23 de jun de 2010

questão de aritmética?

volto ainda à inexplicada premiação da obra pequenas traduções de grandes poetas IV pela academia brasileira de letras, até pelo respeito que tenho pela instituição e por sua importância nacional, que lhe acresce a responsabilidade junto ao público e à sociedade em geral.

por isso gostaria de entender o que teria motivado a escolha de uma obra cuja ligeireza galhofeira chega, porém, a ser acintosa quando alçada a algo que, evidentemente, jamais pretendeu ser.

assim, que o ilustre imortal ivan junqueira me perdoe a insistência, mas qual seria o sentido de sua declaração: "É injusto se fixar nos poucos erros em vez de nos muitos acertos"?

não gostaria de me deter nos cometimentos de milton lins, que, naturalmente, tem toda a liberdade de escrever o que quiser e todo o direito de ser monoglota, mas a declaração do imortal acaba forçando a considerações de ordem quantitativa.




joachim du bellay, à une dame (a uma dama) (p. 32)

ce n'est que feu de leurs froides chaleurs,
ce n'est que horreur de leurs feintes douleurs,
ce n'est encor' de leurs soupirs et pleurs
que vents, pluie et orages.

não é só fogo em seus glaciais calores;
não é horror nas tão fingidas dores,
não são ainda os prantos choradores,
temporais, chuva ou ventos.

[seus frios calores não passam de ardor; suas dores fingidas não passam de horror, seus suspiros e prantos não passam de ventos, chuva e tempestades.]

en bref, ce n'est, à ouïr leurs chansons,
de leurs amours, que flammes et glaçons,
flèches, liens, et mille autres façons
de semblables outrages.

em resumo não ouvem cantadeiras,
de seus amores, chamas e geleiras,
flechas, elos e mil demais maneiras
de tão iguais lamentos.

[em suma, a ouvir suas canções, seus amores não passam de chamas e gelo, flechas, laços e mil outras formas de ultrajes semelhantes.]

th. gautier, variations sur le carnaval de venise (variantes sobre o carnaval de veneza) (pp. 133-34)

il est un vieil air populaire
par touts les violons raclé,
aux abois des chiens en colère
par tous les orgues nasillé.

tem um ar velho e popular
pelos violinos arrastado,
tal como um cão sempre a ladrar,
por todo o corpo anasalado.

[é uma velha ária popular por todos os violinos arranhada, aos latidos dos cães em fúria, por todos os órgãos fanhamente tocada.] (air = ária, melodia; orgue = órgão, instrumento musical; órgão do corpo = organe)

pour les serins il est classique,
et ma grandmère, enfant, l'apprit.

para os canários é formal,
vovó me disse, inda criança.

[ainda sobre a ária: para os tolos é um clássico, e minha avó a aprendeu na infância.]

sur cet air, pistons, clarinetes,
dans les bals aux poudreaux berceaux,
font sauter commis et grisettes,
et de leur nids fuir les oiseaux.

pelo ar, pistões e clarinetes,
nos bailes ou berços suaves,
fazem saltar as marionetes,
fugir dos ninhos muitas aves.

[nesta ária, pistões, clarinetes, nos salões de baile de tetos poeirentos, fazem saltar serventes e criadinhas, e espantam os pássaros dos ninhos.]

laforgue, dimanches (domingos) (p. 177):

ah! quel sort! ah! pour sûr, la tâche qui m'incombe
m'aura sensiblement rapproché de la tombe.

ah! que sorte! ah! seguro, a mancha em que me encerro
fará sensivelmente aproximar o enterro.

[tâche = tarefa; mancha é tache. ah! que destino! ah! com certeza a tarefa que me cabe me aproximará sensivelmente do túmulo.]

lamartine, ischia (ischia) (p. 194):

le soleil va porter le jour à d'autres mondes;
dans l'horizon désert phèbe monte sans bruit,
et jette, en pénétrant les ténèbres profondes,
un voile transparent sur le front de la nuit.

[aqui lamartine descreve o poente e o nascer da lua (a deusa febe, dos gregos).]

o sol vai conduzir o dia a outros mundos;
no horizonte deserto, o monte febo atinge,
e joga, penetrando os escuros profundos,
um transparente véu na noite que se cinge.

[o sol vai levar o dia a outros mundos; no horizonte deserto febe sobe em silêncio e, penetrando as trevas profundas, lança um véu transparente sobre a fronte da noite.]

verlaine, je ne sais pourquoi (eu não sei porquê) (p. 406)

[aqui verlaine compara a divagação do pensamento ao voo de uma gaivota.]

mouette à l'essor mélancolique,
elle suit la vague, ma pensée,
à tous les vents du ciel balancée,
et biaisant quand la marée oblique,
mouette à l'essor mélancolique.

mudo ao impulso melancólico,
segue na vaga, o pensamento,
balança ao tom do céu ao vento,
e beija o mar quando bucólico,
mudo ao impulso melancólico

[gaivota de voo melancólico, ela segue a onda, minha divagação, em todos os ventos do céu se equilibra, e se enviesa quando a maré se inclina, gaivota de voo melancólico. mouette = gaivota; "muda" seria muette.]

para outros exemplos, ver:
com esses exemplos adicionais, talvez possamos avaliar melhor se, na verdade, a injustiça não consiste no descaso com que a abl trata o ofício de tradução.

6 comentários:

  1. Denise

    temos que orar por São Google...

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  2. Artur Ataíde23.6.10

    A história, infelizmente, não tem como não parecer algo escusa... Em todo caso, creio que o questionamento maior deva ser dirigido, de fato, a quem premiou. O argumento de Junqueira, de que são poucos erros (mas são gravíssimos) diante de incontáveis acertos, poderia valer — afinal, errar também é parte da rotina —: mas valeria se não houvesse nenhum outro tradutor no país não só livre de erros assim, mas responsável por acertos bem mais dignos de nota. Será que não há? Ainda que não fique constatada qualquer má fé nessa história toda, restará a pergunta: não é descaso demais para com um prêmio tão importante? Nem pelo dinheiro, mas, como você disse, pela representatividade da instituição entre nós, pelo valor simbólico do qual os primeiros a estar cientes (e zelosos) deveriam ser os próprios acadêmicos.

    Muito bom tornar essa crítica ao prêmio pública: é mais um passo no sentido de se incentivar uma maior criteriosidade, entre nós, no campo da tradução. Quem sabe, inclusive, em meio a públicos potenciais. Vamos ver.

    Artur

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  3. Jander23.6.10

    O estranho, diante de um fato como esse, é que temos evoluído tanto em termos de tradução, com tantos exemplos bons por aí. A ponto de fazermos traduções diretas do russo, do japonês, do árabe e até do dinamarquês, por exemplo, no caso de Kierkegaard. Me desculpe a Academia, mas essa tradução, além de nunca poder ter sido premiada por ela, deveria ser retirada de circulação, pois é uma falta de respeito com todos, sobretudo com aqueles que não possuem o domínio da língua francesa. Acho que estes últimos não merecem ser apresentados a poemas tão bonitos e importantes dessa forma tão grotesca. De fato, traduções desse tipo devem existir muitas por aí, mas com o aval da Academia é de causar espanto (embora sabemos que a Academia não vem sendo tão santa assim na seleção, por exemplo, de seus membros). Penso que não é só porque a Academia seja economicamente privada que ela não deva prestar contas, ao menos contas intelectuais, à sociedade. Ela precisa sim responder àquilo que foi 'publicado' ou/e premiado por seus membros. Seu silêncio, no sentido de não ter respondido sem rodeios sobre os critérios da premiação, é uma prova de que as cadeiras de seus salões ainda brilham radiantes para o século XIX.
    Jander.

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  4. Anônimo24.6.10

    Uma vez meu pai me disse que há situações que ficam abaixo da crítica. Acho que esta é uma delas. Não dá nem para criticar tais 'traduções'... muito menos os que as premiaram. Teria sido tão bom se as traduções tivessem mofado em alguma estante de alguma livraria - mas como a ABL teve a ousadia de premiá-las, elas passaram a ser relativamente conhecidas. Pobre "tradutor"! :-)

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  5. Randerson Azevedo26.6.10

    Denise,

    você ainda respeita a ABL? Eu já perdi a paciência...

    Dia desses um sambista da vila, famoso, cria mesmo que tornar-se-ia um imortal...

    As aberrações lá multiplicam-se como COELHOS.

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  6. Fátima Aparecida de Oliveira Abbate27.6.10

    Bom dia, Denise.

    Um verdadeiro E-S-C-Â-N-D-A-L-O! De que adianta nos matarmos no curso para tentar pôr "alguma coisa" na cabeça dos alunos de tradução se depois quem recebe o prêmio faz umas barbaridades dessas. Barbaridades cometidas e auspiciosamente aplaudidas por gente que deveria procurar zelar pelo bom nome (já tão vilipendiado) da tradução no Brasil.

    Aproveito a oportunidade para parabenizá-la pela entrevista dada à CBN. Sempre cito seu blog e o trabalho importantíssimo que faz pela tradução e por nós tradutores.

    Um forte abraço e muitas felicidades,

    Tuca Abbate

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