18 de abr de 2012

em defesa de brenno II



ainda sobre o artigo "edgar poe em português: limites entre tradução e adaptação", da autoria de élida paulina ferreira e karin hallana santos silva, publicado na revista domínios de linguagem (v. 5, n. 3, 2011, disponível aqui), ter-se-ia que brenno silveira teria ferido "o princípio de fidelidade" e "quebra[do] a atmosfera de suspense e mistério" do conto "metzengerstein", de poe, devido à "supressão" de vários trechos do original em sua tradução. de mais a mais, brenno teria alterado a idade de um dos personagens de quinze para dezoito anos.

como seria muito longo transcrever todos os trechos supostamente suprimidos, reproduzo aqui apenas o breve trecho em que brenno teria alterado a idade do protagonista, citado às pp. 25-26 do referido artigo:
Frederick was, at that time, in his fifteenth year. In a city fifteen years are no long period — a child may be still a child in his third lustrum: but in a wilderness — in so magnificent a wilderness as that old principality, fifteen years have a far deeper meaning. 
Frederick contava, a essa altura, dezoito anos. Numa cidade, dezoito anos não são muito tempo; mas na solidão  – numa solidão tão magnífica como a daquele velho principado – o pêndulo vibra com um significado mais profundo.
as autoras consideram que se trata de uma opção proposital de brenno,* para adaptar o original ao contexto brasileiro, onde se atinge a maioridade aos dezoito anos, ademais suprimindo a frase "a child may be still a child in his third lustrum" para melhor adequar o texto em português a seus propósitos de "contextualização". o veredito é o seguinte:
Essa contextualização, no entanto, implica uma interpretação distinta do original no que concerne à visão que se tem da personagem, uma vez que com quinze anos ele é considerado uma criança e explicaria suas atitudes diante da perda dos pais. Sendo um adulto o fragmento perde todo o sentido em português. [p. 26; negrito meu]
ok, magister dixit. veja-se, porém, o texto original de poe em sua versão definitiva:
Frederick was, at that time, in his eighteenth year. In a city, eighteen years are no long period; but in a wilderness — in so magnificent a wilderness as that old principality, the pendulum vibrates with a deeper meaning. (1850)
tal como no caso dos supostos acréscimos e do "comentário interpretativo" que brenno silveira teria incluído em sua tradução de "berenice" - e que comentei aqui -, também aqui, nas alegadas supressões e alterações que ele teria efetuado em sua tradução de "metzengerstein", o simples fato é que, na verdade, as diferenças resultam da revisão que o próprio autor, edgar allan poe, fez em seu conto. a versão de "metzengerstein" utilizada por brenno é a definitiva, como consta na edição de 1850, ao passo que as autoras do artigo utilizaram a versão de 1840 para basear sua análise, apontar supostos acréscimos, supressões e contextualizações na tradução brasileira e tecer juízos sobre pretensas perdas de sentido em português, sobre uma alegada destruição da atmosfera de suspense resultante de tais supostas intervenções do tradutor e assim por diante.

não sei o que dizer. de certa forma, os fatos falam por si sós. mas fico com a impressão de que seria talvez desejável um pouco mais de pesquisa, de dedicação e humildade em relação ao objeto de estudo, até para conseguir entendê-lo melhor.

* e de clarice lispector também, com sua adaptação tratada em paralelo com a tradução de brenno.

aos interessados na obra de poe, recomendo o site http://www.eapoe.org; para este conto em particular e suas várias versões, http://www.eapoe.org/works/info/pt005.htm.

imagem: metzengerstein, de harry clarke, 1933

7 comentários:

  1. Beatriz Medina18.4.12

    As autoras são tradutoras? Porque lhes falta uma qualidade fundamental para o tradutor: desconfiômetro.

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  2. olá, beatriz: creio que são mais da área acadêmica (que tb exige muita dedicação à pesquisa, penso eu). nos créditos do artigo citado, consta:
    * Professora adjunta da Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus, BA.
    ° Mestranda em Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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  3. Fabrizio Lyra18.4.12

    Muito interessante os últimos artigos do blog. Estava há um tempo sem poder entrar e mais uma vez fiquei encantado com seu trabalho de pesquisa, Denise. Portanto, aproveito para sugerir a história das traduções de um autor que gosto e em relação ao qual tenho algumas dúvidas sobre a qualidade de algumas versões que tenho de suas obras. Falo de Jack London. E não tenho certeza se toda sua obra foi traduzida para o Brasil. Mais uma vez estou comprando traduções novas de editoras confiáveis de suas obras apesar de não ter conseguido informações de alguns tradutores. Recentemente, o canal TCM, por ocasião dos 50 anos do falecimento do diretor Michael Curtiz, diretor de Casablanca, exibiu sua versão de O Lobo do Mar, de 1941, que é excelente, uma obra-prima. Era o único exemplar da Martin Claret que tinha aqui em casa, pois quando o comprei, há muito tempo atrás, não sabia da falta de seriedade dessa editora e já me desfiz dele adquirindo a versão da L&PM em tradução de Pedro Gonzaga (pelos poucos dados que obtive dele na net, me parece um tradutor sério com traduções de vários autores pela L&PM que é uma editora séria). As outras traduções mais antigas que tenho são de "Martin Eden" da coleção Grandes Romancistas da Abril Cultural em tradução de Aureliano Sampaio publicada sob licença de Américo Fraga Lamares e Cia.Ltda,Porto; "A Travessia do Snark" da editora Best Seller/Círculo do Livro em tradução de Thereza Monteiro Deutsch; "Caninos Brancos" da editora Ática em tradução de Geraldo Galvão Ferraz; "O Chamado da Floresta" da Clássicos Econômicos Newton, tradução de Celia Eyer; "Memórias Alcoólicas" da Editora Paulicéia em tradução de Hélio Pólvora e uma coletânea da Ediouro "O Silêncio Branco e Outros Contos" em tradução de Olívia Krähenbühl. As outras obras que tenho são da L&PM e as futuras que virão serão sempre de editoras e tradutores cuja confiabilidade para mim é mais do que comprovada pelas pesquisas que faço hoje. E, como já te disse, sempre irei colocando ao lado das traduções antigas que tenho as versões dos novos tradutores. No entanto, fica a minha dúvida quanto a alguns dos tradutores antigos que mencionei. Alguns como Olivia e Hélio Pólvora creio fazerem parte de uma séria tradição de tradução mas quanto aos outros eu não sei. Como Jack London é um grande clássico entre os escritores universais, com várias traduções em nossa estória editorial e fartamente vendido em sebos, creio que seria interessante um artigo sobre ele. Fica a sugestão. Forte abraço, Denise.

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  4. Fabrizio Lyra19.4.12

    Aliás, outra dúvida que tenho é sobre a tradução do título de Jack London "The Call of the Wild" que durante muito tempo foi traduzido como "O Chamado da Selva", se não me engano. Porque "Wild" é selva. Depois passei a ver sendo traduzido como "O Chamado da Floresta" que é o titulo de uma das versões que tenho, me recordando ter lido que "Floresta" seria uma opção mais correta pois, realmente, ao lermos a estória, o cão protagonista Buck, inicialmente domesticado, passa a lutar pela vida em uma floresta e não em uma selva. Mas creio que, talvez, o "Wild" original seja uma referência a um reencontro do instinto primitivo do animal, seu instinto selvagem e em uma tradução e adaptação de Clarice Lispector, o livro teve o titulo de "O Chamado Selvagem". Também pela editora Dracaena, temos a tradução de José Luiz Perota com essa opção: "O Chamado Selvagem". Me lembrou a discussão de A Volta do Parafuso feita aqui. Pois, para mim, não é um chamado da "Selva" e nem da "floresta", mas um chamado "selvagem". Assim como creio ser mais correto colocar a tradução do livro de Henry James como a volta de um torniquete ou algo semelhante pois esse é o sentido correto, a meu ver. E mesmo que já esteja consagrado o titulo "A Volta do Parafuso",bastaria, pelo meu entendimento, colocar uma nota explicativa como já fizeram recentemente em novas traduções de clássicos. Ou, então, coloca-se a tradução correta do titulo e, entre parentêsis, abaixo do novo titulo, faz-se a referência a tradução consagrada (anteriormente conhecido como " A Volta do Parafuso"), para os leitores saberem de que livro se trata. Recentemente fizeram isso com uma nova tradução de "O Caso dos Dez Negrinhos" de Agatha Christie: colocaram o titulo correto "E Não Sobrou Nenhum" e, abaixo, a referência entre parentêsis "O Caso dos Dez Negrinhos". Com o passar do tempo, isso não precisará ser feito e os novos leitores terão sempre a tradução mais correta do titulo. Isso é apenas uma opinião minha de leitor com todo o respeito e admiração por sérios tradutores do passado que fizeram o seu melhor para trazer grandes obras para nós como foi o caso de Brenno Silveira.

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    1. Anônimo19.4.12

      Existem duas boas traduções do Jack London na Boitempo. "A estrada" de Luiz Bernardo Pericás e "O tacão de ferro" de Afonso Teixeira Filho.

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  5. olá, caro fabrizio: é, também pensei no jack london algum tempo atrás. há uma quantidade quase infinda de londons em português e meu tempo anda meio escasso para encará-lo comme il faut. mas sem dúvida está na minha listinha :-)

    obrigadíssima por já adiantar tanto material!

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  6. Fabrizio Lyra21.4.12

    Que bom! Fico feliz em saber que ele está em sua lista. Ficarei aguardando o momento dele se juntar a prestigiosa lista de grandes escritores que tem tão belas matérias ilustradas com o histórico de tradução de suas obras em nossa língua.

    Abraços!

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