4 de jun. de 2012

"não fui eu", "foi sim!"

existem também os casos em que a editora atribui créditos de tradução a um colaborador ou editor, provavelmente para conferir maior prestígio à edição, por mais que a pessoa diga com todas as letras que não foi ela que fez a tradução em pauta.

j. b. mello e souza compilou traduções de ésquilo (prometeu acorrentado), sófocles (rei édipo e antígone) e eurípides (alceste, electra e hipólito), apanhando-as num volume que saiu pela jackson em 1950, depois repicado em vários volumes pela ediouro. por mais expressa que tenha sido sua responsabilidade na edição: seleção, organização, prefácio e notas, as editoras fizeram ouvidos moucos (ou olhos vendados) e lhe tascaram a autoria das traduções compiladas.



“Tais considerações justificam, à saciedade, a preferência dada, na elaboração do presente volume, às traduções em prosa de algumas tragédias entre as mais famosas do teatro ateniense. Por exceção insere-se apenas uma em verso solto (o Hipólito, de Eurípides), completando-se destarte a série agora apresentada com um trabalho antigo, de tradutor português desconhecido, que venceu com certa galhardia as dificuldades do empreendimento.” (J. B. Mello e Souza, Prefácio)

da mesma forma, zsuzsanna spiry, tradutora e pesquisadora de nossa história da tradução, especializada na obra de paulo rónai, apresenta um caso similar. trata-se de o homem e as línguas, de frederick bodmer, publicado pela globo em 1960. na "advertência à edição brasileira" que abre o volume, paulo rónai frisa que a tradução da obra coube a "um filólogo de reconhecida competência, o Sr. Ayres da Mata Machado Filho" - o que não obstou que a editora estampasse na página de rosto os créditos de tradução em nome de ayres da mata machado filho, paulo rónai e marcello marques magalhães.




aliás, zsuzsanna spiry desenvolveu um excelente estudo sobre paulo rónai, a fonte mais completa que conheço sobre sua obra, que pode ser consultado aqui: paulo rónai, um brasileiro made in hungary. a ela agradeço as imagens de o homem e as línguas.

5 comentários:

  1. Denise,

    que nome terá essa coisa? Assédio tradutório?

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  2. Eu Denis, já viste a última da veja: http://www.cartacapital.com.br/politica/control-c-control-veja/

    Não é plagio de tradução, mas é até mais descarado...

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  3. Anônimo14.6.12

    se considerar inadequado não publique mas acho que tem a ver
    com o homem e suas línguas.

    flor do lascio

    clítoris
    ou clitóris?
    na dúvida
    queimo a língua.

    zeca (publicado originalmente em www.ocaixote.com.br

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  4. Denise, bem colocado! Estou com esse volume da Jackson em mãos, interessado em desvendar quem seria esse misterioso tradutor que nos deu pela primeira vez algumas tragédias gregas em vernáculo. Meu entendimento é de que ainda seja J.B.Mello e Souza o autor de 5 das 6 traduções do volume, das quais ele chega até a estabelecer alguns critérios (sobretudo a preferência pela prosa). A única que destoa do conjunto é a tradução do Hipólito, feita em verso. Me parece que está é a única tradução cuja autoria não lhe pertence.

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