29 de nov de 2011

zaratustra, martin claret

aliás, aproveitando a ocasião, vejamos a edição da martin claret, assim falou zaratustra, em suas várias capinhas:
no começo aparecem "alex marins" e pietro nassetti se revezando como supostos tradutores, 
além de uma "equipe de tradutores" , capa de 1999

a "equipe de tradutores" se intercala com os outros dois e depois some; nassetti fica até 2002; 
depois volta "alex marins", que fica até hoje; capa desde 1999 até 2010

2010 e 2011, constando como "nova edição inteiramente revisada". não sei o que isso pode significar; 
o velho "alex marins" de guerra continua a aparecer como o pretenso tradutor.

Clique para ampliar a capa
outra capita de 2011

abaixo segue o texto na pretensa tradução intermitentemente atribuída a pietro nassetti nas edições de 1999 a 2002, disponível aqui
Preâmbulo de Zaratustra  
Aos trinta anos Zaratustra afastou−se da sua pátria e do lago da sua pátria, e dirigiu−se à montanha. Durante dez anos gozou por lá do seu espírito e da sua solidão sem se cansar. Variaram, no entanto, os seus sentimentos, e uma manhã, erguendo−se com a aurora, pôs−se em frente do sol e falou−lhe da seguinte maneira: "Grande astro! Que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas? Faz dez anos que te apresentas à minha caverna, e, sem mim, sem a minha águia e a minha serpente, haver−te−ias cansado da tua luz e deste caminho. Nós, porém, te aguardávamos todas as manhãs, tomávamos−te o supérfluo e bendizíamos−te. Pois bem: já estou tão enfastiado da minha sabedoria, como a abelha quando acumula demasiado mel. Necessito mãos que se estendam para mim. Quisera dar e repartir até que os sábios tornassem a gozar da sua loucura e os pobres, da sua riqueza. Por essa razão devo descer às profundidades, como tu pela noite, astro exuberante de riqueza quando transpôes o mar para levar a tua luz ao mundo inferior. Eu devo descer, como tu, segundo dizem os homens a quem me quero dirigir. Abençoa−me, pois, olho afável, que podes ver sem inveja até uma felicidade demasiado grande! Abençoa a taça que quer transbordar, para que dela jorrem as douradas águas, levando a todos os lábios o reflexo da tua alegria!
Olha! Esta taça quer novamente esvaziar−se, e Zaratustra quer tornar a ser homem". Assim principiou o ocaso de Zaratustra. (PN)
se compararmos com a tradução feita ou revista por josé mendes de souza (1950), disponível para download aqui, é fácil constatar o grau de semelhança:
Preâmbulo de Zaratustra  
Aos trinta anos Zaratustra apartou−se da sua pátria e do lago da sua pátria, e foi-se até a montanha. Durante dez anos gozou por lá do seu espírito e da sua soledade sem se cansar. Variaram, porém, os seus sentimentos, e uma manhã, erguendo−se com a aurora, pôs−se em frente do sol e falou−lhe deste modo: "Grande astro! Que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas? Faz dez anos que te abeiras da minha caverna, e, sem mim, sem a minha águia e a minha serpente, haver−te−ias cansado da tua luz e deste caminho. Nós, porém, esperávamos-te todas as manhãs, tomávamos−te o supérfluo e bemdizíamos−te. Pois bem: já estou tão enfastiado da minha sabedoria, como a abelha que acumulasse demasiado mel. Necessito mãos que se estendam para mim. Quisera dar e repartir até que os sábios tornassem a gozar da sua loucura e os pobres da sua riqueza. Por isso devo descer às profundidades, como tu pela noite, astro exuberante de riqueza quando transpões o mar para levar a tua luz ao mundo inferior. Eu devo descer, como tu, segundo dizem os homens a quem me quero dirigir. Abençoa−me, pois, olho afável, que podes ver sem inveja até uma felicidade demasiado grande! Abençoa a taça que quer transbordar, para que dela manem as douradas águas, levando a todos os lábios o reflexo da tua alegria!
Olha! Esta taça quer de novo esvaziar−se, e Zaratustra quer tornar a ser homem".
Assim principiou o ocaso de Zaratustra. (JMS)
mais um trechinho, na sequência do prólogo:
II  
Zaratustra desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques deparou−se−lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua sagrada cabana para procurar raízes na selva. E o velho falou a Zaratustra desta maneira: "Este viandante não me é estranho: passou por aqui há anos. Chamava−se Zaratustra, mas mudou. Nesse tempo levava as suas cinzas para a montanha. Quererá levar hoje o seu fogo para os vales? Não temerá o castigo que se reserva aos incendiários? Sim; reconheço Zaratustra. O seu olhar, no entanto, e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um bailarino! Zaratustra mudou, Zaratustra tornou−se menino, Zaratustra está acordado. Que vais fazer agora entre os que dormem? Como no mar vivias, no isolamento, e o mar te levava. Desgraçado! Queres saltar em terra? Desgraçado! Queres tornar a arrastar tu mesmo o teu corpo?"
Zaratustra respondeu: "Amo os homens".
"Pois por que − disse o santo − vim eu para a solidão? Não foi por amar demasiadamente os homens? Agora amo a Deus; não amo os homens. O homem é, para mim, coisa sobremaneira incompleta. O amor pelo homem matar−me−ia".
Zaratustra retrucou: "Falei de amor! Trago uma dádiva aos homens".
"Nada lhes dês − disse o santo. − Pelo contrário, tira−lhes algo e eles logo te ajudarão a levá−lo. Nada lhes convirá melhor de que quanto a ti de convenha. E se pretendes ajudar não lhes dês mais do que uma esmola, e ainda assim espera que te peçam".
"Não − respondeu Zaratustra; − eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso".
O santo pôs−se a rir de Zaratustra e falou assim:
"Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros. Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar. As nossas passadas ecoam solitariamente demais nas ruas. E, ao ouvi−las, perguntam assim como de noite, quando, deitados nas suas camas, ouvem passar um homem muito antes de nascer o sol: Aonde irá o ladrão? Não vás ao encontro dos homens! Fica no bosque! Prefere à deles a companhia dos animais! Por que não queres ser como eu, urso entre os ursos, ave entre as aves?"
"E que faz o santo no bosque?", perguntou Zaratustra.
O santo respondeu: "Faço cânticos e canto−os, e quando faço cânticos rio, choro e murmuro. Assim louvo a Deus. Com cânticos, lágrimas, risos e murmúrios louvo ao Deus que é meu Deus. Mas, deixa ver: que presente nos trazes?".
Ao ouvir estas palavras, Zaratustra cumprimentou o santo e disse−lhe:
"Que teria eu para vos dar? O que tens a fazer é deixar−me caminhar, correndo, para vos não tirar coisa nenhuma".
Separam−se um do outro, o velho e o homem, rindo como riem duas criaturas. Zaratustra, porém, ao ficar sozinho falou assim ao seu coração: "Será possível que este santo ancião ainda não ouviu no seu bosque que Deus já morreu?" (PN) 
II  
Zaratustra desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques deparou−se−lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua santa cabana para procurar raízes na selva. E o velho falou a Zaratustra desta maneira: "Este viandante não me é estranho: passou por aqui há anos. Chamava−se Zaratustra, mas mudou. Nesse tempo levava as suas cinzas para a montanha. Quererá levar hoje o seu fogo para os vales? Não temerá o castigo que se reserva aos incendiários? Sim; reconheço Zaratustra. O seu olhar, porém, e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um bailarino! Zaratustra mudou, Zaratustra tornou−se menino, Zaratustra está acordado. Que vais fazer agora entre os que dormem? Como no mar vivias, no isolamento, e o mar te levava. Desgraçado! Queres saltar em terra? Desgraçado! Queres tornar a arrastar tu mesmo o teu corpo?"
Zaratustra respondeu: "Amo os homens".
"Pois por que − disse o santo − vim eu para a solidão? Não foi por amar demasiadamente os homens? Agora amo a Deus; não amo os homens. O homem é, para mim, coisa sobremaneira incompleta. O amor pelo homem matar−me−ia".
Zaratustra retrucou: "Falei de amor! Trago uma dádiva aos homens".
"Nada lhes dês − disse o santo. − Pelo contrário, tira−lhes qualquer coisa e eles logo te ajudarão a levá−la. Nada lhes convirá melhor, de que quanto a ti de convenha. E se queres dar, não lhes dês mais do que uma esmola, e ainda assim espera que ta peçam".
"Não − respondeu Zaratustra; − eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso".
O santo pôs−se a rir de Zaratustra e falou assim:
"Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros. Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar. As nossas passadas ecoam solitariamente demais nas ruas. E, ao ouvi−las, perguntam assim como de noite, quando, deitados nas suas camas, ouvem passar um homem muito antes de alvorecer: Aonde irá o ladrão? Não vás para os homens! Fica no bosque! Prefere à deles a companhia dos animais! Por que não queres ser como eu, urso entre os ursos, ave entre as aves?"
"E que faz o santo no bosque?", perguntou Zaratustra.
O santo respondeu: "Faço cânticos e canto−os, e quando faço cânticos rio, choro e murmuro. Assim louvo a Deus. Com cânticos, lágrimas, risos e murmúrios louvo ao Deus que é meu Deus. Mas, deixa ver: que presente nos trazes?".
Ao ouvir estas palavras, Zaratustra cumprimentou o santo e disse−lhe: "Que teria eu para vos dar? O que tens a fazer é deixar−me caminhar, correndo, para vos não tirar coisa nenhuma".
E assim se separaram um do outro, o velho e o homem, rindo como riem duas criaturas. Quando, porém, Zaratustra se viu só, falou assim ao seu coração: "Será possível que este santo ancião ainda não ouvisse no seu bosque que Deus já morreu?" (JMS)

para essa curiosa indecisão nos créditos de tradução de assim falou zaratustra pela martin claret, vejam-se alguns exemplos colhidos no google:
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Tradução Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 1999
NIETZSCHE, Frederich. Assim falou Zaratustra. Trad. Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 1999.
NIETZSCHE, F. W. Assim Falou Zaratustra. Tradução: Equipe de tradutores da editora Martin Claret – São Paulo, SP. Editora: Martin Claret – 2000.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra, tradução Pietro Nassetti. São Paulo. Martin Claret, 2002
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Trad. De Alex Marins. São Paulo, SP. Martin Claret, 2002
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. Trad. Alex Marins. São Paulo:Martin Claret, 2003.
NIETZSCHE, Friedrich. "Assim falou Zaratustra". Tradução de Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2004.
NIESTZCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. Tradução Alex Marins.São Paulo: Ed.Martin Claret, 2005
NIETZSCHE, Friederick. Assim falou Zaratustra. Tradução: Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2006
Assim falou Zaratustra. Tradução Alex Marins. São. Paulo: Martin Claret, 2007
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra. Trad. Alex Marins. 2. reimp. São Paulo: Martin Claret, 2008. 

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



6 comentários:

  1. Anônimo29.11.11

    Zaratustra... Como bem observou Maurice Blanchot, em 1962, na última frase de seu prefácio "A experiência limite" para a "Experiência interior" de G. Bataille (e Blanchot confessa tomar emprestado o depoimento do próprio Nietzsche sobre Zaratustra: "Esta obra é completamente à parte".
    Denise, hj de manhã estava pesquisando na Biblioteca Nazionale di Roma em companhia dos volumes de Moretti sobre o romance e me lembrei de vc, o segundo volume já se encaminha para publicação? Espero que sim, grande abraço, Davi.

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  2. olá, caro davi: deve ser absolutamente maravilhosa a biblioteca de roma!
    pois é, entregue a tradução já foi, e faz um bom tempo... agora quando vai sair, é um mistério!

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  3. Anônimo29.11.11

    A biblioteca é muito boa: principalmente a sala Enrico Falqui, a família dele doou uma parte, com livros de escritores, teóricos etc principalmente do século XX.
    Fico na torcida para que saia logo o II volume do Moretti. Estou por aqui em companhia de Pasolini, traduzindo o seu "L'odore dell'India", diário de viagem realizada por ele juntamente com Elsa Morante e Alberto Moravia. Davi.

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  4. Amante da Verdade5.12.11

    A editora Martin Claret sempre marca presença na lista dos mais anti-éticos com relação as suas traduções. Curioso que segundo lemos, o Sr. Martin Claret foi um discípulo do professor Huberto Rohden, homem integro e espiritualista que sempre se devotou a servir a humanidade desinteressadamente. Infelizmente HR não percebeu que MC viu nas obras de HR uma oportunidade de lucro e um nicho, então os livros de HR "... cerca de 100 obras e, para divulgá-las, foi fundada, no início da década de 1970, a Editora Martin Claret." conforme lemos em http://alvoradarohden.blogspot.com/ e também "Mas no começo, até a partida de Rohden, eu só editava as obras dele. Com a sua falta, os livros começaram também a ser menos lidos, então decidimos transformá-los em formato de bolso." Vemos claramente que o Sr. MC apenas usou o prof. HR como trampolim e tão logo se viu livre de amarras dele, mostrou sua verdadeira face. Quem lê os livros ou ouve as palestras do prof. HR percebe claramente que seu discípulo MC aprendeu muito pouco, talvez quase nada com o mestre, e foi apenas um capitalista que se aproveitou de uma oportunidade. Como leitor do prof. HR eu não poderia deixar de escrever este desabafo, ver suas obras ficarem na mão de um mercenário ingrato que em nada espelhou a grandeza do mestre...

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  5. Anônimo7.12.13

    eu acho esse livro muito ruim e pouco se entende dele

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  6. Bem agora com a citação feita pelo Ministério Público de São Paulo em famigerado pedido de prisão do ex-presidente Lula certamente essa edição canalha da Martin Claret voltará ao topo das vendas. Na malfadada citação de Nietzsche (citado sem o "s") os procuradores referem-se ao conceito de "super-homem" para fundamentar a isonomia jurídica. Logo o conceito que serviu à doutrina nazista de justificação da perseguição implacável de seus críticos e dissidentes pelas polícias políticas da Gestapo e SS. (o documento se encontra reproduzido em http://www.ocafezinho.com/2016/03/10/mp-sp-pede-prisao-de-lula-por-triplex-que-nao-e-dele/ )

    A Martin Claret se notabilizou por editar livros baratos que plagiam traduções descaradamente. Denúncia tão bem articulada pela Denise Bottmann e colaboradores neste blog. Agora estes que falsificam a cultura são lembrados por aqueles que falsificam a democracia. Vivemos em uma época, como disse recentemente Francine Cavalcante que está mesmo "com a cara de capa da Martin Claret".

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