trata-se do início d'o velho e o mar, de hemingway, em tradução de fernando de castro ferro, que saiu inicialmente pela civilização brasileira em 1955, teve dezenas de reedições, e em algum ano entre 2000 e 2005 passou para a bertrand, ambas pertencentes ao grupo editorial record.
civilização brasileira, 44a. edição, 1999
bertrand, 80a. edição, 2013
um leitor pode achar que é o tradutor inventando moda. difícil. à primeira vista, nas duas frases iniciais, até poderíamos pensar que se trata de uma adaptação. mas vê-se na sequência que se trata de tradução mesmo, e de uma mesma tradução, razoavelmente fiel ao texto, o que elimina a hipótese de se tratar de uma adaptação. mas é difícil que essa grande diferença nas frases iniciais se deva à iniciativa de um tradutor, visto que este, imediatamente a seguir, mostra bastante aderência ao original. não faria muito sentido adotar um partido tão "liberal" nas duas ou três primeiras frases e em seguida passar para um partido mais convencional.
o velho e o mar foi, até onde sei, o primeiro livro de hemingway publicado no brasil, por iniciativa de ênio silveira, grande admirador seu - tendo inclusive traduzido, sob o pseudônimo de a. veiga fialho, uma coletânea de contos de hemingway (the fifth column and the first forty-nine stories).
andré balaio argutamente aponta uma ressonância melvilliana no início "O velho chamava-se Santiago". de minha parte, repito, acho muito difícil que uma alteração tão grande do original tenha sido por iniciativa do tradutor, em vista da sequência da tradução. eu tenderia a ver aí um dedinho do próprio ênio silveira, um ímpeto "estilístico-comercial" (cabe lembrar que moby dick saíra não muitos anos antes na tradução de berenice xavier). mas essa minha hipótese só faz sentido se supusermos e pudermos confirmar que desde 1955 foi esta a versão publicada, a mesma que ainda em 1999 estava em circulação.
encontro referências ao outro início, publicado pela bertrand, pelo menos desde 2005. em sendo fundada a hipótese acima aventada, seria plausível supor que foi no momento da transferência dessa tradução de um para outro selo da record, isto é, da civilização para a bertrand, que se procedeu à alteração do início, (re)aproximando-o do original.
sobre fernando [de] castro ferro, veja nosso rastreamento nos comentários do post aqui.
atualização em 05/04/2015: agradeço a allison roberto pelas imagens abaixo. como se vê, é em 2001 que a bertrand que passa a publicar a tradução, com seu novo início:






Denise! desculpa, pois sei que este não é o tema da postagem. Mas estou prestes a comprar Moby Dick, porém estou em dúvida sobre qual das três traduções devo escolher: berenice xavier (1950), péricles eugênio da silva ramos (1972) ou irene hirsch com alexandre barbosa de souza (2008). A senhora poderia, por favor, recomendar qual destas traduções seria melhor?
ResponderExcluirolá, prezado anônimo. não costumo recomendar traduções, apenas desrecomendar fraudes, mesmo porque nem sempre leio todas as traduções existentes de uma mesma obra. aqui no caso do moby dick, só posso falar de uma experiência estritamente pessoal: devo dizer que tenho paixão pela tradução de péricles eugênio. mas isso pouco tem a ver com a qualidade intrínseca das outras traduções:
ResponderExcluirNesse link há um protesto por uma das traduções:
ResponderExcluirhttp://esvaziandoaprateleira.blogspot.com.br/2011/04/o-velho-e-o-mar-1.html
Denise, faço parte de um clube de leitura e que escolheu ler neste mês o O velho e o mar.
ResponderExcluirAntes de começar a (re)ler este livro, fiz uma pesquisa no google, caiu aqui em sua página e achei interessante esse debate sobre a intervenção do editor na tradução brasileira.
Passei a ler a obra com um pé atrás. E ontem, ao me deparar com as passagens referentes aos tubarões, comecei a achar que havia alguma coisa estranha na tradução.
Principalmente na hora em que estes eram descritos. Não que eu entenda de tubarão. Muito pelo contrário.
Foi justamente por não entender que me veio essa desconfiança.
Num determinado momento, o tradutor chama usa o termo esqualo para se referir ao tubarão. (na minha edição, de 1958, está na pg 122). Não sabia o que significava esqualo e dei um google. Vi que classificação taxionômica dos tubarões é um gênero. Porém, a descrição de um esqualo que davam do esqualo não batia com o tubarão descrito no texto e logo em seguida chamado de Mako.
Pesquisando o que era Mako, vi que é um outro tubarão, mas não é do gênero esqualo.
Aí tinha. Afinal, Hemingway era pescador e conhecia bem as coisas do mar.
Fui ver no original. E onde o tradutor usou a palavra esqualo, Hemingway usou simplesmente "shark". Ou seja, o tradutor desconhecia tubarões e quis utilizar um outro termo para a palavra. E o Mako do tradutor batia com o Mako do Hemingway. Então, o primeiro tubarão era mesmo um Mako.
E mesma confusão o tradutor fez com a segunda espécie. O tradutor diz que é um tubarão-martelo.
Mas o próprio Santiago chama esses tubarões de galanos. E fui ver que galanos é uma coisa e tubarão-martelo é outra.
No original, o termo traduzido por tubarão-martelo é "shovel-nosed sharks", ou seja, nariz em forma de pá (e não em forma de martelo).
Agora, ao final dia, sem querer (querendo?) cai numa página que mostra exatamente as espécies dos tubarões citados por Hemingway.
https://seahistory.org/sea-history-for-kids/sharks/.
Sei não... será que não está na hora de termos uma nova tradução?
As traduções do Hemingway que conheci são bem desastrosas. Estou querendo ver essa do Fernando Castro Ferro, pois em outras de O Velho e o Mar, perde-se muito do sentido do texto e do estilo do autor.
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