28 de fev de 2010

jorio dauster - eu não daria a menor bola...


TRADUZINDO

Acho uma bobagem a obediência irrestrita e mecânica ao texto original, mas isso não significa que se possa tomar liberdades gratuitas com a obra a ser traduzida.

Quando se trata de um autor tão complexo quanto Nabokov, verdadeiro ourives literário, acredito que se exige do tradutor uma relação de verdadeira devoção, pois, se ele estiver buscando apenas uma fonte de renda, faria melhor indo vender sanduíches naturais na praia.

Se me sobrarem tempo e neurônios, pretendo traduzir toda a obra de ficção do Nabokov.

A norma tem de ser respeito com inteligência, sem perder de vista que a tradução não é apenas uma ponte entre idiomas, mas entre culturas. Daí que eu não daria a menor bola se Nabokov não gostasse de minhas traduções.

Para fazer justiça a uma boa obra de ficção, o tradutor tem de conhecer muito bem a língua de origem e ainda melhor a de chegada.

Levo tempo convivendo com a obra, recebendo no fundo da noite, de algum canto do cérebro, a tradução de uma palavra que ficara mal posta na primeira passagem pelo texto.

Para um tradutor - ou pelo menos para este tradutor - uma nota de pé de página é o pior que pode acontecer, pois comprova que ele foi incapaz de encontrar uma solução vernacular satisfatória.

Apenas pratico o ofício de tradutor, não tenho a menor capacitação para fazer crítica literária. E eis um fato que certamente me condenará ao inferno onde ardem os párias intelectuais: jamais consegui passar do primeiro capítulo de Ulisses!

O trabalho de tradução só faz bem, só estimula a produção de endorfinas, quando a gente o faz por amor, sem pressa, revendo e re-revendo.

Com a alegria de viver, a confiança no seu taco e uma boa dose de espírito lúdico, coisas que por sorte nunca me faltaram, não há nada complicado demais na face do planeta.

JORIO DAUSTER

6 comentários:

  1. Para mim, também, nota do tradutor é confissão de derrota. Entretanto, para alguns, é brecha para exibir sua erudição – real ou imaginada.

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  2. De alguém tão inteligente e sagaz como Jorio Dauster seria difícil esperar menos do que um texto como esse. Acompanho sempre as traduções realizadas por ele com enorme interesse, porque sei que olhar atrás da tapeçaria, como diria Henry James, pode causar desconforto, e a tapeçaria de Jorio Dauster é impecável, frente e trás. A declaração ousada dirigida a Nabokov, portanto, faz todo sentido.
    Paulo Paniago.

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  3. Anônimo1.3.10

    Ta todo mundo do teu lado e te apoiando

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  4. Isso, Jorio, traduza todo o Nabokov, um de meus escritores preferidos. Adoro as traduções que já fez dele.

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  5. Anônimo1.3.10

    Prezado Embaixador, no "Lolita" no cap 13, parágrafo 10, lê-se: “Lolita fora devidamente solipsizada”. Poderia ter a gentileza de me dizer o que significa essa última palavra? Outra questão: o senhor já refletiu sobre o significado que possa ter a relação entre número de diferentes palavras existentes no original versus na tradução. Essa questão me intriga há uns bons 30 anos! Com meu abraço, saúde e paz. Luiz Almeida (almeidaluiz@hotmail.com)

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  6. Anônimo2.3.10

    As suas traduções de Nabokov foram as que primeiro me fizeram compreender que não devia "incorporar" jamais o papel de tradutora na vida, ainda que volta e meia traduza algum livro. Porque é preciso o seu gênio, o seu talento, e a paciência, o afeto. Para quem não dispõe disso tudo, fica sempre um trabalho "menor"...

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