4 de nov de 2011

a ilha do tesouro


Existe uma tradução portuguesa d' A ilha do tesouro, de Robert Louis Stevenson, feita por Alsácia Fontes Machado, publicada em Lisboa pelo Círculo de Leitores em 1970. Essa tradução foi publicada no Brasil pelo Círculo do Livro em 1973, com várias reedições.


À guisa de prefácio, Stevenson faz um apelo ao leitor, ou melhor, "ao comprador hesitante".


TO THE HESITATING PURCHASER


               If sailor tales to sailor tunes,
                  Storm and adventure, heat and cold,
               If schooners, islands, and maroons,
                  And buccaneers, and buried gold,
               And all the old romance, retold
                  Exactly in the ancient way,
               Can please, as me they pleased of old,
                  The wiser youngsters of today:


               —So be it, and fall on!  If not,
                  If studious youth no longer crave,
               His ancient appetites forgot,
                  Kingston, or Ballantyne the brave,
               Or Cooper of the wood and wave:
                  So be it, also!  And may I
               And all my pirates share the grave
                  Where these and their creations lie!

Não deve ter sido fácil traduzir. A tradutora Alsácia alongou versos, retirou algumas frases, substituiu por outras, adaptou um pouco o conteúdo, manteve fielmente o esquema das rimas em ABAB-BCBC e chegou ao seguinte resultado:

AO COMPRADOR HESITANTE

Se histórias do mar, em toada marina,
Tufões, aventuras, males suportados,
Se escunas e ilhas, navios à bolina,
Piratas e ouro, homens desterrados,
Os velhos romances, de novo contados
À moda de antanho, podem como outrora
- Tanto eles me encantaram...- ser apreciados
P’los mais progressivos dos jovens de agora,

Comecem, então; seja assim! Mas se não,
Se o jovem que estuda já hoje esqueceu
O que antes amava no seu coração
- Ballantyne, o bravo, e outros mais, que sei eu?
Se heróis e façanhas o olvido escondeu,
Também seja assim! E os heróis que inda ousam,
Meus piratas e eu, como um sol que desceu,
Baixemos à campa onde todos repousam!

Nada nem ninguém me fará crer que essa coisa abaixo, afastando-se do original como Alsácia, mas sem qualquer justificativa literária a justificar esse afastamento - muito pelo contrário, estropiando impiedosamente a calculada métrica e rima da tradução portuguesa -, apresenta a mais remota possibilidade de ser uma tradução de direito próprio:

AO COMPRADOR HESITANTE

Se histórias do mar, em toada marina,
Tufões e aventuras, males suportados,
Se escunas e ilhas, navios à bolina,
Ouro e piratas, homens desterrados,
Os velhos romances, novamente narrados
À moda de outrora, podem, tal como antes
- Tanto me encantaram...- ser apreciados
Pelos jovens mais dinâmicos de nosso tempo,

Comecem, pois; que assim seja! Mas se não,
Se o jovem que estuda já hoje esqueceu
O que antes amava de todo o coração
- Ballantyne, o bravo, e outros mais, que sei eu? -
Se heróis e façanhas foram tragados pelo esquecimento,
Também assim seja! E os heróis que ainda ousam,
Meus piratas e eu, como um sol poente,
Baixemos à campa onde todos repousam!

Essa coisa horrorosa, evidente cópia atamancada e disfarçada para ocultar o surripio, vem atribuída a um tal "Alex Marins", nome de fantasia que aparece como responsável por dezenas de outras traduções espúrias publicadas pela editora Martin Claret.


Meu exemplar, com uma daquelas capas que, além das traduções, tanto contribuem para celebrizar a editora, é de 2008. Mas na página de créditos consta que a referida editora é detentora do "copyright desta tradução" desde 2002. Só para se ter uma ideia da extensão da brincadeira, no site da Estante Virtual constam exemplares d' A ilha do tesouro pela Martin Claret em edições de 2002, 2004, 2006, 2007, 2008 e 2010.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





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20 comentários:

  1. Paz e bem!

    Aqui em Porto Alegreestá ocorrendo
    a 57ª Feira do Livro
    e toda vez que vejo numa banca
    livros da MC
    tenho vontade de falar bem alto:
    "MC nem me pagando!"

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  2. olá, eugênio: hahaha! pois é, apesar dos desmascaramentos, dos processos, dos acordos extrajudiciais com outras editoras, a martin claret parece renitente em abandonar esse filão.

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  3. Eu já era meio cismada com a MC e, por um desses acasos quaisquer, nunca comprei nada da editora. Depois que passei a acompanhar este blogue, então, nem na próxima encarnação, quando, aliás, se espera que a dita cuja já tenha ido à falência!

    Abraço.

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  4. Não deixa de ser irônico lançar uma versão pirata desse livro. hehe

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  5. Ainda não entendi por que Alex Martins (ou quem , por modéstia absoluta, emprega o pseudônimo) ou os outros "tradutores" da MC ainda não ganharam prêmios da Academia Brasileira de Letras! "Pelos jovens mais dinâmicos de nosso tempo,", por exemplo, é notável pela ausência completa de ritmo poético, além da métrica quebrada de treze versos!
    Sinceramente, trata-se de alguém à altura de Milton Lins!
    O gênio metalinguístico do tradutor (ou tradutores, pois tanto gênio nas repetidas traduções da MC parecem tornar inverossímil a hipótese de que não seja toda uma equipe a conjugar cérebros) está em saber que o comprador certamente hesitará em comprar o livro, logo perceberá que se trata de um livro pirata ("Meus piratas e eu" torna-se uma alusão genialmente metalinguística à editora), e quererá matar todos.
    Não é sempre que uma editora assume que seu trabalho merece a pena capital...

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  6. olá, mariana: a pena é que, pela quantidade de reedições, a prática parece mais prosperar do que definhar...

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  7. olá, michel: pois não é? mas outro dia me dizia um editor sério, que fica estarrecido com essas coisas: o pior é que nem é pirata, pois pirata não tem empresa, cnpj etc. esta é empresa mesmo...

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  8. hahahaha, pádua, belíssima tirada!

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  9. Julia Carvalho9.7.15

    Olá, gostaria de pedir uma indicação de edição a comprar desse livro, pois, além dessa da martin claret, basicamente só encontro edições adaptadas para público juvenil. Obrigada

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    1. olá, júlia, uma recente é a que saiu pela l± é integral.

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  10. Gustavo Santos15.9.16

    Olá, Denise! Você conhece a edição portuguesa de "A Ilha do Tesouro" lançada pela editora Publisher em 2011? Gostaria de saber se a tradução dela é a mesma de Alsácia Fontes Machado.

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  11. olá, gustavo. não, não conheço!

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    1. Gustavo Santos15.9.16

      Aparentemente, parece ser uma edição confiável. Vou ver se consigo algum exemplar da mesma pra conferir. Obrigado.

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    2. aí nos conta de quem é a tradução, pode ser? grazie.

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    3. Gustavo Santos16.9.16

      Ok, Denise. Assim que adquirir, posto aqui o nome do(a) tradutor(a) juntamente com os trechos de "Ao Comprador Hesitante".

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  12. Gustavo Santos11.10.16

    Olá, Denise! Adquiri a edição que havia lhe falado anteriormente. Na realidade, o nome da editora é Sicidea (Publisher era apenas a distribuidora no Brasil). A tradução é de Fernanda Palmeirim, com ilustrações de Louis Rhead. Infelizmente, esta edição não possui o prefácio contendo "Ao Comprador Hesitante", mas ainda assim, traz o texto integral da obra e um ótimo trabalho de diagramação.

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    1. ah, que legal, obrigada por informar (portuguesa, então).

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  13. Gustavo Santos11.10.16

    Sim. A edição é em Português de Portugal. Por sinal, muito boa.

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