1 de jun de 2010

a fundamentação

a editora martin claret publica desde 2000, em sucessivas reedições, um volume chamado fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos, de immanuel kant. os "outros escritos" são: que significa orientar-se no pensamento?; resposta à pergunta: que é "esclarecimento"?, e sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade. a tradução de todo o volume é atribuída a um certo "leopoldo holzbach".

 já mostrei em outras ocasiões que, nestes três pequenos textos, a editora martin claret parece ter simplesmente tomado a tradução feita por floriano de souza fernandes (ed. vozes), aplicando alterações cosméticas para disfarçar a cópia.

no caso da própria fundamentação, a referida martin claret parece ter recorrido à tradução portuguesa de paulo quintela, publicada pelas edições 70 em 1988, aqui também procedendo a pequenas mudanças perfunctórias. seguem-se alguns trechos a título de exemplo.

I. paulo quintela (edições 70, 1988)

Segundo este princípio são rejeitadas todas as máximas que não possam subsistir juntamente com a própria legislação universal da vontade. A vontade não está pois simplesmente submetida à lei, mas sim submetida de tal maneira que tem de ser considerada também como legisladora ela mesma, e exactamente por isso e só então submetida à lei (de que ela se pode olhar como autora).

Os imperativos, tais como atrás no-los representámos, quer dizer como constituindo uma legislação das acções universalmente semelhante a uma ordem natural, ou como universal privilégio de finalidade dos seres racionais em si mesmos, excluíam sem dúvida do seu princípio de autoridade toda a mescla de qualquer interesse como móbil, exactamente por serem concebidos como categóricos; mas eles só foram admitidos como categóricos porque tínhamos de admiti-los como tais se queríamos explicar o conceito de dever. Mas que houvesse proposições práticas que ordenassem categoricamente, eis o que por si não pôde ser provado e o que nesta secção tão-pouco se pode provar ainda; mas podia ter acontecido uma coisa, a saber: indicar no próprio imperativo, por qualquer determinação nele contida, a renúncia a todo o interesse no querer por dever como carácter específico de distinção do imperativo categórico em face do hipotético. Ora é precisamente o que acontece na presente terceira fórmula do princípio, isto é na ideia da vontade de todo o ser racional como vontade legisladora universal.

Pois quando pensamos uma tal vontade, se bem que uma vontade subordinada a leis possa estar ainda ligada a estas leis por meio de um interesse, não é no entanto possível que a vontade, que é ela mesma legisladora suprema, dependa, enquanto tal, de um interesse qualquer; pois que uma tal vontade dependente precisaria ainda de uma outra lei que limitasse o interesse do seu amor-próprio à condição de uma validade como lei universal.

Assim o princípio, segundo o qual toda a vontade humana seria uma vontade legisladora universal por meio de todas as suas máximas (*), se fosse seguramente estabelecido, conviria perfeitamente ao imperativo categórico no sentido de que, exactamente por causa da ideia da legislação universal, ele se não funda em nenhum interesse, e portanto, de entre todos os imperativos possíveis, é o único que pode ser incondicional; ou, melhor ainda, invertendo a proposição: se há um imperativo categórico (i. é uma lei para a vontade de todo o ser racional), ele só pode ordenar que tudo se faça em obediência à máxima de uma vontade que simultaneamente se possa ter a si mesma por objecto como legisladora universal; pois só então é que o princípio prático e o imperativo a que obedece podem ser incondicionais, porque não têm interesse algum sobre que se fundem.

Se agora lançarmos um olhar para trás sobre todos os esforços até agora empreendidos para descobrir o princípio da moralidade, não nos admiraremos ao ver que todos eles tinham necessariamente de falhar. Via-se o homem ligado a leis pelo seu dever, mas não vinha à ideia de ninguém que ele estava sujeito só à sua própria legislação, embora esta legislação seja universal, e que ele estava somente obrigado a agir conforme a sua própria vontade, mas que, segundo o fim natural, essa vontade era legisladora universal. Porque, se nos limitávamos a conceber o homem como submetido a uma lei (qualquer que ela fosse), esta lei devia ter em si qualquer interesse que o estimulasse ou o constrangesse, uma vez que, como lei, ela não emanava da sua vontade, mas sim que a vontade era legalmente obrigada por qualquer outra coisa a agir de certa maneira. Em virtude desta consequência inevitável, porém, todo o trabalho para encontrar um princípio supremo do dever era irremediavelmente perdido; pois o que se obtinha não era nunca o dever, mas sim a necessidade da acção partindo de um determinado interesse, interesse esse que ora podia ser próprio ora alheio. Mas então o imperativo tinha que resultar sempre condicionado e não podia servir como mandamento moral. Chamarei, pois, a este princípio, princípio da Autonomia da vontade, por oposição a qualquer outro que por isso atribuo à Heteronomia.

O conceito segundo o qual todo o ser racional deve considerar-se como legislador universal por todas as máximas da sua vontade para, deste ponto de vista, se julgar a si mesmo e às suas acções, leva a um outro conceito muito fecundo que lhe anda aderente e que é o de um Reino dos Fins.

(*) Posso dispensar-me de apresentar aqui exemplos para esclarecer este princípio, pois os que serviram há pouco para explicar o imperativo categórico e a sua fórmula podem agora ser todos utilizados para este fim.

II. "leopoldo holzbach" (ed. martin claret, 2000, aqui ed. 2008)

paradoxalmente, a editora martin claret não se furta a estampar o sinistro dedo da abdr, reconhecendo sua plena consciência de que é um crime copiar obras alheias, e que o correto seria respeitar o direito do autor.

  

   

(kant recorria com frequência ao itálico para ênfase. note-se que praticamente todos os itálicos do original desapareceram na pretensa tradução pela ed. martin claret.)


veja também:


a título comparativo, veja-se o mesmo trecho na tradução de antonio pinto de carvalho (companhia editora nacional):

Segundo este princípio, serão rejeitadas todas as máximas que não possam estar de acordo com a legislação universal própria da vontade. A vontade não é, pois, exclusivamente subordinada à lei; mas é-lhe subordinada de modo que deva ser considerada também como promulgadora da lei, e justamente por tal motivo deve ser subordinada à lei (da qual se pode considerar autora).

Os imperativos, segundo as fórmulas por nós acima apresentadas, tanto a que exige que as ações sejam conformes a leis universais como a uma ordem da natureza, quanto aquela segundo a qual os seres racionais têm a prerrogativa universal de fins em si, excluíam, sem dúvida, de sua autoridade soberana toda mescla de qualquer interesse a título de móbil, precisamente por serem representados como categóricos; mas não eram aceitos como categóricos, senão porque precisávamos de admiti-los como tais, se quiséssemos explicar o conceito do dever. Mas que haja proposições práticas que ordenam categoricamente, é uma verdade que não podia demonstrar-se desde o princípio, como nem é possível que tal demonstração possa ser feita agora nesta Secção. Entanto, uma coisa não podia deixar de se fazer: a saber, que a renúncia a todo interesse no ato de querer por dever, considerado como característica que distingue o imperativo categórico do imperativo hipotético, fosse indicada ao mesmo tempo no próprio imperativo, por meio de alguma determinação que lhe fosse inerente, (432) e é justamente o que acontece nesta terceira fórmula do princípio, isto é, na idéia da vontade de todo ser racional considerada como vontade promulgadora de uma legislação universal.

De fato, se concebemos uma tal vontade, veremos que, enquanto existe a possibilidade de uma vontade sujeita a leis estar ainda ligada a estas leis por um interesse, todavia é impossível que uma vontade, que seja suprema legisladora, dependa neste sentido de um interesse qualquer; pois uma vontade assim dependente precisaria de outra lei, que adstringisse o interesse de seu amor-próprio à condição de ser capaz de valer como lei universal. Pelo que, o princípio, segundo o qual toda vontade humana aparece como vontade que, mediante suas máximas, institui uma legislação universal (*), se ostentasse consigo a prova de sua exatidão, conviria perfeitamente ao imperativo categórico, uma vez que, precisamente por causa da idéia de uma legislação universal, ele não se apóia em nenhum interesse e, por isso mesmo, de todos os imperativos possíveis, só ele pode ser incondicionado; ou melhor ainda, invertendo a proposição: se há um imperativo categórico (isto é, uma lei válida para a vontade de todo ser racional), ele pode apenas ordenar que procedemos sempre segundo a máxima de sua vontade, isto é, de uma vontade tal que possa, ao mesmo tempo, considerar-se como objeto, enquanto legisladora universal. Só então o princípio prático é incondicionado, do mesmo modo que o imperativo a que a vontade obedece, visto não haver nenhum interesse, sobre o qual possa fundamentar-se.

Se considerarmos os esforços envidados até ao presente para descobrir o princípio da moral, não devemos estranhar que todos necessariamente tenham falhado. Via-se que o homem estava ligado por seus deveres a leis, mas não se refletia que ele só está sujeito à sua própria legislação, e portanto a uma legislação universal, e que não está obrigado a agir senão conformemente à sua vontade própria, mas à sua vontade que, por destino da natureza, institui uma legislação universal. Pois, se o imaginássemos sujeito a uma lei (qualquer que (433) ela fosse), esta implicaria necessariamente em si um interesse sob forma de atração ou de obrigação, e, nesse caso, não derivaria, enquanto lei, da sua vontade, e esta vontade seria coagida a agir, em certo modo, conformemente à lei, mas por algum outro motivo. Ora, graças a esta conseqüência absolutamente inevitável, todo esforço para encontrar um princípio supremo do dever era irremediavelmente perdido. Nunca se descobria o dever, mas sim a necessidade de agir por um certo interesse. Que este interesse fosse pessoal ou estranho, o imperativo apresentava então sempre necessariamente um caráter condicional, e não podia valer como prescrição moral. Chamarei, pois, a este princípio, princípio da AUTONOMIA da vontade, em oposição a qualquer outro princípio, que, por isso, qualifico de HETERONÍMIA.

O conceito, em virtude do qual todo ser racional deve considerar-se como fundador de uma legislação universal por meio de todas as máximas de sua vontade, de sorte que possa julgar-se a si mesmo e a suas ações sob este ponto de vista, conduz-nos a uma idéia muito fecunda que com ele se prende, a saber, à idéia de um reino dos fins.

(*) Posso aqui ser dispensado de aduzir exemplos para esclarecimento deste princípio, visto como os anteriormente aduzidos para explicar o imperativo categórico e suas fórmulas podem aqui ser empregados para o mesmo fim.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.




imagem: ooh!


4 comentários:

  1. Ah, Martin. Quando conseguiremos dar um jeito nessa editora? Triste, triste.

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  2. e mais triste ainda ver um professor de filosofia discorrer em tom pseudokantiano sobre o uso de edições plagiadas em seus cursos:

    "Respeito todos aqueles que desejem nortear sua conduta prática a partir de suas concepções morais, sejam embasadas em raciocínios éticos ou legalistas. Por outro lado, respeito também aqueles que optam por remediar os entraves monetários que poderiam inviabilizar seu acesso aos textos adquirindo uma edição plagiada. Se fosse o caso da edição ser ruim, ou uma cópia de quinta categoria, eu teria motivos suficientes para não recomendá-las; mas, no caso presente, onde as traduções, de uma perspectiva de sua fidelidade ao original grego [ele se refere à edição d'a república de platão, no plágio da claret a partir da edição da gulbenkian - db], são tão aceitáveis como as originais, sinceramente não posso em nada me opor.

    No mais, se, apesar das contingências, a senhora Denise acredita que a única possibilidade para a regulação moral das ações consiste na universalização categórica dos juízos – “plágio não tem defesa, tem cúmplices” – então, nesse caso, declaro-me culpado pelo crime de cumplicidade."

    ou ainda:

    "Quanto à opção de adquirir este ou aquele, prefiro nao interferir, até pelo fato de que, parto do pressuposto de que um aluno de ensino superior possui autonomia suficiente para tomar suas próprias decisões.

    Quanto a mim, utilizo a tradução da Calouste, mas sei que nem todos "podem" fazer essa opção, por isso, sinceramente, não me cabe colocar entraves às decisões dos meus alunos."

    é o que acontece quando os docentes abdicam de suas responsabilidades!

    veja a polêmica, se te interessar, em:
    http://livroseafins.com/sobre-plagio-livros-caros-e-fotocopias-2/

    felizmente muitos estudantes são mais sensatos que alguns professores, não é, thiago?

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  3. Anônimo2.6.10

    Quando vi este comentário, deu vontade de dizer ao professor, (não em um tom "kantiano", mas no tom mais prático possível): "Se é para usar uma cópia tosca, por que vocês simplesmente não "xerocam" a edição da Calouste, ao invés de ajudar a sustentar os impostores da Martin Claret?"

    Ernandes Fernandes

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  4. Na verdade, se o professor está tão preocupado com as finanças dos alunos, ele pode contactar a Gulbenkian e pedir autorização para reproduzir a tradução no Brasil, numa editora séria, o que lhe será concedido. Mas, claro, é mais fácil contribuir para a vergonha que é um editor fazer dinheiro fácil à custa do trabalho alheio, usando uma desculpa esfarrapada.

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