6 de dez de 2008

quando éramos jovens

obrigada, renato.

valêncio, o que dizer...
valêncio era o valêncio, quer dizer, aquela figura irônica, quando conheci já grisalho, sempre meio descabelado e com ar afoito andando pela XV ou batendo o pé com impaciência nas salas da FCC, a voz meio desafinada, aflito, uma missão a cumprir e todos os filisteus lhe pondo pedras no caminho.
em 1975 é criada a cinemateca do museu guido viaro. valêncio, claro, à frente, como diretor até 1988.
passado todo esse tempo, talvez a cena fique meio indistinta para quem tem menos de 40 anos e, principalmente, para quem nunca morou em curitiba.
e talvez se borre a lembrança do que era aquela arena heterogênea e polivalente, com valêncio, homero, chico, berê, os irmãos wagner, iwersen, fernando severo, rui, sérgio bianchi.

foi uma época valente, e valêncio era o respiradouro, valêncio foi o galvanizador.

e talvez seja sina do valêncio que seja lembrado sobretudo pelo seu mez da grippe, lançado em 1981, e o qual ele próprio ironizava bastante, como uma espécie de brincadeira ou provocação de enfant terrible meio cansado de uma certa autocomplacência local.
e talvez seja sina do valêncio que seu fulgor, seu carisma, sua coragem em ser antipático quando precisava, sua coragem em apostar em causas azarãs, só consigam ainda cintilar genuinamente em alguns raros anais.

mas talvez possa vir algum memorialista, algum historiador da cultura, algum poeta, e seja capaz de recompor seu papel de aglutinador, a liderança cultural, a tremenda e desgastante luta que ele manteve durante 13 anos à frente da cinemateca, debatendo-se entre a burocracia, a falta de verba, as críticas sempre onipresentes, as rivalidades e pequenos estrelismos da província - e mesmo assim conseguindo criar e manter o espaço cultural mais moderno, mais aberto, mais dinâmico, mais antenado com o mundo que curitiba já teve.

faz parte de minha lista de agradecimentos à vida que eu tenha tido o privilégio de compartilhar tangencialmente algum tempo e algum espaço por onde esteve valêncio xavier.

3 comentários:

  1. Anônimo25.12.08

    Denise, maravilhoso o seu texto. Pegou Valêncio Xavier, digamos, pela raiz... Impecável perfil. Parabem!
    Wilson Bueno

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  2. sim, wilson, é empobrecer demais e injustamente pegar valêncio só ou sobretudo pelo que ele escreveu.

    ele promovia a cultura de verdade: isto é, quando promover a cultura era dar o sangue e a vida por ela.

    aliás, o mis também foi criação dele, e quantas coisas maravilhosas (embora poucas) não fez o mis quando curitiba ainda sonhava com o mundo?

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