10 de jul. de 2014

prêmio abl de tradução 2014

parabéns a safa jubran pelo prêmio abl de tradução deste ano, com a tradução direta do árabe de e nós cobrimos seus olhos, do egípcio alaa al aswany, publicado pela companhia das letras.

2 de jul. de 2014

noemi jaffe sobre mrs. dalloway

a crítica noemi jaffe cita generosamente meu trabalho em mrs. dalloway, pela l&pm, e comenta também as dificuldades gerais do ofício de tradução, mais ou menos entre os 15,20 e 19,20 min. do vídeo abaixo:




agradeço a sérgio tadeu guimarães pelo link.

lembrando a capinha da edição:



















18 de jun. de 2014

tradução e criatividade

a revista língua portuguesa de junho, n. 104, publicou um artigo chamado o quebra-cabeça da criatividade, disponível aqui.  fui gentilmente entrevistada pela jornalista renata d'elia sobre tradução e criatividade, entrevista esta que resultou numa breve e simpática citação na matéria:



meu ponto, na verdade, não era tanto um "equilíbrio das expectativas" e sim a ideia de que uma tradução "criativa", isto é, não diretamente decalcada do original, pode ser mais "fiel" do que uma tradução demasiado colada a ele. transcrevo abaixo a íntegra de nossa conversa.
Como a criatividade se aplica ao trabalho do tradutor? Há algum tipo de inspiração para quem traduz? Você se lembra de algum caso em que a criatividade ... fez muita diferença em relação a um texto original? 
Se criativo for aquele capaz de lançar mão de certa liberdade interior, intelectual e emocional, para gerar coisas novas e inesperadas, então creio que algum arrojo, destemor mesmo, pode conferir um grau de criatividade a uma tradução. Creio que a gente pode falar em alguma dose de ousadia ou intrepidez.  Pois a grande questão é que somos uma espécie de Houdinis, presos dentro daquela implacável caixa do original no fundo da água, e de alguma maneira temos de conseguir nos desvencilhar e subir à tona com um texto em português, extraído de dentro daquela caixa após mil malabarismos mentais.  
Se há alguma inspiração nisso, é aquela disposição mais especial num dia ou noutro, quando você sente suas faculdades mais aguçadas, quando seu processador mental consegue vasculhar com maior eficiência e rapidez as toneladas de informações meio que adormecidas dentro dele, quando você consegue estabelecer ligações nem sempre muito óbvias, numa relação mais desimpedida entre o original e seu próprio repertório. Aí podem surgir coisas interessantes, que então vão se depositando no texto em português e que aí você vai consolidando e desenvolvendo ao longo do trabalho – mas, retomando a velha duplinha inspiração/ transpiração, há de se transpirar muito para que aquela centelha mais inspirada consiga contagiar todo o texto.  
E veja, muitas vezes uma tradução criativa não significa que ela faça muita diferença em relação ao original; muito pelo contrário, soluções criativas tendem a aproximar mais o texto traduzido ao texto original, a gerar uma maior afinidade entre eles. Pois é um equívoco supor que uma tradução muito colada ao original seja uma boa tradução: pelo contrário, esse servilismo geralmente resulta num decalque sem muito viço, mecânico, inexpressivo. Em suma, essa tradução mais colada ao original é a que, paradoxalmente, costuma ficar mais distante dele, sobretudo em obras literárias. Por isso é preciso um certo arrojo, uma certa coragem – pois sentimos medo, claro: de não captar bem algumas conotações, de errar, de ser meio obtusos – para elaborarmos com alguma desenvoltura outras soluções não tão imediatamente evidentes. 
O que pode acontecer é que muitas editoras mantenham códigos mais ou menos cerrados, em alguns casos impedindo essa maior desenvoltura, esperando algo mais simples ou convencional, em nome de um “leitor médio” abstrato. Mas nem sempre é este o caso, sobretudo em obras de maior densidade literária. Se não tudo, muito depende mesmo é da atenção, do cuidado e da dedicação do tradutor. Nesses casos, sempre haverá o que poderíamos chamar de criatividade, sim.

mais um alerta contra as ervas daninhas da germinal

sebastião ramos osias avisa aqui, na caixa de comentários, que cruzada sem cruz, a tradução de berenice xavier do livro arrival and departure, de arthur koestler, que saiu pelo instituto progresso editorial (i.p.e.) em 1948, teria sido plagiada por "uma tal de juliana borges", em edição publicada pela germinal em 2000, com o título de chegada e partida.




não cheguei a cotejar esses dois títulos, mas não me surpreenderia muito. já denunciei aqui vários casos da infeliz germinal, que utiliza os nomes de wilson hilário borges, juliana borges, felipe padula borges e vera lúcia rodrigues, respectivamente o dono (agora finado) da editora, sua filha, seu sobrinho e sua companheira, em traduções que não passam dos mais vulgares plágios escancarados de antigas traduções.

o catálogo da germinal cadastrado na fbn consta de 33 títulos, entre eles quinze obras traduzidas. são elas, com os respectivos nomes que assinam as traduções:

arthur koestler, ladrões na noite (juliana borges)
arthur koestler, o iogue e o comissário (não descobri)
arthur koestler, chegada e partida (juliana borges)
saul bellow, a vítima (juliana borges)
james agee, morte na família (juliana borges)
isaac b. singer, o escravo (juliana borges)
gustave glotz, história econômica da grécia (vera lúcia rodrigues)
ivan goncharov, oblomov (juliana borges)
ignazio silone, a semente sob a neve (wilson hilário borges)
sinclair lewis, o nobre senhor kingsblood (juliana borges)
hermann broch, os sonâmbulos (wilson hilário borges)
g. k. chesterton, o homem que foi quinta-feira (vera lúcia rodrigues)
d. h. lawrence, mulheres apaixonadas (felipe padula borges)
fenimore cooper, o último dos moicanos (vera lúcia rodrigues)
gustave flaubert, salambô (não descobri)
luigi pirandello, a excluída (wilson hilário borges)

após a morte de wilson hilário borges, vera lúcia rodrigues assumiu o controle da editora e doze desses títulos traduzidos continuam a constar no catálogo da casa, aqui.

o crítico literário alfredo monte, aliás, desde 2004 denunciou os plágios de mulheres apaixonadas, de d.h. lawrence, e d'os sonâmbulos, de hermann broch, em memorial do caso germinal. veja aqui.

também em 2004, euler da frança belém, do jornal opção de goiânia, denunciou o plágio de oblomov na mesma editora. veja aqui.

suélen bortolo, por sua vez, em 2012 avisou que a semente sob a neve, de ignazio silone (germinal, 2001), com tradução em nome de wilson hilário borges, é praticamente idêntica à edição que saiu pela brasiliense em 1947, em tradução de eglantina santi.

  • para o caso de oblomov, de goncharov, veja-se aqui;
  • para o caso de d. h. lawrence, com mulheres apaixonadas, aqui;
  • para hermann broch, com os sonâmbulos, aqui;
  • para o homem que foi quinta-feira, de chesterton, aqui;
  • para isaac b. singer e o escravo, aqui.

encaminhei ao ministério público um pedido de representação contra a editora em 2010, com um vasto dossiê demonstrando as fraudes. o mp determinou a instauração de um inquérito policial para apurar os fatos.


em 2011, fui ouvida na delegacia aqui em registro, confirmei nomes, fatos e provas, e o inquérito seguiu seu andamento. ainda tentei acompanhar o andamento por algum tempo, para saber se o ministério decidiria ingressar com ação contra a editora. infelizmente, não sei dizer em que pé se encontra hoje em dia.

de todo modo, fica reiterado o alerta contra tais edições inescrupulosas.


17 de jun. de 2014

ivanhoé

Anno Litterario de 1905


almanaque brasileiro da garnier, 1907

por que me aferrar a walter scott, a "d'avellar" e a detalhes do catálogo da h. garnier aparentemente insignificantes de mais de cem anos atrás? nessa crônica que venho esboçando, o quadro geral é composto por três linhas de força principais: 1. a trajetória de uma das mais importantes editoras do país, a garnier; 2. a relativa estagnação econômica nas décadas finais do século 19 e na virada do século 20; 3. a lei dos direitos autorais de 1898.

assim, uma importante editora de repente se vê acéfala, perdendo seu proprietário que exercia gestão direta de seus negócios, em meio à crise política que se segue à implantação da república, é transferida para um sucessor ainda mais idoso do que o falecido, desde sempre morador em paris, com seus próprios assuntos e negócios a cuidar, o qual envia um gerente francês para assumir a editora, o qual desconhece o brasil e a língua e contrata um gerente regional, isso em meio a uma estagnação econômica geral e o encarecimento das tarifas de importação, seja de livros, seja de papel - e perante a entrada em vigor de uma legislação referente aos direitos autorais que passa a inviabilizar uma prática secular, qual seja, a utilização brasileira de traduções cujos direitos pertencem a casas editoriais estrangeiras (portugal, sobretudo), opção, aliás, já dificultada pelo alto custo do papel importado. continua a ser mais barato imprimir as edições nacionais no exterior, em paris, sobretudo. porém, o uso de traduções portuguesas para as edições nacionais se torna inviável devido à nova lei autoral. além disso, a concorrência ameaça: a laemmert assume o posto de principal editora e livraria no brasil, até então ocupado pela b.-l. garnier. o finado garnier já sabia disso; desde 1891, antes de falecer, já tentava vender a empresa, sem conseguir.

daí, a meu ver, o esforço de manter um catálogo, de manter um mínimo de atividade editorial - pois hyppolite, o idoso irmão sucessor que herdou a b.-l. garnier, preferira antes investir na reforma da livraria, não da editora. a parte editorial, mais lenta, passa a retomar alguma atividade maior já no século 20 - como, porém? trazendo autores inéditos no país em formato de livro, como edgar allan poe, alardeando ser "traducção brasileira" (assim, em aparente obediência à nova lei autoral), porém simplesmente reproduzindo traduções portuguesas do século anterior. é interessante notar, a propósito, que as primeiras edições de walter scott no catálogo da h. garnier, a partir de 1905, não trazem créditos de tradução. é apenas a partir de 1907, 1908 que passa a aparecer o nome de "k. d'avellar" ou "r. d'avellar" - suspeito que devido a algum tipo de pressão, seja dos concorrentes, seja dos clientes, seja de quem fosse.

foi o pior dos caminhos. o gerente brasileiro saiu da h. garnier em 1906, poucos anos depois de ser contratado. a partir daí se intensificam os lançamentos de walter scott, de balzac e outros autores estrangeiros.

16 de jun. de 2014

walter scott, anúncios

anúncios no jornal correio da manhã:

04 de julho de 1906



14 de setembro de 1906



12 de maio de 1909





walter scott, anúncio

no correio paulistano de 10 de março de 1907, temos o anúncio de chegada à livraria de nada menos que quatro obras de walter scott pela h. garnier:


o anúncio se manteve durante dez dias seguidos, até 19 de março, e depois por mais dez dias salteados em abril, veja em nossa hemeroteca digital, aqui.


ivanhoé em folhetim

interessante notar que o jornal correio paulistano publicou o ivanhoé inteiro durante 41 edições, em longuíssimos excertos a cada vez, entre 30 de julho e 9 de outubro de 1905, na mesma tradução anônima que saiu naquele ano pela h. garnier:


ver nossa hemeroteca digital, aqui.


o walter scott da h. garnier, II

note-se que ivanhoé foi o primeiro título de walter scott publicado pela h. garnier (1905). já apresentei meu palpite em o walter scott da h. garnier, I, de que se trataria de uma contrafação da tradução portuguesa lançada pela guimarâes & libânio em 1901, mera hipótese de trabalho que teria de ser investigada antes de poder afirmar qualquer coisa com certeza.

aqui as imagens da capa, da página de rosto e da última página de texto de ivanhoé, em sua edição pela livraria garnier, gentilmente enviadas por raquel sallaberry brião, do jane austen em português, a quem agradeço muito:





vale lembrar que a h. garnier deixou de existir em 1911, a partir de então passando a se chamar livraria garnier que, naturalmente, manteve o catálogo da h. garnier e procedeu a várias reedições. a título ilustrativo, vejam-se os dois padrões de edição em capa dura da mesma obra pela h. garnier e pela livraria garnier:




15 de jun. de 2014

o walter scott da h. garnier, I

um autor que vale a pena ser visto no catálogo da h. garnier é walter scott, autor favorito da casa. entre 1905 e 1911, a editora publicou nada menos que catorze volumes (com quinze romances) de scott em sua "collecção dos autores celebres da literatura extrangeira". foram eles:
ivanhoé: romance histórico (tradução anônima, 1905);
kenilworth (tradução anônima, 1906);
os puritanos da escócia (tradução anônima, 1906);
o talisman, ou, ricardo na palestina (tradução anônima, 1906);
waverley (tradução anônima, 1906);
quintino durward (trad. k. d’avellar, 1906);
a prisão d’edimburgo (trad. k. d’avellar, 1906);
a formoza donzella de perth: seguido d'o misanthropo, ou, o anão das pedras negras (1. trad. fauconpret, 2. anônima, 1907);*
o official de fortuna, ou, uma lenda de montrose (tradução anônima, 1908)
guy mannering, ou, o astrólogo (trad. k. d’avellar, 1908);
woodstock (trad. k. d’avellar, 1909);
o mosteiro (trad. k. d’avellar, 1910);
anna de geierstein, ou, a donzella do nevoeiro (trad. k. d’avellar, 1911);
os desposados: novella tirada da historia das cruzadas (trad. k. d’avellar, 1911).



já comentei em vários posts anteriores o problema de contrafações na h. garnier e, de passagem, mencionei a alta frequência com que aparece o nome de "k. d'avellar" ("k. de avelar" e até "r. d'avellar") como tradutor não só de scott, mas também de dickens, balzac e chateaubriand. o que me surpreendeu foi a absoluta falta de qualquer referência a esse nome em qualquer outra fonte que não fossem as edições da h. garnier (em boa parte reeditadas posteriormente pela livraria garnier).

aqui no caso das traduções de walter scott, o interessante é notar que seis delas haviam sido traduzidas entre os anos 1830 e os anos 1850 por caetano lopes de moura (médico baiano que morava em paris e era tradutor contratado pela aillaud para seu catálogo de obras em português, para exportação basicamente para o brasil, pela laemmert), a saber: o talismã ou o ricardo na palestina; os puritanos da escócia; quintino durward; o misantropo, ou o anão das pedras negras; waverley; a prisão de edimburgo. 

parece-me curioso que o título original the black dwarf tenha recebido idêntica tradução na h. garnier, o misanthropo, ou, o anão das pedras negras, ainda mais a tantas décadas e a tantos quilômetros de distância (é de se lembrar que caetano lopes de moura vivia na frança). além dele, temos um subtítulo muito parecido para os desposados na tradução anônima publicada pela portuguesa galhardo & irmãos, de 1837: primeira novella tirada da história das cruzadas. analogamente, a única tradução de ivanhoé que traz o subtítulo de romance histórico, de que tenho notícia, é a publicada pela guimarães libânio em 1901. é difícil crer que essas ocorrências não passem de meras coincidências.

a propósito, um resenhista comenta o lançamento de o talisman em 1906 em termos muito elogiosos, destacando o pleno domínio da prosa e um lavor literário que, a seu ver, não pertencia àquela época e que devia ser bastante anterior. vide na péssima digitalização da brasiliana, disponível aqui.

todos esses indícios levam a crer que poderia ser bastante interessante verificar a procedência das traduções de walter scott publicadas pela h. garnier, fosse anonimamente ou em nome desse misterioso "k. d'avellar".

aqui umas capinhas de época, inclusive das traduções de caetano lopes de moura (pena que não consegui imagem da página de rosto d'o misantropo, onde consta os subtítulo):








* no caso do volume da h. garnier que traz a formoza donzella de perth e o misanthropo, a coisa é tão bizarra que a tradução vem em nome do célebre tradutor francês de walter scott, auguste defauconpret.

11 de jun. de 2014

luto




meus respeitos por wladir dupont.


a família mantém seu blog aberto, aqui.

27 de mai. de 2014

artigos

podem-se encontrar alguns artigos meus sobre a história da tradução no brasil no site da academia.edu, no link aqui.

25 de mai. de 2014

os tomates e a feira

o falecimento de garcía márquez trouxe em sua esteira vários comentários sobre a tradução de sua obra no brasil (inclusive um dele mesmo, coisa penosa, que comentei outro dia aqui).

o interessante - e enriquecedor, sem dúvida, mas também curioso, ao mesmo tempo - é a percepção que parece emanar difusamente de vários comentários: como se tradução fosse uma espécie de pinga-pinga, algo no varejo, que se pega como um tomate na feira e se examina para ver se tem uma pintinha aqui, uma pintinha ali, que se aperta para ver se está firme ou molengato, e assim por diante.

por ocasião da morte de garcía márquez, nas dezenas de comentários nas redes sociais sobre suas obras no brasil, senti falta de uma noção mais "conteudística", mais viva e dinâmica do que é essa coisa chamada tradução. tradução NÃO é o tomate na feira; se for para manter a metáfora, tradução é A FEIRA.

entre outras coisas, tradução é, como diz saramago, o que torna internacional uma literatura nacional; outra coisa que tradução também é, é agente formador de cultura, cultura daquela língua ou país que acolhe e processa em seu interior elementos de outra cultura.

nesse sentido, e voltando a garcía márquez, se um tradutor seu tropeça num gallinazo e acha que é uma galinha, outro se engasga com uma astromélia da qual nunca ouviu falar e imagina que é uma flor inventada pelo autor, e assim por diante, tudo isso pode nos fazer enrubescer ou gargalhar, pode servir de mote para deboche por parte de alguns mais impacientes, seja o que for, mas não passa de uma baciada (ou de simples punhado) de meros faits-divers.

não quero diminuir de maneira nenhuma a importância de apontar erros, lapsos, falhas de tradução em geral para o aprimoramento constante e a consolidação de uma maior sensibilidade do ofício perante o original - quem me conhece, sabe bem qual é meu ponto de vista a respeito.

mas, numa ocasião dessas, tão propícia a uma espécie de avaliação ou balanço do vulto literário de garcía márquez, muito mais interessante, a meu ver, seria procurar entender de maneira mais ampla e mais concreta sua presença no brasil por intermédio da tradução: não se deter na pintinha do tomate, mas enxergar o movimento da feira.

sobre as traduções de garcía márquez no brasil, veja aqui.

drummond em ritmo de tradução II

outra bela contribuição de emmanuel santiago - drummond e o ofício de tradução:


SONETOS HEREDIANOS

II

A concha de Heredia encanta e contagia
o brasílio Parnaso. O verbo alexandrino
reluz em facho de ouro, e a noite se faz dia
por artes do cantor e seu sabor ladino.

Ingrato, o nosso idioma, e por isso mais fino
o triunfo verbal que ao público extasia:
vulva 'frêle et navrée', num lance cristalino,
expõe-se, esplendorosa, em sua plena magia.

Palmas ao tradutor, esforçado xavante,
guarani culto e sábio ou famoso tupi,
mestre no deglutir, em quarteto e terceto,

o sol, o sal, a cor que iguais eu nunca vi,
embora nosso herói se confesse ofegante,
depois de haver parido um alheio soneto.

ANDRADE, Carlos Drummond. In: "Amar se aprende amando"


drummond em ritmo de tradução I

bela contribuição de emmanuel santiago - poema de drummond descrevendo o ofício:


SONETOS HEREDIANOS

I

Era bom traduzir os sonetos de Herédia
a poder de martelo, altas horas da noite.
No suplício da forma um sabor de comédia
testará o animal que na treva se acoite.

O desfecho (in)feliz envolve-se na média
de galas esmagadas. Qualquer um que se afoite
nos meandros do 'mot' há de soltar as rédeas
ao cavalo interior, carente de pernoite.

A língua, inda sangrando em cacos de palavras
que jamais tornarão à virtude primeira,
pergunta (ou quase que), após servido o chá.

E o bardo, recalcando aporias escravas,
silente se recolhe à furna derradeira.
Ninguém que me responda: Herédia ou Herediá?

ANDRADE, Carlos Drummond de. In: "Amar se aprende amando"


pierre louÿs no brasil

aphrodite foi a primeira obra de pierre louÿs a ser publicada no brasil, em tradução de elias davidovich - tradutor de tão grande importância em nossa história bibliográfico-cultural e o amiguinho de leôncio basbaum que o levou às sendas tradutórias, como comentávamos há pouco, aqui.

o romance saiu pela editora americana em 1931:


a tradução de davidovich será reeditada pela vecchi em 1945 e pela ediouro a partir dos anos 1990, com o subtítulo de romance de costumes antigos.


elias davidovich II

segue uma listagem (incompleta) das traduções de elias davidovich, disponível na wiki, aqui (fiz alguns acréscimos entre colchetes, assinalando db):


Traduções[editar | editar código-fonte]

  • Afrodite (Aphrodite), de Pierre Louÿs, Ediouro, 1991. [na verdade, sai com o título aphrodite em 1931, pela editora americana - db]
  • Uma Vida, Guy de Maupassant, Coleção Clássicos de Bolso, Ediouro Publicações. idem, americana, 1931 - db]
  • Fernão de Magalhães: história da primeira circumnavegação, Stefan Zweig. Editora Guanabara, 1938/ Editora Delta, 1956 (Obras completas de Stefan Zweig, volume 11, tomo XI)
  • Freud e Tolstoi, Stefan Zweig. Editora Guanabara Koogan, 1935.
  • Obras completas de Sigmund Freud, Editora Delta [como coordenador da coleção - db; são vários tradutores]
  • Galeria Delta de Pintura Universal, Marco Valsecchi (diretor). Rio de Janeiro: Editora Delta, 1974,
  • August Forel: Memórias. Biografia. Porto Alegre: Globo, 1985.
  • Rudin (Rudin), Ivan Turgueniev [Flores e Mano, 1932 - db]
  • A Luta pela paz, Golda Meir. Editora Delta, 1965.
  • Manon, Abade Prévost. Rio: Coleção Benjamim Costallat, 1934. [1933 - db]
  • Três paixões, Stefan Zweig; tradução de Odilon Gallotti & Elias Davidovich. Porto: Livraria Civilização. Editora Delta (Obras completas de Stefan Zweig, volume 5, tomo XVI) [Guanabara, 1942, db]
  • Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Trad. revista por Elias Davidovich. Rio de Janeiro, Guanabara, 1936 [tradução portuguesa - db]
  • Ensaio sobre o burguês, de Fiódor Dostoiévski. Rio de Janeiro, Pongetti, s/d.
  • Os pobres diabos, de Fiódor Dostoievski. Rio de Janeiro, Flores e Mano, 1932.*
  • O tyrano, de Fiódor Dostoiévski. Ed. Americana (Calvino Filho), 1933. Reeditado como "O Vilarejo". São Paulo: Global Editora, 1984, Coleção Magias.
  • Caleidoscópio, Stefan Zweig. Editora Delta (Obras completas de Stefan Zweig, volume 6, tomo VI)
  • O Momento Supremo, Stefan Zweig. (Trad. de Medeiros e Albuquerque, Odilon Gallotti e Elias Davidovich). Editora Delta (Obras completas de Stefan Zweig, volume 13, tomo XIII)
  • Jeremias, Stefan Zweig. Editora Delta (Obras completas de Stefan Zweig, volume 16, tomo XX)
  • O Talmud essencial, Adin Steinsaltz, Editora A. Koogan, 1989
  • Os Vegetarianos do Amor (I vegetariani dell'amore), Dino Segri Pitigrilli. Rio de Janeiro: Arturo Vecchi & Freitas Bastos, 1932.
  • A casa de Rothschild, Egon Conte Corti. Rio de Janeiro: Editôra Vecchi, 1948, Coleção Vidas Extraordinárias.
  • Ultraje ao pudor (Oltraggio al pudore), Dino Segri Pitigrilli. Rio de Janeiro: Arturo Vecchi & Freitas Bastos, 1930.
  • Ofício de marido (Il mestiere di marito), Lúcio D’Ambra. Rio de Janeiro: Editora Vecchi, 1939. Coleção Romances, trilogia “Os Romances da Vida a Dois”, nº 1.
  • Profissão de Esposa (La professione di moglie), Lúcio D’Ambra. Rio de Janeiro: Editora Vecchi, 1940. Coleção Romances, trilogia “Os Romances da Vida a Dois”, nº 2.
  • Accuso! (J’accuse), Emile Zola. Calvino Filho, editor. 1934.
  • Casamento Secreto, Dyvonne, Editora Americana, 1930, Coleção Biblioteca Feminina.
  • A Sarracena (La Sarrasine), de Germaine Acremant, volume 161 da Coleção Biblioteca das Moças, da Companhia Editora Nacional. Apenas uma edição, em 1956 .
  • Diagnóstico fisico (Physical diagnosis), Richard Clarke Cabot & F. Denette Adams. Guanabara, 1943.
  • Penicilinoterapia (Penicillin therapy), John Albert Kolmer. Gertum Carneiro, 1945. Pref. Raymundo Moniz de Aragio.
  • Novas confissões de um médico de senhoras (The bond between us; the third component), Frederic Morris Loomis. Editora Globo, 1944.
  • Minha vida e meus amores (My life and loves), Frank Harris. Meridiano, 1943.
  • Duplo assassinato na Rua Morgue, Edgar Allan Poe. Guanabara, s.d.
* aqui é dada como tradução feita diretamente do russo, mas duvido. ele mesmo declarava desconhecer o russo.

acrescentem-se :
a luta contra o câncer, de enrico giupponi, pela vecchi, 1941
roudine, de tourgueneff, pela vecchi e freitas bastos, 1932
werther, de goethe, collecção bejamin costallat, 1932
a gondola das chimeras, maurice dekobra, vecchi e freitas bastos, 1933
a machina de ler pensamentos, de andré maurois, pela vecchi, 1939
o amor, de michelet, pela j. leite, 1932
o principe, de nicholas [sic] machiavel, calvino filho, 1933
os grandes problemas da medicina contemporânea, de pasteur valéry-radot, pela vecchi, 1937
alberta, de pierre benoit, pela vecchi, 1938
o traumatismo do nascimento, de otto rank, pela livraria marisa, 1934
graphologia, de crépieux-jarmin, pela flores e mano, 1936
a visão do propheta (Jeremias). guanabara, s/d


a título de curiosidade, uma resenha bastante negativa de mário de andrade sobre um livro de contos escritos por davidovich, uns homens que eram deuses, de 1939, aqui


veja também um interessantíssimo depoimento de elias davidovich aqui.


dostoiévski e seu misterioso tradutor "raul rizinsky": uma hipótese

há um artigo muito interessante de dennys silva-reis sobre  "O romance hugoano L'homme qui rit: estudo crítico, tradução e retradução para o português brasileiro", disponível aqui.

chamou-me a atenção um trecho, transcrito no artigo, das memórias de leôncio basbaum:


já aqui eu comentava: "diga-se de passagem que aquele 'raul rizinsky' d'os irmãos karamazoff, pela americana, edição de bolso em papel jornal que saiu em 1931, parece irmão gêmeo do 'ivan petrovitch' da mesma americana, em 1930!" o trecho acima parece indicar que, de fato, aquele implausibilíssimo "raul rizinsky" seria um pseudônimo usado por ele, em sua primeira tradução para a editora americana.




visto que não se encontra nenhuma notícia de alguma edição de os irmãos karamazov publicada diretamente pela guanabara, sinto-me fortemente tentada a crer que a discrepância na referência ao nome da editora (americana, e não guanabara) se deve ao fato de que o catálogo literário da editora americana passou, em 1931, para a waissman, reis & cia., a qual por sua vez, a partir de 1934, passa a responder pelo nome de guanabara (e também guanabara koogan). essa hipótese é reforçada também pelo fato de que elias davidovich, o amigo e companheiro citado por leôncio basbaum, desde 1930 fazia traduções para a americana, bem como para a posterior guanabara. em resumo, suponho que leôncio basbaum, em suas memórias, referiu-se à americana pelo nome que, entre uma e outra fusão editorial, ela veio a adotar poucos anos depois e que mantém até a data de hoje.

devo a imagem da página de rosto à gentileza de alex quintas de souza.

24 de mai. de 2014

artigo sobre tradução e memória cultural



"a tradução como traço da memória cultural", um artigo meu, publicado em 2013 na revista continente, do qual apenas recentemente tomei conhecimento, disponível aqui.


Quantos de nossos mais famosos autores não traduziram obras estrangeiras para o português! Machado de Assis, por exemplo? Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, em circulação até hoje. Monteiro Lobato, Manuel Bandeira, Cecília Meirelles, Rachel de Queiroz? E Lúcio Cardoso, Carlos Drummond de Andrade, Erico Verissimo, Mário Quintana, Millôr Fernandes? Todos eles e muitos mais colocaram a nosso alcance, em português, as obras de Shakespeare, Proust, Rilke, Lewis Carroll, Jane Austen, Dostoiévski, André Gide, Kipling, Jack London, Aldous Huxley...

Não é um ofício fácil, a tradução. Supõe conhecimento linguístico e literário, exige paciência e dedicação, demanda tempo. Lentamente, ao longo de 100, 150 anos, nossas bibliotecas podem ir se preenchendo com as obras do cânone ocidental em português acessível a todos nós, graças ao trabalho de tradução.

Em se tratando de uma obra estrangeira, para que o livro traduzido em português chegue ao leitor, é preciso, evidentemente, que uma editora o publique. Por vicissitudes várias da história do Brasil, apenas no século 20 é que o setor editorial tem um arranque em nosso país e passa a se desenvolver com solidez. E assim como há um arranque editorial, há também no entremeio algumas iniciativas oportunistas e inescrupulosas. A mais dolorosa e mais vergonhosa delas é o roubo de traduções já feitas e publicadas em alguma outra editora, brasileira ou portuguesa.

E como isso acontece? É simples, em sua desfaçatez: pega-se uma tradução já publicada, muitas vezes até esgotada, elimina-se o nome do tradutor e da editora inicial e publica-se a tradução, seja anonimamente, seja sob outro nome, fictício ou verdadeiro. Simples, não? Não é preciso pedir licença, nem dar nenhuma satisfação moral ou material à editora inicial, às vezes extinta, nem ao tradutor, às vezes já falecido. Quanto ao leitor, o que é que tem? Estando a obra em português, o que mais ele há de querer?

Não é uma prática nova. Já em 1903, vemos a editora H. Garnier, no Rio de Janeiro, publicar o primeiro livro de contos de Edgar Allan Poe no Brasil, sem dar o nome do tradutor, mas ostentando na página de rosto os dizeres “Traducção brasileira”. Ah, sim? Pois um leitor curioso não teria a menor dificuldade em reconhecer imediatamente a tradução feita pela romancista portuguesa Mécia Mousinho de Albuquerque, em 1889! Ou nos anos 1940, quando a editora Pongetti não tinha pejo em se apropriar de traduções feitas por Elias Davidovich para a editora Guanabara e estampá-las sem qualquer licença ou autorização como “tradução revista por Marques Rebelo”.

E não eram apenas a H. Garnier ou a Pongetti a proceder assim: o Clube do Livro, desde os anos 1940 até finais dos anos 1980; a W. M. Jackson, também nos anos 1940 a 1960; a Cultrix e a Edigraf, nos anos 1950; a Hemus, nos anos 1970...

Mas é nos anos 1990 que essa prática adquire dimensões assustadoras, em quantidade de obras e em número de exemplares. Se, antes, a prática existia em alguns títulos esparsos do catálogo daquelas editoras, a partir de 1995, o Círculo do Livro e a Nova Cultural passam a encher as bancas de jornais e as vendas domiciliares com traduções espúrias de literatura e filosofia. E, a partir de 1999, a editora Martin Claret passa a publicar um número significativo de obras com fraudes de tradução. No caso das edições do Círculo do Livro e da Nova Cultural, em particular na coleção Obras-primas de 2002 e 2003, trata-se de tiragens altíssimas, cada uma delas de 70 a 120 mil exemplares em cada edição. No caso da Martin Claret, mesmo em tiragens mais modestas, tal problema afetou muitas dezenas, até centenas de traduções alheias publicadas sob nomes espúrios, em diversas reedições ao longo dos anos.

Como tais fraudes grassavam e prosperavam livremente, vemos, a partir de 2004, uma meia dúzia de outras pequenas editoras enveredar por esses descaminhos. Felizmente, a partir sobretudo de 2008, milhares de leitores, tradutores e docentes começaram a protestar por meio de manifestos e abaixo-assinados, houve denúncias ao Ministério Público, investigações e inquéritos, até que essa onda de aproveitamento espúrio de traduções antigas começou a ceder.

ALVO DAS FRAUDES
As obras mais afetadas nesse tipo de falsificação editorial costumam ser livros de saída certa e mercado garantido: na grande literatura universal, desde Homero a Shakespeare, Jane Austen e Oscar Wilde, e na história do pensamento, desde Aristóteles e Santo Agostinho a Schopenhauer, Nietzsche e Weber, tanto para o público em geral quanto para os cursos universitários de Ciências Humanas, Filosofia e Letras.

E qual o problema para o leitor? Para além da abominação ética e da má prática empresarial, muitas vezes acontece, a partir dos anos 1990, que o texto das traduções vem a ser adulterado, como maneira de procurar disfarçar a cópia.

É fato que algumas das fraudes são meras reproduções ipsis litteris da tradução legítima e, nesse sentido, o texto da tradução em si prossegue inalterado.

Em muitas das fraudes, porém, há tentativas de mascarar o uso ilícito, trocando palavras aqui e ali, adulterando o conteúdo e, em alguns casos, mesmo a coerência e inteligibilidade do texto. Há também casos de alterações ainda mais grotescas, resultando em passagens que não fazem o menor sentido, e outras ainda podem afetar conceitos centrais de um autor.

Contem-se também os casos de montagem de duas traduções diferentes, para compor uma terceira espúria, resultando numa obra de texto irregular, descontínuo e, às vezes, se não contraditório, um tanto disparatado.

Outro aspecto relevante para o leitor, quanto à identidade correta do autor da tradução, é um pouco mais sutil, mas nem por isso menos importante: mesmo para o leitor mais imediatista, faz diferença saber que tal tradução foi feita por Manuel Odorico Mendes ou por Monteiro Lobato ou por Lúcia Miguel-Pereira, sem dúvida – não só pelo valor das contribuições dessas pessoas ao nosso patrimônio cultural, mas também até para entender melhor aquele tipo de texto, aquele tipo de construção e uso da língua portuguesa, dentro de um quadro histórico muito específico e determinado. Uma tradução feita em 1870, ou em 1930, ou em 1940 carrega traços de sua época, o que ajuda o leitor a compor um quadro mais geral da cultura correspondente, em vez de supor que todas essas traduções teriam sido feitas em 2001, 2002 ou 2003.

Para concluir, vale a ressalva: uma tradução legítima não significa necessariamente que ela seja de boa qualidade. Porém, uma tradução espúria é sempre e necessariamente uma fraude.

Como as pessoas, em geral, não gostam de ser enganadas, há maneira de se precaver contra essas práticas inescrupulosas? Não há receita certa, mas alguns conselhos podem ser úteis: ao comprar um livro, é importante que o leitor verifique quem o traduziu. É recomendável sempre recusar toda e qualquer obra traduzida que não traga o nome do tradutor. E sempre fugir de traduções em nome de fantasmas como “Enrico Corvisieri”, “Pietro Nassetti”, “Jean Melville”, “Alex Marins”, “Leopoldo Holzbach”, “Peter Klaus Ivanov”, “Pedro H. Berwick”, entre outros – são sinais certos de fraude.

Por fim, como várias dessas obras pilhadas e saqueadas são traduções antigas e esgotadas, o melhor seria que um dispositivo previsto na legislação brasileira referente aos direitos autorais realmente entrasse em vigor: que essas obras de tradução órfãs e abandonadas passassem a ser de domínio público. O acesso a elas seria livre, qualquer editora interessada poderia publicá-las sem falcatruas. Dando os devidos créditos e nomes verdadeiros, os leitores não seriam ludibriados e a memória de nossa história cultural – que tanto passa pelo trabalho de tradução – seria mais bem preservada.