7 de nov de 2011

uma breve tipologia dos créditos de tradução

é importante distinguir entre tradução anônima, tradução sob pseudônimo, tradução de "bagrinhos" assinada por outrem que recebe os créditos em seu nome, pretensa tradução (na verdade plágio ou contrafação) assinada com nome real de um ser verdadeiro, assinada com nome de fantasia de um ser verdadeiro ou assinada com um nome qualquer que não designa ser nenhum. as duas primeiras práticas são lícitas, as demais são ilícitas. os graus de ilicitude - e decência, digamos - variam, dependendo das responsabilidades envolvidas e das lesões de direito.

segue-se uma tentativa de classificação:

  • traduções anônimas, sobretudo entre o século XIX até meados do século XX, abundavam. aqui cabe uma distinção entre responsabilidades: o autor tem direito a permanecer anônimo, caso queira - assim, é lícito que traduza uma obra e não lhe aponha o nome. mas as editoras, em princípio e por lei, não podem impor o anonimato aos tradutores (caso que ainda hoje ocorre, por exemplo, na editora fundamento). se o anonimato for "forçado", naturalmente é ilícito.
  • o uso de pseudônimo é plenamente lícito e legítimo, e essa escolha é de responsabilidade do indivíduo, não da empresa. as razões para a escolha podem ser as mais variadas possíveis, e nem cabe examiná-las.
  • ilícito evidente, de responsabilidade pessoal: pietro nassetti e vários outros são nomes verdadeiros de seres de carne e osso, que se presta(va)m conscientemente ao papel de saqueadores de traduções alheias, a pedido, por ordem ou em conivência com as editoras de suas relações;* 
  • outro ilícito evidente, também de responsabilidade pessoal: enrico corvisieri e outros são nomes de fantasia de seres verdadeiros que se presta(va)m ao papel acima descrito;  
  • ilícito evidente, de responsabilidade empresarial: alex marins, pedro h. berwick e outros são cascas vazias, nomes inventados que não designam ninguém, usados pelas editoras apenas para encobrir a apropriação de traduções alheias; 
  • outro tipo de caso, a meu ver ilícito ou pelo menos imoral, que talvez seja ainda bastante frequente e de difícil identificação: por exemplo, nelson rodrigues (sim, nelson rodrigues, aquele mesmo do vestido de noiva, do "óbvio ululante" e de frases tipo "toda unanimidade é burra" e que tais) apenas assinava traduções feitas por "bagrinhos" - comenta-se à boca pequena que o mesmo fizeram ocasionalmente rachel de queiroz e monteiro lobato, e frequentemente oscar mendes: sobre estes três, não sei nem disponho de dados ou indícios concretos, e aqui registro apenas como boato ou maledicência.
* note-se que aqui nem comento o caso do tradutor individual que, por iniciativa própria e enganando a editora, apresenta como sua uma tradução copiada de outrem. nem merece entrar nessa tipologia: recai diretamente na categoria de estelionato.

existem mais dois casos típicos: a "tradução revista por xxx" e o que érico veríssimo chamava de "nome de conveniência". 

comecemos pela "tradução revista por xxx", em que o tradutor efetivo cai no anonimato, que pode ser encaixada em duas modalidades, a primeira mais rara, a segunda mais frequente e bastante escusa: 
  • como primeira modalidade, uma tradução brasileira mal feita que foi exaustivamente corrigida e reelaborada a ponto de ser a identidade de quem a "salvou" mais pertinente do que a identidade de quem fez o serviço atamancado inicial - exemplos são vários títulos da cia. editora nacional com "tradução revista por monteiro lobato" ou "tradução revista por godofredo rangel".  
  • como segunda modalidade, uma tradução de origem portuguesa, que passa por uma revisão abrasileirando a linguagem, sem dar os créditos de origem - um exemplo é uma coletânea de contos de poe em "tradução portuguesa revista por faria e sousa" ou a obra de gabriel deville em "tradução revista por gesner de wilton morgado"; ou ainda:
  • uma tradução brasileira já publicada, que é simplesmente copiada ou levemente modificada, sem dar os créditos do tradutor - um exemplo é werther na "tradução revista por marques rebelo", cópia da tradução de elias davidovitch; e também:
  • uma variante mais escusa nos fartos exemplos da editora cultrix entre 1957 e 1959, em sua coleção maravilhas do conto universal, com vários volumes indicando apenas "revisão da tradução por t. booker washington": digo mais escusa, pois nos tipos antes citados as pessoas (faria e sousa, gesner morgado, marques rebelo) existiam; já "t. booker washington" é um evidente nome de fantasia que encobre sabe-se lá quem e o quê.
já a curiosa modalidade definida por érico veríssimo, a tradução sob um "nome de conveniência", mereceu um post próprio, aqui.

imagem: máscaras
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6 comentários:

  1. Fabrizio Lyra7.11.11

    Denise, esse foi um dos mais maravilhosos posts que você escreveu. Como sempre e, agora mais do que nunca, você presta um grande serviço de utilidade pública. Não sei se existem leis atualmente contra certos, a meu ver, absurdos em termos de tradução que existiam no passado e que você exemplificou nessa matéria. Me refiro ao tradutor anônimo e ao pseudônimo. Creio que, em pleno séxulo XXI, isso não deveria existir mais. Não creio que anonimato e pseudônimo devam mais serem classificados como legitímos. Proponho esse debate aqui. Como já disse em outra ocasião, creio que todos os que amam a leitura e, especialmente, os que lêem avidamente em diversas áreas da cultura como eu, devem aproveitar a facilidade maior de comunicação que a net proporciona hoje e estarem sempre atentos a todas as falhas, escrevendo e denunciando a perpetuação de todos esses erros do passado. Para mim, deveria ser OBRIGATÓRIO, disciplinado em LEI, que todas as editoras colocassem NOME VERDADEIRO e CURRÍCULO de seus tradutores. Em qualquer área, o consumidor deve ter o direito de possuir ferramentas para verificar a qualidade do profissional que o atende. E, aproveitando a citação de Oscar Mendes no seu post, entrei agora exatamente por causa dele. Não quero denegrir a memória de ninguém, mas fiz uma pesquisa na net sobre o nome dele e só aparecem os titulos dos livros traduzidos por ele. Não encontro biografia dele. No excelente site da Ditra, que também presta um grande serviço aos leitores, não existe verbete com o nome dele. Achei estranho, pois apesar de ainda faltarem nomes de tradutores nesse site, eles têm uma relação muito vasta e estão sempre acrescentando mais nomes com biografia, bibliografia e currículo. Grande serviço, realmente. Acredito que todos os nomes mais conhecidos, especialmente os dos mais antigos, estão ali. Então, por quê o nome de Oscar Mendes, que têm tantas traduções assinadas, não está? Além do fato das traduções dele serem muito datadas e cansativas de ler, creio que se deveria atentar para o fato da possibilidade de se omitirem elementos do texto original ou de se traduzir errado. Como já disse, não sou profissional da tradução para fazer esse trabalho, mas lendo traduções diferentes de contos feitos por Oscar e outros tradutores percebem-se essas discrepâncias mesmo não tendo o original em mãos para cotejo. Abraço, obrigado e parabéns mais uma vez!

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  2. olá, fabrizio, na minha opinião:
    - vc não pode querer atropelar direitos humanos básicos: o direito ao nome é um direito moral personalíssimo e intransferível, e o autor pode renunciar a ele, e pode usar pseudônimo, claro. que vc goste ou não, são outros quinhentos.
    - quanto ao oscar mendes, já vi várias referências biográficas a ele, mas nunca sistematizei. voltando a encontrar, te passo os links. em todo caso, era mineiro, teve um papel importante de agenciamento de tradutores (milton amado é o caso mais notável) e de estabelecer pontes com as editoras. talvez não da maneira mais transparente que possamos desejar, mas deu sua contribuição, e no balanço geral parece-me positiva. se por acaso passo a impressão de estar a criticá-lo demais, é talvez para compensar um certo incensamento a meu ver indiscriminado em torno dele.
    - provavelmente ele não consta no site do ditra porque já tinha morrido um bom tempo antes de ser implantado o projeto - ao que sei, são entrevistas conduzidas pessoalmente entre o pessoal da universidade e os tradutores - ou simplesmente porque ainda não lhes ocorreu. de qualquer forma, é uma lacuna que merece ser preenchida.
    - um site interessante, que talvez lhe agrade: http://www.letras.puc-rio.br/shakespeare/default.php

    abraço
    denise

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  3. em tempo: vc levanta um ponto importante, que é o direito do consumidor. tenho tido sucesso em minhas petições junto ao ministério público nos casos de plágios de tradução justamente por lesão aos consumidores. mas veja que, no caso dos direitos do autor (e do tradutor, como autor de obra derivada), não se trata de uma empresa, esta sim regida também pelo código do consumidor, mas de uma pessoa física, portadora de direitos inalienáveis, entre eles o de dispor de seu nome.
    o que acontece é que as traduções anônimas geralmente o são por hábitos ou políticas da empresa, não por opção do tradutor. já sobre o uso do pseudônimo, nem entro no assunto: o tradutor ou qualquer pessoa tem direito a usar pseudônimos - agora, se a editora aceita ou não publicar aquela obra sob pseudônimo, são outros quinhentos.

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  4. Oscar Mendes nasceu em Recife, no ano de 1902 e viveu em terras mineiras durante o
    período de 1926, após ter se formado em Direito, até 1996, quando faleceu. Em Minas Gerais,
    exerceu os cargos de Promotor de Justiça e Juiz Municipal. Foi ensaísta, crítico literário,
    conferencista, jornalista, professor, orador e tradutor. No exercício da última atividade, ficou
    conhecido pela sua tradução de O Corvo, de Edgar Allan Poe, que foi considerada por Ivo
    Barroso a melhor entre as muitas já feitas deste conto, entre elas as de Machado de Assis e
    Fernando Pessoa. Mendes pertenceu à Academia Mineira de Letras e recebeu o Prêmio
    Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras, em 1968.
    http://www.ufjf.br/bachareladotradingles/files/2011/02/luciana_borges.pdf

    estranhamente encontrei outra referência: 1902-1982, no estudo do carlos daghlian.
    a menção a ele como tradutor d'O corvo tb é errada. mas, resumindo, se realmente lhe interessar a biografia dele, com certeza a academia mineira de letras saberá informar alguma coisa:
    CADEIRA 36
    Patrono: ELOY OTTONI (1764-1851)
    Fundador: NELSON SENNA (1876-1952)
    1° Sucessor: OSCAR MENDES (1902-1983)
    2° Sucessor: WILTON CARDOSO (1916)
    3° Sucessor: ALOÍSIO TEIXEIRA GARCIA

    http://www.academiamineiradeletras.org.br/cadeiras.asp

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  5. Fabrizio Lyra8.11.11

    Bem, eu entendo que o nome é um direito moral personalíssimo e intransferível e sei que afirmei com veemência que deveria ser obrigatório e disciplinado por lei que todas as editoras colocassem nome verdadeiro, currículo e biografia do tradutor. E esse continua a ser meu posicionamento. No entanto, quando digo isso, esclareço, se não ficou claro antes, que é uma posição MINHA. Não quero dizer que é uma verdade absoluta e não estou impondo nada. Agora esclarecendo melhor o meu posicionamento: o nome é um direito humano básico individual. Ou seja, na minha concepção, isso se aplica a vida privada de um cidadão, mesmo que a lei possa interpretar ao contrário. Mas é o que disse antes: estou aqui, como consumidor e cidadão, propondo um debate, uma reflexão conjunta, pois assim fazemos uma sociedade avançar. Quando alguém traduz um livro, não é uma ação da qual só o tradutor faz parte, mas também o leitor, aquele que consome. o tradutor e a editora estão prestando um serviço a OUTRO. Não é uma situação privada. Não sei se seria o caso de comparar mas, como repito, é uma reflexão que proponho. Um médico pra exercer sua profissão, pra carimbar uma receita, ele tem que dar o nome verdadeiro e o registro no conselho de medicina. O nome dele, nesse caso, não é um direito humano apenas dele. O cliente tem DIREITO a esse nome. E isso se aplica a várias outras áreas. Se o entendimento até hoje foi que isso não se aplica a área de tradução, seja porque a tradução, na opinião de muitos, não está lidando com vidas como a medicina, psicologia, direito, etc eu, mais uma vez, como consumidor e leitor, proponho que os muitos veteranos profissionais da tradução que conhecem todo esse universo muito mais profundamente que eu enxerguem esse lado da questão. Porquê creio que, se qualquer um pode colocar o nome que quiser e não deixar elementos que comprovem o seu preparo, isso facilita o plágio e dá um trabalho imenso de verificar texto por texto para descobrirmos as fraudes e a maioria dos leitores não tem como fazer isso. E coloco na esfera de nossa discussão também as traduções do passado que, mesmo não plagiadas, são mal feitas, apressadamente, cheias de erros e reproduzidas por editoras contemporâneas com todas essas falhas, além de vocabulário e construções datadas, arcaicas, intrincadas, que não existem na lingua original, passando uma imagem em relação a qualidade do autor estrangeiro muito inferior a que ele realmente tem. E ainda coloco outra ponto que deveria ser objeto de atenção dos tradutores e dos que lêem em relação a uma prática que, no século XXI, está acabando, graças a Deus, e que deveria ser proibida também: a das traduções indiretas. Leia-se uma tradução de Dostoiévsky de Paulo Bezerra e uma do passado e a diferença é gritante. Parece outro autor e isso serve para vários. Quanto a Oscar Mendes, como disse, não quis denegrir a memória dele de forma alguma, mas continuo achando estranho a omissão dele no site da Ditra, pois tradutores da mesma época que ele e alguns falecidos há muito mais tempo como Odorico Mendes, Onestaldo de Pennafort, Octávio de Faria, Antônio Houaiss, Agenor Soares de Moura, Érico Veríssimo, José Paulo Paes, Lêdo Ivo, Manuel Bandeira, Mário Quintana, Paulo Rónai e muitos outros da mesma época ou mais antigos estão lá e, como não encontrei nada sobre Oscar Mendes em um universo tão vasto como a net com tantas traduções assinadas por ele, além de minha experiência de ler textos traduzidos por ele comparados com o de outros autores, no mínimo tive que ficar em dúvida. Não coloco em dúvida a qualidade e competência dele. Como disse, não sou um profissional. Mas, pelo motivos que dei, o que quis foi mais um esclarecimento, o que você me forneceu e agradeço mais uma vez. Enfim, mantenho o meu posicionamento, mas sempre considerando que posso estar inteiramente errado no que digo e propondo apenas debate e reflexão.

    Abraço!

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  6. ah, sim, claro, entendo sua posição. como eu disse em meu segundo comentário, os direitos pessoais estão suficientemente legislados, até onde consigo entender. já as normas que regem as profissões liberais e as empresas são outra coisa - a menos que, por extensão, se pretenda transformar autor em profissional liberal - aí seria diferente, como é o caso das agências de tradução e tradutores juramentados, técnicos e comerciais, cujas traduções escapam ao âmbito da legislação de direitos autorais.

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