30 de nov de 2011

ecce homo, martin claret

ecce homo tem sofrido um bom pouco no brasil. houve a fraude descabelada da editora rideel em 2005, que publicou uma cópia atamancada da tradução portuguesa de artur morão, atribuindo-a ao nome de "heloísa da graça burati". ver aqui.

diz a editora que recolheu essa edição espúria após o desmascaramento da fraude, mas alguns milhares de exemplares circularam e foram vendidos, e certamente continuam a integrar bibliotecas pessoais e públicas.



desde 1999, a martin claret publica ecce homo em sucessivas reedições, incansavelmente atribuindo a autoria da tradução a pietro nassetti:

neste caso, o autor da tradução legítima que serviu de base para a fraude nassetti-claretiana é lourival de queiroz henkel. ela foi publicada por volta de 1936 pela edições e publicações brasil, com prefácio de afonso bertagnoli. a brasil lançou quatro edições da obra, até 1959.


mais tarde, a tradução de lourival de queiroz henkel trafegou para a tecnoprint e ediouro, com inúmeras reedições, e agora consta como "temporariamente" esgotada:


veja-se uma rápida comparação entre a tradução de lourival de queiroz henkel e a cópia de pietro nassetti. nietzsche está comentando sua obra a origem da tragédia:
O início é sobremodo singular. Pela minha experiência íntima, fora-me dado descobrir o único símbolo e paralelo que à história é dado possuir, tendo sido o primeiro também a conceber o maravilhoso fenômeno dionisíaco. Ao mesmo tempo, pelo fato de ter reconhecido Sócrates como um decadente, experimentara de maneira indubitável quão pouco o meu instinto psicológico estava ameaçado por qualquer idiossincrasia moral: a própria moral, considerada como sintoma da decadência, é uma inovação, uma particularidade de primeira ordem na história da consciência. Como passara alto, de um só pulo, em todos os dois casos, acima das conversas fiadas do otimismo contra o pessimismo! ... Eu anuncio o advento de uma era trágica: a arte mais sublime na afirmação da vida, a tragédia, renascerá quando a humanidade, sem sofrimento, tiver atrás de si a consciência de ter sustentado as guerras mais rudes e mais necessárias.(LQH) 
Este início é sobremodo singular. Pela minha experiência íntima, fora-me dado descobrir o único símbolo e paralelo que à história é dado possuir, tendo sido o primeiro também a conceber o maravilhoso fenômeno dionisíaco. Ao mesmo tempo, pelo fato de ter reconhecido Sócrates como um decadente, experimentara de maneira indubitável quão pouco o meu instinto psicológico estava ameaçado por qualquer idiossincrasia moral: a própria moral, considerada como sintoma da decadência, é uma inovação, uma particularidade de primeira ordem na história da consciência. Como passara alto, de um só pulo, em todos os dois casos, acima das conversas fiadas do otimismo contra o pessimismo! ... Eu anuncio o advento de era trágica: a arte mais sublime na afirmação da vida, a tragédia, renascerá quando a humanidade, sem sofrimento, terá atrás de si a consciência de ter sustentado as guerras mais rudes e mais necessárias. (PN)
aliás, a edição claretiana do ecce homo traz também o prefácio de afonso bertagnoli à edição de c.1936. a coisa está meio confusa, pois aparentemente o editor da martin claret achou que o prefácio seria do próprio nietzsche e o apresentou em "versão de affonso bertagnoli, adaptada por mauro araujo de souza" (p. 25).

esse patético ecce homo da martin claret se encontra disponível para download em vários sites, por exemplo aqui. se a pessoa quiser uma tradução legítima, o supracitado ecce homo de artur morão, garfado pela rideel, se encontra, por exemplo, aqui.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.
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Um comentário:

  1. Na última semana, tive o desprazer de adquirir um Ecce Homo da Editora Rideel. O trabalho de tradução/edição é péssimo, sendo que alguns fragmentos da obra são quase ininteligíveis.

    A única coisa boa que o livro me forneceu foi a localização desse Blog. Procurei no Google se alguém havia reparado na tradução e acabei encontrando essa página. Como tradutor (iniciante, admito), interessei-me muito pelo conteúdo, e certamente o estudarei com o tempo.

    Abraços!

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