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a editora hedra lançou recentemente um ensaio de claudio weber abramo, o corvo: gênese, referências e traduções do poema de edgar allan poe.
é um ensaio de grande fôlego, com exaustivo aparato crítico e posição teórica muito clara, exposta desde o primeiro parágrafo: "Traduzir (poesia ou qualquer outro tipo de texto) conferindo-se predominância a sons e ritmos e subordinando-se a semântica aos caprichos do metro constitui uma desconsideração consciente quanto ao que é mais importante" (p. 13), e adiante "O que permite proceder-se a traduções são as estruturas sintáticas e a semântica" (p. 18). caberia como bibliografia obrigatória em todos os cursos sobre literatura e tradução.
comentarei a obra aos poucos. entre seu rigor e sua riqueza, destaca-se desde já um apontamento fundamental que, quanto mais não fosse, justificaria por si só essa edição: claudio weber abramo indica de maneira bastante convincente que a célebre tradução d'o corvo feita por machado de assis se baseou muito mais em le corbeau de baudelaire do que em the raven de poe.
atualização: em 26/5, o caderno da ilustrada, na folha de s. paulo, publicou uma breve resenha minha sobre o livro: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2506201117.htm
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Olá, Denise.
ResponderExcluirEste livro acaba de entrar para a minha lista de compras, rs. Fico feliz que 2011 esteja sendo um bom ano para as publicações sobre tradução. Também foi reeditada a obra 'Tradução: Teoria e Prática' de John Milton, grande contribuição para a área porque estava fora de catálogo há anos!
Abraços.
olá, marcos: realmente estou assombrada com a densidade desse ensaio. afora a crítica cabal às abordagens formalistas ou transcriativas da tradução, em especial a tradução poética.
ResponderExcluirótima noticia a reedição do livro do john milton, não sabia!
abraço
d.
Denise,
ResponderExcluirComecei a ler o livro, mas infelizmente já deparei com algo que parece ou cochilo da preparação/revisão ou empastelamento puro e simples. (Há também, claro, a hipótese de que eu esteja momentaneamente incapacitado de perceber algum óbvio que me escape.)
O fato é que não consegui compreender as quatro linhas finais do penúltimo parágrafo da página 21, que reproduzo abaixo.
"E, mesmo abandonando-se a pretensão de se replicar a estrutura rítmico-melódica, mas ainda se almeje justapor algum outro arcabouço dessa natureza a uma tradução semanticamente precisa, a probabilidade de consegui-lo continuaria minúscula."
Na minha tentativa de reconstruir o que seria o raciocínio original do autor, cheguei a uma construção mais compreensível, mas que nada garante seja o que o autor quis entregar.
"E mesmo que se abandone a pretensão de se replicar a estrutura rítmico-melódica, mas ainda se almeje justapor algum outro arcabouço dessa natureza a uma tradução semanticamente precisa, a probabilidade de consegui-lo continuaria minúscula."
De fato, muitas traduções são analisadas nesse livro, mas Cláudio Weber peca em uma coisa importante, que é desconsiderar o som como parte importante do poema (e por que não criador de sentido?). Cláudio também desconsidera que o poema "original" também foi construído com um esquema fixo e contém algumas incoerências. De qualquer modo, é um grande trabalho.
ResponderExcluirpois é, bárbaro, bem notado!
ResponderExcluirelaphar, de fato a posição de abramo é bastante taxativa: sintaxe e semântica. acho corajoso.
Também acho, e acho valoroso também o número de traduções analisadas verso por verso. Outra coisa que eu achei interessante: a proposta de tradução de Claudio, ironicamente, foge em alguns momentos da própria proposta teórica do autor.
ResponderExcluirSó não consigo separar tão fácil o som do sentido em poesia como faz o autor. Nunca me esqueço do "Soneto do Amor Total", onde as consoantes e vogais nasais geram um efeito que cria todo um sentido erotizante que não aparece na sintaxe e na semântica lexical.
Não li o livro e talvez, no caso particular analisado por abramo, ele tenha razão: mas o que me deixa um pouco incomodado é o hábito nosso e já antigo de declarar um dia que assim é certo e do outro lado errado. Não poderíamos aceitar traduções diferentes: algumas experimentando o ritmo, outras concentrando-se mais na precisão semânticas e ainda outras que tentam conciliar isso. Além do mais, ritmo é algo muito complexo que não se limita a uma idéia puramente métrica. Poderíamos, por outro lado, jogar fora, digamos, a Herodiade traduzida magistralmente por Augusto de Campos somente porque ele reproduziu a forma do alexandrino? Acho aquilo magistral e já experimentei com alunos que foram literalmente invadidos pelo chiaroescuro do texto - ou, para usar expressao mais conveniente: o gelado-quente. Isso é algo que também se transmite pelo som e pelo encadeamento particular que o tradutor eficiente faz. Poesia tem uma relação com a música, sim... deixem espaço para as várias formas e não criem polarizações artificiais, ok?
ResponderExcluirBárbaro: talvez o que esteja a dizer-se aqui é isto apenas:
ResponderExcluirUma vez que se investiu pelo viés de uma tradução semanticamente precisa, é mínima a chance de que o tradutor possa vir a encontrar alguma solução que replique a mais valia que os aspectos rítmicos-melódicos conferem ao original.
é uma provocação justificável
ResponderExcluirdevido a predominância da forma em relação ao conteúdo
mas os sons multiplicam os sentidos
e negligenciá-los seria prejudicial à semântica
ou Abramo não sabe o que é poesia
ou omitiu só pra provocar
se a primeira hipótese for a verdadeira é imperdoável
se a segunda, como eu também gosto de ver o circo pegar fogo,é aceitável
em todo caso
uma boa tradução deve unir os dois aspectos: som e sentido
que são inseparáveis se quisermos a real força e beleza da poesia
"Para realizar uma crítica informada, era necessário dispor de uma tradução em português do texto original inglês"
ResponderExcluirVeja que ele considera a tradução dele como um original ou como uma tradução modelar, sem perdas, a partir da qual outras traduções podem ser avaliadas.
É mais ou menos o que diz Dryden em 1680. "Variar a vestimenta sem alterar nem destruir a substância", como se o meio de expressão não alterasse a substância. De lá para cá, isso já foi refutado amplamente. O que ele está fazendo é propor uma teoria de tradução. Ora, investigar o que já existe não seria aconselhável? Ou o autor acha que está desbravando um terreno intocado?
E para que mais um texto intermediário?