começo agora a parte iconográfica, com imagem de capa (ou de página de rosto) das obras traduzidas por olívia, conforme a listagem apresentada aqui. seguem-se as publicações de 1956 a 1963:
(continua)
começo agora a parte iconográfica, com imagem de capa (ou de página de rosto) das obras traduzidas por olívia, conforme a listagem apresentada aqui. seguem-se as publicações de 1956 a 1963:
(continua)
apresentei na postagem anterior, aqui, os artigos, poemas e breves traduções avulsas de olívia krähenbühl publicados em revistas e jornais.
quanto à tradução de livros, sua estreia se dá com o caminho da perdição, de upton sinclair, num trabalho a quatro mãos com aurélio buarque de holanda. aqui cabe notar que muitas fontes - imagino que baseadas numa menção de paulo rónai - dão o ano de 1943 como data de lançamento dessa edição brasileira. trata-se de um equívoco, porém. 1943 é o ano em que wide is the gate saiu nos estados unidos, sendo que o caminho da perdição foi lançado entre nós em 1945, pela edições cruzeiro.
aliás, já em outubro de 1943, estando olívia e aurélio a cargo da tradução de wide is the gate, ambos escrevem uma resenha conjunta sobre a obra (aqui), que se inicia explicando a opção pelo título em português, e em janeiro de 1944 olívia escreve outra resenha, um pouco mais aprofundada, sobre a mesma obra (aqui). em janeiro do ano seguinte temos o lançamento brasileiro, com algumas notas e anúncios na imprensa. a imagem, diga-se de passagem, é impressionante.
um breve comentário meu em "quem tem medo de traduzir virginia woolf?",
na seção drops da vitruvius, disponível aqui.
Essa coisa de tradução às vezes cansa: outro dia encontrei alguém reclamando que o título Ao farol (“To the Lighthouse”), da Virginia Woolf, é "muito vago", e melhor seria usar "passeio ao farol".
Suspiro... (na verdade, vários suspiros...)
O farol não é só nem principalmente o farol da ilha que se enxerga da casa do casal Ramsay. É sobretudo a grande, centralíssima, ponderosíssima metáfora do papel da senhora Ramsay como o “farol” da família, que ilumina, orienta e vitaliza as relações entre seus integrantes.
O “to” em To the Lighthouse nada tem de vago: é denso e até pode ser ambíguo – é não só nem principalmente uma ida de bote (um “passeio”) até o farol físico, mas sobretudo uma dedicatória!
Como diz Virginia Woolf, o livro nem seria propriamente um romance: ela diz que gostaria de chamá-lo de elegia, uma homenagem póstuma à sua finada mãe, e é a ela que a autora o dedica.
Como já disseram, “no dictionary can classify the most famous ‘to’ in twentieth-century literature: the title of To the Lighthouse, with its specially laden and layered meanings of orientation and dedication, energy and elegy” (1).
(Por isso também gosto da capa da edição da L&PM, em que o alterego de Virginia Woolf contempla o farol, em vez de apresentar algum barquinho indicando um aplainado passeio ao farol (2). E a contemplação entre nuvens pesadas, águas agitadas, rajadas de vento – quem leu o livro bem sabe quantos conflitos, quantas questões se agitam dentro e em torno da família, e o “farol” ali, sempre firme, forte e fiel, como dizem).
É até por essas e outras que certa vez meio que me exasperei em uma entrevista em que uma das entrevistadoras insistia freneticamente na importância como que fundadora [!] do que ela chamava de “crítica” – e tão freneticamente insistia, até mesmo invocando o mais perfunctório comentário de algum leitor (“aain, não gostei...”), e tanto me exasperei que fui curta e grossa: “bom, aí o problema é dele; meu problema é com a obra, a responsabilidade diante dela”. Ela fez uma cara... mas, no fundo, para mim, é isso mesmo.
nota
1
FOWLER, Rowena. Virginia Woolf: Lexicographer. English Language Notes, v. 39, n. 3, Durham (EUA), mar. 2002, p. 54-70. Disponível em pdf na página web da autora no website da Universidade de Oxford: <https://bit.ly/3mO1UZe>.
2
WOOLF, Virginia. Ao farol. Tradução de Denise Bottmann. Porto Alegre, L&PM, 2013.
olívia krähenbühl: são poucos os dados biográficos de que disponho a seu respeito. sei que nasceu em piracicaba em 5 de janeiro de 1900, filha de bertha maria müller e do suíço-alemão joão [johann] krähenbühl (que chegara ao brasil aos 3 anos de idade, com os pais imigrantes de berna), e faleceu em são paulo em 16 de junho de 1973.
em 1922, olívia partiu como imigrante para os estados unidos, mas lá, casada com wesley duque lee (1897-?), morou apenas por alguns anos. (ao que parece, e por alguma razão que desconheço, nunca adotou publicamente o sobrenome do marido, que não consta nem mesmo em sua certidão de óbito.)
de volta ao brasil, estabelecendo-se em são paulo, olívia montou uma loja de modas e confecções na rua do arouche, no centro da cidade. tenho notícias de que a loja esteve em funcionamento pelo menos entre 1928 e 1931. em 1933, ainda residia em são paulo, tendo feito doação de livros à recente biblioteca pública municipal (a atual mário de andrade). porém, em 1937 já estava morando - não sei a partir de que ano - no rio de janeiro. lá parece ter ficado até o começo dos anos 1960, então retornando para são paulo, onde firmaria residência até o final de vida.
há registros de publicações esporádicas suas em revistas e jornais a partir de 1941: poemas, artigos, uma ou outra breve tradução. passa a se dedicar mais sistematicamente à atividade como tradutora a partir de 1956, quando morava no rio de janeiro, fazendo traduções para a josé olympio. depois, mudando-se para são paulo, passa a traduzir para as editoras cultrix e pioneira, e prossegue no ofício até a época de seu falecimento.
inicialmente arrolo em ordem cronológica a lista de suas publicações em periódicos, sejam elas de textos próprios ou traduzidos:
o conto de maupassant, "amor", foi reproduzido, com nota introdutória de aurélio buarque de holanda, no diário de notícias, seção "letras artes ideias gerais", em 21 de setembro de 1947, aqui.
(continua)
"você sabe quem é denise bottmann?", uma simpática e generosa apresentação de dennys silva-reis na série historiográfica tradutrix, disponível aqui.
"Uma Biblioteca Teatral Brasileira: publicação, circulação e políticas para edições de teatro (1917-1948)", tese de doutorado de henrique brener vertchenko, é um trabalho de pesquisa fabuloso, preciosíssimo. está disponível no academia.edu, aqui.
o artigo traz um meticuloso levantamento das traduções publicadas no brasil e em portugal - reproduzo abaixo apenas as traduções brasileiras arroladas no referido levantamento.
1950 “Da simplicidade e do requinte na maneira de escrever”. In: Ensaístas ingleses. Tradução de José Manuel Sarmento de Beires e Jorge Costa Neves. Apresentação de Lúcia Miguel Pereira. Rio de Janeiro. Clássicos Jackson XVIII. W. M. Jackson editores.
1963 Ensaios políticos. Tradução de E. Jacy Monteiro. Série Clássicos da Democracia, v. 9. São Paulo: Ibrasa.
1967 Ensaios políticos. Tradução: João Paulo Monteiro. In: David Hume: ensaios políticos, tradução, introdução e notas. Dissertação de mestrado USP.
1972 Investigação acerca de entendimento humano. Tradução de Anoar Aiex. São Paulo, Companhia Editora Nacional/ Editora da USP.
1973 Investigação sobre o entendimento Humano. Tradução de Leonel Vallandro / Ensaios morais, políticos e literários. Tradução de João Paulo Monteiro e Armando Mora de Oliveira. In: Col. ‘Os Pensadores’, 1ª edição. São Paulo: Abril Cultural.
1975 Sumário do Tratado da natureza humana. Tradução, introdução e notas de Anoar Aiex. São Paulo, Companhia Editora Nacional.
1980. Investigação sobre o entendimento Humano. Tradução de Leonel Vallandro / Ensaios morais, políticos e literários. Tradução de João Paulo Monteiro e Armando Mora de Oliveira. In: Col. ‘Os Pensadores’, 2ª edição. São Paulo: Abril Cultural.
1983 Escritos sobre economia. Tradução de Sara Albieri; revisão de João Paulo Monteiro; apresentação de Rolf Kuntz. Col. ‘Os Economistas’. 1a edição. São Paulo: Abril Cultural.
1992 Diálogos sobre a religião natural. Tradução de José Oscar de Almeida Marques. Prefácio e bibliografia atualizada, preparados por Michael Wrigley. São Paulo: Editora Martins Fontes, Coleção Clássicos XXVI.
1995 Resumo de um Tratado da natureza humana./An abstract of a treatise of human nature/ Ed. Bilíngue. Tradução de Rachel Gutierrez e Jose Sotero Caio. Porto Alegre: Editora Paraula.
1995 Uma investigação sobre os princípios da moral. Tradução e apresentação de José Oscar de Almeida Marques. Campinas, SP: Editora da Unicamp.
1996 Investigação acerca do entendimento humano. Tradução de Anoar Aiex. / Ensaios morais, políticos e literários. João Paulo Gomes Monteiro e Armando Mora D'Oliveira. In: Col. ‘Os Pensadores’. 6a edição. São Paulo: Nova Cultural.
1997 Carta de um Cavalheiro a seu amigo em Edimburgo. Tradução de Plínio Junqueira Smith. In: Revista Manuscrito, Volume XX, n. 2 outubro de 1997, Campinas/CLE/Unicamp, 15-27.
1999 Investigação sobre o entendimento humano. Tradução de José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Editora UNESP.
2001 Tratado da natureza humana. Uma tentativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais. Tradução de Débora Danowski. 1a ed. São Paulo: Editora da UNESP / Imprensa Oficial do Estado.
2003 Ensaios políticos. Kund Haakonsen (org.). Tradução de Pedro Paulo Pimenta. Série Clássicos Cambridge de filosofia política. São Paulo: Martins Fontes.
2004 Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Tradução de José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Ed. UNESP.
2004 Do suicídio e outros textos póstumos. Tradução de Jaimir Conte; Davi de Souza e Daniel Swoboda Murialdo. Desterro: Edições Nefelibata.
2004 Ensaios morais, políticos e literários. Miller, Eugene E. (Org.). Tradução de Luciano Trigo. Introdução de Renato Lessa. 1ª edição, Rio de Janeiro: Liberty Fund/Topbooks.
2005 História natural da religião. Tradução, apresentação e notas Jaimir Conte. São Paulo: Ed. UNESP.
2006 Ensaios políticos. Tradução de Saulo Krieger. Série Fundamentos de direito. São Paulo: Editora Ícone.
2006 Investigação sobre o entendimento humano. Tradução de André Campos Mesquita. São Paulo: Escala Educacional.
2006 Da imortalidade da alma e outros textos póstumos. Tradutores de Daniel Swoboda Murialdo, Davi de Souza, Jaimir Conte. Ijuí, RS: Editora da UNIJUÍ.
2008 Do suicídio. Tradução de Lívia Guimarães. In: Os Filósofos e o Suicídio (Coleção Travessias). Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais.
2008 Da delicadeza da paixão e do gosto. Tradução de Lívia Guimarães. In: Os Filósofos: Clássicos da Filosofia. Pecoraro, Rossano. (Org.) vol. I. Rio de Janeiro: Editora PUC Rio – Editora Vozes.
2009 Tratado da natureza humana. Uma tentativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais. Tradução de Débora Danowski. 2 edição, revista e ampliada. São Paulo: Editora da UNESP / Imprensa Oficial do Estado.
2010 Investigação sobre o entendimento humano. Organização e tradução de Alexandre Amaral Rodrigues. São Paulo: Editora Hedra.
2010. Da liberdade e necessidade (Seção 8 da Investigação sobre o entendimento humano). Tradução de José Oscar de Almeida Marques. In Marçal, Jairo (org.) Antologia de Textos Filosóficos. Curitiba: Secretaria de Estado da Educação do Paraná (nova tradução preparada especialmente para essa edição).
2011 A arte de escrever ensaio e outros ensaios: (morais, políticos e literários). Seleção Pedro Paulo Pimenta. Tradução de Márcio Suzuki e Pedro Paulo Pimenta. São Paulo: Iluminuras, 2008.
2011 Do padrão do gosto. Tradução de Rafael Fernandes Barros de Souza. In: O padrão do gosto na filosofia de Hume: um argumento e os seus aspectos. Dissertação de mestrado. Orientação: José Oscar de Almeida Marques. Campinas: Unicamp, p. 103-126.
2011 Carta à sra. Dysart de Eccles. Tradução de Pedro Paulo Pimenta. Folha de São Paulo, Ilustríssima 07/08/2011.
2011 Dissertação sobre as paixões. Tradução: Jaimir Conte. Revista Princípios. v.18, n.29, jan./jun. 2011, p. 371-399.
2013 Uma investigação sobre os princípios da moral. Tradução e apresentação de José Oscar de Almeida Marques. 2a edição. São Paulo: Ed. Unicamp.
2013 Uma espécie de história da minha vida. Tradução de Jaimir Conte. Revista Litterarius. v. 12, n.2, 2013.
2013 O estoico. Tradução de Marcos Balieiro. Anais de Filosofia Clássica, v. 7 n.13, 2013.
2016 Diálogos sobre a religião natural. Tradução, notas e posfácio de Bruna Frascolla. Salvador: EdUFBA. (Inclui seleção de cartas de Hume feitas à época de sua revisão da obra, além de fragmentos inéditos em português.)
2015 História da Inglaterra. Da invasão de Júlio César à Revolução de 1688. Tradução de Pedro Paulo Pimenta. São Paulo: Editora da Unesp.
2017 Um ensaio histórico sobre a cavalaria e a honra dos modernos. Tradução e apresentação de Marcos Balieiro. Revista Prometeus. n. 23.
2017 Da simplicidade e do refinamento na escrita. Tradução de Bruno Henrique de Souza Soares. Controvérsia, São Leopoldo, v. 13, n. 2, p. 156-162.
2021 O cético. Tradução e apresentação de Marcos Balieiro. Sképsis: Revista de Filosofia. Vol. XII, N. 22, p. 136-51.
em 3 de agosto de 1947, o ipê publica seu primeiro anúncio na imprensa com os volumes que lançara até a data, aqui, à exceção do livro infantil tomaz, da coleção colibri.
embora não nomeadas, são sete as coleções abarcando os oito títulos divulgados na propaganda.
a sexta coleção publicada pelo ipê era composta por edições de luxo em francês, impressas na itália, com tiragens restritas a 500 exemplares.
COLLECTION
DES POÈTES MAUDITS
Coleção de obras poéticas, 4 volumes
|
Baudelaire,
Charles |
Les
Fleurs du Mal |
Collection des Poètes Maudits, 1 |
1947 |
|
Verlaine,
Paul |
Choix
de poésies |
Collection des Poètes Maudits, 2 |
1947 |
|
Rimbaud,
Arthur |
Oeuvres completes –
Illuminations, Une saison en enfer, Premiers vers |
Collection des Poètes Maudits, 3 |
1947 |
|
Mallarmé,
Stéphane |
Poésie
et un poème |
Collection des Poètes Maudits, 4 |
1947 |
encontra-se no ano seguinte, em 1948, uma publicação do ipê com traços muito semelhantes aos encontrados nos volumes da collection des poètes maudits: o volume poèmes des années perdues, de um poeta estreante, então com 20 anos de idade, chamado claude pernié. o papel e o formato são similares, a temática é compatível com a da coleção (poemas), a língua de edição é o francês. a impressão, um pouco menos requintada, porém, foi feita na paulistana tipografia edanée. cabe também notar que os volumes da collection des poètes maudits traziam especificado o nome da coleção no alto da página de rosto. no volume de autoria de pernié, nota-se a ausência do nome da coleção, assim vetando a possibilidade de supor que a obra integraria a collection. não excluo a hipótese, a meu ver bastante plausível, de que a publicação tenha sido encomendada pelo próprio autor.
mais uma breve observação: haroldo de campos, num artigo publicado no jornal o estado de s. paulo, em 26 de setembro de 1998, à p. 107, aqui, mencionava rapidamente essa coleção, citando jules laforgue entre os autores da série. foi um engano seu, muito compreensível, aliás, em vista do tempo decorrido.
acompanhe: ipê - coleções, aqui
irish literature in brazil since 1888, o excelente levantamento de peter o'neill, que já utilizei e citei várias vezes aqui neste blog, agora está disponível em https://dokumen.tips/documents/irish-literature-in-brazil-since-1888.html?page=1
os escritores presentes no levantamento são:
Cecelia Ahern, John Banville, Sebastian Barry, Samuel Beckett, Brendan Behan, Richard Beirne, Maeve Binchy, Dermot Bolger, Patrick Boyle, Edmund Burke, Marina Carr, Eiléan Ní Chuilleanáin, Eoin Colfer, Seamus Deane, J. R. Donleavy, Emma Donoghue, Siobhan Dowd, Roddy Doyle, Anne Enright, Brian Friel, Brian Gallagher, Oliver Goldsmith, Seamus Heaney, Melissa Hill, Neil Jordan, James Joyce, Marian Keyes, Patrick McCabe, Colum McCann, Frank McCourt, Michael McLaverty, Brian Moore, Tom Murphy, Edna O‟Brien, Fitz-James O‟Brien, Flan O‟Brien, Sean O‟Casey, Joseph O‟Connor, John O‟Donoghue, Séan O‟Faolain, Nuala O‟Faolain, Liam O‟Flaherty, Kevin Power, George Bernard Shaw, Somerville and Ross, James Stephens, Laurence Sterne, Bram Stoker, Jonathan Swift, Colm Tóibín, Oscar Wilde, Vincent Woods, William Butler Yeats.
Tradução é tudo de bom
Desde Su-ilisu, tradutor de Meluhha, aquela antiga civilização do Indo de uns 4.500 anos atrás, ao Google Translator, tra, trans, über é sempre uma questão de passar: passar daqui para lá, de lá para cá. Contato, mistura, intercâmbio, compartilhamento. Tradução é a língua franca, a língua universal. Não consigo dissociar tradução de humanidade. E ao longo do tempo é essa fecundação que contribui incomensuravelmente para formar a cultura de um povo, a identidade de um país, permitindo seu crescimento, ampliando seus horizontes.
No Brasil, vamos ter o início efetivo da tradução como atividade sistemática, constante, profissional a partir da década de 1930. Claro que há antecedentes, sobretudo em revistas e jornais, mas a atividade tradutória só adquire constância, relevo e densidade a partir daquela década, pois é quando se tem a decisiva arrancada da indústria editorial nacional. Excepcionalmente tardio, não? Oitenta anos, apenas. Formação irregular, trajetória ainda incipiente, em certo sentido, se comparada à de outros países. Os nomes que participaram daquelas décadas iniciais da tradução como atividade profissional razoavelmente regular e sistemática no país não soam como herança muito distante: estão logo ali. Monteiro Lobato, Erico Veríssimo, Rachel de Queiroz, Manuel Bandeira, Mario Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Lívio Xavier, Elias Davidovitch, tantos e tantos. E toda a grande questão é que nosso patrimônio cultural e nosso próprio sistema literário guardam laços indissociáveis com esse ofício exercido por milhares e milhares de obscuros ou célebres tradutores.
Assim, tive um tremendo susto, um choque
mesmo, em 2007, ao saber por meio de um colega tradutor, Saulo von Randow Jr.,
que a tradução de Brenno Silveira de Ivanhoé de Walter Scott, lançada
pela Martins nos anos 1950, fora apropriada pela editora Nova Cultural em 2003,
apresentando-a em nome de um misterioso “Roberto Nunes Whitaker”. Conversa vai,
conversa vem, pesquisa vai, pesquisa vem, o que se descobriu foi a existência
de uma verdadeira indústria de falcatruas de tradução, bem como vários alertas
sobre essa prática espúria. Aqui vou fazer uma rápida reconstituição cronológica
desses alertas.
Foi assim: em dezembro de 2001, o crítico
literário Alfredo Monte denunciava em sua coluna no jornal santista A
Tribuna que a tradução de Frankenstein, de Mary Shelley, publicada
naquele mesmo ano pela editora Martin Claret em nome de Pietro Nassetti, era
idêntica à anterior de Éverton Ralph, pela Ediouro. Creio que foi esta a
primeira denúncia pública de uma praga que, como veríamos depois, já começara a
infestar o mundo editorial numa escala inédita, desde alguns anos antes. Em 2002,
o fino crítico e tradutor Ivo Barroso publicava um artigo chamado “Cyrano sem
penacho”, demonstrando que a edição de Cyrano de Bergerac, de Edmond
Rostand, pela editora Nova Cultural, com tradução em nome de Fábio M. Alberti,
não passava de uma despudorada apropriação e deturpação do trabalho de Carlos
Porto Carreiro, publicado pela J. Ribeiro dos Santos em c.1907, mas
várias vezes relançado pela Abril Cultural a partir de 1973. Ainda em 2002, o
mesmo Ivo Barroso escreveu um artigo chamado “Flores roubadas do jardim
alheio”, demonstrando que a edição de Flores do Mal, de Charles
Baudelaire, pela editora Martin Claret, com tradução em nome de Pietro
Nassetti, na verdade não passava de – mais uma – despudorada apropriação e
deturpação do trabalho de – agora – Jamil Almansur Haddad, publicado pela Difel
em 1958.
A partir de 2004, foi inestimável o papel
do jornal Opção de Goiânia, na coluna do jornalista Euler de França
Belém, mostrando a fraude com Oblomov, de Goncharov, e novamente do
crítico Alfredo Monte n’A Tribuna de Santos, mostrando as fraudes em Mulheres
Apaixonadas, de D.H. Lawrence, e Os Sonâmbulos, de Hermann Broch. A Folha
de S.Paulo noticiou e deu maior visibilidade a tais alertas, e também
ampliou o escopo das denúncias. Em 2007, multiplicaram-se novas denúncias,
tanto no jornal Opção quanto na Folha de S.Paulo, envolvendo A
República de Platão, Contos de Voltaire e outros tantos mais.
Foi também em 2007 que o tradutor Saulo
von Randow Jr., antes mesmo dessas notícias na imprensa, constatara a fraude em
Ivanhoé e a notícia se alastrou entre os fóruns virtuais de tradutores.
Fizemos um manifesto, alimentamos por alguns meses um blogue coletivo,
encaminhamos um abaixo-assinado a universidades, a editoras, a centros
literários, à grande imprensa, e esse fatal problema de patrimonicídio
tradutório ganhou mais visibilidade entre o público leitor.
Não que não existissem plágios e
contrafações antes disso: existiam, sim. Mas foi a partir daqueles anos – mais
a rigor, a partir de 1995, como descobriríamos mais tarde – que essa praga veio
a adquirir uma velocidade e um grau de difusão sem precedentes, até pelo
altíssimo volume das tiragens da coleção Obras-Primas (e também da coleção Os
Pensadores) da Nova Cultural, na casa das centenas de milhares de exemplares, e
pelo grande número de reedições dos volumes da coleção Obra-Prima de Cada
Autor, da Martin Claret. Outras editoras também vinham seguindo por essa senda,
porém com menor frequência, menor escala e menor impacto.
O interessante a notar é que essas fraudes
se concentravam majoritariamente na apropriação de traduções antigas, muitas
delas já fora de circulação, porém da autoria de intelectuais de importância
fundamental em nossa história lítero-humanística. Basta ver os nomes dos
espoliados: Mario Quintana, Lúcio Cardoso, Lúcia Miguel-Pereira, Jaime Bruna,
Francisco Inácio Peixoto, Lígia Junqueira, Luiz Costa Lima, Hernâni Donato,
Boris Schnaiderman. Chega a ser um escândalo.
Aí, claro, não deixaram de surgir aquelas
reações mais cínicas: “Ah, mas então não tem problema: quer dizer que a
tradução é boa; que diferença faz o nome do tradutor?”. Tudo errado. Tem
problema, sim, a começar pelo aspecto mais básico, que é o de constituir um
incurso penal, como crime de roubo intelectual. Ademais, o fato de ter sido,
digamos, um Lúcio Cardoso a fazer tal ou tal tradução não significa que ela
seja “boa”; o importante é – justamente – o nome do tradutor. Não por uma
pretensa e automática “garantia de qualidade”, mas porque conhecer o percurso
tradutório de um escritor ajuda a entender a própria trajetória literária desse
autor. Conhecer o modo de inserção de obras estrangeiras em nossa cultura ajuda
a entender melhor nossa cultura. Faz muita diferença saber que Monteiro Lobato
foi o introdutor de Jack London no Brasil, e foi ele quem, em 1934, fez a
tradução de O Lobo do Mar – que, a partir de 1998, é publicada pela
editora Martin Claret, dizendo-a, mais uma vez, de Pietro Nassetti. E que, em
outro exemplo, a tradução d’O Discurso do Método, de Descartes, foi
feita por Jacob Guinsburg e Bento Prado Jr. para a Difel em 1962, e não por um
tal “Enrico Corvisieri” para a Nova Cultural em 1999. Esse dado nos informa
sobre a história de nosso patrimônio intelectual. Isso faz diferença.
Por isso criei o blogue Não Gosto de
Plágio. Ele nasceu em 2008, em 30 de setembro, dia dedicado a São Jerônimo,
padroeiro dos tradutores, como blogue pessoal de levantamento, análise e
apontamento de fraudes de tradução. Ao longo de alguns anos de pesquisas,
apurou-se a existência de algumas centenas de ocorrências dessa prática
suspeita. Na maioria dos casos, entrei em contato com as editoras e, em casos
mais renitentes, com pedido de representação junto ao Ministério Público. Sofri
algumas intimidações, recebi algumas notificações extrajudiciais, enfrentei (e
ainda enfrento) algumas ações judiciais, contando sempre com enorme apoio de
colegas, intelectuais e leitores em geral.
A boa notícia é que o Não Gosto de Plágio
deixou de atuar como “blogue de combate” já faz uns dois anos, pois, até onde
pude constatar, a prática por ora cessou ou, pelo menos, arrefeceu
drasticamente, sem novos lançamentos suspeitos.
Resta o fato, porém, de que essa
brincadeira de algumas editoras inescrupulosas deixou um saldo não muito auspicioso:
alguns milhões de exemplares de obras espúrias estão presentes em bibliotecas
públicas e particulares; centenas de títulos fraudados continuam a constar
entre milhares e milhares de teses, artigos e estudos acadêmicos e até como
indicação bibliográfica em cursos superiores; e – espantosamente, mas talvez
nem tanto – muitos e muitos títulos ainda continuam em circulação, à venda para
os incautos ou indiferentistas.
Mas, na esfera pública, em tempos de
Pátria Educadora, em tempos de um ministro insuspeito de anti-intelectualismo,
uma providência muito interessante seria a efetiva retomada e urgente
redinamização do Portal Domínio Público, do MEC, para disponibilizar à
sociedade esse enorme acervo de obras de tradução entregues ao deus-dará,
sujeitas a pilhagens e deturpações. Pois uma das grandes questões nesse
imbróglio todo é que, em boa medida, as traduções indevidamente apropriadas se
configuram como “obras órfãs” e/ou “obras abandonadas”, condição esta que,
segundo nossa lei autoral 9610/98, garante a elas o ingresso em domínio
público, cuja guarda compete ao Estado.
Urge pensar a obra de tradução como
patrimônio histórico cultural. Ela o é, claro, mas urge vê-la, senti-la
concretamente como tal, no dia a dia, no livro que está à nossa cabeceira, no
texto utilizado em sala de aula ou lido na hora de lazer.
Mais uma razão, caros leitores, para
sempre prestarem atenção aos créditos de tradução. Não se deixem enganar – o
crédito correto faz diferença, sim, e muita. Mais uma razão, poderes
constituídos, para resgatarem obras criminosamente apropriadas e ofertarem à
sociedade obras que, na verdade, já pertencem a ela. O acesso lícito e legítimo
à cultura faz diferença, sim, e muita.