12 de ago de 2010

quando tradução vira loteria

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alguns meses atrás, o fotógrafo clicio barroso escreveu um post muito interessante, chamado até os livros me traíram.

evitando citar diretamente no texto o nome da obra e da editora, clicio comentava alguns problemas medonhos de tradução num livro que havia comprado. pela própria dinâmica dos comentários ao post, ficou explícito que se tratava da obra otimização de website - o guia definitivo, de andrew b. king, em tradução feita por alguém de nome "arcanjo gabriel" e publicada pela editora alta books, do rio janeiro.

exemplos apresentados por clicio, extraídos do referido otimização de website:

"Almejando altas frases KEI com um volume de pesquisa adequado da a você a melhor chance para rankear rapidamente em termos em particular por indo onde os outros não estão competindo muito."

"Você irá economizar mais dinheiro alterando o seu orçamento de marketing de oito ou oitenta mercado em massa para altamente almejado, marketing online com resultados mensuráveis."

"papel em branco" para white paper (relatório), "cópia de anúncio" para ad copy (texto publicitário) e assim por diante.

também é muito instrutivo ver, num dos últimos comentários ao post, a transcrição do e-mail que a editora alta books enviou a um outro leitor insatisfeito com outra obra por ela publicada.*

* aliás, cheguei a ligar para a editora, para tentar entender quem seria o tal "arcanjo gabriel" (que, no cadastro do livro na fundação biblioteca nacional, consta como "arcanjo miguel"). 
atendeu uma moça chamada maristela; pedi para falar com o departamento editorial; maristela perguntou qual seria o assunto; fui genérica; ela insistiu e perguntou: "seria reclamação?". quando respondi que não, sua resposta foi: "ah, ok! um momento". bom, falei no editorial, nem vem muito ao caso, pois foi apenas uma desconversa do começo ao fim. mas achei curioso que a telefonista estivesse devidamente treinada para filtrar "reclamações".

o grande problema que vejo nesse tipo de linha editorial adotada pela alta books é a tremenda falta de credibilidade que lança sobre a qualidade da tradução em geral no país. pois o efeito imediato e duradouro de obras pessimamente traduzidas é imprimir na mente do leitor a ideia (e o receio) de que comprar livros traduzidos é uma espécie de loteria.

a meu ver, seria bom se existisse algum grupo, alguma entidade de tradutores que pressionasse editoras a atender requisitos mínimos de qualidade em suas publicações de obras traduzidas. bons profissionais não faltam e quem lê sabe muito bem distinguir entre uma tradução aceitável e uma tradução inaceitável: falta apenas que tais editoras respeitem seus leitores, abandonem a tradução automática e contratem bons tradutores.
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16 comentários:

  1. Sou analista de sistemas e posso dizer que traduções de livros técnicos de informática são, no geral, muito ruins.

    Palavras em inglês no meio de frases sem sentido.

    Termos técnicos que aqui são em inglês e, por desconhecimento, são traduzidos e acabam dificultando o entendimento.

    Acabo dando preferência para livros em inglês, ainda que perca tempo "traduzindo" dentro da minha cabeça...

    Ótimo post, como sempre.

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  2. São Google e suas hostes...

    O tradutor automático estava na pindaíba e precisava de um frila, tá?

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  3. Anônimo12.8.10

    Tradução por máquina. Aliás, em vez de se chamar Arcanjo Gabriel ou Miguel, o tradutor deveria ser chamado de Deus ex Machina.
    Ivone C Benedetti

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  4. Denise,

    Primeiro, obrigado por citar o meu modesto bloguinho, e por adicionar o generoso link.
    Fico muito impressionado com o descaso das editoras caça-níqueis; 100% das vezes prefiro ler os livros técnicos em sua língua original, já que se instituiu a prática de não haver tradutores pessoas-físicas, e sim robozinhos "tradutores" da Internet.
    Uma lástima, por tudo que isso implica: menos trabalho para os tradutores sérios, cultura no lixo, descrédito.
    Abraço,

    Clicio Barroso

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  5. Denise,

    de fazer vergonha ao Google Translator...

    e ainda querendo se fazer de anjinho?

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  6. Aff... Com uma resposta daquelas era melhor ter ficado calada. O pessoal da Coordenação Faturamento/Departamento Comercial estudou nas mesmas escolas que o pessoal do departamento de tradução? =S

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  7. Sou estudante de Engenharia e quase sempre leio livros-técnicos em inglês. Uma palavrinha traduzida num texto pode mudar todo o significado de um exercício ou de um problema.

    "100% das vezes prefiro ler os livros técnicos em sua língua original"

    Idem.

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  8. E jogando "Almejando altas frases KEI" no Google, se acha um trecho do livro:

    http://www.linuxmall.com.br/files/_product/6/6113/primeirocapitulo.pdf

    Torturem-se com a tradução.

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  9. Anônimo15.8.10

    Acho que é clichê dizer, mas a maioria das editoras não está interessada em investir dinheiro em uma boa tradução. Preferem ouvir reclamações de leitores que contratar bons profissionais.
    Paga-se mal e, por isso, o trabalho acaba sendo feito por pessoas sem formação/noção necessária. A única solução que vejo seria leitores se conscientizarem e pararem de comprar livros mal traduzidos, porque a única pressão que funciona parece ser a financeira. Quando as editoras se derem conta de que não estão vendendo porque os livros são ruins, quem sabe não resolvam investir mais para ter um retorno melhor?

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  10. Comprei "A Linguagem de Programação Ruby", mesmo tradutor, mesma editora.

    Um LIXO completo. Fiquei tão aterrorizado que encomendei os meus outros dois livros sobre o assunto diretamente do Amazon, em inglês!

    Isso é uma vergonha!

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  11. Turma, pior que isso é traduzir uma obra, fazer um trabalho "decente" e ter a obra "esfacelada" por alguém que se diz "revisor". Some-se a isso não receber um exemplar da editora após a edição da obra e inteirar-se do que foi feito após dirigir-se à livraria para saber como seu trabalho ficara quando publicado.
    Editores de obras "já eram"! O que temos hoje são "editores de prazo"...

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  12. A melhor parte do primeiro capítulo é esta frase entre parênteses, na pág. 10: "(VERY SUN TZU NÃO SEI O QUE ESSE TERMO SIGNIFICA)". O que é pior, a "tradução" ou a "revisão"?

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  13. Anônimo26.7.11

    Concordo com o translation.room. Dá até medo fazer uma tradução para uma editora como essa.
    Conheço caso de bons tradutores de quem os trabalhos foram transformados em lixo pelo copidesque e "revisões gramaticais/ortográficas" que "corrigem" o certo por algo errado.

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  14. Anônimo24.11.12

    Pelo jeito o Google Translator ganhou um novo nome: Arcanjo Gabriel.

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