21 de jun de 2010

prêmio ABL de tradução, IV: a amnésia


a matéria de fábio victor na folha de s.paulo, sobre os desacertos da premiação da abl na categoria de tradução, traz uma parte complementar, a chamada "retranca", com alguns depoimentos que, a meu ver, merecem consideração.

I.
quanto à declaração do agraciado milton lins - "não fui eu que me premiei. Se eu fosse julgar, não me premiaria" -, demonstra não só boas maneiras, como também um mínimo de bom senso.

por mais divertida que possa ser a verve de alguém que traduz:

C'est ma parure préférée; / É meu ornato preferido;
Je l'a portais quand je lui plus / Eu o conduzi longe demais
Son premier regard l'a sacrée, / O seu olhar é o mais querido,
Et depuis je ne la mis plus. / Disso depois, não pude mais.*

certamente ninguém haverá de crer que passe de uma facécia burlesca arremedando o ofício.

*théophile gautier, "coquetterie posthum" ("galanteio póstumo", in pequenas traduções de grandes poemas IV, p. 146)


II.
já não tão divertida me parece a reação de alguns imortais entrevistados pelo jornalista. 


a questão é simples: havia uma comissão de seleção composta por evanildo bechara, carlos nejar e ivan junqueira.

- em primeiro lugar, para haver uma seleção, imagina-se que haja algo a ser selecionado dentro de um universo composto de mais de uma unidade.
- em segundo lugar, o sistema de premiação da abl funciona não por inscrição, e sim por indicação dos próprios imortais.
- supõe-se, portanto, que os vários membros da academia teriam indicado obras de tradução publicadas em 2009, as quais comporiam um universo de candidatos que seriam avaliados pela comissão supracitada, a qual então selecionaria a obra a ser agraciada com o prêmio.

naturalmente movido por esses pressupostos acacianos, o jornalista indagou a dois membros da comissão, os tradutores e poetas ivan junqueira e carlos nejar, quais tinham sido os outros indicados ao prêmio de tradução 2010: "Nem Junqueira nem Nejar souberam dizer de pronto quais foram os outros indicados ao prêmio - ambos disseram não lembrar. Num segundo contato, Junqueira afirmou que no primeiro telefonema tivera 'um branco'."

deixe-me ver se entendi bem: o resultado da premiação saiu no final de maio. estamos em junho. dois dos três membros que selecionaram a obra premiada não lembram as outras obras que teriam lido e avaliado?

6 comentários:

  1. Denise,

    com amnésia tão providencial fica difícil não desconfiar!

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  2. Denise, posso te pedir que faça a gentileza de explicar rapidamente os versos em francês? Não compreendo nada da língua, portanto, não consigo compreender o absurdo da tradução.

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  3. pois é, raquel!

    caro thiago: numa versão simples em prosa seria:
    é minha roupa preferida; eu estava com ela quando agradei a ele; seu primeiro olhar a consagrou, e desde então nunca mais a usei.

    a facécia da coisa aqui é que "plus" é o passé simples do verbo plaire: "je lui plus", agradei a ele, e ML tratou como se fosse o advérbio "mais". e "porter une robe" ou "une parure" quer dizer "estar usando um vestido".
    então é surreal: "porter" ficou como "levar, conduzir", e "plus" (agradei) virou "demais".

    é uma coisa tão disparatada que fica até difícil explicar.

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  4. Já me aventurei a verter para o português alguns poemas italianos seiscentistas, e o básico do básico era justamente a etapa inicial em que desvendava o significado de cada vocábulo do italiano arcaico de modo a poder tirar sentido da frase toda (ou duplos sentidos, muitas vezes).

    Pois parece que este senhor resolveu pular justamente esta etapa e lançou-se na "tradução" antes mesmo de compreender o que estava a traduzir! Realmente espantoso.

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  5. é, guto, é espantoso que a abl leve essas brincadeiras a sério. aliás, a tradução inteira desse poema do gautier é simplesmente inacreditável. uma hora vou colocar aqui na íntegra.

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