27 de jun de 2010

tratos à bola

Quem tem acompanhado a perplexidade minha e de muita gente com a indicação e agraciamento do livro Pequenas traduções de grandes poetas IV, cometidas por Milton Lins, com o Prêmio ABL de Tradução 2010, deve ter notado que Ivan Junqueira, o acadêmico responsável pela indicação da obra, não conseguiu apresentar um único critério para fundamentar a escolha.

Ivan Junqueira, que aparentemente não conhece o autor da tradução premiada, não leu a obra que indicou e não faz ideia da trajetória "literária" de Milton Lins, na prática declina de qualquer responsabilidade pela própria indicação, e nos leva a procurar a explicação alhures.

Ora, alhures o que se tem é que Marcos Vilaça, atual presidente de ABL, é conterrâneo e amigo pessoal de Milton Lins. Ambos se congraçam também na Academia Pernambucana de Letras, na qual Milton Lins teve ingresso com o voto de Vilaça.

Marcos Vilaça é aquele imortal que, quando ocupava a presidência da casa em 2007, num episódio que fará o país enrubescer ou rolar de rir por muitas décadas, agraciou com o galardão máximo do pais, o Prêmio Machado de Assis, um obscuro ensaísta de nome Roberto Cavalcanti de Albuquerque, igualmente conterrâneo seu - e, de quebra, coautor com o próprio Vilaça de um livro sobre o coronelismo
no nordeste.

Marcos Vilaça, em outra amostra de robusto escárnio, foi também quem incentivou a candidatura de Martinho da Vila à vaga do falecido bibliófilo José Mindlin, chegando a lhe angariar dois votos.*

* correção: no escrutínio final, houve uma abstenção e nenhum voto para martinho da vila.

Mas, voltando a esse cúmulo da jequice nacional que tem sido o Prêmio ABL de Tradução 2010:

Se Ivan Junqueira indicou Milton Lins sem saber como nem por quê; se Marcos Vilaça é o incorrigível praticante da política de quintal que aparenta ser; se Milton Lins (autor do grotesco "fiofó" da Vénus Anadyomène de Rimbaud)* é amigo íntimo de Vilaça, começo a temer que o fio condutor que leva ao escândalo dessa premiação da ABL sai de algum lugar do Recife e para ali volta, dando apenas uma paradinha regada a chá e a "glória" no Petit Trianon caboclo. Pelo menos assim se explicariam o "branco" e a reticência de Ivan Junqueira, reduzido a simples menino de recados.

Quem dera as palavras da imortal Nélida Piñon - "não há apreço por candidatos histriônicos, que quebram o ritmo natural da casa" - pudessem virar norma para as premiações da ABL, e não teríamos de assistir a farsas que tais.

* "Tem úlcera - que horror! - ao pé do fiofó": assim Milton Lins verte Belle hideusement d'un ulcère à l'anus, a chave de ouro de Vénus Anadyomène de Rimbaud. Ver Pequenas traduções de grandes poetas IV, p. 328.

12 comentários:

  1. Luiz Costa Lima27.6.10

    Cara Denise

    Meus efusivos parabéns por reunir os protestos contra os “imortais” responsáveis por um prêmio, que, segundo as matérias qye v. reúne, não é senão espúrio. Seria interessante exigir dos responsáveis pelo prêmio que explicassem sua decisão diante da acusação das gralhas cometidas.
    Com o apoio por sua campanha em favor da seriedade Luiz Costa Lima

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  2. Sérgio de Castro Pinto27.6.10

    minha cara denise:
    conte com a minha solidariedade. a "tradução" do premiado é simplesmente ridícula. aliás, a academia brasileira de letras é contumaz em premiar o compadrismo. isso em poesia, ensaio, tradução, etc.
    abraço amigo do
    sérgio de castro pinto

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  3. Anônimo27.6.10

    Cara Denise,

    Já me diverti muito com este assunto, tão hilário quanto as traduções do início da TV a cabo, mas tão escabroso quanto os plágios que vc denuncia.
    Parabéns por mais esta empreitada e pela repercussão.

    Um abraço,

    Julio

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  4. "Fiofó da Vênus" é realmene muito original...

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  5. estou pensando em criar o "prêmio fiofó de tradução"...

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  6. Curiosidade:
    - O fiofó desse honorável tradutor rima com o quê?
    - De quanto é o prêmio?

    O que achei + impactante não foi o fiofó em si: foi a expressão "ao pé do fiofó".
    E o "Belle hideusement" meio que inverteu a conotação do verso, apesar da comicidade ("que horror!" me lembrou o Bento Carneiro).

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  7. é, graf, ao pé do fiofó é somar o insulto à injúria.

    CLARA VÊNUS, nos rins, duas palavras só
    gravadas; e remói e puxa; a vã garupa
    tem úlcera - que horror - ao pé do fiofó.

    (p. 328)


    sim, concordo, a sapequice meio cafajeste, meio moralista ("que horror!", justamente) e a eliminação de "bela" anulam toda a radicalização do beau-laid na qual o enfant terrible gostava de deitar e rolar.

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  8. o prêmio da abl, vc diz? além de diplominha, palmas e chá? 50 mil reais.

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  9. 50 milhas?! e os brioches, os brownies, os cuscuzes, os biscoitos (opa, bis-coitos? daí já parece coisa de bandinha alemã: "É bolacha co' chá, co' chá que é bom...")!

    Que beleza! Como é bom ser agraciado pelos imorríveis, não só pelas musas.

    Ainda quanto ao tal fiofó: cheguei a pensar que tivesse rimado com "forró".
    No mais, o véio parece que sabe metrificar -- o alexandrino foi mantido no terceto.

    O título do volume poderia ter sido "Grandes traduções de pequenos poetas" -- talvez uma auto-ironia caísse bem.

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  10. Anônimo14.2.12

    Gostaria de ter o poema "Venus Anadyomene" inteiro traduzido por Milton Lins. Será Possível?

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  11. algum problema em se identificar, anônimo?

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  12. eis a greotescquerie completa, anônimo:



    VÊNUS ANADYOMÈNE*

    *Do grego: que sai do mar.

    Como de esquife verde em ferro branco, a fronte
    da dona, de cocos assaz empomadados,
    emerge da banheira, um lento mastodonte,
    com todos os poréns bem mal recuperados;

    depois, o colo gordo e cinza, as omoplatas
    salientes, o seu dorso é curto em entra-e-sai,
    e, ainda, em torno aos rins, qual molas vem-e-vai,
    as graxas sob a pele assentam folhas chatas;

    a espinha avermelhada, o todo trai um gosto
    horrível, bem estranho; e vemos, por suposto,
    uns singulares tais que só usando lupa.

    CLARA VÊNUS, nos rins, duas palavras só
    gravadas; e remói e puxa; a vã garupa
    tem úlcera – que horror! – ao pé do fiofó.

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