16 de jul. de 2018

três poemas

mais três poemas meus na revista InComunidade, aqui.


I

Van Gogh

Foram por ali, por acolá.
“Não”, disse a menina, “por aí não”.

Todos sabiam o que havia atrás da porta.
Ratoeirinhas bem montadas,
gaiolas para minúsculos passarinhos.
O chão rangia.
Era assoalho velho.

Lá fora um tanque desbeiçado,
na contraluz o velho, pintor.

Não que fosse tão velho, mas o ar.
E depois as crianças se sentaram à mesa,
para jantar.


II

Lendo Celan

Celan era um mistério lacrado,
denso, oculto no negrume velado
como num oceano sem mapa.

(Mistificador refúgio é uma capa:
Amarfanha-se na cama desfeita,
mascate de uma ilusão imperfeita.)

Celan não se entendia.
De sua negra capa escorria
Um grosso agrimel sujando o dia.

Algo sinistro surgia de repente,
Um teuto Beowulf impenitente,
orgulhoso de um mal já nascente.

Não, Celan não se entendia.
Benquisto, sim, bem se via.
Mas algum mal, ah, ali havia.


III

a Leibniz

lava, lodo, lama, lua, luar,
líquen, lagarta, lichia.

laranja, lima, limão.
lambreta, lápis, leão.

livro. língua. losna.

lixívia, liga, lombriga.
lençol, lâmpada, lar.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.