18 de jun. de 2015

louisa may alcott no brasil I

a obra mais conhecida de louisa may alcott é little women. no brasil, teve várias traduções e inúmeras adaptações - as adaptações não incluirei neste levantamento. foi a primeira obra de alcott a ser publicada no brasil.

mas, antes de avançarmos, cabe notar um detalhe. little women foi originalmente publicada em 1868. devido ao grande e imediato sucesso, louisa logo a seguir escreveu a continuação, lançada em 1869, com o título de good wives (dado não pela autora, mas por seu editor na inglaterra). também fez sucesso. foi em 1880 que as duas partes, little women e good wives, foram reunidas como uma só obra, com o título geral de little women, parte I e parte II. mas, de modo geral, o que se publica no brasil corresponde apenas à parte I, isto é, a original little women de 1868. a única exceção, incluindo as duas partes, como veremos adiante, é a edição lançada pela ediouro.


eis, pois, a primeira alcott no brasil (como louise, em lugar de louisa
 - mas na página de rosto consta corretamente como louisa): 

Tradução de Eduardo Carvalho revista por Godofredo Rangel.
Coleção A Nova Biblioteca das Moças. Nacional, 1934


[vide abaixo atualização em 2019]

a partir de 1944, a nacional inclui a obra em sua coleção biblioteca das moças, 119, em dois volumes, de capas iguais. a tradução, porém, é submetida a extensa revisão, vindo a constar nos créditos "tradução revista por godofredo rangel". foi esta versão que acabou se consagrando em sucessivas reedições, desaparecendo qualquer menção a eduardo carvalho.
[atualização de 30/06/15: tais afirmações, feitas por inferência a partir das declarações equivocadas da editora musa em sua contracapa - ver abaixo -, não procedem. desde 1934, mulherzinhas foi publicada como "tradução revista por godofredo rangel". a tradução originalmente feita por eduardo carvalho, se é que de fato existiu, nunca veio à luz.]

 Tradução revista por Godofredo Rangel. Nacional, 1944

foi a editora musa que, em 1995, trouxe à tona o nome do tradutor inicial, eduardo carvalho, perdido nas brumas do tempo. na contracapa de sua edição da obra, a musa faz constar a seguinte informação:

[atualização em 30/6/15: incorreto - desde 1934, consta na página de créditos 
"Tradução revista por Godofredo Rangel", vide acima]

vale ainda informar que essa versão de rangel foi, em 2005, objeto de uma escancarada apropriação pela editora martin claret, que reproduziu o texto, atribuindo a tradução a um dos fantasmas da casa, "alex marins". essa fraude, muito infelizmente, continua em circulação, embaindo uma legião de leitores:


se a tradução de 1934, mesmo depois de revista por godofredo rangel, ainda continuava a soar com alguns vezos levemente arrebicados, imaginem-se as probabilidades de que qualquer ser, fantasmagórico ou não, consiga se sair com as mesmas soluções, vejam-se alguns exemplos:

1. rev. godofredo rangel
cap. VI, beth no palácio maravilhoso (nacional, 1969, p. 63):

A vasta casa era realmente um palácio maravilhoso embora precisasse de tempo para atingi-lo, pois Beth arreceava dos leões. O velho sr. Laurence era o maior de todos; depois, porém, de ter ele conversado - alguns gracejos ou palavras atenciosas ditos a cada uma das moças, algumas recordações dos antigos tempos à mãe - ninguém mais o temia exceto a tímida Beth. O outro leão era o fato de serem pobres e Laurie rico, pois tornava-as acanhadas receber favores que não podiam retribuir. Após algum tempo, contudo, elas compreenderam que o velho as considerava como benfeitoras, não sabendo como demonstrar sua gratidão pela maternal bondade da sra. March, pela companhia jovial e conforto que encontrava naquela humilde casa; por isso, esqueceram-se logo de seu orgulho de pobres, trocando atenções sem se deter a pensar em quais eram as maiores.

2. "alex marins"
cap. VI, beth no palácio maravilhoso (martin claret, 2005, p. 70):

A vasta casa era realmente um palácio maravilhoso embora precisasse de tempo para atingi-lo, pois Beth arreceava dos leões. O velho sr. Laurence era o maior de todos; depois, porém, de ter ele conversado - alguns gracejos ou palavras atenciosas ditos a cada uma das moças, algumas recordações dos antigos tempos à mãe - ninguém mais o temia exceto a tímida Beth. O outro leão era o fato de serem pobres e Laurie rico, pois tornava-as acanhadas receber favores que não podiam retribuir. Após algum tempo, contudo, elas compreenderam que o velho as considerava como benfeitoras, não sabendo como demonstrar sua gratidão pela maternal bondade da sra. March, pela companhia jovial e conforto que encontrava naquela humilde casa; por isso, esqueceram-se logo de seu orgulho de pobres, trocando atenções sem se deter a pensar em quais eram as maiores.

1. rev. godofredo rangel
cap. XIII, castelos no ar (nacional, 1969, p. 146):

Laurie embalava-se lentamente na rede em uma tarde cálida de setembro, perguntando-se o que seria feito de suas vizinhas, mas com preguiça suficiente para não ir saber notícias delas. Estava num de seus dias de mau humor; o dia fora-lhe inútil e aborrecido e bem quisera vivê-lo de novo. O calor tornara-o indolente; deixara de lado o estudo, apoquentara a mais não poder o sr. Brooke, aborrecera o avô, excitando-se em jogos grande parte do dia, assustara horrivelmente as criadas, fazendo-lhes crer, por maldade, que um dos cães ia ficar louco e, depois de dirigir palavras ásperas ao rapaz da estrebaria sob o pretexto imaginário de não ter tratado do seu cavalo, mergulhara finalmente na rede a pensar na estupidez do mundo até que, apesar de si próprio, o acalmara a placidez daquele belo dia.

2. "alex marins"
cap. XIII, castelos no ar (martin claret, 2005, p. 154):

A vasta casa era realmente um palácio maravilhoso embora precisasse de tempo para atingi-lo, pois Beth arreceava dos leões. O velho sr. Laurence era o maior de todos; depois, porém, de ter ele conversado - alguns gracejos ou palavras atenciosas ditos a cada uma das moças, algumas recordações dos antigos tempos à mãe - ninguém mais o temia exceto a tímida Beth. O outro leão era o fato de serem pobres e Laurie rico, pois tornava-as acanhadas receber favores que não podiam retribuir. Após algum tempo, contudo, elas compreenderam que o velho as considerava como benfeitoras, não sabendo como demonstrar sua gratidão pela maternal bondade da sra. March, pela companhia jovial e conforto que encontrava naquela humilde casa; por isso, esqueceram-se logo de seu orgulho de pobres, trocando atenções sem se deter a pensar em quais eram as maiores.


veja a continuação aqui.

atualização em 18/12/2019:
curiosamente, em algum momento - antes de 1944 - foi lançada uma edição em cuja capa constava o nome de godofredo rangel como tradutor:


agradeço a jonathas gonçalves pela referência e pela imagem.

12 de jun. de 2015

bernard shaw no brasil, iconografia

abaixo seguem diversas imagens de capa dos títulos listados no arrolamento das traduções de shaw no brasil, aqui.

moacyr werneck de castro, 1949

miroel silveira, 1949

raymundo magalhães jr., 1950

moacyr werneck de castro, 1950

vivaldo coaracy, 1951

vivaldo coaracy, 1951

miroel silveira, 1951

moacyr werneck de castro, 1951

dinah silveira de queiroz, 1951

vivaldo coaracy, 1952

joão távora, 1952

raymundo magalhães jr., 1953

joão távora, 1953

raymundo magalhães jr., 1954

raymundo magalhãs jr., 1954

cláudio mello e souza, 2004 [1960]

paulo rónai, c. 1982 [1970]

cláudia sant'ana martins, 1988

josé viegas filho, 1996

millôr fernandes, 2005

domingos nunez, 2009



11 de jun. de 2015

bernard shaw no brasil

até onde consegui restituir a presença de bernard shaw no brasil, as traduções de sua obra publicadas em livro entre nós são as seguintes:

  • “O problema de Dom João” Trad. Persiano da Fonseca. In: Os Mais Belos Contos de Amor. Rio de Janeiro: Vecchi, 1944. 
  • “O imperador e a menina”.  Trad. Rubem Braga. In Os Ingleses: antigos e modernos. Rio de Janeiro: Leitura, 1944. Coleção Contos do Mundo, 2. Reed. como Contos ingleses: os clássicos, Ediouro, 2004
  • Aventuras de uma negrinha que procurava Deus. Trad. Moacyr Werneck de Castro. Coleção Nobel. Porto Alegre: Globo. 1949. 160 p.

a partir de 1949, a editora melhoramentos, de são paulo, adquire os direitos de tradução e publicação da obra de shaw em português.

parágrafo inicial da notícia,
in Autores e Livros, X, n. 4, 15/2/1949, aqui

assim, a partir daquele ano, teremos as seguintes edições, sempre pela melhoramentos, até 1955:

  • César e Cleópatra – uma história. Trad. Miroel Silveira. 1949. 114 p.
  • O homem e as armas. Trad. Raymundo Magalhães Júnior. 1950. 90 p.
  • Major Bárbara e outros textos. 1º Auxilio aos críticos - Evangelho de Santo André Undershat; O Exército da Salvação; A Volta de Bárbara ao Exército - Debilidades do Exército da Salvação - Cristianismo e Anarquismo;  Conclusões sadias. Trad. Moacyr Werneck de Castro. 1950. 130 p.
  • Casa de Orates - fantasia à moda russa em torno de temas ingleses . Trad. Vivaldo Coaracy. 1951. 137 p.
  • O discípulo do diabo - melodrama. Trad. Vivaldo Coaracy. 1951. 92 p.
  • Pigmalião – comédia em cinco atos. Trad. Miroel Silveira. 1951. 98 p. Reed. em volume duplo com Santa Joana em Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura. Opera Mundi, 1973.
  • Homem e super-homem – Manual e companheiro de bolso do revolucionário, máximas para revolucionários. Trad. Moacyr Werneck de Castro. 1951. 229 p.
  • Santa Joana – peça histórica em seis cenas e um epílogo. Trad. Dinah Silveira de Queiroz. 1951. 55 p. Reed. em volume duplo com Pigmalião em Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, Delta, 1964; Opera Mundi, 1973.
  • A conversão do pirata – uma aventura. Trad. Vivaldo Coaracy. 1952. 93 p.
  • Cândida. Trad. João Távora. 1952. 68 p.
  • O dilema do médico. Trad. Raimundo Magalhães Júnior. 1953. 174 p.
  • Volta a Matusalém: um pentateuco metabiológico. No Principio; O Evangelho dos Irmãos Barnabé; A Coisa Acontece; Tragédia de Um Senhor Idoso; Até Onde o Pensamento Alcança. Trad. João Távora. 1953. 327 p.
  • A milionária. Trad. Raymundo Magalhães Júnior. 1954. 106 p.
  • O homem do destino / A primeira peça de Fanny. Trad. Raimundo Magalhães Júnior. 1954. 152 p.
  • Quem sou eu e o que penso. Trad. Oscar Mendes. 1955. 125 p. 
a melhoramentos reeditou esses títulos com frequência, às vezes em volume duplo (p.ex., em 1954, O homem e as armas / Cândida). sem dúvida, foi, e continua a ser até hoje, a principal iniciativa editorial dedicada ao autor no brasil.


na sequência, temos:
  • “A confissão de Dom João”. Trad. não consta. In: Maravilhas do conto inglês. SP: Cultrix, 1957. 
  • Como ele mentiu ao marido dela. Trad. não consta [Lúcio Cardoso]. Funarte, s/d
  • Santa Joana. Trad. Flávio Rangel. Funarte, s/d
  • A profissão da senhora Warren. Trad. Cláudio Mello e Souza.  Funarte, 1960. Reed. Abril Cultural, Coleção Teatro Vivo, 1976;  Peixoto Neto, 2004. Os grandes dramaturgos, 2.  
  • Socialismo para milionários. Trad. Paulo Rónai. Tecnoprint, c.1970
  • Um socialista anti-social. Trad. Cláudia Sant’Ana Martins. Brasiliense, 1988
  • O teatro das idéias. Trad. José Viegas Filho. (Traz resenhas, críticas, cartas e prefácios) SP: Cia. das Letras, 1996. 328 p. 
  • Pigmaleão – Um romance em cinco atos. Trad. Millôr Fernandes. Porto Alegre, L&PM, 2005 
  • Quatro peças curtas. Como ele mentiu para o marido dela; A dama negra dos sonetos; O recruta Dennis; Um quê de realidade. Trad. Domingos Nunez. Coleção Musa Teatro, 2. Musa: Ludens, 2009. 167 p.

naturalmente, houve muitas encenações de peças de bernard shaw desde os anos 1930, iniciando-se com a companhia de teatro de dulcina de moraes. mas raríssimas vezes os livretos com a tradução para o palco chegaram a ser publicados; localizei apenas algumas edições pela funarte, acima arroladas. a título de curiosidade, vale citar a tradução de cecília meirelles para santa joana, que estreou com direção de flávio rangel em março de 1965, poucos meses após a morte da poeta-tradutora. 


programa da peça disponível aqui


Fontes: Fundação Biblioteca Nacional; Hemeroteca Digital FBN; Irish Literature in Brazil since 1888, aquiA Tradução Teatral: Widowers’ Houses de George Bernard Shaw, aqui; portais Estante Virtual e Livronauta; Google. 

ver iconografia aqui

18 de abr. de 2015

mário de andrade e a "coleção cultura musical"

já comentei isso em outros posts, mas repito porque acho importante: a "cultura brasileira" foi uma pequena e efêmera editora (1934-1938) que, entre outras coisas, mantinha uma coleção de obras sobre músicos, a "coleção cultura musical", dirigida e organizada por mário de andrade.

em se conhecendo o nariz empinado de mário de andrade em relação à literatura de tradução, acho interessante que, claro, nem ele próprio foi capaz de abdicar dessa atividade que interconecta povos e culturas por meio de suas obras. e até imagino que tenha sido ele mesmo a indicar e escolher os tradutores dos livros que integravam sua coleção.

fica aqui mais uma singela sugestão para um TCC, uma monografia de final de curso, em nível de graduação: a trajetória da coleção cultura musical, da editora cultura brasileira.





12 de abr. de 2015

a utopia

um artigo interessante de ana cláudia romano ribeiro sobre as várias traduções brasileiras de a utopia, de thomas more, aqui.

4 de abr. de 2015

o velho e o mar II

prosseguindo a questão levantada no post anterior, o velho e o mar, aqui, marlova assef, a quem agradeço também pelas imagens, confirma que a edição da civilização brasileira de 1956 traz o início "melvilliano": "O velho chamava-se Santiago".




capa, 1956                                                                                           sobrecapa, 1956


interessante notar que se trata de um licenciamento da livros do brasil para a civilização. a edição portuguesa lançada pela livros do brasil não traz data de edição, mas no google books consta o ano de 1954, aqui.


vale notar que a livros do brasil publicou apenas uma edição da tradução de fernando de castro ferro, e já a partir de 1956 substituiu-a por outra tradução, da lavra de jorge de sena, em circulação até a data de hoje. a tradução licenciada para a civilização passou por revisão para adequá-la ao português brasileiro.



mas, neste caso, aquela minha hipótese de um dedinho do ênio silveira nesse inusitado começo, que levantei em o velho e o mar, parece não se sustentar. em licenciamento, não se costuma (nem se pode muito) mexer no texto, salvo para fins de estrita adaptação linguística. isso leva a indicar que a fonte daquela inspiração melvilliana foi no ultramar mesmo, e quiçá por gosto mesmo do próprio tradutor (por maior que seja minha dificuldade em ver alguma coerência e compatibilizar os dois partidos anteriormente apontados).

concluindo, um dado interessante: castro ferro veio a se radicar no brasil, imagino que por volta daquela mesma época. aqui fundou uma editora, a expressão e cultura, e continuou na atividade tradutória por muitos anos. encontra-se um artigo interessante seu, "o mundo selvagem dos livros", no jornal opinião, sobre sua experiência de editor no brasil, aqui.

o velho e o mar

um caso interessante foi levantado por andré balaio no facebook, aqui.

trata-se do início d'o velho e o mar, de hemingway, em tradução de fernando de castro ferro, que saiu inicialmente pela civilização brasileira em 1955, teve dezenas de reedições, e em algum ano entre 2000 e 2005 passou para a bertrand, ambas pertencentes ao grupo editorial record.

 civilização brasileira, 44a. edição, 1999

 bertrand, 80a. edição, 2013



um leitor pode achar que é o tradutor inventando moda. difícil. à primeira vista, nas duas frases iniciais, até poderíamos pensar que se trata de uma adaptação. mas vê-se na sequência que se trata de tradução mesmo, e de uma mesma tradução, razoavelmente fiel ao texto, o que elimina a hipótese de se tratar de uma adaptação. mas é difícil que essa grande diferença nas frases iniciais se deva à iniciativa de um tradutor, visto que este, imediatamente a seguir, mostra bastante aderência ao original. não faria muito sentido adotar um partido tão "liberal" nas duas ou três primeiras frases e em seguida passar para um partido mais convencional.

o velho e o mar foi, até onde sei, o primeiro livro de hemingway publicado no brasil, por iniciativa de ênio silveira, grande admirador seu - tendo inclusive traduzido, sob o pseudônimo de a. veiga fialho, uma coletânea de contos de hemingway (the fifth column and the first forty-nine stories).



andré balaio argutamente aponta uma ressonância melvilliana no início "O velho chamava-se Santiago". de minha parte, repito, acho muito difícil que uma alteração tão grande do original tenha sido por iniciativa do tradutor, em vista da sequência da tradução. eu tenderia a ver aí um dedinho do próprio ênio silveira, um ímpeto "estilístico-comercial" (cabe lembrar que moby dick saíra não muitos anos antes na tradução de berenice xavier). mas essa minha hipótese só faz sentido se supusermos e pudermos confirmar que desde 1955 foi esta a versão publicada, a mesma que ainda em 1999 estava em circulação.

encontro referências ao outro início, publicado pela bertrand, pelo menos desde 2005. em sendo fundada a hipótese acima aventada, seria plausível supor que foi no momento da transferência dessa tradução de um para outro selo da record, isto é, da civilização para a bertrand, que se procedeu à alteração do início, (re)aproximando-o do original.

sobre fernando [de] castro ferro, veja nosso rastreamento nos comentários do post aqui.

atualização em 05/04/2015: agradeço a allison roberto pelas imagens abaixo. como se vê, é em 2001 que a bertrand que passa a publicar a tradução, com seu novo início:



poe


um artigo de maria rita drumond viana sobre várias traduções d'o gato preto, de poe, aqui.

os contos de poe em tradução de julio cortázar (1956, em reedição revista e corrigida pelo tradutor), aqui.

imagem: aubrey beardsley (1894-95), the black cat


1 de abr. de 2015

entrevista

o jornal cândido, da biblioteca pública do paraná, fez uma entrevista comigo, que publico aqui na íntegra.


Entrevista a Cândido, 3 de fevereiro de 2015

1. Em primeiro lugar, quem é o tradutor? Ou melhor, quem pode traduzir? Alguém que conheça a língua do livro a ser traduzido e também o idioma para o qual o texto será vertido? É isso? O que mais?
Sim, creio que o conhecimento das duas línguas, a de partida e a de chegada, são um bom começo - um excelente domínio sobretudo da língua de chegada, em nosso caso o português. Acredito também que o tradutor deve traduzir da língua estrangeira para sua língua materna, e não vice-versa. São raros, raríssimos os casos de estrangeiros que venham a conhecer tão bem o português que consigam autonomia completa na língua - os exemplos que me ocorrem são os de estrangeiros imigrantes ou de famílias imigrantes que acabaram se estabelecendo no Brasil, como Elias Davidovich, Tatiana Belinky, Paulo Rónai, Boris Schnaiderman e poucos mais.
Além do conhecimento do par de línguas, creio ser quase indispensável um conhecimento pelo menos geral dos assuntos tratados no texto. No caso de obras literárias, isso significa um mínimo de conhecimento de história da literatura, de estilos e escolas, bem como de técnicas literárias.
E, por fim, prática e experiência. Mas, para começar, creio que bastam, sim, os requisitos acima citados.

2. Há uma discussão, talvez superada, não sei, a respeito do tradutor respeitar o texto original ou então reescrever com liberdade. Qual a sua opinião sobre o assunto? Pode citar algum exemplo?
Ah, essa é uma discussão infindável, interminável, em particular na tradução literária. Pessoalmente, não conheço ninguém que defenda integralmente a ideia de "reescrever com liberdade", em termos estritos. No caso, isso seria mais uma paráfrase ou uma adaptação, e não tanto uma "tradução". Mas, tirando esses dois extremos - uma reescrita livre e descolada do texto ou uma adesão servil ao literalismo (que, no limite, nem faria sentido) -, há um extenso campo de variações e modulações possíveis. O praticante mais radical de uma reescrita livre seria, talvez, Ana Cristina César, a tal ponto que suas chamadas traduções são, a rigor, textos apenas inspirados por um original, digamos assim. Quanto ao literalismo mais colado ao original, há também o peso da experiência: um exemplo são as duas traduções de Josely Vianna Baptista  para Paradiso, de Lezama Lima, onde é possível ver seu amadurecimento desde aquela que foi sua primeira tradução profissional, em 1987, e a reelaboração a que procedeu na edição lançada agora em 2014.

3. Você tem vários livros traduzidos, da língua inglesa, francesa e do italiano. É isso mesmo? De qual idioma mais traduziu? 
Acrescento que traduzi também algumas coisas do espanhol. Gosto muito das línguas neolatinas e adoraria poder traduzir mais do francês e do italiano, mas, como a demanda por traduções do inglês é muito maior, acabo traduzindo bem mais do inglês do que de outras línguas.

4. Quanto tempo demora, em média, para traduzir uma lauda ou uma página? Você se programa, no caso de uma tradução já acertada, para trabalhar determinado número de páginas por dia ou pensa em caracteres ou traduz até o seu limite de energia naquele dia? 
Varia muito, muitíssimo, de tradutor para tradutor e também em função do texto e de suas dificuldades. Em meu caso pessoal, e em termos esquemáticos, foi assim: no começo eu me estabelecia uma jornada de 44 horas semanais, rendessem o que rendessem. Para livros de complexidade média, naquela época isso rendia cerca de dez páginas ou doze laudas por dia, resultando numa faixa de trezentas laudas ao mês, mais ou menos. Com o tempo, a experiência e sobretudo a facilidade proporcionada pela internet, para consultas e pesquisas, minhas horas de trabalho passaram a render mais laudas ou, dito de outra maneira, passei a precisar dedicar menos horas para chegar àquele tanto de laudas diárias. Hoje em dia, sou meio anárquica a esse respeito: às vezes, num surto inesperado qualquer, chego a fazer 20, 25 laudas num dia, sobretudo com textos fáceis, trabalhando oito, dez horas, e depois passo alguns dias sem fazer nada ou apenas duas ou três laudas, conforme vem a vontade. Tudo isso, naturalmente, supondo um texto não especialmente difícil. Para textos de maior dificuldade linguística, estilística ou temática, o rendimento é outro, cerca de metade ou dois terços disso. 

5. Quando realizou a sua primeira tradução? 
A primeira tradução profissional, digamos assim, ou seja, formalmente contratada e devidamente remunerada, foi em 1984, para a Editora Brasiliense. Era um livrinho do Perry Anderson, que saiu em português com o título de A crise da crise do marxismo. Já antes disso, eu gostava de traduzir artigos que achava interessantes (principalmente do Guy Debord, então pouco conhecido no Brasil), que eram publicados em alguns veículos da imprensa libertária (lembro-me dos baianos O inimigo do rei e Barbárie).

6. Até março de 2015, data da publicação da matéria, qual o número de obras que você traduziu? 
Hmmm, não sei dizer com certeza. Uns 120 livros, talvez, e uns vinte ou trinta artigos avulsos. Eu até mantinha uma listagem atualizada, mas nos últimos dois anos ando meio relapsa nisso.

7. Você vive das traduções? Paga-se bem ao tradutor? Quanto? As casas editoriais respeitam o tradutor? 
Sim, vivo exclusivamente de traduções. Olha, o preço de lauda que as editoras pagam aos tradutores varia incrivelmente, desde níveis vergonhosos até níveis que, para mim, são satisfatórios. Fica difícil dizer quanto. Mas creio que qualquer pessoa sensata só se dedicaria à atividade de tradução como única fonte de renda se a remuneração fosse suficiente para suas expectativas. No meu caso, com certeza é razoavelmente acima ou até bastante acima do salário de um professor universitário nos anos iniciais de carreira. Então, para mim está bom. Agora, para um pai ou mãe de família de classe média, com filhos para sustentar, com financiamento da casa para pagar etc., não creio que fosse tão satisfatório assim.
E sim, claro, as casas editoriais com as quais trabalho costumam respeitar bastante o tradutor. Bom, do contrário complica, não é mesmo? Quer dizer, a gente está na atividade porque é bem remunerada, é bem tratada, sente-se satisfeita, não é mesmo? Do contrário, por que se faria algo mal remunerado, sendo desrespeitado e se sentindo insatisfeito? Não faria sentido.

8. Considera o mercado editorial brasileiro profissional no que diz respeito a traduções? Pode apontar algum caso de profissionalismo? 
Ah, sim, altamente profissional! Estou acostumada a trabalhar para algumas editoras em caráter relativamente constante: Companhia das Letras, L&PM, Intrínseca, Objetiva, Zahar. São, todas elas, exemplos de alto profissionalismo na área de tradução, com excelentes editores. Não me lembro de ter trabalhado para alguma que pecasse por flagrante falta de profissionalismo - essas mal se sustentariam no mercado, imagino eu. Ademais, editoras que não zelam pela qualidade das traduções que publicam acabam fazendo um péssimo negócio, seja a curto, médio ou longo prazo. A maior bobagem que pode fazer uma editora é pagar mal ou desrespeitar seus profissionais.

9. O que é o maior problema para um tradutor? Pode citar algum caso seu, o qual foi difícil superar algum problema? 
Hmm, problemas sempre há: seja na tradução, com dificuldades que não consigo superar ou cujas soluções não me satisfazem plenamente; na preparação do texto, quando o revisor não entende bem o partido adotado na tradução ou mesmo falha em entender alguma coisa e faz intervenções desastradas; na divulgação da obra, quando cai na mão de algum resenhista de juízos demasiado rápidos ou desatentos, criticando infundadamente alguma coisa ou deixando de citar o nome do responsável pela tradução, e assim por diante. Mas faz parte.

10. Quais as suas traduções de que mais gosta? 
Ah, várias! Gosto muito de Piero della Francesca, de Roberto Longhi; de Walden, do Thoreau; de Mrs. Dalloway e Ao farol, ambas de Virginia Woolf (aliás, ambas premiadas). Recentemente tive uma experiência fabulosa, não nessa área mais lítero-humanística, e sim de ensaio de tipo jornalístico, que foi traduzir um livro sobre beisebol, de Michael Lewis, chamado Moneyball - foi sensacional, pois contratei um especialista para me orientar na área, visto que não entendo nada de beisebol e foi até meio imprudente de minha parte aceitar fazer essa tradução. Mas foi uma relação tão legal, tão séria, tão enriquecedora e ao mesmo tempo tão discreta e pouco invasiva que agora fico sonhando em desenvolver um novo tipo de trabalho, numa parceria assim. E o texto, achei que ficou ótimo - então estou adorando essa tradução também, por essa faceta inédita para mim.

11. Quem são os mais importantes tradutores em atividade no Brasil? 
Pergunta difícil, e inevitavelmente incorrerei em muitas injustiças, pois existe um grande número de bons, ótimos e excelentes tradutores em atividade no Brasil. Mas vamos lá: entre os grandes tradutores profissionais, sem dúvida destacam-se Ivo Barroso, Ivone Benedetti, Leonardo Fróes, Paulo Henriques Britto, Josely Vianna Baptista. Há outros grandes tradutores que não têm a tradução como atividade exclusiva e sequer principal, mas que são quase que uma espécie de "sal da terra" em nossa seara. Penso, por exemplo, em Marco Lucchesi, Jorio Dauster, Paulo Bezerra, Mamede Jarouche. Há um pessoal mais jovem, que começa a se consolidar e se destacar na área com trabalhos de alto nível, como Alípio Corrêa e Débora Landsberg. Mas, como disse, este é um exercício de injustiças, pois certamente há outros nomes de grande valor.

12. O que faz uma tradução ser considerada ruim? 
Bem formulada a questão, pois concede espaço para abrigar um fenômeno infelizmente não muito raro: pode ser desde a má vontade e - lamento dizer - eventual obtusidade de críticos e resenhistas até uma edição malfeita, com erros de revisão, má diagramação etc., que obscurecem a qualidade efetiva da tradução, até os casos mais triviais de incompetência do próprio tradutor, que leu, não entendeu e traduziu errado mesmo - e nenhum preparador ou revisor se deu conta dos erros e deixou passar. Em tempo: erramos, viu? Difícil encontrar alguma tradução que não contenha algum erro de entendimento ou de modulação.

13. O que eu não perguntei, deveria ter perguntado e você quer dizer sobre o assunto? 
Traduzir é uma delícia! Além de ser a coisa mais importante que existe. Já pensou um mundo sem acesso às línguas, obras e realizações de outras pessoas, de outras terras, culturas e épocas diferentes das nossas? Não dá nem para imaginar.




aqui "reconstruir um texto original", matéria de marcio renato dos santos utilizando excertos das entrevistas que vários tradutores demos.


26 de mar. de 2015

"o submundo da tradução"?!

divirto-me e até tomo como exercício muito salutar procurar erros meus de tradução. não faltam. às vezes publico em algum de meus blogues. afora isso, acho meio cabotino dar uma de agenor soares de moura ou de agripino grieco e ficar apontando erro dos outros. 
assim, a única coisa que me pareceu de interesse num recente artigo da revista cândido, aqui, foi a confirmação da nonchalance de jorge luis borges em emprestar seu nome a traduções alheias e a hipótese (apenas levemente acenada) de que cecilia meirelles teria feito sua tradução de orlando, de virginia woolf, a partir do espanhol. 
bom, fui conferir e, pelo que constatei, o comentário do articulista nem procede: o mouro inicialmente citado aparece apenas como "moor". apenas dois parágrafos adiante é que o narrador de orlando fala em "vast pagan". borges ou quem por ele usou respectivamente "moro" e "vasto infiel"; cecília meirelles usou "mouro" e "vasto infiel", ambos muito fiéis (no pun intended) ao original. em suma, a indicação do articulista parece um tanto perfunctória e insuficiente para alguma ilação mais sólida. creio que, antes de indagar "sentiram o problema?", seria o caso de ir além e verificar outros eventuais indicadores dessa aventada interposição.

atualização: como a matéria não consta mais no referido link, transcrevo-a abaixo.

A lacraia conversível ou o submundo da tradução
09/03/2015 - 16:40

Tradutor de Dom Quixote, entre tantos outros livros de língua espanhola, Ernani Ssó cita inúmeros equívocos de traduções realizadas no Brasil nos últimos anos

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Ilustração: Marcelo Cipis
Toda tradução pode ser criticada. As palavras não são como os números. Um quatro vale tanto no Brasil como na China, hoje ou daqui a cem anos. As palavras têm mais de um sentido, têm sinônimos, ritmos, reverberações. As palavras variam na mesma língua, dependendo da época, da região. As palavras envelhecem, morrem, às vezes ressuscitam ou trocam de identidade. Quer dizer, uma boa tradução está mais para arte do que ciência e por isso o seu julgamento não é preto no branco, dando margem a muitos argumentos.

Ernesto Sábato disse que a tradução argentina de Orlando, de Virginia Woolf, é demasiado borgeana, porque logo no começo se fala num “vasto mouro”. Jorge Luis Borges achou curioso, porque a tradução foi feita por sua mãe, embora os editores tenham preferido usar o nome dele. De qualquer forma, a tradução brasileira de Orlando, assinada por Cecília Meireles, também fala num “vasto mouro”. Sentiram o problema?

Agora, no feijão com arroz de todo dia, há erros absurdos, tão objetivos como bofetadas na cara do leitor. Mas vamos repartir a culpa. Uma tradução sai das mãos do tradutor e passa pela leitura de um editor que, para estar no cargo, espera-se, deve ser sensível e inteligente. Depois ela ainda passa por uns dois ou três revisores que devem saber português para serem revisores. Se eles topam com algo estranho, comunicam ao editor que, se não pode resolver o caso sozinho, fala com o tradutor ou outra pessoa. O que não se sabe, se pesquisa. Parece um esquema seguro, não parece? Mas basta folhear algumas páginas de meia dúzia de livros para termos dúvidas.

Antônio Callado traduziu O amor nos tempos do cólera, de García Márquez, para a editora Record. Foi muito elogiado, inclusive por Paulo Francis. Fui dar uma espiada para ver se aprendia alguns macetes. Na primeira página, tem a cena do fotógrafo e do cachorro mortos. No original, se diz que o cachorro estava “amarrado de la pata del catre”, quer dizer, amarrado à ou na perna da cama. Segundo Callado, o bicho estava “atado pela pata ao catre”. Costume exótico da Colômbia? Não, cochilo bobo. Na segunda página, me cansei do cotejo. Não encontrei nada mais pitoresco, mas um punhado de exemplos que provam que os elogios à tradução foram feito sem o trabalho da comparação com o original.
No segundo parágrafo de 62 — Modelo para armar, de Julio Cortázar, se fala em “cadena de preguntas” (cadeia, corrente de perguntas). Algumas frases depois, isso repica em “otro elo a situar”. Glória Rodríguez, na sua tradução para a Civilização Brasileira, optou por “sequência de perguntas”. O elo se perdeu.

Mesmo autor, mesma tradutora, mesma editora: Histórias de cronópios e de famas. Na historinha “Conservação das lembranças”, se diz que os famas, “após fixada a lembrança com cabelos e sinais, embrulham-na da cabeça aos pés”. “Pelos y señas” é uma expressão — os famas fixam as lembranças em todos os detalhes, tim-tim por tim-tim.

No primeiro capítulo de Rayuela, há uma frase sobre os “matadores de brújulas”. Fernando Castro Ferro, na sua tradução também para a Civilização Brasileira, teve um ataque de realismo e “corrigiu” Cortázar para “destruidores de bússolas”.

Alguém que anda por aí, também do Cortázar, foi traduzido por Remy Gorga Filho para a Nova Fronteira. No conto “As caras da medalha”, se lê: “Em um café, depois de brigarmos rindo para saber quem pagaria a conta, olhamo-noscomo velhos amigos, inesperadamente camaradas, nos dissemos palavrões privados de sentido, garras de ossos brincando”. O que vocês acham? Tenho minhas dúvidas de que as garras de ossos possam passar por poesia. A mim causa um incômodo instantâneo. Alguma coisa me parece fora de esquadro.

É o seguinte: o Remy confundiu urso, “oso” em espanhol, com osso, “hueso”, em espanhol. Garras de ursos brincando pode não ser uma grande metáfora, mas, convenhamos, indica claramente o que se passa com aquele casal.

Agora, me parece que o Remy cometeu um erro mais sutil no título: “As caras da medalha”. Cara é uma palavra bastante forte em português. Entra em mais de uma expressão: cara de pau, cara de tacho, cara a cara, dar as caras, com a cara no chão, encher a cara, fechar a cara, estar na cara ou de cara, enfim, a lista é longa. Tudo isso pesa. Dá um ar mais popular ou mais cru à palavra. Mas, mais importante, quando falamos cara, pensamos no rosto todo. Os lados do rosto são as faces. Tanto que a expressão duas caras quer dizer falta de sinceridade, não o lado esquerdo e o direito. “As faces da medalha” não soa melhor e não é mais plausível? Mas se o conto tivesse sido escrito em português, provavelmente se chamaria “As faces da moeda”, nunca da medalha.

Nos contos de Borges, seguido aparecem “orilleros”. “Orilla” é margem. Vai daí, Hermilo Borba Filho, na tradução de O informe de Brodie, para a Globo, no primeiro parágrafo de “A intrusa”, nos deu “ribeirinhos”. Não há rio no conto. Carlos Nejar, também para a Globo, no volume Ficções, no primeiro parágrafo de “Funes, o memorioso”, preferiu “margeador”. Segundo o Aurelião, margeador é alguém que trabalha em gráfica. “Orillero” é o morador dos subúrbios, ou dos arredores da cidade, geralmente meio marginal. Nesse mesmo conto, na primeira frase, “con una oscura pasionaria en la mano” se transforma em “com um escuro livro da paixão nas mãos”, o que é muito para uma simples flor de maracujá.

Falando em Nejar, ele declarou ao jornal Já, de Porto Alegre, na época da morte de Borges, que não teve problema nenhum para traduzi-lo. Acredito. Abrindo Ficções quase que em qualquer página se vê que quem teve problema foi Borges.

Pepe Escobar traduziu Os conjurados, último livro de Borges, para a Editora Três. Disse que tentou não atraiçoar Borges na medida do possível e que traduzi-lo foi — e é — uma artimanha da libido. Vejamos um exemplo ao acaso. Há quase que dois ou três por página. Um verso do poema “Todos os passados, um sonho”: “una mano templando una guitarra” (uma mão afinando um violão) se tornou, na versão libidinosa, “uma mão moderando uma guitarra”. Certo, “templar” também é moderar, mas no caso não faz sentido nenhum. Ler o verbete inteiro no dicionário não está dentro do possível?

Ivan Junqueira traduziu para a Rocco o Prólogos com um prólogo dos prólogos, de Borges. No prólogo de A invenção de Morel, no segundo parágrafo, falta a seguinte frase: “Essa liberdade plena acaba por equivaler à plena desordem”. Parece grave? As traduções de Kafka feitas pelo Torrieri Guimarães têm trechos inteiros faltando. É que a parte mais chata da tradução, depois do pagamento irrisório e atrasado, é o cotejo do texto com o original. Geralmente o tradutor deixa isso para o editor e o editor jura que tinha deixado para o tradutor.

No próximo parágrafo desse mesmo prólogo, há este trecho: “se hundió en el corazón de laberintos hechos de laberintos” (mergulhou no coração de labirintos feitos de labirintos). Segundo Junqueira: “se fundiu no coração de labirintos”. Segundo Vera Neves Pedroso, que traduziu A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares, também para a Rocco: “mergulhou no âmago de labirintos”. Depois o pobre leitor pensa estar se deliciando com as sutilezas do estilo de Borges.

Nas novelas de Georges Simenon, encontrei mais de uma vez jornal diário (“quotidien”) traduzido por cotidiano, como em O presidente, na tradução de Áurea Weissenber, para a Nova Fronteira. Esse mesmo erro aparece em Georges Simenon – Uma biografia, de Pierre Assouline, traduzido para a Siciliano por Raul de Sá Barbosa. O melhor foi um “cotidiano de grande circulação”, mas não lembro em que novela.

Na página 237 de Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez, traduzido por Sérgio Molina para a Companhia das Letras, se lê a seguinte frase: “Era um desses momentos em que a tarde está indecisa, conforme as palavras de Cifuentes: a luz oscila entre o cinza, o púrpura e o laranja como uma vaca boba”. Vaca boba, como? Fui ao dicionário: não, a vaca não era boba, era a vaca da festa de casamento. “La vaca de la boda” é uma expressão que nasceu de uma festa medieval, tipo farra do boi, em que a multidão espanta uma vaca de um lado para o outro, até a pobre não saber pra que lado correr.

É fácil o olho da gente trocar uma letrinha e assim formar outra palavra. Por isso é preciso reler. Numa releitura quase sempre um erro desses fica claro. Digo quase porque acontece às vezes de o erro fazer sentido dentro da frase. Por isso, além de reler, temos de comparar frase a frase a tradução e o original.

Agora, a obra-prima pertence a uma edição da Artenova. Na página 25 de O olhar de despedida, de Ross Macdonald, traduzido por Marcos de Almeida, uma garota espia num estacionamento uma “lacraia conversível”. Suponho que se referisse àqueles carros que se chamavam baratas. Mas, mesmo assim, é forte. A lacraia tem mais de noventa patas que a barata.

Esses erros são sinal do quê? Ignorância das duas línguas, principalmente do português? Se em alguns casos é exatamente isso, na maioria a culpa parece estar na pressa, no desleixo, no desrespeito e numa autoconfiança à prova de balas. Qualquer revisão digna desse nome não deixaria passar nada disso.

Agora, talvez o mais perigoso não sejam esses erros cabeludos. Afinal, qualquer um, com dois dedos de testa, se dá conta de que uma lacraia conversível é coisa de ficção científica. Talvez o mais perigoso sejam as pequenas traições. Como Fernando Castro Ferro liquidando a poesia dos matadores de bússolas. Como Ivan Junqueira e Vera Pedroso mergulhados no coração de enganos e resumos estúpidos. Como no elo perdido de Glória Rodríguez. Como nas caras das medalhas do Remy Gorga Filho.

Em primeiro lugar, esse tipo de erro é muito mais comum. Para cada lacraia conversível — ou descapotável, se for em Portugal —, há dezenas, centenas de idiotices sem perdão, temo que algumas cometidas por mim mesmo. Pior, o leitor que não tem acesso ao original, engole tudo, porque no fim das contas o texto faz sentido. É mais pobre, mais feio, mas faz sentido. Essa corrupção estilística é um caso sério. Literatura não se faz com mera informação.

Ernani Ssó traduziu, entre muitos, Dom Quixote, de Cervantes, para a Penguin-Companhia, e é autor do romance Como o diabo gosta, a sair pela Cosac Naify. Vive em Porto Alegre (RS).


21 de mar. de 2015

o decameron

aí você lê um vasto de um catatau de um livro, de uma fluência muito simpática, algo que parece não ter maiores segredos, algo que você acha plenamente normal ter ao seu alcance e à sua disposição, a coisa mais natural do mundo, nada mais que obrigação dos céus e das editoras de te entregar na mão. afinal, pra que serve esse tal de tradutor se não é pra te dar textos legais e palatáveis? estão aí pra isso mesmo, ué, que que tem de mais?

então leia o artigo da tradutora, aqui. aí talvez fique mais claro o que é a tradução como um artesanato realmente primoroso, coisa raríssima. (para além da excelência prática, devo dizer que, entre os profissionais do ofício, ivone benedetti é hoje em dia, a meu ver, quem provavelmente melhor reflete sobre essa nossa atividade, com incrível agudeza e bagagem conceitual.)



17 de mar. de 2015

kafka no brasil


a tradterm 24 publica meu estudo "kafka no brasil (1946-1979)", aqui.


2 de mar. de 2015

traduzindo o pequeno príncipe

a quem se interessar, iniciei um pequeno blog de acompanhamento de tradução, agora de le petit prince, de saint-exupéry. chama-se traduzindo o pequeno príncipe e está aqui.