3 de mar de 2009

rocco/claret 1

em 1986 a rocco lançou uma coletânea de textos de henry david thoreau, com organização, seleção, introdução, tradução e notas de josé augusto drummond, além de um prefácio de fernando gabeira. essa coletânea também saiu pelo círculo do livro, teve diversas edições, ainda está no catálogo da rocco, mas anda meio esgotada. chama-se desobedecendo, e traz como subtítulo a desobediência civil & outros escritos. a coletânea é composta por cinco ensaios, a saber: a desobediência civil; a vida sem princípio; caminhando; a escravidão em massachusetts; uma semana nos rios concord e merrimack (este último em trechos selecionados pelo organizador/tradutor).

em 2005, a martin claret lançou uma coletânea chamada a desobediência civil e outros escritos. ela contém: a desobediência civil; andar a pé; trechos escolhidos [sic; trata-se de uma seleta de walden]; um passeio num inverno rigoroso; uma semana nos rios concord e merrimack. a tradução é atribuída a "alex marins", e a coletânea usa "chapa fria". está cadastrada na fbn/isbn tendo como tradutor pietro nassetti, e com o título desobedecend [sic] - talvez porque o pessoal da claret não tenha entendido o lance da letra "o" fora de alinhamento na capa da rocco...

em floresta dos plágios, apresentei a suposta tradução de alex marins para andar a pé, indicando que parece se resumir a uma cópia mal disfarçada da tradução de sarmento de beires e josé duarte, pela jackson (clássicos, volume xxxiii, ensaístas americanos, 1950).

quanto aos ensaios a desobediência civil e uma semana nos rios concord e merrimack publicados pela claret, parecem cópias atamancadas da tradução de josé augusto drummond, na edição da rocco acima citada.

vejam-se alguns exemplos:

a. a desobediência civil, josé augusto drummond:

A única obrigação que tenho direito de assumir é fazer a qualquer momento aquilo que julgo certo. Costuma-se dizer, e com toda a razão, que uma corporação não tem consciência; mas uma corporação de homens conscienciosos é uma corporação com uma consciência. A lei nunca fez os homens sequer um pouco mais justos; e o respeito reverente pela lei tem levado até mesmo os bem-intencionados a agirem cotidianamente como mensageiros da injustiça. Um resultado comum e natural de um respeito indevido pela lei é a visão de uma coluna de soldados - coronel, capitão, cabos, combatentes, e outros - marchando para a guerra numa ordem impecável, cruzando morros e vales, contra as suas vontades, e como sempre, contra seu senso comum e suas consciências; por isso essa marcha é muito pesada e faz o coração bater forte. Eles sabem perfeitamente que estão envolvidos numa iniciativa maldita; eles têm tendências pacíficas. O que são eles, agora? Chegarão a ser homens? Ou pequenos fortes e paióis móveis, a serviço de algum inescrupuloso detentor do poder? É só visitar o Estaleiro Naval (4) e contemplar um fuzileiro: eis aí o tipo de homem que um governo norte-americano é capaz de fabricar - ou transformar com sua magia negra - uma sombra pálida, uma vaga recordação da condição humana, um cadáver de pé e vivo e, no entanto, se poderia considerá-lo enterrado sob armas com acompanhamento funeral, embora possa acontecer que

"Não se ouviu um rufar e sequer um toque de silêncio
enquanto à muralha seu corpo levamos
nenhum soldado disparou uma salva de adeus
sobre o túmulo onde jaz o herói que enterramos".5

4 Thoreau provavelmente se refere ao Estaleiro Naval da Marinha de Guerra dos EUA, em Boston, no Estado de Massachusetts.
5 Trecho do poema The Burial of Sir John Moore at Corunna (O Enterro de Sir John Moore em Corunna), de Charles Wolfe (1791-1823).

b. a desobediência civil, alex marins/pietro nassetti:

A única obrigação que tenho direito de assumir é fazer a qualquer momento aquilo que julgo certo. Com toda a razão, costuma-se dizer que uma corporação não tem consciência. Uma corporação de homens conscienciosos, todavia, é uma corporação consciente. A lei jamais tornou os homens sequer um pouco mais justos. O respeito reverente pela lei tem levado até mesmo os bem-intencionados a agir quotidianamente como mensageiros da injustiça. O produto comum e natural de um respeito indevido pela lei é a visão de uma coluna de soldados - coronel, capitão, cabos, combatentes e outros - marchando para a guerra numa ordem impecável, cruzando morros e vales, contra sua vontade, e como sempre contra seu juízo e sua consciência comuns. Daí que essa marcha é muito pesada e faz o coração bater forte. Eles têm perfeita noção de que estão envolvidos numa iniciativa maldita. Porque eles têm tendências pacíficas. Que são eles, então? Chegarão a ser homens? Ou pequenos fortes e paióis móveis, a serviço de algum inescrupuloso detentor do poder? Basta visitar o estaleiro naval (4) e contemplar um fuzileiro: aí se vê o tipo de homem que um governo norte-americano é capaz de fabricar - ou transformar com sua magia negra - uma sombra pálida, uma vaga recordação da condição humana, um cadáver de pé e vivo que, entretanto, se poderia considerar enterrado sob armas com acompanhamento fúnebre, conquanto possa acontecer que

"Não se ouviu um rufar e sequer um toque de silêncio
enquanto à muralha seu corpo levamos
nenhum soldado disparou uma salva de adeus
sobre o túmulo onde jaz o herói que enterramos"5.

4 Provavelmente Thoreau se refere ao estaleiro naval da Marinha de Guerra dos EUA, em Boston, no Estado de Massachusetts.
5 Trecho do poema "The burial of Sir John Moore at Corunna" (O Enterro de Sir John Moore em Corunna), de Charles Wolfe (1791-1823).


a. a desobediência civil, josé augusto drummond:

Antigamente, na nossa aldeia, havia o costume de saudar os pobres endividados que saíam da cadeia olhando-os através dos dedos dispostos em forma das barras de uma janela de prisão; e se perguntava ao recém-liberto: "Como vai você?" Não recebi essa saudação de meus conhecidos, que primeiro me encaravam e depois se entreolhavam, corno se eu acabasse de voltar de uma longa viagem. Eu tinha sido preso quando me dirigia ao sapateiro para pegar uma bota consertada. Quando fui solto na manhã seguinte, resolvi retomar o que estava fazendo e, depois de calçar a tal bota, juntei-me a um grupo que pretendia colher frutas silvestres e que ansiava me ter como guia.24 E em pouco mais de meia hora - pois logo recebi um cavalo arreado -chegamos ao alto de um dos nossos mais altos morros, onde abundavam frutas silvestres, a três quilômetros da cidade; e aí então não se podia ver o Estado em lugar nenhum.
Essa é a história completa de "Minhas Prisões".25

24 Isso se justifica, pois Thoreau era ótimo conhecedor das florestas em torno do Concord. Aliás, na época dessa sua prisão. Thoreau estava residindo sozinho numa cabana nas florestas vizinhas de Concord, experiência que durou pouco mais de dois anos e que lhe forneceu o material para escrever a sua obra principal, Walden, publicada pela primeira vez em 1854.
25 Referência irônica ao livro Le mie prigioni, do escritor e político italiano Silvio Pellico (1789-1854). Thoreau não gostava da curiosidade despertada pela sua prisão e evitava o assunto. O próprio estilo desse relato sobre a prisão é diferente do resto do ensaio, indicando talvez certa relutância em abordar o fato. É possível que esse trecho tenha sido retirado, sem maiores revisões, diretamente do seu Journals (Diário), no qual ele anotou desde 1837 as passagens, experiências e idéias do seu dia-a-dia. É sabido que várias obras de Thoreau foram compostas a partir da reelaboração de trechos de seu Diário.



b. a desobediência civil, alex marins/pietro nassetti:

Em nossa aldeia, havia o antigo costume de saudar os pobres endividados que saíam da cadeia olhando-os através dos dedos dispostos em forma das barras de uma janela de prisão, perguntando ao recém-liberto: "Como vai você?" Eu não recebi essa saudação de meus conhecidos, que primeiro me encaravam e depois se entreolhavam, corno se eu acabasse de voltar de uma longa viagem. Minha prisão se dera quando eu me dirigia ao sapateiro para pegar uma bota consertada. Ao ser solto na manhã seguinte, resolvi retomar o que estava fazendo e, depois de calçar a tal bota, juntei-me a um grupo que pretendia colher frutas silvestres e me queria como guia.24 Em pouco mais de meia hora - logo recebi um cavalo arreado - chegamos ao topo de uma de nossas mais altas colinas, onde abundavam frutas silvestres, a três quilômetros da cidade. Daquele ponto não se podia ver propriamente nada do Estado.
A história completa de "Minhas Prisões" se resume nisso.25

24 Realmente Thoreau era profundo conhecedor das florestas que ladeavam Concord. Na época dessa sua prisão. Thoreau residia sozinho numa cabana nas florestas vizinhas de Concord, experiência que durou pouco mais de dois anos e que lhe forneceu o material para escrever a sua obra principal, Walden, publicada pela primeira vez em 1854.
25 Referência irônica ao livro La mia prigione, do escritor e político italiano Silvio Pellico (1789-1854). Thoreau não gostava da curiosidade despertada pela sua prisão e evitava o assunto. A própria forma desse relato sobre a prisão difere um pouco do resto do ensaio, indicando talvez certa relutância em abordar o caso. É possível que esse trecho tenha sido extraído, sem maiores revisões, diretamente do seu Journals (Diário), no qual ele anotou desde 1837 as passagens, experiências e idéias do seu dia-a-dia. Várias obras de Thoreau, foram compostas a partir da reelaboração de trechos de seu Diário.



a. a desobediência civil, josé augusto drummond:

A autoridade do governo, mesmo do governo ao qual estou disposto a me submeter -pois obedecerei com satisfação aos que saibam e façam melhor do que eu e, sob certos aspectos, obedecerei até aos que não saibam nem façam as coisas tão bem -é ainda impura; para ser inteiramente justa, ela precisa contar com a sanção e com o consentimento dos governados. Ele não pode ter sobre minha pessoa e meus bens qualquer direito puro além do que eu lhe concedo. O progresso de uma monarquia absoluta para uma monarquia constitucional, e desta para uma democracia, é um progresso no sentido do verdadeiro respeito pelo indivíduo. [falta uma frase do original] Será que a democracia tal como a conhecemos é o último aperfeiçoamento possível em termos de construir governos? Não será possível dar um passo a mais no sentido de reconhecer e organizar os direitos do homem?

b. a desobediência civil, "alex marins":

A autoridade do governo, inclusive a do governo ao qual estou disposto a me submeter - eis que obedecerei de bom grado aos que saibam e façam melhor do que eu e, sob certos aspectos, obedecerei até àqueles que não saibam nem façam as coisas tão bem - é ainda impura. Para se tornar totalmente justa, ela precisa contar com a sanção e com o consentimento dos governados. O governo não pode ter sobre minha pessoa e meus bens qualquer direito puro além do que eu lhe concedo. A evolução de uma monarquia absoluta para uma monarquia constitucional, e desta para uma democracia, é um progresso no sentido do verdadeiro respeito pelo indivíduo. [falta a mesma frase do original] Será que a democracia, da forma como a conhecemos, é o último aperfeiçoamento possível em termos de construir governos? Não será possível dar um passo a mais no sentido de reconhecer e organizar os direitos do homem?


obs.: troquei algumas palavras que, retiradas do contexto, talvez pudessem parecer ofensivas - a intenção do nãogostodeplágio não é em absoluto ofender quem quer que seja, e sim apontar objetivamente, com provas, documentos e análises de texto, o provável recurso de algumas editoras a práticas ilícitas, que devem ser repudiadas veementemente por todos os setores da sociedade, sob o risco de se dissolverem as relações e os princípios que norteiam a vida em sociedade. 


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

2 comentários:

  1. Lucas Bender7.8.09

    Não conhecia o blog, cheguei por acaso, através deste post sobre A Desobediência Civil, e fiquei satisfeito de saber que há atenção sobre traduções, coisa que costuma passar despercebida. Parabéns, é de fato um blog de utilidade pública. Vou continuar visitando.

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  2. Fico contente em ter encontrado esta sua batalha contra os crimes da Martin Claret. Não sei se fico mais assustado pela cara de pau da editora em se apropriar de traduções, ou pela arte que acompanha as capas - sinceramente, nunca vi coisa tão horrível, creio que até o próprio Thoreau teria reflexo de vômito ao ver seu Desobendiência Civil representado com imagens multicoloridas de dólares, estrelas e bandeiras americanas, pois infelizmente a apresentação passa uma idéia. Tenho um Origem das Espécies dessa editora que comprei antes de conhecê-la, e não vejo a hora de trocar por uma edição mais digna - e então darei a primeira pois afinal já foi comprada mesmo, um gesto mais ou menos simbólico, mas me dá coceira observar que tenho um livro publicado por eles.

    Outra editora que me assusta é a Petit, que publica livros claramente preconceituosos, como "O Ateu" de Antonio Carlos. Nada contra liberdade de expressão, mas propagar idéias abjetas como tais é um desserviço à sociedade.

    Enfim, lhe congratulo pela empreitada, e agradeço por se dar tal preocupação. Tudo de bom!

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