18 de nov de 2011

quem dera fosse outro último adeus

Em 1955, como oitavo volume de sua série Sherlock Holmes, a Melhoramentos publicou O último adeus de Sherlock Holmes, na tradução de Álvaro Pinto de Aguiar.

  

Eis aqui um trecho da primeira história, "Vila Glicínia", parte 1, "A estranha aventura do sr. John Scott Eccles":
     O inspetor londrino acenou afirmativamente com a cabeça.
     — O bilhete está escrito em papel pautado comum, sem filigrana. É a quarta parte de uma folha, e foi cortado em dois sentidos com uma tesoura de lâmina curta. Foi dobrado três vezes e selado com lacre vermelho, colocado às pressas e comprimido com um objeto chato e oval. Está endereçado ao sr. Garcia, Vila Glicínia, e diz: "Nossas cores, verde e branco. Verde aberto, branco fechado. Escada principal, primeiro corredor, sétima à direita, estofo verde. Boa sorte. D." A letra é de mulher, e foi escrita com pena de ponta fina, mas o endereço foi feito com outra pena ou por outra pessoa. Como pode ver, trata-se de uma caligrafia mais grossa e firme.
     — O bilhete é deveras extraordinário — comentou Holmes, examinando o papel. — Devo cumprimentá-lo, sr. Baynes, pela atenção que dispensou aos pormenores na análise feita. Poderíamos talvez acrescentar algumas minudências sem importância. O sinete oval é, sem dúvida, uma abotoadura de punho; que outro objeto pode ter tal formato? A tesoura usada deve ter sido uma tesourinha de unha, de ponta recurva, pois, apesar de os cortes serem curtos, nota-se distintamente em cada um deles a mesma ligeira curvatura.
     O detetive deu uma risadinha.
     — Julguei ter espremido todo o suco desse bilhete, mas vejo que ainda sobrou alguma coisa — disse. — Confesso que não compreendo nada dele, a não ser que nos encontramos diante de um caso grave, cuja figura central, como de costume, é uma mulher.
     Durante essa conversa, Scott Eccles estivera em contínua agitação em sua cadeira.
     — Alegra-me que tenha encontrado o bilhete, pois ele vem corroborar meu depoimento — disse. — Tomo, porém, a liberdade de observar que ainda não me contaram o que aconteceu ao sr. Garcia e a seus criados.
     — Quanto a Garcia — disse Gregson —, é fácil responder. Foi encontrado morto esta manhã em Oxshott Common, a cerca de um quilômetro e meio de distância de sua casa. Reduziram-lhe a cabeça a um amontoado informe de carne sangrenta, mediante golpes violentíssimos desferidos com um saco de areia ou outro objeto semelhante, que, mais do que feri-lo, esmigalhou literalmente seu crânio. 
É uma tolice os "revisores" da Martin Claret tentarem maquiar esse texto, a fim de batizá-lo como uma nova tradução, agora em nome de "Alex Marins".
     O inspetor londrino balançou afirmativamente a cabeça.
     — O bilhete está escrito em papel pautado comum, sem filigrana. É a quarta parte de uma folha e foi cortada em dois com uma tesoura de lâmina curta. Foi dobrada três vezes e selada com lacre vermelho, colocado às pressas e comprimido com um objeto chato e oval. Está endereçado ao sr. Garcia, Vila Glicínia, e diz: "Nossas cores, verde e branco. Verde aberto, branco fechado. Escada principal, primeiro corredor, sétima à direita, estofo verde. Boa sorte. D." A letra é de mulher, e foi escrita com pena de ponta fina, mas o endereço ou foi feito com outra pena ou foi escrito por outra pessoa. Como pode ver, trata-se de caligrafia mais grossa e firme.
     — O bilhete é extraordinário, comentou Holmes, examinando o papel. Devo cumprimentá-lo, sr. Baynes, pela atenção que dispensou aos pormenores na análise feita. Poderíamos talvez acrescentar alguns detalhes sem importância. O sinete oval é, sem dúvida, uma abotoadura de punho; que outro objeto pode ter tal formato? A tesoura usada deve ter sido uma tesourinha de unhas, de ponta recurva, pois, apesar de os cortes serem bem curtos, nota-se distintamente em cada um deles a mesma ligeira curvatura.
     O detetive deu uma risadinha.
     — Julguei ter espremido todo o suco desse bilhete, mas vejo que ainda sobrou alguma coisa, disse. Confesso não compreender nada do seu conteúdo, a não ser que nos encontramos diante de um caso grave, cuja figura central, como de costume, é uma mulher.
     Durante essa conversa, Scott Eccles estivera em contínua agitação em sua cadeira.
     — Alegro-me de que tenha encontrado o bilhete, pois ele vem confirmar meu depoimento, disse. Tomo, porém, a liberdade de lhes fazer notar não me haverem ainda contado o que aconteceu ao sr. Garcia e aos seus criados.
     — Quanto a Garcia, falou Gregson, é fácil responder. Foi encontrado morto esta manhã em Oxshott Common, a cerca de uma milha de distância de sua casa. Reduziram-lhe a cabeça a um amontoado informe de carne sangrenta, mediante golpes violentíssimos desferidos com um saco de areia ou outro objeto semelhante, que, mais do que feri-lo, esmigalhou-lhe o crânio. 
Digo que é uma tolice tentar maquiar, pois a quem se pretende enganar quando se troca, por exemplo:

  • "O inspetor londrino acenou afirmativamente com a cabeça" por "O inspetor londrino balançou afirmativamente a cabeça", sendo que o original é um simples "The Londoner nodded"?
  • "Como pode ver, trata-se de uma caligrafia mais grossa e firme" por "Como pode ver, trata-se de caligrafia mais grossa e firme", sendo o original "It is thicker and bolder, as you see"?
  • Ou, fantasticamente, "Reduziram-lhe a cabeça a um amontoado informe de carne sangrenta, mediante golpes violentíssimos desferidos com um saco de areia ou outro objeto semelhante", absolutamente iguais, quando o original traz "His head had been smashed to pulp by heavy blows of a sandbag or some such instrument"?!! Em que, por um passe de mágica, "Alex Marins" reproduz letra por letra o "amontoado informe de carne sangrenta" que Álvaro Pinto de Aguiar usou  para um sintético pulp
  • Por fim, um exemplo de incompreensão ou forte alteração do original: para "there was something on hand, and that a woman, as usual was at the bottom of it", a solução de Álvaro Pinto de Aguiar, "nos encontramos diante de um caso grave, cuja figura central, como de costume, é uma mulher", é fielmente replicada na edição claretiana.

Os exemplos da vã tentativa de ocultar o surripio se contam às centenas. A tradução de Álvaro Pinto de Aguiar se encontra disponível aqui e o original aqui. A capa dessa edição da Martin Claret (2006), com pretensa tradução em nome de Alex Marins, é:




atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



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