18 de abr de 2012

em defesa de brenno I

a revista domínios de linguagem dedicou seu último número (v. 5, n. 3, 2011, disponível aqui)
à atividade de tradução. entre os artigos encontra-se "edgar poe em português: limites entre tradução e adaptação", da autoria de élida paulina ferreira e karin hallana santos silva.

sem pretender me deter nos indiscutíveis méritos do artigo, faço inicialmente uma pequena retificação: a identificação entre tales of the grotesque and arabesque e histórias extraordinárias não passa de um tolo despautério editorial perpetrado pela abril cultural em 1978, que acabou gerando alguns equívocos. sobre o histórico do uso desse título histórias extraordinárias no brasil desde 1958 e os descaminhos pelos quais enveredou a partir de 1978, pode-se consultar meu artigo, "alguns aspectos da presença de edgar allan poe no brasil", em esp. IV.3, aqui.

o reparo mais importante que tenho a fazer sobre o artigo de élida ferreira e karin silva, porém, diz respeito ao exemplo apresentado como prova dos acréscimos que brenno silveira teria feito ao texto original de edgar allan poe, no conto "berenice":
Nesse âmbito, além de omissões também  observamos acréscimos de trechos. Quando o tradutor opta por acrescentar algo à tradução que não consta no original, ele amplia de forma a trazer mais elementos interpretativos,  interferindo na recepção do texto e, eventualmente, criando uma imagem diferente desse texto na língua de chegada. (p. 26, negritos meus)
o exemplo dado como acréscimo de algo "que não consta no original" é o seguinte, às pp. 26-7 (em destaque meu):
Poe: “I held them in every light – I turned them in every attitude. I surveyed their characteristics – I dwelt upon their peculiarities – I pondered upon their conformation – I mused upon the alteration in their nature – and shuddered as I assigned to them in imagination a sensitive power, and even when unassisted by the lips, a capability of moral expression. Of Mad’selle Sallé it has been  said, ‘que tous ses pas etaient des sentiments’, and of Berenice I more seriously believed que tous ses dents etaient des idées.
Silveira: “Via-os sob todos os aspectos; revolvia-os em todos os sentidos; estudava suas características. Refletia longamente sobre suas peculiaridades. Meditava sobre sua conformação. Cogitava acerca de sua natureza. Estremecia ao atribuir-lhes, em minha imaginação, uma faculdade de sensação e de sensibilidade e, mesmo quando não ajudados pelos lábios, uma capacidade de expressão moral. De Mademoiselle Sallé foi dito – aliás muito bem  – que ‘tous ses pás étaient des sentiments’, e, de Berenice, eu acreditava ainda mais seriamente que toutes ses dents étaient des idées! Des idées!- ah! Aqui estava o pensamento idiota que me destruiu! Des idées! –Ah era por isso que eu os cobiçava tão loucamente! Sentia que somente a posse deles poderia restituir-me a paz, fazendo-me recobrar a razão.”

seria de fato surpreendente que brenno, um dos tradutores mais cuidadosos e atentos à letra e ao sentido das obras que traduzia, tivesse acrescentado à sua tradução as frases: "Des idées!- ah! Aqui estava o pensamento idiota que me destruiu! Des idées! –Ah era por isso que eu os cobiçava tão loucamente! Sentia que somente a posse deles poderia restituir-me a paz, fazendo-me recobrar a razão", apenas a título de "comentário interpretativo", como afirmam as autoras à p. 27.

na verdade, a questão é bem mais simples. trata-se apenas de duas versões diferentes de "berenice": as  autoras tomaram como referência a versão de 1835, reproduzida na edição das TGA de 1840, ao passo que brenno silveira utilizou a versão definitiva, que poe havia estabelecido para publicação desde 1845. veja-se a versão final do texto de poe (negrito meu):
I held them in every light. I turned them in every attitude. I surveyed their characteristics. I dwelt upon their peculiarities. I pondered upon their conformation. I mused upon the alteration in their nature. I shuddered as I assigned to them in imagination a sensitive and sentient power, and even when unassisted by the lips, a capability of moral expression. Of Mademoiselle Sallé it has been well said, “Que tous ses pas etaient des sentiments,” and of Berenice I more seriously believed que tous ses dents etaient des idées. Des idées! — ah here was the idiotic thought that destroyed me! Des idées! — ah therefore it was that I coveted them so madly! I felt that their possession could alone ever restore me to peace, in giving me back to reason.
em suma, o tradutor não procedeu a qualquer acréscimo ou comentário interpretativo a esta passagem: o acréscimo fora feito pelo próprio autor, edgar allan poe, na versão definitiva de "berenice", ela sim utilizada por brenno silveira em sua tradução.

aos interessados na obra de poe, recomendo o site http://www.eapoe.org; para este conto em particular e suas várias versões, http://www.eapoe.org/works/info/pt011.htm.

veja em defesa de brenno II, aqui.

12 comentários:

  1. Anônimo18.4.12

    Oi, Denise,
    Uma riqueza contar com seus comentários! Vc deixou de grifar outra pequena diferença entre as duas versões do Poe:
    1835: "...Of Mad’selle Sallé it has been said...."
    1845: "... Of Mademoiselle Sallé it has been well said..."

    Grato, abraços,
    Renato Aguiar

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  2. olá, renato, obrigada! sim, ainda tem mais essa, bem visto!

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  3. Denise,
    É muito bom contar com as suas reflexões. Aprendo muito lendo os seus comentários. Você acabou dando uma aula para nós que fazemos esse tipo de cotejo em artigos, pois muitas vezes "esquecemos" de pesquisar a versão usada pelo tradutor ou mesmo se elas existem. É um alerta importante. Ao mesmo tempo, é tão difícil encontrar fontes de pesquisa no Brasil...
    Beijos!

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  4. olá, marlova: que gentil, agradeço. de fato, às vezes é apenas um pouco de falta de hábito em pesquisar.

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  5. Que duas estudiosas não tenham aventado a hipótese de estarem diante de duas edições diferentes de uma mesma obra (coisa tão comum, aliás) é realmente espantoso. Essa hipótese parece muito mais intuitiva do que a de
    que um tradutor tivesse feito um acréscimo desse teor. Que falta de bom senso!

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  6. olá, unknown: é, digamos que foram talvez um pouco rápidas na avaliação.

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  7. enviei um e-mail à coordenação da revista, solicitando que encaminhassem esta minha contribuição às autoras do artigo. recebi agora a gentil resposta de guilherme fromm, que ficou de avisá-las. seria importante, a meu ver, uma breve retificação no próximo número da revista, ou, sendo uma publicação online, o acréscimo de uma pequena errata no próprio artigo, a fim de não se perpetuar uma atribuição a brenno silveira de algo que ele não fez.

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  8. Que ótimo, Denise.
    Puxa, a gente tem que agradecer a você pela atenção constante e atentíssima.

    Muito obrigado mesmo.

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  9. sempre gentil, nilton :-) pois é, posso abominar a volta do parafuso do brenno, mas... pera lá, né? :-))

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  10. A tradução de José Paulo Paes - atualmente pela Cia das Letras - também utiliza a última versão (como Brenno).

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  11. bem observado, jander (na verdade, é a que usam todas as traduções publicadas no brasil, desde 1903) - neste sentido, de acordo com a tese do artigo, todos os tradutores teriam acrescentado comentários interpretativos bastante semelhantes.

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  12. recebi hoje a gentil resposta da dra. élida:

    Prezada Denise Bottman,

    agradeço a contribuição ao artigo, com informação da mais alta importância para mantermos o rigor de nossas análises.

    cordialmente

    Élida Ferreira

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