25 de abr. de 2023

olívia krähenbühl, III

começo agora a parte iconográfica, com imagem de capa (ou de página de rosto) das obras traduzidas por olívia, conforme a listagem apresentada aqui. seguem-se as publicações de 1956 a 1963:


   



 


 


 

 

 
 
 


 

  


ver olívia krähenbühl, I, aqui
ver olívia krähenbühl, II, aqui
ver olívia krähenbühl, IV, aqui



 (continua)

24 de abr. de 2023

olívia krähenbühl, II

apresentei na postagem anterior, aqui, os artigos, poemas e breves traduções avulsas de olívia krähenbühl publicados em revistas e jornais.

quanto à tradução de livros, sua estreia se dá com o caminho da perdição, de upton sinclair, num trabalho a quatro mãos com aurélio buarque de holanda. aqui cabe notar que muitas fontes - imagino que baseadas numa menção de paulo rónai - dão o ano de 1943 como data de lançamento dessa edição brasileira. trata-se de um equívoco, porém. 1943 é o ano em que wide is the gate saiu nos estados unidos, sendo que o caminho da perdição foi lançado entre nós em 1945, pela edições cruzeiro.

aliás, já em outubro de 1943, estando olívia e aurélio a cargo da tradução de wide is the gate, ambos escrevem uma resenha conjunta sobre a obra (aqui), que se inicia explicando a opção pelo título em português, e em janeiro de 1944 olívia escreve outra resenha, um pouco mais aprofundada, sobre a mesma obra (aqui). em janeiro do ano seguinte temos o lançamento brasileiro, com algumas notas e anúncios na imprensa. a imagem, diga-se de passagem, é impressionante.


depois dessa experiência inicial, imagino que com o sólido amparo de aurélio buarque, 
passar-se-ão onze anos até que surja outra obra traduzida por ela. 

mas nos anos 40 houve ainda outra breve experiência sua no setor editorial: em 1946, a josé olympio publica cranford, de elizabeth gaskell, em tradução de rachel de queiroz, em sua coleção fogos cruzados, vol. 53. a edição é acompanhada por notas e notícia biográfica elaboradas por olívia. 


quanto à tradução editorial, somente em 1956 olívia volta à cena, com uma fábula, de william faulkner, pela editora mérito. publicada nos eua em 1954, a fable valeu a faulkner dois importantes prêmios em 1955: o pulitzer prize e o national book award. estranhamente, o lançamento da edição brasileira teve pouquíssima repercussão na imprensa da época. encontrei apenas a resenha feita pela própria olívia, "'uma fábula' de william faulkner", citada na postagem anterior, e em 1957 um trecho publicado no suplemento dominical do jornal do brasil, aqui. em 1961, essa tradução de olívia passa a ser editada pela nova fronteira, onde se mantém até a data de hoje.

também em 1956 é lançado um trabalho de grande fôlego, um verdadeiro marco: a primeira coletânea de poemas de emily dickinson a surgir no brasil, com seleção, organização e tradução de olívia krähenbühl. saiu pela editora saraiva, em sua coleção cântico dos cânticos - as obras-primas da poesia universal, vol. 4. o livro, contendo 41 poemas, trazia o título poesias escolhidas de emily dickinson, com ilustrações de darcy penteado. a despeito da relevância desse lançamento, a cobertura na imprensa da época, tal como no caso de uma fábula, tampouco foi expressiva: apenas quatro breves notas ao longo dos meses subsequentes. em anos posteriores serão reproduzidos na imprensa alguns poemas avulsos.

  

no ano seguinte, uma curiosidade, e aqui temos de recuar alguns anos: em 1950, quando a josé olympio lançou moby dick, de herman melville, em tradução de berenice xavier, foram omitidas as epígrafes sobre as baleias. na segunda edição da obra, em 1957, a editora as reintroduziu, em tradução feita por olívia. 

em 1958, também pela josé olympio, sai sua tradução de o etrusco, de mika waltari, reeditada pela JO em 1967 na coleção sagarana, vol. 62.

 

seguem-se em 1960:
  • volume VIII das Obras Completas de Dostoiévski, pela JO, Noites brancas e outras histórias, com oito histórias em tradução de olívia krähenbühl e vivaldo coaracy. "noites brancas" e não sei quais outras foram traduzidas por ela, e ignoro quais couberam a coaracy 
  • idem, volume IX, O ladrão honrado (várias histórias). das seis histórias que compõem o volume, olívia traduziu três: "o ladrão honrado", "o sonho do titio" e "a mulher alheia e o homem debaixo da cama".
  • poemas de Matthias Claudius ("O semeador") e Georg Trakl ("Decadência") em Poesia Alemã - traduzida no Brasil, org. Geir Campos, MEC, Serviço de Documentação, Coleção Letras e Artes, vol. 9, 1960
  • A coroa e a cruz - a vida de Jesus Cristo, de Frank Slaughter, pela Cultrix em sua coleção Romances Históricos
se até então nota-se um veio digamos místico ou religioso em vários de seus trabalhos, desde seus poemas e breves publicações em periódicos a partir de 1941 até Claudius e Slaughter em 1960, de 1961 em diante a coisa muda de figura. ainda mantendo em certa medida sua dedicação ao papel formador da literatura na infância, amplia-se muito o espectro temático, varia muito a qualidade das obras e aumenta bastante a quantidade de livros que passa a traduzir. Segue abaixo a listagem de suas traduções, ordenadas por ano de publicação

Em 1961:
  • Em primeiro lugar, merece registro uma “Nota referente aos pagamentos efetuados a Olívia Krahenbuhl pela tradução do livro Jane Eyre”, pela Livraria José Olympio Editor, de 1961, que se encontra nos acervos da Biblioteca Nacional, Seção de Manuscritos –81,03,04 nº. 032. O documento indica inequivocamente que Olívia chegou a fazer a tradução – mas, por razões que ignoro, nunca veio a ser publicada.
  • Histórias que ninguém esquece - adaptadas para leitura educativa, tradução e adaptação de Treasure book of fairy tales, retold by Ann McGovern (1959), pela BestSeller 
  • Capitão Rebelde, de Frank Yerby, pela José Olympio
  • Maravilhas do Conto Infantil, trazendo contos de  Andersen, Grimm, Perrault, Mme D´Aulnoy, Condêssa de Ségur, Esopo, Fedro, La Fontaine e três lendas brasileiras, pela Cultrix, na coleção Maravilhas do Conto Universal. Reed. em 1967 como O Livro de Bolso dos Contos Infantis.
  • Psicose, de Robert Bloch, romance de 1959 que inspirou o filme homônimo de Hitchcock (1960), pela BestSeller
  • O Homem-S - Uma gramática do sucesso, de Mark Caine,  pela Pioneira 
Em 1962:
  • Sublime obsessão, de Lloyd Douglas, pela Edart, em sua coleção Shangrilá, vol. 6. Nos exemplares consta 3a. edição, mas, como a JO lançara a mesma obra em 1941 e, depois, em 1955 na tradução de Ligia Junqueira Smith, creio que é a isso que se refere a menção da Edart.
  • Madeleine, de Catherine Irvine Gavin, pela Cultrix em sua coleção Romances Históricos
Em 1963:
  • Em Novelas Orientais, com seleção de Jamil al-Mansur Haddad, Olívia traduziu a seção de Narrativa Árabe, com "História da Princesa de Dryabar" (das Mil e Uma Noites), e revisou a tradução de Antònio Nojiri para a seção de Narrativa Japonesa, "A história do cortador de bambus", na coleção O Mundo da Novela, vol. 4, da Cultrix
  • Em Novelas Inglesas, com seleção de Jorge de Sena, Olívia traduziu A volta do parafuso, de Henry James, na coleção O Mundo da Novela, vol. 8, da Cultrix.
  • Contos de Andersen, de Hans Christian Andersen, com seleção de José Paulo Paes, pela Cultrix, reed. em 1964 como vol. 1 de sua coleção Clássicos da Infância
  • A linguagem no pensamento e na ação, de Samuel Hayakawa, pela Pioneira, em sua Biblioteca Pioneira de Arte e Comunicação
  • A Árvore de Judas, de A.J. Cronin, pela José Olympio, coleção Sagarana, vol. 7
  • Aprenda sozinho filosofia, de C.E.M. Joad, pela Pioneira
Em 1964:
  • A torre inclinada e outras histórias, de Katherine Anne Porter, contendo, além de "A torre inclinada", mais oito histórias: "A fonte", "A testemunha", "O circo", "A velha ordem", "A última folha", "A sepultura", "A descida para a sabedoria" e "Um dia de trabalho", pela Cultrix, na coleção Grandes Contistas  
  • Histórias de Nathaniel Hawthorne, seleção e tradução de Olívia, contendo onze contos: "O paladino grisalho", "O véu negro do ministro", "Os retratos proféticos", "O experimento do dr. Heidegger", "O sinal de nascença", "A estrada de ferro celestial", "Cabeça-de-Pena: Uma Lenda Moral", "O egoísmo ou a serpente no peito", "Drowne e sua imagem de madeira", "O grande rosto de pedra" e  "Ethan Brand", pela Cultrix, na coleção Grandes Contistas
  • Histórias de Jack London, seleção e tradução de Olívia, contendo dez contos "O silêncio branco", "Cara no chão", "A liga dos velhos", "A Casa de Mapuhi", "A História de Keesh", "A inteligência de Poportuk", "O mexicano", "A pérola de Parlay", "Para o homem na trilha" e "O Pagão", pela Cultrix, na coleção Os Maiores Escritores de Todos os Tempos, vol. 3
  • Vença o medo e a depressão, de Allan Worley, pela Cultrix
Em 1965:
  • Contos de Perrault, pela Cultrix, coleção Clássicos da Infância
  • Histórias de Conrad Aiken, contendo quinze contos: "A última visita", "Ei, táxi", "Campo de flores", "Impulso", "A peixada", "Geena", "Amo-a carinhosamente", "Seu obituário, bem escrito", "As gravatas", "A vida não é um conto", "O momento", "Penugem de cardo", "Smith e Jones", "Oh, como ria!" e "A mariposa alaranjada", pela Cultrix, na coleção Grandes Contistas
  • Destinos obscuros, de Willa Cather, contendo nota biográfica sobre a autora, "O vizinho Rosicky", "A velha mrs. Harris" e "Dois amigos", pela Cultrix 
  • A teoria da classe ociosa (Um estudo econômico das instituições), de Thorstein Veblen, pela Pioneira
  • O aventureiro Strode, de Hammond Innes, pela José Olympio, em sua coleção Cadeira-de-Balanço
Entre 1966 e 1970:
  • A porta no muro, de Oliver La Farge, em seleção de Olívia, contendo oito histórias, pela Cultrix, na coleção Grandes Contistas, 1966
  • Os judeus no Brasil colonial, de Arnold Wiznitzer, pela Pioneira e EdUSP, 1966
  • O delator, de Egar Wallace, pela Cultrix, 1968
  • Contos de Herman Melville, com seleção e introdução de Olívia, contendo: "Bartleby", "O homem do para-raios", "O terraço" e "Benito Cereno", pela Cultrix, 1969
  • Relações públicas, de Bertrand Canfield, 2 vols., pela Pioneira, 1970
Em 1971:
  • O planeta de Neanderthal, de Brian W. Aldiss, pela Cultrix
  • As religiões africanas no Brasil: contribuição a uma sociologia das interpenetrações de civilizações, de Roger Bastide, com tradução a quatro mãos com Maria Eloisa Capellato, pela Pioneira, na Biblioteca Pioneira de Ciências Sociais, 2 vols.
  • A pista da chave de prata, de Edgar Wallace, pela Cultrix
Em 1972:
  • Os pioneiros americanos no Brasil: educadores, sacerdotes, covos e reis, de Frank P. Goldman, pela Pioneira
  • Outros tempos, outros mundos, de Robert Silverberg, contendo dez contos: "O homem que jamais esquecia", "Ismael apaixonado", "Viagem de ida sem volta", "Nascer do sol em Mercúrio", "Os exógamos", "Estrada para o anoitecer", "Um descer suave", "A contraparte", "Moscas", "Os dentes das árvores", na coleção Ficção Científica da Cultrix
Em 1973:
  • O mistério dos narcisos, de Edgar Wallace, pela Cultrix
  • Aprenda sozinho ioga, de James Hewitt, pela Pioneira
  • Aprenda sozinho budismo zen, de Christmas Humphreys, pela Pioneira
  • Aprenda sozinho a pensar, R.W. Jepson, pela Pioneira
Após seu falecimento em 1973, ainda saiu A Europa de 1815 aos nossos dias, de J.B. Duroselle, em 2 tomos, na coleção Nova Clio - A História e seus problemas, vol. 38, pela Pioneira, em 1976.

ver olívia krähenbühl, I, aqui
ver olívia krähenbühl, III, aqui
ver olívia krähenbühl, IV, aqui

(continua)


22 de abr. de 2023

"quem tem medo de traduzir virginia woolf?"

um breve comentário meu em "quem tem medo de traduzir virginia woolf?", 

na seção drops da vitruvius, disponível aqui.


em tempo: quem se interessar pela questão,
recomendo o blog de acompanhamento da tradução:
https://aofaroldewoolf.blogspot.com/ 


Essa coisa de tradução às vezes cansa: outro dia encontrei alguém reclamando que o título Ao farol (“To the Lighthouse”), da Virginia Woolf, é "muito vago", e melhor seria usar "passeio ao farol".

Suspiro... (na verdade, vários suspiros...)

O farol não é só nem principalmente o farol da ilha que se enxerga da casa do casal Ramsay. É sobretudo a grande, centralíssima, ponderosíssima metáfora do papel da senhora Ramsay como o “farol” da família, que ilumina, orienta e vitaliza as relações entre seus integrantes.

O “to” em To the Lighthouse nada tem de vago: é denso e até pode ser ambíguo – é não só nem principalmente uma ida de bote (um “passeio”) até o farol físico, mas sobretudo uma dedicatória!

Como diz Virginia Woolf, o livro nem seria propriamente um romance: ela diz que gostaria de chamá-lo de elegia, uma homenagem póstuma à sua finada mãe, e é a ela que a autora o dedica.

Como já disseram, “no dictionary can classify the most famous ‘to’ in twentieth-century literature: the title of To the Lighthouse, with its specially laden and layered meanings of orientation and dedication, energy and elegy” (1).

(Por isso também gosto da capa da edição da L&PM, em que o alterego de Virginia Woolf contempla o farol, em vez de apresentar algum barquinho indicando um aplainado passeio ao farol (2). E a contemplação entre nuvens pesadas, águas agitadas, rajadas de vento – quem leu o livro bem sabe quantos conflitos, quantas questões se agitam dentro e em torno da família, e o “farol” ali, sempre firme, forte e fiel, como dizem).

É até por essas e outras que certa vez meio que me exasperei em uma entrevista em que uma das entrevistadoras insistia freneticamente na importância como que fundadora [!] do que ela chamava de “crítica” – e tão freneticamente insistia, até mesmo invocando o mais perfunctório comentário de algum leitor (“aain, não gostei...”), e tanto me exasperei que fui curta e grossa: “bom, aí o problema é dele; meu problema é com a obra, a responsabilidade diante dela”. Ela fez uma cara... mas, no fundo, para mim, é isso mesmo.

nota

1
FOWLER, Rowena. Virginia Woolf: Lexicographer. English Language Notes, v. 39, n. 3, Durham (EUA), mar. 2002, p. 54-70. Disponível em pdf na página web da autora no website da Universidade de Oxford: <https://bit.ly/3mO1UZe>.

2
WOOLF, Virginia. Ao farol. Tradução de Denise Bottmann. Porto Alegre, L&PM, 2013.


19 de abr. de 2023

fico feliz em poder informar que saiu meu artigo sobre "a coleção rubáiyát", disponível aqui




17 de abr. de 2023

olívia krähenbühl, I

olívia krähenbühl: são poucos os dados biográficos de que disponho a seu respeito. sei que nasceu em piracicaba em 5 de janeiro de 1900, filha de bertha maria müller e do suíço-alemão joão [johann] krähenbühl (que chegara ao brasil aos 3 anos de idade, com os pais imigrantes de berna), e faleceu em são paulo em 16 de junho de 1973. 

em 1922, olívia partiu como imigrante para os estados unidos, mas lá, casada com wesley duque lee (1897-?), morou apenas por alguns anos. (ao que parece, e por alguma razão que desconheço, nunca adotou publicamente o sobrenome do marido, que não consta nem mesmo em sua certidão de óbito.) 

de volta ao brasil, estabelecendo-se em são paulo, olívia montou uma loja de modas e confecções na rua do arouche, no centro da cidade. tenho notícias de que a loja esteve em funcionamento pelo menos entre 1928 e 1931. em 1933, ainda residia em são paulo, tendo feito doação de livros à recente biblioteca pública municipal (a atual mário de andrade). porém, em 1937 já estava morando - não sei a partir de que ano - no rio de janeiro. lá parece ter ficado até o começo dos anos 1960, então retornando para são paulo, onde firmaria residência até o final de vida.

há registros de publicações esporádicas suas em revistas e jornais a partir de 1941: poemas, artigos, uma ou outra breve tradução. passa a se dedicar mais sistematicamente à atividade como tradutora a partir de 1956, quando morava no rio de janeiro, fazendo traduções para a josé olympio. depois, mudando-se para são paulo, passa a traduzir para as editoras cultrix e pioneira, e prossegue no ofício até a época de seu falecimento.

inicialmente arrolo em ordem cronológica a lista de suas publicações em periódicos, sejam elas de textos próprios ou traduzidos:

  • "Amor", de Guy de Maupassant (trad.), conto na Revista do Brasil, seção "O Conto Estrangeiro". Ano IV, 3a. fase, n. 39, 1941 
  • "A [O] Caminho da Perdição", resenha com Aurélio Buarque de Holanda em O Jornal, 22 de outubro de 1943
  • "Cântico de gratidão": Cântico dedicado à Miss Epps. Voz Missionária - Revista Trimestral para as Sociedades Metodistas de Senhoras. Ano XIV, n. 4, 1943
  • "O Caminho da Perdição e o Entremês do Apaziguamento", resenha em O Jornal, 4 de janeiro de 1944
  • "Heróis sem alma", artigo no Correio da Manhã, 2a. seção, 19 de março de 1944
  • "A estrada da vida": Poesia à Miss Cobb. Voz Missionária - Revista Trimestral para as Sociedades Metodistas de Senhoras. Ano XV, n. 3, 1944
  • "Duplo aspecto da tradução", artigo no Correio da Manhã, 2a. seção, 3 de setembro de 1944
  • "O pai do homem", artigo no Correio da Manhã, 2a. seção, 22 de outubro de 1944
  • "Literatura Infantil", artigo na revista Leitura - Crítica e Informação Bibliográfica, n. 24, novembro de 1944
  • "Vivandeiras da Carne Humana", artigo no Correio da Manhã, 2a. seção, 3 de dezembro de 1944
  • "Vidas comuns": Poesia para Juanita Campos. Voz Missionária - Revista Trimestral para as Sociedades Metodistas de Senhoras. Ano XVI, n. 1, 1945
  • "Contraponto Social", artigo em Walkyrias. Ano XI, n. 134, novembro de 1945*
  • "Amendoeira em flor", de Stephen Spender (trad.), poema no Correio da Manhã, 1o. caderno, 29 de novembro de 1952
  • "Um rosto", de Emily Dickinson (trad.), poema em Letras e Artes - Suplemento de A Manhã, 4 de janeiro de 1953
  • Poema/s (não sei qual ou quais), de Stephen Spender (trad.), na Revista Brasileira de Poesia. Ano V, n. 6, 1953 
  • "Despedida sem lamentação", de John Donne (trad.), poema em A Nação, 4 de abril de 1954
  • Poema/s (não sei qual ou quais) de Dylan Thomas (trad.), na Revista Brasileira de Poesia. N. 7, 1956
  • "'Uma fábula' de William Faulkner", resenha em Para Todos - quinzenário da cultura brasileira, seção Livro Traduzido, Ano I, n. 10, 1a. quinzena de outubro de 1956
  • "A Linguagem como Tema", artigo sobre Guimarães Rosa em Diálogo - Revista de Cultura, n. 8, nov. 1957** 

* neste artigo. olívia krähenbül é curiosamente apresentada como "jornalista americana"
** sua posição a respeito da linguagem de guimarães rosa é retomada por paulo rónai em seu artigo "a trajetória de uma obra", prefaciando a seleta de guimarães rosa, em 1973, onde ele cita: "'Nunca entre nós... ofereceu uma obra tamanha virtuosidade e um tão fértil terreno linguístico - uma tão completa e minuciosa exploração do discurso em todas as suas múltiplas facetas. Por isso - e embora o sr. Guimarães Rosa não se afaste um só momento do sertão - a sua realidade pode dizer-se que é a linguagem', afirma Olívia Krähenbühl".






as publicações em periódicos digitalizados se encontram:
  • "a [o] caminho da perdição", aqui
  • "o caminho da perdição e o entremês do apaziguamento", aqui
  • "heróis sem alma", aqui
  • "duplo aspecto da tradução", aqui
  • "o pai do homem", aqui
  • "vivandeiras da carne humana", aqui
  • "contraponto social", aqui
  • "amendoeira em flor", aqui
  • "um rosto", aqui
  • "despedida sem lamentação", aqui
  • "'uma fábula' de william faulkner", aqui

o conto de maupassant, "amor", foi reproduzido, com nota introdutória de aurélio buarque de holanda, no diário de notícias, seção "letras artes ideias gerais", em 21 de setembro de 1947, aqui.


ver olívia krähenbühl, II, aqui
ver olívia krähenbühl, III, aqui
ver olívia krähenbühl, IV, aqui


(continua)

14 de abr. de 2023

grandes começos: mrs. dalloway


"Este cartazete faz parte da Coleção Grandes Começos da Tipografia Quelônio, com inícios consagrados de obras da literatura brasileira e universal. Foi feito em processos artesanais de impressão, a partir de clichês tipográficos, tipos móveis e de linotipia, técnica que gera matrizes em chumbo para a composição do texto." disponível aqui.


31 de mar. de 2023

apresentação

"você sabe quem é denise bottmann?", uma simpática e generosa apresentação de dennys silva-reis na série historiográfica tradutrix, disponível aqui




13 de fev. de 2023

publicação teatral no brasil

 "Uma Biblioteca Teatral Brasileira: publicação, circulação e políticas para edições de teatro (1917-1948)", tese de doutorado de henrique brener vertchenko, é um trabalho de pesquisa fabuloso, preciosíssimo. está disponível no academia.edu, aqui.



11 de fev. de 2023

hume no brasil



um interessantíssimo artigo de jaimir conte sobre as traduções das obras de david hume em português, disponível aqui.

o artigo traz um meticuloso levantamento das traduções publicadas no brasil e em portugal - reproduzo abaixo apenas as traduções brasileiras arroladas no referido levantamento.

1950 “Da simplicidade e do requinte na maneira de escrever”. In: Ensaístas ingleses. Tradução de José Manuel Sarmento de Beires e Jorge Costa Neves. Apresentação de Lúcia Miguel Pereira. Rio de Janeiro. Clássicos Jackson XVIII. W. M. Jackson editores.

1963 Ensaios políticos. Tradução de E. Jacy Monteiro. Série Clássicos da Democracia, v. 9. São Paulo: Ibrasa.

1967 Ensaios políticos. Tradução: João Paulo Monteiro. In: David Hume: ensaios políticos, tradução, introdução e notas. Dissertação de mestrado USP.

1972 Investigação acerca de entendimento humano. Tradução de Anoar Aiex. São Paulo, Companhia Editora Nacional/ Editora da USP.

1973 Investigação sobre o entendimento Humano. Tradução de Leonel Vallandro / Ensaios morais, políticos e literários. Tradução de João Paulo Monteiro e Armando Mora de Oliveira. In: Col. ‘Os Pensadores’, 1ª edição. São Paulo: Abril Cultural.

1975 Sumário do Tratado da natureza humana. Tradução, introdução e notas de Anoar Aiex. São Paulo, Companhia Editora Nacional.

1980. Investigação sobre o entendimento Humano. Tradução de Leonel Vallandro / Ensaios morais, políticos e literários. Tradução de João Paulo Monteiro e Armando Mora de Oliveira. In: Col. ‘Os Pensadores’, 2ª edição. São Paulo: Abril Cultural.

1983 Escritos sobre economia. Tradução de Sara Albieri; revisão de João Paulo Monteiro; apresentação de Rolf Kuntz. Col. ‘Os Economistas’. 1a  edição. São Paulo: Abril Cultural.

1992 Diálogos sobre a religião natural. Tradução de José Oscar de Almeida Marques. Prefácio e bibliografia atualizada, preparados por Michael Wrigley. São Paulo: Editora Martins Fontes, Coleção Clássicos XXVI.

1995 Resumo de um Tratado da natureza humana./An abstract of a treatise of human nature/ Ed. Bilíngue. Tradução de Rachel Gutierrez e Jose Sotero Caio. Porto Alegre: Editora Paraula.

1995 Uma investigação sobre os princípios da moral. Tradução e apresentação de José Oscar de Almeida Marques. Campinas, SP: Editora da Unicamp.

1996 Investigação acerca do entendimento humano. Tradução de Anoar Aiex. / Ensaios morais, políticos e literários. João Paulo Gomes Monteiro e Armando Mora D'Oliveira. In: Col. ‘Os Pensadores’. 6a  edição. São Paulo: Nova Cultural.

1997 Carta de um Cavalheiro a seu amigo em Edimburgo. Tradução de Plínio Junqueira Smith. In: Revista Manuscrito, Volume XX, n. 2 outubro de 1997, Campinas/CLE/Unicamp, 15-27.

1999 Investigação sobre o entendimento humano. Tradução de José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Editora UNESP.

2001 Tratado da natureza humana. Uma tentativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais. Tradução de Débora Danowski. 1a  ed. São Paulo: Editora da UNESP / Imprensa Oficial do Estado.

2003 Ensaios políticos. Kund Haakonsen (org.). Tradução de Pedro Paulo Pimenta. Série Clássicos Cambridge de filosofia política. São Paulo: Martins Fontes.

2004 Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Tradução de José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Ed. UNESP.

2004 Do suicídio e outros textos póstumos. Tradução de Jaimir Conte; Davi de Souza e Daniel Swoboda Murialdo. Desterro: Edições Nefelibata.

2004 Ensaios morais, políticos e literários. Miller, Eugene E. (Org.). Tradução de Luciano Trigo. Introdução de Renato Lessa. 1ª edição, Rio de Janeiro: Liberty Fund/Topbooks.

2005 História natural da religião. Tradução, apresentação e notas Jaimir Conte. São Paulo: Ed. UNESP.

2006 Ensaios políticos. Tradução de Saulo Krieger. Série Fundamentos de direito. São Paulo: Editora Ícone.

2006 Investigação sobre o entendimento humano. Tradução de André Campos Mesquita. São Paulo: Escala Educacional.

2006 Da imortalidade da alma e outros textos póstumos. Tradutores de Daniel Swoboda Murialdo, Davi de Souza, Jaimir Conte. Ijuí, RS: Editora da UNIJUÍ.

2008 Do suicídio. Tradução de Lívia Guimarães. In: Os Filósofos e o Suicídio (Coleção Travessias). Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais.

2008 Da delicadeza da paixão e do gosto. Tradução de Lívia Guimarães. In: Os Filósofos: Clássicos da Filosofia. Pecoraro, Rossano. (Org.) vol. I. Rio de Janeiro: Editora PUC Rio – Editora Vozes.

2009 Tratado da natureza humana. Uma tentativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais. Tradução de Débora Danowski. 2 edição, revista e ampliada. São Paulo: Editora da UNESP / Imprensa Oficial do Estado.

2010 Investigação sobre o entendimento humano. Organização e tradução de Alexandre Amaral Rodrigues. São Paulo: Editora Hedra.

2010. Da liberdade e necessidade (Seção 8 da Investigação sobre o entendimento humano). Tradução de José Oscar de Almeida Marques. In Marçal, Jairo (org.) Antologia de Textos Filosóficos. Curitiba: Secretaria de Estado da Educação do Paraná (nova tradução preparada especialmente para essa edição).

2011 A arte de escrever ensaio e outros ensaios: (morais, políticos e literários). Seleção Pedro Paulo Pimenta. Tradução de Márcio Suzuki e Pedro Paulo Pimenta. São Paulo: Iluminuras, 2008.

2011 Do padrão do gosto. Tradução de Rafael Fernandes Barros de Souza. In: O padrão do gosto na filosofia de Hume: um argumento e os seus aspectos. Dissertação de mestrado. Orientação: José Oscar de Almeida Marques. Campinas: Unicamp, p. 103-126.

2011 Carta à sra. Dysart de Eccles. Tradução de Pedro Paulo Pimenta. Folha de São Paulo, Ilustríssima 07/08/2011.

2011 Dissertação sobre as paixões. Tradução: Jaimir Conte. Revista Princípios. v.18, n.29, jan./jun. 2011, p. 371-399.

2013 Uma investigação sobre os princípios da moral. Tradução e apresentação de José Oscar de Almeida Marques. 2a  edição. São Paulo: Ed. Unicamp.

2013 Uma espécie de história da minha vida. Tradução de Jaimir Conte. Revista Litterarius. v. 12, n.2, 2013.

2013 O estoico. Tradução de Marcos Balieiro. Anais de Filosofia Clássica, v. 7 n.13, 2013.

2016 Diálogos sobre a religião natural. Tradução, notas e posfácio de Bruna Frascolla. Salvador: EdUFBA. (Inclui seleção de cartas de Hume feitas à época de sua revisão da obra, além de fragmentos inéditos em português.)

2015 História da Inglaterra. Da invasão de Júlio César à Revolução de 1688. Tradução de Pedro Paulo Pimenta. São Paulo: Editora da Unesp.

2017 Um ensaio histórico sobre a cavalaria e a honra dos modernos. Tradução e apresentação de Marcos Balieiro. Revista Prometeus. n. 23.

2017 Da simplicidade e do refinamento na escrita. Tradução de Bruno Henrique de Souza Soares. Controvérsia, São Leopoldo, v. 13, n. 2, p. 156-162.

2021 O cético. Tradução e apresentação de Marcos Balieiro. Sképsis: Revista de Filosofia. Vol. XII, N. 22, p. 136-51. 


21 de jan. de 2023

ipê - instituto progresso editorial, IX

 em 3 de agosto de 1947, o ipê publica seu primeiro anúncio na imprensa com os volumes que lançara até a data, aqui, à exceção do livro infantil tomaz, da coleção colibri.

embora não nomeadas, são sete as coleções abarcando os oito títulos divulgados na propaganda. 




17 de jan. de 2023

ipê, instituto progresso editorial - VI

a sexta coleção publicada pelo ipê era composta por edições de luxo em francês, impressas na itália, com tiragens restritas a 500 exemplares. 


COLLECTION DES POÈTES MAUDITS

Coleção de obras poéticas, 4 volumes

clique na imagem para ampliar

Baudelaire, Charles

Les Fleurs du Mal

Collection des Poètes Maudits, 1

1947

Verlaine, Paul

Choix de poésies

Collection des Poètes Maudits, 2

1947

Rimbaud, Arthur

Oeuvres completes – Illuminations, Une saison en enfer, Premiers vers

Collection des Poètes Maudits, 3

1947

Mallarmé, Stéphane

Poésie et un poème

Collection des Poètes Maudits, 4

1947


encontra-se no ano seguinte, em 1948, uma publicação do ipê com traços muito semelhantes aos encontrados nos volumes da collection des poètes maudits: o volume poèmes des années perdues, de um poeta estreante, então com 20 anos de idade, chamado claude pernié. o papel e o formato são similares, a temática é compatível com a da coleção (poemas), a língua de edição é o francês. a impressão, um pouco menos requintada, porém, foi feita na paulistana tipografia edanée. cabe também notar que os volumes da collection des poètes maudits traziam especificado o nome da coleção no alto da página de rosto. no volume de autoria de pernié, nota-se a ausência do nome da coleção, assim vetando a possibilidade de supor que a obra integraria a collection. não excluo a hipótese, a meu ver bastante plausível, de que a publicação tenha sido encomendada pelo próprio autor.



mais uma breve observação: haroldo de campos, num artigo publicado no jornal o estado de s. paulo, em  26 de setembro de 1998, à p. 107, aqui, mencionava rapidamente essa coleção, citando jules laforgue entre os autores da série. foi um engano seu, muito compreensível, aliás, em vista do tempo decorrido.

acompanhe: ipê - coleções, aqui


23 de nov. de 2022

literatura irlandesa no brasil

 irish literature in brazil since 1888, o excelente levantamento de peter o'neill, que já utilizei e citei várias vezes aqui neste blog, agora está disponível em https://dokumen.tips/documents/irish-literature-in-brazil-since-1888.html?page=1

os escritores presentes no levantamento são:

Cecelia Ahern, John Banville, Sebastian Barry, Samuel Beckett, Brendan Behan, Richard Beirne, Maeve Binchy, Dermot Bolger, Patrick Boyle, Edmund Burke, Marina Carr, Eiléan Ní Chuilleanáin, Eoin Colfer, Seamus Deane, J. R. Donleavy, Emma Donoghue, Siobhan Dowd, Roddy Doyle, Anne Enright, Brian Friel, Brian Gallagher, Oliver Goldsmith, Seamus Heaney, Melissa Hill, Neil Jordan, James Joyce, Marian Keyes, Patrick McCabe, Colum McCann, Frank McCourt, Michael McLaverty, Brian Moore, Tom Murphy, Edna O‟Brien, Fitz-James O‟Brien, Flan O‟Brien, Sean O‟Casey, Joseph O‟Connor, John O‟Donoghue, Séan O‟Faolain, Nuala O‟Faolain, Liam O‟Flaherty, Kevin Power, George Bernard Shaw, Somerville and Ross, James Stephens, Laurence Sterne, Bram Stoker, Jonathan Swift, Colm Tóibín, Oscar Wilde, Vincent Woods, William Butler Yeats.


1 de nov. de 2022

"aproveitando o trabalho do tradutor"

 sempre bom lembrar - agradeço a lucas verzola







12 de ago. de 2022

tradução é tudo de bom

 

Tradução é tudo de bom  

Desde Su-ilisu, tradutor de Meluhha, aquela antiga civilização do Indo de uns 4.500 anos atrás, ao Google Translator, tra, trans, über é sempre uma questão de passar: passar daqui para lá, de lá para cá. Contato, mistura, intercâmbio, compartilhamento. Tradução é a língua franca, a língua universal. Não consigo dissociar tradução de humanidade. E ao longo do tempo é essa fecundação que contribui incomensuravelmente para formar a cultura de um povo, a identidade de um país, permitindo seu crescimento, ampliando seus horizontes.

No Brasil, vamos ter o início efetivo da tradução como atividade sistemática, constante, profissional a partir da década de 1930. Claro que há antecedentes, sobretudo em revistas e jornais, mas a atividade tradutória só adquire constância, relevo e densidade a partir daquela década, pois é quando se tem a decisiva arrancada da indústria editorial nacional. Excepcionalmente tardio, não? Oitenta anos, apenas. Formação irregular, trajetória ainda incipiente, em certo sentido, se comparada à de outros países. Os nomes que participaram daquelas décadas iniciais da tradução como atividade profissional razoavelmente regular e sistemática no país não soam como herança muito distante: estão logo ali. Monteiro Lobato, Erico Veríssimo, Rachel de Queiroz, Manuel Bandeira, Mario Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Lívio Xavier, Elias Davidovitch, tantos e tantos. E toda a grande questão é que nosso patrimônio cultural e nosso próprio sistema literário guardam laços indissociáveis com esse ofício exercido por milhares e milhares de obscuros ou célebres tradutores.

Assim, tive um tremendo susto, um choque mesmo, em 2007, ao saber por meio de um colega tradutor, Saulo von Randow Jr., que a tradução de Brenno Silveira de Ivanhoé de Walter Scott, lançada pela Martins nos anos 1950, fora apropriada pela editora Nova Cultural em 2003, apresentando-a em nome de um misterioso “Roberto Nunes Whitaker”. Conversa vai, conversa vem, pesquisa vai, pesquisa vem, o que se descobriu foi a existência de uma verdadeira indústria de falcatruas de tradução, bem como vários alertas sobre essa prática espúria. Aqui vou fazer uma rápida reconstituição cronológica desses alertas.

Foi assim: em dezembro de 2001, o crítico literário Alfredo Monte denunciava em sua coluna no jornal santista A Tribuna que a tradução de Frankenstein, de Mary Shelley, publicada naquele mesmo ano pela editora Martin Claret em nome de Pietro Nassetti, era idêntica à anterior de Éverton Ralph, pela Ediouro. Creio que foi esta a primeira denúncia pública de uma praga que, como veríamos depois, já começara a infestar o mundo editorial numa escala inédita, desde alguns anos antes. Em 2002, o fino crítico e tradutor Ivo Barroso publicava um artigo chamado “Cyrano sem penacho”, demonstrando que a edição de Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, pela editora Nova Cultural, com tradução em nome de Fábio M. Alberti, não passava de uma despudorada apropriação e deturpação do trabalho de Carlos Porto Carreiro, publicado pela J. Ribeiro dos Santos em c.1907, mas várias vezes relançado pela Abril Cultural a partir de 1973. Ainda em 2002, o mesmo Ivo Barroso escreveu um artigo chamado “Flores roubadas do jardim alheio”, demonstrando que a edição de Flores do Mal, de Charles Baudelaire, pela editora Martin Claret, com tradução em nome de Pietro Nassetti, na verdade não passava de – mais uma – despudorada apropriação e deturpação do trabalho de – agora – Jamil Almansur Haddad, publicado pela Difel em 1958.

A partir de 2004, foi inestimável o papel do jornal Opção de Goiânia, na coluna do jornalista Euler de França Belém, mostrando a fraude com Oblomov, de Goncharov, e novamente do crítico Alfredo Monte n’A Tribuna de Santos, mostrando as fraudes em Mulheres Apaixonadas, de D.H. Lawrence, e Os Sonâmbulos, de Hermann Broch. A Folha de S.Paulo noticiou e deu maior visibilidade a tais alertas, e também ampliou o escopo das denúncias. Em 2007, multiplicaram-se novas denúncias, tanto no jornal Opção quanto na Folha de S.Paulo, envolvendo A República de Platão, Contos de Voltaire e outros tantos mais.

Foi também em 2007 que o tradutor Saulo von Randow Jr., antes mesmo dessas notícias na imprensa, constatara a fraude em Ivanhoé e a notícia se alastrou entre os fóruns virtuais de tradutores. Fizemos um manifesto, alimentamos por alguns meses um blogue coletivo, encaminhamos um abaixo-assinado a universidades, a editoras, a centros literários, à grande imprensa, e esse fatal problema de patrimonicídio tradutório ganhou mais visibilidade entre o público leitor.

Não que não existissem plágios e contrafações antes disso: existiam, sim. Mas foi a partir daqueles anos – mais a rigor, a partir de 1995, como descobriríamos mais tarde – que essa praga veio a adquirir uma velocidade e um grau de difusão sem precedentes, até pelo altíssimo volume das tiragens da coleção Obras-Primas (e também da coleção Os Pensadores) da Nova Cultural, na casa das centenas de milhares de exemplares, e pelo grande número de reedições dos volumes da coleção Obra-Prima de Cada Autor, da Martin Claret. Outras editoras também vinham seguindo por essa senda, porém com menor frequência, menor escala e menor impacto.

O interessante a notar é que essas fraudes se concentravam majoritariamente na apropriação de traduções antigas, muitas delas já fora de circulação, porém da autoria de intelectuais de importância fundamental em nossa história lítero-humanística. Basta ver os nomes dos espoliados: Mario Quintana, Lúcio Cardoso, Lúcia Miguel-Pereira, Jaime Bruna, Francisco Inácio Peixoto, Lígia Junqueira, Luiz Costa Lima, Hernâni Donato, Boris Schnaiderman. Chega a ser um escândalo.

Aí, claro, não deixaram de surgir aquelas reações mais cínicas: “Ah, mas então não tem problema: quer dizer que a tradução é boa; que diferença faz o nome do tradutor?”. Tudo errado. Tem problema, sim, a começar pelo aspecto mais básico, que é o de constituir um incurso penal, como crime de roubo intelectual. Ademais, o fato de ter sido, digamos, um Lúcio Cardoso a fazer tal ou tal tradução não significa que ela seja “boa”; o importante é – justamente – o nome do tradutor. Não por uma pretensa e automática “garantia de qualidade”, mas porque conhecer o percurso tradutório de um escritor ajuda a entender a própria trajetória literária desse autor. Conhecer o modo de inserção de obras estrangeiras em nossa cultura ajuda a entender melhor nossa cultura. Faz muita diferença saber que Monteiro Lobato foi o introdutor de Jack London no Brasil, e foi ele quem, em 1934, fez a tradução de O Lobo do Mar – que, a partir de 1998, é publicada pela editora Martin Claret, dizendo-a, mais uma vez, de Pietro Nassetti. E que, em outro exemplo, a tradução d’O Discurso do Método, de Descartes, foi feita por Jacob Guinsburg e Bento Prado Jr. para a Difel em 1962, e não por um tal “Enrico Corvisieri” para a Nova Cultural em 1999. Esse dado nos informa sobre a história de nosso patrimônio intelectual. Isso faz diferença.

Por isso criei o blogue Não Gosto de Plágio. Ele nasceu em 2008, em 30 de setembro, dia dedicado a São Jerônimo, padroeiro dos tradutores, como blogue pessoal de levantamento, análise e apontamento de fraudes de tradução. Ao longo de alguns anos de pesquisas, apurou-se a existência de algumas centenas de ocorrências dessa prática suspeita. Na maioria dos casos, entrei em contato com as editoras e, em casos mais renitentes, com pedido de representação junto ao Ministério Público. Sofri algumas intimidações, recebi algumas notificações extrajudiciais, enfrentei (e ainda enfrento) algumas ações judiciais, contando sempre com enorme apoio de colegas, intelectuais e leitores em geral.

A boa notícia é que o Não Gosto de Plágio deixou de atuar como “blogue de combate” já faz uns dois anos, pois, até onde pude constatar, a prática por ora cessou ou, pelo menos, arrefeceu drasticamente, sem novos lançamentos suspeitos.

Resta o fato, porém, de que essa brincadeira de algumas editoras inescrupulosas deixou um saldo não muito auspicioso: alguns milhões de exemplares de obras espúrias estão presentes em bibliotecas públicas e particulares; centenas de títulos fraudados continuam a constar entre milhares e milhares de teses, artigos e estudos acadêmicos e até como indicação bibliográfica em cursos superiores; e – espantosamente, mas talvez nem tanto – muitos e muitos títulos ainda continuam em circulação, à venda para os incautos ou indiferentistas.

Mas, na esfera pública, em tempos de Pátria Educadora, em tempos de um ministro insuspeito de anti-intelectualismo, uma providência muito interessante seria a efetiva retomada e urgente redinamização do Portal Domínio Público, do MEC, para disponibilizar à sociedade esse enorme acervo de obras de tradução entregues ao deus-dará, sujeitas a pilhagens e deturpações. Pois uma das grandes questões nesse imbróglio todo é que, em boa medida, as traduções indevidamente apropriadas se configuram como “obras órfãs” e/ou “obras abandonadas”, condição esta que, segundo nossa lei autoral 9610/98, garante a elas o ingresso em domínio público, cuja guarda compete ao Estado.

Urge pensar a obra de tradução como patrimônio histórico cultural. Ela o é, claro, mas urge vê-la, senti-la concretamente como tal, no dia a dia, no livro que está à nossa cabeceira, no texto utilizado em sala de aula ou lido na hora de lazer.

Mais uma razão, caros leitores, para sempre prestarem atenção aos créditos de tradução. Não se deixem enganar – o crédito correto faz diferença, sim, e muita. Mais uma razão, poderes constituídos, para resgatarem obras criminosamente apropriadas e ofertarem à sociedade obras que, na verdade, já pertencem a ela. O acesso lícito e legítimo à cultura faz diferença, sim, e muita.

 Artigo originalmente publicado na revista Suplemento, da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, 2015: A arte da tradução, edição especial organizada por João Pombo Barile.


26 de mai. de 2022

elias davidovich, II

Traduções de Elias Davidovich (1909-1998)

II. 1940-1949:

Lucio d'Ambra, Profissão de esposa. vol 2 da trilogia "Os Romances da Vida a Dois". Coleção Romances. Vecchi, 1940. 
F. Enriques e G. Santillana. Pequena história do pensamento científico: da antiguidade aos tempos modernos. Vecchi, 1940
Stefan Zweig, O momento supremo : seis miniaturas históricas (em edição especial com tiragem de 200 exemplares em papel de linho, destinados aos amigos da Editora como presente de Natal, numerados e assinados pelo autor). Guanabara, 1940
Stefan Zweig, O momento supremo : seis miniaturas históricas. Guanabara, 1941
August Forel, Memórias: vida e obra de um sexologista. Globo, 1941
Enrico Giupponi, A luta contra o câncer. Vecchi, 1941
Stefan Zweig, Três paixões. Tradução com Odilon Gallotti. Guanabara, 1942
Stefan Zweig, Confusão dos sentimentos, (Notas íntimas do professor R. de D.). Guanabara, 1942 
Dedicatória na p. 1: A son Excellence Le President de la Republique de Bresil Dr. Getulio Vargas avec toute sa gratitude Stefan Zweig.
http://museudarepublica.museus.gov.br/exposicoes/dedicatorias/paginas/1930-1936.htm
Richard Clarke Cabot & F. Denette Adams, Diagnóstico fisico. Guanabara, 1943
Frank Harris, Minha vida e meus amores. Meridiano, 1943
Frederic Morris Loomis, Novas confissões de um médico de senhoras. Globo, 1944.
John Albert Kolmer, Penicilinoterapia. Gertum Carneiro, 1945. Pref. Raymundo Moniz de Aragio
Egon Conte Corti, A casa de Rothschild. Coleção Vidas Extraordinárias. Vecchi, 1948