12 de set. de 2018
as ondas, 1946
incrível - sempre pensei que a primeira (e única) tradução de "as ondas" de virginia woolf no brasil era a de lya luft.
que nada: em 1946, a editora revista dos tribunais publica "as ondas" em tradução de uma desconhecida sylvia valladão azevedo. digo "desconhecida" nos meios editoriais, pois é até nome de rua no guarujá.
o interessante é que foi uma edição não comercial de 150 exemplares, lançada pela RT com autorização da globo de porto alegre, que era a detentora dos direitos de publicação da obra no brasil.
e mais interessante ainda é que foi a globo a primeira a publicar woolf no brasil, começando no mesmo ano de 1946 com "mrs. dalloway", na tradução de mário quintana [em circulação até a data de hoje], e prosseguindo em 1947 com o lançamento de "orlando", na tradução de cecília meirelles [idem idem].
estou agora procurando mais dados a esse respeito, e por enquanto não encontrei grande coisa. mas minha cabeça já começou a especular. p.ex., a globo teria contratado os direitos de tradução e publicação dessas três obras da woolf no brasil como um pacote; publicou "mrs. dalloway" e "orlando", e autorizou a RT a um uso não comercial de "as ondas" - mas jamais lançou "as ondas", seja na tradução da referida sylvia ou em qualquer outra. até aí sabemos [salvo a hipótese da contratação de um "pacote", que é especulação minha], e é tudo documentado. mas, pelo que vi até agora, foi relativamente ou até bastante pequena a repercussão de "mrs. dalloway" na imprensa da época, tanto é que levou décadas para ser reeditada; a de "orlando" não foi muito maior. terá a globo concluído que não valeria a pena lançar um terceiro livro da autora? a que se destinaria o uso não comercial dos 150 exemplares lançados pela RT? brinde para seus clientes, uma encomenda, um balão de ensaio para a própria globo?
devo esse dado interessantíssimo sobre a existência de "as ondas" em português desde 1946 a Thiago Dias da Silva. agora estou na maior curiosidade para conhecer essa edição, ver a capinha, a página de rosto, a declaração de autorização da globo que consta no livro (da qual fui informada também por Thiago).
dados que consegui localizar: sylvia valladão, nascida c.1900, filha do celebrado médico mathias valladão, pertencente à alta sociedade paulistana, casou-se em c.1921 com noé azevedo, advogado de grande fama futura. noé azevedo se tornou em 1923-24 o diretor responsável pela revista dos tribunais - esta, por sua vez, em 1933 passou a operar também como gráfica e a partir de 1955 como editora, atividade que mantém até hoje.
a ligação matrimonial entre sylvia valladão e noé azevedo me parece suficiente para explicar por que sua tradução de as ondas foi publicada pela revista dos tribunais.
veja-se também as ondas, 1946 (cont.), aqui.
atualização: de fato, o projeto da globo era ambicioso, como indica essa nota do diário paulistano, em 30 de junho de 1946, mencionando a intenção da editora em publicar as obras completas de VW. [vale notar que a tradução que seria feita por ligia junqueira nunca foi publicada; a primeira tradução de to the lighthouse que temos no brasil é a de luiza lobo, em 1968, pela gráfica record.]
esse dado, aliás, parece reforçar a plausibilidade da hipótese de um "pacote", acima aventada.
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Oi, Denise! No livro da Sônia Amorim sobre a Globo há um trecho, lá na página 108, que ela coloca:
ResponderExcluir"Assim como arriscou em Aldous Huxley, Henrique Bertaso não teve medo de Virginia Woolf, e publicou dois livros da sofisticada autora inglesa — Orlando e Mrs. Dalloway, literatura para um público iniciado. Marco e desastre. Fracasso nas vendas, prestígio e status à editora". Tenho para mim que foi esse o motivo de não terem publicado o The Waves. Abraços.
tsc, é.... pode bem ser mesmo...
ExcluirCaso esteja interessada, Antonio Bivar elogia (brevemente) a tradução de Sylvia na revista da International Virginia Woolf Society: https://virginiawoolfmiscellany.files.wordpress.com/2014/12/vwm54fall19993.pdf
ResponderExcluirah, que barato! muito obrigada pela informação e pelo link!
ExcluirEstava eu, fazendo uma pesquisa do nome da minha bisavó no Google (pelo dia das mulheres), quando me deparei com esse blog. Resolvi te escrever.
ResponderExcluirDesconhecida só nos meios editoriais mesmo! Fou minha bisavó! E uma mulher que, muito antes de qualquer movimento feminista, era uma. Poliglota e intelectual. Certamente, publicou pela revista dos tribunais pois, esta, pertenceu à meu bisavô. Ganhou nome de rua no Guarujá, porque fez muitos trabalhos sociais para os pescadores da época, e era muito querida e admirada por estes. Numa época que mulheres “respeitadas” só se casavam na igreja, ela, atéia, casou apenas no civil, e, por isso, foi alvo de fofocas.
uau, que maravilha! uma figura fascinante, com certeza!
Excluirmuito obrigada pelo contato
Olá, Denise. Fui trazida para seu texto através de um artigo do Yuri Caribé e do Lucas Borba. Atualmente tenho desenvolvido uma tese sobre as traduções de Woolf na América Latina (Brasil e Argentina, especificamente) e, no processo, tive acesso aos documentos referentes as negociações das obras de Woolf. De fato, a Livraria do Globo comprou o direito de 4 obras (Mrs. Dalloway, Orlando, The Waves e To the Lighthouse). Mas abriu mão dos dois últimos pq os dois primeiros não venderam bem. Se quiser conversar mais sobre, me escreva (monteirogabriela@id.uff.br). Abraço.
ResponderExcluirah, fantástico!! agradeço a informação!
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