23 de nov de 2011

nietzsche traduzido no brasil I

pesquisando um pouco a fortuna bibliográfica das traduções de nietzsche no brasil, é bem interessante observar como e por meio de quem sua obra chegou a nós. apresento aqui uma cronologia, tal como consegui reconstituir a partir de acervos de bibliotecas e sebos. sairá em duas ou três partes, esta primeira abrangendo de c.1936 a 1959.

até onde pude apurar, nietzsche estreou sua chegada em livro entre nós em c. 1936, quando a edições e publicações brasil lança ecce homo, como cheguei a ser o que sou, como quinto volume de sua "biblioteca de autores célebres", na tradução de lourival de queiroz henkel e prefácio de afonso bertagnoli. décadas depois, essa tradução passa a ser publicada pela ediouro:

 

em 1939 é lançado o viandante e a sua sombra, em tradução de heraldo barbuy (da linha da chamada filosofia tradicionalista), pela mesma edições e publicações brasil, em sua "biblioteca de autores célebres". a partir dos anos 1960, a tradução de barbuy passa para o catálogo da tecnoprint (ediouro):



em 1940, a livraria martins lança o pensamento vivo de nietzsche, de heinrich mann, com excertos ordenados em seções temáticas de várias obras de nietzsche (a origem da tragédia, pensamentos extemporâneos, aurora, a gaia ciência, assim falou zaratustra, além do bem e do mal, a genealogia da moral, o caso wagner, nietzsche contra wagner, o crepúsculo dos ídolos, o anticristo, ecce homo e vontade de potência), em tradução de sérgio milliet::



em 1942, pela edições e publicações brasil, sai assim falava zaratustra, um livro para toda a gente e para ninguém, em tradução "revista e atualizada" por josé mendes de souza (ver a este respeito aqui), abaixo na capa de sua sexta edição em 1965:

Clique para ampliar a capa


em 1943, temos o crepúsculo dos ídolos, por tradução de persiano da fonseca, na coleção "os grandes pensadores" da editora vecchi. não sei o que significa esse "5" na capa, pois, pela relação de livros publicados que consta na quarta capa, o crepúsculo dos ídolos seria o oitavo volume



em 1945, pela editora globo, sai vontade de potência, na tradução do polemista mário d. ferreira santos:


em 1947 e 1948, saem mais duas traduções de mário d. ferreira santos, aurora e além do bem e do mal, ambas pela sagitário:



em 1949, o germanista erwin theodor rosenthal lança sua tradução de a origem da tragédia, proveniente do espírito da música, pela cupolo:



também em 1949, a josé olympio, em sua coleção rubaiyat, lança nietzschiana, uma coleção de excertos de assim falou zaratustra, selecionados e traduzidos por alberto ramos:



em 1953, a organização simões publica a tradução portuguesa de carlos josé de menezes de o anticristo, estudo crítico sobre a crença cristã. consegui apenas uma minúscula imagem de capa:


ainda em 1953, a simões lança a genealogia da moral. como ela costumava reeditar as publicações da portuguesa guimarães, imagino que também seja a tradução de carlos josé de menezes (1913).


em 1954, mário d. ferreira santos, tendo fundado editora própria, a logos, lança sua tradução anotada e comentada de assim falava zaratustra, um livro para todos e para ninguém:



em 1957, a simões lança a tradução portuguesa de josé marinho (ed. guimarães) de ecce homo, como se chega a ser o que se é:



em 1958, a simões publica poesias. não localizei imagem de capa, mas há um exemplar em nosso acervo na biblioteca nacional, sem referência ao autor da tradução.



em suma, as obras traduzidas e publicadas no brasil, na íntegra, foram, em ordem cronológica de publicação: 
  • ecce homo
  • o viandante e a sua sombra
  • assim falava zaratustra
  • o crepúsculo dos ídolos
  • vontade de potência 
  • aurora
  • além do bem e do mal
  • a origem da tragédia
além das traduções brasileiras, publicam-se no brasil cinco traduções portuguesas, também em ordem cronológica de lançamento: assim falava zaratustra, o anticristo, a genealogia da moral, ecce homo e poesias. embora constem necessariamente deste levantamento, não considero que façam parte de uma nietzscheana brasileira.

na produção tradutória local, destaca-se a presença de mário ferreira santos, com quatro obras de nietzsche. intelectual prolífico e veemente, mário ferreira santos pode ser associado à linhagem agonística, digamos assim, hoje encarnada, por exemplo, num olavo de carvalho. não sei até que ponto esse fato terá moldado de início as vias de recepção de nietzsche entre nós, mas certamente terá de ser levado em conta em qualquer história da cultura filosófica no brasil.

numa linha menos "militante", mais propriamente acadêmica, chama a atenção a presença de erwin theodor rosenthal entre os primeiros tradutores de nietzsche no brasil. comentou-me este germanista certa vez que a origem da tragédia foi sua primeira tradução na carreira acadêmica.

atualização em 03/07/2014: a tradução portuguesa de araújo pereira sai no brasil pela moderna paulistana em c. 1932-33.


veja também aqui, um levantamento alemão.

8 comentários:

  1. Anônimo18.3.13

    Parabéns pelo itinerário apresentado. Gostaria entretanto de saber como ocorreu o surgimento de textos (incursões hermenêuticas)de autores brasileiros a respeito da obra do pensador alemão. A recepção da filosofia nietzschiana.

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    1. olá, prezado anônimo: para isso, recomendo que vc consulte publicações ligadas à área de história da filosofia.

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  2. Tenho um exemplar de Ecce Homo da Biblioteca de Autores celebres traduzido por Lourival de Queiroz Henkel,diz-se 3ª Edição se não me engano de 1959,direitos autorais de Edições e Publicações Brasil Editora S A.
    Porém a capa é preta com detalhes na parte lateral em vinho e dourado,gostaria de saber se essa é a capa original e o valor dessa obra.
    Para mais informações e até fotos do exemplar fica meu E-mail.
    Darlan_silvass@hotmail.com
    Muito grato,desde já.

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  3. olá, darlan: não sei dizer. talvez um sebo possa avaliá-la.

    denise

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  4. Oi, Denise, tenho uma edição mais antiga do Zaratustra. Não tem data impressa, mas algum ex-proprietário deixou autógrafo a caneta com data de 1932. Como posso lhe enviar fotos e detalhes?

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  5. Agora vi que você atualizou em 2014, no final da página. Apenas acrescento que a versão de que disponho tem capa, posso enviar foto. Abraços, e parabéns pelo site.

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  6. Anônimo17.8.15

    A Vozes edita ainda hj as traduções de Mário Ferreira dos Santos, são boas a qualidade destas?

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    1. não sei dizer, prezado anônimo. mas naquele tempo as coisas eram meio diferentes, quer dizer, menos scholarship. não sei se resistiram ao tempo.

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