12 de abr de 2012

boccaccio, decameron I

fiquei realmente entusiasmada quando ivone benedetti me comentou que estava traduzindo o decameron de boccaccio para a l&pm. meu contentamento se deve a duas razões principais:
  • a primeira delas é que ivone benedetti é uma das grandes tradutoras que temos em atividade no brasil, em particular na delicadíssima área de humanidades e clássicos da cultura ocidental. por exemplo, se agora dispomos da edição das vidas completas de vasari, a quem podemos agradecer a indizível oportunidade de ler esse monumento do quinhentos em português?
  • a segunda razão diz respeito à trajetória da obra mor de boccaccio no brasil. é sobre ela que vou me deter mais longamente neste post. para o original, pode-se consultar aqui.

recapitulemos.

I.
em 1956, sai a primeira tradução integral do decameron no brasil, em tradução de raul de polillo, na coleção "edições de arte", pela livraria martins, em 3 volumes em formato grande (25 x 45), com ilustrações de gino boccasile (cuja trajetória no fascismo italiano e cujo papel no desenvolvimento do desenho de propaganda e erotismo na itália mereceriam um post à parte) e introdução de edoardo bizzarri, diretor do instituto de cultura italiana no brasil (aliás tradutor de, entre outros, guimarães rosa):







diga-se de passagem que essa tradução de polillo trafegará mais tarde para a tecnoprint/ ediouro, saindo em 1967 numa lamentável edição de bolso em dois volumes, quase ilegível de tão compacto e miúdo foi o tipo utilizado para a impressão, e se mantém em seu catálogo até hoje. a tradução de polillo sai também em 2000 e 2002 pela itatiaia, de belo horizonte:



II.
em 1970, a editora hemus lança uma dita tradução pretensamente feita por torrieri guimarães, também integral, numa edição em brochura um tanto tosca:




por  aqueles mistérios editoriais que seguem por meandros que apenas as próprias editoras conhecem, essa tradução dita de torrieri guimarães tem uma fortuna inaudita. recebe inúmeras e inúmeras reedições, licenciada para a abril cultural desde o mesmo ano de seu lançamento pela hemus, em 1970, até 1989.


a seguir, essa pretensa tradução passa para o círculo do livro entre 1989 e 1993, e finalmente é licenciada para a editora nova cultural, onde continua a ser reeditada até 2003.
   


III.
em 2005, a editora crisálida de belo horizonte licencia e publica a admirável tradução portuguesa de urbano tavares rodrigues, intitulada decameron: ou príncipe galeotto, originalmente publicada em 1976 pela bertrand de portugal, e da qual se pode ter uma ideia lendo um trecho aqui.




quero me concentrar na tradução de raul de polillo, de 1956, e na alegada tradução de torrieri guimarães, de 1970.

já gabriel perissé, anos atrás (em 2006, para ser mais exata), havia comentado as singulares semelhanças entre elas no artigo "boccaccio e uma centena de histórias", um de seus luminosos textos sobre traduções na revista língua portuguesa. retomo uma parte do exemplo que ele deu naquela ocasião - é o início do parágrafo final do proêmio, e comento alguns aspectos:
Adunque, acciò che in parte per me s’ammendi il peccato della fortuna, la quale dove meno era di forza, sì come noi nelle dilicate donne veggiamo, quivi più avara fu di sostegno, in soccorso e rifugio di quelle che amano, per ciò che all'altre è assai l’ago e ’1 fuso e l’arcolaio, intendo di raccontare cento novelle, o favole o parabole o istorie che dire le vogliamo, raccontate in diece giorni da una onesta brigata di sette donne e di tre giovani nel pistelenzioso tempo della passata mortalità fatta, e alcune canzonette dalle predette donne cantate al lor diletto. 
em sua tradução, polillo opera mudanças sintáticas expressivas. assim é que a longa e complexa frase de seis linhas e meia se converte em cinco frases mais curtas em ordem direta, sofre algumas eliminações e apresenta poucas e simples intercalações (e não garanto que tenha captado o conteúdo original de maneira totalmente adequada):
Portanto, a fim de que para mim se corrija o pecado da Sorte, pretendo contar cem novelas, ou fábulas, ou parábolas, ou histórias, ou o que quer que sejam. A Sorte foi menos favorável, como vemos, para as delicadas mulheres, e mais avara se lhes mostrou de amparo. Em socorro e refúgio daquelas que amam, é que escrevo (porquanto, para as outras, bastam a agulha, o fuso e a roca). O que escrevo são coisas contadas, em dez dias, por um grupo honrado de sete mulheres e de três moços, na época pestilenta da passada mortandade levada a cabo. Acrescentam-se algumas cantigas das mulheres antes referidas, cantadas a seu gosto. 
goste-se ou não, aprecie-se a simplificação ou não, a intervenção de polillo é clara e inconfundível.

assim, quando se vê o trecho correspondente na tradução dita de torrieri guimarães, evidencia-se sua absoluta identidade sintática com o texto de polillo e suas intervenções na construção das frases, além de reproduzir as mesmas supressões e algumas falhas no nível semântico:
Assim sendo, para que se corrija, para mim, o pecado da Sorte, pretendo narrar cem novelas, ou fábulas, ou parábolas, ou estórias, sejam lá o que forem. A Sorte mostrou-se menos propícia, como vemos, para as frágeis mulheres, e mais avara lhes foi de amparo. Em socorro e refúgio das que amam, é que escrevo (pois, para as demais, são suficientes a agulha, o fuso e a roca). O que escrevo são as coisas contadas, durante dez dias, por um honrado grupo de sete mulheres e três moços, na época em que a peste causava mortandade. Ajuntam-se algumas cantigas das mulheres já mencionadas, cantadas à sua vontade. 
no nível lexical, vários vocábulos na tradução dita de torrieri são sinônimos aproximados dos vocábulos empregados por polillo (contar/narrar; favorável/propícia; delicadas/frágeis; referidas/mencionadas etc.), mas as alterações em relação à frase original e o corte das orações são absolutamente idênticos - está para nascer quem possa me convencer de que dois tradutores diferentes consigam picotar um original exatamente da mesma maneira e redigir dois textos estruturalmente tão similares entre si quão distantes do original.

da mesma forma, a experientíssima tradutora ivone benedetti havia constatado soluções unânimes de ambos,    igualmente "a léguas do original" e igualmente privadas de sentido.

por essa razão, eu teria muitas ressalvas a fazer antes de considerar a dita tradução de torrieri guimarães como uma tradução de direito próprio. parece pertencer mais ao campo de um simples copidesque efetuado sobre o texto de raul de polillo, dispensando o recurso ao original.

apresentarei adiante outros exemplos de comparação entre o texto de raul de polillo e o texto de torrieri guimarães, para ilustrar melhor o problema. antes disso, porém, quero apenas concluir o trecho acima apresentado:
Nelle quali novelle piacevoli e aspri casi d’amore e altri fortunati avvenimenti si vederanno così né moderni tempi avvenuti come negli antichi [...] (no original, a frase prossegue em várias orações)
raul de polillo converteu esse trecho em três frases simples e pôs um fim abrupto ao parágrafo:
Nas mencionadas novelas, aparecerão casos de amor. Uns serão agradáveis; outros escabrosos. Registrar-se-ão outros acontecimentos felizes, ocorridos tanto nos tempos modernos, como nos antigos.
torrieri guimarães seguiu fielmente o mesmo recorte:
Nas ditas novelas surgirão casos de amor. Uns agradáveis, outros escabrosos. Serão registrados outros eventos felizes, passados tanto nos tempos atuais, como nos antigos.
acompanhe a parte II aqui.

7 comentários:

  1. Finalmente teremos uma tradução decente - no Brasil - desta obra tão importante para os estudos literários e para a história da literatura. E que bom que fizeram uma escolha editorial decente.
    Meu deus, como temos traduções repetidas ou repetidas-repetidas no Brasil. Parece até que os editores não conhecem as obras mais importantes e que clamam por uma primeira tradução no Brasil (o que não é verdade).
    Não consegui ler ainda esta obra porque justamente só tinha acesso a essa maldita tradução do ubíquo e fantasmagórico Torrieri Guimarães.
    abraços,
    J.

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    1. oi, jander, na verdade torrieri nada tinha de fantasmagórico (morreu pouco tempo atrás, acho que em 2008), mas ubíquo era mesmo...

      sim, a tradução da ivone será um superganho para todos nós - era uma vergonha mesmo a carência de uma tradução decente do decameron entre nós. o polillo era esforçado, mas deixava bastante a desejar. e a grande divulgação foi a cópia adulterada feita por torrieri, na coleção da abril cultural, então já viu...

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  2. Anônimo5.7.12

    É um absurdo. É mais cômodo ler uma tradução em inglês do início do século do que essa da Abril Cultural!!!

    Vejamos esta frase aqui [Decamerão, Sexta Jornada, Terceira Novela, segundo parágrafo]

    "Piacevoli donne, prima Pampinea e ora Filomena assai del vero toccarono della nostra poca vertú e della bellezza de' motti;"

    "Agradáveis mulheres: primeiramente Pampinéia e agora Filomena, fundamentando-se em casos tirados da vida real (???!!!!), muita coisa puseram em destaque, de nossa pouca virtude e beleza das frases"

    Só em inglês entendi o significado exato da frase:
    "Debonair my ladies, the excellency of wit, and our lack thereof, have been noted with no small truth first by Pampinea and after her by Filomena."

    De onde saiu esse "fundamentando-se em casos tirados da vida real" ??

    RMV

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    1. haha! pois é, prezado rmv, complicado, não?

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  3. Olá, Denise.
    Agradeço profundamente o seu empenho. Este blog é uma referência indispensável para quem gosta de ler.

    O DITRA foi enganado por Torrieri Guimarães: http://www.dicionariodetradutores.ufsc.br/pt/TorrieriGuimaraes.htm

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  4. obrigada, kmo! pois é, torrieri era meio sapequinha. nas entrevistas, ora dizia que suas traduções do kafka eram do inglês, ora que eram do francês. que nada, direto do espanhol. por que ocultava o fato, não sei dizer. na verdade, até poucos anos atrás, em seu perfil numa rede social, ele admitiu que só conhecia espanhol mesmo.

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  5. Denise, estou boba. A tradução que eu tenho aqui é justamente a do Torrieri Guimarães, capa azul e dourada, Editora Abril. Nunca tive em mãos nenhuma outra e nunca me passou pela cabeça que algo assim pudesse acontecer. Obrigada por ser a divulgadora desse tipo de - para dizer o mínimo - caso curioso em nossa área profissional.

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