9 de nov. de 2011

editora escala educacional

gosto muito do trabalho de teotônio simões no ebooksbrasil. lá encontrei nietzsche, assim falava zaratustra  (link aqui),  numa antiga tradução que tinha saído pela edições e publicações do brasil em 1950, em nome de josé mendes de souza, e depois foi para o catálogo da ediouro, pelo menos desde 1967, lá ficando em sucessivas reedições pelo menos até 1995.


Clique para ampliar a capa
capa da sexta edição, 1965

na verdade, encontrei referências mencionando "tradução revista e atualizada por josé mendes de souza",* o que me parece muito plausível: pois o texto é de lavra visivelmente lusitana, a começar pela adaptação do nome "friedrich nietzsche" para "frederico nietzsche", e de dicção bastante antiga. aliás, a tradução portuguesa de araújo pereira, que saíra em 1913 com o nome de como falava zaratustra, em algum momento passou a portar o exato título de assim falava zaratustra (livro para toda a gente e para ninguém), que foi adotado na edição brasileira. 


que seja: já comentei algumas vezes esse costume editorial brasileiro de utilizar traduções portuguesas sem referir os créditos de origem. então não sei com certeza quem é o autor da tradução inicial - o que sei é que assim falava zaratustra (livro para toda a gente e para ninguém), em tradução feita ou revista por josé mendes de souza, circula faz mais de 60 anos entre nós, amplamente disponível em sebos e em vários sites para download.


eis a abertura da obra:
Aos trinta anos apartou-se Zaratustra da sua pátria e do lago da sua pátria, e foi-se até a montanha. Durante dez anos gozou por lá do seu espírito e da sua soledade sem se cansar. Variaram, porém, os seus sentimentos, e uma manhã, erguendo-se com a aurora, pôs-se em frente do sol e falou-lhe deste modo: “Grande astro! Que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas? Faz dez anos que te abeiras da minha caverna, e, sem mim, sem a minha águia e a minha serpente, haver-te-ias cansado da tua luz e deste caminho. Nós, porém, esperávamos-te todas as manhãs, tomávamos-te o supérfluo e bemdizíamos-te. Pois bem: já estou tão enfastiado da minha sabedoria, como a abelha que acumulasse demasiado mel. Necessito mãos que se estendam para mim. Quisera dar e repartir até que os sábios tornassem a gozar da sua loucura e os pobres da sua riqueza. Por isso devo descer às profundidades, como tu pela noite, astro exuberante de riqueza quando transpões o mar para levar a tua luz ao mundo inferior. Eu devo descer, como tu, segundo dizem os homens a quem me quero dirigir. Abençoa-me, pois, olho afável, que podes ver sem inveja até uma felicidade demasiado grande! Abençoa a taça que quer transbordar, para que dela manem as douradas águas,  levando a todos os lábios o reflexo da tua alegria! Olha! Esta taça quer de novo esvaziar-se, e Zaratustra quer tornar a ser homem”.
todo esse prolegômeno para situar e poder transmitir meu espanto ao encontrar a seguinte referência:

fonte aqui e screenshot aqui


fiquei perplexa. vou entrar em contato com a editora, vou comprar um exemplar para ver com meus próprios olhos, num cotejo detalhado entre os dois textos, e voltarei a dar notícias.


atualização às 12,00h, 09/11/11: entrei em contato com a editora e conversei com dr. nelson, de seu departamento jurídico. ficou de apurar o caso.
atualização em 25/07/2012: a sinopse da escala, dada na referência acima, aparentemente foi retirada da rede.


* aqui a imagem da quarta edição pela brasil, com a "tradução revista e atualizada por josé mendes de souza":




.

8 comentários:

  1. Anônimo9.11.11

    ai ai ai ai ai...
    uma rápida pesquisa com o nome dele mostra que traduziu "a república", "discurso do método" (o google mostra resultado de um usuário perguntando no orkut se essa tradução é confiável), além de voltaire, thomas more, maquiavel, rousseau e outros. o estante virtual até aponta uma tradução da bíblia creditada a ele, aqui: http://goo.gl/5kbj0.
    e ainda há dicionários bilíngues de italiano, espanhol, inglês e francês > português. o site da cultura também traz resultados.

    r. bettoni

    ResponderExcluir
  2. Mais um factótum da tradução brasileira! Espero que ganhe o próximo prêmio da ABL, se ele existir!

    ResponderExcluir
  3. pois é, rogério - espero que seja engano do pessoal do mercadolivre, onde encontrei esse release. ia ser uma tragédia, ainda mais que a escala é editora de livros didáticos e para vendas ao governo...

    ResponderExcluir
  4. pádua, estou tristíssima. é livro escolar, com exemplar do professor e tudo...

    ResponderExcluir
  5. Leticia7.2.13

    Querida, perdida em pesquisas, e eis-me aqui, enfim. Sempre necessário agradecer por seu imenso trabalho. Beijos!

    ResponderExcluir
  6. ola Denise.. acabo de conhecer seu blog; não se preocupe, eu limpei os pés no tapete antes de entrar em sua morada ;)
    Estou exatamente aqui com está 6ª edição do Zaratustra para leitura... se é fruto de uma tradução plagiada ou não, gostaria de saber se vc recomenda. E o que acha de Paulo César de Souza nesta tradução?
    La ringrazio

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. olá, cezar, bem-vindo! em princípio não costumo recomendar uma tradução de preferência a outra - apenas alerto e desrecomendo alguma edição quando constato que houve apropriação indébita de trabalho alheio ou quando as informações são tão vagas, irregulares e desencontradas que apenas confundem o leitor.

      Excluir

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.