10 de dez de 2008

ó vulpina alma sem pejo!


não bastam as trapalhadas claretísticas na fbn/isbn com os machados, alencares, eças, gonzagas e bocages, que compõem um capítulo de bufonerias à parte e ilustram a própria definição do grotesco.

todos sabem que a claret não é amiga dos direitos autorais, e não é muito fã do respeito pelos leitores. isso significa que ela trabalha basicamente com obras cujos originais caíram em domínio público, mas não se importa muito com as traduções (que na grandíssima maioria dos casos não estão em domínio público - daí a mutreta de copiá-las e tascar um nome qualquer, para burlar a legislação, economizar lá seus tostões e cultivar a ignorância do leitor).

bom, mas HÁ casos também de várias traduções em domínio público: por exemplo, as traduções feitas por bocage, por machado de assis, por eça de queiroz, por manuel odorico mendes, pelos viscondes de castilho e azevedo, e por aí afora.

só que nem essas escapam: já comentei o caso da tradução do dom quixote, classicíssima, esplendorosa, dos dois viscondes supracitados, que está em domínio público faz mais de 60 anos, e que mesmo assim a claret teve a impavidez de cadastrar na fbn/isbn em nome de jean melville. só fez novo cadastro agora recentemente, com os devidos créditos aos viscondes.

a tradução que eça de queiroz fez de as minas do rei salomão, que também está em domínio público faz quase 40 anos, continua circulando até hoje, pela martin claret, em nome de jean melville e cadastrada no isbn/fbn em nome de pietro nassetti. igualmente insólito e de tremenda má-fé é o caso da tradução da ilíada, outro grande clássico das traduções em língua portuguesa, da lavra do maranhense manuel odorico mendes (1799-1864), e que circulou pela claret em nome de alex marins até data recente, quando o editor por alguma razão qualquer mandou a equipe dele devolver o crédito ao espoliado odorico.

e tem que a martin claret, através de licitações públicas, abastece escolas com seus despautérios. será que ela acha mesmo que não faz mal plagiar, e que decerto tanto faz para os aluninhos, para o ensino público (e privado), se a tradução é de A ou B? será que ela acha que os professores sabem das falcatruas, e que eles também dão de ombros?

mas me digam, sinceramente: desse jeito como é que alguém vai poder reclamar que nossos alunos têm formação fraca, insuficiente, e chegam à universidade com enormes lacunas? pois se as letras, o trabalho intelectual, a existência de um imenso mundo histórico-cultural parecem estar se tornando conceitos meio abstratos e antiquados?

e é assim que encontramos esforçada tese de pós-graduação sobre teoria e tradução da ilíada, num departamento de línguas clássicas e vernáculas de uma universidade federal brasileira, que traz pacientes cotejos entre o original em grego, as propostas de tradução do próprio autor, de um classicista britânico (a. t. murray), de haroldo de campos, de carlos alberto nunes e de alex marins!

mas como é isso? simplesmente ignora-se a existência de alguém chamado manuel odorico mendes? e nem para se dar conta de que alex marins não existe?! e que a edição da claret é um plágio da obra de tradução de odorico?! não se pesquisam os materiais de trabalho neste país?

bom, mas por que haveriam de pesquisar? pois se o que os alunos de primeiro e segundo grau lêem na escola, tanto faz se foi traduzido por eça de queiroz ou pietro nassetti, por monteiro lobato ou jean melville, por boris schnaiderman ou alex marins... e quando essa meninada cresce e vai à faculdade, como é que vai saber que existe uma bagagem, uma tradição, uma história das letras nacionais que passa pelas traduções, se não aprendeu isso na escola? e, nesse meio tempo, quantos anos esses jovens passaram lendo os "livros-clipping" da claret, entre a puberdade e a idade adulta, no segundo grau e na faculdade?

sr. claret, não tenho palavras para expressar meus sentimentos em relação à sua imensa e contínua contribuição para a desmemória e incultura nacional. cabem-lhe à luva as palavras homéricas [na tradução de odorico!] que dão título a este post.

tenho certeza de que muita gente se entristece - de minha parte quase choro.

imagem: www.afleurdepeau.com

Um comentário:

  1. Denise, Denise, você "quase chora" mas, acima de tudo, luta! E é a única saída. Toda a sua denúncia incluindo o descalabro das conseqüências educacionais de tudo isso (num país que se arrasta com 70% da população ainda de "analfabetos funcionais")é uma lição fundamental. Excelente o exemplo da tradução do Eça. Li duas ou três vezes essa deliciosa tradução de As Minas do Rei Salomão e, quando achei o livro da Claret numa livraria, fiquei perplexo. Mas que canalhice. Então é isso mesmo, é botar a boca no trombone, e até na tuba!

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