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Finalmente, o terceiro aspecto mais visível na estruturação de Walden é a flagrante desproporção do primeiro capítulo, "Economia", dentro do corpo da obra.
Essa desproporção do capítulo "Economia", quando comparado ao restante do texto, parece imprimir um certo desequilíbrio ao conjunto do livro. Como esse jogo interno das partes é um dos principais aspectos que qualquer autor enfrenta ao compor sua obra, naturalmente a conclusão a que devemos chegar é que essa desproporção foi um recurso deliberado de Thoreau, e que o desequilíbrio resultante para a dinâmica geral da obra seria apenas aparente.
Sabe-se que "Economia" foi escrito como texto independente, que serviria de introdução a Walden propriamente dito, trazendo inclusive numeração própria das páginas. Por alguma razão, Thoreau decidiu que o texto de introdução passaria a capítulo de abertura, e o livro traria à guisa de introdução apenas a epígrafe, já citada, do alegre chantecler. E assim foi.
Esse fato até explica a desproporção resultante entre "Economia" e os demais capítulos. Mas não explica por que Thoreau teria optado por introduzir esse desequilíbrio entre as partes. Quanto a isso, não me atrevo a aventar nenhuma hipótese, pois, não tendo domínio suficiente da vida e obra de Thoreau, seria como tentar arrombar portas que certamente já estão abertas.
Em todo caso, eu diria duas coisas: é muito interessante ler Walden a partir do segundo capítulo, "Onde e para que vivi", como se fosse ele o começo do livro. Muda a visão, muda o quadro geral da coisa. É uma experiência muito ilustrativa, e serve como contraponto para tentarmos entender por que Thoreau julgou que não bastaria, por que considerou que a obra só se faria completa se se iniciasse justamente pelo extenso texto, muitas vezes tido como árido e fastidioso, da "Economia".
A segunda coisa é a seguinte: pretendo em breve fazer uma modesta desmontagem dos núcleos temáticos que compõem esse primeiro longo capítulo. Mas, até lá, parece-me que um ponto é certo. É em "Economia" que Thoreau ilustra, expõe, alerta e adverte o principal elemento de seu, digamos assim, individualismo existencial: as experiências de cada indivíduo são irredutíveis e intransferíveis, cabendo a cada um seguir o rumo da própria existência:
De passagem: "o escravo fugido" - Thoreau, certa feita, acolheu em Walden um escravo fugitivo, e o aconselhou a seguir para o norte tomando como referência a estrela polar (como, aliás, já costumavam fazer); "o marinheiro" - Thoreau irá utilizar várias metáforas náuticas, sobretudo a navegação por cálculo (dead reckoning).Não gostaria que ninguém adotasse meu modo de vida em hipótese alguma; pois, além de poder encontrar algum outro antes que ele tivesse aprendido direito este de agora, desejo que possa existir o maior número possível de pessoas diferentes no mundo; mas gostaria que cada uma delas se dedicasse a encontrar e seguir seu próprio caminho, e não o do pai, da mãe ou do vizinho. O jovem pode construir, plantar ou navegar, basta que não seja impedido de fazer o que ele me diz que gostaria de fazer. Se somos sábios é apenas graças a um ponto matemático, como o marinheiro ou o escravo fugido que mantém à vista a estrela polar; mas é um guia suficiente para toda nossa vida. Podemos não chegar a nosso porto num período calculável, mas manteremos o curso certo. (p. 77, itálico no original)
Neste sentido, a vida em Walden era sua experiência pessoal e a mais ninguém se aplicaria. O que ele poderia dizer e transmitir dessa experiência, o que dela poderia ser partilhado, não precisaria ser vivido em Walden. Estava apresentado em Walden.
Num aparte secundário, isso reforça e corrobora por que sua decisão - que comentei em post anterior - de eliminar o subtítulo or, Life in the Woods: a despeito de suas advertências, muitos insistiam em tomá-lo ao pé da letra e seguir seus passos, indo também viver algum tempo nas matas.
imagem: chart pie, wiki
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