23/11/2011

nietzsche traduzido no brasil I

pesquisando um pouco a fortuna bibliográfica das traduções de nietzsche no brasil, é bem interessante observar como e por meio de quem sua obra chegou a nós. apresento aqui uma cronologia, tal como consegui reconstituir a partir de acervos de bibliotecas e sebos. sairá em duas ou três partes, esta primeira abrangendo os vinte e cinco anos iniciais, de 1934 a 1959.

nietzsche estreou sua chegada entre nós, até onde descobri, com o crepúsculo dos ídolos, em tradução de persiano da fonseca, pela editora vecchi, em 1934:


c. 1936, a edições brasil lança ecce homo, como cheguei a ser o que sou, como quinto volume de sua "biblioteca de autores célebres", na tradução de lourival de queiroz henkel e prefácio de afonso bertagnoli. décadas depois, essa tradução passa a ser publicada pela ediouro:

 

em 1939 é lançado o viandante e a sua sombra, em tradução de heraldo barbuy (da linha da chamada filosofia tradicionalista), pela edições brasil:


em 1940, a livraria martins lança o pensamento vivo de nietzsche, de heinrich mann, com excertos ordenados em seções temáticas de várias obras de nietzsche (a origem da tragédia, pensamentos extemporâneos, aurora, a gaia ciência, assim falou zaratustra, além do bem e do mal, a genealogia da moral, o caso wagner, nietzsche contra wagner, o crepúsculo dos ídolos, o anticristo, ecce homo e vontade de potência), em tradução de sérgio milliet::


em 1945, pela editora globo, sai vontade de potência, na tradução do polemista mário d. ferreira santos:


em 1947, saem mais duas traduções de mário d. ferreira santos, aurora e além do bem e do mal, ambas pela sagitário:



em 1949, o germanista erwin theodor rosenthal lança sua tradução de a origem da tragédia, proveniente do espírito da música, pela cupolo:


também em 1949, a josé olympio, em sua coleção rubaiyat, lança nietzschiana, uma coleção de excertos de assim falou zaratustra, selecionados e traduzidos por alberto ramos:


em 1950, pela edições e publicações brasil, sai assim falava zaratustra, um livro para toda a gente e para ninguém, em tradução feita ou revista por josé mendes de souza (ver a este respeito aqui), abaixo na capa de sua sexta edição em 1965:

Clique para ampliar a capa

em 1953, a organização simões publica a tradução portuguesa de carlos josé de menezes de o anticristo, estudo crítico sobre a crença cristã. consegui apenas uma minúscula imagem de capa:


ainda em 1953, a simões lança a genealogia da moral. como ela costumava reeditar as publicações da portuguesa guimarães, imagino que também seja a tradução de carlos josé de menezes (1913).


em 1954, mário d. ferreira santos, tendo fundado editora própria, a logos, lança sua tradução anotada e comentada de assim falava zaratustra, um livro para todos e para ninguém:


em 1957, a simões lança a tradução portuguesa de josé marinho (ed. guimarães) de ecce homo, como se chega a ser o que se é:


em 1958, a simões publica poesias. não localizei imagem de capa, mas há um exemplar em nosso acervo na biblioteca nacional, sem referência ao autor da tradução.



em suma, as obras traduzidas e publicadas na íntegra foram, em ordem cronológica de publicação: 
  • o crepúsculo dos ídolos
  • ecce homo
  • o viandante e a sua sombra
  • vontade de potência 
  • aurora
  • além do bem e do mal
  • a origem da tragédia
  • assim falava zaratustra
além das traduções brasileiras, publicam-se no brasil cinco traduções portuguesas, também em ordem cronológica de lançamento: assim falava zaratustra, o anticristo, a genealogia da moral, ecce homo e poesias. embora constem necessariamente deste levantamento, não considero que façam parte de uma nietzscheana brasileira.

na produção tradutória local, destaca-se a presença de mário ferreira santos, com quatro obras de nietzsche. intelectual prolífico e veemente, mário ferreira santos pode ser associado à linhagem agonística, digamos assim, hoje encarnada, por exemplo, num olavo de carvalho. não sei até que ponto esse fato terá moldado de início as vias de recepção de nietzsche entre nós, mas certamente terá de ser levado em conta em qualquer história da cultura filosófica no brasil.

numa linha menos "militante", mais propriamente acadêmica, chama a atenção a presença de erwin theodor rosenthal entre os primeiros tradutores de nietzsche no brasil. comentou-me este germanista certa vez que a origem da tragédia foi sua primeira tradução na carreira acadêmica.
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