15 de ago de 2010

águas mal servidas


é muito bom que tradução seja vista, que as pessoas, ao ler um livro traduzido, entendam que aquele não é o original, e sim uma outra obra - justamente a obra de tradução.

e é muito bom que leitores e críticos venham a público comentar a qualidade de uma obra de tradução. e seria melhor ainda se alguns críticos se dessem ao trabalho de pensar antes de abrir a boca.

refiro-me especificamente ao filósofo, educador e escritor rubem alves e à surpreendente afoiteza com que, no jornal folha de s.paulo em 10/08/2010, aqui, arremeteu contra o livro no país das sombras longas, de hans ruesch. trata-se de uma tradução de raul de polillo lançada em 1974 e recentemente reeditada pela editora record. diga-se de passagem que o articulista nem sequer chega a mencionar o nome do tradutor, jornalista e crítico de arte, nascido em 1898, falecido em 1979, contentando-se em tratá-lo feito moleque.

diz rubem alves, em artigo de surrado título "tradutor, traidor":
Um caso cômico [] se encontra no delicioso livro "No País das Sombras Longas"... minha leitura foi interrompida por essa frase estranha: "Siorakidsok era paralítico da cintura para baixo e tinha ouvidos duros". Ouvidos duros... Não fez nenhum sentido. Até que me vali de um truque: tentei fazer a tradução ao contrário, do português para o inglês. Ouvidos duros, ao contrário: "hard of hearing". O homem era surdo...
na página seguinte essa frase me parou de novo: "A um canto via-se uma grande calha de pedra pela qual todos passavam as suas águas servidas, valiosas para o curtimento de couro..." Suas águas servidas? O que é isso? Usei então o mesmo método de decifração. Traduzi ao contrário: "passavam suas águas servidas", "pass water", que quer dizer fazer xixi... A tal calha de pedra era um mictório...
[negritos meus, db]
o que posso dizer se o eminente pedagogo não dispõe em sua bagagem cultural de referências que lhe permitam se deparar sem sobressaltos com a expressão "duro de ouvido" ou "ouvido duro"? pois devo esclarecer que se usa, sim, duro de ouvido ou ouvido duro em português, expressões que, a rigor, designam problemas de audição em grau variado, e não necessariamente a surdez (em termos pedestres, o sujeito duro de ouvido ou com ouvido duro é aquele para o qual a gente tem de dar uns berros para se fazer ouvir).

e o que se pode dizer a alguém que não sabe o que são "águas servidas" e numa singela "decifração" conclui que é "xixi"? ["Traduzi ao contrário: 'passavam suas águas servidas', 'pass water', que quer dizer fazer xixi", numa técnica de decifração tanto mais surpreendente por usar apenas water, sem lhe ocorrer que em inglês "água servida" se diz wastewater].
 
quero aqui ressalvar que não conheço o livro e não li o original. por outro lado, todo mundo ou muita gente sabe que os taninos presentes na urina eram muito usados para amaciar couros, devido a seu grau de acidez - aliás, a título de curiosidade, consta que foi esta a razão principal para a criação dos primeiros mictórios públicos na frança, para captação de urina em grandes volumes com destino aos curtumes -; e todo mundo ou muita gente também sabe que "águas servidas" são todas as águas ou líquidos usados (ou expelidos) em qualquer casa, loja, estabelecimento, que precisam ter algum destino - quando não existiam esgotos nas cidades, havia aquele lançamento antecedido pelo famoso brado de "água vai", que ia pela janela afora mesmo.
 
se o livro trata da vida dos esquimós na região ártica (daí a expressão "terra das sombras longas", que igualmente tanta perplexidade despertou no comentarista), imagino que eles, tal como nós, precisam dar algum destino a suas águas servidas. mas também faz sentido - e muito sentido - que a urina, tão preciosa para curtir couros, fosse canalizada por alguma calha específica para recipientes próprios, pois todo mundo também sabe que as roupas dos esquimós eram feitas de couro e pele, e que couro e pele precisam ser curtidos.

e aí, lançada a inconsequente suspeita, sem domínio vocabular seja do português, seja do inglês, sem dar qualquer contexto, a gente começa a viajar: mas, se havia uma calha só para a urina, aonde ou por onde iam as outras águas? quantas calhas seriam? e quem são esses "todos'? que "a um canto" era aquele? urinavam diretamente ali? em público? ou despejavam o conteúdo de seus equivalentes a nossos urinóis?
 
de um lado, fica difícil levar a sério uma ilação como "a tal calha de pedra era um mictório..." por parte de alguém que não sabe o que é "ouvido duro" nem "água servida". por outro lado, vai que a calha de pedra fosse mesmo reservada apenas à urina de todos, fazendo fila para despejar seu precioso líquido? e aí a solução da dúvida depende do que está no texto original. como o tradutor é falecido, caberia à editora elucidar a questão.
 
 
o que sei, e isso definitivamente não depende do original, é que, a grassar esse tipo de amadorismo frívolo em críticas de tradução, estarão mal servidos jornais, leitores, tradutores e editores. e dessa indigesta miscela será difícil se desfazer seja em calhas de pedra ou aos gritos de água vai.


3 comentários:

  1. Denise, cada vez que venho aqui, fico mais preocupado comigo enquanto leitor; não sei se o que tenho lido merece fé, mesmo que eu só tenha lido nossos autores, como nacionalista que sou... Pura tristeza constatar isso. abs

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  2. Denise,
    Algumas "googladas" sobre o assunto e achei várias referências à urina no original inglês do livro - Top of the World - relacionadas com curtição de couro. O Google Books não tem a digitalização completa, mas sua interpretação deve estar correta. Quando ao "ouvido duro", basta citar, para o dito cujo teólogo, a versão da Bíblia publicada pela Editora Ave Maria - Atos dos Apóstolos, cap. 28, v. 27, quando S. Paulo reclama dos ouvidos duros dos judeus de Malta.
    Mas, em relação ao livro do McCann, minha cara, a questão não foi o destempero da Luciana, e sim o fato do Kaz realmente ter tentado desqualificar a tradução com alternativas medíocres e até mesmo erradas da tradução da Maria José.
    Felipe Lindoso

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  3. olá, josé roberto, prazer em vê-lo! é... o nãogosto tem muitas chatices mesmo, mas ando feliz porque acho que o grosso da coisa já foi apresentado.

    felipe, é mesmo, que bela lembrança a dos ouvidos duros dos judeus de malta! acho que, sobre o water ou wastewater, vou perguntar à editora. quanto ao caso do mccann, que coisa desgastante!

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