte. XIX (pp.104-5):
Abe devia partir da Gare Saint-Lazare às onze horas. Estava só, sob a suja cúpula de vidro, relíquia da era do Palácio de Cristal; suas mãos, que tinham a vaga côr acinzentada que só aparece após vinte e quatro horas de vigília, estavam nos bolsos, para esconder a tremedeira. Assim sem chapéu, via-se que seus cabelos sòmente na parte de cima estavam penteados para trás - os de baixo apontavam resolutamente para os lados. Mal se podia reconhecer nêle o homem que nadara na praia do Hotel de Gausse, quinze dias antes.

b. 1a. parte, XIX (p. 88):
Abe devia partir da Gare Saint-Lazare às onze horas. Estava só, sob a suja cúpula de vidro, relíquia da era do Palácio de Cristal; suas mãos, que tinham a vaga cor acinzentada que só aparece após vinte e quatro horas de vigília, estavam nos bolsos, para esconder a tremedeira. Assim sem chapéu, via-se que seus cabelos somente na parte de cima estavam penteados para trás - os de baixo apontavam resolutamente para os lados. Mal se podia reconhecer nele o homem que nadara na praia do Hotel de Gausse, quinze dias antes.

a. 2a. parte, VIII (p. 189):
Foi embora empurrando a bicicleta, sentindo que os olhos de Nicole o seguiam, sabendo que ela sofria com aquêle seu primeiro amor, sabendo que também êle tinha o coração amargurado. Seguiu durante trezentas jardas morro acima, até o outro hotel, e tomou um quarto. Dali a pouco percebeu que se lavava, sem se lembrar do que acontecera nos dez minutos intermediários, a não ser do som de vozes agitadas, vozes sem importância, de pessoas que não sabiam da paixão que êle sentia.

b. 2a. parte, VIII (p. 158):
Foi embora empurrando a bicicleta, sentindo que os olhos de Nicole o seguiam, sabendo que ela sofria com aquele seu primeiro amor, sabendo que também ele tinha o coração amargurado. Seguiu durante trezentos metros morro acima, até o outro hotel, e tomou um quarto. Dali a pouco percebeu que se lavava, sem se lembrar do que acontecera nos dez minutos intermediários, a não ser do som de vozes agitadas, vozes sem importância, de pessoas que não sabiam da paixão que êle sentia.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: capa da edição original, www.sc.edu

carta a departamentos de letras e literatura

bom dia, senhores

dispensarei qualquer arrazoado sobre as características de nossa formação cultural, tão dependente de pontes para o mundo, digamos, da "cultura universal", e sobre a importância das traduções de grandes obras da literatura mundial para nós, brasileiros, feitas, aliás, por renomados intelectuais (portugueses e brasileiros) do passado.

irei direto ao ponto. tem-se evidenciado que a editora nova cultural, em sua coleção obras-primas (montada nos moldes da coleção imortais da literatura, da extinta abril cultural), em vários casos eliminou a correta publicação dos créditos de tradução dessas obras, passando a atribuí-la a outros tradutores, talvez fictícios, talvez existentes.

o que parece se configurar, portanto, é que a editora de maior visibilidade no país (que muitas pessoas ainda associam à editora abril) tomou um patrimônio tradutório do país e, por razões ignoradas, mas com certeza escusas e inaceitáveis, eliminou, suprimiu, enterrou a contribuição desses intelectuais para nosso patrimônio cultural, e está trabalhando ativamente para o esquecimento do papel por eles desempenhado nesse âmbito. assim temos que os nomes de octavio mendes cajado, mario quintana, joão gaspar simões, araújo nabuco, silvio meira, galeão coutinho, porto carreiro, brenno silveira foram eliminados, suprimidos, tirados fora, aniquilados, exterminados, dos créditos de tradução. tal prática não poupou sequer um nome em vida, a saber, hernâni donato.

o fato é tanto mais grave porque, aqui, não são procedimentos avulsos, motivados por questões financeiras, de pequenas editoras desacreditadas, como a martin claret, e sim partem de uma empresa de grande porte com suposta credibilidade acumulada ao longo de décadas junto ao público leitor brasileiro.

desnecessário lembrar que muito provavelmente esses créditos fraudados estão sendo reproduzidos aos milhares em inúmeras teses, dissertações, artigos, papers, trabalhos de curso e assim por diante, se não em todas, pelo menos na maioria das faculdades e institutos universitários de literatura e línguas no brasil, numa rede de distribuição capilar que multiplica exponencialmente a força destrutiva de tal prática.

abaixo transcrevo a listagem da coleção obras-primas.

a coleção é composta por 5 obras em português (portanto sem tradução), 23 obras publicadas com créditos aparentemente corretos de tradução, 23 obras (se incluirmos Irmãos Karamazóvi), cujos falsos créditos de tradução estão destacados em vermelho, e 1 sob suspeita, destacado em verde.

OBS.: ISBN 85-351-0485-2: Dostoievski, Os irmãos Karamazóvi, trad. Enrico Corvisieri (Natália Nunes e Oscar Mendes) – apesar de publicado, foi cancelado da coleção, e seu número dentro dela foi substituído.

Miguel de Cervantes, Dom Quixote, trad. Viscondes de Castilho e Azevedo
Victor Hugo, Os trabalhadores do mar, trad. Machado de Assis
Dante Alighieri, A divina comédia, trad. Fábio M. Alberti (Hernâni Donato)
Dostoievski, Crime e castigo, não consta tradutor (Natália Nunes)
Edmond Rostand, Cyrano de Bergerac, trad. Fábio M. Alberti (Porto Carreiro)
Stendhal, O vermelho e o negro, trad. Maria Cristina F. da Silva (Luiz Costa Lima)
Flaubert, Madame Bovary, trad. Enrico Corvisieri (Araújo Nabuco)
Jane Austen, Razão e sensibilidade, trad. Therezinha Deutsch
Leon Tolstoi, Ana Karênina, trad. Mirtes Ugeda Coscodai (João Gaspar Simões)
Homero, Odisséia, trad. Antonio Pinto de Carvalho
Tommaso di Lampedusa, O leopardo, trad. Leonardo Codignoto (Rui Cabeçadas)
Charles Dickens, Um conto de duas cidades, trad. Sandra Luzia Couto
Bram Stoker, Drácula, trad. Vera M. Renoldi
Euclides da Cunha, Os sertões
Franz Kafka, A metamorfose, trad. Calvin Carruthers (não localizado)
Mark Twain, As aventuras de Tom Sawyer, trad. Luísa Derouet
Choderlos de Laclos, Relações perigosas, trad. Sérgio Milliet
Sinclair Lewis, Babbitt, trad. Leonel Vallandro
Camões, Os lusíadas
Goethe, Fausto e Werther, trad. Alberto Maximiliano (Silvio Meira e Galeão Coutinho, respectivamente)
Voltaire, Contos, trad. Roberto Domenico Proença (Mário Quintana)
Tchecov, As três irmãs, trad. Maria Jacintha
Herman Melville, Moby Dick, trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes, trad. Silvana Laplace (Oscar Mendes)
Machado de Assis, Memorial de Aires e Esaú e Jacó
Daniel Defoe, Moll Flanders, trad. Antônio Alves Cury
Eça de Queiroz, A cidade e as serras
Gogol, Almas mortas, trad. Tatiana Belinky
Boccacio, Decamerão, trad. Torrieri Guimarães
Pirandello, O falecido Mattia Pascal e Seis personagens à procura de autor, trad. Fernando Corrêa Fonseca (Mário da Silva e Brutus Pedreira)
Louise May Alcott, Mulherzinhas, trad. Vera Maria Marques Martins
Virgílio, Eneida, trad. Tassilo Orpheu Spalding
Alexandre Dumas Filho, A dama das camélias, trad. Therezinha Deutsch
Henry Fielding, Tom Jones, trad. Jorge Pádua Conceição (Octavio Mendes Cajado)
Émile Zola, Naná, trad. Roberto Valeriano (Eugênio Vieira)
Shakespeare, Tragédias, trad. Beatriz Viégas-Faria
Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray, trad. Enrico Corvisieri (Oscar Mendes)
Honoré de Balzac, A mulher de trinta anos, trad. Enrico Corvisieri (José Maria Machado)
Edgar Allan Poe, Histórias extraordinárias, trad. Brenno Silveira e outros
Jules Verne, A volta ao mundo em oitenta dias, trad. Therezinha Deutsch
Jonathan Swift, As viagens de Gulliver, trad. Therezinha Deutsch
Alexandre Dumas, Os três mosqueteiros, trad. Mirtes Ugeda Coscodai (Octavio Mendes Cajado)
Ibsen, A casa de bonecas, trad. Cecil Thiré
Joseph Conrad, Lord Jim, trad. Carmen Lia Lomonaco (Mário Quintana)
Henry James, Lady Barberina e A outra volta do parafuso, trad. Leônidas Gontijo e Brenno Silveira
Raul Pompéia, O ateneu
Guy de Maupassant, Uma vida, trad. Roberto Domenico Proença (Ascendino Leites)
Scott Fitzgerald, Suave é a noite, trad. Enrico Corvisieri (Lígia Junqueira)
D. H. Lawrence, Mulheres apaixonadas, trad. Cabral do Nascimento
Walter Scott, Ivanhoé, trad. Roberto Nunes Whitaker (Brenno Silveira)

seu apoio será da máxima importância, e sugestões sobre maneiras de encaminhar o problema serão muitíssimo bem-vindas.

agradeço a atenção,

denise bottmann
dbottmann@uol.com.br

a divina comédia














Divina Commedia

Canto XI
La frode, ond'ogne coscienza è morsa,
può l'omo usare in colui che 'n lui fida
e in quel che fidanza non imborsa.
Questo modo di retro par ch'incida
pur lo vinco d'amor che fa natura;
onde nel cerchio secondo s'annida
ipocresia, lusinghe e chi affattura,
falsità, ladroneccio e simonia,
ruffian, baratti e simile lordura.

Dante, A divina comédia (trad. Hernâni Donato, Abril Cultural, por cessão da Cultrix para a edição de 1979) (p. 57):
Canto XI
"A fraude, seguida por remorso eterno, é praticada traindo-se a confiança conquistada ou tramando danos contra o próximo que confia desprevenido. Quem por este segundo modo ofende a doce lei do amor fraterno, encontra seu castigo no círculo segundo. Ali estão os hipócritas, os aduladores, os falsários, os mistificadores, os rufiões, os simoníacos e outros da mesma laia."

Dante, A divina comédia ("trad." Fábio M. Alberti, Nova Cultural, 2002) (p. 49):
Canto XI
"A fraude, seguida por eterno remorso, é praticada traindo-se a confiança conquistada ou tramando danos contra o próximo que confia. Quem por este segundo modo ofende a doce lei do amor fraterno encontra seu castigo no círculo segundo. Nele se acham os hipócritas, os aduladores, os falsários, os mistificadores, os rufiões, os simoníacos e outros do mesmo jaez."

Original:
Canto XIII
Non era ancor di là Nesso arrivato,
quando noi ci mettemmo per un bosco
che da neun sentiero era segnato.
Non fronda verde, ma di color fosco;
non rami schietti, ma nodosi e 'nvolti;
non pomi v'eran, ma stecchi con tòsco:
(...)
Io sentia d'ogne parte trarre guai,
e non vedea persona che 'l facesse;
per ch'io tutto smarrito m'arrestai.
Cred'io ch'ei credette ch'io credesse
che tante voci uscisser, tra quei bronchi
da gente che per noi si nascondesse.
Però disse 'l maestro: «Se tu tronchi
qualche fraschetta d'una d'este piante,
li pensier c'hai si faran tutti monchi».
(...)
e colsi un ramicel da un gran pruno (...)

Dante, A divina comédia (trad. Hernâni Donato, Abril Cultural, por cessão da Cultrix para a edição de 1979) (pp. 62-63):

Canto XIII
Não havia ainda Nesso chegado à outra margem quando penetramos floresta de tal modo espessa que por trilha alguma era cortada. Não era verde a sua fronde, mas escura; não lisos e sim nodosos os ramos, dos quais não balouçavam frutos, porém farpas venenosas.[...] De todos os lados chegava-me aiar dolorido, mas não alcançava vislumbrar os que assim gritavam. Detive-me, confuso e angustiado. Creio que o guia supôs estivesse eu acreditando procederem os gritos de turba que entre as árvores de nós se houvesse escondido. Pois observou: “Se quebrares ramo dessa fronde, verás que teu pensar não é acertado”. [...] de um galho arranquei um ramo [...]

Dante, A divina comédia ("trad." Fábio M. Alberti, Nova Cultural, 2002) (pp. 56-57):
“Nesso ainda não chegara à outra margem quando adentramos uma floresta de tal modo espessa que por trilha alguma era cortada. Sua fronde não era verde, mas escura; não eram lisos seus ramos, e sim nodosos, e deles pendiam, em lugar de frutos, farpas venenosas” (...)
“Vinha-me de todos os lados o aiar dolorido, mas eu não alcançava deslumbrar os que assim gritavam. Detive-me confuso e angustiado. Creio que o guia supôs estivesse eu acreditando procederem os gritos de tubas, que entre as árvores de nós se houvesse escondido. Ele observou: Se quebrares um ramo dessa dessa fronde verás que teu pensar não é correto”
“Arranquei então o ramo de um galho”(...)

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem na biblioteca vaticana.

o leopardo


(aqui também em parceria com Saulo von Randow Jr.)

Lampedusa, O leopardo, trad. Rui Cabeçadas, Abril Cultural (sob licença da Difel), 1974

Capítulo II – p. 63
Nem uma árvore, nem uma gota de água : sol e poeira. No interior das carruagens, fechadas por causa do sol e do pó, a temperatura havia certamente atingido os cinqüenta graus. Aquelas árvores sedentas, gesticulando sob um céu desbotado, anunciavam muitas coisas: que estavam a menos de duas horas do termo da viagem; que entravam nos domínios da casa Salina; que podiam comer e talvez lavar também o rosto na água infecta dos poços.

Capítulo IV – p. 146
A primeira visita de Angelica à família na qualidade de noiva desenrolou-se segundo uma montagem teatral impecável. A atitude da moça foi a tal ponto perfeita que parecia ter-lhe sido sugerida palavra por palavra por Tancredi (...)
Angelica chegou às seis da tarde, vestida de branco e rosa; as grossas e negras tranças abrigavam-se na sombra de um grande chapéu de palha ainda estival, cujos cachos de uvas artificiais e espigas douradas evocavam discretamente as vinhas de Gibidolce (...)

Capítulo V – p. 195
As origens do padre Pirrone eram rústicas : nascera em San Cono, uma aldeia pequenina que, hoje, graças ao ônibus, é quase uma das "favelas" satélites de Palermo, mas que, há cerca de um século, pertencia, por assim dizer, a um sistema planetário independente, distante como estava, quatro ou cinco horas-carroça, do sol palermitano.

Lampedusa, O leopardo, pretensa tradução de Leonardo Codignoto, Nova Cultural, 2003

Capítulo II – p. 66
Nem uma árvore sequer, nem uma gota de água : sol e poeira. No interior das carruagens, fechadas por causa do sol e do pó, a temperatura havia certamente atingido os cinqüenta graus. Aquelas árvores sedentas, gesticulando sob um céu desbotado, anunciavam muitas coisas: que estavam a menos de duas horas do termo da viagem; que entravam nos domínios da casa Salina; que podiam comer e talvez lavar também o rosto na água infecta dos poços.

Capítulo IV – pp. 162-3
A primeira visita de Angelica à família na qualidade de noiva desenrolou-se segundo uma montagem teatral impecável. A atitude da moça foi a tal ponto perfeita que parecia ter-lhe sido sugerida palavra por palavra por Tancredi (...)
Angelica chegou às seis da tarde, vestida de branco e rosa; as grossas e negras tranças abrigavam-se na sombra de um grande chapéu de palha ainda estival, cujos cachos de uvas artificiais e espigas douradas evocavam discretamente as vinhas de Gibidolce (...)

Capítulo V – p. 219
As origens do padre Pirrone eram rústicas : nascera em San Cono, uma aldeia pequenina que, hoje, graças ao ônibus, é quase uma das "favelas" satélites de Palermo, mas que, há cerca de um século, pertencia, por assim dizer, a um sistema planetário independente, distante como estava, quatro ou cinco horas-carroça, do sol palermitano.

o trocadilho da imagem com o infame decapitamento tradutório de rui cabeçadas demandará explicações? já o infame trocadilho para a invenção do fantasma canibal será exposto em outro post.
p.s. a sherloquice inicial sobre a decapitação de rui cabeçadas se deve a euler de frança belém, do intrépido jornal opção de goiânia. desde 2004 alertava ele: "A segunda tradução, da Nova Cultural, pode não ser plágio da versão de Cabeçadas, mas é muito parecida, senão idêntica".

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: reticenciaseumpontofinal.blogspot.com

historinha edificante para o final de ano


a historinha é a seguinte:

em 21 de agosto de 2002, a veja online divulgou a coleção de obras-primas publicadas pela nova cultural.

a lista divulgada pela veja online é bastante falha, com peculiaridades muito interessantes, mas que não vêm ao caso agora.

o interessante é a atribuição dos créditos de tradução de a metamorfose de kafka, na edição da nova cultural, a "calvin carruthers".

ora, sucede que calvin carruthers era o nome do detetive, personagem do filme de horror classe Z blood and lace (1971), direção de philip s. gilvert, eua, papel desempenhado por vic tayback (que também estrelou alice não mora mais aqui), o qual morreu em 1990, e cujo último filme foi horseplayer (1990), dirigido por kurt voss, no gênero psychothriller.

neste referido filme (horseplayer), também classe Z, vic tayback desempenhou o papel de um personagem chamado, nada mais nada menos, george samsa.

desnecessário lembrar que o nome do protagonista de a metamorfose é gregor samsa.

esse lúgubre puzzle barato criado pela nova cultural e divulgado pela veja online, e impresso certamente em muitas dezenas de milhares de exemplares que foram adquiridos na maior boa-fé pelos pobres leitores brasileiros, é um bom exemplo do espírito cultural da referida indústria cultural encabeçada pela nova cultural neste país.

seria o caso de pedir uma revisão dos significados atribuídos aos vocábulos "cultura" e "cultural" junto aos dicionaristas brasileiros?

boas festas, e sobreviveremos!

ana karênina



(esta descoberta se deveu à colaboração de josé oscar de almeida marques e saulo von randow jr.)

Tolstói, Ana Karênina, trad. João Gaspar Simões. Abril Cultural, 1982

TERCEIRA PARTE
Capítulo V (Volume I), p. 238
Depois do almoço coube a Liêvin ceifar entre um velho trocista, que o convidou a alinhar com ele, e um mujique novo, que se casara no outono e era a primeira vez que ceifava naquele ano.O velho, que se mantinha muito direito, ia adiante, dando grandes passadas rítmicas, com as suas pernas ligeiramente tortas. Graças a um movimento vigoroso e compassado, que não lhe custava mais que balançar os braços em marcha, como se brincasse, amontoava medas altas e uniformes. Dir-se-ia que não era ele, mas apenas a gadanha afiada que cortava a erva suculenta.


Tolstói, Ana Karênina, trad. atrib. a Mirtes Ugeda. Nova Cultural, 2003
TERCEIRA PARTE
Capítulo V, p. 210
Depois do almoço coube a Liêvin ceifar entre um velho zombador, que o convidou a alinhar com ele, e um mujique novo, que se casara no outono e era a primeira vez que ceifava naquele ano.O velho, que se mantinha muito direito, ia adiante, dando grandes passadas rítmicas, com as suas pernas ligeiramente tortas. Graças a um movimento vigoroso e compassado, que não lhe custava mais que balançar os braços em marcha, como se brincasse, amontoava medas altas e uniformes. Dir-se-ia que não era ele, mas apenas a gadanha afiada que cortava a erva suculenta.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: exlibrisalterum.blogspot.com